Hermione acordou no domingo de manhã sentindo o cheiro de Harry na cama. Enfiando o rosto no travesseiro, inspirou. Virou-se de lado, puxando o travesseiro com ela, os olhos ainda fechados. Manteve-os cerrados, lembrando-se dos acontecimentos da noite anterior.
Suas estranhas formigaram. Colocou a mão na barriga. Será que um bebê já se anunciava? O pensamento a trouxe de volta à terra junto à consciência do que devia fazer. Pegando o termômetro na mesa-de-cabeceira, colocou-o debaixo da língua. Cinco minutos depois, satisfeita, guardou-o na caixa.
Perfeito. Os ovários estavam prestes a soltar um óvulo e havia um exército de espermatozóides à espera para fertilizá-lo. As condições eram as melhores. O médico ficaria satisfeito.
Sorrindo, recostou-se e, nesse instante, sentiu-se mais tranqüila do que nunca. No momento seguinte, sentiu uma carga de energia. Afastando as cobertas, pulou da cama e dirigiu-se para o banheiro.
Quando saiu, já tinha tomado banho, prendido o cabelo e se pintado — nada do que faria normalmente aos domingos, sozinhaem casa. Masnão havia nada de normal naquele domingo. Tinha um hóspede que queria impressionar com seu comportamento, maturidade e competência. Com esse objetivo, abriu mão dos shorts e da camiseta habituais por uma calça branca justa, mais sofisticada, e uma camisa comprida azul-marinho que prendeu com um cinto nos quadris e um sapato da mesma cor.
Apurou os ouvidos esperando sinal de Harry, mas não ouviu nada. Ele ficara acordado até tarde na noite anterior — ouvira seus passos pela casa — e devia estar dormindo. Agradecida, desceu pé ante pé as escadas e foi para a cozinha, onde, evitando fazer ruído, preparou o café. Tinha acabado de fechar a tampa e estava se virando, quando uma súbita aparição a fez dar um salto.
Ofegante, colocou a mão no coração.
— Não ouvi você.
Ele estava descalço na porta, usando um jogging velho. Uma escura penugem cobria-lhe o queixo, diminuindo o efeito da cicatriz. Ele estava sonolento e desalinhado e tão fofinho. Ao mesmo tempo tão másculo — mesmo se não tivesse sentido o cheiro dele nos lençóis, mesmo se não tivesse pensado nele enquanto tomava banho, mesmo se não tivesse compartilhado de tanta intimidade na noite anterior, ela se sentiria atraída. Ajudava o fato de seus olhos estarem semicerrados; se aqueles olhos verdes elétricos estivessem bem abertos, ela teria se derretido no ato. O rosto já estava ruborizado o suficiente.
Numa tentativa de ganhar tempo para se acalmar, Hermione abriu a geladeira. Tinha ido ao supermercado no sábado.
— Quer omelete de queijo? Tenho um cheddar de Vermont maravilhoso. Ou de presunto. Ou de cebola. Ou tudo junto. — Ela se ergueu, deu um passo atrás e esbarrou nele. A cabeça girou, os olhos se encontrando. — Desculpe. Não ouvi você se aproximar. — Ela inclinou-se na geladeira. — Se preferir tenho pão e cream-cheese. Ou você pode comer omelete e pão...
— Hermione.
Ela colocou uma caixa de suco de laranja na bancada.
— Hum?
— Olhe para mim, Hermione. Ela lançou-lhe um olhar rápido antes de voltá-lo para a manteiga.
— Quem sabe panquecas?
Ele colocou-lhe as mãos nos ombros e a virou.
— Hermione, olhe para mim.
Essa era a última coisa que ela queria fazer. Olhar para ele lhe traria de volta a imagem do que tinham feito na cama e isso a deixariaem pânico. Masnão era covarde. Reunindo a compostura reservada à presidente e chefe do conselho da Granger, levantou o queixo e encontrou-lhe o olhar.
— Você ainda está constrangida — acusou-a.
— Um pouco.
— Mas por quê?
Ela sabia que ele devia estar surpreso. O que representava uma noite de sexo para ele? O número de mulheres com quem fizera amor superava em muito o número de namorados que ela tivera. Ele não tinha inibições; era mais seguro em relação ao próprio corpo do que ela jamais seria com o seu. Ele não poderia compreender o desconforto que ela sentira sabendo ser ele o irmão mais velho de Caroline, um renomado aventureiro e escritor. Ele era maior do que a vida e embora em sua própria esfera ela fosse bem-sucedida e sofisticada, essa esfera era limitada. A dele não.
