Acordou com os raios de sol que entravam pela varanda e atingiam seu rosto. Estava morrendo de fome e com uma dor de cabeça horrível, tentou se apoiar no braço para se sentar e sentiu uma dor forte, olhou e percebeu que haviam marcas roxas dos dedos de Lucius. Tentou ignorar as imagens da discussão da noite anterior e foi até a cozinha para o desjejum. Ficou um bom tempo sentada olhando o nada enquanto comia suas torradas e bebia o café até ver o marido passar pela porta e parar em frente a ela.
- Surpreendentemente, Bellatrix confirmou essa loucura.
Ficou surpresa quando o ouviu. Era certo que ela cogitara a possibilidade de aquilo acontecer, mas imaginara que teria de ir até lá e conseguir um jeito de dar um sinal para a irmã. Quando ele a proibiu de ir, Narcissa jurava que tudo estava perdido, ela não acharia uma desculpa para Lucius e teria de contar a verdade, fim. Ficou um tanto intrigada quanto à razão de Bella ter mentido, mas se concentrou em permanecer com a expressão neutra e não colocar tudo a perder.
- Como eu disse. - ergueu uma sobrancelha enquanto mordia uma torrada. - O que ela falou?
- Apenas confirmou. - disse seco, retirando a capa e colocando-a em cima da cadeira mais próxima à mesa, do lado oposto de Narcissa.
- Agora que acredita no que eu disse, posso visitar minha irmã sem passar por todo esse drama quando chegar em casa? - tentava parecer como se tudo fizesse sentido, se esforçava ao máximo para não deixá-lo perceber que ambas mentiam. Mas era um fato inegável que a loira não sabia mentir. A presença de Lucius a desconcertava, talvez fosse a submissão que ela tão naturalmente sempre aceitara e a falta de coragem em tentar quebrar aquilo que tanto a incomodava. Ela não fazia nada a respeito, nunca fizera e muito provavelmente não o faria; tentar mentir para ele era contra sua natureza.
- Cuidado com a sua língua, Narcissa. Saiba que ainda acho isso muito estranho - estreitou o olhar e cruzou os braços para ela - De qualquer forma, não acho que vá precisar visitá-la tão cedo. Vamos ter uma reunião aqui com o Lorde das Trevas e os comensais. Como sempre, você vai ficar fazendo qualquer coisa nos jardins para não atrapalhar, mas quando acabar pode entrar para falar com ela já que faz tanta questão. - olhava a mulher em uma expressão cuidadosa.
- Perfeito então - ignorou o aviso dele e terminou seu café. - Se está tudo resolvido, então vou subir para tomar um banho. - levantou da cadeira começou a andar até a saída, passou pelo lado dele e Lucius a segurou pelo braço. Olhou-a por alguns instantes ainda tentando decifrar o que ela escondia, e era terrivelmente irritante perceber que ela estava conseguindo manter o que quer que fosse escondido sob aquela expressão ensaiada que mostrava culpa e escondia a razão ao mesmo tempo.
- Que a noite passada não se repita. Sabe que detesto quando a minha esposa fala daquela forma comigo. E essa noite a quero na nossa cama, como todas as outras noites, entendeu? - falou aos sussurros com os rostos muito próximos e um olhar autoritário dirigido a ela.
- Claro, querido. - forçou um sorriso e se soltou, continuando o caminho até a porta.
Ela estava sozinha no jardim, andava por ele calmamente pois sabia que a reunião demoraria a chegar ao fim. Imaginava como naquela noite ela e Rodolphus estariam tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo. Ela não arriscaria conversar com ele no meio de tanta gente e ainda por cima com Lucius em sua cola. Mas saber que ele estava lá, em sua casa e tão perto a deixou mais animada que o normal para aquela reunião, poderia ao menos vê-lo de longe afinal.
Percebeu o movimento que se iniciava no terceiro andar. Finalmente chegara ao fim. Foi em direção à casa e ao chegar no salão de entrada os comensais conversavam.
Lucius estava à esquerda, do lado oposto à lareira junto a McNair provavelmente falando sobre algo inútil. Rabastan se juntou repentinamente aos dois ficando deveras próximo de McNair, um pouco afastado de Lucius e com a postura um pouco rígida. Achou estranho aquele tipo de comportamento, mas ultimamente era comum e não deu importância, desviou a atenção do trio antes que seu marido a visse. Um pouco mais adiante, próxima à lareira e obviamente não muito longe das bebidas, estava Bellatrix. Narcissa precisava fazer algo ao invés de permanece ali parada como uma retardada e achou o momento oportuno para sondar sua irmã a respeito do incidente com Lucius.
