O sábado amanheceu tempestuoso. O vento e o granizo martelavam incessantemente nas janelas do castelo. Em toda a torre da Grifinória, a única pessoa acordada àquela hora, era Harry Potter. Ele acordara por conta do barulho formado pela junção dos roncos de Rony e Neville e com as trovoadas da tempestade que caía sobre os terrenos da escola. Faltavam apenas dez minutos para as cinco horas da manhã e Harry tentava, em vão, voltar a dormir. Uma vez acordado, não voltaria a adormecer. Revirava de um lado para o outro na cama e finalmente percebeu que não conseguiria resultados em suas investidas de dar uma prolongada no sono.
O céu estava coberto por nuvens escuras que despejavam uma chuva grossa e abundante. Os jardins estavam ensopados e lamacentos, o lago estava quase transbordando e as árvores da floresta pareciam extremamente frágeis ao vento. Pensou seriamente em tentar convencer os amigos de que não valeria a pena ir a Hogsmeade com aquele temporal e que seria melhor continuarem em Hogwarts, na torre da Grifinória, onde estariam secos, aquecidos e protegidos. Sabia que seria uma tentativa completamente inútil, já que Rony não lhe daria ouvidos. Também não poderia sugerir isto a Hermione, pois o único momento em que ela deixava os estudos definitivamente de lado era quando eles saíam para um passeio ao povoado vizinho.
Resolveu fazer este sacrifício para se poupar dos comentários zangados de Rony e, principalmente, para poupá-los de mais um dia inteiro trancados com uma Hermione enchendo para que fossem estudar. Ele mudara bastante, tomara consciência de que não poderia ficar o resto de seus dias em Hogwarts deixando os estudos para a última hora, mas ele também tinha direito a um merecido descanso.
Silenciosamente, ele abriu uma fresta em seu cortinado para observar se mais alguém estava acordado. Na verdade, tinha mais interesse em saber se Rony estava acordado, mas a julgar pelos roncos descompassados, havia mais de uma pessoa roncando; ele ainda dormia profundamente. Já estava se sentindo desconfortável deitado naquela cama. Não era uma pessoa que gostava de ficar parado por muito tempo em um só lugar. Levantou-se e foi ao banheiro. Tomou um banho, fez toda a higiene matinal e desceu para o salão comunal. Decepcionou-se quando não encontrou Hermione lá. Ela sempre estava lá quando ele descia, sempre estava a sua espera.
Sentou-se numa poltrona em frente à lareira, onde ficaria aquecido naquele dia frio. Ficou ali sentado por vários minutos. Não saberia dizer o quanto... Sozinho naquela sala, sentia-se ainda mais solitário. Ele vivia cheio de pessoas à sua volta... Não imaginava como seria sua vida sem os amigos.
Seus pensamentos foram cortados por um toque de leve e um perfume que invadiram a sala. Sentiu uma mão tocar seu ombro e o perfume inebriante já conhecido invadiu suas narinas.
- Mione? – ele chamou.
- Como sabe...?
- Eu conheço o seu perfume e sei que só você tomaria a liberdade de tocar meu ombro seguramente. – ele segurou sua mão e a puxou para que se sentasse em sua frente. Sorriu para ela, que retribuiu o gesto. – Acordou cedo. O que houve?
- Não consegui dormir direito. Durmo ao lado da janela e a tempestade ricochetava na nela sem parar... Acabei desistindo de dormir e desci. – ela respondeu sem encará-lo diretamente. – E você? O que faz aqui tão cedo?
- Bem... Acho que é impossível dormir com os roncos incessantes do Rony e do Neville, ainda mais quando estes se misturam a esta tempestade, não acha? – eles riram.
- Só espero que o tempo melhore... – comentou Hermione.
- Mione, mudando de assunto... E a Casa dos Gritos? – perguntou Harry, lembrando-se da casa que Hermione decorara dois meses atrás.
- Ah! Está fechada. Não acredito que alguém saiba que ela não é assombrada de verdade, a não ser nós mesmos e o Rony. E depois, só o Dumbledore e o Lupin sabem, agora. A não ser que você conte com o Rabicho...
- Nunca! Mione, por favor, não toca nesse assunto...
- Ok. – ela afagou os cabelos naturalmente desgrenhados do moreno, num gesto de carinho. – Você sabe que não gosto de vê-lo assim, Harry. Eu sei que isso é uma ferida aberta ainda, mas é que às vezes é impossível de não tocá-la. Desculpe!
Ele levou sua mão ao encontro da mão de Hermione, acariciando-a levemente. Seus olhos se encontraram e eles ficaram assim por um longo instante, afogando-se nos olhos do outro... O verde no castanho; o castanho no verde. Harry passou a observar novamente os seus traços, o seu rosto. Ela tinha a pele delicada como a de uma boneca, o rosto... Perfeito! Pensava consigo mesmo como nunca a havia notado como mulher, a mulher mais bela, delicada, carinhosa, amiga e mais perfeita do mundo. E ela estava ali do seu lado. Exatamente a mulher que sempre procurara para se apaixonar um dia, para seguir junto com ele para o resto de suas vidas.
Não demoraram a voltar a conversar. E ficaram ali, esperando a hora de se juntar aos amigos para que pudessem ir ao povoado de Hogsmeade. E foi quando deram oito horas que os alunos começaram a descer para o salão comunal, todos cobertos por casacos. Harry e Hermione então subiram para colocar roupas que fossem apropriadas para um dia chuvoso como aquele.
Quando Hermione voltou ao aposento, poucos minutos depois, encontrou Harry e Rony sentados nas poltronas em frente à lareira.
- Trouxe a bolsa, Mione? – perguntou Rony.
- Trouxe, Rony. Não se preocupe com isto! – respondeu a garota revirando os olhos.
- Ótimo. Coloca esse casaco aí para mim, ok? – ele jogou o casaco para a garota, que o pegou ainda no ar e o guardou na bolsa, que era pequena, mas provavelmente ampliada magicamente em seu interior.
- E você, Harry? Algo para guardar? – perguntou ela.
- Não. Levo o casaco comigo mesmo. – disse com simplicidade.
- Ah, Harry! Deixa de ser fresco! Entrega o casaco pra ela. Mulher é pra isso! – disse Rony.
- Rony! Se o Harry é cavalheiro e você não, deixa-o em paz! – bradou Hermione. – Bem, acho melhor irmos. Ainda temos que tomar café antes de pegar a fila para o povoado.
E assim, os três deixaram o aposento, seguindo para o Salão Principal. Pararam à porta ao verem a aglomeração de alunos que se postava próxima ao quadro de avisos do saguão de entrada.
- O que será que houve? – perguntou Hermione.
- Eu não sei. – disse Harry dando de ombros.
- Esperem um minuto. Eu já volto. – e Rony foi até o quadro de avisos, ficando nas pontas dos pés e tentando ler o grande aviso preso ali.
Os amigos se aproximaram e ficaram esperando do seu lado.
- Conseguiu ver algo? – perguntou Hermione, que era a mais baixa dos três.
- É algo como... Consegui! – Rony voltou-se para os amigos com uma expressão radiante no rosto. – Teremos dois dias sem aula, podendo ir para casa. É maravilhoso! O que acham de ir lá para casa?
- Não sei, Rony... Acho que tenho de ver com meus pais. – disse Hermione abaixando os olhos.
- E você, Harry?
- Hum... Er... Vou pensar, Rony. É que acho uma oportunidade perfeita para uma coisa que a Deb chamou para fazermos juntos. Vou falar com ela e dou uma resposta, ok?
- Tudo bem. – disse Rony desanimado.
- E quando é isto, Rony? – perguntou Hermione.
- Vamos pegar um trem para casa amanhã mesmo. Parece que Dumbledore enviou uma carta a todos os pais e responsáveis avisando desta mudança no horário da semana. O trem retorna a Hogwarts na quarta-feira pela manhã. – explicou o ruivo. – Uma pena que vocês não saibam se podem ir, mas espero que...
- Rony! Você vai ficar comigo nestes dois dias... Não é perfeito? – disse Luna se aproximando dos três. Abraçou o namorado e deu-lhe um selinho.
- Como é? – perguntou Rony voltando a sorrir.
- Isso mesmo! A Gina me chamou para ficar na sua casa, já que meu pai disse que não poderia me pegar. Ele viajou ontem à tarde para a Bulgária, então...
- Sem explicações, Luna! – disse Rony pressionando levemente o dedo nos lábios da namorada.
- Ok. – ela disse nervosamente.
E como se o assunto evaporasse, Rony esqueceu-se dos dois dias que passaria sem seus amigos, mesmo que ele não soubesse, isto era uma certeza para os dois. Hermione sentia uma extrema vontade de conversar com alguém que soubesse mais da vida dos Potter. Sabia que apenas Dumbledore, Lupin e Alissa Vector poderiam lhe conceder todas as informações que precisava. Ou talvez, a própria McGonagall pudesse ajudá-la. Pensou por um instante no assunto. Ainda teria pouco mais de duas horas para procurá-la como se não quisesse nada demais, apenas saber algo a mais da vida daqueles que tanto admirava e que eram pais de seu melhor amigo.
Ela, Harry, Rony e Luna adentraram o salão principal. De longe, Hermione pôde notar a profª. McGonagall saindo da pequena câmara ao fundo do salão principal.
- Olha, vão para a mesa. Eu tenho que resolver uma coisa antes... – avisou.
- O que aconteceu, Mione? – perguntou Rony, curioso.
- Não foi nada. Não se preocupem... Eu já volto! – e ela saiu andando apressada em direção à mesa dos professores.
- O que ela iria querer com um professor? – perguntou Rony confuso.
Harry deu de ombros e Luna encarou-o, estranhamente calma:
- E por que motivo eu iria saber? – perguntou.
Assim, Rony e Luna se despediram e depois o ruivo juntou-se a Harry, sentando-se à mesa da Grifinória. O salão ainda estava vazio, mas por mais que Harry e Rony procurassem por Hermione, não a encontravam em lugar algum.
- Professora? – chamou.
- Srta. Granger? O que houve? – perguntou a professora.
- Não aconteceu nada, professora. Posso garantir-lhe que todos os alunos estão bem. Não se preocupe! – adiantou-se Hermione. – O problema é comigo, mesmo.
- Como assim? Srta. Granger, você está me assustando...
- Não é bem um problema, professora. É só que eu quero conversar com a senhora sobre algumas coisas... Perguntar, sabe? Não é nada demais! – explicou Hermione. – A senhora poderia me conceder um minutinho do seu tempo?
- Venha comigo! – pediu a professora.
McGonagall a guiou até sua sala, no terceiro andar. Ao entrarem, a professora fechou a porta e dirigiu-se a sua cadeira, sentando-se e pedindo para que Hermione fizesse o mesmo.
- O que você gostaria de saber sobre a família do Potter? – perguntou a professora.
