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9. Chapeleiro Maluco


Fic: Chapeleiro Maluco - fremione


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Acharam que a fic tinha esse nome á toa? Bem, aproveitem, e olha que é agora que a história começa. Obs: a pronuncia de Niatts é Naiétes.


 


CAP 7 Chapeleiro Maluco


 


 


POV Fred 


 


 


            Sabe quando sua vida está ruim e parece impossível que ela piore? Então, eu tenho uma informação bem valiosa para você: ela sempre pode piorar. Se você morreu em acidente de carro? Então você vai para o Inferno simplesmente por dirigir bêbado. Se o amor da sua vida não te ama? Um bando de assassinos treinados vai te perseguir em um beco escuro. Se você quiser ao menos um minuto de paz? Seu irmão gêmeo vai enlouquecer. Mas para tudo tem uma solução. No meu caso, bastou me trancar no banheiro e lavar meu rosto com água fria.


 


            Espinhas. Tantas espinhas... como pode uma coisa dessas? Pareço até um vulcão em erupção! Dá medo de olhar para mim mesmo... como o George consegue se achar bonito? Ele é tão feio quanto eu!  Ah, é, ele é um louco que fala sozinho e acredita que uma mulher mora de aluguel na mente dele. Não posso fazer nada se ele veio com defeito de fábrica. A culpa é de mamãe.


 


            - Por que não sai logo dessa porra de banheiro, vagabundo? Vá conquistar a Hermione! – isso mesmo caro gêmeo, berre para todo o Beco Diagonal ouvir. 


 


            Acha que tem comprimidos aqui? Ou que dá para jogar um Avada Kedrava em mim mesmo? Eu quero morrer, morrer, morrer... minha vida não faz mais sentido! É tudo merda! Um monte grande e fedorento de merda... Acha que se eu colocar minha cabeça dentro da pia e ligar a torneira consigo me afogar? Bem, só tentando. Ah... é nojento. Não vai dar... esse banheiro é um lugar nojento demais para morrer. Quer dizer... filmes de terror são lugares nojentos para morrer. É tudo cheio de sangue falso e 80% das pessoas morrem peladas ou transando. Já repararam? É tétrico! O que eles tem contra as pessoas que morrem vestidas? Se Sirius Black chegasse lá na Toca e eu estivesse tomando banho, pediria educadamente que ele esperasse que eu me vestisse para depois me matar. Imagina chegar no necrotério peladão? É humilhação pós-morte! Devia ser crime... bem, se um dia eu tiver dinheiro ou poder suficiente para mandar criarem uma lei seria essa: Pena de morte para todo assassino que matasse uma pessoa pelada. Ah, esquece. Você não vai me ajudar a fazer bosta de lei nenhuma mesmo...


 


            - Frederico, Frederico! Saia logo daí e vá ver Hermione Granger. Está quase na hora do jantar... não me diga que o Niatts te assustou o suficiente para se esconder no banheiro? – George, cala essa boca!


 


            Niatts. Niatts. Qual o problema com a luz? Qual o problema comigo?  Minha vida tá coisada, só pode. Vejo asas e espadas numa cerveja amanteigada. Tudo o que eu vejo, ouço, sinto ou penso me leva á Hermione Granger. Tenho vontade de esmagar algo ou alguém. Sou perseguido por assassinos trouxas com facas. Um tal de Niatts (que puto nome é esse???) quer me matar. Segundo George e sua loucura eu sou um Guerreiro. Meu irmão virou um maluco. Você acha que tem alguma coisa errada acontecendo comigo, ou isso tudo é só por causa da adolescência?   


 


            - Fredinho, amor da minha vida... mamãe já mandou descermos – fez uma pausa, esperando uma resposta que nunca viria – Vai descer agora ou esperar que o Roniquinho acabe com a comida toda?! Que merda, sai daí porra!


 


            Ele que fique o quão irritado quiser, não saio daqui nem a força. De repente o mundo se tornou um lugar com qualidade de vida tão baixa quanto nos filmes de terror. Ou em Azkaban. Será que seu eu disser Accio Dementador, um aparece e acaba com minha alma de uma vez por todas? É demais pra mim... não posso suportar... é agora ou nunca:


 


            - Accio De... – ah, quase...


 


            - FREEEEEEED! MEU MARIDO, SAIA DO BANHEIRO E DEIXE DE SER DEPRESSIVO! – George. É sempre George... como ele sabe que estou sendo depressivo?


 


            Mais água fria na cara. É, acho que agora da para encarar o mundo além da porta do banheiro (bom, se eu consigo encarar meu reflexo e a cara do George, consigo encarar qualquer coisa). Virei para trás e resmunguei um Alorromora de má vontade. Quis voltar a me trancar no banheiro assim que vi George fazendo borboleta (sim, aquele negócio de bailarina) na cama. Não gente, loucura não tem cura. Tinha os olhos fechados e as mãos nos pés, a cada “bater de asa da borboleta”, virava a cabeça para um lado, soltando um suspiro. Ao menos não é mais a dança da galinha...


 


            - FREDINHO, SEU LINDO FEIO. SAIA DAÍ AGORA QUE VOU FAZER UM STRIP-TEASE, NÃO VAI QUERER PERDER A VISÃO DO MEU CORPO, NÃO É??? – coisas de George Weasley, não dá nem pra comentar. Suspirou e virou a cabeça para outro lado.


 


            - Eu não queria é ter saído – resmunguei fazendo menção de entrar no meu mais novo ‘ponto seguro’, a prova de George. Ele abriu os reluzentes olhos cor de safira. Talvez eu não seja tão feio assim.


 


            - Então quando eu ofereço uma visão do meu corpo lindo, perfeito e maravilhoso você aparece, né? Interesseiro – não, eu não me dei ao trabalho de responder. Revirei os olhos, que por um breve momento observaram minha camisa respingada de sangue preto.   


 


            Mamãe ia me matar, torturar meu cadáver, me ressuscitar e depois me torturar de novo. É essa a pena Weasley para estrago de roupa. Isso se não fosse pior... já que aquele suéter estava mais preto que azul. Sério, de onde exatamente eu tirei aquele feitiço pra cortar? Não costumo ser do tipo maligno... na maioria das vezes. E do mesmo jeito, foi em defesa de Hermione e minha defesa. Se eu deixa-se o cara escapar ileso tenho certeza de que não seria bom para ela... só não me pergunte o por que, sei de muitas coisas que não sei o por que sei. E não sei se isso fez sentido, mas foda-se.


