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9. Luta e Libertação


Fic: A Visão Amaldiçoada


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo Sete – Luta e Libertação


 


 


- Rafaela? – Harry gritou


Como se fosse possível, houve ainda mais silencio. O porão estava quase completamente vazio, exceto por uma grossa camada de poeira no chão e caixas de madeira abandonadas a um dos cantos. No chão, um caminho fora desenhado na poeira até o pé de uma escada de madeira, que subia para o andar térreo.


- Lumus.


A varinha de Harry se acendeu e iluminou o caminho. Caminhou até o pé da escada, no alto a porta estava aberta, mas a casa toda estava tão escura que não se podia ver nada através dela. A passos lentos, Harry começou a subir os degraus, seus ouvidos mais atentos do que nunca.


- Não!!!


Harry se arrepiou com o grito que ouvira. Era o gripo mais profundo e desesperado que já ouvira na sua vida. Rafaela parecia estar em extrema agonia. Parou por um instante ao ouvi-lo, temendo ouvir algum feitiço fatal, mas nada aconteceu. Rafaela continuava chorando em algum lugar pelo menos dois andares acima. Voltou a subir a escada e parou brevemente ao chegar no parapeito.


- Rafaela!! – gritou novamente


O choro dela parou por alguns instantes, entao ela gritou – Harry! Vai embora! Corra!! É uma armadilha!! Não suba... – e antes que terminasse a frase, gritou em terror – Não!!!


Harry percebeu que um feitiço fora lançado. Houve um forte baque no chão, e a voz de Rafaela se silenciou.


- Rafaela!!! – Harry gritou, entrando no corredor para onde dava a porta do porão.


A unica luz era de sua varinha e das frestas de uma janela fechada com tábuas de madeira. Ao final do corredor havia outra escada, e Harry correu para ela.


- Quem está aí? – ele gritou olhando para o alto da escada


Mestra... Ele está aqui.


Harry pulou ao ouvir o sussurro e apontou sua varinha para o corredor. Lentamente, vindo na mesma direção de onde ele viera, arrastava-se uma cobra gigantesca. Ao aproximar-se de Harry, Nagini enrolou-se em posição de ataque.


Deixe-me devorá-lo, Mestre...” - Nagini sussurrou novamente


“Traga-o para mim”.


A cicatriz de Harry queimou como se estivesse em brasa. Fechou os olhos, levando as mãos a testa, deixando de olhar para a cobra. Sentiu que ela se aproximara. Nagini enrolou-se às pernas de Harry e, em um movimento brusco, derrubou-o no chão. Mesmo com a dor lancinante na cicatriz, Harry tentou atacá-la com sua varinha, mas ela tinha movimentos estranhamente rapidos para seu tamanho. Nagini o arrastou escada acima, sua cabeça batendo doloridamente em cada degrau, e para dentro do comodo imediatamente em frente, e soltou-o de repente. Harry levantou-se do chão imediatamente, apontando a varinha, que havia se apagado, sem saber exatamente para onde. Acendeu-a novamente, e a visao que teve o fez querer sair correndo, embora tenha ficado estático no chão.


Voldemort estava parado ali. Sua face ficou ainda mais branca à luz da varinha. Sorria, mas seus olhar era duro feito pedra. Tinha, em cada lado, a companhia de Peter Pettigrew e Bellatix Lestrange. Peter tremia no lugar e estava um tanto encolhido, mas seu olhar tamém era duro na direção de Harry. Bellatrix balançava-se no lugar, mexia nos cabelos emaranhados, passada a língua pelos lábios, na excitação pelo que estava para acontecer. Em volta deles, no fundo da sala, havia mais três comensais mascarados. Todas as varinhas estavam apontadas para Harry. Aos pés de Voldemort, Rafaela estava caída e desacordada, um filete de sangue escorrendo pela boca e pelas narinas. Harry não conseguiu ter certeza se ela estava viva.


