Três dias após o aniversário de Gina, Harry telefonou, e ela descobriu que não tinha tanta sorte assim. Nem um pouco. Se tivesse, a visão do nome dele no identificador de chamadas não lhe faria o peito doer.
- Alô? - respondeu ela, empenhando-se para parecer calma e um pouco indiferente.
- O que você está vestindo?
Olhou para seu robe e os pés descalços, enquanto escovava o cabelo despenteado:
- Onde você está?
- Em sua varanda.
Sua mão se deteve ao mesmo tempo em que o sangue fluiu para a cabeça:
- Você está do lado de fora da minha casa?
- Isso.
A escova voou para cima da cama e ela caminhou do quarto até a entrada. Abriu a porta, e lá estava ele, lindo, usando uma camiseta branca por baixo de um casaco de botões de lã verde-escuro. Linhas de sorriso marcaram os cantos de seus olhos verdes. Harry colocou o fone no cinto de couro marrom preso em volta dos quadris de seu jeans desbotado. Ai, meu Deus, ela estava frita.
- Oi, Gina - o som daquela voz enviava formigamentos de calor por sua espinha e dava-lhe arrepios nos antebraços.
- O que você está fazendo? - perguntou pelo receiver. - Você não me disse que vinha visitar James.
- James não sabe que estou aqui - tirou o fone das mãos dela, apertou o botão de desliga e devolveu. - Peguei um avião para ver você.
Gina olhou atrás dele, para um Mustang estacionado diante da garagem. As placas eram de ldaho.
- Me ver? - seu coração queria entender aquilo como um sinal de que ele se importava com ela mais do que somente como uma amiga com vantagens, mas a cabeça não deixava.
- É. Eu vim para passar a noite. A noite inteira. Como quando você vinha e passava comigo lá em Seattle. Não quero dar uma escapada até a casa de James como se eu fosse um moleque. Como se a gente estivesse fazendo algo de errado.
Deveria mandá-lo embora antes que ficasse ainda mais apaixonada. O problema é que já era tarde demais. Abriu bem a porta e deixou-o entrar:
- Quer dormir aqui?
- Mais cedo ou mais tarde - seguiu-a casa adentro e esperou até que ela fechasse a porta antes de abraçá-la.
- Tem lacinhos na minha cama, lembra? Pode acontecer algo ruim se você dormir em uma cama muito feminina.
Ele a trouxe para perto do peito:
- Eu me arrisco.
- Obrigada pelo presente de aniversário sorriu e pousou as mãos sobre os ombros dele. - Você foi muito criativo de enviá-lo até aqui no meu aniversário.
- Você gostou?
- Adorei.
- Mostra pra mim - disse, enquanto avançava e beijava-lhe a boca. Tocava-a como sempre fazia, só que desta vez ela respondia de um jeito diferente. Não importava quanto tentasse esconder, estava amando Harry. O coração estava envolvido, e quando ela o levou para o quarto foi muito mais do que uma transa. Mais do que prazer e satisfação. Pela primeira vez, ela realmente fizera amor com ele. O calor da emoção espalhava-se por seu corpo de dentro para fora. Do centro do peito em direção às pontas dos dedos das mãos e dos pés. Quando terminaram, ela o puxou para perto e beijou-lhe o ombro nu.
- Você devia estar mesmo com saudade de mim - disse Harry, perto da orelha dela. Havia percebido a diferença no sexo, mas interpretou errado o que havia por trás daquilo.
Harry ficou com ela por dois dias e conversou sobre como era crescer com a mãe e sua culpa perante o relacionamento com o pai. Dissera-lhe como ele, quando criança, ficava irritado quando era mandando embora. Gina desconfiava que aquilo era mais do que irritação. Apesar de ele não admitir, ela estava certa de que ele também estava magoado e confuso.
- Aprendi minha lição. Foi a última vez que eu contei a uma garota de onde vêm os bebês - disse ele.
- Que bom. Fiquei com pavor de sexo durante anos. Tudo sua culpa.
Com ar inocente, ele colocou a mão sobre o peito:
- Minha?
- Sim. Você disse que os espermatozóides tinham o mesmo tamanho dos girinos.
Ele caiu na gargalhada:
- Eu não lembro disso, mas provavelmente eu disse.
- Disse.
Conversaram sobre seus trabalhos literários, e ele contou que estava trabalhando duro em seu livro. Falou das reviravoltas no roteiro e revelou que achava estar quase terminando. Confessou também que lera todos os livros dela. Gina ficou tão chocada que não sabia o que dizer.