Mas não queria falar sobre isso. Então disse:
— O marido de uma de minhas amigas é ginecologista. Shannon não entende não ter me consultado com ele, mas não havia a menor chance. Algumas coisas precisam de distanciamento. Se Don fosse meu médico, toda vez que o encontrasse, fosse num jantar aqui em casa ou numa festa, no cinema, no correio ou no supermercado, eu saberia — nós dois saberíamos — o que ele tinha visto e tocado. Eu ficaria morta de vergonha. — Fez uma pausa e concluiu: — Fazer sexo com você é mais ou menos parecido. Você não é meu amante. Você é meu... meu... não sei como chamá-lo. Harry repreendeu-a.
— Não vi muita coisa. Estava escuro.
— Mas me tocou.
— E gostei. — Ele a sacudiu devagar. — Então não há motivo para morrer de vergonha. Deveria estar orgulhosa, Hermione. O que fez na noite passada foi bom de verdade.
Ela queria acreditar. Queria acreditar que ele não estava dizendo isso apenas para animá-la. Ele era capaz disso. Tinha visto o jeito com que apoiou Caroline quando, logo depois do casamento, estava convencida de que o casamento estava fracassando. Ironicamente, considerando que ele era contra a instituição casamento, convenceu-a de que era preciso paciência, compreensão e renúncia. Caroline ouvira os conselhos. O casamento sobreviveu ao início instável e se tornou sólido.
E claro, Harry podia ser convincente. Hermione queria acreditar em cada palavra que ele dissera. Entretanto, não achava ajuizado. Uma mulher podia se tornar viciada em elogios do gênero, e em breve Harry iria embora. Com isso em mente, disse:
— Sou realmente agradecida por tudo, Harry. Espero que tenha consciência disso. Meu bebê vai ser tão maravilhoso... e devo isso a você.
Os olhos verdes a censuraram por tentar mudar de assunto.
— Você pode também me agradecer relaxando enquanto eu estiver por perto. Pode também me agradecer se mostrando um pouco desarrumada de vezem quando. Vocênão precisa de toda essa elegância.
— Não estou elegante.
Ele a examinou.
— Blusa de seda? Cabelo num coque? Maquiagem? — Ele a desafiou com uma sobrancelha levantada. — Numa manhã de domingo?
Ficou mergulhada em culpa.
— Eu sei o que está fazendo, Hermione. Está tentando fazer com que tudo seja profissional, mas algumas coisas não têm nada a ver com negócios, e essa é uma delas. Com certeza, o que estamos fazendo não é convencional. É um acordo, tem um objetivo específico, mas isso não significa que tem que ser frio ou vulgar. Não dá para ser objetiva num assunto do gênero. Há sentimentos e emoções envolvidos. — Ele lhe deu outra sacudidela. — Não vou deixar você reprimi-los, está ouvindo?
— Não posso fazer outra coisa além de escutar — disse baixinho.
— Mas vai mudar?
— Vou tentar.
Ele a olhou mais um minuto antes de levantar as mãos, num gesto de concessão.
— Está bem. Combinado.
Ela não esperava que ele a soltasse tão facilmente. O fato é que ele tinha aumentado sua auto-estima.
— Então, o que vai querer para o café da manhã?
Sem pensar duas vezes, ele enunciou:
— Uma omelete caprichada, pão, mas nada de panquecas e posso ajudar a fazer a omelete. Cozinho há anos.
Não ficou surpresa. Harry era o homem mais independente que conhecia.
— Acredito, mas você está na minha casa, é meu convidado, e me fazendo um favor monumental. Você não me deixou pagar o jantar a noite passada. O mínimo que posso fazer é preparar seu café da manhã. Além do mais, se não me permitir, jamais saberá o tipo de cozinheira que serei para seu filho.
Ela sabia ter sido convincente quando ele voltou a levantar as mãos, dessa vez rendendo-se.
— Faça meu café da manhã. Vou tomar um banho enquanto isso. Assim que eu comer, vou precisar trabalhar.
Hermione não tinha certeza do que deveria fazer, mas certamente nada obstinado como a maneira com que Harry sentou no escritório e trabalhou no livro. Achou que ele faria intervalos. Achou que ele iria se inteirar do que ela estava fazendo. Achou que ele iria andar de um lado para outro, enquanto meditava sobre uma determinada passagem. Mas ele ficou sentado parado, com o lápis na mão, mal se movendo da cadeira a manhã inteira.