- O que você fez com ela? – ele perguntou controlado, porém ainda com a mesma terrível dor na cicatriz


Bellatrix riu com sua voz aguda. Harry sentiu um ódio queimá-lo por dentro ao encará-la. Porém, ao invés de dizer qualquer coisa, apontou sua varinha na direção da janela.


- Periculum!


Um jorro de luz vermelha voou janela afora. A maioria olhou espantado para ele, porém Voldemort continuou sorrindo.


- Pedindo ajuda, Potter? – ele sibilou – Não quer ter a honra de me enfrentar sozinho?


- Você não está sozinho, por que eu estaria? – ele perguntou – Se quer que eu te enfrente sozinho, livre-se dos seus escravos.


Pettigrew mudou a expressão de medo para raiva e apontou para Harry a mão prateada.


Altos sons de estalos irromperam pelo cômodo. Os comensais apontaram suas varinhas a esmo, sem entender o que estava acontecendo. Voldemort também ergueu a sua, apontando diretamente para Harry, sem tirar os ohos dele.


Dumbledore aparatara bem ao lado de Harry. Tonks apontava sua varinha direto para Bellatrix. Ronald e Hermione ficaram lado a lado, apontando na direção dos comensais, e Remus estava ao lado de Dumbledore, a varinha também preparada. Voldemort já não sorria. Olhava com ódio para Harry e Dumbledore, ambos com as varinhas apontadas para ele.


Ronald, Hermione e Tonks, sem precisar combinar, começaram a gritar feitiços na direção dos comensais. Remus tentou, abaixando-se, chegar até Rafaela, mas objetos explodiram pelo quarto e fumaça negra encobriu a visão, impedindo-o. Passou a duelar com os outros. Nenhum comensal foi rápido o suficiente para reagir. Apenas Bellatrix ficou em pé, agora a varinha apontando também direto para Harry. Quando ela a ergueu para ataca-lo, Remus deu um passo á frente.


Avada Kedrava!


Uma luz verde voou de sua varinha para o peito de Bellatrix. Voldemort deu vários passos para trás, tentando fugir do feitiço. Bellatrix caiu aos seus pés, olhos arregalados em terror. Morta, metade se seu tronco sobre o corpo de Rafaela. Voldemort olhou dela para todos os outros, também caídos, para Wormtail, encolhido a um canto, apavorado e, por fim, encarou novamente Dumbledore e Harry.


- Muito bem... – ele disse, os olhos arregalados em loucura – Vocês sabiam. Isso não teria acontecido se vocês não soubessem.


- É claro que saíamos. – respondeu Harry – Seu plano foi menos inteligente do que pensou, Tom. Acabou.


- Quem? – ele disse como se não o tivesse ouvido – Quem foi o traidor? – ele disse movendo seus olhos na direção de Wormtail


- Não... – ele tremeu – Eu não fiz isso, mestre, não fui eu, nunca! Eu não o traí, Mestre, eu juro!


- Não foi ele. – disse Harry – Foi Rafaela. Você devia ter vergonha de a sua própria “arma” ser mais esperta que você, Tom. Ela mesma nos contou.


Dumbledore deu um passo á frente, ficando mais proximo de Voldemort.


- Está acabado, Tom. Abaixe sua varinha..


Voldemort olhou novamente de Harry para Dumbledore, e encarou as duas varinhas, bem como a de todos os outros, apontadas para ele.


- Albus – ele disse – Você não acredita de verdade que isso vá acontecer, acredita?


Um jorro negro voou de sua varinha, encobrindo quase toda a vista. Ouviram-se feitiços ininteligíveis, as vozes de Harry, Dumbledore e Voldemort gritando, estouros e raios. Os outros apontavam suas varinhas na mesma direção, mas não atacaram. Remus correu até Ronal e Hermione, empurrando-os para o chão, e ficou na frente deles. Tonks também se abaixou, ainda apontando a varinha na direção na núvem negra.


Com um último som de choque, a fumaça se dispersou. Dumbledore e Harry ainda apontavam suas varinhas para Voldemort, que estava quase encostado à parede do fundo. Sua mão branca e magra, ainda segurando a varinha, estava caída sem vida. Ele olhou novamente de Harry para Dumbledore, e encarou as duas varinhas, bem como a de todos os outros, apontadas para ele.


