Uma trilha de beijos distribuídos em minhas costas foi o que me acordou, mas eu me esforcei para não demonstrar que já acordara. Foi inevitável, porém, quando ele alcançou a região do pescoço. O meu corpo reagiu ao toque e ele riu ao pé de meu ouvido antes de me virar para ele.
- Feliz aniversário, Mione – disse antes de depositar um rápido selinho em meus lábios.
Eu sorri e puxei ele pelo colarinho da camisa, beijando-o.
- Obrigada – eu disse assim que nos separamos.
- Tem certeza que você faz aniversário só uma vez por ano? – ele brincou. – Eu poderia te desejar feliz aniversário todos os dias...
- Harry, o romantismo realmente não lhe cai bem – eu disse, em resposta. – A verdade é que todos fazemos aniversário todos os dias, mas preferimos acreditar que envelhecemos só uma vez por ano.
- Permita-me, então, ser fofo uma vez por ano – Harry novamente brincou, frisando a palavra ʻfofoʼ com deboche, antes de me tomar nos braços de surpresa.
Quando percebi o que estava fazendo e que pretendia descer as escadas me carregando, imediatamente reagi, segurando no vão da última porta do corredor.
- Não, Harry! Nós vamos cair!
- Não confia em mim? – ele questionou, rindo.
- Eu não confio é nas escadas! – rebati de pronto, realmente assustada com a possibilidade de cairmos na escada, pois ela tinha uma curva e, se eu não conseguia enxergar o chão, Harry provavelmente também não enxergava os próprios pés.
- Então feche os olhos e me abrace – Harry continuou rindo enquanto eu debatia as pernas, tentando fazer ele me colocar novamente no chão. Desisti quando percebi que a firmeza com a qual ele segurava as minhas pernas talvez fosse capaz de me passar alguma segurança. Só talvez. Fiz, pois, o que ele disse para eu fazer, enterrando o rosto em sua clavícula. – E trate de relaxar. O estresse pode fazer mal ao bebê.
A minha resposta foi apenas um leve tostão nas costas dele. Estou certa de que ele entendeu como um ʻpor culpa de quem, mesmo?ʼ, ou assim eu esperava.
- Não deveríamos tomar banho primei...? – eu comecei, mas parei assim que ele me recolocou no chão. – Quando você teve tempo de fazer tudo isso?
- Você tem dormido cada vez mais cedo – ele explicou. – Entre um cochilo e outro, desci, separei as flores, depois separei os croissants e muffins e hoje levantei duas horas mais cedo para comprar pães e frios. Cheguei na padaria antes do padeiro!
- Só terá meu respeito se passou na Aux Pains de Papy e na Muffinskiʼs – brinquei.
- Eu não ousaria não passar na Aux Pains de Papy e na Muffinskiʼs. A minha mulher é muito exigente e conhece os croissants de Papy e os muffins da Muffinskiʼs.
Eu não consigo descrever, ainda hoje, a sensação de ouvi-lo dizer ‘minha mulher’. Provavelmente nunca serei capaz de fazê-lo. Do mesmo modo, não serei capaz de dizer o que senti com o pedido que veio em seguida, apenas descrevê-lo.
- Eu quero que você seja não só a mãe de meu filho – ele começou. – Ou filha. E eu disse isso a você antes de... tudo aquilo acontecer – fez, referindo-se ao sequestro. – Eu quero que você seja a minha mulher, e não só porque eu posso chamar você assim em nossos momentos de descontração. Eu quero que seja minha dia após dia, todos os dias. Eu quero me casar com você, Mione.
Eu fechei os olhos e quase pedi para ele repetir. Aquele era o momento em que eu deveria dizer ‘sim’ e pular nos braços dele, mas eu só consegui manter meus olhos fechados e sorrir. Cada célula de meu corpo sorria comigo.
Eu o amava. Eu o amara desde o dia em que ele entrou naquele banheiro feminino com Ron para me salvar do trasgo. Eu o amara com gratidão, depois como se ama um amigo, um melhor amigo, um quase irmão... aquele com quem eu dividi meus risos, meu choro, minhas angústias, minha felicidade, minhas conquistas quando parecia não haver mais ninguém ali para mim. Aquele que foi o meu suporte quando eu me vi sozinha, quando eu precisei enfrentar tudo e todos. E, naquele momento, eu o amava como homem...
- Como o homem com quem eu quero dividir meus risos, meu choro, minhas angústias, minha felicidade, minhas conquistas e a minha cama dia após dia, todos os dias, e não mais porque eu estou sozinha, mas porque eu encontrei nele alguém que nunca vai permitir que eu me sinta assim – concluí em voz alta, abrindo os olhos. – Nada me fará mais feliz do que ser a nova Sra. Potter.
