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22. Capitulo Vinte e Um


Fic: O Segredo de Hermione Granger


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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 Capitulo vinte e um


 


    Na manhã seguinte acordo cheia de um pavor doentio. Sinto-me exatamente como uma criança de cinco anos que não quer ir à escola. Uma criança de cinco anos com uma tremenda ressaca.
    - Não posso ir. – Começo a gemer quando chega oito e meia. – Não posso encarar o pessoal.
    - Pode sim. – Insiste Luna, dando força e fechando os botões do meu casaco. – Vai ficar tudo bem. Só mantenha o queixo erguido.
    - E se eles forem horrorosos comigo?
    - Eles não vão ser horrorosos com você. São seus amigos. De qualquer modo, eles já devem ter esquecido.
    - Não devem! Eu não posso simplesmente ficar em casa com você? – Agarro sua mão, implorando. – Eu vou ser boazinha, prometo.
    - Hermione, eu já expliquei. – Insiste Luna, cheia de paciência. – Eu tenho de ir ao tribunal hoje.
    Ela solta a mão.
    - Mas vou estar aqui quando você chegar. E nós vamos jantar alguma coisa bem legal. Certo?
    - Certo – concordo, numa vozinha débil. – Podemos tomar sorvete de chocolate?
    - Claro que sim. – Luna abre a porta do apartamento. – Agora vá. Você vai ficar ótima!


    Sentindo-me um cachorro sendo posto para fora, desço a escada e abro a porta da frente. Estou saindo da casa quando um furgão pára na beira da rua. Sai um homem de uniforme azul, segurando o maior buquê de flores que eu já vi, todo amarrado com fita verde-escura, e franze a vista para o número da nossa casa.
    - Olá. – Diz ele. – Estou procurando Hermione Granger.
    - Sou eu! – Digo surpresa.
    - Ahá! – Ele sorri, e estende uma caneta e uma prancheta. – Bem, este é seu dia de sorte. Pode assinar aqui...
    Olho o buquê, incrédula. Rosas, frésias, flores roxas enormes e incríveis... Uns pompons fantásticos, cor de vinho... Folhagens verde escuras... Outras verde-claras que parecem aspargos...
    Certo, talvez eu não saiba o nome de todas. Mas sei de uma coisa. Essas flores são caras.
    Só há uma pessoa que pode tê-las mandado.
    - Espera… – Falo sem pegar a caneta. – Quero saber quem mandou.
    Pego o cartão, rasgo o envelope e corro a vista pela longa mensagem, sem ler nada até chegar ao nome embaixo.


    Draco.
    Sinto um enorme dardo de emoção. Depois de tudo que ele fez, Draco acha que pode me comprar com um punhado de flores chinfrins?
    Certo, um buquê enorme, de luxo.
    Mas a questão não é essa.
    - Não quero, obrigada. – Digo, levantando o queixo.
    - Você não quer? – O entregador me encara.
    - Não. Diga à pessoa que mandou que não, obrigada.
    - O que está acontecendo? – Ouço uma voz ofegante atrás de mim, ergo os olhos e vejo Luna boquiaberta para o buquê. – Ah meu Deus. São do Draco?
    - São. Mas eu não quero. Por favor, leve embora.
    - Espera! – Exclama Luna, agarrando o celofane. – Quero dar uma cheiradinha. – Ela enterra o rosto nas flores e inala profundamente. – Uau! Isso é absolutamente incrível! Hermione, você cheirou?
    - Não. – Respondo, irritada. – Não quero cheirar.


    - Eu nunca vi flores tão incríveis assim. – Ela olha para o homem. – O que vai acontecer com elas?
    - Não sei. – Ele dá de ombros. – Vão ser jogadas fora. Acho.
    - Nossa. – Ela me olha. – Parece um desperdício terrível.
    Espera aí. Ela não vai...
    - Luna, eu não posso aceitar! – Exclamo. – Não posso! Ele vai achar que eu estou dizendo que está tudo bem entre nós.
    - Não, você está certa. – Cede Luna, com relutância. – Você tem de devolver. – Ela toca uma pétala de rosa cor-de-rosa e aveludada. – Mas é uma pena...
    - Mandar o quê de volta? – Vem uma voz aguda atrás de mim. – Você está brincando, não está?
    Ah, pelo amor de Deus. Agora Pansy chegou à rua, ainda vestindo o roupão branco. – Você não vai mandar isso de volta! – Grita ela. – Eu vou dar um jantar amanhã à noite. Elas vão ser perfeitas. – Pansy pega a etiqueta. – Smythe and Foxe! Sabe quanto isso deve ter custado?
    - Não me importa quanto custou! – exclamo. – Elas são do Draco! Não posso ficar com elas.
    - Por quê?
    Ela é inacreditável!