- Harry Potter... – ele voltou a dizer – Você ainda me subestima.


Uma nuvem de fumaça negra surgiu em seu lugar e ele desapareceu. Harry e Dumbledore atacaram, mas não a tempo, e acertaram apenas a parede do fundo da sala. Wormtail também desaparecera, ficando apenas os corpos dos comensais e de Bellatrix no chão.


Aos pés de onde ele havia desaparecido, Rafaela continuava parcialmente embaixo de Bellatrix. Remus se levantou se onde estava protegendo Ronald e Hermione e correu até ela. Empurrou de qualquer jeito o corpo da comensal e virou Rafaela de frente, colocando a mão em seu pescoço para checar o pulso. Viu que ela ainda respirava. Em um instante, Rafaela se moveu, ainda de olhos fechados, e começou a se levantar lentamente. Hermione correu e abraçou Harry, chorando, e o sentiu trêmulo e ofegante. Dumbledore apontou a varinha para a janela e seu patrono saiu voando por ela.


Rafaela ficou em pé, em silêncio. Parou encarando a parede, de costas para todos. Remus se levantou e se aproximou.


- Rafaela, você está bem?


Lentamente, ela se virou e Remus viu seu rosto. Andou depressa de costas, voltando para perto dos outros.


- Essa não é ela! – gritou


Rafaela tinha o rosto enxarcado de sangue, contorcido em um sorriso malicioso, os olhos sem piscar, vermelhos e de íris verticais. Lentamente ela levou a mão os rosto e tirou os óculos, jogando-o com força no chão, e moveu a cabeça para um ãngulo estranho, estalando seu pescoço.


- Eu disse... – ela começou – que vocês me subestimavam.


Sua voz parecia saída direto de sua garganta, uma mistura da voz dela mesma com o sibilar agudo de Voldemort.


- Vai continuar sendo fraco como foi no Ministério, Dumbledore? – ela perguntou – Quando podia ter me matado pra preferiu proteger seu pupilo? – ela disse ficando de frente para Albus, os braços abertos – O corpo dela deve valer menos, não é?


Dumbledore e Harry se entreolharam, sem saber o que fazer. Soltando uma gargalhada frita e alta, Rafaela levantou uma das mãos até o próprio pescoço e cravou ali suas próprias unhas, arranhando-se inteira.


- Pare! – Harry gritou – Deixe-a em paz!


Rindo mais, Rafaela agarrou as próprias vestes e as puxou, rasgando e capa e parte da camisa que vestia por baixo, quase ficando nua. Arranhou-se violentamente ali também, no colo, e filetes de sangue começaram a brotar.


- Façam alguma coisa! – Hermione gritou desesperada do fundo da sala


Remus correu até Rafaela e segurou seus braços para trás. Ela gritou e tentou se debater, Remus a segurou com toda a força. Harry e Dumbledore se aproximaram, apontando suas varinhas para ela.


- Rafaela! – Harry disse, olhando nos olhos de Voldemort. Sua cicatriz parecia queimar-lhe até o cérebro, mas ele resistia – Ele já fez isso comigo, Rafaela, você ainda pode ter o controle! Eu sei que pode me ouvir!


Rafaela riu olhando pra ele, enlouquecida – Ela está um pouco ocupada agora, Potter!


- Expulse-o, Rafaela! – Harry gritou mais uma vez – Você o enfrentou durante quase um ano, você pode fazer isso!


- Ela é uma fraca!!! – ela gritou, tentando mais uma vez se desvencilhar de Remus que a segurou com ainda mais força – Eu a vi por dentro, ela não tem nada! Nada!


- Ela tem a nós!!! – Hermione gritou, se aproximando alguns passos – Rafaela, nos ouça!