- Er... Como sabe? – perguntou uma Hermione perplexa.
- Bom, Hermione, acho que eu poderia adiantar o assunto. Eu sabia que ficaria encabulada de vir a mim, perguntar sobre isto. Em todo caso, acho que talvez isto seja de grande importância para você, não?
- Bem... é, não é? – fez Hermione confusa. – Professora, na verdade eu gostaria de saber mais sobre o passado, na época em que os Potter, Weasley e Malfoy estudavam aqui em Hogwarts. É que eu acho que há algo por trás de tudo isto quanto às brigas entre as famílias, que de certo modo, são todas interligadas...
- Sei bem do que você fala. Pois bem! Primeiramente acho que devo falar das brigas entre as famílias Malfoy e Weasley. Creio que já saiba o motivo da briga entre os Potter e Malfoy, não?
- Sim... Ou pelo menos boa parte da história.
- A história não é muito longa, Hermione. É bem simples, por sinal. Tudo aconteceu há muitos anos, vem de muito antes desta geração que você conhece atualmente. – começou a professora. – Como sabe, Narcisa e Belatriz eram descendentes dos Black e se casaram com outras famílias, incluindo Malfoy. – ela deu uma pausa. – Talvez na entre os anos 1907 e 1918, três irmãs descendentes da família Black, Callidora, Charis e Cedrella, nasceram. Cedrella casou-se com Septimus Weasley, que era considerado pela família dela um traidor de sangue. Eles eram, provavelmente, tios ou até mesmo avós de Arthur Weasley.
- Então Cedrella foi tirada da família, não? – a professora confirmou com um aceno. – Isso é injusto! Então quer dizer que a briga simplesmente aconteceu por conta disto? Por causa de um preconceito?
- Na verdade, Hermione, o preconceito foi causado pela própria família de Cedrella. Narcisa e Belatriz cresceram ouvindo isto e provavelmente trouxeram para o agora. – disse a professora.
- Mas elas poderiam ter deixado o preconceito de lado, ainda assim!
- Não, Hermione. Narcisa nunca ligou para estes preconceitos, mas Lucio Malfoy, sim. Ele que trouxe isto para as novas gerações. Acho que sabe como as duas famílias são inimigas...
- Eram. Desde que Lucio foi preso e... Ah! A senhora sabe... Narcisa fugiu e está desaparecida e Draco está morando com uma tia dele... Julie Bonstrong.
- Exatamente! E agora nós chegamos ao ponto da briga entre os Potter e os Malfoy. Exatamente um primo de James Potter, que se casou com Julie Malfoy. Esta foi retirada da família Malfoy ainda grávida e foi condenada pelo próprio irmão, que a ameaçou de matá-la, assim como o filho dela se este não fosse homem. E não foi. Lucio só não matou Isabella Bonstrong porque Narcisa pediu que ele poupasse a vida da criança e da mãe. – explicou McGonagall.
- Mas ele matou o pai da Bebel. – disse Hermione, séria.
- Bem, este é só um resumo. Acredito que ainda tenha acontecido muita coisa quanto a isto, mas nada que seja de muito importante para esclarecer a história. A causa foi apenas esta... E foi esta a história. Foi assim que começaram os conflitos entre as famílias. No entanto, na família Potter nunca houve um caso destes. Nunca alguém foi retirado da família por ter se casado com algum inimigo, com algum trouxa ou algo do gênero.
- E creio que se isto acontecesse, James seria retirado da família... – disse Hermione. “Assim como Harry, caso viéssemos a ficar juntos...”, pensou.
- É tudo bastante complicado. – afirmou a professora. – Mas Hermione, pode ter certeza de que o prof. Dumbledore irá contar esta história... – a professora sorriu.
- Só espero que não demore a fazê-lo. – comentou a garota, retribuindo o sorriso que a professora lhe dera.
- Você faz bem em querer juntar as peças deste quebra-cabeça, Hermione. Ajudará muitas pessoas, inclusive a si mesma. Bem, acho melhor irmos andando. Talvez seja uma boa idéia saber, antes, se não há mais nenhuma pergunta a ser feita...
- Não, professora. Obrigada! A senhora já me ajudou bastante.
- Então, vamos?
- Sim. – respondeu Hermione, deixando o aposento juntamente com a professora. “Só mais algumas informações e tudo estará pronto”, pensou sorrindo.
Voltaram para o Salão Principal, separando-se ainda no saguão. A professora entrou pela câmara que dava para o salão e Hermione voltou a entrar pela porta de carvalho. Seguiu para a mesa da Grifinória, sentando-se entre Rony e Gina, de frente para Harry. Eles conversavam animadamente e trocavam idéias com a possibilidade de o passeio ser melhor, visto que o tempo melhorara, deixando apenas um céu escuro e nublado.
Hermione não entrou no assunto. Começou a comer imediatamente. Estava com muita fome. Nunca passara de seu horário de comer, ou pelo menos, não tanto. Em sua mente, tudo o que ouvira de Gina, Draco, Dumbledore e McGonagall, martelava em sua cabeça. Além disto, ainda havia um pequeno detalhe, ainda intocado por ela e Harry: Alissa Vector. Sim, a professora de Aritmancia sabia de algo que eles, com certeza, não sabiam. Algo que respondia a muitas de suas perguntas freqüentes e completavam os fatos. Logicamente só saberiam dali a alguns dias, o que a deixava ainda mais ansiosa. Tinha vontade de terminar logo com aquilo e poder juntar os fatos, completando tudo o que sabia sobre as famílias inimigas.
Terminou de tomar seu café e levantou-se.
- Aonde você vai, Mione? – perguntou Harry.
- Você está estranha. Foi a última a chegar e ainda não falou nada enquanto conversávamos. – comentou Gina.
- E onde você foi quando saiu daqui àquela hora? – interrogou Rony.
- Fui falar com uma pessoa. Nada importante. – respondeu a garota. – Mas quanto ao ‘aonde eu vou’, acho que também não sei. Hum... Algum de vocês quer dar uma volta?
- Eu não vou poder, Mione. Tenho que fazer algumas coisas ainda antes de irmos ao povoado. – respondeu Gina. – Desculpe!
- Tudo bem, Gina. Mas e vocês? – fez Hermione.
- Eu ainda tenho que encontrar com a Luna para enviar uma carta aos meus pais. Temos que confirmar que vamos amanhã... – respondeu Rony.
- Bem, eu não tenho nada de muito importante para fazer. Apenas irei ao meu dormitório pegar umas coisas, mais nada, além disso. – disse Harry.
- Ah, então eu vou dar uma volta. Quero pensar um pouco... Depois nos falamos. – disse Hermione, levantando-se e de retirando do aposento.
Ao andar pela escola, sentiu uma imensa vontade de sair para os terrenos da escola. Olhou para fora por uma das janelas e notou que a chuva cessara completamente. O tempo estava completamente frio e seco. Analisou se aquela roupa que vestia seria realmente adequada para o passeio. Vestia duas blusas de mangas compridas e um casaco grosso com uma calça jeans. Achou que seria desnecessário usar tantas roupas, então retornou ao dormitório feminino na torre da Grifinória e se trocou.
Voltou ao saguão vestida com uma calça jeans grossa e lisa, uma blusinha baby-look azul bebê, um casaco fino da mesma cor por cima, tênis e, na bolsa, levava um casaco bastante parecido com um sobretudo, de cor branca. A escola já estava parcialmente cheia do lado de fora do salão, no entanto, nenhum aluno se atrevera a deixar o castelo. Ela desceu as escadas do saguão e saiu pela grande porta de carvalho, andando sobre a área coberta de concreto, para evitar contato com o gramado lamacento. Foi até uma longa ponte que passava sobre um penhasco ainda nos terrenos da escola. Ela adorava aquele lugar...
Apoiou-se no parapeito da passarela, observando a paisagem, vendo o lago sumir por trás de toda aquela mata que encobria o penhasco rochoso. Fechou os olhos e esvaziou a cabeça de todos os pensamentos... Foi então que tudo clareou em sua mente. Ela via, naquele mesmo lugar, dois adolescentes por volta de seus dezessete anos, que estavam a observar a paisagem de mãos dadas, trocando juras de amor. Beijaram-se longamente e então ela olhou para o outro lado da ponte. De lá, vinha um garoto exatamente igual ao que se encontrava sentado junto à outra garota. Ele se aproximava lentamente.
Virou-se novamente para olhar o tal casal, que agora se entreolhavam. A garota tinha a pele morena, de cabelos castanhos acaju e olhos extremamente verdes. O garoto tinha a pele morena, também, cabelos e olhos muito negros. E como se a dimensão mudasse lentamente, ela se viu parada no lado oposto ao casal. E o garoto que antes se aproximava, passava por ela naquele exato momento, indo ao encontro da ‘outra’ Hermione.
- Mione? – ele chamou. Ela então abriu os olhos.
- Harry? O que faz aqui? – perguntou, voltando à realidade.
- Nós já vamos. Filch já começou a chamada para a liberação. – respondeu ele, retirando uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre seus lábios. Ela sorriu. – Vamos?
- Vamos... – ainda pensava sobre aquela visão que tivera segundos atrás. Era tudo muito estranho...
E os dois voltaram para o castelo. Enquanto Filch chamava aluno por aluno de acordo com a ficha que tinha em mãos, o vento frio recomeçou a rondar os terrenos da escola. Quando todos receberam a autorização para ir ao povoado, recolocaram os casacos grossos e seguiram para o povoado.
A caminhada até Hogsmeade não foi agradável. Harry cobriu o maxilar com o cachecol; as partes expostas do corpo logo ficaram ardidas e dormentes. A estrada para a aldeia estava repleta de estudantes curvados contra o vento cortante. Mais uma vez, Harry se perguntou se não teriam se divertido mais no salão comunal aquecido; e quando, por fim, chegaram a Hogsmeade e encontraram a Zonko’s – Logros e Brincadeiras fechada com tábuas, ele achou que era uma confirmação de que o passeio não seria tão divertido assim. “Pelo menos ainda temos a loja de Fred e Jorge e o Três Vassouras...”, pensou. Rony apontou com a mão protegida por uma grossa luva para a Dedosdemel, que felizmente estava aberta, e Harry e os outros entraram em sua esteira na loja apinhada de gente. Gina e Luna se juntaram ao grupo ainda em Hogwarts.
- Graças a Merlin, chegamos! – estremeceu Rony, quando foram envolvidos pelo ar quente recendendo a caramelos. – Vamos passar a tarde inteira aqui.
- Ah, não mesmo! – disse Gina.
- Rony, não podemos passar a tarde inteira aqui. Temos outros lugares para visitar e não é só a sua vontade que conta. – fez Luna. Harry e Hermione concordaram.
- Se vocês preferem enfrentar esta tempestade novamente, à vontade! Eu vou ficar aqui. – replicou Rony.
