Capitulo vinte
- Você está bem? Hermione?
Estou sentada no banco há uns cinco minutos, olhando a calçada, com a mente num redemoinho de confusão. Agora há uma voz no meu ouvido, acima dos sons comuns da rua, de pessoas andando, ônibus freando e carros buzinando. É uma voz de homem. Abro os olhos, pisco ao sol e olho atordoada para um par de olhos verdes que parecem familiares.
E subitamente percebo. É Aidan, do bar de sucos.
- Está tudo bem? Você está legal?
Por alguns instantes não consigo responder. Todas as minhas emoções foram esparramadas no chão como uma bandeja de chá derrubada, e não sei qual pegar primeiro.
- Acho que terá de ser não. – Respondo, finalmente. – Não estou legal. Não estou nem um pouco legal.
- Ah. – Ele parece alarmado. – Bem... Tem alguma coisa que eu possa...
- Você ficaria legal se todos os seus segredos fossem revelados pela televisão por um homem em quem você confiasse? – digo trêmula. – Você ficaria legal se tivesse sido envergonhado diante de todos os amigos, colegas de trabalho e da família?
Há um silêncio curioso.
- Você ficaria?
- É... Provavelmente não? – arrisca ele depressa.
- Exato! Puxa, como você se sentiria se alguém revelasse em público que você... que você usa calcinha de mulher?
Ele empalidece de choque.
- Eu não uso calcinha de mulher!
- Eu sei que você não usa calcinha de mulher! – Protesto. – Ou melhor, eu não sei se você não usa, mas só presumindo por um momento que você usasse. O que você acharia se alguém contasse a todo mundo, numa suposta entrevista de negócios pela televisão?
Aidan me encara, como se sua mente estivesse subitamente somando dois mais dois.
- Espera um momento. Aquela entrevista com Draco Malfoy. É disso que você está falando? A gente assistiu no bar de sucos.
- Ah, ótimo! – Levanto as mãos no ar. – Ótimo! Porque, sabe, seria uma vergonha se alguém em todo o universo tivesse perdido.
- Então, era você? Que lê quinze horóscopos por dia e mente sobre... – Ele pára diante da minha expressão. – Desculpe. Desculpe. Você deve estar muito magoada.
- É. Estou. Estou magoada. E com raiva. E com vergonha.
E confusa, acrescento em silêncio. Estou tão confusa, chocada e perplexa que mal consigo manter o equilíbrio neste banco. No espaço de alguns minutos todo o meu mundo virou de cabeça para baixo.
Eu achei que Draco me amava. Eu achei que ele...
Achei que ele e eu...
Uma dor cortante me atinge de súbito, e enterro a cabeça nas mãos.
- E como é que ele sabia tanta coisa sobre você? – Quer saber Aidan, hesitante. – Você e ele... estão juntos?
- Nós nos conhecemos num avião. – Levanto os olhos, tentando manter o controle. – E... Eu passei a viagem inteira contando tudo sobre mim. E depois nós saímos algumas vezes, e eu pensei... – Minha voz está começando a pular. – Eu pensei que poderia ser... Você sabe. – Sinto as bochechas ficando vermelhas. – A coisa de verdade. Mas a verdade é que ele nunca esteve interessado em mim, esteve? Realmente não. Ele só queria saber como era uma garota comum. Para seu estúpido mercado-alvo. Para sua estúpida nova linha feminina.
Quando a percepção baixa de fato pela primeira vez, uma lágrima rola pelo meu rosto, seguida rapidamente por outra.
Draco me usou.
Por isso me convidou para jantar. Por isso ficou tão fascinado. Por isso achava tão interessante tudo que eu dizia. Por isso ficou ligado em mim.
Não era amor. Eram negócios.
De repente, sem querer, solto um soluço.
- Desculpe. – Engulo em seco. – Desculpe. Eu só... É que foi um tremendo choque.
- Não se preocupe – Murmura Aidan com simpatia. – É uma reação completamente natural. – Ele balança a cabeça. – Não sei muita coisa sobre negócios, mas parece que esses caras não chegam ao topo sem pisar algumas pessoas no caminho. Eles têm de ser bem implacáveis para ter sucesso. – Aidan pára, olhando enquanto eu tento, com pouco sucesso, controlar as lágrimas. – Hermione, posso dar um conselho?
