O despertador tocou pela terceira vez aquela manhã, para meu desespero.
- Hora de levantar, mamãe dorminhoca – Harry brincou, beijando-me a testa.
Abri os olhos e fechei-os novamente, suspirando profundamente.
- Não é justo – eu disse. – Sou eu quem levanta a noite toda para ir ao banheiro.
- E me acorda todas as vezes – ele seguiu em tom brincalhão.
- Se preferir, me mudo para o quarto ao lado – rebati. – Até porque você só acorda porque faz de mim o travesseiro do abraço.
- Hormônios, por que tão injustos com este pobre homem? – Harry fez, os olhos fixos no teto.
- Idiota – joguei um travesseiro nele e me levantei, rumando para o banheiro ao som dos risos dele.
Acordáramos para o dia do julgamento de Henry Mitchell, marcado para as 10h no Velho Décimo Tribunal.
Aprontamos-nos rapidamente, fizemos o desjejum e partimos para o Ministério da Magia. Seria um dia e tanto, não porque Henry Mitchell finalmente seria julgado, pois já sabíamos qual seria a sentença: em qualquer das hipóteses, ele passaria sua vida inteira na prisão. Seria um dia e tanto porque logo eu saberia o sexo de meu bebê.
Quando chegamos ao Ministério da Magia, não seguimos direto para o Tribunal. Harry, aparentemente, tinha uma reunião no Quartel General de Aurores e eu fora abordada por Seamus Slyther antes mesmo de alcançar a minha sala. Aparentemente, Elizabeth Mitchell queria conversar comigo antes do julgamento.
- Eu pensei que ela morasse em Oxford – Harry comentou enquanto atravessávamos o corredor.
- Eu pensei que ela morasse em Oxford porque ela não queria saber do irmão – eu murmurei. Quando alcançamos a minha sala, vislumbrei a jovem loira a três ou quatro portas de distância. Estava conversando com Ron. Quando ele me viu, acenou brevemente com a cabeça, apontando em minha direção enquanto passava a fitá-la. Com a mão direita, apertou levemente o ombro dela, depois deixou a mão cair, batendo na própria perna e, então, enfiou-a no bolso. – Vai ver o interesse dela aqui não é exatamente o irmão... – Apontei os dois para Harry ao mesmo tempo em que Elizabeth virava-se para nós.
- Não me obrigue a ter ciúmes de seus ciúmes – Harry sibilou.
- Apenas fiz uma observação, Harry – eu disse. – Eu estou muito bem servida.
- Bom saber. – Ele piscou e beijou a minha bochecha antes de se afastar. – Nos vemos no Tribunal.
- Guardarei o seu assento. – Sorri e o observei se afastar, cumprimentando Elizabeth quando passou por ela e reunindo-se a Ron.
- Bom dia, Srta. Granger – ela me cumprimentou assim que me alcançou.
- Bom dia, Srta. Mitchell. Meu assistente disse que queria me falar. Algo em que eu possa ajudar? – questionei.
- Na verdade, eu gostaria de saber quais as expectativas para este julgamento – Elizabeth disse, aparentando desconforto. – Você sabe, ele é meu irmão, mas ele...
- Matou seus pais. Eu sei – eu completei e afaguei o ombro dela, passando a mão pelas costas dela de modo a passar algum conforto. – Vamos, me acompanhe até a minha sala e poderemos conversar. – Abri a porta e esperei que ela passasse para, então, acompanhá-la. Tirei o sobretudo enquanto indicava a cadeira defronte à mesa para que ela sentasse. – Eu fui visitar o seu irmão ontem.
- Desculpe, eu não entendo. Pensei que você o quisesse exatamente onde está – Elizabeth fez.
- E eu quero. Quero que ele pague por cada vítima que fez, viva ou morta – garanti. – Mas eu estava com algumas coisas engasgadas desde que ele foi preso e tive que dizer.
- Ele não pode sair – a jovem Mitchell disse, suas feições realmente apavoradas com a possibilidade.
- Eu sei, Elizabeth. O problema de seu irmão é com a sociedade. Não importa se ele pagará a dívida com ela ou não, ele sempre vai atacar, principalmente depois de passar anos longe da civilização – eu disse, recostando-me à mesa, a menos de um metro da loira. – Ele vai sempre culpar a sociedade pela exclusão dele, agora mais do que nunca. E eu farei o que estiver ao meu alcance para proteger tanto a nós quanto a ele. Apesar de tudo, à sua maneira, ele também é uma vítima.
Ela me encarou em silêncio, por um instante, mas logo baixou os olhos e fitou as mãos, repousadas sobre seu colo.
- Eu sei que você tem medo dele. Você e Harry não teriam ido para tão longe se não o temessem – recomecei. – Você questionou quais as expectativas para o julgamento. Pois bem, eu posso falar por mim e pelo que eu acho que ele merece, e posso falar pelo júri e pelo que deve ser aplicado a ele.
- E o que você acha?