 


            - É melhor trocarmos esses suéteres antes que mamãe enfarte – George ecoou meus pensamentos, ficando de pé e massageando as têmporas. Dor de cabeça, ele tinha dito. Tiramos os suéteres e dependuramos em um cabideiro. Ele foi procurar outra roupa em nosso malão e eu fui tentando todos os feitiços para limpar e reverter que conhecia. Não funcionou. Mais mal humorado do que em qualquer outro momento daquele dia, cruzei os braços em frente ao tórax, esperando George me dar outra coisa para vestir. Fiquei pensando no que Hermione estaria fazendo... e decidi que sou paranoico. Só pode! É possível amar alguém tanto a ponto dessa pessoa ser tudo que você se importa? Dessa pessoa ser como... seu motivo de vida? Não sei se é normal... mas é bom.


 


            - Toma isso – resmungou George, tacando um casaco preto de zíper no meio da minha cara – E isso – agora uma camisa branca (mais para cor de encardido, pra ser mais exato) e fedorenta, que devia ter sido lavada pela última vez no ano passado.


 


            Selecionou uma roupa igual para ele, sendo que a camisa branca não fedia. Amarrei a cara e vesti. All Star fudido. Camisa fedida (e fudida). Casaco preto e gótico com capuz. Cabelo sujo. Cara abatida. É mais fácil Hermione sair correndo do que chegar perto. Na verdade, é mais provável que um raio caia na minha cabeça do que eu vá conversar com ela nesse estado deplorável. Levantei o capuz. Com a cara abatida e a franja escorrida só me faltava o lápis de olho pra entrar numa banda emo. E talvez não seja uma má ideia, posso perguntar ao Rony se Hermione curte essas músicas...


 


            - Vai ficar aí admirando sua beleza inexistente ou vai jantar? – indagou George, já na porta e... ele não tinha ficado tão tenebroso quanto eu! Merda!


Afundei mais ainda o capuz na cabeça e fui arrastando os pés. Minha imagem refletia meu humor.


 


            Sombrio. Péssimo. Depressivo. Horroroso. Emo. Gótico. Infeliz. Feio. Mal amado. Sofredor. Abatido. Assustado. Reprimido. Triste. Com saudade (mesmo que tenha visto Hermione no almoço). Irritado. Raivoso. Apaixonado. Preocupado. Assassino. Puto da vida com a vida.


 


            - Caramba, Fred. Mamãe já te levou no Saint’ Mungus? Cê tá péssimo! Deve ser alguma disfunção hormonal... qual é o hormônio da felicidade... ah, foda-se não estudamos isso em Hogwarts! – ignore meu irmão, por favor.


 


            Por falar em irmão... Percy. Ele não ia nos matar hoje mais sedo? Que desaforo! Será que ele nunca ouviu falar que as melhores pessoas são aquelas que matam quem querem matar? Não, pera... é: amam quem querem amar  ou matam quem querem matar? Confundi aqui... deixa pra lá...


 


E falando em irmãos... cadê o filho da puta do Rony com a Hermione? Ele acha que pode sumir assim sem mais nem menos junto com ela? Nem que Sirius Black mate a vaca tossindo! Ah, agora ele vai ver... já estou precisando descontar meu mau humor em alguma coisa, o Roniquinho será o suporte perfeito! Eu e George começamos a descer as escadas, fui ensaiando minha mais próxima briga com Roniquinho. Não é que eu o odeie... é só que ele é uma pessoa bem fácil de se irritar, e ele nunca guarda rancor por muito tempo (talvez o cérebro dele não tenha espaço suficiente para as memorias) . Viu? É por isso que está sempre levando chumbo de todo mundo, as pessoas precisam descontar a raiva em alguma coisa (no caso ele), mas todo mundo gosta do Rony. Só ele, como o retardado que é, acha que é alguma espécie de excluído do mundo.


 


George foi na minha frente, saltitando como um cabrito e falando com o próprio cérebro. Ultimamente algumas coisas tem me levado a crer que sou a única pessoa normal na família. O Gui? Vida loka. Carlinhos? Ele cuida de dragões. Percy? Pessoa mais chata na face da Terra. George? Nem preciso dizer. Ronald? Sofre de burrice cerebral aguda. Gina? Maluca. Papai? Maníaco. Mamãe? Louca, ruiva, e com sete filhos. Eu? Apaixonado. Quem é pior? Acho que eu. Sou uma péssima pessoa.


 


Meus amigos? Tenho um só. Tinha. Lembra de quando eu disse que percebi que sou podre e nada que eu fizesse me ajudaria achegar aos pés de Hermione Granger? Pois é, eu realmente descontei minha raiva em todo mundo que estava por perto. Professores, irmãos, primeiro-anistas, Lino Jordan. Se ele não me odiasse talvez tivesse até me chamado para assistir mais filmes de terror na casa dele. Anaconda 1, 2, 3, 4 (aquilo é comédia, sério), sexta-feira 13 (vou casar a Gina com o Jason), Água Negra (fiquei um semana sem conseguir entrar sozinho no banheiro), etc. Por que ele me odeia? Deixe me ver... acertei uma goles na cabeça dele (o pobrezinho estava sentado na arquibancada vendo o treino, meu ódio por mim mesmo achou que seria uma boa vítima), disse que ele era mais burro que o rato sem dedo do Rony, explodi o banheiro feminino com bombas de bosta e pus a culpa nele. Ah, e também disse que ele não prestava e era a pior pessoa que eu poderia ter conhecido. Nem é muita coisa, mas ele ficou com raiva... preciso fazer as pazes. Por que sou tão ruim quando a Hermione não está por perto?  Vou por meu nome no Death Note, é a forma mais foda de se cometer suicídio atualmente.


 


Chegamos no saguão, George praticamente encenava a dancinha de Dançando na Chuva (é esse o nome?), foi cabritando  até a mesa em que mamãe estava com papai. Nada de Percy, o assassino ruivo. Melhor assim. Sinceramente eu contava com o fato de todos já estarem na mesa de jantar, odeio ficar esperando.  E George rebolava mais que as mulheres nos clipes daqueles rappers com titica na cabeça. Mais tarde vou dizer que aquilo é ligeiramente suspeito da parte dele, uma coisa é ser feliz e de bem com a vida, outra completamente diferente é imitar o John Travolta. Não importa se você ganhou na loteria, dançar nunca é necessário. Principalmente se você for George Weasley.


 


- Eu sei que sou a oitava maravilha do Universo, Fred. Mas tem tempo para admirar a minha sensualidade depois, estamos no mesmo quarto, esqueceu? – por favor, eu imploro, por que Sirius Black não aparece aqui e lança um Avada Kedrava bem no meio da testa do George (ou na minha)? POR QUE??? O que te fiz de tão ruim, Merlin?


 


E o safado do meu gêmeo ainda deu aquela piscada de olho. Agora ele me paga! Merlin, todo mundo olhando! Será que tem como lançar um Obliviate coletivo? Seria ótimo se as pessoas se esquecessem de todos os micos que o George já me fez pagar...


 


- Ui, que sexy! Somos parentes! – dessa vez não entendi, George olhava para uma mesa atrás de mim, me virei e... mas que beleza, o azar me ama!


