n/a: antes do capítulo gostaria de dizer a minhas queridas leitoras que adoro os comentários de vocês, é tão gratificante ver o quanto que vocês gostam do que estou postando... A pessoa até fica se achando já que vocês inclusive avisam que não vão comentar e pode ter certeza que eu sinto falta de todas quando não recebo o comentário de vocês...
Enquanto Gina se dirigia à sala de estar, Harry estava em pé, de costas para ela, admirando um retrato dela com a mãe, tirado quando a escritora tinha seis anos.
- Você era mais bonita do que eu me lembrava – disse.
- Essa foto foi retocada várias vezes.
Harry deu uma risadinha enquanto voltava as atenções para uma foto da cachorrinha de Gina, Cindy, toda arrumada e brilhante em sua tiara cor-de-rosa.
- Esse deve ser seu bibelozinho canino.
Cindy tinha certificado do Kannel Club dos EUA e fazia parte do Clube de Terriers Yorkshire da América. Não tinha nada de bibelozinho canino.
- Sim. É minha e de Draco, mas ele a levou daqui quando foi embora – olhar a foto a fez sentir muitas saudades da cachorrinha.
Ele abriu a boca para dizer algo mais. Em vez disso, balançou a cabeça e olhou a sala de relance.
- Aqui parece um bocado com a casa da sua mãe.
A casa não parecia nada com a da mãe. Seu gosto era muito mais vitoriano, e a mãe tendia mais para os clássicos franceses.
- Como assim?
- Em muitas coisas – o olhar se deteve nela. – Só que sua casa é mais femininazinha, igual a você.
Pousou a garrafa sobre a abóbada da lareira.
- Trouxe uma coisa para você, e não queria mostrar na frente das suas amigas. Só para o caso de não ter mencionado aquela noite no Double Tree – colocou a mão no bolso da frente da calça. – Acho que isso é seu.
Tinha um brinco de diamantes entre os dedos. Gina não sabia dizer o que mais a impressionava: ele ter achado o brinco e trazido ou não ter falado nada a respeito diante das amigas. Ambos os gestos eram de alguém que, inesperadamente, tinha consideração. E era uma atitude até mesmo gentil.
Harry pegou-lhe a mão e colocou o brinco de diamante sobre a palma:
- Achei em cima do seu travesseiro naquela manhã.
O calor das mãos espalhava-se por sua pele e alastrava-se pelas pontas dos dedos. A sensação era perturbadora e tão indesejada quanto as lembranças de como ele estava vestido, ou melhor, como não estava vestido, que lhe invadiu a cabeça e se fixou no cérebro.
- Eu achei que tinha perdido isso – olhava-o dentro dos olhos. Havia algo puramente físico em Harry. Uma combinação de força sofisticada e energia sexual ardente, impossível de ignorar. – Ia ser difícil conseguir um igual.
- Também não devolvi quando você estava na casa de sua mãe.
Os polegares das mãos roçaram de leve e um calor se espalhou pela palma da mão de Gina. Ela fechou a mão para manter consigo os formigamento quente, apertando com força os dedos, a fim de impedir que a sensação passasse para o pulso e se estendesse até o peito. Tarde demais. Afastou a mão. Era crescida o bastante para reconhecer o calor acariciando-lhe a carne. Não queria sentir nada por Harry. Nem por qualquer homem. Nada. Acabara de romper um relacionamento de dois anos. Embora fosse cedo demais, aquele sentimento não tinha nada a ver com emoções profundas e tudo a ver com desejo.
- Conte-me o que foi que aconteceu no Double Tree no sábado à noite.
- Eu contei.
Recuou um passo.
- Não. Você não contou nada. Da hora em que você me achou sentada no balcão do bar conversando com um homem banguela de camiseta regata até eu acordar sem roupa, aconteceu alguma coisa mais.
Harry sorriu, como se tivesse se divertido com algo que Gina dissera. O sorriso esfriou a atmosfera sexual.
- Digo se você me contar o que você e suas amigas estavam comemorando.
- Por que você acha que a gente estava comemorando algo?
Ele apontou para a champanha.
- Eu imagino que essa garrafa tenha custado perto de cento e trinta dólares. Ninguém bebe um Dom Perignon sem motivo. Além do mais, acabei de conhecer suas amigas, então nem vem com esse papo-furado de “grupo de orações”.
- Como é que você sabe quanto custou essa champanha?
- Eu sou repórter. Tenho uma capacidade incrível para os detalhes. Então vê se não dificulta as coisas para mim, Gina.
Ela cruzou os braços acima dos seios. Por que ela iria ligar se ele ficasse sabendo do teste de HIV? Ele já sabia que ela ia fazê-lo.
- Hoje fui ao médico e... lembra segunda-feira, quando eu disse a você que ia fazer um teste?
- De HIV?
