
O café da manhã do dia seguinte foi horrível, pelo menos na mesa da Grifinória. Na tabela de pontos das Casas não havia um único rubi sequer no compartimento da casa da bravura. E embora boa parte da culpa fosse de Hermione e sua travessura na Biblioteca na noite anterior, não demorou muito pra culpa cair toda nas costas de Valerie, a novata que não deveria estar ali.
Ela se recusava a responder qualquer xingamento ou comentário maldoso que escutou o dia todo em todas as aulas, até que Gina se cansou de ver a amiga sofrendo e resolveu contar a verdade do que causou aquela massiva perda de pontos. Em menos de uma hora, Valerie era a nova heroína da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Um lufano que passou por ela no corredor durante o intervalo chegou a cumprimentá-la:
Parece que o Chapéu fez a escolha certa hein, Malfoy? É realmente preciso ter coragem pra mijar na cadeira do Prof. Snape! - e saiu rindo.
Valerie ficou feliz pelo pessoal ter gostado do seu feito, mas nenhum elogio que ela recebesse amenizaria o fato de que teria um mês de detenção com Snape. Ela perderia seus primeiros quatro fins de semana trancada nas masmorras com ele.
Harry por sua vez já estava irritado com Hermione. A menina não devolveu sua capa e sempre que ele perguntava o que tinha acontecido ela respondia com um: “Agora não, depois eu te conto.”
Embora a enorme perda de pontos que Valerie causou tenha encoberto parte do castigo de Hermione, na hora do jantar ela teve que soltar a bomba. Ela contou como foi à Biblioteca, como achou o livro e como esbarrou em Snape. Nesse ponto da história, ela pulou para a parte em que ele a arrastou de volta à torre da Grifinória e proferiu seu castigo. Não havia como ele contar a verdade pra ninguém sem se comprometer, o que deixou Hermione mais tranquila, porque ela não gostava da ideia de que a escola toda ficasse sabendo daquele beijo, e se nenhum dos dois contasse, de fato ninguém saberia.
Mas o fato de que em menos de dois dias quatro alunos ficaram em detenção era uma espécie de novo recorde. Até mesmo para Snape, o que não passou batido por Minerva McGonagall.
Então qual é o seu plano para esse ano escolar? Aplicar detenções suficientes para que você não tenha tempo livre nem para preparar suas aulas?
Porque você se preocupa com o que faço no meu tempo livre, Minerva? Você sabe que não faz meu tipo, eu já te disse isso. - Snape rebateu sem tirar os olhos da revista que lia na sala dos professores. McGonagall revirou os olhos. Eu tenho duas estudantes em detenção comigo. Assim que o próximo babaca quebrar alguma regra eu mando ele direto pra você, se é isso que te preocupa. Mas por falar em detenção, me dê licença porque em alguns minutos eu começo a primeira detenção da sua aluna favorita. Você acha que eu devo tirar uma foto e por num mural? - ele disse cheio de ironia enquanto fechava a revista e a colocava sobre a mesa. Minerva bufou e saiu da sala pela outra porta, a que dava para o escritório do diretor.
Snape estava ansioso para essa detenção. Realmente lhe preocupava o fato de que aquele beijo pudesse ter sido mal interpretado pela menina. Mas por outro lado, nem ele mesmo sabia o que esse beijo significou. Entrar na sala e ver a menina já sentada na primeira carteira da primeira fileira em frente à sua grande mesa de nada ajudou. Ele estava atrasado, mas é claro que nenhum dos dois mencionaria isso.
Sem falar nada, Snape depositou um caderno fino e uma caneta trouxa na frente da menina. Sentou-se à mesa e enquanto abria um livro esquisito que tirou de uma das gavetas trancadas ele disse:
Escreva seu nome completo e a data de hoje.
E assim Hermione fez. Quando percebeu que ela tinha terminado, continou:
Agora escreva a seguinte frase: “Eu não devo sair do dormitório sem permissão depois do toque de recolher.” Repita essa frase até eu achar que é o suficiente.
Durante quase duas horas o rosto de Hermione não demonstrou mais do que apatia pela tarefa. Com um agitar de varinha, Snape fez desaparecer a caneta e o caderno e sem tirar os olhos dos livro a dispensou com as seguintes palavras: Amanhã, no mesmo horário.
