Cap. 5 A Profecia
- Herms, querida, a quanto tempo! Está cada dia mais bonita... como sua mãe! – meu coração disparou. Pensei que estava sendo sufocada no instante em que minha tia Charlotte me amassou com um de seus abraços inumanos. Se eu pudesse ter soltado o ar que tinha prendido naquele súbito momento de pânico eu o faria, mas Lotte não permitia que eu respirasse. Só para explicar um pouco as coisas, Charlotte é a minha madrinha, e também a responsável pelo Pandemônio.
Assim que minha madrinha se afastou de mim pude observar melhor seu rosto exótico: Charlotte era negra dos olhos azuis, com lábios carnudos e traços longos, seus cabelos indomáveis e cheios de cachos presos para trás em um rabo alto. Ela sorriu mostrando seus dentes cintilantes, e então seu olhar perdeu o foco e a expressão outrora simpática se tornou uma carranca de dar medo.
- Leonard Quincey, que desprazer revê-lo! Fico feliz que ainda não tenha matado nossos afilhados, diferente de você eu procuro dar a eles uma boa criação e qualidade de vida – Lotte se aproximou de Le, com ar ameaçador, os dois tinham a mesma altura, e para isso ela nem se quer precisava usar salto. E acho que você já percebeu, mas Le e Lotte não se dão muito bem. Deve ter alguma coisa a ver com o fato dela ser totalmente responsável e ele... o contrário. Os dois vivem em pé de guerra e uma vez, quando estavam nos ensinado táticas de batalha, eles saíram no tapa. Literalmente.
- O desprazer é todo meu, Charlotte. E pelo visto eu fui o único aqui que se lembrou que a sua queridinha Herms completa treze anos hoje – Le sorriu de forma cínica e acariciou uma das facas de seu cinto, coisa que sempre faz quando irritado (ou sempre que está perto de Lotte).
- Sinto lhe informar, Leonard, mas Herms só completa treze anos no dia dezenove de setembro – eu sabia!, hoje não é meu aniversário – E, por mais que isso seja contra minha vontade, preciso ter uma conversa a sós com você – pronunciou a palavra como se fosse a coisa mais nojenta do mundo – Nathaniel, pode vir se quiser, já que é maior de idade.
Lotte olhou para mim, acenou com a cabeça e seguiu por um dos longos corredores do Pandemônio. Ela vestia um macacão preto e coturnos, como se estivesse a caminho da guerra. Acompanhei a silhueta dela desaparecer, e em seguida, com acenos de cabeça, Le e Nate foram atrás dela, me deixando sozinha e perplexa no hall de entrada. Esses três são o mais próximo que tenho de uma família e olha só como me tratam, como tratam uns aos outros! Lotte nem se deu ao trabalho de cumprimentar Nate, ou desejar um falso bom dia a Le Quincey, já saíram brigando!
Bufei, minha “família” não tinha jeito, eles não sabem que devem amar uns aos outros, não aprenderam isso... e eles também não me ensinaram, só que por alguma razão desconhecida eu entendi que devia amá-los, afinal, eram tudo o que eu tinha, antes de fazer amigos, mas eu continuei a amar Le, Lotte e Nate assim mesmo.
Observei o salão de entrada do Pandemônio. Não era exatamente o que se imaginava de um lugar para a conciliação dos defensores de humanos (nós) e dos membros do Submundo (aqueles que já tiveram contato com algum demônio e deixaram de ser completamente humanos). Parecia mais o saguão de um hotel cinco estrelas, um lustre imenso pendendo do teto, sendo este erguido por pilastras de mármore, o chão também feito de mármore. Era bastante bonito de se olhar, na verdade, desde pequena eu ficava imaginando como seria fazer um baile ali. Parecia o salão de festas de um palácio (minha tia Lotte tem bom gosto), dava até vontade de ser princesa... Arg, que coisa mais estúpida! Só falta minha roupa ficar cor de rosa e o meu cabelo loiro que virarei a Barbie, tenho que parar de ter esses pensamentos ridículos e fofos... a vida não é assim. Suspirei e me posicionei bem abaixo do lustre, devido ao fato daquele salão não ter cadeiras todos eram obrigados a ficar de pé. Tentei rumar meus pensamentos para uma outra realidade...
Amanhã seria o primeiro de setembro, hoje pela tarde eu já estaria no Caldeirão Furado junto dos Weasley’s, ficaria de papo pro ar com Gina e iria a sorveteria com Rony! Sem contar com o fato de que eu precisava comprar todo o meu material hoje... e com isso quero dizer todos os livros didáticos do terceiro ano. Não sei de onde exatamente tirei a ideia maluca de cursar todas as matérias oferecidas, mas eu vou tentar. E eu mal podia esperar para fazer todos aqueles feitiços de novo... Alorromora, Lumus, Nox, Reparo, Reducto, Expelliarmos... por que eu não posso passar o ano inteiro em Hogwarts? Seria bem melhor do que aguentar toda essa maluquice da minha “família”, e eu nem correria risco de vida, como corro todos os dias por aqui! Por que, Merlin, por que, de tantas as famílias no mundo Você me fez nascer justo na mais estranha? Eu não conheço meus pais, minha irmã não aguentou a própria vida e ficou pirada, meu irmão é um maluco e eu nunca posso saber o que ele pretende fazer no próximo minuto, meu padrinho vive ás custas dos meus pais que praticamente o pagam pra cuidar de nós, minha madrinha gerencia o Pandemônio, e, para completar: nos sustentamos de caçar demônios. Francamente, Merlin, o que de tão ruim eu fiz para Você?
Raspei meus All Starts no chão, produzindo um ganido agudo. Dando um giro fiz com que as saia de rendas levantasse um pouco e que meu cabelo macio e sedoso roçasse minha pele, me dando a sensação de ser acariciada por fios de seda. Fechei os olhos e uma curiosidade me tomou: o que diabos eles tinham ido conversar? Normalmente eu não tinha grande participação nos assuntos deles, mas mesmo assim costumavam fala-los perto de mim... nunca era diferente.
Você deve ir lá ouvir o que estão dizendo, Le Quincey nunca te falou que é errado ouvir conversa atrás da porta.
E minha consciência dá sinal de vida outra vez, de vez em quando ela aparece para me insultar ou para dar certos palpites que me estimulam a fazer coisas erradas. Consciências não deviam ser assim... mas ela é a única resposta que tenho para a minha “anormalidade”. Entre os caçadores não é certo ter sentimentos ou elos de empatia por outras pessoas, mas eu tenho, também não é legal ser uma pessoa bondosa e boa, mas, desculpem-me a falta de modéstia, eu sou. Então decidi que minha consciência era a única resposta para isso: devido ao fato deu ser ‘certinha’ demais, para compensar a minha consciência teve de ser anormal, como os outros caçadores. É assim que gosto de pensar que sou normal. E... isso não fez lá muito sentido, esqueçam.