 


George ainda nem tinha chegado na mesa dos nossos pais e já estava voltando o caminho. Por um motivo bem interessante, chamado Hermione Granger. E ela tinha visto tudo. Desde a minha chegada sombria e depressiva até o George soltando a bicha louca. Não, eu não fazia a mínima ideia do que era sentir vergonha até aquele momento. George passou do meu lado, mexendo os cabelos como a Olivia Newton- John em Xanadu (juro que se ele colocasse uma tira de lantejoulas na cabeça ficariam iguais, juro). Rebolando que nem a Madonna foi até a mesa de Hermione, o segui, com a cara vermelha, tanto por raiva quanto por vergonha. Sem dúvida alguma sou uma das pessoas mais humilhadas do planeta terra (ao menos não morri pelado, ainda).


 


Logo parei de pensar baboseiras e percebi que Hermione estava sozinha e um pouco cabisbaixa. Rony, aquele imbecil... ah, agora ele me paga. George se sentou, no que ele diria ser seu jeito sexy de ser. Depois mexeu na franja em estilo Justin Bieber (John Travolta, Olivia Newton- John, Madonna e Justin Bieber, é ele está bem inspirado hoje). Tinha evitado olhar Hermione demais até aquele momento mas se tornou inevitável assim que George sentou na mesa (é na mesa, ele não se dignou a puxar a porcaria da cadeira).  Os cabelos castanhos, macios e brilhantes de Hermione lhe cobriam o rosto de forma quase proposital, ela estava olhando para baixo, no próprio colo. E o fdp do George olhava descaradamente para as pernas dela! Como ele ousa? Tudo bem que respeito não é o ponto forte dele... poxa somos irmãos! Gêmeos!  Quando eu estiver sozinho naquele quarto e ele dormindo vou... vou... tirar as roupas dele e matá-lo! Um cadáver pelado, chupa essa sociedade! E... uma coisa soltou um ruído, eu não conseguia ver por cousa da mesa. Mas o ruído veio do colo de Hermione, me inclinei um pouco mais para frente e percebi que não eram exatamente as pernas dela que meu gêmeo filho da puta estava olhando.


 


Um gato. Gordo e ruivo com cara amarrada (se é que gatos podem ter cara amarrada), olhos cor da âmbar cheios de remela  e sonolentos. Ah, e garras muitíssimo afiadas. Capazes de furar carne de trasgo. Pena que percebi isso um pouco tarde demais, a criatura já estava na minha cara. Me arranhando, puxando o tecido da blusa, terminando de destruir o trabalho mal feito da natureza que eu sou. Ouvi Hermione soltar um gritinho agudo, e como tudo fica mais bonito na voz dela quase abri um sorriso, mas como tinha um gato dependurado na minha cara isso foi meio impossível. Fui tentando puxar a criatura com as mãos, mas nada dele me largar. Eu só via um borrão laranja e um pinto. É, o gato era macho. E garanto que de todas as visões do dia (meu reflexo, o surto do tô maluco, o Rony, Niatts e seus capangas, etc) essa com certeza foi a pior. Mas graças a Merlin a fera acalmou, quando dei por mim não tinha mais um pinto de gato na minha cara. Eu estava olhando para cima e sentindo meu rosto arder com os arranhões. Senti até um pouco de sangue escorrer pela minha bochecha esquerda. Lentamente fui abaixando o rosto e me deparei com a seguinte cena: Hermione com as maçãs do rosto coradas reclamando com o gato, e o George rolando de rir em cima da mesa. Pensei em reclamar com ele, por deixa-la acanhada. Mas pelo movimento dos ombros dela percebi que também se controlava para não rir. Ótimo!


 


- Esse Bichento não é uma graça? – falou George entre uma gargalhada e outra – Deve ser meu parente! É ruivo e gato que nem eu!


 


Ás vezes fico me perguntando se ele tem noção de ridículo (ou se ele pensa antes de falar). Tudo me leva a crer que não. Voltei meu olhar para Hermione, a criatura assassina já tinha se alinhado em seus braços, graças a Merlin. Agora a mãe dos meus filhos olhava para mim, com um sorriso largo. Os dentes brancos reluzindo, os lábios róseos e carnudos mantinham seu contorno perfeito, estavam úmidos e pareciam estranhamente convidativos. Acha que se eu beijá-la agora vai ser muito abuso da minha parte? É, vai sim. Fui reparando mais... ela tinha um queixo delicado, sem nenhuma marca de espinha, pinta ou imperfeição, apenas a pele lisa e macia, como no resto do rosto. O nariz também tinha a delicadeza suprema, e algumas sardas, agora que eu olhava de perto. Mas as sardas eram simétricas de um lado e do outro, não parecia lá muito humano. As sobrancelhas marcavam 1000 pontos no placar da perfeição. E os olhos... ah, eles eram o meu guarda-roupa de Nárnia. Sempre que eu os olhava ia para outro mundo, a cor de âmbar tinha o brilho e o poder do ouro. E pareciam indefesos e assustados, precisando de proteção. Da minha proteção. Ah, e eles também sorriam para mim. Os olhos. Brilhavam tanto quanto a vida, e eu me esquecia de tudo. Minha família, meu nome, tudo. Como se meu cérebro saísse da minha cabeça por um instante e eu ficasse a deriva. Planando em algum lugar muito distante daqui... um lugar onde tudo tinha a cor daqueles olhos. Quer dizer, a cor daqueles olhos e o som das batidas do meu coração. Hermione Granger era minha verdade. Meu mundo. Meu lugar. Meu amor. E eu não deixaria que aqueles olhos se fechassem. Jamais. Enquanto eles estivessem abertos eu ainda faria sentido. E você não precisa entender isso, ninguém entende o amor. Nem eu.


 


- Sabe, como não sou egoísta vou deixar que as outras pessoas desfrutem um pouco da minha presença! Kiss kiss, bye bye, vejo vocês no jantar! – e essa foi a grande saída de George, ele pulou da mesa, fez sinal de paz e amor e saiu mandando beijos e dançando.


 


Reparei que eu devia ter ficado um bom tempo encarando Hermione, achei que seria o momento adequado para morrer de semgracesa, mas aí percebi que ela também me encarava. O que é bem estranho, já que me falta a beleza. Hermione parecia bem entretida em me observar, não posso dizer que não fiquei feliz com isso. Um sorriso rasgava meu rosto quando o filho da puta do gato resolveu miar, trazendo Hermione para a realidade. Ela corou com toda a força que tinha, e eu também. Seus olhos brilhavam com um pedido de desculpas, não consegui resistir a continuar sorrindo.


 


- Oi – sussurrei, é, com tantas coisas a dizer me veio justo isso. Nota dez para mim.


 


- Oi, você é o Fred, não é? – e a menina nem sabe quem eu sou... posso morrer agora ou a depressão tem que ficar mais forte ainda?