Essa rotina se repetiu por quase duas semanas. Hermione não sabia exatamente sob qual estante tinha escondido o livro, mas também não permitia que Ron e Harry o procurassem, já que seria muito suspeito os dois meninos mais alérgicos a livros de Hogwarts perambulando pela Biblioteca todos os dias. Ela também não se permitiu voltar à Biblioteca nem para pegar livros que realmente precisava para as aulas, com medo de que Snape a estivesse seguindo.
E por falar em Severo Snape, como ela estava cansada dessas detenções! Já havia preenchido mais de três cadernos com as mesmas malditas frases que ele ordenara na primeira noite, e sinceramente, preferiria fazer algo mais últil, como organizar as mesas que sempre ficavam bagunçadas depois das aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas que agora eram ministradas pelo temido diretor da casa de Sonserina.
E se uma novata da Grifinória como Valerie Malfoy é capaz de enfrentar Snape, porque Hermione não é? Ao vê-la receber durante o almoço mais um elogio pelo agora chamado “Xixi na toca do morcego”, Granger decidiu que iria enfrentar o professor. Afinal de contas, ele só pedia que ela ficasse escrevendo, não conversava com ela e nunca mencionou uma data final para seus castigos. Até agora ela tinha passado mais tempo nas masmorras do que Valerie que tinha feito algo muito mais ultrajante do que sair do dormitório fora do horário permitido. Pelo menos era isso que Hermione pensava.
Ao invés de comparecer ao seu castigo depois do jantar, como lhe era habitual, Hermione decidiu conversar com o professor antes da refeição. Quem sabe além de finalmente livrá-la do castigo ele ainda não lhe falaria sobre aquele maldito beijo que não saia de sua cabeça?
Caminhando pelo corredor em direção à porta, ela recitou mil e um mantras para se manter calma e falar polidamente tudo que fosse necessário ao seu algoz. Antes mesmo de chegar de fato à porta, ela percebeu que esta estava entreaberta e não hesitou em empurrá-la. A claridade do corredor certamente deve ter assustado o Mestre, uma vez que ele que estava assentado à sua mesa e levantou a cabeça de repente.
Você está adiantada. - ele disse em tom acusatório.
Porque ele estava a tratando com hostilidade? Chegar um pouco mais cedo do que o combinado não deveria ser um problema. E de fato não seria, se Hermione tivesse reparado em uma cascata de cabelos loiros sentada em uma das mesas dos alunos. Antes que Hermione pudesse abrir a boca para fazer quaisquer pedidos de desculpas, Valerie se colocou sobre os pés.
Boa noite, Professor Snape. - ela disse mirando o olhar para o chão e saindo da sala.
Assim que Valerie saiu da sala, Hermione executou uma nova tentativa de falar, mais uma vez interrompida.
O que você quer, Srta. Granger? - ele entrelaçou os dedos e se focou inteiramente no rosto da menina. E pela primeira vez naquele ano, Hermione sentiu medo dele.
E-eu estava pensando, é… as minhas detenções… quando elas vão acabar? - ela não conseguiu evitar a gagueira.
Exatamente agora. - ele se levantou e caminhou lentamente em direção à Hermione que não tinha adentrado nem três passos na sala. - Espero que o castigo tenha sido suficiente para que você entenda que não deve fazer coisas… digamos, proibidas.
Nesse caso você deveria ser punido também. - Hermione só percebeu que tinha formado essa frase quando as palavras já tinham saído da sua boca. O que diabos ele quis dizer com “coisas proibidas”? Andar pelos corredores da escola depois da hora de dormir? Beijar professores? Nesse caso ele era culpado também. Ele a beijou também. E Hermione se lembrava muito bem que as detenções de Valerie eram nos finais de semana. O que quer que ela estivesse fazendo ali com Snape não parecia estar dentro das regras, já que ele ficou claramente surpreso por Hermione os ter pego.
De fato, nem foi preciso bravura para proferir essas palavras, uma vez que elas saíram sem permissão nenhuma da menina. Mas assim que ela as disse, se arrependeu. Não teve tempo de ler a expressão nos olhos de Snape quando ele cuspiu um “Saia!” imediatamente obedecido por Hermione, que literalmente correu para a Biblioteca a fim de reencontrar o livro e esquecer de tudo isso por enquanto.











