Oi, oi gente! Contagem regressiva para concluir nossa história. Bora ler mais um capítulo.
Carla Cascão: Oi, oi. As coisas estão tranquilas por aqui. Tirando o fato da falta d’água e a decepção com as eleições. E as coisas por aí?
Sabe eu gostaria muito de que aqui no Brasil, o voto não fosse obrigatório. As coisas seriam bem diferentes.
Logo mais você descobre quem é o assassino, mas ele vai causar um pouco mais ainda.
Lembre-se, comentar nunca é demais!
Bjs e uma boa leitura!
*****
Havia mais alguém no quarto.
De repente, isso se tornou uma certeza, e ela tentou acostumar os olhos à escuridão, mas nada viu. Precisava se mover, pensou.
Mas aonde ir? Será que encontraria o caminho da porta de ligação para o quarto de vestir? Poderia esbarrar com a pessoa anônima que se encontrava ali... o assassino.
Então começou a sentir um odor diferente. Não era forte, mas penetrante. Um odor animal, e vinha da porta do quarto de vestir. Lentamente, ela se esgueirou até a porta que dava para o corredor e, como um raio, abriu-a e voltou a fechar.
Ouviu passos pesados, depois um corpo colidindo com algo, e uma espécie de rugido. Bem depressa, apesar dos dedos trêmulos, girou a chave.
Ele estava lá dentro! No seu quarto, pensou, desesperada,. Bastaria correr para os aposentos de Severus, sair pela outra porta e chegar ao corredor. Em pânico, ela correu, esbarrou na mobília, a pistola bem presa entre os dedos. Enveredou por corredores que nunca percorrera antes e alcançou um, negro como breu, sentindo um profundo terror.
Tampou a boca com a mão e continuou correndo. Deveria gritar por socorro? Não. Severus por certo estava muito longe para ouvi-la, e ela revelaria sua localização para o assassino.
Precisava ficar quieta e sua única chance era avançar na direção do marido e do grupo de empregados. Era necessário encontrá-los antes que o monstro a encontrasse.
Lembrava-se de que o grupo comandado por Severus enveredara para a esquerda, e tratou de seguir a mesma direção, usando seu instinto, as rendas delicadas da camisola dançando e se enroscando nos tornozelos. Deslizando a mão pela parede a fim de se orientar e apoiar, continuou segurando a pistola com força.
De repente, não sentiu mais nada a não ser o ar. Era uma porta aberta, e Hermione ignorava onde se encontrava, pois não visitara ainda todas as alas da mansão. Sabia apenas que ali existiam saletas e dormitórios, e poderia se perder em um verdadeiro labirinto de cômodos desconhecidos. Talvez o assassino conhecesse a casa melhor do que ela, raciocinou.
Devagar, afastou-se da parede, e um dos pés descalços pisou em um tapete macio. Quem sabe estava na direção certa e logo encontraria Severus.
Olhou por cima do ombro e enfrentou a escuridão. Onde estaria o criminoso? O silêncio era total, e voltou a correr.
A solidão a atormentava, fazendo-a perder o controle, e o som da própria respiração parecia um estrondo na quietude sepulcral. Ou seria outra pessoa respirando? Reteve o fôlego, um frio mortal percorrendo-lhe a espinha. Precisava manter a calma.
Então, em meio ao silêncio, à solidão e ao breu, o uivo ecoou uma, duas vezes, fazendo-a tampar os ouvidos com as mãos. Não! E, pela terceira vez, o gemido demoníaco encheu o ar, seguido pelo som de vozes e passos apressados.
— Obrigado, meu Deus! — murmurou — Severus ouviu e está se aproximando.
Respirou fundo para chamá-lo, e então uma mão brutal abafou-lhe a boca, fazendo-a engasgar. Com incrível força, um braço a puxou de encontro a um corpo rijo, e o odor penetrante voltou a invadir as narinas de Hermione, que desfechou pontapés e esperneou, tentando se virar e encostar a pistola no opressor. Porém o aperto parecia de aço, impedindo seus movimentos. Não conseguia se mover nem gritar.
