Capítulo Seis – A Verdade
Todos resolveram passar o Natal na escola. Os irmãos Weasley não poderiam ir com os pais até a Alemanha, onde estavam indo visitar uma prima distante de segundo grau de Arthur. O castelo ficou quase vazio, os Slytherins foram pra casa e a paz reinou. Todos os membros da Ordem da Fênix enviaram presentes para Harry, Hermione e os Weasley. A ceia aconteceu no salão principal, com apenas onze alunos que haviam ficado e alguns dos professores, entre eles o diretor Dumbledore.
Severus Snape não ficou no castelo. No dia em que estava de saída, Rafaela foi forçada a procurá-lo mais uma vez pela voz em sua cabeça.
- Ficarei fora do castelo até que as aulas voltem. – ele começou assim que ela entrou em seu escritório, caminhando bruscamente em sua direção. Rafaela se assustou e colou-se à parede. Pôde ver a face raivosa do professor bem próxima da sua – Não tente nenhuma graça. Ele estará observando, lembre-se disso!
Rafaela tremeu no lugar e não respondeu.
- Quando eu retornar prepare-se para os planos. Eu estarei com o mestre nesses dias e tudo deverá acontecer logo. Esteja preparada.
- Não... Eu não quero, não... – Rafaela disse num fio de sua voz trêmula, antes que pudesse se conter
Snape se enfureceu e segurou Rafaela pelo rosto, com força. Ela arregalou os olhos e deu um grito de dor
– Você não tem escolha, sua preta de sangue ruim! – Snape gritou a centímetros do seu rosto – Você quer a tortura e a morte daqueles lá no seu país de merda? Quer que todos descubram que você trouxe Lord Voldemort para dentro de Hogwarts?
Rafaela, apavorada, fez que não com a cabeça, suas lágrimas escorrendo até as mãos do professor.
- Então deve obedecer! – disse empurrando-a com violência para o lado. Rafaela caiu de costas no chão e imediatamente se arrastou, chorando, para o canto. Snape apontou sua varinha – Talvez você ainda não tenha entendido o que significa tortura. Você vai precisar sentir na pele para entender e evitar que outras pessoas passem por isso?
- Não! – ela gritou
Snape foi até ela e agarrou seus cabelos, levantando-na. Rafaela, gemendo de dor, segurou a mão de Snape perto de sua cabeça, para tentar fazer doer menos. Ele a chacoalhou com força, como quem brinca com uma boneca de pano, e ela gritou mais.
- Sangue ruim imunda, você nunca vai desrespeitar as ordens, está claro?
Ela gritou quando ele a jogou bruscamente no chão mais uma vez.
- Você sabe o que merece, pirralha. Não se questiona os desejos do Lord das Trevas. – ele disse e a olhou por um segundo, o olhar satisfeito, e estendeu sua varinha. - Crucio!
Rafaela não conseguiu gritar. Sentiu uma onda de dor ainda mais forte do que as que vinha sentindo todos os dias. Debateu-se no chão, desejando a morte. Ouviu risos em sua mente. Quando Snape desviou a varinha de sua direção, a dor parou, deixando rastros. Ofegante, Rafaela tentou se levantar, mas seus braços tremeram tanto que não conseguiu. Sua cabeça rodou e ela vomitou no chão do escritório. Então ela o olhou e seus olhos não eram mais os mesmos. Ela sorriu, os olhos vermelhos, e disse numa voz sibilante:
- Mais!
Snape não demonstrou nenhum instante de hesitação. Apontou novamente a varinha.
- Sim, mestre.
Em seguida ela estava de volta e chorava de desespero. Snape erguei a varinha e a desceu no ar. Um som de chicote cortou o escritório e Rafaela foi golpeada. Ela sentiu sangue brotar dentro de suas vestes, na altura do abdome. Snape a golpeou mais algumas vezes, tantas que ela perdera a conta e já não conseguia mais gritar. Quando Snape viu o sangue escorrer de suas roupas para o chão, decidiu que era o suficiente.