- O quê? – Levanto a cabeça, enxugando os olhos.
- Leve isso para o seu kickboxing. Use a agressão. Use a dor.
Encaro-o incrédula. Ele não estava escutando?
- Aidan, eu não faço kickboxing! – ouço-me gritando em voz aguda. – Eu não faço kickboxing, certo? Nunca fiz.
- Não? – Ele parece confuso. – Mas você dizia...
- Eu estava mentindo!
Há uma pausa curta.
- Certo. – diz Aidan finalmente. – É... Tudo bem! Você poderia fazer alguma coisa de menor impacto. T’ai Chi, talvez... – Ele me olha, incerto. – Escuta, quer beber alguma coisa? Uma coisa para se acalmar? Eu posso fazer um suco de manga com banana e flores de camomila, colocar um pouco de noz-moscada.
- Não, obrigada. – Assôo o nariz, respiro fundo e depois pego a bolsa. – Acho que vou para casa.
- Você vai ficar bem?
- Vou. – Forço um sorriso. – Estou bem.
Mas claro que isso também é mentira. Não estou nem um pouco bem. Quando sento no metrô indo para casa, lágrimas me escorrem pelo rosto, uma por uma, caindo em gotas grandes na saia. As pessoas estão olhando para mim, mas não me importo. Por que iria me importar? Já sofri a pior vergonha possível; algumas pessoas a mais olhando não vão alterar nada.
Estou me sentindo tão idiota! Tão idiota!
Claro que nós não éramos almas gêmeas. Claro que ele nunca me amou.
Uma dor nova me atravessa e eu procuro um lenço de papel.
- Não se preocupe, querida! – Diz uma mulher grande sentada à minha esquerda, com um volumoso vestido cor-de-rosa coberto de abacaxis. – Ele não vale a pena! Agora vá para casa, lave o rosto, tome uma bela xícara de chá…
- Como você sabe que ela está chorando por causa de um homem? – Entoa agressivamente uma mulher de terninho escuro. – Essa é uma perspectiva clichê, antifeminista. Ela pode estar chorando por causa de qualquer coisa! Uma música, um verso de um poema, a fome no mundo, a situação política do Oriente Médio. – A mulher me olha cheia de expectativa.
- Na verdade eu estava chorando por causa de um homem – Admito.
O metrô pára, e a mulher de terninho escuro revira os olhos para nós e sai. A senhora dos abacaxis revira os olhos de volta.
- A fome no mundo! – Exclama ela cheia de escárnio, e não consigo evitar um risinho. – Bom, não se preocupe, querida. – Ela me dá um tapinha reconfortante no ombro enquanto enxugo os olhos. – Tome uma bela xícara de chá, coma uns chocolates e bata um bom papo com sua mãe. Você ainda tem mãe, não é?
- Na verdade a gente não está se falando – confesso.
- Bem, então o seu pai.
Balanço a cabeça.
- Bem... Que tal sua melhor amiga? Você deve ter uma melhor amiga! – A dona dos abacaxis me dá um sorriso confortante.
- É, eu tenho uma melhor amiga. – Engulo em seco. – Mas ela acaba de ser informada pela televisão em rede nacional que eu andei tendo fantasias lésbicas secretas sobre ela.
A moça dos abacaxis me encara em silêncio por alguns instantes.
- Tome uma bela xícara de chá. – Aconselha finalmente, com menos convicção. – E... Boa sorte, querida.
Vou lentamente da estação do metrô até nossa rua. Quando chego à esquina, paro, assôo o nariz e respiro fundo algumas vezes. A dor no peito diminuiu ligeiramente, e em seu lugar estou sentindo um nervosismo sobressaltado.
Como vou encarar Luna depois do que Draco disse na televisão? Como?
Conheço Luna há muito tempo. E tive um monte de momentos embaraçosos na frente dela. Mas nenhum nem de longe como esse.
