Me virei para a porta e vi Nate. Parecia ter acordado a muito tempo, vestia um terno risca de giz e chinelos amarelo canário (por razão desconhecida ele não usa sapatos fechados). Fixei meu ohar no rosto rosto de Nate e agradeci por não ser a única da família a ter problemas com a aparência. Ele era um gato em todos os sentidos da palavra. O rosto era felino, com olhos cor de âmbar inacreditavelmente profundos e misteriosos, lábios másculos e carnudos, queixo quadrado com furo no meio e... bom, sempre fico me perguntando como ele faz para sair na rua sem ser atacado por um bando de mulheres histéricas. Nate passou a mão pelos cabelos curtos e revoltos, com a mesma tonalidade que os meus, e depois apoiou o ombro no batente da porta.
- Brigando com o reflexo de novo, Mione? O espelho não tem culpa de sermos como somos - bufou irritado - de sermos o que somos - sorriu e deu um pulinho (já disse que ele é meio bipolar?) - Não vai acreditar! A Valentina, pela primeira vez nesta semana, chegou em casa em tempo para o café da manhã!
Não pude deixar de sorrir com a notícia, sabe, é que a Tina é meio... complicada. Já ouviu falar em ovelha negra da família? Pois é, a Tina é a nossa. Mesmo com quinze anos ela já faz questão de aprontar tudo o que pode (e que não pode também), e ela tem certa preferencia por coisas que estão fora do permitido pela lei. Tina sai todas as noites para arrumar encrenca em lugares... digamos que improprios para menores de idade.
- Vai logo, Mi... hoje o dia é cheio – falando isso ele se transformou em um gato grande e cor de caramelo. Nate miou preguiçosamente e saiu andando muito provavelmente em direção à cozinha. Não, gente, meu irmão não é um animago (apenas bruxos podem ser), mas algumas pessoas da minha espécie podem se transformar em animais, na verdade a maioria delas... é quase como se fossem animagos mesmo. Só que eu, por exemplo, não nasci com esse dom, tenho algo mais raro que me permite assumir a forma de outra pessoa quando toco em algo que pertence a esta. Mas não é nada demais, eu queria mesmo é poder virar uma pulga de vez em quando e esquecer que existe um mundo cheio de problemas ao meu redor.
Fiz minha higiene matinal, coloquei pantufas alaranjadas e felpudas, ajeitei a camisola no corpo e segui para a cozinha. O apartamento que divido com meus irmãos não é lá grande coisa, são três quartos, uma área de serviço minúscula, a cozinha e a sala. Arrastei minhas pantufas pelo carpete vermelho sangue até chegar na sala de jantar e de TV. Nate estava sentado na comprida mesa de mármore com metade de um cachorro quente na boca e a outra metade na mão, ele sorriu, mostrando a comida semimastigada no interior de sua boca. Perdi uma fome que nem sabia que tinha.
Retribui o sorriso de Nate e ergui os olhos, ela estava do outro lado da mesa, bem na minha frente. Durante boa parte da infância eu e Tina fomos consideradas gêmeas, o que agora se tornou uma coisa totalmente improvável. Não é só pelo fato dela ter se tornado bem mais alta e já ter um corpo bem mais curvilíneo e perfeito, Tina transformou a si mesma em outra pessoa, pessoa essa que ela não foi feita para ser.
Analisei o rosto da minha irmã como a tempos não fazia. Primeiro reparei em nossas semelhanças (o nariz, o formato dos lábios, o ângulo das maçãs do rosto, a cor dos olhos), não me espantei em reparar que diversas vezes fomos confundidas como gêmeas. Depois passei a reparar nas coisas que outrora foram semelhanças e que agora se tronaram diferenças. Os olhos contornados por uma maquiagem preta muito forte que realçava as olheiras, a pele que devia ser cor de pêssego se tornara pálida e sem vida, os lábios carnudos que deveriam ser rosados agora eram pálidos e rachados. As maçãs do rosto estavam encovadas, afirmando a qualquer um que olhasse a sua falta de saúde, a maquiagem tentava disfarçar, mas a cicatriz que lhe rasgava a bochecha esquerda era totalmente visível.
