POV Hermione
Tina colocou uma tigela de frutas na minha frente, agradeci e comecei a comer ignorando o silêncio constrangedor que se instalara ali. Nate tentava parecer indiferente a presença de Tina, mas eu sabia que não era bem assim. Se você está pensando onde estão meus pais em uma hora dessas, eu não tenho a resposta. Nunca conheci meus pais... estranho, não acha? Mas para o meu povo os filhos só podem conhecer os pais quando completam maior idade, ou seja, aos quinze anos. Nate e Tina já os conhecem e nunca demostraram ter gostado da experiência. Os... as pessoas como nós costumam ser criadas por padrinhos ou irmãos mais velhos (no meu caso os dois), acreditamos que ter laços fraternais com os nossos pais causa fraqueza. Minha opinião sobre isso? Uma completa idiotice, um costume sem cabimento, uma loucura! Mas o meu povo também não tem o costume de dar ouvidos a pessoas que não tem um alto cargo no governo, portanto, para eles a maioria de nós nem existe. Meu povo foi encarregado de proteger os seres humanos, custe o que custar, e sendo assim passamos a não ligar muito para nós mesmos. Imagine uma nação cheia de filhos sem permissão para conhecer os pais, sem permissão para amar alguém além dos humanos. É a dura realidade dos Caçadores Secretos.
Meu povo, como já disse, é responsável por proteger todos os humanos das Trevas, nosso trabalho é permitir que o caos não volte a reinar no mundo. Sim, o caos já reinou por aqui, mas não tenho permissão para falar sobre isso. Bom, os Caçadores Secretos (não é exatamente o que somos, mas como não posso dizer a verdade... podem nos chamar assim), receberam a tarefa de banir toda a escuridão do mundo, e isso aconteceu na época do Reino de Fogo (é como denominamos o tempo em que a Terra era dominada pelas Trevas), nós vencemos a guerra, destruímos demônios, mas não os matamos, afinal, eles são como o mal: vão embora, mas sempre voltam. E esses demônios tiveram de se esconder por aqui, em um lugar chamado Submundo. Onde é o submundo? Em todo lugar. Não existe barreira alguma separando homens de demônios, apenas o suor dos Caçadores Secretos. E, modéstia parte, trabalhamos tão bem que a maioria dos homens nem percebe estar respirando o mesmo ar que um bando de demônios.
Mas com toda essa reponsabilidade veio um fardo tão grande que a maioria de nós morre esmagado tentando carrega-lo. Os Caçadores Secretos não podem ajudar uns aos outros, não podem amar uns aos outros, não podem ser felizes. Meu padrinho diz que esse é um preço bem barato para se pagar considerando todos os dons com os quais nos abençoaram. O problema é que nós temos sentimentos, temos coração... como podemos ser frios em relação ao mundo se somos calorosos e amáveis por dentro? Fui criada acreditando que nunca teria amigos, que um dia meus irmãos morreriam lutando contra algum demônio e que eu ficaria sozinha para morrer em batalha assim como eles... mas a carta chegou. Meu padrinho explicou a situação aos meus pais e eles aceitaram que eu fosse para Hogwarts, achando que estaria aprendendo mais formas de matar os filhos do fogo... mas eu estava era fazendo amigos. A primeira pessoa da minha idade com a qual conversei foi Neville Longbottom, ele chorava por ter perdido o sapo... resolvi ajuda-lo, afinal era o meu trabalho. E depois conheci Harry e Rony, só de falar com eles eu senti que tinha ganhado irmãos, só que dessa vez de verdade, e eu criei sentimentos por eles. Queria falar com eles todos os dias, ajudá-los, ser amiga, ser irmã... claro que se meu padrinho, ou Nate descobrirem isso eles vão me entregar para o governo dizendo que sou uma aberração que criou laços de amizade com dois bruxos nojentos. E talvez seja verdade... não a parte deles serem nojentos, mas a deu ser uma aberração com sentimentos.
Antes deu ir para Hogwarts minha vida não fazia o mínimo sentido. Era como se eu seguisse um caminho escrito por alguém que nem conheço... eu apenas existia, mas então Harry e Ron aconteceram na minha vida (e no ano passado o Gina, que se tornou uma grande amiga) e tudo mudou.
- Hum, Mi... lembra que falei que hoje seria uma dia cheio? – Nate quebrou o silêncio, ao mesmo tempo em que minha tigela se esvaziou.