Isso é pior do que na vez em que eu vomitei no banheiro dos pais dela. É pior do que na vez em que ela me viu beijando meu reflexo no espelho e dizendo, “aah, baby” em voz sensual. É ainda pior do que na vez em que ela me pegou escrevendo um cartão do Dia dos Namorados para nosso professor de matemática, o Sr. Blake.
Espero, mesmo sem esperanças, que ela tenha subitamente decidido passar o dia fora ou algo assim. Mas quando abro a porta do apartamento ali está ela, saindo da cozinha para o corredor. E quando me olha eu já posso ver em seu rosto. Ela está completamente pirada.
Então é isso. Não somente Draco me traiu. Ele também arruinou minha melhor amizade. As coisas nunca mais vão ser as mesmas entre mim e Luna. É igual a Harry e Sally, feitos um para o outro. O sexo entrou no meio do nosso relacionamento, e agora não podemos mais ser amigas porque queremos dormir juntas.
Não. Apaga isso. Nós não queremos dormir juntas. Queremos... Não, o fato é que nós não queremos...
Tanto faz. Sei lá. Não adianta.
- Ah! – Exclama ela, olhando para o chão. – Nossa! Hmm... oi, Hermione!
- Oi! – Respondo com a voz estrangulada. – Eu pensei em vir para casa. O escritório ficou... Medonho demais...
Paro, e por alguns instantes há o silêncio mais doloroso e incômodo.
- Então... Acho que você viu. – Digo finalmente.
- É, eu vi. – Responde Luna, ainda olhando para o chão. – E eu... – Ela pigarreia. – Eu só queria dizer que... Se você quiser que eu me mude, eu saio.
Um nó surge na minha garganta. Eu sabia. Depois de 21 anos, nossa amizade acabou. Um minúsculo segredo é revelado, e é o fim de tudo.
- Tudo bem. – Digo tentando não cair no choro. – Eu me mudo.
- Não! – Luna está sem jeito. – Eu me mudo. Não, é culpa minha, Hermione. Fui eu que estive... Induzindo você.
- O quê? – Encaro-a. – Luna, você não esteve me induzindo!
- Estive sim! – Ela parece ferida. – Estou me sentindo terrível. Eu só nunca percebi que você tinha... Esse tipo de sentimento.
- Eu não tenho!
- Mas agora consigo entender tudo! Eu ficava andando por aí seminua, não é de espantar que você ficasse frustrada!
- Eu não estava frustrada! – Nego, rapidamente. – Luna, eu não sou lésbica.
- Bissexual, então. Ou “multiorientada”. O termo que você quiser usar.
- Não sou bissexual também! Nem multi-sei-lá-o-quê.
- Hermione, por favor! – Luna agarra minha mão. – Não sinta vergonha da sua sexualidade. E eu prometo que vou apoiar você cem por cento, independentemente da escolha que você faça...
- Luna, eu não sou bissexual! – Grito. – Não preciso de apoio. Eu só tive um único sonho, certo? Não foi uma fantasia, foi só um sonho esquisito, que eu não quis ter, e isso não significa que eu seja lésbica, e não significa que eu seja a fim de você, não significa nada.
- Ah. – Há um silêncio. Luna parece sem jeito. – Ah, certo. Eu achei que fosse uma... Uma... Você sabe. – Ela pigarreia. – Que você queria...
- Não! Eu só tive um sonho. Só um sonho bobo.
- Ah. Certo.
Há uma pausa longa, durante a qual Luna olha atentamente para as unhas, e eu examino a pulseira do meu relógio.
- Então, a gente... – Quer saber Luna finalmente.
Ah meu Deus.
- Mais ou menos. – admito.
- E... Foi bom?
- O quê? – Encaro-a boquiaberta.
- No sonho. – Ela está olhando direto para mim, com as bochechas totalmente cor-de-rosa. – Foi bom?
- Luna... – Murmuro, fazendo um rosto agoniado.
- Eu fui uma merda, não fui? Eu fui uma merda! Eu sabia.
- Não, claro que você não foi uma merda! – exclamo. – Você foi... Você foi realmente...