Mas por outro lado minha consciência impertinente parecia estar certa. Eles nem saberiam se eu fosse ouvir a conversa escondida... saberiam? Bem... não importa se saberiam ou não, eu não vou meter meu nariz no que não é da minha conta!
Talvez seja da sua conta....
Consciência estúpida! Eu não vou e está descido! Abri meus olhos, e para a minha grande surpresa, eu estava de frente para um garoto! Ele não estava ali antes, e não poderia ter chegado sem que eu ouvisse... ou poderia, dependendo de que criatura fosse.
- Quem é você? Ah, desculpe, hum... bom dia? – sim, eu já fui informada (por Rony) que ás vezes ajo de uma maneira estranha, mas é que minhas aulas de etiqueta (que tive com Lotte, excelente professora por sinal) não me prepararam para todas as situações possíveis.
- Fernando Martínez, bom dia – ele se inclinou, e ergueu a mão – Posso? – meio que sem saber o que dizer, assenti com a cabeça, e ele pegou minha mão a beijou – A senhorita deve ser a caçadora mais jovem da família Granger, não, milady?
- Sim, sou Hermione Granger, sr.Martínez – não estranhe, é que os membros do submundo são meio que obrigados a tratar os caçadores com o máximo de cordialidade e respeito possível, e alguns caçadores (talvez só eu) os tratam de mesma forma – O senhor por acaso seria parente de Leo Martínez, representante dos lincantropes na sociedade?
- Sim, milady, somos irmãos. E perdão, acho que a assustei... – e então ele me olhou quase como se eu fosse tortura-lo, e eu concordo que uma boa parte dos caçadores trata os membros do submundo como seus inferiores, mas eu prefiro tratá-los como iguais, muito provavelmente o Martínez pensou que eu iria mata-lo só por ter aparecido de repente na minha frente.
- Está tudo bem, senhor. E se me permite acho que deveríamos ser um pouco menos informais, pode me chamar de Hermione – tentei sorrir reconfortante, coisa que ele aparentemente estranhou, mas depois, para meu alívio, retribuiu.
- Sim, Hermione, e me chame de Nando – seu sorriso aumentou ainda mais e eu pude perceber o quanto o rapaz era bonito. E parecia quase conhecido...
- Tudo bem, Nando, e por que está aqui no saguão? – perguntei começando a andar, fazendo com que ele me seguisse. Nando parecia ser latino, com pele bronzeada, cabelos e olhos negros, também era um bocado alto, parecendo ter qualquer idade entre 17 e 19 anos...
- Pra ser sincero, estava te procurando. Queria ter certeza de que era você... – e ele parou, me deixando confusa.
- Que era eu o que?
- A menina que estuda em Hogwarts, claro! Você é namorada do Harry Potter, não é? E amiga daquele Rony Weasley que ajudou a achar a Câmara Secreta no ano passado? – pela minha expressão atônita ele deve ter percebido que eu não entendia nada – Desculpe, acho que te confundi com outra Hermione Granger...
- Você estuda em Hogwarts? A Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts?! – eu sorri, abalada, sem acreditar que aquele rapaz era um bruxo, acho até que o assustei um pouco com esse meu gritinho...
- Então você é a Hermione certa! – ele sorriu – sim, eu estudei em Hogwarts até o ano passado, antes deu e meu irmão virarmos lincantropes já éramos bruxos, mestiços, claro – Nando parecia tanto feliz quanto espantado com o fato deu ser a nascida troxa amiga de Harry Potter.
- Então eu não sou a única bruxa com alguns segredinhos, que alívio! – pisquei e ele riu – mas, me diga, por que não tentou falar comigo antes?
- É que Hogwarts, para mim, era como um lugar para esquecer o que sou de verdade, e eu queria ter o mínimo de contato possível com a minha realidade enquanto estivesse escondido sob os muros daquele castelo, protegido do mundo aqui de fora... – ele suspirou, colocando as mãos nos bolsos dos jeans, seu olhar parecia ter ido para outro mundo... ou, quem sabe, apenas uma certa Hogwarts – queria estudar lá para sempre.
- Eu também, lá ninguém olha para mim como se eu fosse uma caçadora de demônios, afinal, ninguém sabe – ri – Hogwarts é o lugar onde posso ser eu mesma, quase me sinto como uma menina normal.
- Menina normal? Namorando Harry Potter, o Menino Que Sobreviveu? – ele parou de andar pelo saguão e arqueou uma sobrancelha para mim.
- Eu não namoro o Harry, somos só AMIGOS! – me sobressaltei, é que fico totalmente indignada quando as pessoas ficam acrescentando esse tipo de coisa a minha relação com Harry (ou Rony), não entendem que meninos e meninas podem ser amigos?
- Ah, desculpe... é que sempre pareceu que você tinha alguma coisa com um dos dois... Potter e Weasley. E ano passado quando você voltou da petrificação e abraçou o Potter todo mundo ficou falando que só não abraçou o Weasley para o Potter não ficar com ciúme – ele deu de ombros e eu senti meu rosto ficar inteiramente vermelho, tanto de raiva desse povo com boca grande quanto de vergonha:
- Mas... mas... o que tem de errado em abraçar o Harry!? E eu só não abracei o Rony naquela hora porque ainda estava irritada com o fato dele implicar comigo o tempo todo, mas logo depois fizemos as pazes e eu o abracei... do mesmo jeito que fiz com Harry! – bati meu pé no chão, com raiva – Por que as pessoas tem de botar tanta perversão em um abraço entre amigos!?
Nando riu, completando:
- Não foram pessoas comuns que falaram isso, foram adolescentes, e eles botam perversão no que quiserem só pra ter o que falar, simplesmente porque são adolescentes! - tive que rir com ele, afinal, eu nem ligava muito que meu nome estivesse na língua do povo.
Andamos mais um pouco e seguimos para o corredor que nos levaria a sala de reuniões, o silencio nem estava desconfortável, na verdade, era reconfortante. Aquele garoto era um bruxo assim como eu!
- E... – comecei – você pretende seguir alguma profissão no Ministério, ou quer ser medibruxo no Sain’t Mungus? – não consegui disfarçar minha curiosidade.