O sorriso dele iluminou não só o seu rosto e seus olhos, mas todo o ambiente e o meu dia. Ele só não brilhava mais do que o anel de brilhantes com o qual eu fora presenteada.
◊ ◊ ◊
Mamãe,
Hoje é mais um daqueles dias em que eu sei que você gostaria que estivéssemos com você e quero dizer que, pode apostar, nós também preferíamos te acordar com muita bagunça, te dar um abraço de urso e dizer o quanto a amamos, mas isso só será possível daqui a alguns anos e você estará proibida de dizer que somos velhos demais para pular em sua cama.
Espero que o tio Harry faça, do seu dia, um dia muito especial, um dia que você vai querer lembrar para sempre, pois é o que eu gostaria de te oferecer hoje. Tem sido uma mulher muito forte e eu a admiro muito por isso. Você merece que todos os dias sejam especiais, principalmente o dia de hoje, que é um dia especial por si só, pois foi o dia em que a vó Jane presenteou o mundo com você e isso fez possível que eu estivesse aqui e pudesse me orgulhar de ser sua filha.
O último ano foi muito difícil para você, eu sei, e eu espero que daqui para frente cada ano possa ser melhor do que o anterior. Eu só quero ver o seu sorriso, mesmo em tempos ruins. É no que consiste a sua força: sorrir mesmo quando o mundo lhe dá as costas.
Feliz aniversário, mamãe. Que você tenha só motivos para sorrir, que essa criancinha que você espera renove a sua crença num mundo melhor e que o amor preencha cada um de seus dias.
Com amor,
Rose
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Mamãe,
Provavelmente Rose já escreveu uma carta enorme, já disse o quão especial você é para ela, como ela te ama e já disse que você merece um dia de rainha. Também deve ter dito que queria estar aí. Ela provavelmente já disse tudo o que eu gostaria de dizer, então, feliz aniversário. Queria estar com você hoje, então eu poderia pedir que tirasse folga à tarde e sugerir que fôssemos ao parque para passear – e tomar sorvete.
Sinto saudades.
Com amor,
Hugo
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Os meus passos ecoavam no chão de pedra. Eu odiava aquele lugar. Odiava o frio que me provocava na espinha, odiava a sensação de estar sendo observada e não ver os rostos no escuro.
O som excruciante do ferro da porta de uma das celas arrastando no chão de pedra fez com que cada pelo de meu corpo se arrepiasse.
- Ora, ora, se não é a queridinha do Ministério da Magia – a voz de Mitchell logo se fez presente. – A que devo a honra da visita?
Inflei o peito e ergui o rosto com dignidade antes de começar a falar, torcendo para que minha voz fosse firme.
- Você sabe que o seu julgamento é amanhã, não sabe? – comecei.
- É o que dizem por aí – ele respondeu, seu tom levemente divertido.
- Não deveria estar feliz com isso – eu disse em tom de repreensão. – Você vem assinando a sua sentença a cada vítima que fez nos últimos dois anos. Talvez você acredite que sua sentença foi assinada muitos anos atrás e que não foi você quem a assinou, mas as pessoas ao seu redor, mas não é verdade. Foi uma escolha que você fez – continuei, finalmente ganhando total atenção dele. – Eu não posso dizer que sei o que você passou, que eu entendo, porque eu conheço o discurso de quem passa por isso... Você sempre vai acreditar que estava sozinho, que está sozinho.
- Desculpe-me, Srta. Sabe-Tudo, mas quem passa por isso está sozinho, não importa se há milhares de pessoas a seu redor passando pelo mesmo – ele replicou. – Talvez você realmente entenda, talvez, em algum momento de sua vida, você realmente tenha ficado à sombra dos outros... antes de ser a melhor amiga de Harry Potter, imagino.
- Na verdade, eu sempre temi sentir o que você sentiu, passar pelo que você passou – disse em resposta. – Eu era uma garota normal, como todas as outras até os 10 ou 11 anos de idade. Não sei se fui notada, porque eu era comum, não havia algo em que eu me destacasse senão o meu esforço para corresponder às minhas próprias expectativas. Eu não era boa em esportes, não ambicionava ocupar o posto de garota popular... – eu dei um risinho nervoso. – Eu nunca tive muitos amigos! Eu apenas queria ser eu mesma, mesmo que isso me fizesse invisível ano após ano na escola.
- Parece que tudo mudou depois que conheceu Harry Potter.