As vozes iam se tornando mais fortes. Snape estava se aproximando! Entretanto seu raptor começou a empurrá-la para trás. Desesperada, a castanha tentou mordê-lo, mas os dedos fortes seguraram-lhe as faces com tanta força que a machucaram.
Preciso atirar, pensou ela. Porém o agressor torceu-lhe o braço para trás das costas, sempre empurrando-a em direção à escuridão. Hermione conseguiu mover a mão e apertou o gatilho, fazendo o tiro ecoar no ar e o reboco do teto desabar.
O criminoso pareceu pego de surpreso, e um grito abafado escapou-lhe dos lábios. Ela, sempre de costas, sem poder vê-lo, aproveitou-se e gritou a pleno pulmões, ouvindo em seguida a voz de Severus que a chamava.
Com gesto súbito, o assaltante a atirou para um lado e desapareceu na escuridão. A castanha caiu ao solo e viu o conde que se aproximava, seguido de perto pelo detetive Scrimgeour.
Segundos depois, ela foi envolvida pelos braços do marido, que murmurava seu nome, beijando-lhe os cabelos.
— Mione, Mione...
A voz de Scrimgeour soou, irada.
— Maldição! Ele escapou!
Sentada junto à lareira do quarto com uma manta sobre o corpo, Hermione não conseguia parar de tremer. Sons de marteladas secas se faziam ouvir, enquanto Scrimgeour sentava-se a sua frente, e Owen Cauldwell entrava, trazendo uma bandeja com vinho quente. Toda a mansão parecia em movimento, com vozes e passos soando sem parar junto às marteladas. Os gritos e o tiro haviam despertado os que por ventura ainda dormiam.
Snape, que quase não saíra do lado da esposa desde o incidente, voltou a entrar no quarto e sentou-se no braço da poltrona, passando a mão por seu ombro.
Carlinhos entrou a seguir com um martelo na mão, e o conde perguntou:
— Tudo pronto?
— Sim, milorde. Selei a porta por onde ele fugiu, até investigarmos amanhã.
— E estive a ponto de pôr as mãos nele — grunhiu o detetive — Se não tivesse demorado tanto para encontrar a tal porta por onde desapareceu... E foi Weasley quem a encontrou, no final.
O rapaz aquiesceu.
— Devia haver uma passagem oculta em algum lugar, e então percebi o armário que fora puxado para longe da parede. Era ali.
Severus puxou a esposa para si, fazendo-a se acalmar pouco a pouco. Ela ouvia o som das vozes masculinas como se viessem de uma grande distância.
— Atravessaremos a passagem bem cedo pela manhã — disse o moreno, acariciando os cabelos da esposa, que lhe caíam em desordem pelos ombros como uma cascata acobreada — Será mais seguro quando estiver claro. Por certo não haverá muita luz ali, mesmo de dia, mas quero ir com tochas e lanternas.
Como Hermione dissera que o agressor viera de seu quarto de vestir, foi fácil encontrar a ligação entre as passagens.
— Nunca soube dessa entrada secreta? — Scrimgeour perguntou.
— Jamais — respondeu o conde — mas não estou surpreso. Wulfdale é uma mansão muito antiga e cheia de segredos.
A castanha ergueu o rosto e fitou o marido com ar assustado.
— Então, pode ser que existam outras passagens?
Os olhos negros de Snape a encararam com seriedade.
— Pode ser, e examinaremos tudo com muito cuidado. O motivo de nunca termos descoberto esse túnel foi porque fica entre as paredes do seu quarto de vestir e do meu, disfarçado por armários — Severus virou-se para o detetive — Tem certeza de que viu Kreacher?
— Sim, milorde. Pelo menos vi uma figura baixa e atarracada que saiu correndo ao perceber nossa presença, e que veio da saleta. Deve ter sido ele quem apagou as velas.