- Quem dera... o único motivo deu ter ido para Hogwarts foi que meus pais já tinham pagado a escola e reservado a minha vaga. Nunca nem tive a chance de pensar em seguir uma carreira bruxa... é meio que impossível conciliar os dois mundos em que vivo, não acha? – suspirou ele dando um riso sem graça no final.
- Você tem razão, mesmo estudando bruxaria não teremos as chances de nos tornar bruxos de verdade... seria ter uma vida dupla – ele riu com meu comentário e completou:
- É... e principalmente você, não é? Me diga uma coisa... como conseguiu seguir em frente depois disso tudo? – ele me olhou de forma questionadora e eu franzi o cenho.
- Como assim? Não entendi o que você quis dizer...
- Ah, você sabe! A sua profecia... só quero saber como fez para aceita-la.
- Que profecia? Do que você está falando? – e então a expressão de Nando se tornou horrorizada, seu rosto empalideceu e eu senti o pressentimento ruim percorrer meu corpo novamente...
- N-não te-te c-contaram da pro-profecia...? – ele começou, mas foi instantaneamente interrompido:
- AÍ ESTÃO VOCÊS! Já os procuramos em tudo quanto é lugar, a reunião começou e... perdão, srta.Granger, não deveria ter falado assim em sua presença, milady – Leo Martínez, representante dos lincantropes, surgiu na beirada do corredor, e fez uma reverencia um tanto exagerada para mim, quase que como em um deboche.
- Não há problemas, sr. Martínez, eu e seu irmão estávamos apenas conversando, nos encaminharemos para a reunião neste momento.
Com ar arrogante, Leo Martínez nos deu as costas e foi andando comigo e Nando em seu encalce. Logo Nando deu uma básica corridinha para se posicionar ao lado do irmão, e eu o ouvi dizer, claramente: Ela não sabe da profecia, Leo? Não sei qual foi a resposta do rapaz, mas eu não sabia de nada. Que profecia? Eu estudaria adivinhação neste ano, mas algo me dizia que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Bufei e fui seguindo os dois.
A sala de reuniões não era muito longe dali. Fomos andando em silêncio pelo corredor de mármore, eu claro, não deixei de pensar na tal profecia por um segundo se quer. Logo os dois passaram por uma porta dupla feita de mogno, eu tentei passar com eles.
- Herms, querida! – minha tia Lotte surgiu em minha frente, tampando qualquer visão que eu pudesse ter do interior da sala – finalmente apareceu – ela pôs as mão nos meus ombros e me empurrou, fechando a porta atrás dela com os pés – Preciso dizer algumas coisas a você.
Ótimo, ali vinha bomba. Seus olhos azuis pareciam preocupados, mas eu duvidava muito que fosse comigo, por mais que não pareça, Lotte não é do tipo sentimental ou protetora. Ela franziu a testa e me encarou da mesma forma que se encara um objeto sem concerto, tanto com desgosto quanto com pena. Comecei a ficar com medo do que quer que ela fosse me dizer e engoli em seco.
- Olha, Hermione. Só quero que você entenda que tem certas coisas na vida que não tem jeito mesmo, e está prestes a acontecer uma coisa assim na sua vida. Por enquanto eu não tenho muito o que te dizer, mas saiba que no instante que você pisar naquela sala – ela gesticulou com o rosto para a porta de mogno – ninguém mais será confiável. Você estará sozinha, só você e a vida, entendeu? E a partir desse momento você terá novas responsabilidades, responsabilidades maiores e mais importantes que você. Apenas compreenda, Hermione, eu sei que você é inteligente então compreenda. Agora me responda: você entendeu o que eu disse, você compreende o quão grande isso é?
Não, madrinha, eu não compreendo e muito menos entendo essas coisas que você disse. O problema foi que eu dei uma resposta totalmente diferente:
- Sim – sabe, agora eu percebo que foi justamente ao dizer essa palavra que eu selei o meu destino, para sempre. Charlotte pareceu se aliviar.
- Ótimo, então. Agora, assim que te chamarmos para entrar na reunião te daremos várias dicas do que se fazer, e também algumas pequenas tarefas. Agora espere aqui, tudo bem? – ela piscou o olho e se dirigiu a sala, batendo a porta.
Fiquei ali, meio atônita e zonza com as informações que acabara de receber. Responsabilidades? Dicas? Tarefas? Não confiar em ninguém? Que papo mais estranho foi aquele! Mas... aquilo não fazia sentido, fazia? Eram tantas as perguntas sem respostas que eu fiz a mim mesma naquele minuto que minha cabeça chegou a doer.
Ás vezes não entender nada pode até ser uma coisa boa (uma frase muito estranha saindo da boca de uma sabichona como eu, concordo), por exemplo, você sempre fica imaginando o pior e quando a noticia ruim vem você se sente até aliviado em saber que nem era algo tão horrível assim. O problema foi que tudo o que eu imaginei naquele momento conseguiu ser tranquilo diante da realidade. E eu tinha duas opções: ficar ali tendo ideias mirabolantes sobre profecias e pessoas nas quais não se podia confiar, ou seguir o conselho da minha consciência e ouvir por trás da porta. Confesso que o correto seria ficar e esperar, mas desde que conheci certos srs. Potter e Weasley aprendi que quebrar as regras de vez em quando pode ser bem vantajoso (sim, eu disse isso).
Com passos exageradamente cautelosos me aproximei da porta dupla. Colando minha orelha na madeira fiz o possível para apurar minha audição, e vamos lá...
- Não pode ser a Mione, tio, não pode! – a voz de Nate, parecendo um tanto... desesperada?
- Claro que pode, garoto, e não só pode como é – dizia calmamente Le Quincey - a profecia é clara, e só porque ela é sua irmã não quer dizer que você seja obrigado a nutrir sentimentos – pronunciou com asco – por ela. Pare de se preocupar, será melhor para você, e sei que sabe muito bem o que acontecerá no final.
- Não acontecerá nada no final, Quincey, pelo menos não com Hermione, a profecia não se refere a ela!
- Sinto muito, Nathaniel. Você conhece os últimos versos da profecia:
‘Quando o sangue da Salvadora derramado...’
- Mas Hermione, não pode ser a Salvadora, tio... não pode!
- Sua irmã tanto pode como, é. Agora chame-a.
Me afastei da porta com um pulo. Como assim Salvadora? Esse povo que não fala nada com nada está começando a me deixar irritada... e esse negócio de meu sangue derramado não pode ser coisa boa... nunca é. Me recompus e Nate abriu a porta, me olhando da mesma maneira que um vegetariano revolucionário olha para um animal prestes a ser abatido (não que eu já tenha presenciado uma cena dessas, mas com certeza foi bem parecido).