- Tudo bem. Quem vai? – perguntou Harry e todos se disponibilizaram. Rony então se deu por vencido.
- Não acredito que vamos fazer isso... – falou baixinho.
- Ah, olhem... Eles têm Penas de Açúcar de Luxo... Devem durar horas! – comentou Hermione, mudando de assunto. – Bem... Vamos comprar algumas coisas e depois saímos. Acho que assim vamos agradar a todos...
- Ok. – e todos se dispersaram e cada um comprou o que queria.
Com os bolsos já cheios de doces, Hermione perguntou a Rony onde ele queria ir em seguida, mas o garoto continuou cismado e apenas sacudiu os ombros.
- Vamos ao Três Vassouras. – sugeriu Harry. – Deve estar aquecido.
Eles tornaram a proteger o rosto com os cachecóis e saíram da loja de doces. O vento cortou-lhes a pele como facas ao deixarem o calor açucarado da Dedosdemel. A rua não estava muito movimentada; as pessoas encontravam-se todas dentro de alguma das lojas abertas, aquecendo-se do temporal. Ao chegarem à porta do pub lotado, abriram-na e dois deles entraram. Os outros ainda estavam do lado de fora, espremendo-se para entrar no local.
- E aí, garotos, beleza?
Tonks se materializara do nada, seus cabelos compridos e muito negros molhados de granizo.
- Oi, Tonks. – cumprimentaram todos.
- O que faz aqui? – perguntou Gina.
Lupin então veio por trás da moça e entrelaçou sua mão na dela.
- Eu devia saber... – murmurou Hermione.
- Vamos entrar? Acho que não vai ser muito agradável passar a tarde aqui fora... – comentou Lupin.
E todos entraram.
- Vão sentar, que eu apanho uma bebida para todos, ok? – disse Hermione, deixando-os à uma mesa no fundo do pequeno lugar.
Hermione voltou a mesa alguns minutos depois, trazendo sete garrafas de cerveja amanteigada. Todos agradeceram e postaram-se a beber o líquido que, inexplicavelmente, aquecia tudo por dentro.
- Rony, que é que você está olhando tanto? – perguntou Luna intrigada.
- Nada. – respondeu Rony, desviando depressa o olhar do balcão do bar, mas Harry sabia que ele estava tentando atrair a atenção de Madame Rosmerta, a sedutora e curvilínea dona do Três Vassouras, por quem tinha ou tivera uma queda, havia muito tempo.
- Presumo que “nada” esteja lá nos fundos apanhando mais uísque de fogo. – brincou Hermione e todos riram, menos Rony, que corara furiosamente sob o olhar reprovador e chateado da namorada, que também não sorria.
O período que seguiu aquele foi de extremo silêncio. Rony e Luna voltaram a se encarar vagarosamente e se beijaram, Harry, Gina e Hermione estavam constrangidos com a situação criada, a terceira batucava de leve na mesa e Lupin e Tonks riam em silêncio e se entreolhavam de vez em quando.
- Se me dão licença, eu vou ao banheiro. – disse Hermione se levantando.
- É... Acho que já está na hora de irmos, também... – disse Tonks, dando em seguida, um beijo no rosto de Lupin.
- Hum... Eu vou pagar a conta. – disse Harry se levantando e indo até o balcão.
- E como sempre, eu sobro de castiçal... – murmurou Gina. Naquele exato momento, um certo loiro adentrou o local, beijando-a por trás. – Ou nem sempre...
Ela sorriu marota e se levantou, beijando-o em seguida. Os dois se separaram e como Lupin e Tonks, saíram do pub. Harry e Hermione não voltaram para a mesa. Hermione se despediu do amigo e resolveu retomar a estrada do povoado. Ultimamente gostava mais de ficar sozinha, embrenhando-se em seus pensamentos e indo a lugares que gostava e lhe faziam bem. Agora se dirigia à Casa dos Gritos...
---
Como Harry também não queria ficar sozinho na mesa com Rony e Luna se agarrando, decidiu que seria melhor procurar alguém com quem pudesse conversar. Procurou ali todos os seus amigos, notando que todos haviam o deixado. Novamente sozinho, sentou-se a uma mesa de apenas dois lugares. Ficou pensando em sua vida, em tudo que acontecera nela até ali, em todas as mudanças e percebeu que nunca estava sozinho. Nunca esteve e nunca estaria... Mas naquele momento, sozinho estava.
Mal notou que a cadeira a sua frente havia sido ocupada. Não estava prestando atenção no que estava acontecendo à sua volta, mas sim em seus pensamentos. Um perfume diferente invadiu suas narinas. Era um perfume maravilhoso, mas sabia que não era Hermione. Conhecia o perfume da amiga. E não era ela.
Uma garota alta, de pele morena e cabelos pretos e compridos com olhos tão negros quanto seus cabelos a tornavam uma garota linda e muito atraente.
- Oi, Harry! – cumprimentou.
- Ah... Oi, Cho. – disse ele desanimado.
- Harry, o que houve? – perguntou ela.
- Não foi nada. Eu só... Só estava pensando. Só isso. – respondeu ele.
- Se não for um bom momento para conversarmos... – ela começou.
- Não! Pode ficar... Eu estava mesmo querendo alguém para conversar. – ele comentou.
- Então... Que bom que cheguei, não é? – ela sorriu.
- Sim.
- Harry, acho que precisamos conversar sobre o que houve conosco nos últimos meses. Acha que podemos?
- Claro, Cho.
- Bem... Antes de tudo, queria me desculpar por tudo o que te disse, por ter, de alguma forma, atingido a Granger sem motivos e principalmente por conta daqueles ciúmes bobos que senti. Eu sei que agi de forma errada ao deixá-lo sem poder se explicar. Também sei que o magoei, que feri seus sentimentos... Mas estou aqui para pedir que me desculpe, pois gosto realmente de você e só vim a descobrir isto há pouco tempo. – ela despejou as palavras de forma calma enquanto algumas poucas e imperceptíveis lágrimas rolavam pelo seu rosto. – Eu sei que pode ser tarde, mas acho que podemos ser amigos, tentar recomeçar...
- Cho...
- Harry! Por favor, me desculpa! É tudo que te peço...
- Cho...
- Eu sei que errei com você, sei que você tem todo o direito de me desprezar, mas antes... Me ouve!
- Cho, calma! – pediu ele, segurando uma das mãos da garota enquanto enxugava suas lágrimas com a outra. – Eu a desculpo por tudo, podemos ser amigos... Mas nada, além disto, ok?
- Para mim a amizade basta, Harry. Mas saiba que eu queria algo mais e isto não vai mudar tão fácil... – ela disse com a voz embargada.
- Eu gosto muito de você, Cho. Sinto não poder dizer que meus sentimentos em relação a você não são os mesmos que tem por mim, sinto mesmo! Você é uma garota maravilhosa... Tenho certeza de que logo supera isto e acaba me esquecendo e arrumando outro cara bem melhor. Não são poucos os garotos que gostam de você...
- Obrigada por me ajudar, Harry... Mas até lá, será que...?
- Não, Cho. Infelizmente não dá...
- Nem mesmo para que eu possa me certificar dos meus sentimentos? – ela perguntou tristemente.
- O máximo que poderia acontecer entre nós, Cho, já aconteceu. E não deu certo, você sabe disto!
- Hum... Tudo bem, então. – Cho se levantou e foi até ele. – Amigos?
Harry se levantou e apertou a mão da garota.
- Amigos! – os dois se abraçaram e ela deu-lhe um beijo no rosto.
- Até logo, Harry.
- Até...
Ele sentou-se novamente. Agora pensava no que acabara de acontecer. Era algo que ele realmente não esperava acontecer, já que tudo acontecera tão rápido entre eles e ele já havia a esquecido. Era realmente estranho... E ela tentara de tudo para reatar, mas ele não podia. Não podia enganar seus sentimentos e nem iludir a garota com algo que não existia. Não queria usá-la, não queria machucá-la...
---
Hermione chegara até a cerca que contornava a Casa dos Gritos. Olhou a sua volta para ver se não fora seguida e ao notar que não, ultrapassou os limites da cerca e adentrou a casa. Lacrou as portas e janelas da casa e seguiu para o quarto que separara para si. A casa era grande e ela já a estudara por completo. Tinha duas salas grandes, uma cozinha pequena, sete quartos e três banheiros. Todos os quartos eram dos mesmos tamanhos e bastante iguais.
Arrumou seu quarto de forma simples e discreta. Era todo em creme com alguns detalhes em azul anil. O quarto tinha uma cama de solteiro e uma escrivaninha com uma grande estante onde estavam seus livros preferidos. Um armário de três portas e três gavetas, também pequeno e simples. A cama e o quarto cobertos por almofadas e pufes... Era assim que gostava, de coisas simples, embora nunca as tivesse. Tudo seu era muito sofisticado em sua casa, em Hogwarts e na sua vida entre amigos... Mas para ela tudo tinha seu lado simples e humilde e era este que ela levava em conta.
Arrumara, também, um quarto para Harry. Era bastante parecido com o seu, porém era somente verde e branco. Verde musgo e branco. A casa completamente decorada do seu jeito, do jeito que se sentiria confortável estando ali.
Em seu quarto, deitou-se em sua cama e fechou os olhos, novamente limpando sua mente de pensamentos. E esta foi tomada, novamente, de visões. Ela estava em um quarto totalmente branco, muito bonito. Estava parada olhando a paisagem pela janela. Estava em pleno verão, disto tinha consciência. A vista daquele quarto alto lhe proporcionava uma visão linda; muitas árvores, flores e campos na paisagem. Existiam também algumas casas tradicionais da cultura inglesa, chalés e grandes construções de pedra. Não sabia onde estava, mas tinha certeza de que não era em Londres e nem se parecia com qualquer lugar que visitara em sua vida.
Virou-se e passou a caminhar pelo quarto, parando logo em frente a um espelho. Assustou-se com a imagem que via. Uma garota em seus dezesseis anos, cabelos compridos e muito lisos de cor acaju, olhos verdes como esmeraldas e era bastante alta para sua idade. Olhou-se de cima a baixo. Estava no corpo dela, de Lílian Evans. Aquilo era realmente assustador, mas ela não tinha tempo para pensar nisto. Saiu do quarto, descendo as escadas e parando em uma imensa sala.
- Lily, querida, Jane veio aqui mais cedo a sua procura. – disse uma senhora que aparentava estar por volta de seus setenta anos.
- Obrigada, vovó. Eu estava andando a cavalo há pouco. Acabei de tomar banho e já estava de saída. – respondeu Lílian.
- Tudo bem, querida. Mas não esqueça de voltar para o almoço. – avisou a senhora.
- Claro, dona Katine. Não se preocupe! Eu volto antes do meio dia... – e Lílian deu um beijo na bochecha da avó, que sorriu e ela retribuiu o gesto.