- Sim, quais são os planos para hoje? – perguntei meio que com preguiça, os dias andavam bem chatos ultimamente. Despachávamos demônios das ruas e auxiliávamos humanos infectados com doenças demoníacas... isso merece uma explicação, né? Alguns demônios transmitem doenças altamente contagiosas (como o vampirismo, e o lincantropismo) e já houveram epidemias seríssimas. Tipo uma cidade inteira ter a população transformada em lincantropes. (N/A: para quem não sabe lincantrope é só um termo diferente para lobisomem). E vira e mexe tem algum Caçador Secreto lutando e pegando vampirose por aí, só que nós caçadores secretos, conseguimos nos curar dessas doenças, já os humanos são condenados o conviver com elas pelo resto da vida.
- Todos que moram aqui na região foram chamados para uma reunião no Pandemônio. Disseram que é importante, todos os representante vão estar lá. Le Quincey pelos Caçadores, Camille Badnight pelos vampiros, Lucian Brane pelos feiticeiros... a reunião é daqui a uma hora, e o tio Le falou que vem nos buscar em quinze minutos, é melhor você se arrumar, Mione – Nate falou tudo de uma vez e em seguida lançou um olhar inquisidor para Tina – Você vai, Valentina? Afinal, por mais que não goste esse é o seu trabalho, é sua responsabilidade.
- Não, eu não vou, Nathaniel. Combinei de passar o dia com algumas pessoas...
- ENTÃO VÁ LOGO, VALENTINA! SE VOCÊ RENUNCIA A SUA NATUREZA, VOCÊ RENUNCIA SUA FAMÍLIA!! ENCONTRE SUAS MÁS COMPANIAS, SE FAÇA DE COITADINHA, MAS NÃO VAMOS FAZER NADA!! SE NÃO ACEITA SER QUEM É, NÃO PRECISAMOS TER PIEDADE DE VOCÊ! NÃO FOMOS FEITOS ASSIM! – ele começou a respirar de forma descontrolada, tentando recuperar o folego, então fechou os olhos e disse com a vós seca – SAIA DAQUI.
Tina se levantou, olho para mim com olhos marejados e se transformou em um passarinho preto. Lastimou em um pio e voou pela janela, me deixando sozinha com meu irmão raivoso. Olhei Nate e deduzi que era melhor esquecer que acontecera a pouco. Suspirei.
- Leo Martínez não vai representando os lincantropes? E a Butterfly? Não é ela que está sendo rainha das fadas agora que a rei Bird faleceu? – perguntei, como se nada tivesse acontecido.
- Não sei, o tio Le só flou da Badnight e do Brane, mas os outros devem ir também... se arrume rápido que o Le já deve estar chegando.
Saí da cozinha com um pedido de licença e fui para o meu quarto. Le Quincey é meu padrinho, e ele representa todos os Caçadores aqui de Londres. O Pandemônio é um lugar feito pelos caçadores para que pudéssemos ter reuniões ocasionais com os humanos contaminados com doenças demoníacas. Quase todos os meses temos uma reunião, o estranho é que este mês já tivemos uma.. mas que se dane também.
Nessas reuniões o ideal é que eu pareça, bem... o que eu sou. Não gosto de sair por aí exibindo minha aparência ridícula e perfeitinha, mas o meu povo acho superimportante mostrar que somos superiores aos outros, mesmo que na aparência... então, fazer o que. Resmunguei algo baixinho que nem eu sei o que foi e rumei para o closet. Nunca foi necessária alguma coisa para melhorar minha aparência, mas deixa-la ruim era quase impossível. Fui catando tudo o que apareceu na minha frente: uma saia de renda branca acima do joelho, uma camisetinha verde que fazia questão de realçar minhas curvas, tênis All Stars de cano alto camuflados em verde e uma bolsa branca meio que esportiva. Encarei o reflexo ‘mais que perfeito’ e bufei. Colocando minha varinha, um spray de pimento (parceiro fiel) e uma faca na bolsa fui para a cozinha onde Nate já me esperava com a porta que dava para o corredor aberta.
Em silêncio saí e ele trancou a porta. Fomos de elevador até o térreo, andamos pelo hall como fantasmas, em todos os sentidos. As pessoas nos olhavam como se fossemos espíritos de outro mundo e nós permanecíamos tão silenciosos como se fossemos de verdade. Nate foi à frente pela porta giratória e eu o segui, sustentando o silêncio mortal. Quando saí para rua as buzinas e o cheiro de gasolina fizeram com que eu me sobressaltasse. Mas olhei para frente e vi o fusca amarelo de Le Quincey buzinado impaciente. Ele colocou a cabeça para fora do carro e berrou feito o louco que ele é:
- VOCÊS VEM OU NÃO?