- Não posso matá-la ainda, mestre. – ele disse, ofegante
Finalmente com o escritório em silêncio, Snape apontou a varinha para ela e, mais uma vez, usou um feitiço para curar os ferimentos. Rafaela, depois de alguns segundos, ainda procurando pelo seu fôlego, conseguiu levantar a cabeça e olhar para ele, apavorada.
Snape estava em silencio. Pegou uma maleta que estava sobre sua mesa e dirigiu-se à porta.
- Limpe esse chão.
* * *
- Isso é realmente necessário?
Remus encontrou Snape a alguns metros de seu escritório, onde já não poderia ser ouvido por Rafaela ou por Voldemort. Ele seguira a aluna até lá, vários minutos antes, e ouvira tudo.
– Você tem dúvidas disso? – perguntou Severus
– Eu sei o quanto é necessário que você atue na frente dela, mas você acabou de torturá-la!! – Remus disse com raiva, levantando a voz – Ela não merece isso!
– Está achando que isso não é justo?
– Não é justo com ela! Você ainda vai matá-la!
– Pode não ser justo mas eu não tenho escolha. Você imagina o que é estar na minha posição? Ela não é a única que está em perigo. Eu estou, a Ordem está!
– Você me faz questionar por um momento se está mesmo atuando, Severus.
– Que bom que faço, Lupin. Ela não será morta... Pelo menos por enquanto. Fique fora disso. Até que tudo acabe, sua namoradinha vai ter que sofrer as consequências, e não tem nada que você possa fazer quanto a isso.
Apressado, Snape saiu pelo corredor com sua capa voando atrás de si. Remus continuou parado por um instante, lutando contra seu instinto de correr até o escritório e socorrer Rafaela. Vencido, voltou para o Salão Principal pelo caminho de onde viera.
* * *
Rafaela deixou o escritório cambaleante e transtornada. Sabia que Snape a ameaçava por obrigação para manter o plano nas conformidades, porém se assustara de verdade. Fora agredida e ameaçada pelo professor, sabia que ele estava atuando bem demais. O castelo estava quase deserto e não encontrou ninguém até subir das masmorras de volta para o hall de entrada do castelo. Agradecia internamente por isso. Ainda não conseguira parar de chorar e seu corpo doía, embora muito menos agora, em cada centímetro. Subiu as escadas de mármore desejando que não encontrasse ninguém também no caminho para a sua casa.
- Oi, Rafa! - ela se virou e viu George caminhando alegremente em sua direção – Não foi pro Brasil passar o natal?
Sem que pudesse evitar, Rafaela começou a chorar compulsivamente parada em seu lugar, escondendo o rosto nas mãos.
- O que foi, Rafa? – ele perguntou se assustando e acelerou o passo até ela – O que aconteceu? Calma... – e a abraçou
Rafaela chorou em seu ombro, aceitando o abraço e mal podendo falar. George conseguiu distinguir as palavras “mãe”, “natal” e “comigo”.
- Eu entendo, está tudo bem... Vai ficar tudo bem, calma.... – ele dizia
Ainda com Rafaela chorando em seu ombro, George começou a caminhar com ela de volta para a sala comunal. Quando chegaram encontraram a sala vazia.
- Eu preciso... Beber. – Rafaela disse ao conseguir respirar
- Espere aqui. Não saia daqui, ok? Vou buscar alguma coisa pra você.
George a colocou sentada no sofá da sala, diante da lareira, e saiu novamente. Rafaela secou as lágrimas, mas continuou com o olhar perdido, tão perdido quanto sua cabeça. Já não sabia mais quando Voldemort estava observando ou não. No início, imaginara que ele não poderia observar vinte e quatro horas por dia, que teria outras coisas a fazer, outras pessoas a torturar, mas agora já não ousava mais tentar adivinhar quando ele estava vendo ou não. Estava desesperada, sabia que o momento estava chegando, porém não fazia ideia do que Dumbledore, Snape e a Ordem da Fênix estavam planejando. Sentiu-se completamente desamparada e mais solitária do que nunca.
