3- I'm gonna let it go
Os comensais estavam fazendo uma festa de halloween em algum lugar, mas eu não estava com humor para participar. Os boatos sobre o caso entre Bellatrix e o Lorde das Trevas cresciam cada vez mais. Rabicho, aquele verme imundo, dizia com detalhes gráficos, para quem quisesse ouvir, sobre as inúmeras posições em que ele já os vira, nos inúmeros cômodos da casa do Lorde. Todo comensal parecia saber mais sobre a vida sexual deles dois do que da sua própria, e haviam várias histórias. Diziam que eles duelavam como preliminar, que era na cama que ele a castigava, que ele tinha uma câmara de tortura nas masmorras dedicada inteiramente às perversões que eles praticavam.
Haviam até alguns boatos, que eu secretamente adorava, dizendo que eu por vezes participava, com direito a histórias deliciosas dos ménages que fazíamos. Se ao menos eu tivesse aquela chance de ter Bellatrix... Mas o pior desses boatos não eram as histórias, e sim a reputação que elas traziam. Eu sabia que me chamavam de corno manso e de tantas outras ofensas, mas não me importava. O que mais me doía era como chamavam a ela. Puta, vendida, eram as ofensas mais leves, e o doloroso é que era tudo verdade.
Por isso eu preferia ficar em casa numa noite como o Halloween, na qual todos ficariam bêbados e eu escutaria todo tipo de histórias. Era melhor ficar em casa, na companhia da fada verde. Estava sentado em minha poltrona, queimando um torrão de açúcar sobre e dose de absinto. Eu costumava preferir o modo francês de preparo, o tradicional que não envolvia fogo, era mais refinado e acentuava o sabor das ervas, mas esse método não me trazia recordações de Bella como trazia o outro. Quando joguei a água gelada no copo e a fumaça subiu foi que aconteceu.
Senti uma dor intensa no meu braço esquerdo, diferente da dor que sentia quando era chamado pelo lorde. Puxei a manga da camisa e encarei minha marca negra. Meus olhos dobraram de tamanho com o espanto. Ela estava cinza e fria, como nunca ficara antes. Levantei-me em um salto e peguei minha varinha. Sem pensar duas vezes, aparatei na casa do lorde.
Assim que os móveis escuros da sala dele entraram em foco, um grito agudo invadiu meus ouvidos, um grito de pura dor e desespero. Bellatrix. Corri escada acima e corredor adentro, guiado por sua voz, até encontrá-la num quarto espaçoso, sentada numa cama de casal no centro do cômodo. Ela estava totalmente nua, um lençol de seda a cobria do umbigo para baixo, deixando seu tronco e braços expostos. Seus cabelos estavam desalinhados e sua pele alva evidenciava diversas marcas vermelhas de unhas, dentes e dedos, e de amarras em
torno de seus pulsos.
Mal gastei um pensamento com isso, algo mais urgente me chamava atenção na cena. Bella tinha o braço esquerdo estendido a sua frente, com a Marca cinzenta como a minha, e sua mão direita tocava a tatuagem, a apertava e, enquanto o grito morria em seus lábios, começou a cravar os dedos na tatuagem, como se tentasse cavar um buraco, suas unhas abrindo sulcos vermelhos.
-Bella! - falei, falhando em chamar sua atenção. Corri até ela e segurei seus braços,
impedindo que ela continuasse se machucando. - Por Merlin Bella, o que aconteceu?
Só então ela notou que eu estava ali, mas seus olhos olhavam mais em minha direção do que propriamente para mim.
- Nada! Não aconteceu nada, não pode ter acontecido! - ela disse, sua voz histérica, e puxou seus braços para fora de minhas mãos.
- Bella, seja racional, a marca nunca ficou desse jeito, alguma coisa deve ter acontecido, precisamos descobrir o que é. Vamos embora. - falei, tentando manter a calma.
- Não!!! - ela gritou, o desespero e a negação palpáveis em sua voz. - Nãou vou embora, vou esperar por ele! Ele prometeu que voltaria, bem aqui nessa cama ele prometeu. Ele nunca quebra uma promessa. Você não vê? Ele vai voltar a qualquer momento, vai me contar por que a Marca ficou assim. Ele sempre me conta tudo... - sua voz foi abaixando o tom a cada frase, até se tornar pouco mais que um sussurro, e percebi que não era a mim que ela tentava convencer, mas a si mesma.
