Harry entrou na casa dos fundos sentindo-se como se tivesse sido atingido por um tijolo que o pegara de surpresa. Que diabos tinha acontecido? Num instante estava tudo ótimo, daí Gina começou a falar sobre sentimentos e compromisso e amor. De onde tinha saído aquilo tudo? Num momento estava pensando em como tudo era genial entre eles, e no outro ela dizia que não queria vê-lo mais.
- Que porra é essa?
Seu pai se voltou de onde estava, olhando pela janela o quintal dos Weasley do lado de fora:
- Que foi?
Harry colocou o pacote da Brookstone no sofá:
- Comprei um massageador para as suas costas.
- Obrigado. Não precisava.
- Eu quis.
James se afastou da janela:
- Por que Gina está perturbada?
Harry olhou nos olhos do pai e encolheu os ombros:
- Eu não sei.
- Eu posso ser velho, mas gagá não sou. Eu sei que vocês têm se encontrado.
- Bom, acabou - mesmo dizendo isso, ainda não conseguia que seu cérebro aceitasse a situação.
- Ela é urna moça tão doce e adorável... Odeio vê-la perturbada.
- Mentira! Ela não é doce e adorável - explodiu. - Eu sou seu filho, e pra você parece que não importa que eu esteja "perturbado”.
As sobrancelhas espessas de James abaixaram:
- Claro que importa. É que eu pensei que fosse você quem... tivesse terminado.
- Não.
- Ah.
Harry sentou-se no sofá e cobriu o rosto com as mãos, quando percebeu que tinha vontade de bater a cabeça na parede:
- Estava tudo ótimo, perfeito, e ela, como toda boa mulher, estragou tudo.
James apanhou o embrulho e sentou ao lado do filho:
- O que aconteceu?
Harry pousou as mãos sobre as coxas.
- Bem que eu queria saber. A gente estava indo bem. Daí ela viu um antigo namorado e logo depois veio me dizer que queria mais - inspirou fundo e expirou. Não acreditava em absolutamente nada do que tinha acontecido. – Ela disse que me ama.
- E o que foi que você respondeu?
- Não sei. Fiquei chocado de verdade. Isso me pegou desprevenido - voltou os olhos para o pai e percebeu que era apenas a segunda vez que conversavam sobre algo que não fosse pesca, carros e o tempo. A primeira desde que havia deixado o globo cair na casa da mãe. Franziu a testa.
- Acho que eu disse que gostava dela. - Era verdade. Gostava dela mais do que de qualquer mulher que se lembrava de ter como companhia.
- Ai - retraiu -se James.
- Qual o problema com isso? Eu gosto mesmo dela! - Gostava de tudo em Gina. Gostava de colocar a mão um pouco acima de sua cintura quando entravam em algum lugar. Gostava do cheiro do pescoço e da risada dela. Gostava até de que todos achassem que ela era uma menina doce e só ele conhecia seus pensamentos perversos. E o que ganhou por gostar dela? Um chute no tórax.
- Uma pena que sua mãe e eu não fomos exemplos muito bons de amor, casamento e relacionamentos.
- Verdade - entretanto, por mais que gostasse de jogar a culpa de sua vida em seus pais, Harry tinha quase trinta e seis anos e havia um certo quê patético em um homem daquela idade ficar culpando o pai e a mãe por seus problemas de compromisso. Problemas de compromisso? As mulheres de seu passado diziam-lhe que tinha problemas de compromisso, mas ele nunca pensou que fosse verdade. Jamais imaginara ter problemas em assumir compromissos com nada. Precisava muita dedicação e compromisso para ir atrás de histórias e publicá-las. Mas, logicamente, não era a mesma coisa. Mulheres eram muitíssimo mais complicadas de entender. - Eu achei que a fazia feliz - disse, sentindo um peso no peito. – Por que ela não podia deixar como estava? Por que as mulheres têm de mudar as coisas?
- Porque elas são mulheres. É isso o que elas fazem – James encolheu os ombros. - Eu já tenho idade e nunca as entendi.
A campainha tocou, e o joelho de James fez um estalo quando ele se ergueu.
- Volto já - disse ele - cruzou a sala de estar e abriu a porta da frente. A voz de Molly encheu toda a casa dos fundos.
- Gininha chamou um táxi e correu para a porta da frente. Aconteceu alguma coisa que eu deva saber?
James balançou a cabeça:
- Nada que eu saiba.
- Aconteceu alguma coisa entre Gina e Harry?
Harry quase esperava que o pai revelasse os detalhes sórdidos e que, mais uma vez, seria banido da Mollylândia.
-Talvez eu não saiba- afirmou James. -Mas se eu soubesse, os dois já são adultos e podem lidar com qualquer coisa.