No silêncio e calor da sala comunal, sentiu algo diferente. Uma mão tocara seu ombro, bem próximo à nuca. Rafaela não se assustou nem se moveu, apesar de sentir um tremor por dentro, porém diferente dos tremores de pavor que estava sentindo desde que entrara no escritório nas masmorras. Aquele tremor foi suave e tinha um sentido completamente diferente. Sentiu que a mão era quente mesmo por cima de sua roupa. Ficou em seu ombro, tocando um pouco da pele do pescoço. Rafaela conseguiu respirar fundo e sentiu, finalmente, que começava a se acalmar. Deitou a cabeça um pouco para trás e para o lado, encostando sua orelha naquela mão, ainda sem deixar que ele entrasse em seu campo de visão. Sentiu-se grata e com calor, o rosto quente. Ele apertou seu ombro firmemente e ela fechou os olhos, perdendo o compasso da respiração. Depois de algum tempo achou melhor afastar-se. Era arriscado demais. Precisou tomar coragem para se mover. Foi para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e a testa nas mãos.
Percebeu, sem saber como, quando ficou finalmente sozinha na sala. Respirou fundo, de coração acelerado, tentando entender o que é que estava sentindo e como, afinal, sabia de quem era aquela mão e aquele toque. Finalmente sorriu. Deixara de sentir-se desamparada e solitária imediatamente, e seu coração se focou nele. Uma nesga de esperança de que tudo ficaria bem finalmente surgiu em sua mente.
Alguns minutos depois, George retornou pelo quadro da Fat Lady, trazendo consigo os irmãos Fred, Ronald e Ginny, e também Harry e Hermione. Debaixo de sua capa tirou duas garrafas de vinho tinto. Chegaram todos alegremente, fazendo festa, obviamente empenhados em animar a amiga, que estava chorando por não ter sua mãe para visitar no Natal. Passaram a tarde lá, apenas eles, tomando vinho e relaxando. Todos mereciam o descanso. O semestre havia sido intenso, com aulas mais avançadas e muito mais pressão por parte dos professores. George saiu em determinado momento para ir novamente comprar vinho em Hogsmeade, para onde fora através de uma passagem secreta. Em algumas horas todos estavam rindo por nada e Rafaela, entorpecida, sentiu novamente a sensação de estar livre.
O almoço de Natal, no dia seguinte, aconteceu a uma única mesa no salão principal, onde alunos e professores se misturaram. Harry chegou de mãos dadas com a namorada Ginny, feliz por tê-la com ele naquela data. Ronald fizera com Hermione uma piada um pouco íntima na frente dos amigos. Ela, tímida, tentou dar um tapa nele, que correu. Entraram no salão correndo e rindo alto, e pararam imediatamente ao ver os professores olhando em sua direção. Diferente do que imaginaram, Dumbledore sorriu e fez um gesto para que se sentassem. Rafaela estava com eles, rindo da cena, porém em silêncio. Sentou-se entre uma aluna da Ravenclaw e a professora McGonnagal, seus dois casais de amigos um pouco mais adiante na mesa, onde tiveram espaço para sentar-se lado a lado. Olhou para eles com uma ponta de ciúmes. Preferia sentar-se junto, mas eles pareciam ainda mais próximos uns dos outros do que sempre foram, e ela ficara no mesmo patamar de amiga recente que veio de fora e não fazia parte das fundações da amizade. Fred e George também se sentaram juntos, conversando com colegas da Huflepuff.
Minutos depois, o professor Lupin juntou-se a eles, conseguindo um lugar para se sentar quase diante de Rafaela. O almoço foi servido e todos brindaram a um feliz Natal. Rafaela não conseguiu deixar de olhar para o professor, sorrindo, com a taça erguida, e sentiu um frio na espinha quando ele retribuiu. Não sabia se era sua imaginação, mas viu Lupin olhá-la de lado e brevemente várias vezes durante o almoço. Tentou afastar os pensamentos da cabeça, concluindo que aquilo não era possível.
* * *
Um dia depois do Natal, Harry e Ronald foram surpreendidos em seu quarto, logo depois de acordarem, por Sir Nicholas, que dizia que Dumbledore havia pedido que ele os chamasse até seu escritório, e que levassem Hermione e Ginny com eles.