Primeiro ela se sentou no pátio atrás da casa lendo o jornal de domingo, esperando que ele se juntasse a ela a qualquer instante. Ela se certificou de que a blusa não estava fazendo uma barriguinha, que não seria pega lendo as histórias em quadrinhos, que as pernas estavam graciosamente dobradas. Quando os minutos se transformaram em horas e percebeu que todos os esforços foram em vão, começou a executar as tarefas habituais de um domingo. Mudou a roupa de cama e colocou as sujas na máquina de lavar. Examinou o closet para separar as roupas a serem levadas para a tinturaria no dia seguinte. Examinou a correspondência. Ligou para o diretor de marketing paia discutir a nova propaganda.
Esperou Harry na hora do almoço. Quando ele não apareceu, ela levou um enorme sanduíche de peru e um refrigerante para ele. Terminou os dois em tempo recorde, recusou outros e deixou o escritório apenas para ir ao banheiro antes de voltar ao trabalho.
Parou para jantar, mas só às 8 da noite e só para uma pizza na cozinha. Hermione ficou estranhamente decepcionada. Queria cozinhar, mas ele estava preocupado demais para apreciar o esforço e se satisfez com uma pizza. Ela ligou para fazer o pedido. Enquanto ele comia, fez perguntas sobre o livro. Era sobre uma longa expedição através das florestas do Amazonas em busca de uma tribo de índios conhecida por usar plantas medicinais para curar certos tipos de câncer. Embora a eficácia das plantas ainda precisasse ser provada, o tema da história de Harry consistia no estilo de vida dos índios.
— Quando posso ler? — perguntou.
Seu entusiasmo, tão evidente no tom de voz e na expressão, era contagiante.
— Quando eu publicá-lo na próxima primavera.
— Não posso ler antes?
Ele sacudiu a cabeça.
— Ninguém lê antes, exceto meu editor. — Ele contorceu o rosto. — Não que ele vá gostar desse. — Ele levou o prato para a pia. — Tenho a impressão de que ele vai brigar comigo. Estava esperando por uma caça ao tesouro. Ofereci-lhe um estudo antropológico. Ele pode alegar não gostar da forma como organizei a história, mas isso é apenas uma desculpa.
— O que ele tem contra seu estudo antropológico?
— Não é uma caça ao tesouro.
— Mas pode ser fascinante.
— É fascinante — Harry bufou — mas convencê-lo é outra história. — Colocou o prato dela na máquina de lavar e fechou a porta. — Tudo bem, de volta ao trabalho.
— Você nunca fez um estudo antropológico antes — disse Hermione, virando-se para que a voz o alcançasse quando ele saiu.
— Bem, chegou a hora! — gritou, antes de desaparecer de seu campo de visão.
Ela quis perguntar mais coisas, mas ele foi sugado pelo escritório. Então ela lhe levou café e manteve a xícara cheia, depois preparou brownies e lhe ofereceu. Às 11 da noite, percebendo não ter muito mais a fazer, decidiu ir para a cama. Foi até a porta do escritório. Esperou até ele fazer uma pausa e levantar a cabeça.
— Acho que vou me recolher. Quer um bule fresco de café?
Ele recostou-se na cadeira e a olhou com olhos cansados.
— Não. Tenho o suficiente para me manter de pé por um tempo. A que horas você sai amanhã?
— Às 7h l5. Tenho uma reunião às 8h00. Você vai passar o dia trabalhando?
Com um olhar desesperado para os papéis que cobriam a mesa desordenadamente, ele concordou com a cabeça.
— Quando vai estar de volta?
Hermione sentiu um frio na boca do estômago. Amanhã à noite era "a" noite. De novo.
— Às 17h30. Quer comer em casa ou sair para jantar?
— Sair. Vou ficar alucinado trancado aqui, mas não quero aparecer na casa de meus pais ou de Caroline. — Interrompeu-se e indagou: — Caroline sabe que estou aqui?
— Não contei. Você lhe diria se quisesse.
— Isso a deixaria mais desconfortável ainda. Ela perguntou sobre minha decisão?
— Perguntou, mas menti dizendo que ainda estamos discutindo o assunto.
— Quando ficar grávida vai contar a verdade?
— Não tenho certeza — disse Hermione, acrescentando meiga: — Provavelmente não. Acho melhor assim. — Mudou de assunto antes que ele fizesse qualquer comentário. — Então, onde vai querer jantar?
— Em algum lugar onde a gente não esbarre com ninguém disposto a falar durante três horas. E não quero me arrumar todo. Alguma sugestão?
— Vou pensar num lugar — prometeu e levantou a mão casualmente. — Boa noite. — E saiu.
— Hermione? — Ela voltou e notou os olhos subitamente menos cansados que alguns minutos antes. Estavam mais calorosos, mais diretos e penetrantes. Mandavam uma mensagem inconfundível. — Vou esperar ansioso.