- Henry destruiu muitas vidas e muitas famílias, Elizabeth. A começar pela própria. O que eu acho? Eu também sou uma vítima dele. Ele tentou seqüestrar o meu filho, depois seqüestrou a mim... A única coisa que eu pensava enquanto estava lá era em voltar para a minha família e ter essa criança que eu espero – eu respondi e o olhar que recebi em troca foi de choque. – Sim, eu estou grávida. E se eu puser tudo isso em uma balança, principalmente levando em consideração tudo o que eu disse a ele ontem...
- O que você disse a ele?
- Eu tenho dois amigos que poderiam estar no lugar dele hoje. Dois amigos que viviam à sombra dos outros, que sofriam com ataques de garotos de outras Casas, que tinham dificuldades na época da escola, mas eles se tornaram grandes homens. Formaram suas famílias, conquistaram o respeito de todos, venceram e hoje são reconhecidos no que fazem – contei. – Seu irmão... Ele escolheu trilhar esse caminho. Se quer a minha opinião pessoal, bem, por seu irmão eu gostaria que os dementadores ainda cuidassem dos presos de Azkaban.
Elizabeth estremeceu.
- E-eu entendo.
- Sobre o que deve acontecer... Ele usou de Maldições Imperdoáveis e, desde sempre, elas são passaporte para prisão perpétua em Azkaban. Ele vai ter a sua varinha quebrada e ficará proibido de adquirir uma nova se conseguir sair de Azkaban. Mas... mesmo que seu irmão não tivesse usado de Maldições Imperdoáveis, eu temeria a saída dele, pois não acredito na ressocialização de alguém como ele. – Uma pausa. – Seu irmão é um sociopata, Elizabeth. Ele jamais seria ressocializado. Jamais – continuei. – Mas você pode ficar tranqüila. Ele vai pagar pela morte de seus pais.
◊ ◊ ◊
- Pelo seqüestro de nossa chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, pelo uso da Maldição Cruciatus em Andrew Kirke, Savannah Gilbert, Thomas Lee Norris, Noah Fields... – Eu fechei os olhos, bloqueando aquela lista interminável de nomes que agora Mafalda Hopkirk citava, um a um. Doía, pois eu sabia que aquelas vidas nunca mais seriam as mesmas. Havia também as vidas que não mais seriam recuperadas... – Pelo uso da Maldição da Morte em Cara Mitchell, Antwon Mitchell...
- Mione, está tudo bem? Você está pálida...
- Eu preciso sair daqui – eu cochichei, segurando com firmeza no antebraço de Harry.
- A sentença será dada em instantes, Mione – ele disse. – Feche os olhos e tente imaginar que está em outro lugar. Pense no lugar em que esteve mais feliz, com quem esteve mais feliz.
Eu mordi o lábio inferior e, resistente, fiz o que ele disse. Foi como viajar para outro lugar sem me mover. Eu estava em meu quarto, as crianças jogadas sobre a cama king size. Ali não estavam só os meus filhos, mas também os de Harry. Ele estava de pé, fazendo mímicas ao pé da cama. As crianças se divertiam, riam e tentavam adivinhar o que ele estava interpretando.
Senti um leve aperto na minha mão e abri os olhos, deixando minha divagação para trás.
- ... esta Corte condena Henry Eugene Mitchell a prisão perpétua a ser cumprida a partir da presente data na prisão de Azkaban – Mafalda Hopkirk concluiu o seu discurso ao tempo em que a varinha de Mitchell era partida.
- Acabou – eu murmurei.
- Sim, Mione. Acabou – Harry tornou a apertar levemente a minha mão.
◊ ◊ ◊
O som de batimentos curtos e rápidos, ritmados, preencheu o ambiente. Agora o gel gelado sobre a minha barriga já não incomodava mais. Minha atenção era daquele pequeno ser de 27cm e cerca de 450g.
- Dessa vez a posição é favorável – Dra. Campbell disse. – E parece que está explicado por que não conseguíamos ver se era um garotinho ou uma garotinha – ela prosseguiu. – Ao que parece, a mocinha de vocês é bastante envergonhada.
- É uma menina? – questionei.
- Sim, e já se escondeu de novo – a obstetra confirmou.
- É uma menina, Harry – eu fiz, os olhos cheios de lágrimas enquanto minha boca tremia num sorriso.
- Nossa garotinha – ele assentiu, também sorrindo, sua mão afagando a minha.
◊ ◊ ◊
- Nossa garotinha! – Harry disse, a voz abafada pela máscara cirúrgica. Ele a tinha no colo, toda suja de sangue, os olhos fechados, apertados por conta do choro.
Eu não sabia o que dizer. Este era um dos momentos em que eu realmente não tinha palavras para descrever. A felicidade que explodia dentro de meu peito era tamanha que me tirava a capacidade de raciocinar ou, pelo menos, de produzir uma sequência lógica de palavras, que fizesse algum sentido.
Aquela imagem jamais sairia de minha memória. Ele segurando a nossa pequena Amanda, os olhos sorrindo para mim, orgulhoso. Era linda a imagem, inesquecível.