    - Porque... Porque é uma questão de princípios. Se eu ficar, estou basicamente dizendo: “Eu perdôo você”.
    - Não necessariamente. – Retruca Pansy. – Pode ser “Eu não perdôo você”. Ou “Eu nem me incomodo em devolver suas flores, para ver como você significa pouco para mim”.
    Há silêncio enquanto todas pensamos nisso.
    O negócio é que são flores incríveis.
    - Então, você quer ou não? – Impacienta-se o entregador.
    - Eu... – Ah meu Deus, agora estou toda confusa.
    - Hermione, se você mandá-las de volta, vai parecer fraca. – Argumenta Pansy com firmeza. – Vai parecer que não suporta nenhuma lembrança dele em casa. Mas, se ficar com elas, estará dizendo: “Eu não me importo com você!” Você vai estar firme! Vai estar sendo forte. Vai estar...
    - Ah meu Deus, certo! – Digo e pego a caneta com o entregador. – Eu assino. Mas poderia, por favor, dizer a ele que isso não significa que eu o perdôo, nem que deixei de achar que ele é um interesseiro cínico, desumano e desprezível, e além do mais, se Pansy não fosse dar um jantar, essas flores iriam direto para a lata de lixo. – Quando termino de assinar estou vermelha e ofegante e faço um ponto final com tanta força que rasga a página. – O senhor consegue lembrar de tudo isso?


    O entregador me olha inexpressivo.
    - Meu amor, eu só trabalho no depósito.
    - Já sei! – Exclama Luna de repente. Ela pega a prancheta e escreve SEM ABRIR MÃO DOS DIREITOS claramente sob o meu nome.
    - O que isso significa? – Eu pergunto.
    - Significa: “Nunca vou perdoar você, seu sacana... Mas mesmo assim vou ficar com as flores”.
    - E você ainda vai se vingar. – Acrescenta Pansy, decidida.


 


    É uma daquelas manhãs incrivelmente luminosas, nítidas, que fazem a gente sentir que Londres é realmente a melhor cidade do mundo. Enquanto ando da estação de metrô até o trabalho, meu ânimo não consegue deixar de melhorar um pouco.
    Talvez Luna esteja certa. Talvez todo mundo no trabalho já tenha esquecido tudo. Puxa, vamos colocar as coisas nas devidas proporções. Não foi um negócio tão grande assim. Não foi tão interessante assim. Sem dúvida, alguma outra fofoca deve ter surgido nesse meio tempo. Certamente todo mundo vai estar falando de... futebol. Ou de política, ou sei lá o quê.
    Abro a porta de vidro do saguão com um pequeno jorro de otimismo, e entro de cabeça erguida.


    - ... ma colcha da Barbie! – Ouço imediatamente do outro lado do piso de mármore. Um cara da contabilidade está falando com uma mulher usando crachá de visitante, que escuta avidamente.
    - ...transando com Draco Malfoy o tempo todo? – Ouço uma voz acima de mim, e eu ergo os olhos e vejo um grupo de garotas subindo a escada.
    - É do Harry que eu sinto pena – responde uma delas. – O coitadinho...
    - ...fingia que gostava de jazz. – Está dizendo mais alguém saindo do elevador. – Puxa, por que, diabos, alguém faria isso?
    Certo. Então... Eles não esqueceram.
    Todo o meu otimismo se esvai, e por um instante penso em fugir correndo e passar o resto da vida debaixo do edredom.
    Mas não posso fazer isso.
    Em primeiro lugar, eu provavelmente ficaria entediada em menos de uma semana.
    Eem segundo... Tenho de enfrentá-los. Tenho de fazer isso.