- É. – não conseguia encará-lo, e baixou os olhos para os óculos escuros presos ao pescoço dele. – Bom, hoje eu descobri que deu negativo.
- Ah! Boas notícias.
- São, sim.
Harry pousos os dedos abaixo do queixo dela e trouxe o olhar para perto do dele.
- Nada.
- O quê?
- A gente não fez nada. Nada de divertido. Você chorou até perder os sentidos, e eu fiz um saque ao seu minibar.
- É só isso? E como fiquei sem roupa?
- Pensei que já tinha contado.
Tinha contado uma porção de coisas.
- Conta outra vez.
Ele encolheu os ombros.
- Você se levantou, tirou a roupa e rastejou de volta para a cama. Foi um show daqueles.
- Que mais?
Harry sorriu um pouco.
- Eu menti sobre o cara do bar no Double Tree. O que usava um boné de beisebol e uma camiseta regata.
- Sobre beber Jägermeister? – indagou, cheia de esperança.
- Não, não... Você estava mesmo entornando uma Jägermeister. Só o cara que não era banguela nem tinha piercing no nariz.
O que não chegava a ser um alívio.
- Só isso?
- Só.
Não sabia se podia acredita nele. Mesmo tendo trazido o brinco e a poupado de uma explicação embaraçosa em frente das amigas, não achava que ele ia mentir para poupar-lhe os sentimentos. Deus sabe que ele nunca agira assim no passado. A mão apertava o diamante.
- Bom, obrigado por ter trazido o brinco para mim.
Harry sorriu.
- Tenho um motivo futuro.
É claro que ele tinha.
- Você parece preocupada – ergueu as mãos como se quisesse render-se. – Prometo que não vai doer nem um pouco.
Gina voltou-se e guardou o brinco na porcelana cloisonné sobre a mesa de café.
- A última vez que você disse isso acabou me convencendo a brincar de médico – ela se endireitou e apontou para o tórax dele. – Acabei totalmente nua.
- Pois é – respondeu, rindo. – Eu lembro, mas não parecia que você não estava querendo brincar.
Dizer “não” nunca foi um problema para ela. Não mais.
- Não.
- Você nem sabe o que eu vou perguntar.
- Não preciso saber.
- E se eu prometer que, desta vez, você não vai acabar nua? – o sorriso dele passou para os lábios dela, pela garganta, pelos dedos, repousando no vestido, entre os seios. – A menos que você insista.
Gina apanhou as três taças vazias e a garrafa de champanha.
- Esquece – respondeu, entre um suspiro, enquanto saia da sala.
- Eu só preciso de uma idéia sobre o que dar para o meu pai de aniversário.
Ela voltou a olhá-lo.
- Só isso? – devia haver algo mais.
- Só. Desde que tive de esconder o brinco, pensei que você pudesse me indicar a direção certa, me dar algumas idéias. Apesar de papai e eu estarmos tentando nos conhecer de novo, você conhece ele melhor do que eu.
Certo. Agora ela estava se sentindo mal. Sendo preconceituosa, e não era justo. Quando criança, ele era um trapaceiro de fala mansa, mas isso já fazia muito tempo. Sem dúvida, ela não gostaria que a julgassem por coisas que dissera e fizera na infância.
- Dei-lhe um pato de madeira antigo – respondeu, entrando na cozinha, os saltos dos sapatos pipocando pelo piso de madeira maciça. – Talvez você possa dar um livro sobre escultura em madeira.
- Um livro ia ser bom – Harry a acompanhava. – O que você acha de uma vara de pesca nova?
- Não sabia que ultimamente ele pescava – Gina colocou as taças e a garrafa sobre a bancada de granito no meio da cozinha.
- Ele e eu pegamos umas trutas na represa hoje à tarde – reclinou-se na bancada e cruzou os braços sobre o tórax. – O equipamento dele já é bem velhinho, assim pensei em lhe dar um conjunto novo.
- Tratando-se de seu pai, você tem de ficar atento às marcas.
- Por isso eu achei que você podia me ajudar. Anotei o que a gente vai precisar.
Gina se deteve e, lentamente, voltou-se para Harry:
- A gente?
Ele encolheu os ombros:
- Claro. Você vem comigo. Tudo bem?
Havia algo errado. Ele não a olhava nos olhos e... deteve o fôlego. O verdadeiro motivo da visita inesperada ficou claro e cristalino.
- Não tem nada de “a gente”. Você veio aqui me convencer a fazer você dar uma vara de pesca para seu pai. Com a minha ajuda.
Então ele a fitou e lançou seu sorriso mais encantador:
- Querida, eu não sei onde ficam as lojas de equipamentos esportivos da cidade. E, na verdade, não vejo problema em sairmos os dois.