- Fodeu. – disse Ronald quando o fantasma se retirou – Fodeu! Eles viram alguma coisa... Ontem, Hermione e eu, eles viram, só pode ser!
- O que eles viram? – perguntou Harry
- Nós dois... Você sabe.
- Eu não sei! – disse curioso – O que vocês fizeram?
- Entramos na Room of Requirement... – ele contou timidamente – E, tipo... Ficamos lá por um tempo.
Harry riu – Sério?
- Sério. – e pensou – Mas se é isso, então por que estão chamando você e a Ginny também? – e olhou espantado para Harry, de olhos arregalados – Vocês também fizeram?!
- Não! – defendeu-se Harry imediatamente – Não fizemos, relaxa! Eu a respeito muito.
- Eu respeito a Hermione!
- Claro que respeita, mas é diferente!
- Por que é diferente? Minha irmã e minha namorada merecem o mesmo respeito!
- Ah, vai, Ron! Relaxa! A Ginny é mais nova que a Hermione, por isso que é diferente!
Minutos depois, os quatro chegaram á estátua que protegia a escada para o escritório do diretor. Encontraram o professor Lupin, que os aguardava. Ao ver os alunos se aproximarem, Lupin disse a senha e a escada começou a subir. Fez um gesto para que o seguissem.
No escritório, o professor Dumbledore estava sentado á sua mesa, segurando as mãos, e a professora McGonnagal estava parada a uma janela, olhando para fora. Lupin entrou, seguido pelos alunos. Nenhum deles disse nada, percebendo que algo muito sério havia acontecido.
Dumbledore ergueu a cabeça para olhá-los – Bom dia. Precisamos conversar com vocês.
A professora McGonnagal os encaminhou até uma saleta anexa, onde havia um sofá felpudo e duas poltronas. Os quatro se sentaram lado a lado, ainda em silencio. Dumbledore e McGonnagal se sentaram ás duas poltronas, e Lupin ficou parado próximo á porta.
- Gostaria que eu me retirasse, senhor? – perguntou Lupin
- Não, Remus, por favor, se não se importar, fique.
Lupin concordou e continuou onde estava.
- Está tudo bem, professor? – disse Harry, o que todos queriam dizer
- Esperamos que fique, Harry. – ele respondeu – Esperamos que fique. Precisamos falar com vocês sobre algo muito sério, e precisamos que nos ouçam com muita atenção antes que fazerem qualquer pergunta ou comentário, por favor.
Os alunos ficaram em silêncio, concordando. Então, Dumbledore começou a narrar, desde o início, a presença de Rafaela no castelo. Contou a respeito da aliança que Voldemort pretendia fazer com o comandante que Rafaela matara no Brasil, sobre como Voldemort, como maneira de puni-la, ordenara que ela fosse ao castelo. Detalhou a função de Snape na situação, sendo ele quem foi até o Brasil ameaça-la e enfeitiçá-la, sobre como Rafaela não tivera escolha e, ao mesmo tempo, viera para ajudar na luta contra Voldemort. Finalmente, chegou a como Voldemort a estava vigiando a enxergando através dela sempre que quisesse, podendo falar com ela em sua mente e até tortura-la com seus feitiços.
Houve silencio quando os quatro alunos tentavam absorver o que haviam acabado de ouvir.
- Então... Esse tempo todo... – disse Hermione, sem conseguir terminar a frase.
- Voldemort está vendo através dela? – disse Harry, com sua voz soando mais alta do que pretendera – Ele vê tudo o que ela vê?
- Sim, Harry. – disse Dumbledore – Receio que sim.
- E desde quando vocês sabem disso?
- Desde o início.
- E vocês deixaram que ele nos observasse de perto assim sem nos contar? – Harry levantou ainda mais a voz – Vocês acharam que a gente não precisava saber disso?!
- Acalme-se, Harry. – disse Lupin – Ainda não podíamos contar.
- Por que não? Deixar Voldemort nos observar parecia uma ideia melhor?