 


- Sim, o próprio Frederico Gideão Weasley. Prazer, mademoiselle – me inclinei fazendo uma reverencia e peguei sua mão livre, a levando até meus lábios. Não tirei meus olhos dos dela, em momento algum.


 


No momento em que meus lábios tocaram a pele dela uma corrente de vento passou pelos meus nervos. Não, não foi a famosa corrente elétrica da qual as pessoas tanto insistem em falar. Foi como se todo o meu corpo estivesse aberto e fosse ventilado, me fazendo ter um calafrio. Coisa que, sabe se lá como, ela também teve, e corou com toda a violência que o Mike Tyson tem dentro de um ringue. O contato entre meus lábios e sua pele macia e perfumada foi quebrado pelo sorriso que não pude conter. E pela primeira vez na vida me sinto no direito de dizer essas quatro palavras: EU SOU FODA DEMAIS! Chupa essa, Romeu, chupa essa todos os heróis de romances que existem nesse mundo! Eu consegui! Sou fodástico demais, véi... Hermione Jane Granger teve um calafrio com um beijo meu! Um pequeno passo para meu corpo, uma maratona inteira percorrida por mim! 20 segundos atrás ela não sabia quem eu era, agora ela suspira só de me olhar nos olhos. Vem aqui Romeu, e faz melhor! Jogada de mestre essa minha.... Eu piro, tu piras, ela pira, Sirius Black pira. O mundo pira geral em mim, quê que é isso!


 


- É... quer sentar? – ela perguntou, ainda corada. Meu sorriso aumentou tanto que meu rosto chegou a doer.


 


- Já que me concedes a honra – é, pois é, a Idade Média baixou aqui. Mas vamos fingir que eu estou falando normalmente. 


 


Com outra reverencia indiquei para ela ir à minha frente, ela se sentou e percebi que as duas cadeiras restantes estavam ao lado da dela. Com um sorriso mau disfarçado sentei a sua direita, vendo ela acariciar nervosamente o pelo da criatura gorda. Hermione fitava o gato, provavelmente arrependida por ter me chamado por educação e eu ter aceitado. Como sou burro, meu Merlin! Ela só está querendo ficar sozinha, longe até dos amigos e eu venho aqui bancando o idiota, e tendo esses devaneios miseráveis! Ela nunca reparou em mim, apenas estava encarando de volta para não me deixar no vácuo... é hora de ir embora.  Não pera... ela me disse alguma coisa.


 


- Seu rosto – ela esticou um dedinho delicado para perto do meu nariz.


 


- Hum? O que? – levantei a mão para perto da bochecha e senti algo errado ali. Uma coisa quente e escorrendo... sangue. Gato maldito.


 


- O Bichento te cortou... desculpe, ele não é adestrado nem nada... – ela começou a se desculpar, provavelmente se lembrando de algum feitiço para curar.


 


- Sem problemas – passei a manga do casaco na bochecha, saiu cheia de sangue e ardeu, mas ignorei. Ao menos agora tínhamos do que falar, ela levantou a varinha e a impedi, tocando na ponta do objeto – Não precisa, estou bem.


 


Ela se encolheu, e me arrependi, pensando ter sido grosso. Mas percebi que o problema era outro. Do outro lado, Rony e Harry desciam as escadas, discutindo baixo, provavelmente sobre ela e o motivo de não estarem se falando. Harry viu e lançou um sorriso, acenei quase bruscamente, já Rony que estava de costas se virou de cara feia (como se fosse possível ele ficar bonito, mas ignore)  já sabendo se tratar de Hermione. Mas assim que me viu seu rosto mudou completamente, de emburrado para assassino em 2 segundos e meio. Um recorde! Ele começou a vir para cá com passos duros, Harry de cenho franzido o puxou para trás pelo braço e resmungou alguma coisa em seu ouvido. Rony pareceu concordar, e se deixou ser puxado, embora ainda não levasse a mais suave das expressões. Nossa... que vocabulário esse que estou usando hoje. Palavras chiques e refinadas... quantos palavrões falei até agora? É vários... mas acho que estou ficando mais educado. Acho.


 


- Não estão conversando? – perguntei ainda observando-os se afastar.


 


Ela fechou a mão em punho ao redor do pelo emaranhado da criatura diabólica que aparentava ser um gato.


 


- Ah, Rony... – como sempre meu irmão imbecil – ele... bom, não gostou do Bichento de cara. Ele atacou o Perebas, sabe... Ronald ama aquele rato, mesmo que diga o contrário, e se sentiu ofendido quando viu que eu comprei o Bichento. Coisas do Rony... implica com tudo – ela coroou o comentário com uma revirada de olhos digna da Broadway. Tive de conter o riso.


 


- Eu não gosto do Perebas... rato nojento. Odeio ratos, sabia? Principalmente ele – cometei, agora encarando seu rosto luminoso.


 


 Luminoso... é ela brilhava, como se tivesse uma espécie de aura dourada ao seu redor. Fiquei pensando se ninguém tinha reparado naquilo antes.


 


- Não sabia... por que? – eu não tinha esperado que ela estivesse suficientemente interessada em mim para perguntar isso. Até porque a resposta é totalmente humilhante.


 


- Ah... quando eu era mais novo, na época em que o Rony tinha mais cara de joelho do que tem hoje. O Percy ganhou o Perebas, que já era magrelo, feio e sem dedo. Até então tudo bem, o mascote do meu irmão mais velho e tudo e tals... até uma noite – olhei para o lado para ver se ela ainda prestava atenção, e me deparei com os olhos mais lindos do mundo atentos em tudo o que dizia, não, não existem palavras para descrever a minha felicidade – Lembro que estava chovendo muito, e eu nunca consigo dormir com esse tipo de barulho... aí fui para a cozinha, arrumar um frango frito ou qualquer outra coisa. Sim, era madrugada. Os relâmpagos iluminavam a cozinha e a escada estava cheia de sombras. Mas uma sombra era diferente... tinha a forma de um homem. De boca aberta, dentes de roedor e mãos esqueléticas com dedos curvados... e acho que um a menos. Ele falava o... o nome de Você-Sabe-Quem, e repetia... fiquei parado vendo a sombra o tempo todo. Até que escorreguei um degrau... devido ao fato deu nunca ter sido muito pequeno...


 


- Percebe-se – Hermione comentou, sem perder o fio da história um segundo se quer. Ri também, eu parecia um trasgo de tão grande perto dela.


 


- Fez um baita barulho, e doeu também. Fiquei com medo, mas a sombra foi encolhendo, encolhendo... e tomei coragem para ver o que era.


 


- Sozinho? Sem varinha?


 


- É... grifinório desde sempre. Bem, quando eu cheguei lá no lugar onde devia estar o homem só vi o Perebas guinchando como o ser horroroso que é, – fiz uma pausa, esperando que ela comentasse alguma coisa – Ridículo não é? Devia ter dado aquele bicho como comida para os gnomos quando tive a chance...