Mantendo a pose, ela simplesmente acenou e saiu, mas as palavras ressoaram-lhe na cabeça até chegar ao quarto. Voltou a pensar nelas ao se deitar na cama, esquecida do livro no colo. Permaneceram em sua mente até dormir e voltaram tão logo ela acordou na manhã seguinte. Quando o termômetro lhe mostrou que estava ovulando, as palavras assumiram um significado mais prático. Entretanto, mesmo assim, afastou-as enquanto se arrumava para o trabalho.
Hermione passou a manhã ocupada, de uma reunião para outra. Quando parou na hora do almoço, pensou no que Harry estaria fazendo. O telefone a atraía, mas resistiu. A relação entre eles era profissional, lembrou-se, e não telefonava para os colegas de trabalho para saber se tinham almoçado.
Então, em vez de ligar para Harry, voltou ao trabalho e, por um tempo, conseguiu mergulhar no estudo das ultimas planilhas da empresa. Entretanto, à tarde, a mente começou a vagar e sempre na mesma direção. Pensou em Harry vindo a seu encontro, tocando-a, no calor da pele e no tamanho do sexo. Sentiu-se afogueada e trêmula. Acabou por sair mais cedo do trabalho e dirigiu sem rumo por uma hora buscando relaxar antes de voltar para casa.
Harry dormia a sono solto. Depois de percorrer a casa à sua procura, encontrou-o no pátio, esparramado de bruços na espreguiçadeira. Os pés descalços pendurados, um braço debaixo do corpo, o outro dobrado no piso, os dedos compridos abertos. Ficou em dúvida se devia acordá-lo, mas não teve coragem. Então ligou para o restaurante — um lugar sossegado em Providence, onde nenhum deles seria reconhecido, e cancelou a reserva. Depois colocou um vestido de verão simples e, deixando um bilhete na bancada, caso ele acordasse enquanto ela estava fora, foi ao mercado local comprar camarões frescos.
Harry ainda estava dormindo quando voltou, o que a agradou tremendamente. Gostava da idéia de ele ter o repouso merecido. Também gostou da idéia de preparar o jantar, o que era divertido considerando-se que ela era uma executiva e não uma cozinheira — mas, nos últimos dias, o instinto maternal tinha vindo à tona. Harry não era uma criança, mas a vontade de alimentá-lo se manifestara. Considerou o que estava fazendo como um exercício.
Com três diferentes livros de culinária abertos na bancada, preparou camarão ao curry, arroz com açafrão e uma salada de pepino. Com Harry ainda dormindo, pegou um quarto livro de culinária e preparou um creme de morangos e, como ainda tinha tempo, preparou uma torta de maçã de sobremesa.
A essa altura, o sol tinha se posto e ela começou a se questionar se ele estava bem. Foi para o pátio escuro e ajoelhou-se a seu lado. Só um de seus olhos, fechado, estava visível. A cicatriz estava mascarada pela noite e menos ameaçadora que de hábito. Na verdade, ele parecia frágil.
Sem ter certeza se preferia o Harry frágil ou o enérgico, afastou-lhe os cabelos da sobrancelha e pousou a mão em suas costas. A pele estava quente debaixo da camiseta, os músculos rijos.
— Harry — chamou baixinho. — Harry.
Ele respirou profundamente e continuou a dormir. Ela sacudiu-o de leve.
— Harry.
— Humm.
Ela queria saber se ele se levantaria. Já que obviamente não estava inconsciente, se quisesse dormir mais não iria impedi-lo. O jantar podia esperar.
Estava prestes a se levantar, quando ele respirou fundo, apertou os olhos e abriu-os. O olhar atingiu seu ombro, ali permanecendo até tomar consciência do que olhava. Depois, levantou-o, bem lento, até seu rosto.
Ele parecia confuso. Ela deixou escapar um sorriso.
— Estava começando a achar que você tinha contraído a doença do sono na selva.
— Hum-hum — murmurou, sem mover a boca.
— Você trabalhou o dia inteiro?
— Ahã.
— E a noite inteira?
— Ahã.
— Terminou a revisão?
— Quase. — Ele bocejou e moveu a cabeça para poder fitá-la com os dois olhos. Tirando a mão do piso, colocou-a debaixo do corpo. — Que horas são?
— Quase 9 da noite.
— Você devia ter me acordado antes.
— Você estava cansado.
— Mas tínhamos combinado sair para jantar.
— Não faz mal. Podemos comer aqui. Andei cozinhando...
— Depois de trabalhar o dia inteiro?