- Se não colocassem caras seminus nas capas, acho que mais homens iam ler - contou enquanto jantavam na casa dela.
Ela não achou que fosse possível, mas naquela noite, olhando-o do outro lado da mesa comendo vitela ao molho de salva, sentiu que o amava ainda mais.
- Talvez você fique surpreso em saber que eu também tenho homens entre meus leitores. Eles me escrevem o tempo todo - sorriu. - Claro, todos são homens presos por crimes que não cometeram.
Harry deteve-se e encarou-a:
- Espero que você não responda para eles.
- Não - talvez ele não a amasse agora, mas estava ali, e quem sabe como se sentiria na semana ou no mês seguinte.
Quando Harry voltou a Boise de carro, estava voltando para casa de uma viagem para esquiar em Park City, Utah. Ali, encontrou-se com alguns amigos jornalistas. A visita mais recente havia sido há três semanas, e ele planejava ficar vários dias com James e pescar na represa Strike, onde, segundo o pai contara, as pessoas estavam pegando peixes arco-íris de cinqüenta e seis centímetros. No entanto, poucas horas depois de sua chegada, ligou para Gina e apanhou-a em casa. Odiava fazer compras mais do que qualquer homem que conhecia, e ele a convenceu a ir ao shopping com ele.
As costas de James tinham voltado a "agir”, e os dois foram atrás de um massageador. Harry esperava que o pai se sentisse bem o bastante para poder ir guiando até a represa pela manhã.
Por causa da mudança nos planos, Harry decidiu relaxar com Gina aquela tarde e assistir a uns filmes "de porrada", comer "pipoca salgada" e "tomar cerveja" Ao menos concordaram com a pipoca. Gina era uma pessoa mais propensa a vinho e preferia filmes mais para mulheres.
Ele, porém, prometeu que ela escolheria o filme da próxima vez.
- Qual era o seu filme infantil preferido? – perguntou Gina, enquanto caminhavam pela Brookstone.
Sem hesitar, respondeu:
- A fantástica fábrica de chocolates.
- A fantástica fábrica de chocolates? - Gina se deteve perto de um mostruário de travesseiros ergométricos. – Eu odiava esse filme.
Ele a olhou por cima do ombro:
- Como é que uma criança pode odiar esse filme?
Caminhavam mais adiante pela loja, passaram por um casal com gêmeos em um carrinho de bebê duplo, e Gina indagou:
- Você nunca se perguntou por que Vovô Joe não saiu daquela cama até que Willie chegasse em casa com o bilhete dourado?
-Não.
Pararam perto do mostruário de massageadores.
- Durante anos ele ficou lá, deitado, com os outros avós, enquanto a mãe de Charlie trabalhava para sustentar a todos - pegou um massageador do tamanho de uma caneta e devolveu-o ao lugar. - Aí Charlie conseguiu o bilhete e, do nada, vovô Joe fica curado como por mágica, começa a dançar pelo quarto e consegue ir para a fábrica de Wonka todo ativo e cheio de energia.
- Mais uma vez, você pensa demais nas coisas – disse Harry, escolhendo um massageador com uma ponta azul arredondada. - Como a maioria dos garotos, eu só pensava em todos aqueles doces - sorriu e mostrou o massageador.
- O que isso te lembra?
- Sei lá - ela mentiu e tirou-o das mãos dele. Trocou por um com uma ponta triangular e grande, que não podia ser confundido com nada.
- Qual era o seu filme favorito? - perguntou ele, enquanto ligava o botão e esfregava o aparelho nas costas da jaqueta de poliéster cor-de-rosa dela.
- Ah, - Gina tremeu e sua voz vibrava um pouco enquanto respondia - Um monte. Quando eu era pequena, meu favorito era Cinderela. Naquela versão antiga para tevê, de 1957. Quando eu estava no ginásio, adorava A garota de rosa shocking e Gatinhas e gatões.
- A garota de rosa shocking? Não é um daqueles filmes com Molly Ringwald?
- Não me diga que você nunca assistiu.
- Lógico que não - pressionou o botão de desligar e apanhou um cinto massageador. - Sou homem. Homem não assiste a filme assim, a menos que tenha algo que nos atraia.
- Sexo.
Ele sorriu.
- No mínimo um rala-e-rola.
Gina riu e se voltou para uma cadeira de massagens. Sua risada morreu e o choque ergueu-lhe as sobrancelhas no instante em que se viu frente a frente com o passado.