— Mas não foi Kreacher quem me segurou — disse Hermione com a voz inexpressiva, fazendo todos os presentes voltarem-se para a sua figura trêmula — O homem que me agarrou não era um anão, apesar de não ser muito alto. Porém era forte como um touro.
A lembrança a fez tremer mais ainda, e o conde a amparou.
— Não fale sobre isso, Mione.
— Mas é preciso — replicou ela, apertando a manta de encontro ao peito e aprumando-se na poltrona, de súbito recuperando a energia — Sei que era mais alto porque seu queixo encostou na minha cabeça. E tinha um odor estranho — franziu as narinas — Como o de um animal, mas... Melhor dizendo, como uma pessoa muito nervosa que estivesse suando em bicas.
— Então, temos dois personagens nessa história — disse Scrimgeour, coçando o queixo.
Carlinhos pigarreou, fitando a ponta das botas.
— Nunca achei que o Velho Kreacher fosse um monstro, milorde.
— Nem eu — admitiu Snape, começando a caminhar de um lado para outro — De algum modo o verdadeiro criminoso o persuadiu a segui-lo. É a única resposta.
Scrimgeour fitou o conde de modo cético.
— Entretanto o Velho Kreacher é muito forte, apesar de anão, e pode carregar pesos imensos, conforme me disseram.
— Sim, mas não se trata só de força física. Kreacher é tímido e não sabe lidar com pessoas muito bem. E creio que não resistiria à ameaça do tiro nem dos gritos quando nos aproximávamos. Outra pessoa o orientou a fugir.
— De qualquer modo, precisamos encontrá-lo — replicou o detetive.
Uma estranha sensação invadiu o peito de Hermione, que respirou fundo e se inclinou para a frente, murmurando:
— Ele está aqui.
Snape, Scrimgeour e Carlinhos a fitaram, surpresos.
— Não está mais, Mione. Fugiu. Sei que teve uma terrível experiência e...
Ela afastou a mão do marido com gesto irritado.
— Não me olhem assim — disse, fitando um a um — Quero dizer que ele tem se escondido o tempo todo em Wulfdale. Por isso ninguém conseguiu encontrá-lo até agora.
Seguiu-se um profundo silêncio, e os três se entreolharam. A castanha começava a perder a paciência.
— Não percebem? Kreacher ficou na Mansão Shrieking Shack até começarmos a reconstruí-la, depois se escondeu aqui, Wulfdale é muito maior, cheia de segredos e... mal-assombrada, dizem.
Severus não sorriu, e Scrimgeour murmurou:
— Bem, pelo menos se não era, agora é assombrada por um anão.
Carlinhos suspirou.
— Melhor que uma Dama Cinzenta.
Mais do que ninguém, Snape estava atônito com os últimos acontecimentos. Como poderiam existir passagens secretas em sua casa sem que nunca tivesse sabido?
Quando penetraram no túnel atrás da parede, um novo mundo surgiu. Não apenas encontraram o caminho de volta para os quartos de vestir, mas entrada após entrada, inúmeras passagens secretas na parte mais antiga da mansão, que formavam um verdadeiro labirinto e que conduziam à torre e à ala mais velha. Duas delas, em uma cisterna e na chaminé, levavam aos jardins.
Tudo deveria ser imediatamente selado, ordenou o conde de Caldbeck, que estremecia ao compreender como sua propriedade era vulnerável.
Hermione insistira em acompanhá-lo na investigação, em parte por curiosidade e também porque não queria ficar sozinha nem um só minuto. Ele concordara, compreendendo seus sentimentos.
O intrépido Carlinhos abrira caminho, seguido por Scrimgeour. A castanha vinha a seguir, e o cortejo se fechava com Severus. Todos os homens levavam pistolas e lanternas.
— Por que seus ancestrais construíram essas passagens, milorde? — perguntou o criado.