— Estou treinando. Vou ter que cozinhar para o bebê, cansada ou não. Além do mais, não me importo. É uma mudança. Mas, é claro, não posso garantir o resultado.
— A omelete estava ótima. Você é uma cozinheira fantástica.
— Ainda sou aprendiz. Não tenho muita prática.
— Você não cozinhava quando morava com seus pais?
— Sempre tivemos cozinheira.
— E por que não tem uma agora?
— Porque seria pretensioso. Um desperdício de dinheiro e desnecessário. Não como muito.
— Dá para ver — murmurou. No escuro, seu olhar desceu dos ombros para os seios.
— Não sou muito magra — disse, se defendendo. — Se não me cuidar, vou ficar gorda.
Ele franziu a testa.
— Quando você era mais jovem, não era um pouco...
— Gorda?
— Gorda não.
— Rechonchuda.
— Rechonchuda não. Robusta.
— Dá na mesma. Nossa cozinheira era ótima...
— Fazia brownies todo tempo, não é?
Ela lembrou-se do prato que tinha levado para ele na noite anterior. Sobravam alguns quando saiu para o trabalho, mas tinham sumido quando voltou. Não que Harry precisasse se preocupar com o peso. Era magro, mas forte, o que num homem era maravilhoso.
— É, fazia... — admitiu com um suspiro. — E um monte de outras guloseimas incrivelmente engordativas. Só perdi peso quando entrei para a faculdade. Quando fiz o curso de graduação, só comia comida saudável. Tinha meu próprio apartamento na época, então foi fácil. Meus gostos são simples. Comida básica. Não é muito divertido cozinhar para uma pessoa. — Pensando no prazer que experimentara aquela noite na cozinha, disse: — É mais divertido cozinhar para dois. — Mas ao se dar conta de que suas palavras podiam ser interpretadas erroneamente, acrescentou: — Deus proteja esse bebê se não gostar de alta culinária.
Harry continuou deitado quieto, fitando-a. Com a luz enfraquecendo a descarga elétrica de seus olhos, ela se sentiu surpreendentemente à vontade.
— O bebê vai gostar de qualquer coisa que faça.
— Espero que sim.
— Você vai ser uma boa mãe.
Ela sorriu.
— Espero que sim.
O sorriso ainda estava em seu rosto quando a mão dele saiu de debaixo do corpo e foi para a parte de trás da cabeça dela. Desapareceu quando ele retirou um grampo.
— Gosto de seu cabelo solto — disse com voz rouca, tirando um segundo grampo.
O pulso acelerou. Queria pedir que parasse, mas as palavras não saíam. Queria se levantar e voltar para a cozinha, mas as pernas não obedeciam. Um por um, retirou os grampos até o cabelo cair-lhe nos ombros. Ele separou os cachos, formando pequenas mechas, massageando o couro cabeludo onde os grampos estiveram presos.
Hermione sentiu um calor súbito.
— Talvez eu deva ir olhar o camarão.
— Não. Eu quero você, não o camarão.
— A mim? — O coração bateu com mais força. — Agora?
Ele colocou a mão em sua nuca.
— Venha aqui. — Fez uma leve pressão que a desestabilizou. Tirando vantagem disso, puxou-a e, embora ela tivesse se apoiado buscando o equilíbrio, antes que pudesse fazer mais, estava debaixo dele no colchão.
— Harry...
Ele tocou-lhe os lábios.
— Quietinha! — Escorregou a palma da mão pelo pescoço até o decote do vestido. — Você está sexy.
— Não era minha intenção. — Prendeu a respiração ao sentir-lhe a mão no seio. — Harry...
— Tudo bem, querida, tudo bem. — Ele alisou o vestido de verão de um jeito capaz de causar descargas elétricas. Emitiu um som baixo quando ele esfregou-lhe o seio com o polegar. — Isso é gostoso, não é?
Isso era incrivelmente gostoso.
— Não podemos.
— Não podemos o quê?
Lutou para encontrar uma resposta. Ele tinha passado a mão para o outro seio. Depois de contorná-lo, abriu a mão e colocou o polegar e o dedo mindinho nos dois mamilos de uma vez. Só lhe restou um pouquinho de ar, suficiente apenas para sussurrar:
— Não podemos fazer aqui.
— Claro que podemos. Ninguém vai ver. Você é dona de todos os acres ao redor.
— Mas no pátio? — suplicou, porque a mão descia-lhe pelo corpo, deixando-a em fogo. — Não tem cama.
Ele colocou a mão debaixo do vestido.
— Nunca faço amor no mesmo lugar duas vezes. Não lhe contei?