Não acredito que estou seriamente tendo uma conversa sobre a habilidade de minha melhor amiga como lésbica onírica.
- Olha, será que a gente pode deixar esse assunto de lado? Meu dia já foi bastante vergonhoso.
- Ah. Ah meu Deus, sim. – Exclama Luna, subitamente cheia de remorso. – Desculpe, Hermione. Você deve estar se sentindo...
- Total e absolutamente humilhada e traída? – Tento dar um sorriso. – É, é mais ou menos como eu me sinto.
- Então alguém do trabalho viu? – pergunta Luna cheia de simpatia.
- Se alguém no trabalho viu? – Eu giro. – Luna, todo mundo viu. Todos sabiam que era eu! E ficaram rindo de mim, e eu só queria enrolar e morrer...
- Ah meu Deus. – Luna fica perturbada. – Verdade?
- Foi medonho. – Fecho os olhos quando uma nova crise de vergonha me domina. – Nunca fiquei mais sem graça na vida. Nunca me senti mais... Exposta. O mundo todo sabe que eu acho fio-dental desconfortável, que não faço kickboxing de verdade e que nunca li Dickens. – Minha voz está cada vez mais embargada, e então, sem aviso, dou um soluço enorme. – Ah meu Deus. Ele só estava me usando, desde o início. Ele nunca esteve realmente interessadoem mim. Eu só era uma... uma pesquisa de marketing.
- Você não sabe se isso é verdade! – Rebate ela consternada.
- Sei! Claro que sei. Foi por isso que ele ficou ligado. Por isso ficou tão interessado em tudo que eu dizia. Não foi porque me amava. Foi porque percebeu que tinha sua consumidora-alvo, bem ao lado. O tipo de garota normal, comum, que anda pela rua e para quem ele nunca daria seu tempo! – Solto outro soluço enorme. – Puxa, ele disse isso na televisão, não disse? Eu sou a garota sem nada de especial.
- Não é! – Rebate Luna com ferocidade. – Você não é uma garota sem nada de especial!
- Sou. É exatamente o que sou. Sou só uma ninguém, comum. E fui tão idiota! Acreditei em tudo. Pensei honestamente que Draco me amava. Bem, talvez não exatamente que me amava. – Sinto-me ficando vermelha. – Mas... Você sabe. Que ele sentia por mim o que eu sentia por ele.
- Eu sei. – Luna também parece em vias de chorar. – Eu sei que você acreditou. – Ela se inclina para mim e me dá um abraço enorme.
De repente recua, sem jeito.
- Isso não está deixando você desconfortável, está? Quero dizer, não está... Deixando você com tesão nem nada...
- Luna, pela última vez, eu não sou lésbica! – Grito exasperada.
- Certo! – diz ela depressa. – Certo. Desculpe. – Ela me dá outro abraço apertado, depois se levanta. – Anda. Você precisa de uma bebida.
Vamos a minúscula varanda que foi descrita como “espaçoso terraço” pelo proprietário quando alugou o apartamento, e nos sentamos num retalho de sol, bebendo o schnapps que Luna comprou no free-shop ano passado. Cada gole faz minha boca queimar insuportavelmente, mas cinco segundos depois lança um calor reconfortante em todo o corpo.
- Eu deveria saber – digo, olhando para o copo. – Deveria saber que um grande milionário importante como aquele nunca se interessaria por uma garota como eu.
- Simplesmente não consigo acreditar. – Diz Luna, suspirando pela milésima vez. – Não acredito que foi tudo armado. Era tão romântico. Mudando de idéia com relação a ir para os Estados Unidos... E o ônibus... E trazer aquele coquetel cor-de-rosa para você...
- Mas esse é o ponto. – Sinto lágrimas subindo de novo, e pisco ferozmente para segurá-las. – É isso que torna a coisa tão humilhante. Ele sabia exatamente do que eu gostaria. Eu contei no avião que estava entediada com Harry. Ele sabia que eu queria empolgação, suspense, um grande romance. Ele simplesmente deu tudo que sabia que eu gostaria. E eu acreditei, porque quis acreditar.