- Eu não permito que Harry a perturbe.
- Gina lhe contou que Harry a perturbou?
- Não, mas Gina nunca me conta nada da vida dela.
- Eu também não tenho nada para dizer.
Molly suspirou:
- Bom, se você souber, me avise.
- Pode deixar.
Harry ficou parado diante do pai que entrava novamente na sala. Estava agitado, como se fosse se partir em pedaços. Tinha de sair dali. Tinha de se afastar de Gina:
- Vou pra casa.
A surpresa fez James parar o que estava fazendo:
- Agora?
- É!
- É meio tarde para ir para Seattle. Por que você não espera até amanhã de manhã?
Harry balançou a cabeça:
- Se eu ficar cansado, eu paro - entretanto, ele duvidava sinceramente que fosse se cansar. Estava bastante furioso. Havia tirado do carro uma sacola de viagem, e agora caminhava para o quarto e a apanhara. Em vinte minutos pegaria a Rodovia Interestadual I-84.
Dirigiu sem parar o caminho todo. Seis horas e meia de nada além de asfalto e raiva. Ela disse que o amava. Bom, aquilo era novidade para ele. Da última vez que tinha verificado, ela queria ser amiga. Mais especificamente em janeiro, disse-lhe que, se quisesse sair com outras mulheres, era só avisar. Parecia que estava bem sossegada quanto a isso. O engraçado é que essa idéia nem havia lhe passado pela cabeça. Nem uma vez. E agora, do nada, ela queria mais.
Ela o amava. Amor. O amor vem com amarras. Nunca é dado sem pedir nada em troca. Sempre havia coisas atadas ao amor. Compromisso. Expectativas. Mudanças.
Durante cerca de seis horas e meia seu pensamento ficou remoendo e voltando, por todos os lados, em sua cabeça. Em sua mente, os pensamentos davam piruetas e caíam, e no instante em que entrou em seu condomínio, achava-se exausto.
Caiu na cama e dormiu durante doze horas. Ao acordar, não estava mais cansado, mas ainda estava furioso.
Enfiou-se em um par de calças de moletom e malhou em uma máquina de pesos em seu quarto reserva. Descarregou parte da raiva, mas não havia exercício que pudesse tirar Gina de sua cabeça. Depois de tomar um banho, entrou no escritório e transformou seu computador em uma tentativa de preencher a mente com trabalho. Em vez disso, lembrou-se da ocasião em que ela entrava naquele aposento com a camisola azul.
Após uma hora de digitação inútil, Harry ligou para alguns amigos e encontrou-se com eles em um bar não muito longe do condomínio. Tomaram cerveja, jogaram sinuca e conversaram sobre beisebol. Embora muitas mulheres no bar flertassem com ele, Harry não estava interessado. Achava-se furioso com as mulheres em geral e, por causa de seus princípios, com as inteligentes e bonitas.
Mostrou-se uma péssima companhia, teve péssimos momentos e se comportou como um escroto completo. Sua vida estava uma merda, tudo por culpa de uma certa escritora que acreditava em amor, heróis e em felizes para sempre.
Na semana seguinte, Harry saiu muito pouco. Limitava-se a ir ao mercado comprar pão, carne para sanduíche e cerveja. Quando o pai telefonava, conversavam sobre tudo, menos sobre Gina. Graças a um acordo implícito, evitaram falar a respeito dela. Aquilo, porém, não significava que não pensasse nela sempre que acordava.
Nove dias depois de ter saltado para dentro de seu utilitário e guiado - louco e enfurecido - de Boise a Seattle, parou em sua sala de estar, olhando os navios e balsas na baía de Elliott. Não gostava de mudanças pessoais. Principalmente quando não via de onde chegavam e não tinha como reagir a elas. As mudanças o paralisavam. Significavam começar de novo. Pensou em Gina e na noite em que a encontrou no balcão daquele bar em uma saia balonê cor-de-rosa. A noite em que a pusera para dormir e na manhã em que sua vida mudara. Na hora, não soube. Entretanto, a escritora tinha entrado em sua vida e a modificado para sempre.
Gostasse ou não, quisesse ou não, sua vida havia mudado. Ele havia mudado. Sentia aquilo como um vazio no peito e em toda a fome no estômago, que nada tinha a ver com apetite. Sentia no modo como observava a cidade que adorava, embora quisesse estar em outro lugar.
Amava Seattle. Tirando os primeiros anos de sua vida, sempre vivera em Washington. Sua mãe havia sido enterrada aqui. Adorava a água, o drama e o pulsar da cidade. Adorava assistir a um jogo do Mariners ou do Seahawks se estivesse a fim, e adorava a paisagem do Monte Rainier da janela de seu apartamento. Tinha trabalhado como um filho da mãe para conseguir aquela vista.
