Assim que avistei um taxi fiz um sinal para que parasse, dei o endereço da escola para o motorista e esperei que este me levasse até meu destino. Abri a sacola conferindo se estava tudo alí, satisfeita com minhas compras, torci para que as crianças gostassem. A viagem durou breves quinze minutos, paguei a viagem ao taxista e saí do carro. Ainda era cedo, portanto o colégio estava vazio, havia sobrado tempo para fazer o que pretendia. Alguns carros estavam parados nas vagas de professores, com inveja fiz uma anotação mental para comprar um carro assim que tivesse dinheiro suficiente.
Como qualquer um podia imaginar, a não ser eu, perdi o equilíbrio, caindo de costas para o chão, como um reflexo, fechei os olhos aguardando o impacto que não veio. Ao invés disso, senti mãos macias e quentes envolvendo meu corpo. Meu coração bateu forte contra minhas costelas, mas pelo motivo errado...
Os braços fortes me colocaram de volta ao chão, ajeitei-me e olhei envergonhada para trás, encarei a pessoa que menos queria ver: James Potter, o arrogante. Com um placa em uma mão e a outra no bolso da calça de moletom. Engoli em seco, tirando uma mecha que insistia incansavelmente de cair sobre meus olhos.
– Sabe... – Ele falou. – Você não me disse seu nome naquele dia, senhorita Evans, fui obrigado a olhar no registro. – Cruzei os braços indignada quando ele foi a minha mesa. – Deixe que eu coloco. – Ele falou segurando minha placa.
– Não precisa! – Falei tentando pegá-la de volta.
– Mas eu sou mais alto que você, Evans. – Disse enquanto erguia a placa para que eu não a alcançasse, cruzei os braços mais uma vez, irritada.
– Não devia ter mexido em minhas coisas, Potter. – Por que raios estávamos nos chamando pelo sobrenome, eu não sabia, contudo, era inevitável e parecia muito mais natural.
James Potter subiu na cadeira assassina. Emburrada, não quis nem olhar... Quando me virei para dizer poucas e boas para ele, a placa estava no lugar que eu queria, nenhum milímetro mais alto ou mais baixo do que havia imaginado antes.
– Claro que posso, senhorita Evans. – Respondeu com um sorriso maroto. – Sou um professor também.
– Não sei como contrataram você, irritante e abusado como é! – Acusei ainda irritada, porque ele me causava tanta irritação? Ele fingiu estar magoado.
– Irritante e abusado? Eu? – Colocou as mãos no peitoral forte, desceu da cadeira e passou por mim roçando de leve seu braço no meu. Mesmo que meu braço estivesse coberto com a camisa social, pareceu que todos os meus pelos se arrepiaram. – A sala ficou muito bonita. – Não respondi, ele parou já à porta para me olhar. – A propósito, boa sorte com essa turma...
Não sei ao certo se me virei para encará-lo ou então, por que o sinal acabara de tocar, ele me olhava debochado, saiu da sala piscando. O que aquele idiota queria dizer? Imediatamente comecei a suar frio, estava ficando ansiosa. Fiz uma prece rápida quando ouvi as crianças correndo e gritando nos corredores, sentei-me à mesa e aguardei.
Como uma avalanche, três dezenas de pré-adolescentes adentraram a sala, largaram seus materiais em suas carteiras e não se sentaram! Elas não se sentaram! Percebi que não seria fácil lidar com elas, e para piorar, ainda estava nervosa. Tentei me apresentar, tentava a todo custo me sobrepor ao barulho que faziam, contudo, não conseguia nem ao menos me fazer ouvir.
Era como se sentisse meu coração na mão, inocência a minha pensar que meu primeiro dia como professora seria fácil ou até mesmo perfeito. Saí da sala fechando a porta atrás de mim, me apoiando nela, fechei os olhos e respirei fundo, ainda podia escutá-los gritando, o som era ainda pior ouvindo do lado de fora.
Embora soubesse o quão errado aquilo era, me afastei de minha sala para observar a que estava ao lado. Espiei pela janela de vidro e pude ver a turma em silêncio, prestando atenção ao homem alto de cabelos castanhos brilhosos e sedosos que iam até os ombros, ele passava confiança, tinha um ar elegante e ao mesmo tempo arrogante. Vez ou outra, seus alunos riam de alguma coisa engraçada que ele dizia e eu não podia escutar. Fiquei com inveja ao olhar pela janela da minha sala, meus alunos ainda riam, gritavam e corriam, faziam uma festa particular lá dentro.
– Dia difícil? – Indagou uma voz feminina às minhas costas. Surpresa, virei-me para encarar a moça, como me movimentei rápido, dei com as minhas costas na maçanete da porta. Fiz uma careta involuntária por causa da dor que sentira, afinal doeu, e muito.