— Creio que fazia parte da política sombria de eras passadas, Charlie. Um senhor nunca sabia quando seus inimigos atacariam, e precisava estar preparado.
— Talvez fosse melhor deixá-las abertas, milorde.
— Prefiro pensar que não tenho tantos inimigos assim.
— Tem pelo menos um — comentou Scrimgeour, erguendo a lanterna — Parece que estamos debaixo da velha torre.
Havia uma escada à frente e, ao subirem os degraus, viram-se diante de uma porta.
— Abra com cuidado — ordenou o conde para o criado.
Carlinhos entreabriu a porta, que gemeu nos gonzos. Um odor nauseabundo atingiu suas narinas. O rapaz abriu mais um pouco e anunciou:
— Acho que o encontramos, senhor — Snape empurrou a esposa para trás.
— Fique aqui.
— Não pensa que vou ficar sozinha, não é, Severus? — ela afastou algumas teias de aranha e seguiu o marido. O pequeno grupo viu-se em um cômodo sem janelas.
O Velho Kreacher jazia morto, no centro do quarto, o rosto voltado para o chão. O cabo de madeira de uma faca surgia nas costas disformes do anão, e uma poça de sangue já coagulado rodeava seu corpo.
Hermione levou o lenço ao rosto, enquanto o detetive se afastava e examinava a lâmina.
— Parece com o facão que lady Caldbeck recebeu — todos vasculharam o pequeno espaço, porém nenhuma outra arma foi encontrada. O quarto parecia ter sido habitado, pois havia claros vestígios disso.
Restos de comida em pratos sujos se encontravam sobre uma mesa, e um cobertor velho cobria um catre a um canto.
O detetive se aproximou da lareira de pedra e examinou as cinzas.
— Ainda estão mornas. Kreacher foi assassinado há pouco tempo, quem sabe ontem à noite, enquanto o procurávamos.
— Pobre coitado — murmurou a castanha, balançando a cabeça, penalizada — Tem razão. Deve ter sido obrigado a acompanhar o assassino.
Snape ajoelhou-se perto do corpo.
— Parece que Kreacher foi enviado apenas para nos confundir, e creio que o assassino temeu que o delatasse, por isso o matou.
— E deve ter sido Kreacher quem colocou os objetos macabros no quarto de lady Caldbeck — acrescentou Scrimgeour — Porém o monstro assassino desejava mais. Queria conhecer as passagens secretas. E conseguiu.
Severus deu graças pelos dois dias de paz que se seguiram. Assegurou-se de que todas as entradas para as passagens secretas fossem seladas e permaneceu ao lado de Hermione o tempo todo. Carlinhos ficava sempre por perto, e o detetive mudou-se do quarto que ocupava em uma hospedaria do vilarejo para Wulfdale.
Mesmo assim, o conde de Caldbeck sentia-se tenso e nervoso e maravilhava-se com o autocontrole da castanha, que decidira não deixar de cumprir suas tarefas diárias e continuava a vida como se nada tivesse acontecido. Insistiu em conhecer o verdadeiro labirinto de cômodos que se abriam para os corredores fora de suas acomodações particulares, dizendo não querer nunca mais se sentir perdida em sua própria casa.
Entretanto, de vez em quando, ao pensar que não era observada, o marido notava uma expressão de ansiedade em seu semblante, ou um olhar vago, enquanto fingia admirar a paisagem pela janela.
Mesmo com as garantias dadas pelo Dr. Slughorn, Snape temia pela segurança da esposa e do filho, e sua maior preocupação no momento decorria do fato de ter que comparecer como testemunha, naquela tarde, ao inquérito pela morte do Velho Kreacher. Teria de deixar Hermione por algumas horas e, apesar de todas as precauções, sentia-se inseguro. A lógica lhe dizia que ela estaria bem, protegida pela criadagem e pelo vigilante Carlinhos, entretanto seu coração estava pesado.