No curto caminho entre as duas, aproveitou para procurar Rodolphus pelo espaço, os olhos varreram todo o salão sem encontrá-lo em parte alguma. Contendo um suspiro de decepção, disse ao parar próxima à irmã:
-Bella! Como vai? - apenas após terminar de falar foi que percebeu o quão nervosa estava. Usou o perfeito tom de anfitriã que estava habituada a usar com qualquer um, mas Bellatrix estava longe de ser qualquer uma, percebera claramente que havia algo errado e arqueou a sobrancelha em resposta.
-Sabe que não sou estúpida como as suas visitas para aceitar essa cortesia forjada, não é?
- Por Merlin! Estou tentando ser educada, pode por favor colaborar? - cruzou os braços tentando parecer natural. Imediatamente se arrependeu de ter ido abordá-la, sua irmã era muito inflexível e contundente, Narcissa não tinha ideia de como prosseguir. Mas ela não iria simplesmente virar as costas e fugir, então se esforçou para continuar. - De verdade, Bella, como está? - tentou imprimir em sua expressão o pequeno ponto de verdadeiro interesse que possuía - Nos falamos tão pouco, quero saber como as coisas estão. - disse após poucos segundos antes que ela respondesse, as palavras soando mais verdadeiras. E realmente eram, Narcissa costumava ter aquele tipo de relação com Andrômeda e, após o distanciamento forçado entre as duas, a irmã caçula sempre sentiu falra do sentimento fraterno do passado.
Bellatrix revirou os olhos à resposta da loira, não se importou em forçar um sorriso e apenas disse - Vou bem.
Permaneceu parada olhando-a e frente a uma resposta tão displicente, Narcissa mostrou indignação. Prevendo os protestos que viriam, Bella completou com um revirar de olhos.
- Não me diga que quer uma descrição completa do que eu faço todos os dias.
- Só queria que fosse mais receptiva. - a mais nova bufou impaciente e desviou a atenção novamente desistindo de continuar. Se incomodou ao perceber que Bellatrix a obervava e tentou achar o mais rápido possível um motivo para sair dali.
Bella podia notar claramente o desconforto da loira, aquela era uma das raras vezes que Narcissa Malfoy tentava sem sucesso parecer natural forçando a anfitriã perfeita. E era fácil imaginar uma razão.
- Se está tão interessada assim, recebi uma visita de seu querido marido há não muito tempo. - disse sem precedentes, antes de a conversa se esvair por completo.
Narcissa ergueu as sobrancelhas e voltou a olhar a irmã ao ouvi-la falar.
- Ah… claro. Eu soube. - pensou nas palavras certas a dizer. Fora pega de surpresa, nem imaginava mais entrar no assunto e então Bellatrix daquele jeito direto e irritante a pega desprevenida.
- De nada. - Bella respondeu frente à demora da outra, sorriu com a reação dela divertindo-se com a situação já que se irritar não valia a pena. Já perdera a paciência inúmeras vezes com aqueles rodeios de Narcissa, sempre floreando o assunto ao invés de ser direta. - Merlin santo, pare com isso, Narcissa. Sem teatros, vá direto ao assunto. O que quer saber? Por que menti?
De início a loira tentou manter a pose mas, como sempre, fora desarmada e acabou por se render.
- Sim. - soltou a palavra junto ao ar que estava inconscientemente preso em seus pulmões - Diga logo por que diabos fez isso. Por compaixão eu sei que não foi. - disse em um tom quase impaciente.
Não pôde deixar de rir com o que ouviu - Quando drama, Cissy. - uma risada abafada - Mas confesso que adorei torturar seu marido com algo que ele não pode controlar. - disse em quase um sussurro contendo o impulso de dar um passo para trás ao ver Narcissa se aproximar exageradamente.
- Oh. Certo. - o alívio tomou conta de si. A única coisa que tomara conta de seus pensamentos até ali era que Bellatrix tinha descoberto tudo. Não conseguia achar uma desvantagem concreta nisso, mas não queria que ninguém soubesse. Era um segredo dela e de Rodolphus, seria totalmente errado se qualquer outra pessoa tomasse conhecimento.