- Oi, Gina.
- Draco - estava tão bonito e bem vestido quanto se lembrava. A seu lado, uma loira da mesma altura dele.
- Como vai? - perguntou.
- Bem - e estava. Ao vê-lo de novo, não sentiu nada. Nem o coração acelerando, nem um ódio assassino.
- Esta é minha noiva, Astória. Astória, Gina.
Noiva? Rápido, hein? Gina voltou a atenção para a mulher:
- Prazer em conhecê-la, Astória - estendeu a mão à outra, que, sem dúvida, acreditava que Draco amava-a como um homem poderia amar uma mulher. Só que ele não era capaz disso.
- Igualmente - os dedos mal encostaram nos de Gina antes de ela deixar a mão cair. Aquela mulher estava em uma negação tão profunda quanto ela esteve. Querendo tanto acreditar em algo e recusando-se a ver a realidade que a encarava. Imaginou que a coisa certa a fazer seria contar a Astória sobre a vida secreta do noivo. Contudo, abrir os olhos de uma pessoa iludida não era função dela.
Antes que Gina pudesse apresentar Harry, este avançou um passo e ofereceu a mão a Draco:
- Meu nome é Harry Potter. Sou amigo de Gina.
Amigo de Gina. Ela olhou-o por cima do ombro direito, para a realidade que a encarava. Depois de tantos meses, ela não passava de uma amiga para ele. Seu peito implodiu bem ali na Brookstone, perto de todos aqueles massageadores de cabeça arredondada, para que todos vissem: Draco, Astória e a mulher com os gêmeos. Nada diferente daquele dia em que encontrou Draco no armário, literal e figuradamente. Pensou que tivesse mudado. Amadurecido. Aprendido. Ainda continuava iludida. Teve vontade de sair de lá rastejando e se encolher toda.
Em meio a uma névoa, conversou de forma superficial por vários minutos a mais antes que Draco e Astória fossem embora. Ficou ao lado de Harry enquanto este comprava o cinto de massagens para James. Ele não viu que ela estava se despedaçando. Ao deixarem o shopping, passando por todas aquelas pessoas, ninguém parecia notar que ela morria por dentro.
Ao voltar para casa de carro, ele falou sobre sua viagem para praticar esqui e mencionou que estava pensando em levar James para pescarem salmão no Alasca. Foi só quando chegaram à garagem da mãe dela que Gina, enfim, olhou para o homem que não era capaz de amá-la mais do que Draco.
- Qual é o problema? - perguntou Harry, parando diante da garagem. - Você ficou calada desde que encontramos seu ex-namorado. Por falar nisso, você fica muito melhor sem ele.
Gina olhou nos olhos de Harry. Dentro dos olhos de um homem que amava de todo coração. Os olhos de um homem que não a amava. Não queria chorar, não agora, mas podia sentir as lágrimas queimando dentro de seu peito:
- Nós somos amigos?
- Lógico.
- Só isso?
Harry desligou o carro:
- Não. Não é só isso. Eu gosto de você e a gente se dá muito, muito bem. O sexo entre a gente é ótimo. Aquilo não era amor.
- Você gosta de mim?
Ele encolheu os ombros e colocou as chaves no bolso da jaqueta de poliéster preta.
- Claro que eu gosto de você.
- É isso?
Harry deve ter começado a perceber o rumo que aquele diálogo ia tomar. O cansaço entrou-lhe nos olhos verdes enquanto ele a fitava:
- Que mais você quer?
Que aquilo que ele perguntou só comprovava a horrível verdade:
- Nada que você possa me dar - respondeu e abriu a porta do carro. Fechou atrás de si e partiu pelo jardim rumo aos fundos da casa da mãe. Se pudesse ficar em paz, trancada consigo mesma, antes de se desmanchar em lágrimas.
Chegou até o jardim inativo antes que Harry a agarrasse pelo braço.
- Qual é o seu problema? - ele perguntou, enquanto a girava para encará-lo. - Ficou toda nervosinha porque seu ex-namorado está comprometido?
- Não tem nada que ver com Draco - uma brisa gelada sacudiu seu cabelo, e ela o ajeitou atrás da orelha. – Embora ver ele de novo tenha me obrigado a ver como as coisas são entre nós. Como sempre elas foram.
- Que diabos você está falando?
- Eu não quero ser sua amiga. Isso não é mais o bastante pra mim.
Harry recuou e largou o braço.