 


Dei de ombros, me lembrando da noite e de como a voz e a postura do homem se associavam a Perebas. Era estranho.


 


- Não é nem um pouco ridículo! É interessante... muito interessante – e ela pareceu viajar em seus pensamentos, me deixando meio sozinho na realidade.


 


- Agora me conte um medo seu. Pra ficarmos kits.


 


- Chuva. Eu morro de medo de chuva... principalmente quando faz barulho – ela começou corada, se achando boba provavelmente. Eu achei lindo.


 


- VOCÊ – e então meu irmão assassino aparece. Percy, tinha até me esquecido da urticária e do fato dele querer me matar. Note a amnésia causada pelo amor.


 


O estado dele era totalmente deplorável, como um daqueles vulcões que os trouxas levam em suas feiras inúteis de ciências. O cabelo laranja era a parte onde as chamas começavam, o resto era lava pura e borbulhante. Ah, e as roupas ainda estavam cobertas por tinta azul. Sabe, se ele tivesse tomado banho já estaria em um perfeito estado normal... mas não pretendo dizer isso a ele. Olhei para o lado e vi uma Hermione meio risonha, numa mescla de preocupação e divertimento, vocês deviam ver! Ou não. Já que não estou afim de deixar marmanjo ficar reparando nela... você é um marmanjo? Se não for posso até pensar no seu caso. Ou não.


 


- Seu... seu... – Percy começou, bufando no estilo touro mexicano coberto de urticária – AAAHH!


 


Pensei que ele ia avançar, mas bateu os braços contra o corpo, num visível sinal de frustação. Coisas de Percy... Ficou me encarando nos olhos, do mesmo jeito que dizem que não deve ser feito com animais selvagens. Ou que deve ser feito... sei lá. Não assisto o Animal Planet . Não tenho TV em casa e o Lino não fala mais comigo. Ele olhou pro meu lado e arregalou os olhos.


 


- Hermione? O que está fazendo aí? Com ele? – apontou para mim como se eu fosse uma espécie de super bactéria assassina. Magoou.


 


Hermione acariciou mais o tal Bichento, e percebi que os pelos dele tinham o mesmo tom que meus cabelos. Interessante, ela gosta de ruivo. O Rony é ruivo, o Percy, o George, eu, o Gui, o Carlinhos... é, talvez não esteja tão fácil assim. Ela mordeu o lábio inferior de um jeito tão sexy que me arrepiei, não comente sobre isso. Estou aqui para falar o que quero mesmo...


 


- Ah, estamos conversando. Quer se sentar conosco? – conosco, é melhor eu continuar falando direitinho enquanto estiver perto dela. Ela diz conosco e eu falo ticoléquié e com nóis. Sou uma bosta.


 


Percy fez uma cara de what the fuck? para ela e depois me encarou como quem diz “tô de olho”, se virou, andando todo esquisito para não roçar uma bolha na outra e foi até a mesa de nossos pais. Onde por sinal, George não estava. Meus instintos de gêmeo me disseram para olhar pra direita, e lá estava: George Taradão Weasley xavecando uma garçonete de meia idade. Sem preconceitos claro, não tá fácil pra ninguém. Mas... precisava? Sacudi a cabeça e pensei na outra opção: eles estavam trocando ideias sobre a moda da estação (que nem sei qual é). Ele mexeu na franja ruiva, e a mulher passou a mão, testando a textura do cabelo. Disse alguma coisa que pareceu agradá-lo bastante, e então pediu que ele tocasse no cabelo grisalho e mesmo assim brilhante dela. Me recusei a olhar o resto da cena.


 


Ao meu lado Hermione não tirava os olhos do gato, vendo nele alguma beleza que ninguém mais enxergava. Fiquei filosofando se algum dia ela olharia para mim daquele jeito... talvez sim, talvez não. Eis a questão.


 


- Vamos, lá – chamei a atenção dela, em seguida precisei de toda a minha força de vontade para não me perder no rosto mais que perfeito dela – Você precisa comer. E o gato também. Se Merlin atender minhas preces esse tal Bichento mata o Perebento ainda hoje.


 


Ela riu e o bicho ruivo e nojento saltou de seus braços. Será que se eu também for uma criatura ruiva e nojenta ela vai me amar? Se for assim está tudo garantido, é só pedir em casamento. Hermione assentiu com a cabeça e foi na minha frente, o gato a seguiu, mas logo subiu as escadas. Fiquei parado a observando andar. E ela andava bem, os quadris iam de um lado para o outro, de forma ritmada e sensual. As pernas perfeitas não muito marcadas pelo jeans deslizavam pelo salão, como se dançassem a cada passo. Ela também pisava primeiro com os calcanhares, no ponto em que os All Stars se encontravam mais gastos. Um outro sorriso rasgou meu rosto, e fiquei surdo. Só ouvia os passos leves e quase inaudíveis, e sonhava com o movimento dos quadris. Ah... e também tinha a forma com que os cabelos leves e brilhantes batiam no suéter, pouco acima da cintura. Os fios castanhos caramelo eram tão macios que davam até vontade de ir até lá tocá-los, e... bem, acho que você sabe que não são só os cabelos que eu iria tocar.


 


Fiquei meio perdido, até que ela se sentou. Demorou um tempinho para voltar a realidade, mas aconteceu. Dá pior maneira possível. George já estava sentado na mesa, com a cara colada na minha.


 


- E aí, pascoal? Comeu? – dando um tiro no meu gêmeo em 3, 2...


 


- George!!! Que putaria é essa? Vê lá se isso é coisa que se fale... – resmunguei, indignado pela palavra que usou para se referir a ela.


 


- Mas comer com os olhos você comeu, e nem vem que eu vi. Seu tarado! – ele riu e puxou meu capuz, tapando minha visão – Meu irmãozinho está crescendo, que bonitinho!


 


Ele apertou minhas bochechas como se faz com bebês, e que algumas pessoas fazem com os cachorros também. Com agilidade, agarrei a mão dele e torci o pulso. É, sei ser mau quando quero. Até com ele.


 


- Ai, seu porcaria! Tire essas suas patas sujas de mim, cadela! Arg, me machucou – ele resmungou esfregando os pulsos, os olhos quase trasbordando as lágrimas. Achei engraçado, e também percebi que às vezes tenho mais força do que imagino. Acredite, curti bastante essa informação.


 


Tirei o capuz dos olhos e sacudi a cabeça, me levantando, feliz da vida. Em três anos eu tinha tido minha primeira conversa com ela. Consegui até mesmo tocá-la. E... se meu gêmeo não tivesse enlouquecido, meu irmão mais velho não quisesse me matar e se eu não tivesse sido perseguido por homens- água armados durante a tarde, diria até que hoje foi um dia de sorte. Lembrei do toque da minha pele na dela, enlouquecedor. Minha espinha está arrepiada até agora. E isso só com um roçar... imagina focar encostado nela por mais tempo? Outro arrepio desceu por minha espinha, e meu sorriso largo começou a doer na minha cara, mas a felicidade era tanta que optei por ignorar.


