— CAPÍTULO 2 ―
HERMIONE NA TOCA
Falar é fácil, difícil é fazer! Era o que seu pai costumava dizer quando se via encurralado numa situação aparentemente difícil. Normalmente quando ele filosofava assim estava se referindo a uma tarefa árdua como montar a barraca de camping, instalar o armário da cozinha ou lavar a louça do jantar. No fim, contudo, estava sempre sorridente e feliz.
Enquanto a garoa rala encharcava as vidraças da janela no quarto, Hermione amarguradamente constatava o quão terrível havia sido fazer aquilo que pareceu tão fácil de executar mentalmente. Durante as últimas madrugadas não pregava os olhos, olhando desoladamente para o teto escuro do seu quarto, imaginando como faria aquilo. Rebaixando-se a ideia de uma criminosa, conspirando debaixo dos narizes de seus pais sobre um modo de tirar-lhe simplesmente suas origens reais. Cada vez que meditava na intensidade daquele ato, menor seu coração ficava. Ela sentia-se solitária como os pingos de chuva que caíam a esmo no jardim lá fora. E também cinzenta... e também nublada. Uma traidora em seu próprio seio. Mas que escolha ela tinha? Aquela foi à única, a mais sensata maneira que descobrira para salvar seus pais.
Um forte estampido vindo da porta dos fundos da casa, fez a garota enxugar suas lágrimas e voltar a si, vigilante. Rapidamente agarrou sua varinha, desceu as escadas e caminhou na direção do som que se repetiu duas vezes mais. Ela conhecia aquele ruído, haviam aparatado no seu quintal.
Todos os músculos de Hermione se enrijeceram quando ela cruzou a soleira que divisava a sala da cozinha. A seguir escutou murmúrios, vozes masculinas que se aproximavam da porta. Em sua mente dois pensamentos se formularam: Eles me descobriram depressa!Preciso me defender! Então, a porta se escancarou...
— Expelliarmus! – foi o único feitiço que ela pensou.
Uma varinha voou pelos ares e deslizou nocauteada pelo chão de linóleo. Uma varinha muito familiar. Hermione sentiu as pernas bambas e quase gemeu de alívio quando se deparou com aqueles flamejantes cabelos ruivos.
— Você teve sorte, Rony, de ser apenas um Expelliarmus que ela lançou contra você. — comentou Gui Weasley com um sorriso rápido de boas-vindas a Hermione.
— Olá Hermione! – cumprimentou Carlinhos Weasley que vinha logo atrás de Gui.
Os dois deram-lhe um abraço breve.
— Olá... — ela conseguiu dizer . — Desculpe, Ron... Eu...
— Não precisa se desculpar. – adiantou-se o amigo, recuperando sua varinha atingida — É bom saber que você está alerta. Achamos melhor virmos sem avisar – continuou, seguindo os gestos dos irmãos e aplicando um abraço muito desajeitado nela.
Ficara imensamente aliviado de vê-la sã e salva.
— Os Comensais estão fechando o cerco em volta de todos que tenham ligação com Harry. Interceptando cartas, caçando paradeiros. Não podíamos arriscar. – informou Gui. Caminhou vigilante a janela que preenchia a parede leste da cozinha, afastou a cortina e espiou a rua.
— Eu já imaginava isso. Mesmo o Profeta não comentando nada sobre o assunto eu sei que eles estão crescendo.
— Crescendo?! Eles tomaram conta daquele jornal! E sabe do que mais? Papai está mais do que desconfiado que estão chegando ao cérebro do ministério. – acrescentou.
— O cérebro? O Ministro? — a ideia deixou-a em choque.
— Exato. — reforçou Carlinhos.
Rony afastou do grupo e deu uns passos inseguros até o corredor que provavelmente derivava ao segundo andar. Estar na casa da amiga era algo inédito a ele. Colocou as mãos para trás das costas e explorou com o olhar um acervo de fotografias de família penduradas à molduras. Nenhuma se movimentava. As misteriosas fotos trouxas. Hermione figurava quase todas. Um bebê rosado e dorminhoco. Uma garotinha risonha abrindo presentes de natal. Uma menina de fartos cabelos castanhos devorando uma taça de sorvete de chocolate. Uma jovem bem vestida abraçada a três rapazes de idade aproximada a ele. Rony crispou os lábios de reprovação.
— Ron?
— Ah, oi. — fora ela que o chamara surgindo no início do corredor.
Aproximou-se e corou levemente ao notar que ele via a miscelânea de imagens sua que os pais expuseram na parede.
— Era eu respirar que eles estavam lá me fotografando. — comentou.
— Quem são eles? — atalhou apontando a foto com os rapazes. O gesto soou um tanto afobado.