- Isso foi muito de repente pra mim.
- Eu quero mais.
Os olhos dele estreitaram-se:
- Não ...
- Não o quê? É pra eu não querer mais?
- Não estrague tudo falando sobre relacionamentos e compromissos.
Não apenas seu coração estava arrasado, agora ele a estava deixando mesmo furiosa. Tão furiosa que Gina sentiu um impulso de fechar o punho e socá-lo.
- O que tem de errado em querer um relacionamento e um compromisso? É saudável. Natural. Normal.
Ele balançou a cabeça:
- Não. É bobagem. Uma bobagem sem sentido e sem objetivo. Mais cedo ou mais tarde alguém fica p. da vida e as brigas começam - esfregou o rosto dela com as mãos. - Gina, a gente se dá tão bem. Eu gosto de estar com você. Vamos deixar assim.
- Eu não consigo.
Os olhos dele ficaram ainda mais apertados:
- Por que não, porra?
- Porque você gosta de mim e eu amo você - a garganta doeu com a emoção reprimida. - Isso não é mais uma amizade. Não para mim, e você só gostar de mim não é mais o bastante. Houve uma época da minha vida em que eu ficaria quieta, esperando por mais. Mas não agora. Eu mereço um homem que me ame e queira ter um relacionamento. Um homem que me ame o suficiente para passar o resto da vida dele comigo. Não preciso dessas coisas para sobreviver, mas quero ter elas. Um marido e filhos e... - engoliu em seco - e um cachorro.
Ele começou a falar sem parar e cruzou os braços sobre o tórax.
- Por que as mulheres ficam forçando a barra e fazendo exigências? Vocês não podem desencanar dessa conversa de relacionamentos?
Deus do céu, era o que ela desconfiava. Cometera o mesmo erro das outras mulheres na vida de Harry. Apaixonara-se por ele:
- Eu tenho trinta e quatro anos. Meus dias de desencanada acabaram. Quero um homem que acorde de manhã querendo estar comigo. Não quero ficar com um cara que brota na minha vida só quando está a fim de uma transa.
- É mais do que só uma transa - apontou para ela enquanto uma brisa gelada brincava no zíper aberto de sua jaqueta. - E foi você quem disse que a gente era apenas amigos com vantagens. Agora você quer mudar tudo. Por que você não pode deixar as coisas em paz?
- Porque eu amo você, e isso muda tudo.
- Ah, ama ... - zombou. - O que você espera de mim? Que eu mude o que eu sou e adapte a minha vida à sua porque você, de repente, acha que me ama?
- Não. Eu sei que você não pode mudar o que você é, e é por causa disso que você é a última pessoa que eu queria ter amado. Só que eu pensei que poderia lidar com esse negócio de apenas amigos. Eu achei que isso só ia me bastar, mas não. - sua voz saía tremida enquanto observava o rosto fechado e irritado do homem que amava. - Eu não posso mais ficar com você, Harry.
Ele estendeu a mão como se quisesse chegar até Gina, mas deixou-a cair de lado.
- Não faz isso, Gina. Se você for embora, eu não vou procurar você.
Sim, ela sabia disso, e a dor desse conhecimento era demais para ela:
- Eu amo você, mas ficar ao seu lado me faz sofrer demais. Não vou esperar que seus sentimentos mudem. Se você não me ama agora, não vai me amar nunca.
Ele deu uma risada amarga e sombria, sem um pingo de humor:
- Você agora consegue ver o futuro?
- Harry, você tem trinta e cinco anos e jamais teve um relacionamento sério. Não preciso de poderes premonitórios para saber que eu sou uma em uma fila imensa de mulheres na sua vida. Não preciso ter poderes premonitórios para saber que você nunca amou mesmo. Aquele tipo de amor que faz o coração bater mais forte, que tira o fôlego, aquela coisa maluca que se sente por alguém.
Harry franziu a testa e inclinou a cabeça para trás, olhando Gina:
- Você está começando a acreditar nos seus próprios livros. Você tem uma visão bem distorcida dos homens.
Os olhos dela se encheram de lágrimas de dor:
- Minha visão sobre você é bem nítida. Não posso mais ter um compromisso com um homem que não pode ter compromissos com onde vai estar amanhã, que dirá ficar comigo. Eu quero mais - Gina virou -se e afastou enquanto ainda conseguia andar.
- Boa sorte com isso - respondeu, pisoteando no coração já esmagado dela.
n/a: penúltimo capítulo... Bjus, até logo!!!