    Apertando os punhos do lado do corpo, subo lentamente a escada e vou pelo corredor. Todo mundo por quem passo me olha escancaradamente ou finge que não está olhando, quando está; e pelo menos cinco conversas são interrompidas rapidamente quando me aproximo.
    Quando chego à porta do departamento de marketing, respiro fundo e entro, tentando parecer o mais despreocupada possível.
    - Oi, gente. – Exclamo, tirando o casaco e pendurando na minha cadeira.
    - Hermione! – O tom de Lilá é de um deleite sarcástico. – Bem, eu nunca imaginaria!
    - Bom dia, Hermione. – Diz Severo, saindo de sua sala e me dando um olhar avaliador. – Você está bem?
    - Estou, obrigada.
    - Gostaria de falar sobre... Alguma coisa? – Para minha surpresa ele parece verdadeiramente interessado.
    Mas, sério. O que ele acha? Que vou entrar lá e chorar no seu ombro dizendo: “Aquele sacana do draco Malfoy me usou?”
    Eu só faria isso se ficasse realmente, realmente desesperada.


    - Não. – Respondo, com o rosto pinicando. – Obrigada, mas estou bem.
    - Bom. – Ele faz uma pausa, depois adota um tom mais profissional. – Bom, eu estou presumindo que, quando você desapareceu ontem, foi porque tinha decidido trabalhar em casa.
    - É... Foi. – Pigarreio. – Isso mesmo.
    - Sem dúvida você fez um monte de tarefas úteis, não é?
    - Hmm... É. Um monte.
    - Excelente. Foi o que pensei. Certo. Então vá em frente. E o resto de vocês. – Severo olha em volta, alertando. – Lembrem-se do que eu disse.
    - Claro. – Responde Lilá imediatamente. – Todos nós lembramos!
    Severo desaparece em sua sala de novo, e eu olho rigidamente para o computador enquanto ele esquenta. Vou ficar bem, digo a mim mesma. Vou me concentrar no trabalho, mergulhar completamente...


    De súbito percebo que alguém está cantarolando uma música, bem alto. É algo que reconheço. É...


    É dos Carpenters.
    E agora alguns outros na sala se juntam no refrão.
    - Close to youuuuu...
    - Tudo bem, Hermione? – Quer saber Simas, quando minha cabeça se levanta cheia de suspeitas. – Quer um lenço?
    Não vou reagir. Não vou dar a eles o prazer.
    Com o máximo de calma possível clico nos e-mails e perco a respiração, chocada. Normalmente recebo uns dez e-mails a cada manhã, no máximo. Hoje tenho 95.
    Papai: Eu realmente gostaria de falar...
    Carol: Já tenho mais duas pessoas para o nosso clube da Barbie.
   Astoria: Eu sei onde você pode conseguir calcinha fio-dental realmente confortável.
    Sharon: Há quanto tempo isso vinha acontecendo?
    Minerva: Re: oficina de consciência do corpo...
    Desço a lista interminável e subitamente sinto uma facada no coração.
    Há três de Draco.
    O que devo fazer?


    Devo ler?


    Minha mão paira incerta sobre o mouse. Ele merece pelo menos uma última chance de explicar?
    - Ah, Hermione. – Lilá se aproxima inocentemente de minha mesa com uma bolsa.- Eu tenho esse pulôver e fiquei imaginando se você gostaria. É meio pequeno para mim, mas é bem legal. E deve servir em você, porque… – Ela pára, e atrai o olhar de Hannah. – é 38.
    Imediatamente as duas irrompem em risinhos histéricos.
    - Obrigada, Lilá. – respondo, seca. – Foi gentil da sua parte.
    - Vou pegar um café – Diz Neville, levantando-se. – Alguém quer alguma coisa?
    - Para mim um Harvey’s Bristol Cream – Responde Simas, animado.
    - Há, há. – Murmuro baixinho.
    - Ah, Hermione, olha só… – acrescenta Simas, vindo até a minha mesa. – Aquela nova secretária da Administração. Você já viu? Ela é uma coisa, não é?


    Ele pisca para mim e eu o encaro inexpressiva por um momento, sem entender.
    - Cabelo espetado maneiro. – Acrescenta ele. – Sapato 44 bico largo.
    - Cala a boca! – Grito furiosa, com o rosto num vermelho flamejante. – Eu não sou... eu não... ah, vão se foder vocês todos!
    Com a mão tremendo de raiva, deleto todos os e-mails de Draco. Ele não merece nada. Sem chance. Nada.
    Levanto-me e saio da sala, ofegante. Vou para o banheiro feminino, bato a porta e encosto a testa quante no espelho. O ódio por Draco Malfoy está borbulhando dentro de mim como lava. Ele tem alguma idéia do que eu estou passando? Ele tem alguma idéia do que fez comigo?
    - Hermione! – Uma voz interrompe meus pensamentos e eu levo um susto. Imediatamente sinto um choque de apreensão.