- Harry, fique calmo. – Dumbledore disse, um pouco mais duramente – Pode nos ouvir antes de se revoltar, por gentileza?
Ginny segurou a mão dele e Harry se calou.
- Não era possível que vocês soubessem que ele estava nos olhos de Rafaela. Mesmo que vocês soubessem que precisavam deixar que ela se aproximasse, vocês nunca agiriam naturalmente. Voldemort nunca se convenceria, como está convencido, de que ela realmente está fazendo o que ele manda. Se ele não acreditasse nisso, todos os planos cairiam. Vocês entendem o tamanho do problema?
Todos permaneceram em silencio, Harry ainda impassível.
- E se ele desconfiasse – adicionou o professor Lupin –, mesmo que por um segundo, que vocês sabiam de algo, ele saberia também que Dumbledore sabe. A única maneira de Dumbledore saber disso seria se Snape tivesse contato a ele e à Ordem, e isso colocaria fim em anos de trabalho disfarçado que ele tem feito entre os Comensais.
– Não sei se vocês realmente entendem o tamanho da importância que o trabalho que Snape faz tem para a Ordem. Há muito mais na mesa aqui, vocês precisam entender. Voldemort ordenou que Snape fosse até Rafaela e a enfeitiçasse, e se ele não o fizesse, seu disfarce estaria arruinado. Se Voldemort tivesse mandado qualquer outra pessoa ir até ela, nós não saberíamos nada disso e Rafaela estaria num perigo imensurável, maior do que vocês podem imaginar. Ele pretende matar as pessoas com as quais ela se importa em seu país, um a um, se ela não fizer o que ele manda. As ordens são terríveis, e é por isso que estamos trabalhando nisso, esse tempo todo, para ajudá-la a não precisar cumpri-las. Esse é o motivo de termos escondido isso de vocês. O plano precisa seguir em frente como se ela realmente estivesse obedecendo. Voldemort é um bruxo extremamente inteligente, se algo saísse por um milésimo de segundo de seus planos, tudo estaria perdido. Vocês entendem isso?
Alguns segundos de silencio depois, Hermione disse, com a voz fina – Isso tem algo a ver com como ela passa mal todo dia?
- Absolutamente tudo a ver, Hermione. – McGonnagal respondeu – A doença e a dor que ela sente todos os dias não são nada menos do que cruciatus que ele a lança todos os dias.
Todos ficaram chocados. Ginny levou a mão á boca, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. Harry deixou a raiva de lado imediatamente, imaginando como aquele tempo todo estava sendo terrível para Rafaela. Hermione se encostou com força nas costas do sofá escondendo o rosto nas mãos, e Ronald ficou sem expressão, olhar perdido.
- Isso é... – Harry começou – Horrível.
- É horrível, Harry. – concordou Remus, nervoso – Rafaela é a grande vítima aqui, quando Voldemort acredita que as vítimas são vocês.
- E quais… Quais são as ordens, exatamente? – perguntou Ronald, rouco – Quero dizer, além de nos observar, é claro... O que mais ele quer que ela faça, que o senhor disse que é terrível?
Dumbledore respirou fundo – Voldemort ordenou que ela deixe Harry sozinho. – ele disse olhando de Ronald para Harry – E para isso, Rafaela precisa se livrar daquele próximos a você. Ele ordenou que ela mate Ronald e Hermione e, provavelmente, Ginny também.
Eles se espantaram e Ronald exclamou – Ela vai tentar nos matar?
- Não, Ron... – disse Hermione levemente – Ela não vai. Vocês estão tentando encontrar uma solução pra isso, não estão? – perguntou ao professor
- Logicamente. Rafaela nunca teve a intenção de cumprir a essa ordem, nem por um segundo. Ela sabe, desde o início, que sabemos de tudo e que estamos por perto. Snape tem nos informado sobre tudo. Além disso, ele tem agido, diante de Rafaela, como se fosse um leal e ardente Comensal, que tem a vigiado de perto.
– Ele tem agido… - começou Lupin, com amargura – de maneira muito convincente.