Tinha amigos em Washington. Bons amigos que fizera ao longo de uma vida. Era lá que morava, mas não se sentia mais em casa. Seu lugar era a seiscentos e quarenta quilômetros dali, com a mulher que o amava. A mulher com quem gostava de passar todo o tempo livre, a pessoa com quem mais gostava de conversar.
Harry baixou os olhos para a rua abaixo. O que sentia por Gina era mais do que "gostar". Não havia por que lutar contra aquilo. Era inútil, e ele admitia a verdade de algo quando esse atingia-lhe a consciência um número suficiente de vezes. Adorava o modo como ela ria e a cor com que pintava as unhas dos pés. Não adorava aquelas fitinhas de menininha que ela colocava por toda a casa, mas adorava o jeitinho feminino dela. Ele a amava, e ela o amava. Pela primeira vez em sua vida, não sentia que o amor de uma mulher fosse algo de que ele precisava fugir.
Virou-se e comprimiu as costas contra a janela. Ele a amava. Ele a amava e a havia magoado. Lembrava-se da expressão no rosto dela quando lhe dera as costas e não achava que bastava apanhar o telefone e dizer: "Ei, Gina andei pensando, e amo você".
Em vez disso, pegou o aparelho e ligou para o pai. Não que James fosse especialista em mulheres e amor, mas talvez soubesse o que fazer.
Gina vasculhava o sótão da mãe atrás de uma abóbada de cama. Havia corrido a cidade inteira em busca de um que gostasse, sem encontrar. Deveria haver algo adequado nas pilhas de roupas de cama de linho no sótão dos Weasley.
Um dia depois de ter dito a Harry que não podia mais vê-lo, tirou as fitinhas de sua cama Battenberg. Odiava-as, pois faziam com que se lembrasse dele. Não conseguia olhar aquilo sempre que ia para a cama.
Já fazia três semanas desde o dia em que encontrara Draco por acaso no shopping e percebera que, mais uma vez estava amando um homem incapaz de retribuir esse amor. E, daquela vez, nem poderia afirmar que havia sido enganada. Harry jamais a amara, e ela soube disso conforme foram se envolvendo. Só não sabia que ia acabar se apaixonando.
Depois do vexame no quintal de sua mãe, tinha ido para casa e se arrastado até a cama. Passou três dias à base de doses excessivas de filmes de John Hughes e da produtora Merchant Ivory até que as amigas resolveram intervir.
A boa notícia é que Gina não foi atrás de uma garrafa nem de um corpo quente para se sentir melhor. Nem ao menos teve vontade. A má notícia é que não achava que ia superar a decepção de amar Harry Potter. O sentimento era profundo. Estava muito emaranhado em volta de seu coração.
Abriu um armário antigo e procurou os lençóis de linho de seus ancestrais. Todos eram cheios de fitas e femininos demais. Após uma hora de buscas em que não encontrou nada, abandonou o local e desceu pela velha escada curva.
Uma voz vinda da cozinha a deteve nos últimos degraus:
- Onde está Gina?
- Harry? Quando você chegou? - perguntava Molly.
- O carro dela está lá fora. Onde ela está?
- Nossa Senhora! No sótão, procurando uma fita.
Passos pesados sacudiram as telhas e o chão de madeira maciça e a mão de Gina tremeu. Disseram-lhe que ele não vinha. Assim que ela se voltou, Harry caminhou pela entrada e ela apertou as mãos no corrimão. Novamente aquela sensação de que peito ia explodir, tão forte quanto a de morrer por dentro, naquele dia na Brookstone.
Harry cruzou a sala de espera como se perseguido pelo demônio e, antes que pudesse pensar em se mexer, estava diante dela, o olhar verde intenso fitando-lhe o rosto. Estava muito próximo, o cardigan preto aberto tocando a parte da frente da camisa azul.
- Gina - disse. Uma palavra que soava muito como um carinho. Então ele baixou a boca e beijou-a.
Por muitos segundos de pasmo ela deixou que a beijasse. Permitiu que sua alma se lembrasse. Que a lembrança se derramasse por ela e aquecesse a solidão que apenas ele poderia tocar. O coração de Gina parecia chorar e sorrir ao mesmo tempo. Antes, porém, que Harry pudesse tirar-lhe qualquer coisa a mais, ela ergueu as mãos e o empurrou.
- Você está ótima para mim - sussurrou, enquanto o olhar corria-lhe pelo rosto. - Pela primeira vez em semanas eu me sinto vivo.