    Gina entrou no banheiro sem que eu ouvisse. Está parada atrás de mim, segurando sua bolsa de maquiagem. Seu rosto está refletido no espelho ao lado do meu... e ela não está sorrindo. É exatamente como em Atração fatal.
    - Então… – Começa ela numa voz estranha. – Você não gosta de crochê.
    Ah meu Deus. Ah meu Deus. O que eu fiz? Liberei o lado boneco assassino de Gina, que ninguém conhecia. Talvez ela vá me empalar com uma agulha de crochê, pego-me pensando loucamente.
    - Gina… – Digo com o coração martelando. – Gina, por favor, escute. Eu nunca quis... Eu nunca disse...
    - Hermione, nem tente. – Ela levanta a mão. – Não adianta. Nós duas sabemos a verdade.
    - Ele estava errado! Ele ficou confuso! Eu disse que não gostava... De... Creche. Você sabe, aquele monte de bebês por todo canto...
    - Sabe, ontem eu fiquei bem chateada. – Interrompe Gina com um sorriso fantasmagórico. – Mas depois do trabalho fui direto para casa e liguei para minha mãe. E sabe o que ela me disse?
    - O quê? – Pergunto apreensiva.
    - Ela disse... Que também não gosta de crochê.


    - O quê? – Eu giro e olho boquiaberta para ela.
    - Nem minha avó. – Seu rosto fica vermelho, e agora ela parece a velha Gina de novo. – E nenhum dos meus parentes. Todos fingiam há anos, como você. Tudo faz sentido agora! – Sua voz se ergue, agitada. – Sabe, eu fiz uma capa de sofá para minha avó no Natal passado, e ela disse que um ladrão tinha roubado. Puxa, que tipo de ladrão rouba uma capa de sofá de crochê?
    - Gina, eu não sei o que dizer...
    - Eu sei que você estava tentando ser gentil. Mas agora eu me sinto uma idiota.
    - Bom. Com isso somos duas. – Murmuro meio taciturna.
    A porta se abre, e Marieta, da contabilidade, entra. Há uma pausa enquanto ela olha para nós, depois desaparece num dos cubículos.
    - Então, você está bem? – Quer saber Gina em voz mais baixa.
    - Estou… – Respondo com uma encolhida minúscula dos ombros. – Você sabe...
    É. Estou tão bem que me escondo no banheiro em vez de encarar meus colegas.
    - Você falou com o Draco? – Pergunta ela, hesitante.
    - Não. Ele me mandou umas flores. Tipo, “ah, tudo bem, então”. Provavelmente nem foi ele que encomendou, na certa mandou o Theodore.


    Há o som de descarga, e Marieta sai do cubículo de novo.
    - Bem... Era desse rímel que eu estava falando. – Gina me entrega um tubo.
    - Obrigada. – Respondo. - Você falou que ele... hmm... Avoluma e alonga?
    Marieta revira os olhos.
    - Tudo bem – exclama ela. – Eu não estou ouvindo! – Ela lava as mãos, enxuga e depois me dá um olhar ávido. – E aí, Hermione, você está saindo com Draco Malfoy?
    - Não. – Respondo secamente. – Ele me usou e me traiu, e, para ser sincera, eu ficaria feliz se nunca mais o visse em toda a vida.
    - Ah, certo! – Reage ela, animada. – É só que... Eu estava pensando. Se você falar com ele de novo, poderia mencionar que eu adoraria ir para o departamento de RP?
    - O quê? – Encaro-a sem entender direito.
    - Você poderia deixar escapar. Que eu tenho capacidade de comunicação e acho que seria muito adequada para o RP.
    Deixar escapar? O quê, tipo “nunca mais quero ver você de novo, Draco, e, a propósito, Marieta acha que ela seria boa no RP”?