 


Diferente do meu andar depressivo de antes, agora eu saltitava no estilo cabrito, só que menos exagerado do que George, obvio. Este vinha logo atrás de mim, ajeitando a franja. Minha família ocupava a maior mesa do salão e assim que olhei uma mesa menorzinha para duas pessoas me lembrei de uma coisa... ainda no almoço. O cara de capa me mostrou a espada dourada e as asas do anjo, ele não estava ali agora, a mesa continuava do mesmo jeito que quando ele sumiu de repente. Me fazendo perguntar se estava louco. E... algo me dizia que eu estava. Mas o George é bem mais pirado... perto dele sou tão normal quanto o carinha do AAHHH Lek Lek Lek (que á proposito, merece um grammy por fazer um funk sem palavrão).


 


Hermione estava sentada entre Gina e Harry, o que gerou um bico no rosto da minha irmã, mas era quase imperceptível, graças a sua alegria de rever Harry Potter. Ginevra soltava faíscas de felicidade, Percy observava com nojo suas bolhas estourarem, papai fazia alguma pergunta a Harry sobre os trouxas, Rony tinha um pedaço de frango frito (tirado sabe-se lá de onde) na boca, mamãe lamentava a perda de Gilderoy Lockhart com uma ex-colega sentada na mesa ao lado, Hermione parecia alheia a tudo, pensando em algo distante. George me empurrou para sentar em frente a Hermione. Fiquei meio no canto da mesa, mas nem liguei.


 


Hermione, talvez por coincidência, observava a mesa do cara da capa com o cenho franzido. Do mesmo jeito que eu fazia. Já George estava mais preocupado em espremer suas espinhas invisíveis com base no reflexo de si mesmo que tinha na colher. Dei de ombros, Hermione intercalava um olhar na cadeira em que ele estava e outro olhar no mesmo lugar em que o caneco de cerveja amanteigada estivera horas atrás.


 


Sacudi a cabeça, decidindo que deveria me esquecer daquilo. Talvez devesse passar a me preocupar menos com a vida e espremer mais espinhas. É isso que os adolescentes fazem, afinal. Não sei se Hermione tem sorte ou azar por não ter espinhas, se bem que ela trocou o passatempo de espreme-las pelo estudo. O que, cá entre nós, é bem mais vantajoso para o futuro. Quanto mais marcas de espinha você tem, menos são as chances de se parecer bem aparentado. Ou seja, quanto menos bonito você for, menores são as chances de se encontrar um parceiro(a) disposto para a reprodução. Já se você deixar de espremer as espinhas para estudar, vai ficar com uma pele mais bonita e com um cérebro ótimo: o que significa que vai chover gente querendo reproduzir a espécie humana com você. E isso vai me dar muitos problemas no futuro, já que sou burro, cheio de marcas de espinhas e a Hermione é justamente o contrário. Só vou ter chances se começar a treinar com o Anderson Silva, virar um monstro e afastar os outros caras que quiserem reproduzir a espécie humana com ela. Isso claro... se eu for aceito para reproduzir a espécie humana com ela, antes disso tudo.


 


E eu viajei geral de novo...


 


A bruxa dos cabelos grisalhos veio até nossa mesa, lançou um sorriso para George, que retribuiu. Revirei os olhos. Ele não tinha jeito. A mulher trazia um caldeirão cheio de sopa de legumes, imediatamente todos começaram a se servir, meu prato foi o único que continuou vazio. Eu estava reparando em Hermione, e em como o seu prato tinha muito mais legumes que o caldo da sopa. Ela também não estava conversando com ninguém, se excluindo de forma quase imperceptível, dando mais atenção para a sopa do que para o resto todo. Ou não. Parecia distante, afastada de tudo e todos, totalmente diferente de uns cinco minutos atrás, quando conversamos e ela se divertia. Comigo. Mas agora... aquele curto momento tinha se acabado. Ela estava afogada na tristeza e na preocupação, as vezes era até possível distinguir lágrimas sendo formadas em seus olhos. De um jeito meio desajeitado (e sexy) ela errou a colher de sopa, e começou a escorrer pelo seu queixo. Hermione disfarçou bem, tanto que meus parentes ruivos espalhafatosos nem repararam. Mas eu sim, ela se enxugou infantilmente, com a manga do suéter. E quando mexeu a cabeça uma lágrima caiu, nem mesmo ela reparou. E meu coração foi se fechando, tinha algo muito, muito errado. Não era Rony. Tinha algo mais... e o queixo roxo? Ela teria brigado? Provavelmente não, já que essa não é uma atitude muito Hermione Granger, se é que me entende. Ela continuou saboreando a sopa, sem direcionar o olhar a ninguém.


 


- Não vai comer não, idiota? Desse jeito a sopa vai acabar! – reclamou George, se servindo um segundo prato.


 


Saí do meu devaneio e olhei para ele, dei de ombros.


 


- Estou sem fome – foi como falar com uma parede, já que ele nem ouviu.


 


Eu queria saber de qualquer forma o problema de Hermione, mas não era hora nem lugar. Cheguei a conclusão de que deveria comer e ir me aproximando dela aos poucos. Ah, minha vida é uma merda.


 


 


POV Hermione


 


 


 


Eu sei que as coisas estão difíceis pra mim. Mas não vou passar isso para outras pessoas e nem meter ninguém na confusão. E se eu morrer? Ótimo, um problema a menos na vida dos meus amigos. Além do mais.... eu vou morrer de qualquer jeito, então tá de boa. Suspirei e passei o pente com mais força no cabelo, não tinha um nó se quer, estava fazendo aquilo mais pela terapia. Rony tinha brigado comigo por causa do Bichento. Harry nem ligou. George Weasley é um descompensado. Fred Weasley é legal (muito). Justamente quando mais preciso me afastar das pessoas (para o bem delas) elas vem até mim! Que vida bipolar é essa....


 


- Hermione!!! Vou precisar do banheiro, tem tanta necessidade de se arrumar para ir pra cama? Vai receber visita do Nathaniel por acaso? – Gina berrou, e eu ri.


 


Já faziam uns quinze minutos que eu tinha me trancado ali para chorar depois do jantar, mas não deu. Caíram uma ou duas lágrimas, e pronto, consegui me conformar (ou o mais próximo disso que se pudesse chegar). Quando uma coisa é decida, não se tem mudanças, não se pode fazer nada, e de um jeito ou de outro eu irei morrer um dia. Me bastava estar viva para morrer (claro que demônios e a profecia ajudaram um pouco na história, mas vamos fingir que é tudo natural). Passei mais uma vez o pente, meus cachos mais estavam parecendo ceda, e brilhavam também. Minha pele reluzia como pérola, em um tom pêssego perfeito. Fazia parte de ser o que eu sou, coisa que até o final da minha vida você com certeza vai ficar sabendo, mas ainda não é o momento. Eu tinha trago vários pijamas no malão, e agora como estava só com Gina e ela não ia ficar reparando no meu corpo tinha posto uma camisola de ceda azul que marcava minhas curvas. A beleza no meu corpo era inegável, mas me incomodava, não parecia normal. E não era, mas... a deixe isso de lado por enquanto. Não interessa os motivos deu ser assim.