- Vocês perderam, seus fracos! Vocês vacilam e ainda acreditam que esse sentimento lhes faz bem! Não são capazes de matar alguém que a menos de um ano nem conheciam! – ela disse e voltou a rir, se debatendo


- Você não é fraca, Rafaela! – Harry voltou a falar – Não dê ouvidos a ele, pense em tudo o que você é capaz, pense nas pessoas que você ama, em tudo o que tem de bom. Você pode vencê-lo!


Ela se calou de repente e o sorriso desapareceu, dando lugar a uma expressão de fúria. Gritou, e a voz de Rafaela foi mais forte que a de Voldemort.


- Rafaela – disse Remus, segurando-a por trás – me ouça, não dê ouvidos a ele, ouça apenas a minha voz. – ele disse alto perto do ouvido dela – Esse é o seu corpo, é a sua vida, tome o controle.


Ela começou a se debater em convulsões, os olhos reviraram e seus gritos deram lugar a gemidos angustiados.


- Você não está sozinha, ele está! – Remus continuou – Você tem muito mais do que ele, ele é quem não tem nada. Você tem a todos nós, estamos todos com você, seja forte! – ele gritava, sua voz sobressaindo aos gemidos de Rafaela


Parou de se debater, os olhos ainda virados em ãngulos distantes, mais sangue brotando se sua boca.


- Você consegue, seja forte, eu estou aqui... – Remus disse mais baixo ao seu ouvido


Esticando cada músculo de seu corpo, Rafaela deu um grito. Harry recolheu a varinha e se encolheu, assustando-se, assim como Hermione e Ronald, que sentiram vontade de correr porta afora. Remus ainda segurava os braços de rafaela com força em suas costas quando o grito cessou e seu corpo amoleceu. Do peito de rafaela, fumaça negra começou a brotar, com um som alto de sibilar de cobra, e voou rápido janela afora.


Dumbledore, quardando sua varinha, ajudou Remus a colocar Rafaela no chão e a olhou de perto.


- Vulnera Sanentur... – começou a murmurar sobre ela.


O sangue que agora a encobria começou a desaparecer, mas Rafaela não se movia.


- Talvez ela não tenha se libertado a tempo...


 


* * *


 


Rafaela acordou, mas teve medo de abrir os olhos. Tentou entender onde estava. Sentiu que estava deitada em uma cama muito confortável e quente, o travesseiro macio debaixo de sua cabeça, que mesmo assim doía. O silêncio era completo á sua volta. Atreveu-se a abrir bem pouco os olhos. A vista estava embaçada, mas pôde perceber que estava em um cômodo grande e pouco iluminado por alguns archotes nas paredes. Piscou. Sua vista clareou um pouco.


Encontrava-se, pôde finalmente reconhecer, na Ala Hospitalar do castelo. Moveu-se um pouco e a cabeça reclamou de dor. Tentou lembrar-se do que havia acontecido, agora mais imóvel do que antes.


Hermione e Ronald não haviam reagido, quando ela sabia que eles seriam muito capazes disso. Ela os enfeitiçara. Sentiu um frio na espinha. Enfeitiçara os próprios amigos, sem poder relutar.  Ela os atacou, porém não os tentou matar. Ela não poderia fazer aquilo, jamais, e ninguém que sabia da situação esperava que ela fizesse... Mas ele esperava, e prometera castiga-la caso não fizesse. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Ela pedira socorro a Harry, como o combinado, e ele foi até ela. Ouvira sua voz ao se aproximar, mas então... Tudo se apagou. Toda a dor e desespero que sentia pararam, mas conseguiu se recordar de imagens difusas, misturadas e sons assustadores em sua mente. Sabia que em algum momento lembrara-se do pai indo embora, saindo pela porta sem ao menos olhar para ela, dos dias em que ficava sozinha em casa quando a mãe estava fora e não tinha tempo para ela, de colegas rindo dela na escola por estudar demais, de ver o namorado com outra bem diante de seus olhos, de corpos jogados empilhados à calçada na frente do palácio, do amigo sendo atingido por um feitiço e caindo à sua frente, dos olhos maldosos do comandante ao enfrentá-la, do corpo dele no chão sem vida enquanto ouvia repetidas vezes “sua mãe já está morta”, de Snape enfeitiçando-a, da dor de tantos cruciatus...