Assim, Lílian deixou a casa. Hermione então notou que se encontravam numa pequena cidade do interior da Inglaterra, ao norte de Yorkshire: York. Já lera sobre aquele lugar. Era considerada uma cidade turística construída há quase dois milênios pelos romanos e ainda preservava as características arquitetônicas daqueles povos antigos. Os gramados lisos e muito verdes, prédios antigos e construções históricas, muralhas, faziam de York uma das cidades mais bonitas da Inglaterra. Ela sempre tivera uma imensa curiosidade de visitar aquele lugar e apenas o tinha visto em fotografias. Sua mãe falava muito sobre o lugar, de suas maravilhas e agora que estava ali, não podia fazê-lo, já que estava no corpo de uma outra pessoa, numa lembrança... Uma visão.
Lílian andou por alguns prédios fascinantes, muito bonitos e luxuosos. Parou à frente de uma casa grande, no portão branco que contornava a construção creme de apenas um andar. Chamou pela tal Jane, que logo correu para o portão, abrindo-o e abraçando a amiga. Hermione a olhou confusa. Tinha certeza de que a conhecia de algum lugar...
- Lílian! Quanto tempo... Como que você vem para York e não me procura? Cheguei há dois dias e hoje, passando pela Mansão Branca vi um carro parado à porta e perguntei a sua avó se você tinha vindo. – a menina falava sem nem ao menos parar para tomar fôlego. – E ela disse que você tinha saído, mas que quando voltasse pediria para vir me procurar. Ah, Lílian! Tantas coisas... Ei! Espera... Sua irmã não veio, veio?
- Não. Desta vez viemos apenas eu e a vovó. Petúnia foi passar as férias em Oxford e meus pais só chegam na próxima semana. Cheguei ontem à noite, mas como já era tarde, resolvi descansar e depois vir te procurar. – Lílian sorriu. – Estava com tanta saudade!
- Venha, entre. Temos muito que conversar... – chamou Jane.
E as duas entraram na casa. Uma casa realmente maravilhosa. Ao entrarem, Hermione pôde ver uma foto que já vira antes. Nela estavam seu tio, quando mais novo, e sua... Sua mãe?! Não podia ser... Observou Jane e então associou a semelhança e os nomes... Sim, aquela era sua mãe! E ela fora amiga de Lílian Evans.
Hermione acordou assustada e suando frio. Precisava falar com sua mãe o mais rápido possível, precisava saber mais daquela história... Ela precisava! Perguntava-se como estava tendo todas aquelas visões com os pais de Harry e principalmente com Lílian. Era tudo muito estranho e ela precisava de respostas...
Levantou-se e passou a procurar uma coisa urgentemente em toda a casa. Onde ela o teria colocado? Era o único meio de falar com sua mãe naquele momento e ela não sabia onde estava. Parou, sentando-se num pufe e passou a pesquisar em sua mente o local onde teria colocado... “Dentro do armário da cozinha”, lembrou-se, levantando de um salto e correndo para a cozinha. Abriu o armário e pegou o telefone celular. “Se eu ligar para ela, acredito que tenha apenas cinco minutos para esclarecer tudo isso... Preciso ser rápida!”, pensou, enquanto digitava os números no aparelho.
A ligação não seria das melhores, afinal estava em um local repleto de magias e feitiços que não facilitariam a comunicação. Chamou uma vez, duas, três... E finalmente atenderam.
- Mãe? – chamou Hermione. – Mãe, é Hermione.
- Filha! Como você está? Está tudo bem? Por que está me ligando? – bombardeou Jane.
- Mãe, tenho que ser rápida. Não dá para nos falarmos muito. Vou ser bem direta. – disse Hermione rapidamente.
- Você o quê? – perguntou a mãe.
- Mãe, não estou escutando! – a interferência realmente era grande.
- Filha, fala mais alto. Não consigo te escutar! – pediu Jane.
- Mãe, eu estou bem e estou ligando só para te fazer algumas perguntas. – explicou Hermione. – Me diz uma coisa... Você conheceu Lílian Evans?
- Claro, minha querida. Éramos grandes amigas quando adolescentes, mas então ela desapareceu. A Mansão Branca, como era chamada a sua casa lá em York, se fechou definitivamente e nós perdemos o contato ainda antes do verão de 1977. Não a vejo há tanto tempo... – falou Jane.
- Mãe, ela... Lílian era mãe do Harry. Ela está... Morta! – contou Hermione com dificuldade.
- O que quer dizer com isto, filha? – perguntou Jane chorosa.
- Lílian Evans se casou com James Potter e deste casamento nasceu Harry. Foram eles que morreram para salvar o filho, aquela história toda que te contei... Ela era mãe do Harry. – esclareceu a garota para a mãe.
- A Lily está morta? – perguntou Jane, sem querer aceitar. – Eu não posso acreditar... Ela era uma bruxa! Por isto sumia sempre... E está morta! Não... Não pode ser... – Jane já entrava em desespero. Soubera que havia perdido uma de suas melhores amigas há quinze anos e nunca ninguém lhe contara.
- Mãe, fica calma. Depois conversamos, a ligação está ruim... É melhor eu desligar! Um beijo e fique bem...
- Outro, filha. Amo você, querida – despediu-se Jane, aos prantos.
Hermione desligou o telefone. Sim... Elas foram amigas, elas se conheciam, foram amigas e o pior... Sua mãe não sabia de nada. Não sabia que Lílian era bruxa, não sabia que ela virou uma Potter, que era mãe de Harry e que já estava morta. Morta há quinze anos...
- Tantas coisas... Tantas peças que ainda faltam... – murmurou ela, sentando-se em sua cama chorando. “De uma coisa eu tenho certeza... Eu e o Harry somos ligados de alguma forma. Há muita coisa para descobrir e explicar ainda, mas eu vou conseguir juntar tudo. A história dos Potter, as brigas entre famílias... Tudo! E a conexão?! Algo me diz que estou chegando às respostas que preciso...”, pensava, ainda chorando muito.
---
Harry ainda se encontrava sentado à mesa do Três Vassouras. Estava sozinho. Rony e Luna haviam deixado o lugar e foram à Gemialidades Weasley. Ele então se perguntava onde Hermione estaria... Sabia que não estaria desprotegida, era uma garota consciente. Mas também não estaria sozinha, ele tinha certeza disto. Fechou os olhos e tentou focalizar o rosto de Hermione em seus pensamentos, algo que não foi nada difícil. Com um pouco de esforço, teve uma rápida visão da garota. Estava num quarto...
- A Casa dos Gritos! – e ele saiu em direção à, supostamente, casa mal-assombrada.
Ao entrar, viu Hermione sentada à escrivaninha do quarto dela. Ela já não chorava mais. Muito pelo contrário. Parecia distraída e com aparência pensativa e concentrada. Escrevia em um enorme pergaminho. Ele tinha certeza de que ela já escrevera no mínimo cinqüenta centímetros de pergaminho e gasto um tinteiro inteiro.
- Mione? – chamou.
- Ah, Harry! – ela dobrou o pergaminho e o guardou na bolsa. – Onde esteve?
- Eu estava no Três Vassouras esperando alguém dar sinal de vida. – disse ele sarcástico.
- Bem, eu avisei que sairia. – ela se justificava.
- Você, sim, mas os outros não. – ele comentou.
- E como descobriu que eu estava aqui? – ela perguntou.
- Um pequeno esforço me ajudou bastante. Também não sei dizer como descobri, apenas achei...
- Realmente algo extraordinário! – brincou a garota. Os dois riram.
- É... Acho melhor voltarmos para o castelo...
- Hum... Para mim tanto faz! Ainda tenho que fazer umas coisas...
- Isto inclui continuar escrevendo naquele imenso pergaminho ou traduzir a pulseira? – ele apontou a jóia que dera a amiga.
- Oh, não. Já traduzi, Harry. – afirmou sorrindo.
- E o que diz? – ele perguntou curioso.
- Ah, cada um destes símbolos pode significar tanto uma palavra como uma sílaba ou até mesmo letras. Depois de traduzir chegamos a uma frase em francês que diz assim... “La distance sépare deux coups d'oeil, mais jamais deux coeurs”, o que significa “A distância separa dois olhares, mas nunca dois corações”. – disse ela. – Acho esta frase linda e tão real...
- Como você sabe tanto de francês?
- Minha tia mora na França. – respondeu Hermione. Agora ela já estava de pé, recolhendo todos os seus pertences. – Tem certeza de que quer mesmo ir? Aqui nós temos quartos para ficarmos aquecidos...
- Por mim tudo bem...
- Só não podemos esquecer de voltar antes das quatro. Isto é regra! – ela relembrou.
- Claro que a Srta. Granger não poderia deixar passar este mínimo detalhe, não é?
- Lógico que não! É importante seguir as regras para que na hora que o menino Potter queira quebrar uma delas, tenha um crédito, afinal, ele sempre leva meio batalhão de amigos junto com ele... ou pelo menos assim foi da última vez, não é? – Hermione brincou.
- Boa coisa para se lembrar... – ele deu um sorriso amarelo.
- Ah, Harry! Vou para o meu quarto terminar de escrever ‘naquele imenso pergaminho’. Se importa?
- Não, tudo bem. Pode ir...
Ela se retirou e ele ficou observando. Escutou um pequeno ruído, indicando que ela se trancara no quarto dela. Então ele se retirou para seu próprio quarto. Estava com sono e resolveu que aquela seria a hora mais adequada para recompor as horas perdidas naquela noite. Deitou-se e dormiu quase que instantaneamente.
- Harry? – chamava uma voz ao longe. – Harry, acho que já está na hora de irmos...
Harry se levantou, recolhendo os óculos que Hermione lhe oferecia.
- Tirei enquanto dormia. – ela explicou.
- Obrigado.
- Acho melhor voltarmos para Hogwarts. Faltam apenas dez minutos para as quatro. Estamos atrasados. – ela avisou. – Eu o teria acordado antes, mas sei que não dormiu bem esta noite, então optei por deixá-lo dormir mais um pouco. E como já terminei tudo o que tinha para fazer, achei que já passava da hora de despertá-lo.
- E fez certo. – ele disse. – Vou ao banheiro e já volto.
- Tudo bem. – Hermione ajeitou a cama do garoto e sentou-se à uma grande poltrona se encontrava próxima à cama dele.
Quando retornou ao quarto, ele abriu seu armário e retirou de lá o casaco que trouxera mais cedo.
- Vamos?
- Vamos. Mas acho melhor voltarmos pelo salgueiro. Não vamos chegar a tempo se voltarmos pela estrada. E também quero poupar-me do frio. Sabe perfeitamente que agora que já anoitece o tempo fica cada vez mais frio...
- Ok. Então vamos fechar a casa e nos adiantarmos. – ele disse dando passagem para que a garota saísse de seu quarto e os dois, juntos, fecharam todas as portas e janelas possíveis, tanto externas quanto internas. E só então, deixaram a casa.