- Então, o que vocês estão planejando pra dar um fim nisso? – perguntou Harry
- Bem... – começou Dumbledore – É aí que vocês entram. Porém, Harry, eu preciso insistir em um ponto. Vocês ainda parecem estar com rava dela.
- Isso é difícil, professor. – disse Hermione – Saber que nesse tempo todo ela se aproximou de nós apenas por isso, e também saber que, não importando a situação, ela realmente trouxe Voldemort para dentro do castelo, para dentro da nossa casa... Ou, no meu caso, ainda pior, para dentro do meu quarto! As coisas que ele pode ter visto, o senhor entende?
- Eu entendo sua posição, Hermione, e a posição de todos vocês. Mas eu preciso relembrá-los que a situação, em geral, é muito maior do que isso. É sobre Voldemort que estamos falando, e os interesses dele são completamente diferentes de todos os outros. Você pode ter certeza de que nada que ele possa ter visto lá dentro, nenhuma conversa particular, nenhuma brincadeira com os amigos, nada disso era ou é de interesse dele. É tudo sem sentido pra ele, ele não é capaz de entender essas coisas, ele não se importa. O foco dele sempre foi muito maior e distante disso. Sempre em tomar o poder, em destruir os inimigos. Sinceramente, não é preciso se preocupar com esses aspectos.
Hermione se calou.
- Tem mais uma coisa que vocês precisam entender. – começou Remus após um instante de silencio – Rafaela poderia ter lutado contra Snape. Ela duelou e venceu um bruxo poderoso antes, ela não teria medo de um estranho. Ela poderia ter lutado contra isso, poderia ter se negado a vir, gritado por socorro. Mas ela não o fez. Rafaela entendeu a situação e veio porque escolheu vir. Ela decidiu se unir à Ordem para enfrentar Voldemort. Se ela não viesse, a morte da mãe dela no Brasil teria sido em vão, visto que Voldemort continuaria lutando pelo poder e isso seria ruim para o mundo inteiro, inclusive o país dela. Para Rafaela, isso também é pessoal
Os quatro fizeram silencio, pensando no que Remus havia falado. Hermione tremia uma perna quase descontroladamente. Ginny ainda segurava a mão de Harry, que estava pensativo.
- Eu acho… Que posso entender isso. – ele disse ainda com certa magoa
- Não é culpa dela. – disse Ronald
- Mas… E agora? – perguntou Ginny – O que vai acontecer?
- Acreditamos que o momento está chegando. Snape nos contou que Voldemort já acredita que ela está próxima o suficiente de vocês para que possa fazer o que ele quer. Deve acontecer em breve e fora do castelo. Por esse motivo, acreditamos que vá acontecer na primeira visita do ano novo a Hogsmeade. Ainda temos algum tempo para nos organizar.
* * *
- Precisamos nos lembrar constantemente. – Ginny disse em voz baixa quando chegaram perto da entrada para a sala comunal
- Não esqueçam, gente. – disse Hermione fazendo-os parar de andar – Precisamos agir como sempre, como se nada estivesse acontecendo.
- Fácil falar. – disse Ronald – O Fedido vai estar nos olhando o tempo todo, e agora a gente sabe e não podemos fazer nada quanto a isso.
- Ronald! – disse Ginny – Você parecia ter entendido que...
- Eu entendi! Vou fazer a minha parte, relaxa.
- Preciso me esforçar... – Harry disse, voltando a andar – para lembrar que isso não é culpa dela. Confesso que não é nada fácil
Todos concordaram e, secretamente respirando fundo, entraram na sala comunal. Encontraram Rafaela e George sentados a um dos sofás, pernas cruzadas de frente um para o outro, com uma grande caixa entre eles.
- E esse aqui, o que esse faz? – perguntou Rafaela tirando um doce embrulhado em papel roxo de dentro da caixa
- Esse nem é novo, é Puking Pastilles. Tá vendo que tem duas cores? - disse apontando para um lado roxo e um lado cor-de-laranja do doce – Se você comer o lado laranja, começa a vomitar na hora, e pra parar tem que comer o lado roxo.