Sentindo as lágrimas escorrerem pesadamente do rosto para o travesseiro, Rafaela continuou tentando se lembrar. Ouvira as vozes dos amigos em algum lugar muito distante, e outras lembranças haviam tomado sua mente. Tocava piano na frente de uma platéia e a escola inteira a apludia, ria com uma turma grande de amigos dentro de uma sala de aula, abria uma caixa em frente a uma árvore de natal e via um cachorro olhar para ela, abraçava a mãe e sentia seu cheiro de lavanda, dançava com os amigos no baile, ria com eles na sala comunal, sentia a mão de Remus em seu ombro e o ouvia dizer “seja forte, eu estou aqui”.


Então tudo se apagou e não conseguiu lembrar de mais nada, por mais que tentasse. Agora ela estava ali, na enfermaria, a confusão a deixando trêmula e enjoada. E se algo tivesse acontecido aos amigos? E se aquela finalmente tivesse sido a última batalha? Rafaela sentiu mais lágrimas brotarem de culpa. Mesmo com a cabeça latejando de dor, forçou-se a sentar, e se apoiou nos cotovelos. Olhou para as outras camas. Parecia não haver ninguém em toda a ala.


- Que bom que está bem... – disse uma voz rouca na penumbra – Esteve desacordada por quase duas semanas.


Rafaela olhou para a cama à sua esquerda e o viu. Remus Lupin estava sentado ali, dando-lhe um leve sorriso, mas com ar cansado, umas das mãos enfaixada. Sem que esperasse, uma onda de choque e soluços a invadiu e, mesmo que tentasse segurar, não foi capaz. Começou a chorar feito criança e voltou a deitar. Escondeu a mão no rosto, virando-se de costas para Remus, seu choro agora um tanto descontrolado. Era um desespero que estava guardado havia meses.


Remus não disse nada. Em alguns segundos, Rafaela sentiu seu peso ao se sentar na cama, ao lado dela. Colocou a mão em seu ombro e ela, mais uma vez, sentiu seu calor. Rafaela queria falar, mas ao mesmo tempo não sabia o que dizer. Apenas permitiu-se chorar tudo o que era necessário para aliviar a dor.


- Está tudo bem... – ouviu o sussurro de Remus – Vai ficar tudo bem.


Ele apenas esperou. Rafaela, aos poucos, se controlou, mas continuou a soluçar. Não quis olhar para Remus, não sabia se teria coragem de olhar nos olhos de mais ninguém, nunca mais.


- Não sei se você percebeu... – ele disse, ainda com a mão sobre seu ombro – que você não está de óculos... E pode ver.


Rafaela parou de chorar imediatamente, os olhos ainda inchados e escorrendo as últimas lágrimas. Lentamente, tocou o próprio rosto.


Estava livre.


Em um ímpeto, olhou para Remus, assustada – Como? Como... Como foi? – gaguejou sem voz


Remus deu um sorrisinho de leve – Está tudo bem... De certa forma.


- De certa forma?


Rafaela se sentou, encostando-se aos travesseiros, e Remus continuou ali.


- De certa forma. Esperávamos que tudo fosse acabar, mas isso não aconteceu. Ele ainda está vivo.


- O que aconteceu?


- Você não se lembra de nada?


- Ahm... – ela pensou – Algumas coisas meio confusas, mas... Eu não sei, me lembro na verdade de coisas que tenho certeza que não aconteceram ali, e sim muito antes...


- Deixe-me adivinhar... Todas as suas lembranças ruins vieram à mente.


- Sim... Como sabe?


Remus respirou fundo antes de falar novamente – Voldemort a possuiu. Por alguns minutos você já não era você mesma. Mas você foi forte, você lutou contra ele e ele fugiu.


Rafaela não conseguiu dizer nada, chocada, olhando de olhos um pouco arregalados para Remus.