- Você acha honestamente que tudo não passou de um grande plano? – Luna morde o lábio.
- Claro que era um plano. – Exclamo, lacrimosa. – Ele deliberadamente me seguiu, observava tudo que eu fazia, queria entrar na minha vida! Olha o modo como ele veio e espiou meu quarto. Por isso ele parecia tão interessado. Devia ficar tomando notas o tempo todo. Devia ter um gravador no bolso. E eu... Convidei-o a entrar. – Tomo um gole grande de schapps e tenho um ligeiro tremor. – Nunca mais vou confiar num homem. Nunca.
- Mas ele parecia tão legal! – Tentou ainda Luna, tristonha – Eu não acredito que ele estivesse sendo tão cínico.
- Luna... – Levanto os olhos. – A verdade é que um homem como aquele não chega ao topo sem ser implacável e pisar nas pessoas. Isso não acontece.
- Não? – Ela me encara de volta, com a testa franzida. – Talvez você esteja certa. Meu Deus, que deprimente.
- É a Hermione? – Diz uma voz cortante, e Pansy aparece na varanda, de roupão branco e máscara facial, os olhos estreitados furiosamente. – Então, “nunca peguei suas roupas emprestadas”, não é? O que tem a dizer sobre minha sandália Prada?
Ah meu Deus. Não há sentido em mentir, há?
- São estreitas e desconfortáveis. – respondo dando de ombros, e Pansy inala com força.
- Eu sabia! Eu sabia o tempo todo. Você pega minhas roupas emprestadas. E meu pulôver Joseph. E minha bolsa Gucci?
- Que bolsa Gucci? – Contra-ataco desafiadora.
Por um momento Pansy fica sem palavras.
- Todas! – Grita, finalmente. – Sabe, eu poderia processar você por causa disso. Poderia mandar você para a cadeia! – Ela brande um pedaço de papel para mim. – Tenho uma lista de itens que suspeito que foram usados por pessoas além de mim nos últimos três meses.
- Ah, cala a boca – Explode Luna. – Hermione está arrasada. Ela foi traída e humilhada pelo homem que parecia gostar dela de verdade.
- Oh, que surpresa! Vou desmaiar de tanto choque. – Retorque Pansy, irônica. – Eu quase adivinhei. Eu disse! Nunca fale sobre você aos homens, isso acaba causando encrenca. Eu não avisei?
- Você disse que ela não ganharia uma pedra no dedo! – Exclama Luna. – Você não disse “ele vai falar de você na televisão, contando ao país todos os seus segredos particulares”. Sabe, Pansy, você poderia ser um pouquinho mais solidária.
- Não, Luna, ela está certa. – Respondo, arrasada. – Ela estava certa o tempo todo. Se eu tivesse mantido essa minha boca fechada, nada disso teria acontecido. – Estendo a mão para a garrafa de schapps e sirvo outro copo. – Os relacionamentos são uma batalha. São um jogo de xadrez. E o que eu fiz? Simplesmente joguei todas as minhas peças no tabuleiro ao mesmo tempo: “Pronto, pegue todas!” – Tomo um gole. – A verdade é que homens e mulheres nunca devem contar nada um ao outro. Nada.
- Concordo totalmente. – Exclama Pansy. – Eu planejo contar o mínimo possível ao meu futuro marido... – Ela pára quando o telefone sem fio, em sua mão, dá um toque agudo.
- Alô. Dafne? Ah. É... certo. Espera um instantinho.
Ela põe a mão no fone e me olha, arregalada.
- É o Draco! – Murmura.
Encaro-a de volta, num choque absoluto.
Acho que quase tinha esquecido que Draco existia no mundo real. Só consigo ver seu rosto na tela de televisão, sorrindo, assentindo e me afundando lentamente em minha humilhação.
- Diga que Hermione não quer falar com ele! – Sussurra Luna.
- Não! Ela precisa falar com ele. – Sibila Pansy de volta. – Caso contrário ele vai achar que ganhou.
- Mas...
- Me dá! – Ordeno, e pego o telefone na mão de Pansy, com o coração martelando. – Oi. – Digo no tom mais seco que consigo.