- Não me venha com esse papo de “querida” – que idiotice! Havia lhe dado o benefício da dúvida, se sentindo mal por ter feito um mau julgamento e ali estava ele, no meio da cozinha, tentando fazê-la levar gato por lebre. Cruzou os braços sobre o peito. – Não.
- Não por quê? – deixou as mãos caírem – Mulheres adoram fazer compras.
- Comprar sapatos, não varas de pesca. Dããã! – rosnou por dentro e fechou os olhos. Tinha acabado de dizer “Dããã”? Igual a quando tinha dez anos?
Era óbvio que Harry tinha se divertido, e ele riu:
- “Dããã”? E o que vem depois disso vai me chamar de bananão?
Gina respirou fundo e abriu os olhos:
- Adeus, Harry – disse, enquanto se dirigia à porta da cozinha. Deteve-se e apontou para a frente da casa. – Está por sua conta.
Harry desencostou da bancada e caminhou na direção de Gina. Lento e tranqüilo, como se não tivesse pressa nenhuma em cumprir com as obrigações.
- As suas amigas estão certas, sabe?
Deus do céu! Ele escutou por acaso a conversa sobre “presença”?
Deteve-se ao passar por ela e disse-lhe ao ouvido:
- Talvez você não tenha sido a garotinha mais bonita de sapatos de couro impecáveis, mas acabou ficando uma mulher linda. Principalmente quando está toda atarefada.
O aroma dele era bom, e se ela virasse o rosto só um pouquinho conseguiria enterrar o nariz no pescoço dele. O desejo de fazê-lo a deixou alarmada; manteve-se o mais imóvel que pôde:
- Esquece. Não vou fazer compras no seu lugar.
- Por favor!
- Sem chance.
- E se eu me perder?
- Arranja um mapa.
- Não preciso. O Land Cruiser tem um sistema de navegação – com um risinho, ele recuou. – Você era mais divertida quando criança.
- Eu era mais inocente. Eu não sou mais uma garotinha hoje, e você não pode me enganar, Harry.
- Gina, você queria que eu enganasse você – sorriu e caminhou até a porta da frente. - Ainda quer - disse, e partiu antes que ela pudesse responder ou expressar um adeus ou um "estimo as melhoras".
Andou de volta até a cozinha, pegou as taças de champanha e colocou-as perto da pia. Ridículo! Ela não queria ser enganada. Só queria que ele gostasse dela. Virou-se para a torneira e adicionou algumas gotas de detergente de limão. Só queria que ele gostasse dela. Achou que aquela era a história de sua vida. Triste e um pouco patética, mas verdadeira.
A água correu por instantes antes de Gina desligar a torneira e colocar as taças na água morna e ensaboa-las. Se fosse sincera e examinasse bem o passado, viria os mesmos padrões destrutivos em sua vida. Se fosse sincera ao ponto de magoar, reconheceria que estava deixando a infância influenciar-lhe a vida adulta.
Embora admitir aquilo de fato fosse bem difícil, era óbvio demais para ignorar. Recusara-se totalmente a levar aquilo em conta durante tanto tempo porque era um clichê, e ela odiava clichês. Odiava escrevê-los: mais que isso, odiava ser um deles.
Tivera aulas de Sociologia na faculdade e lera estudos efetuados em crianças criadas por pais solteiros. Tinha pensado que escapara das estatísticas, que mostravam que garotas que cresciam sem um pai apresentavam uma propensão maior a começar mais cedo a vida sexual e corriam mais riscos de cometer suicídios ou atividades criminosas. Nunca tivera um só pensamento com relação a suicídio, jamais fora presa e era caloura na faculdade quando deixou de ser virgem. Amigas que vinham de casamentos com pais separados haviam perdido a virgindade no colégio.
Assim, havia se convencido de que não sofria dos "problemas clássicos com o papai".
Não, não era promíscua. Tinha apenas um vazio emocional e, no subconsciente, procurava a aprovação de homens que preenchessem seus vazios interiores. E não precisava se esforçar muito a fim de descobrir, em sua vida, por que sempre buscara a atenção dos homens para se sentir completa. Gina lavou os copos e deixou-os secar em uma toalha.
Sob todos os aspectos, havia sido criada sem um pai. Quando visitava o dela, ele sempre estava morando com uma mulher bonita, e sempre eram mulheres diferentes. Para uma garotinha de óculos de lentes grossas e uma boca larga que não se ajustava ao rosto, todas aquelas belas mulheres a fizeram se sentir cada vez menos atraente e mais insegura. Não por culpa delas. A maioria a tratara com gentileza. Nem culpa de Gina. Era uma criança - aquilo era apenas a vida, a vida dela - e ela ainda permitia que as antigas inseguranças influenciassem seus relacionamentos com homens. Depois de tantos anos.