– Como sabe? – Perguntei suspirando.
Ela se aproximou e deu uma olhadela na sala. Era uma moça bonita, os cabelos castanhos iam até abaixo dos ombros, um tanto ondulados, sua feição era calma e bondosa. Se virou para me encarar, já não havia visto aqueles olhos em algum lugar? Franzi a testa diante da minha falta de memória, contudo, ela não pareceu notar isso.
– Conheço essa turma, esse é o motivo... – Respondeu sorrindo. Me lembrava alguém que eu conhecia, mas não me lembrava quem. – Você é a nova professora de História, não é?
– Sim, sou eu. – Respondi ainda tentando saber quem ela me lembrava.
– Bom, não se preocupe... Tudo bem, sei que estou ficando maluca, já que a outra professora de História se demitiu por causa dessa mesma turma... – Ela comentou pensativa. – Mas essa turma só precisa de um pulso firme. Olhá, vem cá... – Me chamou para mais perto da janela, eu a acompanhei. – Está vendo aquele lá? – Apontou para o único garoto sentando, estava de cabeça baixa e não pude deixar de sentir pena dele, parecia tão triste.
– Quem é ele? – Perguntei demonstrando minha preocupação. – O que aconteceu?
– Aquele lá é Matt Valentin. – Ela disse com tristeza. – Perdeu a mãe há quase um ano e ainda não se recuperou... É triste, sabe!
– Porque está me contando isso? – Perguntei agora mais penalizada do que antes.
– Desculpe, só gostaria que soubesse que eles são bons alunos. Matt sempre foi quieto e estudioso, ele só precisa se lembrar como é isso... Você consegue ensiná-los, é uma boa professora. – Ela sorriu simpaticamente para mim.
– Como sabe tudo isso? – Perguntei olhando novamente para Matt. Ela pareceu surpresa.
– Ah, me esqueci. Desculpe! É que eu sou secretária da diretora. – Ela falou abanando a cabeça. – Prazer, meu nome é Alice Potter. – Estendeu a mão para me cumprimentar.
Tudo estava explicado, era por isso que eu achava que a conhecia de algum lugar! Ela era irmã de Potter, os mesmos olhos castanhos esverdeados, o mesmo sorriso. Como duas pessoas podiam ser tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes? Percebendo que a mão de Alice ainda estava estendida, eu a apertei ainda espantada com a revelação.
– Você é... Você é parente de James Potter? – Não consegui refrear minha língua, Alice riu.
– Vejo que conheceu meu irmão mais velho... – Reparou Alice. – Sou apenas um ano mais nova do que ele.
– Tem o mesmo nome da diretora também. – Constatei rindo.
– Ah é, coincidência, não? Tenho que ir, senhorita Evans. – Alice falou rindo.
– Lily. – Corrigi.
– Boa sorte professora Lily. – Alice saiu de perto e entrou em outra sala no final do corredor. Respirei fundo e abri a porta de minha sala, todos ainda falavam alto, corriam de um lado para o outro. Ao ver aquela cena, me irritei de tal forma, que me ouvi gritando.
– BASTA! – Todos me olharam assustados, mas fiquei satisfeita ao ver que eles pararam. – Sentem-se em seus lugares. – Ordenei a turma que obedeceu, sentando-se em suas respectivas carteiras em silêncio. – Evitei soltar uma suspiro de alívio e encarei a todos eles, impassível. Eles me encaravam, percebi que esperavam. – Meu nome – continuei dizendo. – é Lílian Evans, mas vocês podem me chamar de senhorita Evans ou professora Lily. – Eles ainda me olhavam em silêncio, andei de um lado para o outro observando-os. – Nunca fiquei tão decepcionada em toda a minha vida como estou hoje... Achei que não fossem mais crianças. – Quando terminei de falar, uma garota de cabelos loiros ergueu o braço no ar. Acenei para ela, dando permissão para que falasse.
– Professora Lily, a senhorita disse que não somos mais crianças, mas enfeitou a sala como se achasse isso...
– Se não percebeu, senhorita? – Perguntei pelo seu nome.
– Diana Dans.
– Diana, se olhar atentamente para as placas vai perceber que tudo o que está lá são coisas sobre a História. – Apontei para os balões com alguns feitos na História. – Foi apenas um meio que encontrei para que a aula não ficasse entendiante.
A turma pareceu ter entendido, soltou um sonoro “Ah!” e eu finalmente pude começar a minha aula, fiz com que todos prestassem atenção em mim, sem exceções. Só depois de um tempo percebi que na janela da sala havia mais alguém me observando a ensinar.