Rafaela riu – Aposto que esse vende muito!
– Um dos campeões de vendas! Muitos comprar pra escapar das piores aulas, mas agora a gente acha que os professores estão sabendo.
- Sei. Tem algum aqui que seja seguro pra eu comer? – disse olhando para a caixa e pegou mais um aleatoriamente – Esse aqui?
- Não coma! Esse é tipo o outro, mas ao invés de vomitar é o seu nariz que vai sangrar sem parar.
- Como vocês conseguem ser tão criativos? – impressionou-se Rafaela, atirando o doce de volta na caixa
Harry e Ginny se aproximaram sentando-se em um sofá próximo, Ronald e Hermione disseram oi e se acomodaram juntos em uma poltrona.
- O que estão fazendo? – perguntou Harry
- Estou mostrando pra ela alguns produtos da “Weasleys' Wizard Wheezes”. Quem sabe ela vira uma representante, ein, Rafa?
- Sem chance. Consumidora, talvez. – e voltou a atenção para a caixa, tirando de lá um chapéu – O que isso faz? Vai fazer minha orelha inchar ou minha cabeça encolher?
- Quase isso! – Ronald respondeu sorrindo de sua poltrona
- Como?
- Coloca, não vai doer. – garantiu George
Rafaela o olhou desconfiada – Não sei não!
- Coloca, eu garanto que não vai machucar!
Rafaela finalmente colocou o chapéu, que apesar de ser pequeno, desceu até seu ombro cobrindo a cabeça toda. Os amigos riram.
- O que? – ela disse de dentro do chapéu – O que aconteceu com a minha cabeça?
- Você não tem uma cabeça! – riu Ginny
- Minha cabeça tá invisível?! – os amigos ouviram sua voz abafada falar de dentro do chapéu
Alguns minutos depois, Fred voltou para a sala, sorridente.
- Oras, essa foi uma tarde boa! – disse George ao vê-lo
- Ah, se foi! – disse sentando-se no chão perto da lareira
- O que estava fazendo? – perguntou Harry
- Ah, meu amigo! – disse Fred alargando o sorriso – O que mais faz um jovem homem sorrir desse jeito?
- Drogas? – perguntou Rafaela e ela e George riram em seguida
- Ah, já sei. – disse Ronald – Estava catando alguém.
- Ron! – ralhou Hermione, rindo – Catando, que horrível!
- Estava sim! – Fred concordou
- Ah, eu sei. – disse Rafaela – Você estava ficando com a Luna, não estava?
- Mas a Luna foi pra casa passar o natal, não foi? – disse Ginny
- Foi. – concordou Fred – E é por isso que eu estava catando outra!
As meninas ralharam com ele e Ginny o atirou uma almofada, mas finalmente perguntaram quem era. Fred contou que havia conseguido, com certa dificuldade, ficar com Luna na festa do dia das bruxas, porém a garota era muito inocente, quase uma criança, e era sonhadora demais. Preferira não levar a história adiante. Quando o castelo se esvaziou para o feriado do final do ano, Fred encontrara-se com uma Huflepuff do sétimo ano e andava se aventurando com ela pelo colégio. Os amigos passaram toda a manhã na sala, até descerem para almoçar no salão principal. Ainda havia apenas uma longa mesa onde alunos e professores se sentaram juntos. Harry sentou-se entre Ginny e Rafaela e manteve-se em silêncio durante um bom tempo.
- Rafa... – ele logo começou, em voz baixa – Posso te perguntar uma coisa?
- Claro, Harry. – ela respondeu, pousando sua taça de suco
- Só entre nós... – ele baixou ainda mais o tom de voz – Tipo... Quando aquilo lá aconteceu com você no Brasil... Com o Comandante.
- Sim... – ela respondeu lentamente
- Como foi, quero dizer... Como se sentiu?
- Como me senti? – respondeu Rafaela, estranhando a pergunta – Por duelar ou por vencer?
Os dois agora conversavam quase aos sussurros enquanto todas as outras pessoas da mesa conversavam animadamente em voz alta.