Voltaram para Hogwarts quase juntamente com o pessoal que tomara a estrada. Cada um se dirigiu para seus respectivos dormitórios. Quando Harry adentrou o dormitório masculino do sexto ano, encontrou todos os colegas lá.
- Onde você estava, cara? – perguntou Rony.
- Por aí... – respondeu Harry num tom vazio.
- Ok, então. Estou saindo para falar com a Luna e responder à mensagem da mamãe. Vemo-nos mais tarde. – disse Rony saindo do dormitório, antes, dando uma tapa de leve no ombro do amigo.
Simas e Dino deixaram o dormitório pouco tempo depois, alegando que tinham que pegar uma encomenda que haviam feito mais cedo. Então, sobraram apenas Harry e Neville.
- Oi, Neville. Tudo bem?
- Sim, Harry. Já te contei que fui nomeado ajudante da profª. Sprout? – perguntou Neville, feliz.
- Já, sim. Mas você tinha dito que ainda iria me contar outra coisa...
- Ah! Harry... Meus pais voltaram para casa. – contou o garoto, os olhos brilhando de alegria.
- Sério? – perguntou Harry curioso.
- É. Eles voltaram na semana passada. Não sei muito bem. Minha avó mandou uma coruja dizendo que eles estavam conseguindo pronunciar algumas palavras e já sabiam o que queriam dizer. Até lembram quem somos nós! – o entusiasmo de Neville era tão grande diante das boas notícias que Harry não pôde deixar de se sentir feliz pelo amigo. – A vovó disse que eu poderei ir para casa amanhã e visitá-los.
- Fico feliz por você, Neville.
- Obrigado. Vovó também disse que Dumbledore havia dito a ela que eles podem saber de muitas coisas quanto a Você-Sabe-Quem e que pode nos fornecer estas informações, ou melhor, fornecer à Ordem da Fênix. – contou o garoto.
- Isto é realmente muito bom!
- Eu sei. – Neville sorriu. – Ah, Harry, a Hermione pediu para te dizer também que andou pesquisando sobre um assunto que você sabe qual é e que queria que você a encontrasse na biblioteca. Ela também disse que era muito importante que você mandasse Edwiges a Dumbledore perguntando qual a senha para entrar no escritório dele.
- Ela não disse nada, além disto? – perguntou Harry.
- Não. Mas acho que é para você fazer isto o mais rápido possível!
- Tudo bem. – disse Harry saindo em disparada para a porta. – E, Neville... Obrigado!
Harry saiu correndo pelo castelo. Passou no corujal, onde pegou Edwiges e assim foi até a biblioteca. Deixou a coruja ao lado de fora e entrou.
- Hermione, venha comigo! – ele chamou.
A garota se levantou, levando consigo o livro que carregava, vários pergaminhos, a pena e o tinteiro. Os dois se dirigiram para a Sala Precisa.
- O que aconteceu? Neville me deu o seu recado e...
- Harry, apenas mande a mensagem a Dumbledore. Eu encontrei em um dos meus livros que tenho na Casa dos Gritos uma coisa muito importante e que vai nos ajudar bastante com a nossa missão. – disse Hermione seriamente. – Se dermos sorte, o encontraremos aqui em Hogwarts ainda.
Enviaram a mensagem ao diretor e ficaram esperando por uma resposta. Não demorou muito até que eles a recebessem.
- Abra! – mandou Hermione.
Harry e Hermione,
Recebi a mensagem de vocês, mas peço que sejam rápidos em virem me encontrar. Cheguei agora a pouco e já estou de saída novamente. Estou resolvendo coisas muito importantes para ajudar na missão de vocês e assim como eu, os professores e membros da Ordem. Espero que a informação que têm possa me ajudar. Também preciso falar urgentemente com vocês sobre um dos horcruxes. Venham com urgência à minha sala. Concederei apenas vinte minutos do meu tempo a vocês.
Atenciosamente,
Alvo Dumbledore
P.S.: Sorvete de Limão.
- Vamos! – e novamente, os dois retornaram a corrida em direção ao quarto andar, onde ficava o escritório do diretor.
- Sorvete de Limão. – murmurou Harry para a gárgula, que imediatamente ganhou vida.
Subiram as escadas e entraram na grande sala circular, a qual visitavam com maior freqüência agora.
- Olá, garotos. – cumprimentou Dumbledore, que estava em pé segurando a sua Penseira próximo ao armário. Guardou-a e virou-se para encará-los. Vestia uma capa de viagem bastante surrada. – Primeiramente, quero dizer tudo o que diz respeito à missão de vocês. Temos apenas estes vinte minutos antes do nosso encontro de amanhã. Muito bem... – ele fez uma pausa. – Tenho uma boa e uma má notícia. A boa é que encontramos um dos horcruxes e já o capturamos e a segunda, é que na verdade era um horcrux falso. Como eu havia dito a vocês, estava certo quanto a um dos horcruxes. E foi este que encontramos. O medalhão de Salazar Slytherin. Infelizmente este já tinha sido encontrado antes e trocado por um falso medalhão.
Ele tirou o medalhão de um dos bolsos da capa que vestia e o entregou a Hermione.
- Onde ele estava? – perguntou ela.
- Numa caverna. Só que ele não nos serve de nada mais...
- Serve, sim! – exclamou Hermione, interrompendo o diretor.
- Como? – perguntou Harry, surpreso com a interrupção de Hermione.
- Dentro do medalhão há um bilhete. – explicou Hermione. Ela então retirou o bilhete de dentro do medalhão, que estava preso sob uma espécie de grampo.
Leu o bilhete que continha uma mensagem bastante estranha:
Ao Lord das Trevas
Sei que há muito estarei morto quando ler isto,
mas quero que saiba que fui eu quem descobriu o seu segredo.
Roubei a Horcrux verdadeira e pretendo destruí-la assim que puder.
Enfrento a morte na esperança de que, quando você encontrar um adversário à
altura, terá se tornado outra vez mortal.
R.A.B.
- R.A.B.? Quem será R.A.B.? – se perguntou.
- Deixe-me ver isto, Hermione. – pediu Dumbledore. O diretor leu o bilhete com extrema atenção. – Bem, acho que teremos mais trabalho do que parece. Acredito que este horcrux tenha sido destruído há algum tempo, mas ainda precisamos saber quem foi que o fez. Hermione, sei que conhece muitos livros e já deve ter lido algo sobre isto, não?
- Não, senhor. Mas se o senhor quiser... – ela se ofereceu.
- Muito bem! Acho que tenho um livro que pode nos ajudar bastante nisto. – ele foi até a sua estante e pegou um livro grosso e um tanto surrado. – Aqui está. Vou procurar Horácio ainda hoje, o que já estava nos meus planos, mas acho que um pequeno interrogatório a mais não nos fará mal. – ele sorriu de leve. Voltou-se para os garotos. – Acho melhor nos apressarmos. Digam-me: qual o motivo da visita?
- Professor, eu andei pesquisando em alguns livros sobre alguns objetos que os fundadores de Hogwarts tinham. O senhor havia dito que Voldemort usou um anel e o medalhão de Slytherin e uma taça de Helga Hufflepuff. Então pensei que o outro horcrux seria um outro objeto, ou de Godric Gryffindor ou de Rowena Ravenclaw. Depois passei por uma eliminação: um sonserino jamais escolheria um objeto pertencente à Gryffindor. Foi então que cheguei à conclusão de que seria algum objeto de Ravenclaw. – explicou Hermione.
- Fascinante! – exclamou o diretor. – Hermione, agora tenho certeza de que fiz a coisa certa ao te colocar na Ordem. – afirmou sorrindo para a garota.
- Obrigada, professor. – ela retribuiu o gesto e continuou: - E sendo assim, pesquisei sobre os objetos que Ravenclaw tinha como um brasão, símbolo ou algo do gênero. Teria de ser um objeto que ela gostasse e prezasse. Encontrei apenas um objeto: uma estatueta de bronze com a forma de uma águia. Pesei para ver se seria um objeto importante, o qual Voldemort usaria e cheguei à conclusão de que era bastante provável.
- E fez certo em vir me contar sobre isto. – disse Dumbledore. – Acho que você encontrou uma peça importante. Mas diga, onde você recolheu esta informação, havia alguma localização? Um lugar onde poderia estar guardada esta estatueta?
- Não, senhor.
- Tudo bem, então.
Harry estava calado esperando que algo a seu respeito ou interesse surgisse.
- Creio que deva dizer aos dois que não poderão deixar Hogwarts nos dois próximos dias, assim como todos os outros alunos. Acho que lembram da visita a Londres, não? – os dois concordaram. – Hermione, sua tia está vindo da França e irá passar aqui para vê-la. E Harry, Tonks vai levá-lo a um lugar que gostará de conhecer, um lugar ligado ao seu passado. – embora aquelas palavras fossem um tanto soltas, eles entenderam o que o professor queria dizer com tudo aquilo.
- Tudo bem. – disseram em uníssono.
- Amanhã, às onze da noite, aqui. – avisou o diretor. – Podem ir.
E os dois deixaram o escritório do diretor. Hermione seguiu diretamente para a biblioteca. Harry deixou-a ainda no saguão, indo para o salão comunal da Grifinória. Havia muita coisa a ser feita ainda, mas eles não tinham noção do quanto...
---
O resto do dia passou calmamente. Hermione só retornou a torre da Grifinória pouco antes do jantar, para onde desceu acompanhada de Harry e Rony. Ela passara todo o tempo na biblioteca pesquisando tudo o que podia sobre horcruxes, mas nada era encontrado. Parecia ser realmente algo das trevas, pois mencionavam pouquíssimas vezes a palavra ‘horcrux’ e logo saíam do assunto. Depois de ter percebido a derrota, foi que passou a procurar no livro que Dumbledore dera-lhe para que pudesse recolher informações. Estava tão concentrada nisto, que esquecera completamente as visões estranhas que andara tendo de lado.
Anormalmente, todos os alunos deitaram-se cedo aquela noite. Estavam demasiadamente cansados e esperavam um tanto ansiosos a ida para casa. As últimas semanas se passaram repletas de testes e trabalhos muito cansativos. Eles realmente mereciam um descanso...
Mas o anormal mesmo, ainda estava para acontecer. Hermione, que sempre se levantara cedo, independentemente do dia da semana ou qualquer outro argumento, estranhou quando desceu para o salão comunal, repleto de alunos que andavam de um lado para o outro e conversavam animadamente. E tinham até uma ponta de razão, afinal, não era todo dia que tinham uma pausa de dois dias na escola, podendo visitar a família.
Ninguém sabia ao certo o motivo daquele pequeno intervalo no ano letivo, mas já levantavam várias hipóteses, cada uma mais bizarra que a outra. Uns diziam que Dumbledore teria de deixar a escola para enfrentar Voldemort, outros que houvera um ataque próximo dali e até mesmo, que algum professor havia sido atacado.