- Hermione Jane Granger, a quanto tempo não te vejo. E olha que dividimos um mesmo apartamento! – Tina sorriu, revelando dentes que um dia foram cor de marfim, mas que agora se encontravam amarelados devido ao uso de cigarros, e, embora eu quisesse discordar, drogas.
Juro que tentei retribuir o sorriso, mas deve ter ficado tão forçado quanto uma careta. Era horrível pensar no que minha irmã fazia. Ela descontava a raiva que tinha da vida em si mesma, Tina não comia mais de maneira correta, ingeria unicamente álcool e alguns desses petiscos que vendem em bares noturnos. E durante um bom tempo Tina esteve tão infeliz consigo mesma que começou a cortar o próprio corpo. Não era nada sério como automutilação, mas... ela cortava a si mesma. Tina só parou quando teve uma crise extremamente séria na qual fez um profundo corte na bochecha esquerda. O pior é que ela poderia ter se curado, pessoas como nós não precisam conviver com cicatrizes (que são mais comuns do que deviam no nosso ramo), podemos nos curar de todos os machucados que quisermos. Mas Tina foi castigada pelo nosso próprio pai, ela teria de aprender a conviver com o mal que fez a si mesma.
- Pode se sentar aí, Mi. Vou pegar algo para você comer – Tina foi para traz do balcão da cozinha e eu me acomodei na cadeira da cabeceira, á esquerda de Nate. Enquanto minha irmã se virou pude ver as costas dela. Os cabelos estavam enrolados num nó na nuca e ela usava uma blusa de seda branca frente-única, a pele pálida devido a falta de sol contrastava de forma grotesca com a tatuagem de uma espada dourada. A tatuagem em si parecia mais viva que minha irmã.
___________________________________________
POV Fred Weasley
A culpa é toda de vocês, Fred e George, se não fossem filhos tão ruins para mamãe talvez ela até gostasse de vocês... eu amo o Harry Potter!! Cara, ás vezes a Gina me irrita muito! Eu e o George só jogamos umas bombas de bosta no quarto dela e já ficou toda irritadinha, quando jogamos as bombas no quarto do Roniquinho ele nem liga (muito). Mas esquece...
Nesse exato momento eu e a minha cópia mal feita estamos arrumando nossas malas para nos hospedarmos no Caldeirão Furado. Se você está pensando em como um pobretão como eu vai conseguir se hospedar no Caldeirão Furado simplesmente te digo: MEU PAI GANHOU NA LOTERIA! Claro, porque é isso que os pais deviam fazer pelos filhos: ganhar na loteria e levar uma ninhada de sete pessoas para visitar múmias podres no Egito. Eu e George queríamos ter ido para a Croácia (o motivo é secreto), mas a Gininha Linda da Mamãe insistiu em ir pro Egito, fazer o que, né... Mas a viagem foi legal (você não tem ideia de quantas maneiras existem para se assustar alguém numa pirâmide), só que como felicidade de pobre dura pouco... Aqui estou eu na Toca fazendo minhas malas novamente.
Fui pegando calças, suéteres, e as outras coisas necessárias. Também arrumei o malão de Hogwarts, já que depois dessa nossa pequena e inútil estadia no Caldeirão Furado iriamos para lá. Gemi de pura angústia, fechei os olhos e me taquei na cama, atraindo a atenção de George que chuchava nossas cuecas num saco plástico.
- Que foi? – ouvi a minha própria voz saindo da boca dele e quase fiquei feliz. Eu e George sempre dividimos tudo, tudo mesmo: a aparência, a voz, as expressões, as piadas, a personalidade, a família e a data de nascimento. Na verdade tem outras coisas também, mas não são tão importantes (cuecas, pasta de dente, shampoo, sabonete, comida, etc).
Senti ele se sentar na beirada da minha cama (que, aliás, como o nosso quarto é muito pequeno não fica nem a 50cm da dele), abri os olhos e encarei o meu reflexo. Os cabelos ruivos em mesmo corte que os meus, caindo com uma franja de lado sobre a testa, as sardas em mesmas posições e tonalidades que as minhas, e por fim os olhos azuis safira que pareciam refletir os meus.
- Na vai dizer nada para seu irmão gêmeo não, desgraçado? – perguntou ele, franzindo o cenho do mesmo jeito que eu fazia. E... sim, temos o costume de chamarmos um ao outro dessas coisas (tipo desgraçado, canalha, cachorro, imprestável e afins).