— Não. — Ela quase engasgou quando ele tocou-a naquele ponto quente e molhado. — Harry!
Ele sorriu. Tudo que ela podia ver era o brilho de seus olhos, pois estava muito escuro, mas podia escutá-lo com clareza e sabia o motivo do riso.
— Eu quero um bebê.
— Neste momento você me quer. — Tirou a mão de seu corpo para lidar com os shorts. — A química é perfeita. Você não pode negar.
— Não planejei isso.
— Algumas das melhoras coisas da vida não são planejadas. — Tendo se libertado dos shorts, puxou-lhe a calcinha. — Levante.
Ela se levantou.
— Não me sinto à vontade fazendo isso aqui.
— Vai ficar quando se lembrar. — Ele jogou a calcinha para o lado e foi para o meio de suas pernas. Enfiando as mãos por baixo de seu bumbum, a puxou para ele. — Quando você tiver seu bebê, vai se lembrar disso tudo e rir.
— Vou me lembrar disso tudo e ficar ruborizada... Harry!
— E lá vamos nós. Bem fundo. — Ele emitiu um som gutural, mistura de ronco e ronronar. — Meu Deus, meu Deus, como é gostoso.
— Não acredito nisso!
— Enrosque as pernas em volta de mim, meu docinho. Assim, ohhh, assim, não está melhor?
— No pátio!
— Não tenho certeza se posso ir devagar. Diga se eu machucar você, está bem, querida?
A princípio Hermione não o ouviu. Suas entranhas estavam ardendo com o mais intenso prazer. Ela o apertou com as coxas, depois com os braços quando se sentiu desvanecer.
— Está gostoso? — perguntou numa voz sensual, provocando-a com o movimento rítmico dos quadris.
A voz dela quase inaudível:
— Não devia ser.
— Mas você está gostando. Ué, o que foi isso?
— O quê?
— Você fez alguma coisa por dentro. Ela contraiu os músculos novamente.
— Isso?
Ele soltou um gemido torturado e entrou ainda mais e foi a vez dela gemer. A sensação era nova, intensa. Nenhum homem jamais a excitara dessa maneira. Não conseguia pensar em nada além da ereção, do calor e do tamanho dele e do cheiro que começava a reconhecer como dele, talvez deles. Precisando de mais, contorceu-se. As mãos moveram-se nos pêlos do peito. Agarrou-lhe os ombros e acompanhou-lhe o ritmo.
Colando a boca em seu pescoço, ele arqueou-lhe as costas e acelerou o ritmo. Querendo senti-lo todo, ela levantou as pernas e prendeu-as na cintura dele. A realidade começava a se desvanecer quando, com um grito rouco, Harry chegou ao clímax.
Adorando o som triunfante e a sensação da pulsação dentro dela, Hermione o apertou com mais força. Só quando o orgasmo dele cessou, ficou ciente de seu próprio desejo insatisfeito. Depois, como se ele tivesse lido sua mente, sentiu a mão dele espremer-se entre os corpos e ir para o lugar onde eles ainda estavam unidos.
Ela sussurrou o nome dele em protesto.
— Você não vai perder nada — ele sussurrouem resposta. Odedo encontrou o que buscava e começou a esfregar a carne inchada. — Vou continuar dentro de você para deixá-la mais excitada.
— Não — murmurou, mas voltou a esquecer a realidade. Agarrou-lhe o punho, tentando afastar a mão. Em vez disso, o movimento do dedo dele a deixou fraca de tanto desejo. O calor aumentou em seu estômago e espalhou-se como uma névoa, apagando qualquer intenção de protesto. Os seios arfavam. Ela arqueou-se despudorada para aproximar-se ainda mais de Harry, esquecendo os suaves sons de desejo saindo-lhe da garganta até que com um grito reprimido explodiu num prazer tão absoluto que o mundo ficou de um branco ofuscante, brilhante.
Hermione não fazia idéia de quanto tempo se passara até Harry sair de cima dela. Sabia que demorara. A respiração estava serena: o suor da pele tinha secado. Não tinha certeza se tinha cochilado ou simplesmente flutuado num estupor de satisfação reforçado pelo calor do corpo dele sobre o seu. Mas ela sentiu um vazio, no momento em que ele se moveu.
— Fique parada — sussurrou ele e foi à procura da calcinha. Ajudou-a a vesti-la e colocou os shorts. Antes que ela pudesse adivinhar seus planos, pegou-a no colo.
Ela não pronunciou uma palavra. Sentia-se tão exausta; não conseguiria andar com as próprias pernas. Além disso, ser carregada no colo e estar tão pertinho dele era bom demais. Em pouquíssimo tempo, foi colocada gentilmente em uma das cadeiras da cozinha.