— Eles? Meus primos. — disse simplesmente. — Vamos?
Logo retornavam. Os Weasley estavam na sala.
– Creio que ninguém nos seguiu. — concluiu Gui.
— Viemos para colocar seus pais em um local seguro e levá-la para Toca. — anunciou Rony, satisfeito.
— Onde estão seus pais, Hermione? Eu e Carlinhos vamos transportá-los para o mesmo esconderijo que Dédalo e Héstia levaram os tios de Harry. Rony vai acompanhá-la até a Toca..
— Eles não estão aqui. — revelou fazendo os três Weasley voltarem-se curiosos para ela – Meus pais, eu já dei um jeito nisso.
— Quê jeito? – perguntou Rony, confuso.
— Apaguei a memória deles! Tirei qualquer lembrança que eles pudessem ter de que um dia eu fui sua filha e mandei-os para Austrália. Estão longe agora, e salvos.
— Oh...! – exclamou Gui – Mas Hermione, você tem certeza que esta foi à ideia mais sensata?
Não! Não havia sensatez nenhuma naquilo. E ela passara dois dias inteiros se arrependendo desta atitude, mas o que estava feito, estava feito. Isso ela também aprendera com seu pai!
— Pare de questionar as decisões dela, Gui. Hermione agiu muito bem. O Sr. e a Sra. Granger estão mais do que seguros agora. – Rony foi incisivo.
Agora podia ver escancarado na tez de sua amiga o quanto ela estava dilacerada com aquela escolha.
— Sim... Desculpe. Agiu bem, com certeza. – disse Gui, sem jeito – Seus pertences estão prontos? – perguntou, desviando o rumo da conversa.
— Estão. Consegui reunir tudo em uma única mochila, no andar de cima, na minha cama. O primeiro quarto a esquerda.
— Ótimo! Apanharei para você. — e saiu eficiente para buscar a bagagem.
— Eu vou preparar a chave de Portal na cozinha, para podermos sair logo daqui. – disse Carlinhos e rumou para o cômodo ao lado.
— Ei, desculpe meu irmão. – comentou Rony quando se viu a sós com Hermione na sala.
— Não, ele está certo. — rebateu ela, já sentindo um nó invisível de arrependimento esmagar-lhe a garganta — Eu me precipitei...
Rony podia contar nos dedos às vezes vira Hermione penalizada e frágil. E ele detestava vê-la assim.
— O que você fez foi inteligente, como sempre. — argumentou aproximando-se e tocando suavemente sua mão. Ela estava fria e trêmula e Rony nem conseguia mensurar o quão desesperador era enfeitiçar os próprios pais como último recurso. – Bem, você os ama e tinha que agir, não? Acho que não existe prova de amor maior do que livrá-los da companhia dos tios do Harry... – Hermione ameaçou sorrir, mas estava triste demais para isto – O importante é que quando tudo acabar nós vamos atrás deles e o feitiço de reversão será tão eficiente que iram se lembrar das suas piores travessuras de infância.
— Eu não fazia travessuras! – afirmou Hermione, esquecendo-se da tristeza.
— É, eu sei. Você é perfeita! – zombou Rony.
***
Gina Weasley andava de um lado para o outro dentro de seu quarto na Toca. A cada minuto parava, roia as unhas, e espiava pela janela além dos jardins. Se ela já estava apreensiva dessa forma só porque seus irmãos foram buscar Hermione em Londres, nem queria supor em que estado estarreceria quando eles partissem para resgatar Harry.
Somente quando três rapazes ruivos e altos, acompanhados de uma garota de cabelos acastanhados, surgiram no limite da propriedade dos Weasley, Gina se acalmou. Mas não se aquietou. Abriu a porta do quarto, desceu as escadas numa correria alucinada e partiu em direção aos jardins alaranjados pelo céu crepuscular, anunciando:
— Hermione chegou mamãe! Eles chegaram!
— Olá pra você também, Gina! – zombou Rony quando Gina passou batido por ele e foi abraçar a amiga.
— Senti saudades, Mione! – saudou a ruiva apertando a amiga calorosamente.
— Eu também, Gina!
— Vem, vamos entrar. Está com fome? Mamãe está preparando um jantar caprichado hoje à noite. – disse, voltando na direção da casa.
— É porque todos vêm aqui hoje. – intrometeu-se Rony caminhando lado a lado com as garotas — O Gui estava me contando. Lupin, Olho-Tonto e uma boa parte da Ordem se reunirão para decidir como resgataremos Harry. Deixa eu levar sua mochila até o quarto da Gina, Mione. – ofereceu-se, estendendo o braço em sua direção.
Hermione estendeu sua única bagagem para os braços longos do amigo, que pareciam crescer um pouco mais toda vez que se reviam.