- Vamos voltar para Hogwarts... e ela vai estar lá – disse a última parte em um sussurro tão baixo que mais pareceu minha própria respiração. Ela estaria lá com toda a certeza, ela, a garota pelo qual me apaixonei tendo completa certeza de que jamais seria correspondido. É, eu, Frederico Weasley sou do tipo de cara sensível que sofre por uma garota e fala sobre sentimentos. Algo contra?
- Eu também não gosto de estudar, Fredinho... mas não podemos fazer nada até completarmos 17 anos. O Ministério obrigada todo mundo a ir pra escola e... você não tá assim por ter de voltar pra Hogwarts, está? – ele ergueu a sobrancelha e deu um sorrisinho malicioso... incrível! Ele é igualzinho a mim!
- Não. O motivo não é só voltar para aquele inferno onde o diabo é professor de poções, tem outra coisa... e você sabe o que é – inspirei o máximo de ar que pude esperando ele soltar uma gargalhada... ele é meu gêmeo e muito provavelmente... leria meus sentimentos. Nós temos uma telepatia (empatia, ligação, ou qualquer outra coisa que insinue que somos ligados um no outro de forma tanto física, quanto sentimental e metal) muito forte.
- Isso tem haver com os ataques do ano passado, não tem?
Meu corpo todo estremeceu em lembrar daquilo. De início admito não ter dado muita importância, mas quando descobri que o tal “bicho” atacava nascidos troxas entrei em pânico. Todos os dias eu fazia questão de acompanha-la (lê-se persegui-la discretamente) para saber se ela estava bem. Mas no dia de um maldito jogo de quadribol ela foi atacada. O único dia em que não a segui depois das aulas. Senti meu estômago se contorcer, talvez se eu tivesse inventado uma desculpa e faltado ao jogo não a tivessem petrificado. Eu poderia tê-la salvo e então ela repararia que eu existo e que não sou só o baderneiro que sai explodindo bombas pelos corredores. Se eu não tivesse ido jogar tudo seria diferente... E quando descobri o que tinham feito com ela eu não tive como me vingar, e fiquei descontando o ódio em mim mesmo. Parei de estudar, o Seboso Snape ganhou motivos para descontar 250 pontos da Grifinória. Briguei com o Lino, impliquei mais ainda com Percy e Roniquinho. Deixei todos os primeiro-anistas perfumados com bosta de dragão, levei o máximo de detenções e broncas que consegui... e fiz tudo errado. Ela não gostaria que as notas de ninguém caíssem, não iria querer alunos implicando com professores, abominaria a ideia de descontar raiva nos amigos, ficaria extremamente brava em maltratar os garotos do primeiro ano, e simplesmente odiaria saber que alguém já programou as próprias detenções para que os horários não coincidissem. E tudo isso fazia com que ela fosse cada vez mais perfeita. E eu ainda acho que tenho alguma chance com ela. Eu! Um ignorante, brigão, encrenqueiro, baderneiro, mentiroso, temperamental, grosso, mal educado (mas mamãe tentou), burro, covarde, impertinente...
- Terra chamando Weasley! Ufa, pensei que tivesse te perdido para sempre – George fez cara de alívio e eu bufei – Desembucha logo, salafrário, que é que você tem?
- O CAFÉ ESTÁ NA MESA! – por um segundo pensei que aquelas palavras tinham saído da boca que eu acabara de abrir, mas felizmente reconheci que era um dos famosos berros de Molly Weasley. George se levantou e me sentei na cama. Ele cruzou os braços e fez uma expressão carrancuda.
- Diz logo, cabeção. Vou ficar aqui até que Molly Weasley venha nos buscar a força.
- O problema, meu caro gêmeo – debochei – é que ela vai estar em Hogwarts.
- Ela quem? – perguntou ele com olhos arregalados e boca entre aberta.
- Como assim ela quem? Hermione Granger, quem mais seria?
_________________ N?A: MAIS UM CAP. COMPLETO, GALERINHA. LEMBRANDO QUE É UMA FIC MOVIDA A COMENTÁRIOS. pORTANTO SEM COMENTÁRIOS SEM FIC. BEIJOQUINHAS DA LENAH.