- Digna de ser amada – eu disse, ao segurá-la pela primeira vez. – Este é o significado de seu nome. Porque você é fruto de um amor antigo, escondido, que veio à tona para enfrentar tudo e todos e vencer. Você vai ser muito, muito amada, minha filha. Você já é.
- Amanda – Harry repetiu.
- Fez um bom trabalho, querida – mamãe disse, afagando meu cabelo.
- Obrigada, mamãe. É sempre como se fosse a primeira vez – agradeci, sorrindo. – Ei! Ela abriu os olhos – eu disse. – Veja!
- Azuis? – as vozes de meus pais e de Harry fizeram em uníssono.
- Azuis – eu confirmei, pouco antes de nossa garotinha fechar os olhos novamente.
- Quem diria – Harry fez, sorrindo.
◊ ◊ ◊
Ron não apareceu para nos visitar nem mesmo quando voltamos para casa. Arthur e Molly foram ao hospital no dia seguinte, provavelmente para aproveitar o ambiente formal. Teddy e Victoire já estavam em casa, aguardando a nossa chegada. Não se demoraram, porém. Havia alguns buquês de flores aqui e ali e eu fiquei realmente surpresa um deles estar em nome de Elizabeth Mitchell.
- Devo admitir que fiquei surpreso também – Harry comentou.
Mas a surpresa maior ainda estava por vir.
A campainha tocou ao final da tarde, ainda no primeiro dia em casa após o nascimento da pequena Amanda. Eu a tinha em meu colo, havia acabado de amamentá-la, então Harry adiantou-se para abrir a porta. Quando retornou, um vulto ruivo o acompanhava.
- Ginny – eu fiz, realmente surpresa. Harry tinha os olhos arregalados e balançava a cabeça nervosamente, como se estivesse digerindo também a surpresa.
- Desculpe, não pude ir ao hospital e achei que não haveria problema vir à casa de vocês – ela explicou-se. – Se for uma hora ruim...
- Oh, não! Não, não se preocupe – eu disse. – Apenas não estávamos esperando visitas. A casa está uma bagunça e eu estou totalmente...
- Você está ótima – Ginny encerrou. – Bem, eu vim trazer um presente e conhecer a garotinha de vocês. Amanda, não é?
- Sim, Amanda – eu assenti. – Venha, se aproxime. Não vai conseguir conhecê-la se não chegar mais perto.
Ginny se aproximou e sentou-se à beirada da cama, sob o olhar atento de Harry, que parecia não saber o que fazer, de que forma reagir. Eu ri por dentro. Ele continuava o mesmo desajeitado de sempre!
- Ei, mocinha, tia Ginny veio te conhecer – eu fiz. – Ela trouxe presente para você.
- Ela é linda, Hermione – Ginny disse, após engolir em seco. – Não dá para dizer ainda com quem se parece, mas ela é realmente uma boneca.
- Obrigada – eu disse com sinceridade. – Quer pegar?
Sem jeito, Ginny assentiu, deixando o presente de lado. Estendi o pequeno embrulho em meus braços para ela, que a tomou cuidadosamente em seus braços, ajeitando a gola do macacãozinho que Amanda vestia em seguida.
Enquanto isso, eu abri o presente que ela trouxera. Era um vestidinho marrom com bolinhas de um rosé suave que aumentavam gradativamente à medida que se aproximavam da barra, tinha um laçarote no mesmo tom rosé para marcar a ‘cintura’ e um laço também de fita fixado em uma tiara para colocar na cabeça.
- Que coisa mais linda, Ginny. Obrigada! – agradeci.
- É para quando ela estiver maiorzinha – Ginny disse. – Provavelmente tem milhares de roupas para recém-nascido, então preferi fazer diferente.
- Obrigada – disse mais uma vez. – Harry, será que você poderia levar Amanda para o quarto?
- Tudo bem – ele assentiu, apressando-se em tomá-la dos braços de Ginny e deixar o ambiente.
Esperei que ele alcançasse o quarto de Amanda para então começar:
- Há algo que queira conversar? – perguntei e ela me fitou, sobressaltada. – Apesar de não sermos exatamente amigas desde que... bem, você sabe... Talvez queira me falar sobre esse anel em seu dedo.
Ginny sorriu nervosamente.
- Você notou?
- Oh, eu notei – assenti. – Eric Wadcock?
- Sim – ela confirmou, o rosto enrubescido.
- Whoa, garota! Meu afilhado vai tocar fogo em cada kit da Gemialidades Wesley quando souber – eu disse, sorrindo.
- Não sei ainda o que é isso tudo, mas... Eric é um cara legal – Ginny disse. – Espero que ele não ache estranho o meu filho espalhar para os quatro ventos que vai se casar com a filha dele – brincou.
- Oh, isso vai ser estranho – brinquei. – Eu estou feliz por você, Ginny. De verdade.
- É, eu também estou feliz – ela disse, admirando o anel em seu dedo. – Mas espere para conhecer a nova namorada do seu ex-marido.
- Ah... Oi?