- Só espero que este tenha sido o Snape. – comentava Rony.
Mas tinham, também, aqueles que achavam que seria uma forma de segurança. E os comentários, eram até releváveis:
- Talvez o diretor queira aumentar a segurança do castelo e precisa destes dois dias sem os alunos. Vai ver ele não quer que saibamos quais as medidas de segurança, não é?
- Ou quem sabe alguns dos pais tenham pedido para ver os filhos, saber se estão bem? É algo bem possível, se pensarem...
- Não sei. Acho que os professores estão fazendo alguma coisa, uma reunião, planejando aulas, sei lá! Mas notem como eles têm aparecido pouco ultimamente... Isso é realmente estranho.
Hermione parou ao ouvir esta teoria. Era uma garota do sétimo ano quem falava, Catherine Harris, com um tom de voz seguro. Avaliou se a menina tinha certeza mesmo do que dizia, mas sabia que não, não podia, não havia como. Mas a garota realmente estava certa, de alguma maneira.
- Também estranhou o modo como a Catherine fala disto? – perguntou uma voz atrás da morena.
- Ah, Harry, é você... – disse Hermione, virando-se. – Sim, estranhei. Bem, ela falou de um jeito... Pareceu-me que ela tinha plena certeza do que estava falando. Soou como se ela soubesse de algo. Agora pare e pense: ela não poderia saber, até porque, só quem sabe somos nós e os professores. – ela fez uma pausa. – É... Tudo bem que nem nós mesmos sabemos direito o que é, mas eu tenho quase certeza...
- Certeza?
- Sim. Basta associarmos uma coisa com a outra que perceberemos, Harry. Pense comigo... Hoje é dia vinte e cinco de novembro e amanhã, em plena segunda-feira, estaremos deixando Hogwarts para visitar a casa de seus pais. Se não houvesse esta pausa de pelo menos dois dias, perceberiam que não estamos na escola, afinal, assistimos aulas com alunos de todas as Casas. – ela explicou. – Além disso, seria ainda mais estranho que eu e você não estivéssemos aqui, não acha? Logo pensariam bobagens sobre nós, coisas totalmente erradas... Dumbledore nunca faz nada sem pensar, Harry. Lembre-se disto!
- Quanto tempo demorou para planejar este discurso? – perguntou Harry, levando, em seguida, uma tapa no ombro. – Tudo bem, Hermione. Eu só estava brincando! É que realmente foi algo bem elaborado...
- Ok. Vamos descer para o café. – disse Hermione, ao notar que os alunos saíam rapidamente pelo buraco do retrato. – Quero me despedir dos outros ainda...
Então foram para o salão principal, já cheio. Todos tomaram café falando mais que o normal. Nenhum dos alunos se preocupava com nada. Deixariam a escola dali a alguns minutos e logo veriam suas famílias. Harry e Hermione não poderiam dizer o mesmo. Sairiam de Hogwarts no dia seguinte e iriam diretamente para Londres.
Sentaram-se ao lado de Gina, até o momento calada, aparentemente pensativa. Hermione sentou-se ao seu lado e Harry de frente para as duas, e só então, passaram a conversar. Gina falara algo sobre Draco, que a família ainda não aceitaria e até pedira ajuda aos amigos, que disseram não poder fazer nada por enquanto. Calaram-se subitamente, mudando de assunto e passando a comer com maior interesse. Rony chegou minutos depois, parecendo realmente feliz. A explicação era óbvia: Luna passaria estes dois dias com ele.
Eles não conversaram muito depois disto. Filch entrou no salão e foi até a mesa dos professores, onde McGonagall se encontrava ao lado de Hagrid e da profª. Vector. Apenas aqueles professores estavam ali. Hermione veio a concluir que os professores realmente teriam deixado Hogwarts para resolver assuntos da Ordem.
Foi então que todos perceberam que deveriam se adiantar. As conversas cessaram e todos passaram a comer o mais rápido e silenciosamente possível. Não demorou muito tempo para que a professora McGonagall se levantasse.
- A todos aqueles alunos que pegarão o trem com destino para Londres, na estação King’s Cross, peço que estejam no saguão dentro de meia hora. Aqueles que têm outro destino, favor esperar próxima chamada. E aos que permanecerão em Hogwarts, quero avisar que receberão um pequeno aviso contendo os horários obrigatórios que deverão seguir durante estes dois dias. – ela disse, sem qualquer pausa.
Pareceu a Harry que quase a escola inteira sairia no trem para Londres. Ele escutou alguns alunos dizerem que teria um trem com destino a Dufftown, um povoado bruxo um pouco mais para o norte da Grã Bretanha.
Vários alunos começaram a se retirar do salão em grupinhos. Ele, Rony, Hermione e Gina permaneceram sentados.
- Têm certeza de que não querem ir? – perguntou o ruivo.
- Infelizmente não dá, Rony. – respondeu Hermione. – Recebi ontem pela tarde uma carta da minha tia que mora na França. Ela disse que estará vindo me pegar amanhã aqui em Hogwarts. Acho que terei realmente de ficar...
- E você, Harry? – perguntou Gina.
- Também não posso. A Tonks me procurou hoje pela manhã e disse que estaria me esperando na sala do Lupin logo depois do almoço para visitarmos alguns lugares que ela disse que eu gostaria de conhecer. Parece que são lugares onde meus pais passaram boa parte da vida deles, não sei... – respondeu Harry automaticamente à pergunta da ruiva. – Mesmo assim, obrigado.
- Não é nada, Harry. Você sabe que já é de casa! – disse Rony. – Quando precisarem, podem aparecer...
- Obrigado, Rony!
- Bom, acho melhor nós irmos agora. Temos que pegar as mochilas... – disse Rony olhando em direção à namorada, na mesa da Corvinal. – Vamos, Gina?
- Vamos. – disse a garota. – Mas eu ainda quero vê-los antes de deixar Hogwarts, entenderam?
- Claro, Gina. Estaremos esperando você no saguão, ok? – respondeu Hermione sorrindo.
Então, Rony, Luna e Gina deixaram o aposento.
- Não gosto de mentir para eles... – disse Hermione tristemente.
- Nem eu, Mione. Nem eu...
Meia hora depois, como o combinado, Harry e Hermione se encontraram com os amigos no saguão de entrada. Despediram-se rapidamente, pois eles teriam de ser levados pelas carruagens de Testrálios para a estação de Hogsmeade.
- Sinto que não possam ir conosco. – lamentou Gina.
- Infelizmente, Gina, teremos de ficar e aguardar a nossa ida, também. Não passaremos estes dois dias juntos, mas nos veremos na quarta-feira. Não se preocupe. – disse Hermione, tentando animar a amiga. – Tenho certeza de que estes dois dias serão bons para todos nós, vocês poderão descansar e você, Rony... – o garoto a olhou alerta. – Vai poder passar o tempo com a Luna. – ela sorriu para ele.
- Eu realmente queria que vocês fossem, mas... – comentou Rony.
- Acho que já temos que ir. – disse Luna. Filch já despachava algumas carruagens cheias de alunos para Hogsmeade. Estava na vez deles.
- Nós já vamos. – afirmou Rony, despedindo-se de Harry com um abraço e dando um beijo na testa de Hermione.
- Até quarta. – disse Gina, abraçando Harry e dando-lhe um beijo no rosto, indo até Hermione e abraçando a amiga. Depois, olhou em volta e viu uma figura loira parada encostada a uma pilastra de pedra. – Draco! – ela correu em direção do namorado, beijando-o vorazmente. Rony fechou a cara e puxou Luna para a carruagem.
- Vamos, Gina! – chamou ele.
Gina despediu-se do namorado e, assim, eles deixaram a escola. Harry e Hermione resolveram voltar ao salão comunal. Ao se virarem, notaram que Draco já não estava ali, o que era estranho, afinal, ele estivera ali segundos antes. Sem nem pensar em explicações para aquele fenômeno, deixaram o saguão.
E como sempre, estavam sozinhos novamente, mas desta vez, por longos dois dias. Eles não teriam nada para fazer durante o dia, enquanto esperavam a hora de encontrar com Dumbledore em seu escritório; Hermione não queria dormir, mesmo que tivesse uma pontinha de sono, estava um pouco confusa com todas aquelas visões que andava tendo há mais de três meses, mas que agora aconteciam com freqüência e Harry queria fazer algo, mas não sabia o quê sugerir.
- Hum... Já que tudo que dissemos só serve para mais de duas pessoas e que xadrez de bruxo é “muito chato”, acho que podemos brincar de...
- Que tal o seguinte: eu vou dizer uma frase e você a complementa, depois me faz a mesma pergunta e eu também respondo, aí eu faço outra pergunta... e assim por diante?! – interrompeu Hermione falando rapidamente.
- É... é uma boa idéia! – comentou Harry. – Você começa.
- Tudo bem. – concordou Hermione. – Se você pudesse se chamaria...
- Andrew. E você...
- Annie. – uma pausa. – Gostaria de viajar para...
- Austrália. E você...
- Canadá!
E aquela seqüência durou horas, eles não cansavam de fazer perguntas banais e que nunca fariam em outra ocasião. Era divertido saber coisas bem simples e pequenas curiosidades um do outro. O almoço foi servido para eles ali mesmo, já que eram os únicos grifinórios a ocupar toda a torre.
À tarde, Hermione sentou-se para continuar estudando os nomes de seus amigos, descobrindo personalidades e até fazendo aquilo apenas por diversão. Harry estava sentado ao seu lado, tentando montar uma torre de baralho, que havia comprado na loja de Fred e Jorge.
Mais ou menos às sete da noite, eles receberam o horário obrigatório que McGonagall falara mais cedo. O jantar seria servido dali à uma hora. Agora estavam ainda mais ansiosos para o encontro com Dumbledore.
- Harry, vou à biblioteca... se eu não voltar dentro de dez minutos, por favor, vá ao meu encontro. – avisou Hermione e sem receber qualquer resposta, deixou o salão comunal.
Harry tinha certeza de que ela iria pegar algum livro para ficar pesquisando mais sobre o que Dumbledore lhe pedira na tarde anterior. Ele sabia que ela nunca deixava um dever para trás e que só não o tinha feito ainda, porque havia esquecido.
Haviam se passado nove minutos e nada de Hermione chegar. Dez... Harry já levantava da poltrona para ir atrás da amiga, quando o retrato de moveu e ela adentrou a sala.
- Ia sair? – ela perguntou risonha.
- Ia encontrar alguns amigos lá perto do lago pra tomarmos um banho... – disse ele sarcástico.
- Tudo bem. Eu sei que se passaram os dez minutos, mas foi exatamente isto que eu disse que demoraria, Harry. – ela explicou.
- Então, o que foi fazer na biblioteca?