Harry aqueceu o jantar preparado por ela e o serviu. Disse estar delicioso e ela concordou, embora estivesse muito distraída. Lutava por tentar entender a conexão entre o prazer que acabara de sentir e o fato de ter um filho.
Não tinha pedido prazer. Não esperava por isso. Não queria isso. Não queria se apegar a algo que perderiaem breve. Afinal, Harry tinha cumprido seu papel e partiria no dia seguinte.
Ela sabia que ele também tinha consciência disso, pois toda a conversa girou em torno do manuscrito que ficaria pronto com mais algumas horas de trabalho naquela noite e sobre o avião já consertado e pronto para alçar vôo. Ele planejava ir à Nova York entregar o manuscrito e depois continuar em direção ao sul, para a Flórida.
Como parecia a única coisa educada a fazer, ela disse que o levaria ao aeroporto.
— Fica a apenas uma hora — ressaltou ao vê-lo surpreso.
— Posso tomar um táxi.
— Você podia ter tomado um táxi quando chegou, mas me pediu para pegá-lo. Então eu vou levar você de volta. — Era o mínimo que podia fazer, levando-se em conta como havia sido generoso com seu tempo.
Em tom brusco, ele replicou:
— Na ocasião, achei que precisávamos conversar. Agora não há mais necessidade.
Ela sabia o quanto ele estava ansioso para recuperar a liberdade e sentiu uma ponta de mágoa. Melhor que houvesse mágoa, pois colocava a necessária distância entre eles. Spencer a havia ajudado com algo que ela queria, mas aí terminava o envolvimento entre eles. Só restava ocupar o tempo juntos da maneira mais tranqüila possível.
— Vou levar você — disse com firmeza.
— Você precisa trabalhar.
— Não vou me sentir à vontade, até ter certeza de você estar no ar.
— Nossa, está assim tão ansiosa para se ver livre de mim?
Ela lhe lançou um olhar irritado. Não sabia a resposta àquela pergunta. Não apenas o sexo tinha sido bom, mas ficar ao lado dele não tinha sido nada mal. Não ficara tão intimidada, nem chegara perto do constrangimento imaginado. Mas a vida precisava seguir em frente e isso significava retomar o escritório em casa, tirar os lençóis da cama onde ele dormira e examinar com atenção o calendário e o corpo, à espera de sinais de que o que acontecera na calada da noite entre ela e Harry tinha dado resultado.
Estavam no Jaguar a caminho do aeroporto na terça de manhã: Hermione dirigindo e Harry pensativo, quando ele quis saber mais a respeito.
— Quando você vai saber?
Ela não estava equivocada. O bebê era o único interesse a uni-los.
— Em 13 dias.
— Pensei que com os testes não precisaria esperar tanto.
— Não confio neles. Se fizer um e o resultado der positivo e o de sangue der negativo, ficarei arrasada. Prefiro esperar. Se meu ciclo atrasar um dia, saberei. Aí posso fazer o teste para confirmar.
Ele estava quieto, olhando pela janela lateral. A uns 15 minutos do aeroporto, ele declarou:
— Ligo para você em duas semanas para saber.
— Não estarei aqui. Estareiem Hong Kong.
A cabeça dele girou rápida.
— Hong Kong? — O brilho prateado dos olhos azuis estava vivo; não sabia se de inveja, curiosidade ou irritação. — Qual o motivo da ida a Hong Kong?
— Inspecionar fábricas que produzem alguns de nossos artigos.
— Sozinha?
Ela sacudiu a cabeça.
— Não; com o pessoal da minha equipe. Gostamos de inspecionar uma ou duas vezes por ano.
— Mas você não deveria ir agora.
Ela visualizou a primeira página do jornal daquela manhã, mas não conseguia se lembrar de ter visto Hong Kong listado entre os lugares mais perigosos do mundo.
— Por que não?
Seus olhos faiscaram — de irritação, percebeu.
— Porque pode estar grávida.
— Se estiver, o que quer que aconteça dentro de mim é tão microscópico que ir para Hong Kong não vai afetarem nada. Acredite— comentou, com um sorriso sábio e uma das mãos, em atitude protetora, na barriga. — Nada farei para colocar em perigo a criança.
— Fiz esta viagem várias vezes. É longa e exaustiva. Você não chama isso de perigo?
— Não. Nem meu médico. Quando soube que você me ajudaria, perguntei a ele. Explicou que se um óvulo for fertilizado, isto acontecerá antes de minha partida e uma viagem como essa não vai prejudicá-lo.