Abriu uma gaveta e apanhou uma toalha. À medida que enxugava as mãos, chegou a uma conclusão dolorosa: havia encontrado homens aquém dela porque, no fundo, sentia que, se os tinha em sua vida, era por sorte. Não era bem o grande insight pelo qual esperava e que explicaria seu relacionamento com Draco. Não respondia por que não enxergava, o que tinha sido tão óbvio para todos, mas explicava por que se envolvera com um homem que jamais poderia amá-la do modo como qualquer mulher merecia ser amada pelo homem da sua vida.
O telefone perto das caixas de porcelana tocou, e ela bateu os olhos no identificador de chamada. Era Draco. Desde que o pusera para correr, ele ligava todos os dias. Nunca atendeu, e ele nunca deixava uma mensagem. Daquela vez, resolveu atender.
- Fala.
- Ah, você está aí.
- Estou.
- Como você está?
Ouvir aquela voz fez com que todos seus vazios interiores doessem.
-Bem.
- Achei que talvez pudéssemos sentar e conversar.
- Não. Não há nada para dizer - fechou os olhos e enfrentou toda a dor. A dor da perda e de ter amado um homem que não existia. - É melhor cada um de nós cuidar da própria vida.
- Eu nunca tive a intenção de magoar você.
Gina abriu os olhos.
- Nunca entendi o significado dessa frase - riu sem humor. - Você me namorou, fez amor comigo e me pediu em casamento, mas não sentia atração física por mim. Em qual dessas partes você nunca teve a intenção de me magoar?
Ele ficou em silêncio por vários instantes.
- Você está sendo sarcástica.
- Não. Para ser sincera, só quero saber como você conseguiu mentir para mim por dois anos e afirmar que nunca quis me magoar.
- É verdade. Eu não sou gay - disse, mentindo para ela e talvez para si próprio. - Sempre quis ter mulher, filhos e uma casinha com cerca. Ainda quero. Isso me torna um homem normal.
Quase sentiu pena dele. Estava mais confuso que ela.
- Isso faz com que você queira mostrar que é algo que não é.
- Que diferença isso faz? Gay ou hétero, todo homem é infiel.
- O que não os livra da culpa, Draco. Só mostra que eles são tão mentirosos e falsos quanto você.
Assim que desligou, soube que era a última vez que se despedia dele. Draco não telefonaria mais, e parte dela sentia saudades. Uma parte que ainda o amava. Ele não havia sido apenas seu noivo, mas também um dos melhores amigos que tivera, e durante muito tempo ela sentiria falta dessa amizade.
Secou as taças e as colocou na arca de porcelana da mesa de jantar. Os pensamentos se voltaram para Harry e seus modos furtivos e irritantes. E os feromônios que fluíam dele como ondas de calor rodopiando pelo deserto de Mojave. Feromônios que deixaram Tonks e Luna aturdidas e deslumbradas. Não importava quanto odiava reconhecer, era impossível negar que ela também prestava muito atenção nele. O modo como ele olhava, o cheiro e o toque das mãos dele nas mãos dela.
O que estava errado com ela? Acabara de terminar um relacionamento sério e já estava pensando no toque de outro homem. Agora, porém, que estava pensando naquilo em um momento de sensatez, percebera que sua reação a Harry talvez tivesse mais a ver com o fato de não ter sexo de boa qualidade há tempos do que com o homem em si.
Ele quer você, dissera Tonks, e Luna ajuntou: Você precisa de um esparadrapo para seu cotovelo. Elas, no entanto, estavam enganadas. Ambas. A última coisa de que precisava, um esparadrapo ou um homem permanente, não importa quanto tempo ela estava sem sexo de boa qualidade, era um homem.
Não. Tinha de estar bem consigo mesma antes de levar em consideração permitir que um homem entrasse em sua vida. Na hora em que se arrastou para a cama naquela noite, Gina tinha certeza de que sua reação a Harry havia sido puramente física. A reação de qualquer mulher diante de um homem bonito. Só. Normal. Natural. E ia passar.
Desligou as luzes da cama e deu risadinhas na escuridão. Ele imaginava que iria aparecer na casa dela, fazê-la de trouxa e mandá-la ir às compras por ele. Enfeitiçá-la, como fizera no passado.
- Quem é o trouxa agora? - sussurrou. Pela primeira vez na vida, não havia sido tapeada por Harry.
Na manhã seguinte, entretanto, enquanto o café fervia, Gina abriu a porta da frente para apanhar o jornal quando uma vara de pescar caiu dentro de sua casa. Um bilhete nas costas de um guardanapo estava preso em uma fresta de suporte. Ali estava escrito:
Gina
Por gentileza será que você poderia levar isto para a festa de amanhã à noite? Sou uma tragédia com essas coisas e não quero envergonhar o velho na frente dos amigos dele. Tenho certeza de que você vai fazer um belo trabalho.
Valeu.
Harry.