- Pegar um livro? – ela perguntou.
- Não, Hermione, você foi fazer companhia e tomar um chá com a solitária Madame Pince. – ele disse se irritando.
- Ok, ok. Calma! Eu estou só brincando...
- Não me enrola, Mione! O que você trouxe?
- Nada demais. Apenas um pequeno dicionário de nomes de bruxos nascidos entre 1900 e 1980. Pode ser que estejamos aí, também...
- Nunca se sabe. – disse Harry com simplicidade. – E o que você iria querer com isso?
- Apenas pesquisar algumas coisas...
- Que tipos de coisas? – insistiu Harry.
- Ah, coisas, coisas... Nossa! Mas como você é curioso! – exclamou Hermione.
- Ok, então. Não vou insistir.
- Acho bom mesmo! Bem, acho que devemos aguardar o jantar, não?
Harry não respondeu. Imediatamente, dois pratos cheios das mais variadas comidas se materializaram à sua frente, juntamente com mais uma jarra com suco de abóbora e dois copos. Jantaram silenciosamente. Depois, Harry subiu para o dormitório masculino para descansar. Hermione, ao contrário do garoto, apenas recostou-se numa poltrona e apoiando o grosso dicionário numa almofada, começou a pesquisar.
Foi diretamente para a letra R. O dicionário parecia pequeno para a quantidade de nomes ali existentes. Em cada página, era possível se encontrar no mínimo cem nomes de bruxos. Nomes completos. Passou então a procurar nomes que tivessem iniciais R.A.B. Não existiam muitos, mas ela teria de eliminar aqueles que fossem improváveis, como os que ainda eram vivos e aqueles que morreram antes do início da última década. Com toda certeza, aquele seria o livro mais novo da coleção, pois parecia ser bem atualizado. Os dados eram bem específicos. Foi então que ela encontrou um nome que achou um tanto estranho: Regulus A. Black. Ele não seria o irmão de Sirius? Ela então, esqueceu a pesquisa por alguns segundos e leu as informações sobre o homem.
“Regulus Arthur Black, descendente da tradicional e importante família Black, morto em junho de 1982 pelos Comensais da Morte, enquanto ele mesmo era um deles, a mando d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. De acordo com informações, ele teria descoberto um grande segredo de seu mestre e se rebelado contra ele. Não sabe-se ainda o motivo exato pelo qual foi morto.”
“Isso é muito estranho...”, pensava Hermione. Ela marcou a página do livro onde encontrara aquelas informações e voltou a procurar outros bruxos que pudessem ter alguma relação com o horcrux destruído. Não encontrou nenhuma outra opção óbvia, a não ser uma mulher chamada Revra Anahí Bullock, que ainda estava em seus vinte e dois anos. Quando deu por si, já estava no nome Ralph Brian Burnnes. Ela realmente ficou confusa. Olhara dezenas de nomes e apenas um se encaixava no perfil que procurava. Tentou lembrar-se de todos os detalhes do bilhete que encontraram dentro da falsa horcrux.
“Ele teria de estar morto já há alguns anos, ele sabia que iria morrer, ele teria de ter descoberto um segredo de Voldemort e conhecer demasiadamente bem e em muitos detalhes, magia negra”, repensou.
- Então só pode ser... É isso! Foi Regulus Black quem descobriu o segredo de Voldemort! – ela exclamou tão alto, que depois teve de agradecer que estivesse sozinha ali.
Imediatamente, levantou-se e correu para seu dormitório, guardou o livro e seguiu para o dormitório masculino. Nem se deu ao trabalho de bater à porta, entrou rapidamente e deixou que a porta batesse as suas costas. Harry, que estava sentado em sua cama, apenas ergueu a cabeça. Estava amarrando os tênis e ainda se encontrava sem camisa, apenas com a calça jeans.
Ela correu para ele, que levantou subitamente, recebendo um abraço da amiga.
- Harry, eu descobri! Descobri tudo... Descobri quem destruiu a horcrux, quem é R.A.B... Eu descobri! – ela dizia afobada.
- Mione, calma...
- Eu descobri... Descobri... Harry... Dumbledore, Dumbledore precisa saber...
- Calma, Mione! – Harry a abraçou com mais força, passando segurança para a garota, na esperança de acalma-la. Ofegante, ela foi se soltando aos poucos do amigo. – E então? O que aconteceu?
- Eu estava pesquisando a pessoa que poderia ser R.A.B., e então achei apenas dois nomes: Regulus Arthur Black e Revra Anahí Bullock. Não poderia ser esta tal Revra porque ela tem apenas vinte e dois anos e como a pessoa teria de estar morta e conhecer magia negra, só poderia ser Regulus Black. – contou Hermione rapidamente.
- Espera aí... Regulus Black não era irmão do...?
- Do Sirius? Sim! – confirmou Hermione.
- Então foi ele? Mione, o que dizia o livro quanto a ele?
- Ah, Harry, temos de pegar para saber alguma coisa...
- Então vamos! – disse Harry e os dois correram para a porta do dormitório. Hermione então parou de chofre ainda antes de chegar à porta e virou-se para o amigo.
- Hum... você não tinha que colocar uma...? – ela começou, antes de Harry cair por cima dela e os dois irem parar no chão. – Blusa?
Os dois riram constrangidos.
Analisando bem a situação, Hermione sentiu ruborizar. Afinal, ter Harry Potter sem camisa caído por cima de você, os rostos tão próximos que um contato maior seria quase inevitável se ela não pudesse se controlar, e não poder fazer nada, porque eles eram apenas amigos, era simplesmente uma desfeita. Depois de alguns segundos, Harry se levantou e ajudou a amiga a fazer o mesmo.
E saíram dali. Harry desceu diretamente para o salão comunal, onde esperaria que Hermione trouxesse o livro.
- Aqui! – ela desceu as escadas correndo e entregou-lhe o livro. – Acho que na página mil e vinte e oito.
- Hum... Ok. – ele abriu na página que a garota dissera. Realmente o nome se encontrava ali.
Ele leu todas as informações associadas ao irmão de Sirius.
- Canalha! – exclamou baixinho.
- Harry, ele te ajudou bastante e você tem que reconhecer isto também.
- Mas ainda assim, ele foi um dia servo daquele que tirou todos aqueles que eu gostava de mim...
- Obrigada pela parte em que me toca. – falou Hermione irônica.
- Ah, Mione! Deixa disso... Você sabe que eu te amo!
Hermione o olhou feio.
- Tudo bem... Se não quer acreditar, quem perde é você. – disse Harry fazendo pouco caso. Fingiu que ia sair dali, mas ao dar a volta no sofá, pulou em cima da garota e começou a beijar-lhe a face sem parar.
- Pára, Harry! Sério...
- Como quiser... – mas ele começou a fazer cócegas na amiga.
Pararam a brincadeira quando eles viram faíscas de fogo saírem da lareira. Observaram atentamente mas nada aconteceu. Quanto tempo se passara desde que Hermione voltara da biblioteca?
- Harry, que horas são? – perguntou Hermione preocupada.
- Dez e cinqüenta. Por quê?
- Como ‘por quê’, Harry? – perguntou Hermione incrédula. – Isso deve ter sido um aviso. Dumbledore deve ter retornado à escola agora. Faltam apenas dez minutos para o horário que ele marcou conosco e provavelmente, sabe que nós havíamos esquecido e tratou de avisar de alguma forma.
- Uau! Você realmente pensa em tudo... – disse Harry irônico.
- Não há tempo para isto, Harry. Temos de adiantar. – ela replicou. – Suba e pegue o mapa do maroto e sua Capa da Invisibilidade. Vou colocar o meu casaco e nos encontramos aqui embaixo novamente, ok?
- Ok.
Hermione subiu as escadas pensando em tudo que tinha para contar ao diretor e tentando descobrir o que ele contaria... Lembrando-se da promessa que um dia lhe fizera, esperava ainda que ele contasse a história. “Um dia lhe contarei a história...”, esta frase ecoava em sua cabeça. Quando este dia chegaria?
Harry e Hermione retornaram quase juntos ao salão comunal. Não conversaram, apenas trocaram olhares. Harry rodou a capa no ar e os cobriu. Deixaram então o aposento, dirigindo-se diretamente ao escritório do diretor.
No caminho, encontraram McGonagall parada à porta da câmara ao lado do salão principal. Ela parecia ansiosa e, com toda certeza, estava à espera de alguém. Eles então pararam e recostaram-se à parede, atrás de uma armadura, localizada à porta do saguão.
- Minerva, creio que eles já estejam aqui. – avisou uma voz rouca, que vinha do corredor concorrente ao que estavam.
- Chame-os, Alastor. – pediu a professora.
Então, Olho-Tonto Moody apareceu no fim do corredor. Ele vinha mancando em direção à armadura...
- Boa noite, garotos. – disse, já próximo. – Acho que podem tirar a capa. A escola encontra-se completamente vazia, à exceção dos aurores e membros da Ordem que estão espalhados pela propriedade.
Os garotos retiraram a capa.
- Muito bem. Venham comigo. – chamou McGonagall.
Eles se entreolharam ao ver que a professora virara o corredor. Realmente achavam que iriam para o escritório de Dumbledore. Estavam enganados. Seguiram diretamente para a sala dos professores, onde se encontravam apenas Dumbledore, Lupin, Tonks e a profª. Vector.
- Entrem. – disse a professora, fechando a porta às suas costas, ficando ao lado de fora.
- Boa noite, garotos. – cumprimentou Dumbledore.
- Boa noite. – disseram os dois em uníssono.
Os outros apenas acenaram com a cabeça.
- Muito bem. Acho que já estamos todos aqui, então, creio que possamos começar. – disse o diretor. – Antes de tudo, quero cumprir uma promessa que fiz mais ou menos um mês atrás, pouco antes do nosso Baile das Bruxas. Para isto, contei com a presença do Remo e da Alissa. Tonks, por ter estagiado com Lílian Evans, poderá ajudar de alguma forma. – explicou. – Antes mesmo de começar esta história, é bom avisar que vocês precisam ter o máximo de atenção, já que é longa e bastante complicada. Temos contradições, brigas e muita consternação. Além disto, é sempre bom lembrar que James e Lílian eram inimigos mortais a princípio.
O silêncio permaneceu e então Dumbledore continuou.
- Quando chegaram a Hogwarts, Remo, James, Sirius e Pedro já eram amigos. O que todos sempre acharam estranho, já que eles não tiveram nenhum contato antes da manhã de primeiro de setembro de 1970.
- Na verdade, James Potter, foi o primeiro a chegar à estação de trem. Depois, eu cheguei e um tempo depois, o Sirius. O trem já ia partir quando Pedro chegou à estação. Todos nós nos encaminhamos para uma mesma cabine e passamos a conversar. Logo, nos tornamos muito amigos, já que éramos muito parecidos. – continuou Lupin. – Já a caminho de Hogwarts, recebemos em nossa cabine, a visita de quatro belas garotas, talvez as mais belas a época. Lílian Evans, Alissa Vector, Narcisa e Belatriz Black entraram à procura de um lugar para ficarem aguardando a chegada à escola. E nós... Imediatamente cedemos os lugares a elas.