- Todos os Comensais que estavam lá pereceram, Tonks, Ronald e Hermione foram incríveis ao acabar com eles tão rapidamente. Éramos muitos de nós, ele não quis mais riscos. Prefere duelar com Harry sem contratempos.


Rafaela o olhou em silencio, seu olhar pedindo por mais informações. Ficaram assim por alguns segundos, e algumas lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto dela.


– Ele não… Vocês… Vocês todos devem me odiar.


 Remus não pôde deixar de rir, olhando-a carinhosamente – Não, Rafaela. Ninguém odeia você. Você foi uma vítima e litou bravamente.


Ela sorriu levemente no meio das lágrimas, sem deixar de olhar para ele.


- Ele acredita que um dia poderá vencer Dumbledore, e acredita que poderá destruir Harry... Mas é inteligente o suficiente para saber que não tem chance contra os dois ao mesmo tempo. Quando ele notou que os Comensais estavam mortos, fez a última tentativa de nos enfraquecer, ao tomar seu corpo. Desafiou Harry e Albus a matar você para tentar matá-lo.


- E eles conseguiriam? Se me matassem, teriam matado também Voldemort?


- Não temos como saber isso. Mas mesmo que fosse certeza absoluta que Voldemort morreria dessa forma, eles não o teriam feito.


- Talvez devessem... – ela disse, baixando a voz e o olhar


- Não, Rafaela, eles não deviam. Vencer dessa forma não seria uma vitória completa. Se essa era a única forma, então o momento ainda não havia chegado.


Rafaela fez silêncio por alguns instants, repensando tudo o que havia acontecido.


- Eu não entendi… Como Ronald e Hermione estavam lá?


- Fizemos uma adaptação de última hora no plano. Você não estuporou Hermione e Ronald, voc~e estuporou Fred e George. Não se preocupe. – Remus interrompeu Rafaela antes que ela falasse – Tonks os encontrou e os trouxe de volta, eles vieram para a enfermaria mas foram liberados rapidamente. Eles teriam lutado, mas sabiam que serem atacados era parte do plano para que Voldemort acreditasse que tudo estava certo, até o último momento.


Rafaela apoiou os cotovelos nos joelhos e secou o rosto.


- Então… Acabou. Por agora, pelo menos, mas… Acabou. Ele não está mais na minha mente. – e olhou novamente para Remus – Não tem ninguém vendo através de mim e me torturando?


- Não. Não há. Você está livre.


Ela sorriu, molhando novamente o rosto com lágrimas. Remus também sorriu.


- Você é um doa que sabiam sobre isso o tempo todo, não é? – ela perguntou


- Sim. Eu sempre soube.


Rafaela sorriu, lembrando-se da noite de sua primeira detenção, quando ele apertara seu ombro demonstrando apoio. Sem saber como, sabia que ele também se lembrava disso.


- Eu sabia… Você sempre conseguiu dar um jeito de me mostrar que estava lá... E eu sentia isso. Não consigo nem dizer o quanto isso foi importante pra mim.


Remus sorriu de leve e encontrou a mão de Rafaela, que ainda estava gelada. O calor da mão dele pareceu aquecê-la por completo.


- É uma pena que isso foi tudo o que pude fazer para ajudar. Teria feito mais se pudesse. – sua voz agora quase não passava de um sussurro – Mas fico feliz em saber que você pôde sentir isso.


- Eu... Eu senti.. – ela também disse em um sussurro e segurou mais firmemente a mão dele


Em algus instantes, Remus baixou o olhar para as mãos deles e respirou fundo, sem mais saber o que dizer. Rafaela entendeu que, por mais importante que ele tivesse sido para ela durante todo aquele tempo, ele ainda era seu professor e que aquilo não era apropriado. Ainda assim, não pôde se forçar a soltar. Pensativo, Remus fez um carinho breve na mão dele a soltou devagar.


- Bem... – ele disse lentamente – Eu vou buscar Madame Pomfrey... Ela quer te checar antes que possa liberá-la.


- Você está bem? – Rafaela perguntou antes que ele se levantasse – Sua mão.