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POV Fred
Ainda encarando a cara de retardado do meu irmão (sem ofensas a mim mesmo) fiz uma careta e abri a porta. Desci pesadamente a escada de madeira, tentando inutilmente descontar minha raiva, logo George estava atrás de mim, ainda espantado.
- Isso é sério, cara? Você e a Hermione...
- Fale um pouquinho mais alto que o vizinho ainda não ouviu – resmunguei no momento em que meus pés tocaram o chão da sala. Eu estava definitivamente mal humorado. Era duro saber que ela nunca gostaria de mim, que sempre me acharia o irmão mais velho idiota do melhor amigo dela. Não sei o que a Hermione vê no Roniquinho, e os dois ainda ficam por aí de braço dado, cheios de cochichos, e o Harry também, ele é famoso e tem aquela testa rachada... e eles ficam se abraçando pelos corredores (~le morrendo de ciúmes~). Quando ela voltou da enfermaria ano passado e deu aquele abraço nele... eles ficaram ali coladinhos para que todo mundo pudesse ver, ele com os braços ao redor dela. Arg, foi difícil me segurar para não ir lá arrancar a cabeça dele e...
- Cê tá passando bem, Fre... irmão? Sua cara tá todo vermelha e você tá tremendo... - a voz do Roniquinho me acordou, meus punhos estavam cerrados e minha visão tinha se tornado vermelha. Engoli em seco e pensei em como ele a chamava de ‘Mione’, queria poder chama-la assim ou de outro apelido, mas não éramos próximos o suficiente para isso. E ela sempre sorria quando meu irmão a chamava assim. Meu irmão... e não eu.
- EU TÔ ÓTIMO, SE VOCÊ QUER SABER RONALD! – berrei e fui marchando para a mesa onde o café estava posto. Eu definitivamente não estava bem. Sentei com um estrondo na minha cadeira, atraindo os olhares de Gina, Percy, mamãe e papai. George veio se sentar ao meu lado, deixando um Roniquinho totalmente perplexo ao pé da escada. Ignorei todos os olhares e comecei a enfiar ovos mexidos na minha boca. Roniquinho se sentou na minha frente.
Fiquei pensando em como Hermione sempre reclamava da maneira como o Roniquinho comia, eu comia igualzinho a ele e ela nunca nem reparava! Uma vez eu tentei puxar assunto com ela dizendo que os Weasleys sempre comiam assim, mas ela nem deu atenção! Mas... talvez se eu começasse a comer educadamente ela resolvesse me parabenizar. Imediatamente ajeitei minha postura e comecei a comer de vagar com a educação de um cavalheiro, novamente atraí todos os olhares da minha família.
- Está tudo bem, Georgie? Está meio estranho hoje... – começou minha mãe.
- Sou o Fred, mulher – interrompi ríspido.
- Quem lhe deu o direito de usar esse tom de voz comigo, rapaz? – indagou Molly, espantada com meu comportamento.
- Eu me dei esse direito... desculpe, mãe. Estou meio nervoso hoje – praticamente murmurei com a cabeça baixa.
- Tudo bem, então... ela aceitou o convite queridos? – recomeçou minha mãe olhando para Rony e Gina. Esta abriu um sorriso largo e cheio de comida e fez que sim com a cabeça.
- Ela até reservou o quarto. – respondeu Ron após engolir tudo o que tinha na boca duma vez só.
- Ótimo, então.
- Ela quem, mãe? – perguntou Percy com o cenho franzido.
- Hermione, querido. Roniquinho e Gininha a chamaram para ficar no Caldeirão Furado com a gente.
Nem preciso dizer que cuspi tudo o que tinha na boca bem na fuça do Roniquinho. Eles me avisam agora? Eu podia ter bolado um plano para conquista-la! Seria uma chance perfeita de nos aproximarmos, mas ele iria odiar minha personalidade... mas, ainda tem como dar um jeito. Pulei da cadeira e sem dizer nada fui para o quarto, a tempo de ouvir Roniquinho reclamar pela cusparada de ovo e mamãe perguntar para George o que tinha dado em mim.
Eu tinha uma chance e não iria desperdiça-la.
N/A: está aqui mais um cap. Gostaria de mandar milhões de agradecimentos a Mayara Picoli por estar comentando e mando todos esses elogios que me fazem rir de felicidade, muito obrigada mesmo! E também quero lembrar que essa fic é movida a críticas, portanto, comentem. Obrigado a quem marcou a fic, isso me deixa muito feliz! E quanto o quem marcou e não comentou, por favor, não custa nada! Beijoquinhas e mais agradecimos!