    - Não sei… – Hesito. – Eu só... Acho que não poderia fazer isso.
    - Bem, eu acho muito egoísta da sua parte, Emma – Queixa-se Marieta, ofendida. – Só estou pedindo que, se o assunto surgir, você mencione que eu gostaria de ir para o RP. Puxa, é difícil?
    - Marieta, dá o fora! – Impacienta-se Gina. – Deixe Hermione em paz.
    - Eu só estava pedindo! – Justifica-se ela. – Porque agora você se acha superior a nós, não é?
    - Não! – Exclamo chocada. – Não é isso...
    Mas Marieta já saiu, cheia de indignação.
    - Ótimo. – Balbucio. – Que ótimo, mesmo! Agora todo mundo vai me odiar, além de todo o resto.
    Solto o ar com força e olho para o meu reflexo. Ainda não acredito em como tudo ficou de cabeça para baixo. Tudo em que eu acreditava acabou sendo falso. Meu homem perfeito é um interesseiro cínico. Meu romance de sonho era inventado. Eu fui mais feliz do que nunca na vida. E agora não passo de um objeto de risos, estúpida e humilhada.
    Ah meu Deus, meus olhos estão pinicando de novo.


    - Você está legal, Hermione? – Gina me olha cheia de consternação. – Aqui, pegue um lenço de papel. – Ela enfia a mão na bolsa de maquiagem. – E um gel para os olhos.
    - Obrigada. – Digo, engolindo em seco. Passo o gel nos olhos e me obrigo a respirar fundo até estar bem calma de novo.
    - Eu acho você muito corajosa. – Comenta Gina, me olhando. – Na verdade estou pasma por você ter vindo hoje. Eu ficaria envergonhada demais.
    - Gina... – Murmuro, virando-me para ela. – Ontem eu tive todos os meus segredos mais pessoais e particulares transmitidos pela televisão. – Abro os braços. – Como alguma coisa poderia ser mais vergonhosa do que isso?
    - Aqui está ela! – entoa uma voz atrás de nós duas, e Hannah entra no banheiro. – Hermione, seus pais estão aqui para vê-la!


 


    Não. Não acredito. Não acredito nisso.
    Meus pais estão parados perto da minha mesa. Papai está com um elegante terno cinza e mamãe toda emperiquitada de casaco branco e saia azul-marinho, e os dois estão meio que segurando um buquê de flores. E todo o escritório olha para eles, como se fossem algum tipo de criatura exótica.
    Apaga isso. Agora todo o escritório virou a cabeça para me olhar.
    - Oi, mamãe. – Minha voz de repente ficou bem rouca. – Oi, papai.
    O que eles estão fazendo aqui?
    - Hermione! – Exclama papai, fazendo uma tentativa de manter sua voz normal, jovial. – Nós pensamos em... Dar uma passadinha para ver você.
    - Certo. – Digo assentindo atordoada. Como se esse fosse um acontecimento perfeitamente normal.
    - Nós trouxemos um presentinho. – Mamãe está toda animada. – Umas flores para a sua mesa. – Ela pousa o buquê, sem jeito. – Olha a mesa de Hermione, Brian. Não é chique? Olha o... Computador!
    - Esplêndido! – comenta papai, dando um tapinha no computador. Muito... Muito bom mesmo.
    - Esses são os seus amigos? – Quer saber mamãe, sorrindo para as pessoas em volta.
    - Mais ou menos. – Digo, fazendo um muxoxo enquanto Lilá dá um sorriso cativante para ela.


    - Nós estávamos dizendo um dia desses. – Continua mamãe. – Como você deve ter orgulho de si mesma, Hermione. Trabalhando numa empresa grande como esta. Tenho certeza de que muitas garotas teriam inveja da sua carreira. Não concorda, Brian?
    - Sem dúvida! – Acrescenta papai. – Você está se saindo muito bem, Hermione.
    Estou tão pasma que nem consigo abrir a boca. Encontro o olhar de papai e ele me dá um sorrisinho estranho, sem jeito. E as mãos de mamãe estão tremendo ligeiramente enquanto ela pousa as flores.
    Eles estão nervosos, percebo com um certo choque. Os dois estão nervosos.
    Vou tentando entender tudo isso quando Severo aparece na porta de sua sala.
    - Então, Hermione… – Ele ergue as sobrancelhas. – Vejo que você está com visitas, não é?
    - Hmm... É… – Respondo. – Severo, esses são... é... meus pais, Brian e Jane.
    - Encantado. – Diz Severo educadamente.
    - Nós não queremos incomodar. – Responde mamãe, depressa.
    - Não é incômodo nenhum. – Severo dá um sorriso encantador para ela. – Pena que a sala que nós usamos normalmente para as reuniões de família está sendo redecorada.
    - Ah! – Exclama mamãe, sem saber se ele está falando sério ou não. – Minha nossa!
    - Então, será que você gostaria de levar seus pais para... Podemos chamar de almoço antecipado?
    Olho o relógio. São quinze para as dez.
    - Obrigada, Severo. – Murmura, agradecida.