- Vem, Mione – a voz cheia de angustia e pesar – temos umas coisas para conversar.
Enchi meus pulmões de ar e entrei na sala logo atrás dele. Foi então que comecei a pensar se aquilo não teria nada a ver com Você-Sabe-Quem.
POV Fred
Já estávamos atrasados para sair d’Toca quando eu e George descemos para a sala, e ficamos mais atrasados ainda quando ele resolveu ter o surto do ‘tô maluco’. Sabe, neste exato instante estou observando meu gêmeo insano correr em círculos repetindo essas duas palavras como se fosse um louco (o que ele é)!
- Eu tô maluco, mãe. Tô maluco, Fred. Preciso de ajuda... TÔ MALUCO! – e ele corria em círculos, berrava, esbravejava, puxava os próprios cabelos, batia na testa, pulava, e claro: fazia uma dança da galinha totalmente trágica (de dar pena, sério). Primeiro o coitado enlouquece e agora dá para imitar galináceos, francamente, Merlin, eu não merecia um gêmeo desses! Uma coisa é imitar um leão, por causa da Grifinória, outra completamente diferente é imitar uma galinha (nem o povinho da Corvinal faz isso, cara).
- George, se acalme, homem – comecei – Relaxa, respira fundo, o mundo ainda não vai acabar... você tem tempo de sobra pra ser esquisito, e de preferencia fazer isso sozinho.
Ele me olhou como se fosse me dar um belo de um soco, mas continuou parado. E então nossa sala virou um jogo de ping-pong onde todos acompanhavam a bola com a cabeça: olhavam de George para mim, de mim para George. É que normalmente estamos fazendo sempre as mesmas coisas, e aprontando com todo mundo, só que agora o George tinha resolvido enlouquecer sozinho, uma tarefa na qual eu não estava a fim de acompanha-lo (já sou anormal, se ficar pirado as minhas chances com a Hermione caem de 0 para -1). Ainda me encarando, meu gêmeo aloprado colocou os braços nas mesmas posições que as asas de uma galinha, flexionou os joelhos, esticou o pescoço e... essa, não! Ele ia carcarejar!
Só que para a minha felicidade (e tristeza dos cabelos de George), ele apenas deu um pulo, ergueu os braços para cima, e assim que tocou o chão novamente, bateu as mãos com toda a força na cabeça e puxou os cabelos, em uma tentativa de arrancá-los. Caramba, onde se acha uma camisa-de-força quando se precisa de uma? Ele ia acabar tendo um traumatismo craniano se continuasse batendo na cabeça daquele jeito. O que diabos tinha dado nele?
- Ficou maluco, George? – tinha que ser o Roniquinho para fazer uma pergunta retardada dessas, era óbvio que George tinha ficado completamente maluco (tanto que ele não parava de repetir isso)!
- Não, eu estou bem, Ronald, eu estou bem. Muitíssimo bem, ótimo, esplendido, resplandecente... me sinto eficaz, astuto, poderoso, eu sou o máximo... é, eu sou! Você devia ter começado a falar antes, por que só agora?... ah, entendo, entendo... e quais devem ser meus próximos passos... hum, milady?... – e ele foi falando cada vez mais baixo, até que se comunicasse apenas por acenos de cabeça e palavras como: uhum, ahã e sei.
Encarei meu gêmeo maníaco com um olhar atordoado. Por Merlin, que merda era aquela? Ficamos todos olhando aquilo, meio que sem acreditar na cena. E George não parava de andar de um lado para o outro, resmungando palavras sem sentido. Ele nasceu treze minutos antes de mim, e se tínhamos um organismo igual, era bem provável que também tivéssemos a mesma sanidade limitada, ou seja, eu poderia enlouquecer a qualquer momento nos próximos treze minutos. Que ideia maluca essa a minha, mas... e se eu fosse enlouquecer? Bom, a loucura teria de esperar, pois se eu fosse encontrar a Hermione agora, eu só poderia pirar das ideias depois que ele me reconhecesse como uma boa pessoa, na qual ela poderia confiar e talvez até... amar.
- Pensando em quem, Fred? – minha voz me assustou, e percebi que George estava bem na minha frente, com uma sobrancelha erguida e um sorriso malicioso, ele deu a típica piscada marota dos gêmeos Weasley (isto é, nós) e sussurrou: – relaxa que não conto pra ninguém, por enquanto.
Ele soltou uma gargalhada um tanto... maníaca. Fiquei meio assustado e acho até que abria a boca, enquanto isso ele se virou para o resto da família e falou:
- Que foi? Pensei que já estávamos atrasados, vamos Weasley’s, não temos tempo a perder – ele colocou uma mochila nas costas e abriu um sorriso imenso, esperando que tivéssemos alguma reação. Ficamos algum tempo calados, sem entender necas do que tinha acontecido. Até que Percy resmungou algo do gênero: “Vá entender gente ruiva...” (como se ele fosse muito loiro, mas tudo bem). Pegou um pouco do Pó de Flu, entrou na lareira e disse:
- Caldeirão Furado – no mesmo instante foi devorado por chamas azuis, e logo não estava mais lá.
Mamãe e papai ainda no observaram atônitos por mais alguns segundos, mas aparentemente resolveram deixar de lado, mandando Gina e Roniquinho entrarem na lareira e indo logo atrás. Quando ficamos sozinhos, virei para George e perguntei, sem disfarçar o espanto na minha voz:
- O que diabos deu em você, Weasley?
- ‘Cê nem faz ideia, Fred... você não sabe de nada, e é melhor ficar de olho se não... – ele riu, deu outra piscada, e entrou na lareira. Disse as duas palavrinhas que nos levariam ao lugar desejado e soltou mais uma gargalhada maníaca.
Fiquei sobrando ali na sala, e só conseguia pensar em quatro palavras:
Que. Merda. É. Essa?
Meu gêmeo pira e depois eu é que não sei das coisas... mas, que se dane também. Eu tinha um problema maior naquele momento: me reencontrar com Hermione Jane Granger e fazer com que tudo entre nós dois fosse diferente. Tarefa difícil, mas não impossível. Nada é impossível para Frederico Gideão Weasley (ao menos eu espero).
POV George
E daí que tem uma mulher falando na minha cabeça? Eu não estou nem aí! O mundo que se ferre! Uhu, sou mais eu! Tá, eu estou bastante aí para isso sim, afinal... tem uma mulher, falando, na minha cabeça! Que coisa boa (a única pessoa com direito de não notar o sarcasmo nisso é o retardado do Roniquinho, e isso simplesmente porque ele é um retardado). Um homem não merece uma mulher falando, muito menos uma mulher falando sem parar dentro da sua própria cabeça, é como um inferno adiantado (ou um casamento, não sei dizer ao certo). E a tal Roxélia...