- Hermione, sou eu – responde a voz familiar de Draco, e sem aviso eu sinto um espasmo de emoção que quase me domina. Quero chorar. Quero bater nele, machucá-lo...
Mas, de algum modo, mantenho o controle.
- Nunca mais quero falar com você. – Digo. E desligo o telefone, respirando ofegante.
Um instante depois, o telefone toca de novo.
- Por favor, Hermione. – Pede Draco. – Escute só um momento. Eu sei que você deve estar muito perturbada. Mas se me der um segundo para explicar...
- Você não ouviu? – Exclamo com o rosto ruborizado. – Você me usou e me humilhou, e eu nunca mais quero falar com você nem ver você nem ouvir nem... Nem...
- Sentir seu gosto – Sibila Pansy, assentindo ansiosa.
- ...Nem tocar em você de novo. Nunca. Jamais. – Desligo o telefone, marcho para dentro e arranco o fio da parede. Depois, com as mãos trêmulas, tiro o celular da bolsa quando ele começa a tocar, e desligo.
Quando saio para a varanda de novo ainda estou meio trêmula de choque. Não acredito que tudo terminou assim. Num dia, todo o meu romance perfeito desmoronou e virou pó.
- Você está bem? – Pergunta Luna ansiosa.
- Estou, acho. – Afundo-me na cadeira. – Meio trêmula.
- Agora, Hermione. – Começa Pansy, examinando uma das suas cutículas. – Não quero pressionar você. Mas você sabe o que tem de fazer, não sabe?
- O quê?
- Tem de se vingar! – Ela ergue os olhos e me fixa com uma expressão decidida. – Tem de fazer com que ele pague.
- Ah, não. – Luna faz uma careta. – A vingança não é uma coisa indigna? Não é melhor simplesmente se afastar?
- De que adianta se afastar? – Retruca Pansy. – Isso vai ensinar uma lição a ele? Vai fazer com que ele deseje nunca ter atravessado o seu caminho?
- Hermione e eu sempre concordamos que é preferível manter um nível moral elevado. – diz Luna decidida. – “Viver bem é a melhor vingança”. George Herbert.
Pansy a encara com o rosto vazio por alguns segundos.
- Bom… – Diz ela finalmente, virando-se de novo para mim. – Eu adoraria ajudar. Na verdade a vingança é uma especialidade minha, ainda que seja eu a dizer...
Evito o olhar de Luna.
- O que você tinha em mente?
- Arranhar o carro dele, rasgar os ternos, costurar peixe dentro das cortinas e esperar que eles apodreçam... – Desenrola Pansy instantaneamente, como se estivesse recitando poesia.
- Você aprendeu isso tudo na escola de boas maneiras? – Pergunta Luna, revirando os olhos.
- Na verdade eu estou sendo feminista. – Responde Pansy. – Nós, mulheres, temos de defender nossos direitos. Sabe, antes de se casar com meu pai, mamãe namorou um cientista que praticamente acabou com ela. Ele mudou de idéia três semanas antes do casamento, dá para acreditar? Aí uma noite ela entrou no laboratório dele e tirou todas as tomadas da máquina dele. Toda a pesquisa ficou arruinada! Ela sempre disse que foi uma lição ao Emerson!
- Emerson? – Luna a olha, incrédula. – O... Emerson Davies?
- Isso mesmo! Davies.
- Emerson Davies, que quase descobriu a cura da varíola?
- Bem, ele não deveria ter mexido com minha mãe, deveria? – Empertiga-se Pansy, virando-se para mim. – Outra dica de mamãe é óleo de pimenta. Você combina de fazer sexo com o cara de novo, e depois diz: “Que tal uma massagenzinha com óleo?” E esfrega o óleo no... Você sabe. – Seus olhos faíscam. – Você chega no que interessa!
- Sua mãe lhe ensinou isso? – Diz Luna.
- Foi. Na verdade foi uma coisa linda. Quando eu fiz dezoito anos ela me fez sentar e disse que nós tínhamos de bater um papinho sobre homens e mulheres...