— E se você tiver um aborto do outro lado do mundo?
— Um aborto nesse estágio é uma menstruação. Não vou nem mesmo saber que estava grávida.
— E se estiver grávida e começar a ter enjôos matinais?
— Nenhuma chance. Os enjôos só começam a partir da quinta ou sexta semana. Ou seja, essa é a melhor época para eu viajar. Se ficar aqui, vou olhar o calendário todo dia. Viajando, estarei ocupada. O tempo vai passar mais rápido. — Ela afastou os olhos da estrada para fitá-lo e notou como parecia indeciso. — Sério, Harry. Não estou indo viajar para me divertir. O vôo é longo, a viagem é estritamente profissional. Vou dormir um bocado.
— Vai dormir no vôo? — perguntou ele de um jeito que a deixou momentaneamente abalada. Havia suposto que ele não compreendia suas emoções, mas o tom de voz sugeria o contrário.
Ela manteve a atenção alerta para não perder a entrada do aeroporto.
— Sempre durmo em aviões. É o único jeito de conseguir suportar o vôo. Na verdade, viajei bastante, desde a morte de meus pais, para perder o medo. As estatísticas estão a meu favor. E o acidente com mamãe e papai foi num avião pequeno, particular, enquanto eu só vôo nos maiores aviões comerciais existentes.
— Você ia adorar meu avião — disse ele baixinho e voltou a olhar através da janela.
Hermione não colocaria os pés no avião dele por todo o ouro do mundo, mas isso não significava não invejá-lo. Podia compreender a conveniência, até mesmo o prazer. Podia compreender uma pessoa mais segura por se sentir no comando, tendo as próprias mãos no controle e não as de um estranho. Pessoalmente, precisava de tamanho, volume. Podia ser ilusório, mas sentia-se mais segura assim. Também podia, com certa dose de imaginação, fingir estar sentada numa cabine de um veículo movendo-se em terra do ponto "A ao ponto B".
Sentindo um aperto na boca do estômago, sem dúvida causado pelas dúzias de pequenos aviões à vista, estacionou no Hangar C, desligou o motor e deu início ao discurso que vinha preparando desde o amanhecer:
— Obrigada, Harry. Não tenho palavras para dizer o quanto me sinto grata pelo que fez. Você encontrou tempo para ficar aqui quando tinha um monte de trabalho e eu apreciei muito. Você foi atencioso e gentil. Conseguiu me deixar menos constrangida do que supus. Você foi maravilhoso.
Lentamente, ele virou-se para ela, os olhos inquisidores, a mandíbula contraída. O olhar intimidava. Não estava certa do que o deixara tão zangado.
— Estou sendo sincera — insistiu.
— Tenho certeza que sim.
— Se tivermos sorte, não precisarei incomodá-lo novamente. Já assinei os papéis me comprometendo a não exigir nada de você para a criança. Estão com meu advogado. Ele vai enviá-los por correio, se isso o fizer sentir-se melhor.
Harry abriu a porta e saiu.
— O que me faria sentir melhor — disse zangado, pegando a bagagem — seria você parar de me agradecer como se eu tivesse apenas feito a entrega da lingerie a tempo para as vendas de verão. — Ele estava debruçado no carro, os olhos na altura dos seus. — O que eu e você fizemos foi divertido. Foi estimulante, trouxe satisfação. Serviu para desviar minha atenção do trabalho. — A voz tornou-se mais aguda. — Não se preocupe com a remessa. Eu sei onde os papéis estão. Se precisar deles, pego. — Esticou-se e bateu a porta. Depois jogou a mochila no ombro e saiu andando.
Os olhos de Hermione ficaram vítreos. Piscou uma, duas vezes. Respirou fundo e deixou escapar um suspiro, mas não se moveu. Ficou sentada no carro até ver Harry se aproximar de um dos aviões. Parecia mais velho que os demais. Mas seu passo não falhou. Abriu a porta; olhou o equipamento antes de subir. Ela o viu mover-se dentro da cabine e ajeitar-se atrás dos controles. Depois do que pareceu uma eternidade, as hélices começaram a girar lentamente e depois com mais rapidez. Quando se transformaram em um pouco mais do que uma mancha redonda, o avião virou e se afastou do terminal. Avançou para a pista de decolagem e parou. Logo em seguida, começou novamente a se mover ganhando velocidade até que, com um ligeiro arremesso que a fez arfar, deixou o solo. Ela o viu ganhar altitude, o viu colocar distância entre ele e ela, olhou até o avião não passar de um pontinho no céu.
Só então, jurando não olhar para lugar nenhum, só adiante, ligou o carro e foi para o escritório.