- Não foi exatamente por tê-lo conhecido que a minha vida mudou, mas vamos deixar que esta feliz coincidência leve o crédito – fiz. – Eu sempre me cobrei muito, Mitchell, porque essa sou eu. Não estou satisfeita até que tenha dado o meu melhor no que quer que eu me proponha a fazer. Eu descendo de família trouxa. Todos em minha família são trouxas. Agora... Imagine descobrir que você é o único que você conhece em um universo que você nem imaginava existir. Então, sim, eu estava sozinha. Quando tudo isso começou, eu estava sozinha. Então, por acaso, eu conheci Harry Potter. Eu estava apenas ajudando um colega que havia perdido o seu sapo de estimação. Ele, Harry Potter, não gostava de mim. Ninguém gostava de mim.
“Por quase dois meses eu estive me questionando como eu fora parar ali. Por que eu fora parar ali. Eu chorava todos os dias, após as aulas, no banheiro. Eu queria ir embora, queria voltar para onde eu sabia que era seguro. Mas eu não podia. E não era só pela distância geográfica, mas também porque eu não queria demonstrar fraqueza. Eu não queria ser aquela que desistiu antes mesmo de tentar. Então eu engoli os desaforos e decidi que, se estaria sozinha, então eu seria a melhor. Se eu sabia que isso ia incomodar? Sim. Mas depois iam me esquecer, iam ignorar, e logo eu estaria invisível novamente.
“O meu consolo era o reconhecimento dos professores. Eu era boa, fui a melhor aluna em meus tempos de escola. Você me chamou de Srta. Sabe-Tudo ainda há pouco. Era como as pessoas costumavam se referir a mim, até mesmo um dos professores. Mas hoje eles dão valor à minha inteligência.”
- O que você pretende... quero dizer, por que está me contando tudo isso? – Henry Mitchell questionou.
- Você disse que tinha um grupo de amigos, que vocês eram inseparáveis, todos invisíveis aos olhos dos demais. Uns eram bons em matemática e enxadristas de dar inveja, outros eram bons em inglês e eram exímios jogadores de Quadribol, alguns não se destacavam em nada, apenas na arte de ser bons amigos – comentei. – Em qual desses grupos você se enquadrava?
- Enxadrista. Nunca me destaquei em algo realmente, mas eu tentava – ele respondeu. – Mas você ainda não respondeu à minha pergunta.
- Eu sei, chegarei lá – eu disse. – Imagino que tenha sido um bom amigo para alguém durante a sua história. Talvez possa arriscar que sua frustração tenha vindo depois de aqueles amigos que eram bons em Quadribol tenham decidido se dedicar somente a isso e aqueles que realmente gostavam do esporte, embora não praticassem, resolveram acompanhá-los. Todos saíram do anonimato, deixaram de ser ‘só mais um’ e ganharam destaque naquilo que se propuseram fazer. Então seu nome foi esquecido também por eles enquanto os nomes deles se tornavam cada vez mais conhecidos, inclusive nas outras Casas.
- E o que você sabe sobre isso?
- Tem razão, eu não sou a pessoa para falar sobre isso – fiz. – Mas eu tenho um ou dois amigos que poderiam muito bem falar a respeito. A diferença entre vocês é que um deles foi criado pela avó, pois seus pais foram amaldiçoados até alcançarem a loucura por uma Comensal da Morte; o outro era um desastre em tudo, mas se esforçava, participava, tentava se enturmar... – mencionei, iniciando o fim de meu discurso. – Um sempre será lembrado por ser um grande amigo, o outro será lembrado pela sua forma de encarar cada falha, tentando vencer no passo seguinte.
- E...
- E você... você tinha pais, tem irmãos, aparentemente é um homem inteligente, mas vai somente ser lembrado pelos crimes que cometeu, pelas famílias que destruiu. E tudo porque não soube lidar com a zombaria de uns, o esquecimento por parte de outros... – continuei. – Eu entendo que você se sentisse sozinho, rejeitado e posso dizer que me senti assim por alguns meses de minha vida. Doeu, ainda dói lembrar aqueles dias, mas eu conquistei o meu espaço à minha maneira, como fizeram esses meus amigos, e isso ameniza muito. Um olhar atravessado ou uma risada eram suficientes para provocar a sua ira. Eu? Eu baixava a cabeça e apressava o passo. – Dei girei sobre os calcanhares ao me colocar de pé, tomando distância dele ao mesmo tempo em que o encarava. – Cabia a você, Mitchell, saber como lidar com ela e você escolheu deixar que ela dominasse você, descontou em pessoas inocentes algo que era só seu. Pobres os desavisados que não sabiam que aquele talvez fosse o seu último riso.
Deixei a cela sob o olhar sombrio dele. A porta pesada de ferro foi fechada, ficando entre nós.
- Mas você vai pagar por isso – eu disse antes de dar as costas e ir embora, o eco dos meus passos tornando a ecoar ao meu redor.