Luna está encarando-a incrédula.
- E nessa conversa ela instruiu você a passar óleo de pimenta nos órgãos genitais dos homens?
- Só se eles tratassem mal a gente. – Justifica-se Pansy, chateada. – Qual é o seu problema Luna? Você acha que deveria deixar os homens pisarem na gente e irem embora numa boa? Que feminismo é esse?
- Não estou dizendo isso. – Responde Luna. – Eu só não me vingaria com... Óleo de pimenta.
- Bem, o que você faria, espertinha? – Pansy põe as mãos nos quadris.
- É... – Luna procura as palavras. – Se eu fosse me rebaixar a ponto de querer vingança, coisa que nunca faria porque acho um erro gigantesco... – Ela pára para respirar. – Eu faria exatamente o que ele fez. Revelaria os segredos dele.
- Na verdade... Concordo. – Confessa Pansy, de má vontade.
- Humilhação. – Continua Luna, com um ar indignado. – Ele seria envergonhado. Para ver o que é bom.
As duas se viram e me olham cheias de expectativa.
- Mas eu não sei nenhum segredo dele – Murmuro.
- Você deve saber! – Insiste Pansy.
- Não sei. – Digo, sentindo-me humilhada de novo. – Luna, você entendeu tudo. Nosso relacionamento era totalmente de mão única. Eu compartilhei todos os meus segredos com ele, mas ele não compartilhou nenhum comigo. Não me contou nada. Nós não éramos almas gêmeas. Eu fui uma imbecil totalmente iludida.
- Hermione, você não foi uma imbecil. – Consola Luna, pondo a mão com simpatia sobre a minha. – Você só foi muito confiante.
- Confiante. Imbecil. É a mesma coisa.
- Você deve saber alguma coisa! – Exclama Pansy. – Você dormiu com ele, pelo amor de Deus! Ele deve ter algum segredo. Algum ponto fraco.
- Um calcanhar-de-aquiles. – Intervém Luna, e Pansy lhe dá um olhar estranho.
- Não precisa ser algo com os pés dele. – Comenta, e se vira para mim, fazendo uma cara de “Luna pirou de vez”. – Pode ser qualquer coisa. Qualquer coisa. Pense!
Fecho os olhos obedientemente e perscruto minhas memórias. Mas minha mente está redemoinhando um pouco, por causa de todo o schapps. Segredos... os segredos de Draco... pense...
Escócia. De repente um pensamento coerente me passa pela cabeça. Abro os olhos, sentindo uma pontada de empolgação. Eu sei um dos segredos dele. Sei!
- O que é? – Quer saber Pansy avidamente. – Você se lembrou de alguma coisa?
- Ele... – Eu paro, sentindo-me dividida.
Eu fiz uma promessa a Draco. Eu prometi.
Mas, e daí? E daí, porcaria? Meu peito se incha de emoção de novo. Por que, diabos, vou manter alguma promessa estúpida feita a ele? Ele não guardou meus segredos, guardou?
- Ele esteve na Escócia! – Digo em triunfo. – Na primeira vez que nós nos encontramos depois do avião, ele pediu para guardar segredo de que esteve na Escócia.
- Por que ele fez isso? – Pergunta Luna.
- Não sei.
Há uma pausa.
- Hmm – Murmura Pansy com gentileza. – Não é o segredo mais embaraçoso do mundo, é? Puxa, um monte de gente vive na Escócia. Você não tem nada melhor? Tipo... Ele usa peruca no peito?
- Peruca no peito! – Luna dá uma gargalhada explosiva. – Ou um topete falso!
- Claro que ele não usa peruca no peito. Nem topete falso. – Retruco indignada. Será que elas pensam honestamente que eu sairia com um cara que usa topete falso?
- Bem, então você vai ter de inventar alguma coisa. – Propõe Pansy. – Sabe, antes do caso com o cientista, mamãe foi muito maltratada por um político. Então ela inventou um boato de que ele estava aceitando suborno do partido comunista, e fez a história circular na Casa dos Comuns. Ela sempre disse que isso ensinou uma lição ao Dennis!