Não é Roxélia, infeliz, o nome é Roxelle, entendeu bacalhau? Roxelle! R-O-X-E-L-L-E...
Tá bom, tá bom... não precisa soletrar. Você lê meus pensamentos por acaso?
Claro que leio, eu estou na sua mente, imbecil. E não pense que eu gosto, de todas as suas encarnações nunca estive em uma onde você tivesse uma mente tão poluída com... perversões. Isso é tão inconveniente!
Mas que beleza, além de falar na minha cabeça ela lê meus pensamentos. E, bom... eu sou um cara de quinze anos, dos tempos atuais da minha época...
Sinto lhe informar, mas você não pode dizer isso, a frase ‘tempos atuais da minha época’ não faz lá muito sentido...
Ignore a Roxélia. Voltando ao assunto, sou um adolescente de quinze anos e, obviamente, tenho pensamentos inconvenientes, e pro meu azar, uma mulher (daquelas bem chatas) lê minha mente, e na minha opinião, isso é que é uma coisa inconveniente. Poxa véi, me deixa viver!
Aff’... que encarnaçãozinha difícil essa sua, hein, Barnabé?
Continue ignorando a Roxélia. E... ela me chamou de que?
Barnabé, querido, Barnabé. Esse costumava ser seu nome antes de te enforcarem na vida passada... você também já se chamou Alistair e Claudionor.
Agora eu nem tenho mais nome... aff’. Bom, terei de agradecer a mamãe mais tarde por me batizar de George (sem ofensas aos Barnabés, Alistairs e Claudionors, é só que George me parece um nome mais... convencional). Eu ainda estou viajando via Flu, e parece que já estou quase chegando...
- Cof-cof – saí da lareira do Caldeirão Furado tossindo.
A família toda (menos minha cópia de araque) já entregava as malas á Tom, pedindo que ele as leva-se para o quarto. Fui me aproximando de Roniquinha... ops, Roniquinho, e quando estava próximo o suficiente para que ninguém mais ouvisse, sussurrei perto de seu ouvido:
- Ei, Ronald... – ele deu um pulinho com o susto e tive de reprimir uma risada – Você sabe a que horas a Mione, chega? – dei o meu melhor sorriso malicioso, para que ele pensasse que eu tinha as piores segundas intenções possíveis.
- Depois do almoço... e por que é que você quer saber disso? – ele ficou da cor dos cabelos e cruzou os braços, fazendo uma carranca mais feia do que a cara dele (sim, isso é possível). Ele ficou com uma expressão feroz, e me metralhou com o olhar. Aquilo sim era uma coisa engraçada, o Fred estava perdidinho com os ciúmes do Rony! A coisa iria ficar feia, mas só depois que o Fred conseguisse alguma coisa com a Hermione, se ele conseguisse...
Ele tem de conseguir... é uma questão de vida ou morte. Ou vida e fim do mundo, entenda como quiser.
Bom, Roxélia...
É Roxelle, meu filho, Roxelle!
Já entendi, filha, já entendi... e também já sei que o Fred tem de conquistar a Hermione. Não que eu saiba o motivo, já que você não quis me dizer, e eu acho que não vai. Mas eu sei que tenho de juntar aqueles dois, se não você fica enchendo o saco do coitado do meu cérebro. Ai, que chatice...
- Não vai responder minha pergunta, não? Por que quer saber, Weasley? – eu tinha até me esquecido de que conversava com o Roniquinho. Ele continuava emburrado e todo enciumado, uma graça, vocês deviam ver!
- É só curiosidade mesmo, irmãozinho... e quando ela chegar, vou poder me divertir, se é que me entende – fiz a expressão mais maliciosa que consegui e dei uma piscada de olho tão sexy que só eu, o homem mais sexy do mundo, conseguiria fazer.
- O QUE ESTÁ INSCINUANDO?! – ele berrou, e em um instante ninguém naquele estabelecimento emitia algum ruído, preocupados de mais em nos encarar. Gargalhei como um jegue, só que de forma incrivelmente sensual, claro.
No meio do silencio, Fred saiu da lareira, tossindo e tirando cinzas das roupas. Todo mundo olhou para ele e o jegue sexy que tenho no meu interior gargalhou tão auto que as janelas quase tremeram(aí todos os olhares se voltaram para mim). Eu sou sensual demais, fala sério! Fred ficou meio sem entender, mas, assim como eu, ele não perdia a chance de dizer alguma besteira:
- Hum, é... bom dia? – por favor, querido gêmeo, com que pé você acordou hoje, porra?! Eu aqui esperando uma piada digna, e me vem dizendo bom dia? Qualé véi, assim cê me mata... então percebi que ele esquadrinhava toda a recepção á procura de alguma coisa, ou alguém. Seus olhos varriam todo o ambiente, sem encontrar quem tanto procurava.
Aproveitei a chance e soltei um assobio alto (todos continuaram a me encarar devido a minha sensualidade hipnótica – ou talvez a minha falta de noção, tanto faz). Fred nem ligou e continuou a procurar por Hermione de forma incessável, então minha risada de jegue fez com que ele me encarasse (eu seduzo até o meu irmão, fala sério!).
- Diversão só depois do almoço, querido! – lancei um olhar que só Fred entenderia, e depois ele deu de ombros, com expressão mal-humorada (sim, Frederico Weasley fica de mau-humor quando Hermione Granger não está por perto, não é irônico?). Como Ronald continuava a me encarar com suas orelhas vermelhas, resolvi lhe seduzir com uma piscada (ele fez uma cara mais feia ainda) e eu disse: - Um dia você vai entender.
Saí de perto dele e fui ajudar mamãe com as malas (por sinal ela estava furiosa comigo, não sei porque – talvez seja a minha sensualidade sedutora, mas ninguém mando ela me fazer assim tão bom demais para ser verdade.
Você sempre teve um ego grande, mas ele nunca, nunca, foi tão grande assim.
Como eu sempre digo: Ignore a Roxélia.
Vai adiantar falar de novo que o meu nome é Roxelle?
Não, não vai.
Então desisto.
Ótimo, assim está melhor... eu já disse que é super irritante ter uma mulher falando dentro da sua cabeça? Não? Pois saiba que a pior coisa que poderia ter me acontecido, é como o inferno, e o demônio têm nome e endereço: Roxelle, moradora do meu cérebro (e por sinal ela está com 15 anos de aluguel atrasado).