- Olhe, não me interessa o que você esteja aprontando por aí pelas costas do traste do seu marido. Mas meus parabéns. - Narcissa demonstrou espanto e Bellatrix sorriu - Nunca imaginei que fosse fazer algo assim.
- Merlin, Bellatrix! Não estou fazendo nada. - desviou o olhar levemente envergonhada - Apenas gosto de me distrair sem precisar dar satisfações a Lucius.
- “Se distrair” - riu um pouco mais alto atraindo a atenção de um comensal não muito longe delas e então falou mais baixo ainda com um sorriso - Como eu disse, não me importa o que isso seja. Apenas me orgulhei de saber que fez alguma coisa por conta própria. - olhou pelo salão já bem mais vazio e um pouco irritada disse - Agora, se não tem mais nada a dizer, vou ver aonde Rodolphus se enfiou, estou exausta e preciso da minha cama. - e saiu.
Narcissa permaneceu um tempo ainda parada ali, refletindo sobre aquilo. Olhou as pessoas em sua casa e subitamente se sentiu mais envergonhada que nunca. Estava traindo seu marido. Merlin santo, o que seus pais diriam daquilo? Pensar na situação assim no meio de todos era mais vergonhoso do que parecia. Mas Bellatrix tratava do assunto com uma naturalidade assustadora. Ela a parabenizara. Bellatrix a parabenizara. Recebera o apoio da irmã e estava traindo o próprio marido com o marido dela. E ela obviamente não ligaria para aquilo também. Era tão absurdo que a fez rir. Estava tentando implementar na própria mente a visão da irmã, queria pensar nela e Rodolphus como algo natural.
E era natural. O caso dos dois era o mais perto de uma ocorrência espontânea que ela já vivera. E ainda assim Narcissa sentia suas faces ruborizarem e um sorriso de canto brotar toda vez que pensava em sua última visita à Mansão Lestrange.
- Prometa que ainda vai me dar uma foto sua. - a voz grave soou subitamente perto dela. Quase deu um salto de susto, imediatamente a reconheceu e seu coração desparou batendo forte contra o peito. Imaginou se os outros ali percebiam a cena, passou os olhos por todos antes de se virar para trás, mas percebeu que apenas restava um pequeno grupo de comensais do outro lado da sala e Lucius conversava distraído entre eles, e viu que não haveria problema em se virar. Ele estava trajado em um terno cinza escuro que o fazia parecer ainda mais bonito. O sorriso que ele exibia, apesar de discreto, a fez esquecer o que ia falar.
- Te assustei? - ele disse em uma risada baixa.
- Sim. - respondeu em um sorriso após respirar melhor. - Minha nossa, não faça isso de novo. - ambos riram juntos e por um segundo ela se esqueceu que seu marido estava na mesma sala que os dois. Ao se lembrar de aonde estavam, diminuiu os risos tentando agir como agiria com qualquer outro ali.
- Então, promete que vai me dar uma foto? - colocou as mãos nos bolsos da calça - Acho muito injusto que você ande pelos cantos sorrindo sozinha sem que eu possa carregar uma cópia dessa bela imagem comigo.
Narcissa sorriu, sempre olhando em volta para saber se estavam sendo observados. - Tudo bem, já que insiste. - respondeu olhando novamente para ele - Mas pare de me envergonhar assim em público, Rold.
- Ninguém está vendo, Cissy. E mesmo que estivessem, somos apenas um bruxo e uma bruxa conversando após um evento cotidiano. - disse, dessa vez ele mesmo olhando a volta do local. - Não se preocupe.
Ele sorriu, ela também. Ficaram assim por o que, à visão dos outros, seriam poucos segundos, mas para os dois era uma pequena porta ao mundo deles. Um instante em que se contemplavam dentro das eras que eram forçados a passarem separados um do outro, cada um na própria casa no próprio casamento.
- Rold - disse ela suavemente
- Sim. - ambos pareceram voltar à realidade.
- Quando nos veremos de novo? - ele suspirou e pareceu pensar no assunto. Aquele era um ponto que incomodou profundamente ambos durante cada segundo que permaneceram separados. E Rodolphus não fazia ideia da resposta.
- Bom, Bellatrix não costuma passar os finais de semana em casa.