E a estava matando. Tudo aquilo outra vez. Gina evitou fitá-lo antes que seu amor por ele a arrebatasse e ela começasse a chorar:
- O que você está fazendo? - indagou.
- Da última vez que a vi, disse que, se você fosse embora, eu não iria atrás de você. Mas aqui estou eu - com seus dedos quentes, trouxe o olhar dela de volta ao dele. – Daqui a dois meses eu completo trinta e seis anos, e pela primeira vez na vida estou amando. E como você é a mulher que eu amo, achei que você deveria saber.
Tudo dentro dela parou:
-O quê?
- Eu amo você.
Gina balançou a cabeça. Ele devia estar querendo instigá-la.
- É verdade. Amor daquele tipo que faz o coração bater mais forte, que tira o fôlego e nos deixa malucos por uma única mulher.
Ela não confiava nele:
- Talvez você só pense que me ama e vai superar isso.
Era a vez dele de balançar a cabeça:
- Passei a vida esperando sentir algo maior e mais forte do que eu mesmo. Algo que eu não pudesse lutar ou fugir ou controlar. Esperei minha vida toda ... - a voz saiu tremida, e ele parou para respirar. - Esperei minha vida inteira por você, Gina. Eu amo você, e não me diga que eu não a amo.
Gina respondeu piscando. Seus olhos, de súbito, começaram a arder. Era a coisa mais linda que alguém já lhe havia dito. Melhor do que ela mesma poderia criar.
- É melhor que você não esteja tentando me enganar.
- Sem truques. Eu amo você, Gina. Eu amo você e quero passar minha vida com você. Até assisti à A garota de rosa-shocking.
- Sério?
- Sério. Odiei cada minuto, mas eu amo você, e, se isso a faz feliz, vou assistir a dez filmes água-com-açúcar com você.
- Você não precisa assistir a dez filmes água-com-açúcar comigo.
- Graças a Deus - ergueu a outra mão e acariciou o cabelo atrás da orelha dela. - Eu trouxe uma coisa, só que está lá fora, no carro. Acho que Molly não vai deixar entrar com ele.
- Como é?
- Você disse que queria um marido, filhos e um cachorro. Eu trouxe um Yorkshire Terrier que enjoou bastante até chegar aqui e estou louco de vontade de tratar do assunto dos filhos.
Novamente ele olhara dentro de seu coração solitário e lhe dera o que queria. Além de um cachorro.
- Eu não tenho nada para lhe dar.
- Eu só quero você. Pela primeira vez em muito tempo, eu sinto que estou exatamente onde deveria estar.
As lágrimas que ela nem ao menos tentava esconder derramaram-se por seus cílios. Ergueu-se nas pontas dos pés e envolveu o pescoço dele com os braços:
- Eu amo você.
- Não chore. Odeio choro.
- Eu sei. E fazer compras. E pedir informações sobre trajetos.
Passou os braços ao redor dela e apertou-a com força:
- Vendi meu apartamento e não tenho onde morar. Por isso demorei tanto para vir para cá assim que decidi onde precisava estar.
- Você não tem casa?
- Não. Minha casa é com você - beijou-lhe a têmpora.
- Nunca entendi quando minha mãe costumava dizer como um lugar dava uma sensação tão diferente de outros. Agora, sei. Meu lar é com você, e não quero ir embora.
- Tudo bem.
- Gina - Harry sacou algo do bolso e estendeu um anel. Um diamante de quatro quilates, cortado em brilhante.
- Meu Deus! - engasgou, olhando para o anel e para o rosto dele.
- Case comigo. Por favor.
A emoção travou-lhe a garganta, e ela acenou com a cabeça. Embora fosse uma escritora de romances, não conseguia pensar em nada romântico a dizer, além de:
- Eu te amo.
- Isso foi um "sim"?
- Sim!
Harry soltou as emoções reprimidas, como se existisse ainda uma dúvida:
- Mais uma coisa - disse, colocando o anel no dedo dela - Eu tenho um motivo futuro para ter comprado o cachorro.
O anel era a coisa mais linda que Gina tinha visto. Olhou o rosto de Harry e corrigiu: a segunda coisa mais linda:
- Lógico que você tem - enxugou abaixo dos olhos - O que é?
- Troco o cachorro fresco e afeminado - disse, os cantos da boca erguendo-se com humor - por tirar as fitas frescas e afeminadas em cima da cama.
Como ela já havia se livrado dos enfeites, era um compromisso fácil:
- Tudo por você.
Ergueu-se na ponta dos pés e beijou Harry Potter. Ele era seu amante, amigo e herói romântico, comprovando que, às vezes, o pior pesadelo de uma garota se transformava em seu "felizes para sempre”.
n/a: espero que Harry tenha se redimido com vocês...