Como consegue ser tão insuportável?
Como consegue ser tão inconveniente?
Excelente, ela fechou a matraca. Saindo da minha mente e voltando a realidade... Já estava subindo com uma mala pelas escadas. Roniquinho vinha logo atrás de mim, ainda de cara amarrada. Eu e Fred ficaríamos em um dos primeiros quartos do corredor, Rony ficaria com Percy no quarto ao lado do nosso , Gina no quarto da frente e Hermione muito provavelmente no quarto ao lado do dela. Mamãe e papai ficariam em um dos últimos quartos, o que daria mais liberdade para que eu e Fred explodíssemos coisas.
POV Hermione
A sala de reuniões era um ambiente claro, com um lustre e uma mesa de mármore no meio, rodeada por cadeiras onde se encontravam os principais líderes do Submundo: Lucian Brane, o feiticeiro; Camille Badnight, a vampira; Leo Martínez, o lincantrope; Butterfly, a rainha das fadas; Leonard Quincey e Charlotte O’Hara, representando os caçadores. Todos estes com suas comitivas. Lucian Brane, com os feiticeiros Magnus e Alec; Camille Badnight com os vampiros Vladimir e Sebastian; Leo Martínez com a namorada (acho que o nome é Maia) e com seu irmão, Nando; Butterfly acompanhada apenas de um menino-fada, e eu não faço a mínima ideia de qual seja o nome. Le e Lotte estavam acompanhados por mim e Nate.
Meu irmão puxou uma cadeira para que me sentasse ao seu lado, foi o que fiz. Ficaram todos me encarando, como se esperassem que eu fizesse algo extraordinário, o problema era que eu não tinha nem preparado um discurso decente, mas se era pra improvisar...
- Bom... – comecei.
- Bom nada, péssimo! – Nathaniel me interrompeu – Vocês só podem estar loucos mesmo, minha irmã não vai ser morta, mesmo que seja pelo bem maior. Hermione não pode ser a Salvadora, e ela não é! Não pode ser... – a última parte foi como um sussurro, e não soou como uma afirmação, e sim como uma criança fazendo birra para não aceitar uma realidade. Esse pensamento me fez tremer de medo, era impressão minha ou eles estavam fazendo aquela reunião só para me informar da minha morte? Bom, se fosse, eles não estavam seguindo o caminho errado.
- Sossegue, Nathaniel. Tanto você quanto eu – interrompeu Le – sabemos que sua irmã é a Salvadora, todos aqui sabem – menos eu pelo visto – que ela é. E agora ela tem um destino – ele se voltou para mim, com expressão severa – Hermione Jane Granger, acaba de ser declarado que a senhorita está incumbida da mais importante tarefa a ser realizada neste século: salvar o mundo e a vida. A senhorita se julga preparada para esta tarefa?
Não, pensei, claro que não. Eu não sei nem cuidar da minha própria vida, que dirá salvar um mundo inteiro e todas as pessoas que estão nele!
- Hermione Jane Granger, na presença de todas estas testemunhas eu repito a pergunta: A senhorita se julga apta para esta tarefa? – ele fixou os olhos em mim, em outro momento teria derretido, mas naquele, eu nem consegui lembrar se ele era bonito ou deixava de ser.
- Sim, Leonard Quincey, eu me julgo apta desta tarefa – uma bela de uma mentira. E, peço desculpas pelo vocabulário, mas naquele instante minha consciência cantarolou:
Ferrou com tua vida, garota.
Nem um pouco agradecida pelo apoio moral vindo de minha consciência, comecei a prestar no discurso que Le começou:
- Temos uma nova Salvadora! - todos os presentes aplaudiram, alguns com vontade, outros de maneira displicente, como se dissessem: Aff’, lá vem o fim do mundo, de novo, preciso dizer que essa reação veio dos vampiros? – Suponho que todos os presentes saibam sobre a profecia que se repete todos os séculos, todos menos a única pessoa que realmente devia saber – ela olhou para mim.
- É, padrinho, eu não tenho conhecimento sobre essa tal profecia – disse com voz tremula e fraca.
- Então, vamos lá! – ele sorriu vitorioso, e tive a sensação de que ele gostava de contar aquela história – Pra início de conversa devo lembrar que a profecia sempre gira em torno de quatro pessoas: o Servo, ou Serva; o Guerreiro, ou a Guerreira, o Escolhido, ou a Escolhida; e por fim, o Salvador, ou neste caso, Salvadora – ele piscou para mim – Vamos começar pelo mais importante: a Salvadora.
“Milênios atrás, os Caçadores, em conjunto com os membros do Submundo, conseguiram destruir o Reino de Fogo, governado pelos demônios. Mas quando conseguimos mandar essas criaturas horrendas para o Inferno, ou quase isso, eles executaram um encanto: Uma vez por século, alguém nasceria com um dom totalmente especial, um dom que poderia trazer a paz ao mundo ou levá-lo novamente as trevas, reerguendo o Reino de Fogo. Essa pessoa foi denominada como Salvadora. Mas, vale a pena lembrar que naquela época, assim como os demônios, os anjos também viviam entre nós, e resolveram contra-atacar: Em cima do encantamento feito pelos demônios, eles fizeram outro. O Salvador não poderia ser um demônio e nem um anjo, e sim uma pessoa alheia, alguém normal, ou pelo menos quase isso. E a única maneira do Salvador poder reerguer o Reino de Fogo seria dando sua própria vida a alguém escolhido pelos demônios: o Servo.
“Os demônios, uma vez por século, escolhem uma pessoa como Serva. Essa pessoa tem o dever de encontrar o Salvador e matá-lo, fazendo o possível para que o trabalho tenha bastante descrição, e impedindo que aquele designado para proteger a Salvadora não saiba. O Servo tem de encontrar a melhor forma possível para abordar a Salvadora, talvez tentando se tornar seu amigo, ou apenas chegando e matando mesmo, portanto, fique de olho – ele me preveniu – E então os anjos contra-atacaram novamente, designaram uma pessoa para impedir o contato entre a Salvadora e o Servo, alguém que leva a vida como uma única missão: proteger a Salvadora e lutar por ela, esse alguém é o Guerreiro.
“Os anjos enviam um dos seus á terra, dando-lhe a missão já citada. E o Guerreiro sempre se liga a Salvadora de todas as formas possíveis: se torna um protetor, um amigo, um irmão, um porto seguro. E por razão desconhecida, o Guerreiro sempre ama a Salvadora. Irônico, não acham? Um anjo em forma humana feito para proteger e amar uma pessoa criada para trazer os demônios de volta ao poder... parece o enredo de um filme mau sucedido que vi uma vez, mas esqueçam...