- Ambos… Porque assim… – ele começou a explicar – Eu já estive diante dele. Você sabe, ele. – e Rafaela concordou com a cabeça – Algumas vezes. Mas eu sei que ainda vai chegar o momento que será a última vez. Aquela última, a final. Você sabia naquela hora que seria você ou ele, não sabia? Vida ou morte?
Rafaela sentiu um aperto no peito. Não entendeu porque, depois de tantos meses, Harry começara a falar com ela sobre aquele assunto. Não sabia se queria que Voldemort ouvisse aquilo, mas não teve escolha. Não podia mudar de assunto para que Harry não ficasse bravo com ela, o que poderia afastá-los e, além disso, sabia que seria punida. Rafaela ainda sentia, a cada vez que olhava Harry nos olhos, uma onda de raiva que chegava a lhe queimar a garganta, mas praticamente se acostumara com isso, sabendo que não era realmente dela esse sentimento. Agora respirava fundo, contendo a raiva.
- Sabia. Eu sabia que um de nós morreria naquela hora
- Você teve medo? – Harry perguntou em um ímpeto
- Sim. Muito medo, era impossível não ter. Mas sabe, eu sentia como se fosse um fogo aqui dentro. Era uma paixão por saber que eu estava fazendo a coisa certa e, obviamente, tinha também a minha mãe... Quando você sabe que está fazendo o que é certo e tem a consciência de que a vida de alguém depende daqui, na realidade as vidas de centenas de pessoas, eu senti no meu coração uma coisa me fazendo ir em frente, mesmo que meu cérebro me gritasse para correr.
Harry a ouviu e observou por alguns segundos. Sabia que aquilo que ela dissera era a completa verdade e que, independente de Voldemort estar por detrás de seus óculos, aquela paixão por fazer a coisa certa era real em Rafaela.
- Sei... – ele voltou a falar – Eu senti uma coisa assim no passado, lá no Ministério... Principalmente depois que o Sirius morreu, mas eu não tenho certeza se eu sabia que aquele era o momento... Eu acho que não.
- A gente sabe, Harry. Você sente quando sua vida está prestes a acabar.
Olharam-se em silêncio. Rafaela, em um segundo, entendeu tudo.
Harry sabia.
Ele e os outros já sabiam de toda a verdade. Aquelas coisas que Harry estava dizendo devia fazer algum sentido para o plano. Teve os confusos sentimentos de medo, já que o fato de eles saberem significava que tudo estava quase chegando ao final, e de alívio por todos saberem da verdade. Ninguém demonstrara nada, o que fez Rafaela entender que havia algum plano, e que Dumbledore e a Ordem já havia incluído Harry e os outros neles.
- Eu acho… – Harry continuou – Eu achei que havia sentido isso antes, mas eu acho que quando o momento chegar vai ser muito pior. E sinceramente... Eu tenho medo. Ele é muito mais poderoso que eu, eu sei que já passei por muita coisa, mas não posso me comparar a ele, vamos ser sinceros. Eu sou um estudante, na maior parte do tempo eu não faço ideia do que estou fazendo, ou de como eu fiz certas coisas.
Rafaela sentiu uma alegria difícil de distinguir. A sensação no estômago, dessa vez, foi de prazer, e a vontade que ela teve de gargalhar e subir na mesa foi imensa. Segurando-se ao máximo possível, ouviu uma risada em sua mente. Sabia que apenas ela o ouvira.
- Mas você tem algo pelo que lutar, Harry. Você tem amigos, uma namorada maravilhosa, você vê Hogwarts como seu lar. Quando o momento chegar, você saberá pelo que está lutando, que é pelas coisas que você ama. É isso que te fará forte.
– Sim… Você está certa. Se o amor da minha mãe me salvou uma vez, talvez o meu amor por todas essas coisas também vá me ajudar.
- Pode ser. Tenha fé, Harry, você não é apenas um estudante. Você é talentoso. Você já o encarou e escapou, você pode fazer isso. E eu não acho que você estará sozinho.
Harry sorriu de leve – Obrigado, Rafa.