 


Com um sorriso forçado saí do banheiro, a porta rangeu e me deparei com Gina. Vestia um blusão de moletom do Red Hot Chilli Papers, e fiquei imaginando qual dos seus irmãos era fã da banda. Gina tinha pernas e canelas muito finas, e um corpo estreito. Seus cabelos eram cumpridos e bonitos, o rosto era bem delicado. Mas ela não tinha feições perfeitas, indicando que era humana. Eu não. Todos os humanos têm defeitos físicos, mesmo que seja só a falta de simetria. As pessoas como eu não.


 


- Graças a Merlin, Hermione. Pensei que fosse ficar aí a noite toda... – ela soltou um bocejo e entrou no banheiro, fechando a porta.


 


Revirei os olhos e me deitei na cama estreita. As cobertas de lã pesada arranhavam minha pele, mas em compensação aquecia. Conferi se minha varinha estava na mesa de cabeceira ao lado da de Gina, a única fonte de luz vinha da janela. Um luar pesado de lua cheia, mas não incomodava. Um fresta de luz também saía da porta do banheiro, mas meu sono era mais forte. Seria a primeira vez que eu dormiria depois de descobrir sobre a profecia e tudo o mais. Não era um pensamento muito legal... ainda mais sem meu livro preferido para me consolar.


 


Eu me lembro que antes da Valentina ter problemas ela lia um pouco para mim, todas as noites, o mesmo livro. Alice no País das Maravilhas, eu amava a história, por um motivo desconhecido, já que, na minha mais humilde opinião, existem melhores. Eu queria ser a própria Alice, no mundo perfeito do País das Maravilhas... com um coelho e um chapeleiro. Onde eu fosse esquecer meus problemas e me preocupar somente com a aventura de cada dia. Mas é claro que eu nunca segui o coelho e nem caí no buraco, continuo sendo a Salvadora inútil que vai morrer dando seu sangue e sua vida para o mal ou para o bem.


 


Observando a lua distante pela janela, fechei os olhos. Imaginando se o cara de capa que vi hoje mais cedo era o Servo e estaria de tocai lá fora esperando que eu adormece-se para poder me capturar e arrastar até o inferno. Que coisa mais legal para se pensar antes de dormir...


 


Apertei a coberta com as mãos e esperei que o sono me alcança-se, deixei minha mente vagar e por fim adormeci. E tive um sonho (espero que seja só um sonho) tão real que nem tive a sensação de ter dormido quando acordei na manhã seguinte.


 


Eu tinha o corpo inteiramente dolorido, como se tivesse rolado todo o barranco até chegar ao Lago Negro, sim eu estava em Hogwarts. Aparentemente estava acordando de um desmaio, o que fez com que eu pensasse se tinha caído sozinha ou se algum daqueles sonserinos tinham me empurrado. Pus a mão na minha testa dolorida, e senti algo muito frio tocá-la. Olhei minha mão delicada e me deparei com anéis de prata e pulseiras contornadas com diamantes. Joias verdadeiras, nas duas mãos. E a minha cabeça também estava pesada. Acabei tocando em uma coroa bem imponente.


 


Ainda tonta, fui me aproximando mais da margem do lago negro, tinha a visão meio desfalcada, mas foi possível distinguir contornos. Ali tinha um garota de beleza extraordinária, com um vestido preto e sem mangas, a saia parecia ser bem larga, no estilo princesa, mas o resto chegava a apertar o corpo escultural. O busto farto era ressaltado por uma corrente dourada (ouro puro) e delicada, com um pingente bem peculiar: um anel de ouro, com estrelas pintadas em prata. Muito bonito. O coque desarrumado do cabelo sustentava uma coroa alta, feita por tiras verticais de diamantes e linhas de prata. Os brincos eram imensos, mas pareciam bem leves. Fios cor de caramelo lhe caiam sobre rosto, mas ela nem ligava. Parecia absorta e assustada demais com a imagem que via no lago. A pele era perfeita, os traços, os olhos eram iguais aos de um gato, até mesmo brilhando no escuro. Os lábios sensuais e carnudos estavam entreabertos pela surpresa. Ela ergueu uma mão para tocar o reflexo da perfeição, então percebeu que eram os seus dedos que tinham a pele perfeita e os anéis de prata com diamantes, e do seu pulso pendiam pulseiras e mais pulseiras de ouro branco e brilhantes. A garota na água era ela. Eu.


 


Eu. Eu mesma. Sem nenhuma diferença, apenas o fato de estar arrumada para algum evento bem importante. Engoli em seco, e vi o reflexo da garota repetir minha ação. Eu não queria mais olhá-la, então me levantei. Fazendo um pouco de força para que a saia negra, rodada e pesada subisse comigo. Meu reflexo de corpo inteiro ali era ainda mais assustador, eu parecia até uma princesa de contos de fada (só que mais sensual de descabelada). A lua exibia seu reflexo também no lago, bem atrás de mim. O que levou ainda mais beleza para a imagem, mas... eu não sentia que a lua redonda que aparecia no lago estava lá mesmo. Virei para trás, abandonando a visão do lago. Nada. Só os contornos do castelo de Hogwarts e a noite escura como o vestido. Nem a lua redonda e imensa nem as estrelas. Eu devia ir pedir ajuda no castelo.


 


Comecei a andar na grama, e percebi que meus pés estavam descalços. Estranho, mas não me importei. A floresta negra parecia estranhamente quieta, na verdade, tudo estava quieto. Nenhum som emitido por alunos, nem mesmo perto das torres dos dormitórios, ao longe, a cabana de Hagrid tinha as luzes apagadas. Comecei a sentir medo e ir um pouco mais rápido, até que corri. Fiquei imaginando como aquela cena seria bonita: uma princesa com joias reluzentes e um vestido negro atravessando a noite para chagar ao castelo. Bem bonito, como uma daquelas histórias de fantasia que eu lia nas horas vagas aos estudos.


 


Nem haviam corujas, nem insetos, ou respiração de qualquer ser vivo. Fui ainda mais rápido, em direção ao pátio. Nem mesmo meus passos produziam ruídos contra a grama! Cheguei ao pátio. Tudo mais frio e silencioso, as pedras do chão mais pareciam coberturas de túmulos... coisa que eu nunca tinha reparado antes, mas sabia que aquele era o pátio de Hogwarts. Assim que meus pés fizeram contato com as pedras meu corpo estremeceu por inteiro, era mais frio do que eu imaginava. Frio com gelo. Frio como a morte. A mesma sensação que eu teria se pisasse em um túmulo, tanto que fiquei parada esperando uma mão sair do chão e agarrar meu tornozelo (como nos filmes de terror que tio Le e Nate costumam assistir). Mas eu percebi que a pedra não era um túmulo e que nenhuma mão sairia dali, respirei fundo e fui em direção ao salão comunal. Tinha de ter alguma alma viva (ou morta, como os fantasmas) naquele lugar! 