“Então já temos três: a Salvadora, o Servo e o Guerreiro, falta o Escolhido. Os anjos, para garantir que o plano dos demônios desse errado, decidiram enviar outro dos seus a terra. Uma pessoa feita especialmente para unir o Guerreiro e a Salvadora, e mantê-los afastados do Servo. O Escolhido também tem o dever de proteger a Salvadora, mas ele também protege o Guerreiro. O Escolhido garante que tudo de certo para os anjos; garante que o Servo não mate a Salvadora, garante que a Salvadora não rejeite o Guerreiro, garante que as Trevas não reinem novamente – ele riu – Trabalhinho difícil esse do Escolhido, né? Tão difícil que ela nunca consegue realizá-lo. A mesma história se repete todos os séculos, e o Escolhido faz a maior parte de seu trabalho que perfeição, mas ele sempre comete o mesmo erro: Deixa a Salvadora morrer no final.”
Ele fez uma pausa dramática, provavelmente só para me ver tremer como um filhotinho de cachorro indefeso.
- Mas como eu ia dizendo – continuou – o Escolhido faz maior parte de seu trabalho perfeitamente, sempre cometendo um único erro. E é exatamente por isso que o Reino de Fogo não se reergue: A Salvadora nunca morre pelas mãos do Servo, e isso impede os demônios de terem qualquer reação. O Escolhido impede que os demônios dominem a Terra novamente, e isso é o suficiente, ele consegue cumprir a maior parte de sua missão – fez outra pausa dramática – No básico a história é só essa: o Servo tenta matar a Salvadora, o Guerreiro a protege, o Servo se revolta e tenta matar o Guerreiro, o Escolhido salva o Guerreiro, mas de um jeito ou de outro a Salvadora acaba morrendo. O Servo some, o Guerreiro morre de infelicidade por não estar mais junto da Salvadora e culpa o Escolhido e a si mesmo pela morte desta, o Escolhido continua vivo, sempre se culpando pela morte da Salvadora e em parte pela do Guerreiro, mas um dia o Servo volta com desejo de vingança e mata o Escolhido (em geral o enforca, mas isso não vem ao caso). E... é, agora vocês já sabem tudo. Reunião encerrada.
Eu não conseguia mexer um músculo do corpo. Aquilo era demais até pra mim, e não sei nem que parte de profecia me assustou mais. Eu sempre soube que iria morrer um dia, claro que eu esperava que demorasse mais tempo, mas o que poderia fazer? E com esse pensamento a parte da minha morte na profecia não se tornou assim tão medonha. O problema era a parte que falava sobre o Escolhido, o Servo e o Guerreiro, eu só queria saber quem seriam... e tinha uma leve ideia: Harry, Ron e o Malfoy. Harry e Ron podiam ser o Guerreiro e o Escolhido, já que eram meus melhores amigos, e como o Malfoy é meu único inimigo e também a única pessoa que conheço capaz de fazer um pacto com o demônio, acho que só ele pode ser o Servo.
Voltando ao meu estado de nervos normal, percebi que todos já haviam ido embora. Nathaniel me olhava com cara amarrada, Le continuava em seu estilo nem aí pro mundo e Lotte, bem... Lotte me encarava com cara de poucos amigos, como se eu tivesse feito algo errado. Não que eu não tivesse feito (acho que me tornar uma quase responsável pelo fim do mundo é algo errado, mas, bem, a culpa não era minha). E até uns cinco minutos atrás eu não fazia a mínima ideia de que ia morrer em algum momento nesses próximos meses.
Le me chamou para ir embora. Levantei e fui atrás de Nate, quando me virei para Lotte ela me deu as costas e saiu da sala. Fiquei sem entender, ela costumava ser bem simpática comigo. Dando de ombros segui Le e Nate pelos imensos corredores do Pandemônio. Pensei em Nando, e reparei no quanto erámos parecidos. Ambos bruxos que não teriam magia em seus futuros, ele devido a sua lincantropia, e eu... bem, devido a minha mais nova sentença de morte.
Chegamos ao saguão e saímos, sem trocar palavras. Nate abriu a porta do fusca e entrei. E um sentimento de total pesar me atingiu. Eu sempre soube que não teria uma vida longa, já que sou uma Caçadora. Mas eu não estava esperando que a morte batesse na minha porta desse jeito... E eu não sou mais uma pessoa sozinha no mundo. Eu fiz amigos, e despertei sentimentos dentro de mim. Harry e Ron, eu me importava com eles, e eles comigo. Antes eles me pareceram um bocado antipáticos, mas depois daquele incidente com o trasgo... Tudo mudou. Eles entraram em um banheiro feminino, lutaram contra um trasgo, arriscaram ser expulsos de Hogwarts, e fizeram tudo isso simplesmente para que eu ficasse a salvo. Eles se importam comigo. Eu me importo com eles. E agora eu vou morrer.
Suspirei. E encarei as ruas de Londres pela janela do carro, tudo cinza e triste. Assim como a minha realidade. Minha vida não parece servir de nada, todas as vantagens que eu recebi por ser uma Caçadora nunca me foram úteis. Toda a beleza que recebi? Tenho de ficar me escondendo porque tenho vergonha de acabar chamando atenção demais. O dom de mudar de forma? Nunca usei, e sempre tenho a sensação de que vai acabar me trazendo muitos problemas. E o que mais eu recebi por ser uma Caçadora? Uma família que não me ama? Risco de vida? Uma infância sem amigos? E agora uma sentença de morte? Eu poderia dizer que não tem como ficar pior, mas seria mentira, porque sempre tem.
Baixei os olhos e vi o pacotinho de veludo. Nunca tinha recebido um presente dos meus pais, e agora entendo o porque de ter sido justo hoje. Como vou morrer, eles querem que eu ao menos saiba que eles existem. Ergui as mão e peguei o embrulho, coloquei no meu colo e o alisei, sentindo a textura suave do veludo. Abri coloquei as mãos e achei um cartão:
Para algo especial de alguém especial.
Não fazia sentido. A não ser que eles quisessem que eu guardasse alguma coisa especial no pacotinho. Mas, de alguém especial? Será que era pra guardar alguma coisa dessa pessoa especial? Porque se eles estavam dizendo que eram as pessoas especiais na história, estavam redondamente enganados. Virei o pacote de cabeça pra baixo e sacudo, alguma coisa caiu. Uma correntinha dourada agora brilhava contra a sai branca. Uma correntinha sem pingente. Eles queriam que eu colocasse alguma coisa que me lembrasse alguém especial. Não consegui segurar o sorriso que se espalho pelo meu rosto.