 


É surreal. É completamente surreal.


    É o meio da manhã. Eu deveria estar trabalhando. Em vez disso estou andando pela rua com os meus pais, imaginando o que, diabos, vamos dizer uns aos outros. Nem lembro quando foi a última vez em que fiquei sozinha com meus pais. Só nós três, sem vovô, sem Kerry, sem Nev. É como se tivéssemos recuado quinze anos no tempo, ou algo assim.
    - A gente pode ir ali. – Sugiro, apontando para um café italiano.
    - Boa idéia! – Diz papai calorosamente, e abre a porta. – Nós vimos o seu amigo Draco Malfoy na televisão ontem – acrescenta, como que por acaso.
    - Ele não é meu amigo. – Respondo, seca, e papai e mamãe se entreolham.
    Sentamo-nos a uma mesa de madeira e um garçom traz um cardápio para cada um, e ficamos em silêncio.
    Ah meu Deus. Agora eu estou nervosa.
    - Então... – Começo, e paro. O que quero dizer é: por que vocês estão aqui? Mas pode parecer meio grosseiro. – O que... O que traz vocês a Londres?
    - Nós pensamos em fazer uma visita – Explica mamãe, olhando o menu com seus óculos de leitura. – Bom, eu vou querer uma xícara de chá... Ou o que é isso? Um frapelatte?


    - Eu quero uma xícara de café comum. – Escolhe papai, olhando o menu com a testa franzida. – Eles têm isso?
    - Se não tiverem você vai ter que pedir um cappuccino e tirar a espuma com a colher. – Brinca mamãe. – Ou um expresso e pedir para colocar água quente.
    Não acredito. Eles andaram mais de trezentos quilômetros de carro. Só vamos ficar aqui sentados falando de bebidas quentes o dia inteiro?
    - Ah, e isso me lembra… – Acrescenta mamãe casualmente. – Nós compramos uma coisinha para você, Hermione. Não foi, Brian?
    - Ah... Certo – Digo com surpresa. – O que é?
    - Um carro. – Revela mamãe, e olha para o garçom que apareceu junto da mesa. – Olá! Eu gostaria de um cappuccino, meu marido quer um café comum, se possível, e Hermione gostaria...
    - Eu... Gostaria de um cappuccino, por favor. – Peço distraidamente.
    - E bolos variados – acrescenta mamãe. – Grazie!
    - Mamãe... – Ponho a mão na cabeça quando o garçom desaparece. – O que você quis dizer, vocês me compraram um carro?
    - Só um carrinho para andar por aí. Você precisa de um carro. Não é seguro ficar andando de ônibus. Seu avô está certo.


    - Mas... Eu não posso ter um carro. – Exclamo, estupidamente. – Nem consigo... E o dinheiro que eu devo a vocês? E...


    - Esquece o dinheiro. – Diz papai. – Nós vamos zerar tudo.


    - O quê? – Encaro-o, mais perplexa do que nunca. – Mas não podemos fazer isso! Eu ainda devo...
    - Esquece o dinheiro. – Repete papai, com uma súbita irritação na voz. – Quero que você se esqueça, Hermione. Você não nos deve nada. Absolutamente nada.
    Não consigo absorver isso. Olho confusa de papai para mamãe. Depois de volta para papai. Então, muito lentamente, para mamãe de novo.
    E é realmente estranho. Mas quase parece que estamos nos vendo direito pela primeira vez em anos. Como se estivéssemos nos olhando, dizendo olá e meio que... recomeçando.
    - Nós estávamos pensando no que você acharia de tirar umas feriazinhas no ano que vem. – Propõe mamãe. – Com a gente.
    - Só... Nós? – Digo, olhando a mesa em volta.
    - Só nós três, foi o que pensamos. – Ela me dá um sorriso hesitante. – Pode ser divertido! Você não precisa, claro, se tiver outros planos.
    - Não! Eu gostaria! – Digo rapidamente. – Gostaria mesmo. Mas... Mas e...
    Nem consigo me obrigar a dizer o nome de Kerry.