 


Os corredores eram ainda mais assustadores que o pátio. Fiz uma nota mental de nunca sair sozinha ali durante a noite. Se eu ouvisse algum ruído tenho certeza de que enfartaria, mas nada fazia barulho. Apressada, vi a porta do grande salão surgir como uma miragem á minha frente. Apertei o passo, a porta estava trancada e bati nela com força, empurrando para frente, até que abrisse. Com um estrondo que fez o castelo inteiro tremer. Meu corpo estava exausto, sabe-se lá porquê. Eu poderia cair morta de cansaço no chão a qualquer momento, mas a cena que eu via me fazia querer viver para entender. Com as pernas tremendo sob o peso do corpo e tudo dolorido, observei a coisa mais estranha que já tinha me acontecido. Eu vira aquela cena milhares de vezes na minha cabeça, mas nunca em um sonho. Sempre antes de dormir, mas nunca dormindo. Era sem dúvida a melhor parte do meu livro favorito: a cena na Mesa do Chá.


 


Ao invés das quatro mesas convencionais, havia apenas uma. E não muito grande. Tinha quatro cadeiras, uma em cada cabeceira e as outras duas nos lados, as das cabeceiras estavam ocupadas por... bem, uma lebre louca que tossia sem fazer som algum e a outra por um esquilo que bebia chá. Já as cadeiras do meio... a que se encontrava voltada para mim era ocupada por uma figura alta de ombros largos, usando uma cartola negra. Eu não conseguia ver o rosto, nenhum detalhe. Já a outra cadeira estava desocupada. A cadeira de Alice. Ou no caso... a minha cadeira.


 


Fiquei parada... aquela era exatamente a mesa que eu imaginava quando Valentina lia a história para mim. Tudo igual, menos o cenário envolta e a figura do chapeleiro. Então ouvi o primeiro som, me sobressaltando. Era o chapeleiro arrastando a cadeira. Ele tinha me visto, ou de alguma forma me ouvido. Minha respiração parou, ele se levantou. Era um ser contornado de negro na pouca luz que o ambiente nos oferecia, muito alto e esguio. A cartola se ressaltava de todo o resto, tinha uma tira de pano verde meio rasgada. Combinando com os botões de esmeralda no fraque do rapaz. E... ele se virou. Foi lento, e de certa forma sensual, um movimento felino. Olhei para o chão no instante em que senti seu olhar me tocar. Fui subindo meus olhos lentamente: ele usava botas de couro de dragão, verde muito escuro; calças sociais pretas, combinando com o fraque abotoado até a gola (os botões feitos de esmeralda), tinha um lenço verde no pescoço e luvas brancas, estando uma no bolso. A elegância das vestes, combinadas com a postura imponente eram sedutoras a todos os olhos. O contorno do queixo era fino e delineado. Assim como o resto do resto ligeiramente másculo. Parecia ter a pele escura como Charlotte O’Hara, mas foi apenas uma impressão. Ele me ergueu a mão de forma convidativa. Era pálida e opaca, como a de um cadáver.


 


Ele fazia sinal para que eu fosse até ele, mas me segurei, percebendo como ele parecia morto. Sua forma não parecia ter a mínima energia, frio e pobre como uma rocha. Sua figura imponente me dava a impressão de ser um cadáver em pé que fosse apodrecer e cair aos pedaços a qualquer momento. E o fato dele não mostrar o rosto... ele me escondia algo. Olhei a mão de novo, tinha um tom ligeiramente esverdeado, e sua textura me dava a impressão de que a pele iria descascar.


 


- Teme a minha morte? – o chapeleiro disse, me fazendo estremecer inteiramente, ele tinha uma voz muito áspera – Que engraçado – deu uma risada morta – Não deveria.


 


Ele jogou a cabeça para o lado e pôs a mão outrora estendida dentro do bolso, com uma das luvas.


 


- Hum... o quê? – gaguejei fraca.


 


- Você não deveria temer a minha morte, Hermione Jane Granger – fez uma pausa encarando o chão por um momento, depois se voltou para meu rosto – Afinal, foi você quem me matou, não é mesmo?


 


 


 Adorooo deixar vocês curiosos =) ! Não me matem até o próximo cap, por favor! E quero fazer mil e um agradecimentos para Neuzimar de Faria e Thomas Cale, por estarem acompanhando e comentando a fic. Valeu mesmo, vocês dois.... quanto aos outros leitores, comentem galera, por favor, quanto mais comentários, mais rápido eu posto! Beijocas e até, mais... obs: estou amando a sua fic Thomas Cale, o que que é aquilo, você tem muito estilo pra escrever!  


 

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Comentários: 3

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Enviado por Mayara Picoli em 14/04/2013

Meu deus, como eu deixei de acompanhar uma das melhores fics daqui? E posso dizer com toda a certeza que está melhor do que quando eu parei de ler (esqueci seria o termo melhor, porque eu literalmente esqueci de entrar aqui). Mas enfim, comecei a ler do novo e não consegui parar até chegar no final desse capitulo, tudo hoje e é isso que sua fic faz, prende qualquer um que começa a ler, tanto por você escrever super bem quanto pela história totalmente diferente do padrão. Não preciso dizer que amo toda a história né? Amo o ship e o jeito que você escreve e consegue passar tão bem tudo que os personagens sentem e fazem. Eu estou super curiosa pra ler mais e mais e sei que não tenho direito de cobrar rapidez nos capitulos porque fiquei um tempo sem acompanhar e sem comentar, mas o mais rápido que você puder pode postar hahaha

Nota: 5

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Enviado por Thomas Cale em 22/03/2013

O QUE?! Por favor me diz que a minha internet está uma merda e que o capítulo não acaba aqui! 
 Pelo amor de Merlin, o que diabos acontece? Quem é esse maldito chapeleiro morto? O que isso tem a ver com o resto da fanfic? O.O' o chapeleiro é o Cormaco? Ou o Fred? O.O'

 AAHH, se não postar rápido, eu MATO VOCE!! 

Nota: 5

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Enviado por Neuzimar de Faria em 21/03/2013

Capítulo divertido,  instigante e bem escrito. Mas, cadê a "Roxélia"? (rsrsrsrs) Senti falta dela ! kkkkkkk
Agora, o que você está aprontando para a Hermione? Que chapeleiro sinistro ... estou mega curiosa, não demore muito a postar. Até o próximo! 

Nota: 5

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