- Exatamente. Notamos que os quatro eram um tanto abusados logo de início e nossos gênios não bateram. – a profª. Vector entrou na história. – Quando finalmente chegamos à escola, nos separamos quase rezando para que ficássemos em casas separadas, o que não aconteceu.
- Os garotos foram mandados para a Grifinória, onde já se encontravam as duas Black. Chegou então a vez de Lílian passar pela seleção. A garota ficou sentada por quase meia hora em frente a toda a escola, sem receber qualquer resposta de que casa ficaria. Todos chegamos a pensar que houvera algum engano, e que ela não era uma bruxa. Então, passamos a vez para Alissa, que ficou na Grifinória. Terminada a seleção, lembramos de que havia uma aluna ao canto que ainda não fora selecionada. Lílian estava muito envergonhada com toda aquela situação, afinal, fora a única que sobrara. De fato, nunca nada parecido acontecera. Novamente tentamos selecioná-la e novamente o chapéu seletor demorou. – o diretor fez uma pausa. – Só depois de algum tempo, resolvi retirar o chapéu dela e coloquei-o em minha própria cabeça. O chapéu então esclareceu que a garota era diferente dos outros alunos que passaram por ele. Ela tinha uma característica rara entre os bruxos: Lílian era uma Mangid.
- Até hoje, existiram apenas dois Mangids conhecidos, Merlin e o senhor, estou certa? – perguntou Hermione, interrompendo.
- Quase, Hermione. Existem mais dois Mangids além de mim aqui em Hogwarts, e uma delas está aqui nesta sala. – um sorriso se crispou nos lábios do diretor.
- Mas... – fez Hermione confusa. – O senhor quer dizer... e-eu? – ela arregalou os olhos diante da percepção.
- Exatamente. E você sabe o que é um Mangid?
- Sim. Já li sobre isto! Um Mangid é um bruxo extremamente poderoso, capaz de fazer feitiços muito avançados com extrema facilidade e que podem praticá-los até mesmo sem varinha. Este é apenas um resumo do que um Mangid é, mas...
- Eu sei a capacidade de um Mangid e creio que saiba perfeitamente a capacidade que tem. – adiantou-se Dumbledore. – Mas como eu ia dizendo, são apenas quatro Mangids localizados depois de Merlin. E Lílian era uma destas. O chapéu seletor, confuso com tudo isto, simplesmente colocou-a na Grifinória. E desde então, recebeu ordens para que colocasse todos os Mangids na Grifinória ou Corvinal.
- E minha mãe foi para a Grifinória, não?
- Sim. Lílian foi para a Grifinória. E toda a história estava prestes a começar. Mal sabiam todos os oito alunos, que dali a alguns anos, o destino lhes pregaria uma peça. – uma pausa. – Agora, acho que as pessoas mais apropriadas para contar-lhes esta história daqui pra frente, são aqueles que conviveram com eles...
- Pois bem. – Lupin tomou frente. – No nosso quinto ano em Hogwarts, eu e Lílian nos tornamos monitores. Ficamos amigos, mas embora ela tentasse fazer a minha cabeça contra os Marotos, eu continuava firme e forte no nosso grupo de garotos. Lílian e as garotas não nos suportavam, ou pelo menos até o nosso sexto ano. – Lupin parou e olhou discretamente para a colega de trabalho, sorrindo. – As irmãs Black, se apaixonaram por Sirius, o que gerou uma grande confusão. James também começou a gostar de Lílian, embora ela o detestasse com todas as suas forças. Alissa era uma grande amiga minha agora.
- Mais ou menos na metade daquele mesmo ano, Narcisa e Sirius começaram a namorar. Na Sonserina, um ano mais à frente, Lucio Malfoy planeava separá-los para ficar com Narcisa. Belatriz juntou-se a ele para que o plano fosse cumprido, afinal, ela também gostava de seu primo. E conseguiram! Mas isso, apenas no ano seguinte...
Dumbledore, Tonks e os garotos ouviam calados, prestando muita atenção a todos os fatos.
- Depois de dois meses de férias bem próximos em York, Lílian e James ficaram amigos, tão amigos, que depois começaram a sair juntos. Depois disto, os Marotos e as Poderosas, passaram a andar unidos. Não demorou para que Lílian e James começassem a namorar. Sirius apenas estava ‘ficando’ com Belatriz e nós, eu, Pedro e Alissa, estávamos sozinhos.
- Daí para o final do ano, tudo despencou. Narcisa estava grávida de Lucius, Belatriz passou a sair com o Lestrange e eu com o Sirius, enquanto Lílian e James continuavam firmes no namoro. Separamos-nos das outras garotas, desde então. Éramos apenas nós seis para tudo, os Marotos e suas namoradas. – contou Alissa. – Saímos de Hogwarts e logo soubemos dos casamentos forjados das irmãs Black. Dois anos depois, Lílian já era uma importante Inominável e James um auror internacional. O Remo não conseguia emprego fixo por conta dos dias em que tinha de faltar... Pedro sempre sumia inexplicavelmente e eu e Sirius, estávamos noivos. Eu já ensinava aqui em Hogwarts. Infelizmente, para nós, tudo acabou pouco depois.
- Pouco mais de dois anos após a separação de Sirius e Alissa, você nasceu, Harry. – completou Lupin. – Seus pais se esconderam com você e a vida passou a correr normalmente. Tudo na mesma... Até o dia em que Voldemort matou seus pais.
- Eu pretendia procurar Sirius, precisava conversar com ele... Mas foi preso e eu resolvi sumir, me isolei aqui em Hogwarts e nunca mais o vi...
- Alissa, isto fazia parte da história? – perguntou Lupin, virando-se para a colega, que estava com os olhos marejados.
- Não, não faz. – respondeu Dumbledore. – O fato é que quando Sirius e Alissa se separaram, ela levou consigo algo a mais. Um novo ser estava sendo gerado em seu vente. Daí nasceu Amy Vector, uma aluna setimanista da Corvinal. Sirius nunca soube da existência desta filha, justamente pelo fato de ter sido preso e depois morto sem que Alissa soubesse. Mas quando ele foi mandado para Azkaban, essa filha já tinha quase dois anos.
- Então tudo o que Sirius deixou não é só meu? – perguntou Harry.
- No papel, sim, Harry, mas teoricamente, não. – respondeu Dumbledore.
Todos, exceto Dumbledore e Alissa, estavam chocados com aquela história. Então Sirius tinha uma herdeira?
Os professores terminaram de contar o final daquela longa vida, sim, porque era uma vida inteira sendo contada ali, naquele exato momento. Uma história cheia de voltas e que no final, não se completava.
- Hermione, acho que agora já pode acrescentar grande parte das coisas que faltavam, não? – perguntou Dumbledore, piscando para a garota.
- Sim, senhor. – a garota assentiu. – Hum... Professor, quem... eu gostaria de saber quem é o outro Mangid.
- Na verdade, é outra. E há alguém de mim nesta sala que sabe quem é. Estou certo, profª. Vector?
- Sim, de fato. – concordou a professora. – Amy, a minha Amy, é uma Mangid.
- Muito bem, então. Chega de conversa! – Tonks bateu palmas. – Já estamos suficientemente atrasados.
- Sim, certo. Tonks está certa. – foi a vez de Dumbledore observar. – Garotos, vão pegar suas mochilas, vocês partirão para Londres imediatamente.
- Mas não era no dia vinte e seis?
- Já estamos no dia vinte e seis há mais de uma hora e meia, Harry. – disse Dumbledore paciente. – Alissa, chame Amy e peça para que ela arrume uma mochila pequena. Encontro vocês no saguão de entrada em vinte minutos.
E assim ocorreu. Em vinte minutos, estavam todos eles no saguão de entrada. Amy era uma garota muito bonita e alta. Olhos azuis acinzentados, cabelos muito lisos e negros, até um pouco abaixo do ombro. Era simpática, carismática e um tanto tímida.
Com uma chave de portal, os três garotos e Fleur foram para Londres. Pararam exatamente à frente de um casarão branco todo trabalhado em mármore, realmente muito bonito. Era uma verdadeira mansão.
- Harry, está é a sua casa. – disse Fleur, se adiantando, com os garotos à espreita, para abrir a porta.
Ao entrarem, depararam-se com uma sala enorme totalmente decorada. As paredes internas também eram brancas, o teto todo trabalhado em gesso e o chão era de um piso muito liso de mármore. Harry, Hermione e Amy olhavam tudo atentamente, maravilhados com a casa. Andando pelos corredores, passaram por duas escadas, uma que ia para o subsolo e uma que ia para o andar superior. Fleur parecia conhecer muito bem a casa, que tinha três salas, uma cozinha grande com área de serviço, sete quartos (três deles com suíte) e mais quatro banheiros. Depois do tour pela casa, Fleur deixou-os a vontade e desceu para o subsolo. Ela informara que eram dois quartos no andar de baixo, dois no térreo e três no andar superior.
- Cada uma de vocês, escolha o seu quarto. – ofereceu Harry, que escolhera o último quarto no lado esquerdo do corredor do andar superior.
- Não precisa, Harry... – começou Mione.
- Eu faço questão, ainda mais a senhorita sendo minha amiga há tanto tempo. Acho que tem, sim, de ter um quarto só para você. – ele argumentou.
- Hum... Tudo bem. – Hermione se instalara no quarto em frente ao do garoto. O quarto estava completamente vazio. Não possuía uma cama sequer, mas quando ela entrou, ele simplesmente se transformou em um quarto lindo, o quarto dos sonhos de qualquer garota.
- E você, Amy? – ele perguntou.
- Eu vou me instalar no andar do térreo. – ela disse timidamente. – Não se preocupem comigo.
E como mágica, todos os quartos se transformavam quando alguém entrava. Cada um com um estilo diferente e definitivo. Bastava Harry dizer de quem seria o quarto e ele se transformava num espaço ideal para cada pessoa. A casa de seus pais... Corrigindo... A sua casa, era realmente maravilhosa. Hermione, contara que a casa possuía uma enorme biblioteca no andar do subsolo, com milhares de livros e estantes altíssimas, onde se perderia procurando livros para ler. Seu entusiasmo não cabia em si. Harry descobrira muitas outras coisas naquela casa que guardava muitos mistérios, mas deixou-os para desvendá-los no dia seguinte, quando estivesse descansado e bem disposto. Amy logo se alojara, dividindo o quarto com Fleur. Não aproveitaram muito a hospedaria aquela noite, pois estavam cansados e precisavam mesmo, era de uma boa noite de sono.
|