- Não foi... Dennis Llewellyn? – pergunta Luna.
- Hmm... É, acho que foi ele.
- O Secretário do Interior que caiu em desgraça? – Luna está aparvalhada. – O que passou a vida inteira lutando para limpar o nome e acabou num hospício?
- Bem, ele não deveria ter mexido com mamãe, deveria? – Pansy estica o queixo. Um bipe soa em seu bolso. – Hora do meu banho dos pés!
Enquanto ela desaparece de volta em casa, Luna revira os olhos.
- Essa mulher é pirada. – Confidencia. - Totalmente pirada. Hermione, você não vai inventar nada sobre Draco Malfoy.
- Não vou inventar nada! – Digo cheia de indignação. – Quem você acha que eu sou? Só que... – Olho para o meu schapps, sentindo a empolgação sumir. – Por que mentir? Eu nunca poderia me vingar do Draco. Ele não tem nenhum ponto fraco. É um mlionário gigantesco, poderoso. – Tomo um gole da minha bebida, arrasada. – E eu sou uma... Uma ninguém, sem nada de especial... Uma merda... Uma... Garota comum.
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Genteee, eu não sei se alguém lê os comentários finais, então... Eu, particularmente, gosto muito desse capitulo por causa da Pansy e da Luna, espero que vocês tbm gostem. Enfim, obrigada pelos comentários e as leitoras novas, sejam bem vindas, já deram uma olhada na minha última fic "Obsessed"? Eu gosto muito dela, ficou do jeito que eu tinha imagindo, deem uma olhada lá e comentem se gostarem, eu tenho algumas outras ones aqui, mas tenho muita vergonha de postar. Ah, alguém aí tem tumblr?? Se sim, o meu é esse http://myself-hate-loving-you.tumblr.com/, para vocês seguirem se gostarem :)
Hyrla Potter: o motivo do Draco ter feito isso será explicado nos próximos capítulos, mas ainda haver alguns desentendimentos entre eles. Eu dei uma olhada no seu perfil e percebi que você não lê muitas fics do shipper Draco/Hermione, que bom q gostou dessa história. Ela é a adaptação de um livro da Sophie Kinsella, não fui eu quem escreveu. Eu arrisco escrever, não sei se bem ou não. Se quiser ver, dá uma olhada nas outras fics e me dê sua opinião, isso é muito importante para mim, sério :) Espero que goste dos próximos capitulos.
Karina Araújo: Espero que continue acompanhando, mesmo que já esteja perto do fim. Mas ainda vai acontecer muitas coisas bem legais. Tomara que tenha gostado desse capitulo.
nataaalia: Como eu disse, o motivo dele ter revelado todos os segredos será revelado mais para frente. E também concordo com vc, achei muito prematuro da parte dela chegar dizendo que está apaixonada. Espero que tenha gostado desse :D
Ceci96: Seja bem vinda!!Eu nem percebi sobre a troca dos personagens na última revisão que eu fiz, mas as vezes passa, entende? E quanto as atualizações, eu já calculei que tenho de 15 a 20 leitoras fixas, então eu dou um tempo para esperar que todas tenham lido o capitulo e até mesmo para que a fic chame a atenção de leitoras novas, como você :)
MaisQuePleura: Todas ficamos chochadas, acredite. Espero q tenha gostado desse capitulo :)
Undiscovered: Não entendi o que vc quis dizer com alguém como ela? kkkkkkkkk Meio doidinha, é isso? Bem, espero q tenha gostado desse capitulo tanto quanto eu....
Dark Moon: Senti tudo isso q vc disse e, por isso, tive que fazer a adaptação. Tem alguns livros q eu leio e penso q seria um casal Dramione perfeito, mas tem a nova regra do site q diz q é probido fazer adaptações pq é plágio (e mesmo com essa regra eu já vi algumas adaptações surgirem depois q ela foi criada) kkkkkkkkkkkkkk Eu fico tão tentada, sabe? Afinal só faço isso para me divertir e pq tenho tempo de sobra, se não não faria. E, awwn, obrigada pelo fã *_* Espqero q tenha gostado desse capitulo.