- Ah, está tudo bem. – ele disse levantando a mão e mostrando as bandagens – Só uma ferida feita por um feitiõ que mal encostou. O último daquela… Bem, da Bellatrix.


Houve mais um segundo de silencio, em que Rafaela sorriu novamente para Remus.


- Eu posso olhar nos olhos das pessoas agora. Eu tinha medo de olhar.


Remus aproximou-se poucos centímetros, olhando-a profundamente nos olhos – Agora posso ver o seu olhar.


Rafaela tremeu, com vontade de jogar qualquer cautela para o alto, mas continuou apenas parada, olhando para os olhos de Remus a sorrir. Ele também não desviou o olhar e buscou a mão dela mais uma vez, como se tivesse esquecido tudo o que pensara instante atrás.


- É bom poder ver os seus olhos pela primeira vez. – ele sussurrou


As portas da ala hospitalar se abriram. Dumbledore apareceu no patamar. Parou onde estava e olhou para Rafaela e Remus no fundo da ala, sentados na cama de mãos dadas. Observou-os por um segundo por cima dos óculos de meia lua. Remus soltou discretamente a mão de Rafaela. Depois, Dumbledore sorriu.


- Vejo que está bem, Srta. Salles. – disse voltando a andar


Atrás dele entraram Harry e Snape. Harry olhava com certa curiosidade para Rafaela, mas não sorriu. Snape parecia o mesmo homem duro e impassível que torturara e amedrontara Rafaela durante todo o ano. Remus havia ficado em pé e todos pararam em volta da cama.


- Harry... – ela disse, seu sorriso anterior se perdendo – Eu não queria que nada disso acontecesse, se eu pudesse ter feito alguma coisa, eu quero que você sabia que eu faria, qualquer coisa, mas eu não tive escolha.


- Eu sei disso. – ele disse, como se fosse obvio – Ele a obrigou, eu sei.


Rafaela apenas fez que sim com a cabeça, os olhos molhados novamente, e baixou o olhar. Sabia que Harry entendia, mas o olhar dele não era o mesmo olhar do amigo que tivera durante todo o semestre. Aquilo doeu em Rafaela como se ele a tivesse xingado.


- Como se sente? – perguntou Dumbledore


- Minha cabeça dói...


- Tenho certeza que madame Pomfray pode ajudá-la. – ele respondeu – Vejo que o professor Lupin já a inteirou de tudo o que aconteceu.


Ela concordou com a cabeça – Sim... Ele me contou que voldemort escapou mais uma vez.


- Sim. Mas for a isso, tudo acabou bem. Ninguém ficou gravemente ferido, além de você, é claro, mas sempre tivemos a esperança de que você acordaria em breve. Lutar contra uma possessão como lutou drena completamente as energias de qualquer bruxo. E você... Bem, Rafaela, você fez um ótimo trabalho.


Ela o olhou assustada. A última coisa que esperava, naquele momento, era um elogio.


- O quê?


- Você guardou um segredo terrível e sofreu feitiços de tortura todos os dias por quase um ano, você o ouvia dentro de sua mente e sabia que estava vigiando cada passo que dava. Você resistiu, Rafaela, bravamente, você manteve a situação por tempo suficiente para podermos evitar uma tragédia. Você não tem motivos para se sentir assim. Você lutou bravamente, e agora está livre.


Rafaela ficou um pouco sem reação. Não havia pensado por aquele lado. Olhou para Harry e Remus. Acabara de ser muito elogiada por Albus Dumbledore, e ficou sem palavras para responder. Snape continuava com sua expressao impassivel, e não tirava os olhos de Rafaela. Rafaela o olhou e desviou o olhar imediatamente, incapaz de olhá-lo nos olhos.


- Muito bem! – disse Dumbledore, batendo as mãos – Estamos todos bem, por agora tudo está em paz. Rafaela, vou pedir para que Madam Promfray venha lhe ajudar com essa dor antes que você possa ser liberada. Vamos esperar que tudo corra bem até o final do semestre. Pode não parecer, mas vocês alunos ainda têm dois meses de escola a cursar.

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