    Há um silêncio minúsculo, durante o qual mamãe e papai se entreolham, depois afastam os olhos de novo.
    - Kerry mandou lembranças, claro! – exclama mamãe, animada, como se estivesse mudando totalmente de assunto. E pigarreia. – Sabe, ela pensou em ir a Hong Kong no ano que vem. Visitar o pai. Ela não o vê há pelo menos cinco anos, e talvez seja hora de eles... Passarem algum tempo juntos.
    - Certo. – Murmuro, atordoada. – Boa idéia.
    Não acredito. Tudo mudou. É como se toda a família fosse jogada no ar e tivesse caído em posições diferentes, e nada fosse como antes.
    - Nós achamos, Hermione… – Começa papai, e pára. – Nós achamos... Que talvez tenhamos sido... Que talvez não tenhamos notado... – Ele pára e esfrega o nariz com força.
    - Cappu-ccino. – Anuncia o garçom, colocando uma xícara na minha frente. – Café simples, cappu-ccino... Bolo de café... bolo de limão... bolo de choc...
    - Obrigada! – Interrompe mamãe. – Muito obrigada. Acho que podemos continuar sozinhos. – O garçom desaparece de novo e ela me olha. – Hermione, o que queremos dizer é... Nós temos orgulho de você.
    Ah meu Deus. Ah meu Deus, acho que vou chorar.
    - Certo. – Consigo dizer.
    - E nós... – Continua papai. – Isto é, nós dois, sua mãe e eu... – Ele pigarreia. – Nós sempre sentimos... E sempre sentiremos... nós dois...


    Ele pára, um pouco ofegante. Não ouso dizer nada.
    - O que estou tentando dizer, Hermione. – Tenta ele de novo. – Como tenho certeza de que você... Tenho certeza de que todos nós... o que quero dizer...
    Ele pára de novo e enxuga o rosto suado com um guardanapo.
    - O fato é que... É que...
    - Ah, só diga a sua filha que você a ama, Brian, ao menos uma vez na porcaria da sua vida! – Exclama mamãe.
    - Eu... Eu... Amo você, Hermione! – Diz papai numa voz embargada. – Ah meu Deus. – Ele enxuga o olho com força.
    - Eu amo você também, papai! – Respondo com a garganta apertada. – E você, mamãe.
    - Está vendo! – Mamãe já está enxugando os olhos. – Eu sabia que não era um erro ter vindo! – Ela segura a minha mão, e eu seguro a mão de papai, e por um momento nós estamos numa espécie de desajeitado abraço grupal.
    - Sabem... Todos nós somos elos sagrados no ciclo eterno da vida. – Enuncio, com um súbito espasmo de emoção.
    - O quê? – Meus pais me olham inexpressivos.
    - É... Não faz mal. Não importa. – Solto minha mão, tomo um gole de cappuccino e levanto os olhos.
    E meu coração quase pára.


    Draco está junto à porta do café.


 

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Comentários: 4

Páginas:[1]
:: Página [1] ::

Enviado por adharablackdumbledoremalfoy em 31/05/2013

Ahhhhhh pelo amor de Deus ! Como você para numa parte dessa ? To adorando a fic, posta mais !!!

Nota: 5

Páginas:[1]
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Enviado por Srta. Linah Barbosa em 09/05/2013

Nossa gostei muito da sua fic, espero que você poste logo! Amei a reviravolta que você criou um pouco conflitante, mas quero só ver qual será o desfecho. O melhor desse fim é que agora a Hermione vai ter que encarar o Draco. Parabéns pela fic!

Nota: 1

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Enviado por Ceci96 em 15/04/2013

quando vai ser a proxima atualizaçao ? fiquei muito curiosa!!!

Nota: 1

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Enviado por carol malfoy 93 em 10/04/2013

Eu não acredito que você parou nessa parte!!!!!! Quer matar a gente?? kkkkk
Posta logo tá bom??
Beijos 

Nota: 5

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