— Nossa! O que houve com ele? – questionou Gina, quando Rony se afastou para guardar a mala.
Hermione não lhe deu ouvidos. Parecia à Gina deprimida e alheia naqueles poucos segundos de reencontro.
— Quem ficou encarregado de levar seus pais até Dédalo? — quis saber numa coincidência premonitória.
— Eu me encarreguei disso. — disse-lhe a outra muito séria.
Gina foi paciente durante todo o restante da tarde. Há semanas que ela queria apenas um momento a sós para conversar com Hermione sobre seus medos e anseios, dúvidas e... Harry. Contudo, cada vez que Hermione detalhava aos seus irmãos e sua mãe como fez para desmemoriar sua família, menos ela sentia-se capaz de desabafar para a amiga. Seus problemas pareciam quinquilharias de uma adolescente mimada perto dos dela.
Por fim, depois de Rony parar de ser excessivamente prestativo e preocupado com Hermione, as garotas subiram para o quarto a fim de se aprontarem para o jantar de logo mais.
— Você percebeu como meu irmão está... esquisito?... – observou Gina, retirando uma toalha de banho felpuda de dentro do guarda roupa.
— Hum... Não sei... – respondeu a morena descalçando os sapatos para esticar as pernas na cama.
Ela estaria disposta a pensar em tudo naquele dia, exceto na sua estranha relação com Rony.
A caçula Weasley ensaiou o que queria perguntar até a curiosidade não mais deixar. Sentou na beira da cama da outra garota e ficou entrelaçando os longos cabelos ao redor do dedo indicador, pensando num abordagem.
— Você e Rony tem o mesmo cacoete quando querem perguntar alguma coisa, sabia? — a amiga surpreendeu-a encarando seu rosto da cabeceira. — Ficam enrolando os cabelos e apertando os lábios como se estivessem fazendo uma força sobre humana para não deixar as palavras escaparem.
— São só umas coisas que vem me perturbando. — avaliou Gina, então desembuchou — Mione, o que acha que o Harry está fazendo neste momento? Quer dizer, será que ele está bem?
— Harry está seguro, Gina. Sob uma proteção mágica fortíssima da qual nem mesmo Voldemort conseguirá burlar para encontrá-lo.
— Sim... – concordou a ruiva que parecia ainda não ter chegado ao ponto que desejava — Mas eu digo agora? Nós estamos prestes a beber e comer em frente a uma lareira quente, enquanto decidimos o seu destino e ele está lá, com pessoas que o odeiam, tendo apenas Edwiges como companhia para desabafar.
— Embora ame ele de um modo diferente do seu, Gina, eu venho pensado nisso todas as noites desde o início das férias também. O que me consolava era saber que o dia de busca-lo de uma vez por todas da casa dos tios, estava próximo. Agora, pelo que Gui me adiantou lá embaixo, faltam menos de vinte e quatro horas pra isso acontecer.
Havia este tipo de preocupação sim, mas aquela questão estava longe de ser o principal motivo que roubava o sono de Gina todas as noites. Não aguentando guardar tal dúvida pra si, ela perguntou:
— Harry não ficará aqui na Toca, não é? Ele vai partir com meu irmão e você. Estou certa?
— Hã...?! Não! — desmentiu Hermione, flamejando de ódio por dentro. Rony certamente não soube segurar sua língua nos últimos meses. — De onde tirou essa ideia?
— Mione, não é tão difícil assim juntar dois mais dois. — ela revirou os olhos — Rony me contou por alto sobre as Horcruxes... Harry jamais ficaria na aba da Ordem fazendo todos se arriscarem quando existe uma possibilidade sólida dele se encrencar sozinho.
— Rony! Idiota! – gritou Hermione irada, decidida a azará-lo na primeira oportunidade que tivesse.
— Nem adianta culpar meu irmão. Eu fui bem... Convincente, na ocasião. Só tenho um comunicado a fazer, eu vou junto!
— Gina! – exclamou a morena, inconformada — Não piore as coisas. O Harry jamais permitiria e, afinal, será muito perigoso para você.
— Ra-rá! — zombou a ruiva pondo-se de pé com indignação — Porque seria mais perigoso para mim do que será a vocês?! Já chega minha mãe me refreando! O Harry me escondendo as coisas! E agora você me limitando, Mione? Desculpe, mas ainda não tem esse poder sobre mim. — revoltou-se, desvestindo ferozmente a blusa e a calça para ir enrolar-se na toalha de banho sob a cadeira.
— O Harry não permitirá e eu vou apoiar. — rebateu a morena, também de pé. Não havia cabimento mais um deles correndo riscos de vida.