Uma freada brusca me fez bater com o queixo no banco da frente. Ia ficar roxo. Maldita hora em que esqueci de por o sinto sabendo que era Leonard Quincey quem estava ao volante. Tateie o canto esquerdo do meu maxilar, latejava.
- Chegamos, crianças – começou Le – Vou resolver uns probleminhas que não são da conta de vocês, mas volto pra pegar você meu Mimo. Esteja com as malas prontas no saguão do prédio em uma hora, vou te levar pro Bacia Quebrada.
- É Caldeirão Furado, tio – digo.
- O que for. Esteja pronta se não terá de ir a pé.
Apertei a correntinha na mão e coloquei o pacotinho em baixo do braço, abri a porta e fui saindo. Sem reparar se Le se despediu ou se Nate estava vindo atrás. Coloquei um pensamento em foco: logo eu estaria no Caldeirão Furado com Harry e os Weasley’s, estaria em família. Passei correndo pelo saguão, entrei no elevador. Entrei no apartamento e larguei a porta escancarada. Fui direto pro meu quarto, me taquei na cama redonda e comecei a chorar como uma louca. Apertei a correntinha na mão. Eu tinha pais que nunca me amaram. Olhei para o porta-retrato do criado mudo, a foto era minha de Harry e Ron. Eu tinha amigos que me amavam. E logo eu não teria mais. Mais nada. Eu tinha acabado de ser marcada pra morrer.
Chorei mais. Acho que nunca tinha chorado tanto. Eu não queria morrer. Eu não aceitaria a morte com tanta facilidade assim. Mais não aceitaria mesmo!!! Anjos, demônios e sei lá mais quem iriam ter de se preparar! Ele queriam uma Salvadora? Arrumem outra, que eu não estou disponível! Eu vou fazer alguma coisa... não estou disponível pra morrer. Tenho de dar um jeito...
- Mione? Posso entrar?
Nathaniel.
Antes que eu diga que sim ele já está sentado ao meu lado, acariciando meus cabelos. Nate coloca as braços ao meu redor, sem dizer nada, e espera até que eu pare de chorar.
- Eu me importo com você Hermione Jane Granger. Só não conte pra ninguém.
Ele deu um beijinho na minha testa e ri, o abraçando mais forte. Ele é meu irmão, e isso já faz uma grande diferença. Ele me ama, do jeito dele, mas ama. Nate não disse nada pra me consolar porque isso não tem consolo. Eu vou morrer e pronto.
- É melhor arrumar suas coisas – continua ele me sentando na cama – Daqui a pouca Le vai estar dando um escândalo lá em baixo E o que é isso? – ele pegou a correntinha de ouro e a passou entre os dedos – Quer que eu coloque? – assenti com a cabeça, limpando algumas lágrimas.
Com uma delicadeza inesperada ele colocou a correntinha em volta do meu pescoço, ele brilhou contra a minha pele. Sorri, ele colou a testa na minha e disse:
- Só tire quando for colocar o pingente. Pra dar sorte. Agora arrume seu malão.
Decidi que a melhor coisa que eu poderia fazer era arrumar o malão. Fazer o que? De um jeito ou de outro um dia eu vou morrer, assim como todos os seres vivos (ou pelo menos a maioria deles). Me levantei e rumei para o closet. Fui pegando tudo que vi pela frente, sem me importar se estava levando biquínis para uma nevasca. Ou trajes de neve para o verão. Entulhei tudo no meu malão e me dei por satisfeita. Ao menos antes de morrer eu teria aulas em Hogwarts e bastante tempo para passar com meus amigos. Levei as coisas para a sala e fiquei na espera de Le. As vezes Nate passava por mim, dando um sorriso meio frio, eu retribuía. Foi aí que parei para pensar no quanto minha relação com meus irmãos era estranha. Eu e Nate nos gostávamos bastante, só que meio que não demostrávamos. Já com a Tina... bem, acho que vocês perceberam que as coisas são meio tensas. Mas ela, bem no fundo, é assim como eu. Ambas não queremos a vida que temos, a vida de uma Caçadora de demônios. A diferença é que ela demonstra isso e eu não. E como eu sabia que ela não voltaria pra casa hoje, pedi para que Nate se despedisse dela e fui me arrumar. Coloquei calças jeans meio largas, um suéter azul e tênis comuns. Despenteei um pouco meu cabelo, escondendo um pouco do meu rosto, para não chamar atenção. Peguei um livro de Hérbologioa, me despedi de Nate com um abraço e um simples sussurro da parte dele:
- Eu te amo, minha irmã.
Não tive forças para responder, fui embora para o saguão. Fiquei imaginando se seria a última vez que nos encontraríamos, mas não gostei da ideia e comecei a pensar nos livros que eu teria de comprar. Neste caso todos. Mesmo sem o tempo que eu gostaria para fazer todas as aulas, eu iria ler todos os livros e aprender alguma coisa. Fico jogada em um sofá lendo, a espera de tio Le. E de certa forma sinto Hermione caçadora terá de ir pra Hogwarts comigo este ano.
POV Cormárco McLaggen
Eu cansei, cansei de ser só eu. Parece que todo mundo na minha família é importante e cheio de tudo, menos eu. Claro que tenho só catorze anos e uma vida inteira pela frente, mas mesmo assim... Eu preciso ser mais. Ser o melhor dos heróis, ter o nome lembrado para todo o sempre. Só que isso não é fácil, nem para um bruxo. Então fazer um pacto com o demônio pode vir a ajudar. A partir de agora eu sou Cormárco McLaggen, o Servo. Não é um grande título, mas o cara (criatura) que me batizou com ele disse que se eu conseguir entregar essa tal de Salvadora para ele, vou ter tudo o que quiser. E é o que espero.
Olá meus caros leitores, demorou mas chegou. Como não sou a mais inteligente das pessoas minhas notas no fim de ano foram meio que... péssimas. E dei sorte de ter passado. Mas eu fiquei quase as férias inteiras sem PC e sem escrever, e tudo isso porque minha professora de Ciênscias não entende o meu raciocínio de que caranguejos fazem matamorfoze. Mas, fazer o que? O tamanho do cap não compensa muita coisa, mas foi o que consegui, também não sei se ficou bom, isso vcs q vão me dizer. Um beijão para todos os meus queridos leitores, e agora Lenah Weasley está de volta! Comentários mais que bem vindos! Mil agradecimentos a todos vocês, e muito obrigada pelos comentários Thomas Cale! Me deixaram muito feliz!