- E Lucius vai passar um período maior em casa dessa vez antes de sair novamente. - pela primeira vez estava profundamente incomodada com o fato de seu marido demorar a viajar novamente. Ele sempre dizia que eram viagens a trabalho, seja pelo ministério ou em missões para o Lorde. E Narcissa nunca questionara, mas no fundo sabia que nem todas eram por aquela razão. Mas agora aquilo não mais a incomodava, na verdade o que ela mais desejava era a ausência do marido. - Prometo que te aviso quando ele sair. Até lá…
- Até lá aguentaremos como aguentamos até aqui. - disse em um sorriso terno antes que ela terminasse de falar. Podia perceber que ele não dizia as palavras apenas para ela, tentava convencer a si mesmo também de que seriam fortes em aguentar a distância.
- Sim, aguentaremos. - ela sabia que seria uma tortura, mas sorriu ainda assim.
- Mas agora, tenho que ir. - visualizou Bellatrix vindo em sua direção - Sua irmã não parece muito satisfeita.
- Não mesmo - viu a expressão dela e viu Rodolphus indo em sua direção após um aceno de cabeça e seu sorriso acompanhado de um “Até logo”.
Sentiu um onda de inveja se avolumando em seu peito ao vê-lo aparatar com ela. Nunca antes Narcissa havia invejado tanto sua irmã. Bellatrix sempre fora mais querida por todos, apesar de irritar os pais com o jeito hostil de ser e com todas as irreverências, era nítido como todos os seus talentos sempre chamaram a atenção de todos e sim, Narcissa já a invejara muito por todos aqueles motivos. Mas ela tinha seus sonhos, tinha seu jeito de ser que era oposto em muitos níveis aos de Bella. O fato de não ter o que ela tinha era suprimido pelo alcance do que ela sempre quis, mesmo no fim das contas descobrindo a grande farsa que era seu casamento, o principal plano desde sempre.
E agora ela tinha um novo foco, um novo sonho. Um belíssimo sonho que a encantava todas as noites e também quando pairava nas memórias que as tomavam durante o dia. Uma única esperança, e ele era dela. Sabia que nenhum dos dois ligava para aquele casamento. Mas Narcissa foi incapaz de conter o rancor ao ver sua irmã levar consigo seu ponto de luz para desprezá-lo depois.
Demorou algum tempo para perceber que seu sentimento era o mais puro ciúmes. Ciúmes este que se juntou à inveja, à saudade e ao estranho sentimento que nutria por aquele homem.
Os outros comensais foram embora. Os vivos pesadelos diários aos quais ela era submetida vieram e, como sempre, se foram deixando uma ou duas lágrimas. Já foi pior, ela pensou, as lágrimas já foram mais volumosas e a dor mais sufocante quando ela não tinha nada em que se agarrar.
Aquele dia em especial ela demorou um pouco mais a dormir, um certo bolo se avolumava em algum lugar do peito que insistia em continuar ali ao invés de se esvair com as lágrimas.
Fechou os olhos, suspirou e uma imagem lhe veio à mente: Rodolphus…
Não. Rodolphus e Bellatrix. Merlin santo, ela estava se roendo de ciúmes. Ainda se ressentia por ter que assisti-lo partir após terem estado tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo. Ela queria enchê-lo de beijos, abraços, toques, e tudo o que aquilo podia desencadear. Queria se afogar nele e nunca mais emergir, tornar-se um ser nativo vivendo em sua essência, cuja sobrevivência em qualquer outro lugar seria impossível. Já se tornava impossível cada dia mais. Rodolphus era sua força nos piores momentos, mas sua falta se tornava exponencialmente mais crítica.
Imaginou que isso estivesse chegando a um nível doentio, que talvez uma dependência excessiva tomasse conta dela, todos os momentos de seu dia era ele quem dominava os pensamentos. A cada segundo que se passava Narcissa se perguntava o que ele estaria fazendo, se também estaria pensando nela. Tinha consciência de que muito provavelmente estava exagerando... Mas também sabia que já era tarde para voltar atrás. A conexão já tomava conta dela e não seria capaz de eliminá-la. Nem ao menos tentaria.
Mais uma vez cansada de tentar entender, ela suspirou. Um suspiro cansado no qual foi imprimido todo o turbilhão de pesares que preenchiam seu interior. Uma respiração pesada se seguiu, o fluxo constante do ar entrando e saindo era como suas próprias emoções. O contraponto criado entre a expectativa e a realidade a fazia migrar de um estado melancólico para a mais intensa alegria salpicada de esperança. E em noites confusas como aquela, a inconstância a perseguia por horas a fio.