— Na sua situação eu também estaria me sentindo mais conformada, hã?
Os olhos de Gina cintilaram audaciosamente antes de abrir a porta do quarto.
— Que situação??? — Hermione indagou-a corando loucamente.
— Não me faça soletrar, Hermione. É esperta demais para isso. — concluiu a ruiva, deixando-a sozinha no quarto.
***
Rony estava terminando de vestir um suéter leve para descer até a sala quando alguém bateu a sua porta asperamente. Imaginando ser algum dos irmãos, abriu de má vontade e teve a surpresa de Hermione diante dele.
— Oi.
Ela entrou sem ser convidada. Pisava duro, os lábios rígidos e o cenho franzido.
— Feche a porta! — exigiu.
Ainda confuso, Rony obedeceu.
— Como pôde trair Harry e contar sobre nosso combinado? — explodiu.
O ruivo já sabia do que se tratava. Teve ânsias de remorso por ter caído nos joguetes meticulosos da irmã e acabar soltando a verdade sobre os planos deles de partir.
— Eu...
— Sabe o que ela me disse agora, ali no quarto? — Hermione continuava implacável, apontando-lhe o dedo — Que ela vai e ninguém será capaz de impedi-la! Tem noção da burrada que fez?
— Nós vamos despistar ela, Mione. — ele tentou apaziguar o nervosismo da amiga. Grande parte daquela explosão era sua própria frustração pelo destino que deve de dar aos pais. — Ela está forçando a barra para contarmos para ela quando será e como faremos, mas ninguém vai dizer nada.
— Mais nada, você quer dizer. — retrucou a morena de mau humor, indo sentar na cama dele.
Rony enfiou as mãos nos bolsos, ultimamente não sabia o que fazer com elas quando perto de Hermione, e caminhou com suas pernas longas em sua direção.
— Não sei que porcaria a Gina tem na cabeça para ficar tem enchendo com isso. — argumentou, sentando ao lado.
A morena notou a suave colônia que ele usava. O ruivo vinha adquirindo o hábito de perfumar-se desde o ano passado.
— Vamos tentar engana-la e ao mesmo tempo esconder esse fato do Harry. — concluiu não aparentando mais estar zangada.
— Como seria isso?
— Vou tapear ela. Dizer que eu conversei com você e concordamos em leva-la. Porém, teremos que fazer tudo às escondidas do Harry porque se ele imaginar que Gina pretende ir, vai ficar possesso.
— Essa parte não é mentira.
— E, por favor, passe um zíper nessa boca, Ronald Weasley!
— Odeio quando me chama desse modo. — resmungou.
Olhou atravessada e pôde jurar que ser chamado daquele modo realmente chateou-o.
— É só não fazer por onde merecer, Weasley. — ameaçou sorrir.
O amigo devolveu uma careta.
Hermione levantou. Ouviu barulho de aparatações e testemunhou pela janela membros da ordem entrando nos limites da Toca.
— A reunião vai começar.
O amigo pôs-se de pé ao seu lado e suavemente tocou-lhe no ombro. Ela sentiu um longo e delicioso arrepio. Por instinto, acariciou seus dedos. O sentimento de carência tomou seu consciente na ideia de estar praticamente órfã. Sem pais para lembrar-se de seu nascimento, seus momentos de infância, suas características primordiais como ser humano, parecia alguém desprovido de identidade num mar de almas errantes. Ali na Toca, porém, todos a tinham perto do coração. Próxima a Ron então era como se a mágica se fizesse sem o uso do condão, era praticamente a mesma Hermione Granger – metade bruxa metade trouxa.
Quando percebeu já estava agarrada ao amigo, soluçando infantilmente em seu peito. Como esperado foi carinhosamente envolvida num abraço de compreensão. Não pode ver, mas ele esboçava esgar e choque pela sua infelicidade. A dor dela não passou, mas a alma foi parcialmente lavada.
***
Oi pessoas!
Embora tenha bastante gente entrando, como sempre a disposição pra comentar é baixa. Mas estou feliz já, porque duas queridas amigas já deram suas impressões, então vamos às respostas:
Lyanne Targaryen: Oie! Tão bom ter sua companhia mais uma vez. Sim, pode esperar que vou estar intercalando os capítulos com o Severo. Toda a vida dele ficou tão apagada nos livros, dá uma curiosidade danada! BJOS e Muito Obrigada por estar aqui novamente!
Tati Hufflepuff: Ficou curiosa, então aqui está! Acho que vai gostar do capítulo já que ele tá super Ron Mione. Bjs amiga!!
Ps. Não me lembro se em alguma parte até o sexto livro Rony visitou a casa de Hermione. Assim, aqui coloquei como se ele tivesse ido pela primeira vez.