Harry ouviu uma campainha bem distante. Apesar de ouvi-la, não foi o bastante para acordá-lo do sonho. Sabia que estava sonhando, que não era real, mas não conseguia acordar.
A cela era escura e fria e, em seu sonho, achava que passaria anos ali, mas, estranhamente, não estava incomodado com isso. O que o preocupava era Gina de pé do lado de fora de sua cela, com uma barriga enorme de uma gravidez adiantada. Esperava um filho seu. Ele começou a suar. Rony, de longe, apontava para ele e ria, e Gina o incriminava, magoada.
O som da campainha ficou mais forte, semelhante a um grito, e ele acordou de repente. Seu coração batia acelerado e seus músculos retesados. Estava bem excitado. Era inacreditável. Passou a mão no rosto e respirou fundo diversas vezes. Lentamente, ele foi se acalmando.
Os lençóis se encontravam enrolados nas pernas e estava tão quente que parecia estar dentro de uma fornalha. O sonho e a sua reação não faziam sentido, e, mesmo que fizesse de alguma forma, não entendia os motivos. Não queria saber seu significado e nem queria pensar nas sensações estranhas que Gina o fazia passar. Era Luna quem estava grávida, e Harry só faria o que planejara fazer. Salvaria seu irmão da armadilha, protegeria Gina, mas não a tocaria. Portanto, não havia a menor chance de o sonho se transformar em realidade.
Mesmo assim, sentiu o suor escorrendo pela testa. O despertador na mesinha de cabeceira continuava a tocar e, como se estivesse drogado, ele o alcançou. Ainda não eram 5h da manhã e ele havia combinado de se encontrar com Gina às 6h. Hoje era o dia. O seu coração ainda batia forte pelo efeito do sonho, que, na verdade, havia sido um pesadelo. Harry passou a mão pelos cabelos, para tirá-los do rosto. Chutou as cobertas e deixou que o ar frio da manhã varresse o seu corpo nu. Num instante, o suor do corpo secou e ele gelou só de pensar no dia que teria pela frente.
Harry pretendia sequestrar Gina Weasley. Tinha feito o possível para encontrar outra solução desde a noite do arrombamento, outra forma de proteger Gina e também Neville. Mas não tivera nenhuma ideia diferente. Gina se recusava a tirar férias, e não queria tomar precauções necessárias que garantissem a sua segurança. Para ele, só havia uma solução.E, por isso, andava muito nervoso.
Todos que conheciam Gina sabiam que ela reagiria muito mal se fosse mantida prisioneira. Ela ficaria furiosa. Só para conseguir instalar o sistema de alarme na casa, ontem, já havia sido uma luta. Contratara a melhor empresa de segurança, ele mesmo havia conversado com os técnicos e escolhido o projeto. Ela se sentira afrontada e só acabara cedendo por causa da sua incontestável experiência no assunto. Harry fizera questão de que a instalação fosse feita naquele mesmo dia, para não correr o risco de Gina mudar de ideia.
Gina era sempre insensível, teimosa e independente ao extremo. Não seria uma vítima muito fácil, e, do jeito que a coisa ia acontecer, como um sequestro de verdade, com seu estilo sarcástico e venenoso ela poderia acabar se machucando. Não que ele fosse machucá-la. Ele não batia em mulher, e a simples ideia de magoar Gina o deixava preocupado. O que ela já passara na vida já havia sido mais do que suficiente.
Pobre Gina. Tinha um irmão que a ridicularizava diante dos funcionários e uma irmã caçula que só pensava em si mesma. Não havia sido à toa que se tornara uma mulher tão dura. Precisou sobreviver aos chacais, gente interessada em usá-la sem remorso.
E ele estava ali para fazer exatamente o mesmo. Sempre achara que havia dois tipos de famílias. A do tipo que ele e o pai tinham, baseada em coragem, resistência e compromisso. Pessoas que se preocupavam com a própria sobrevivência, e que se protegiam, pois só tinham um ao outro. A ligação entre eles era profunda. E também havia outro tipo, aquele que era cheio de amor e carinho.
Crianças brincando, cachorros latindo, churrasco no quintal e passeios aos parques de diversão.
Agora ele se dava conta de que havia diversos tipos de família, porque Gina não se enquadrava em nenhum daqueles que ele conhecia. Ela era bem forte, mas não tinha o respeito e a dedicação da família porque não nascera homem.
Nem ela tivera amor e carinho. Talvez isso nem existisse. Poderia ser apenas uma coisa que ele evocava na sua mente quando tentava imaginar como seria sua vida se tivesse vivido com a mãe. Tivera sorte de o pai ter ficado com ele, sorte que o pai soubera ensiná-lo como sobreviver no mundo.
Harry conferiu o relógio mais uma vez. Dentro de uma hora ele pegaria Gina. Ela estaria esperando ter um dia todo de prazer e ele ia lhe dar o maior susto da sua vida. Mais do que tudo, ele gostaria de poder ir embora, e esquecer Gina e sua família maluca. O sonho ridículo que acabara de ter não significava nada, não importa o quanto ele havia se angustiado, tinha sido apenas um sonho. Ele não se importava com ela, mesmo a desejando ardentemente. Queria protegê-la. Por algum motivo, havia uma química inexplicável e indiscutível entre eles.
Não seria fácil com os problemas que surgiam a toda hora, mas ele daria um jeito de as coisas funcionarem a contento. E, com Gina longe e em segurança, ele se concentraria em resolver a situação de Neville.
Harry se perguntou se Rony não estaria usando o caso do desfalque só para distrair a atenção de Gina da empresa. Até agora, não ouvira Gina comentar nada sobre o desfalque, então talvez ela nem soubesse da traição de Rony. Ou, quem sabe, ela chegara bem perto de descobrir os métodos pouco ortodoxos do irmão. Gina levava suas obrigações na empresa muito a sério, jamais concordaria em armar falsas evidencias.
Será que Rony temia que ela descobrisse tudo?
De uma forma ou de outra, Harry tinha certeza de que Gina estava correndo risco de vida. Como sabia que Rony estava prestes a incriminar Neville, não lhe sobrava muito tempo para agir. Ele tinha que examinar os arquivos e descobrir o verdadeiro culpado pelo desfalque, urgentemente. Sequestrar Gina era sua única saída, a única maneira de resolver as duas questões de uma só vez.
Gina não iria gostar nada disso, e nem compreenderia seus motivos. Mas Neville entenderia, pois sabia que era agora ou nunca. Ele não tinha escolha. Ele agora cuidava do irmão assim como o pai cuidara dele, independentemente dos sentimentos ou conflitos. No entender dele, esse era o verdadeiro espírito de família.
Resoluto, Harry saiu da cama e foi para o chuveiro.