- Bellatrix… - tentei tocá-la novamente, e ela se afastou de uma vez, como se me temesse ou repudiasse. Aquilo partiu algo dentro de mim, mas minha preocupação no momento era a sanidade dela, minha mulher visivelmente não estava bem.
- Vá embora Rodolphus, me deixe. Ele vai voltar, e eu vou estar esperando.
Ela olhou novamente para sua marca negra, e eu sabia que era uma causa perdida tentar fazer com que me escutasse. Agora eu tinha certeza absoluta de que Bella sabia de alguma coisa. Ela estava em estado de choque, completamente abalada, não estaria assim caso não desconfiasse que algo muito ruim havia acontecido. Achei melhor dar espaço para que ela se recuperasse sozinha, já que eu não estava conseguindo ajudar. Desaparatei na mansão Lestrange e me deparei com Rabastan andando de um ledo para o outro na sala, inquieto.
- Graças a Merlin chegou, Rodolphus! - quase gritou quando me viu, atirando os braços para cima.
- Aconteceu com sua Marca também? - perguntei, embora sua expressão dissesse claramente que sim.
- Aconteceu com a de todos nós, é o que parece. Você sabe de alguma coisa? - perguntou, e eu simplesmente fiz que não com a cabeça. - E onde está Bellatrix?
- Fui procurá-la, mas não a encontrei. Espero que ela volte logo. - menti com facilidade. Eu nunca contaria a ninguém o estado em que ela estava, o desespero de Bella não podia indicar nada de bom, e apenas ia fazer com que meu irmão se desesperasse também.
- Vamos esperar que ela chegue, se Bela não souber de nada, ninguém sabe.
Ouvi então o familiar barulho das chamas da lareira se avivando e, quando eu e Rabastan nos viramos em sua direção, vimos o fogo tornar-se verde esmeralda. Por um breve instante, tive a esperança que fosse Bella, já recuperada, mas o que apareceu na lareira foi a cabeça de McNair.
- Rabinho, sua Marca também ficou cinzenta? - perguntou o homem, e meu irmão se aproximou da lareira para conversarem.
Apenas acenei um cumprimento para ele e caí num sofá, fechando os olhos e tentando me acalmar. Horas se passaram, várias outras cabeças apareceram em nossa lareira, todos preocupados com a estranha mudança da Marca Negra e a falta de avisos sobre o lorde. A reação de Bellatrix naquele quarto me assombrou por todo esse tempo. Eu nunca a vira tão abalada, tão frágil. O que poderia ter acontecido para que ela ficasse naquele estado?
Quando estava quase amanhecendo, e eu alternava entre a consciência e um leve sono, ainda sentado no sofá, um estalo de aparatação me sobressaltou. Levantei-me em um salto e me virei para a fonte do barulho, a tempo de ver Bellatrix se materializar em minha frente. Graças a Merlin! Ela estava vestida e infinitamente mais recomposta do que quando eu ao vira no começo da noite, mas ainda havia nela um ar que não combinava com a Bella que eu conhecia, e que era para mim a indicação de que tudo estava bem.
- Bellatrix! O que aconteceu? - perguntei, assim que a vi.
Tão logo as palavras deixaram meus lábios, houve outro estalo e vi Narcissa aparecer ao lado da irmã. Bella ignorou tanto minha pergunta quanto o aparecimento da bela loira, e começou a andar rumo às escadas, o queixo erguido, esforçando-se claramente para manter sua típica expressão de superioridade que era geralmente tão natural para ela.
- Bella! - chamou Narcissa, estendendo a mão como se tentasse alcançá-la, e começou a andar no enlaço da irmã, também ignorando minha presença. Segui as mulheres escada acima, e vi que Bella estava indo em direção ao nosso quarto. - Bella espere, por favor!
Ela não esperou, entrou no quarto como um furacão e bateu a porta com estrondo atrás de si. Pude ouvir sua voz do outro lado murmurando um feitiço para trancar a porta, um aviso bem claro para não ser incomodada.
- Bella, por favor, me deixe entrar! Vamos conversar, eu quero te ajudar. - teimou Narcissa, batendo na porta sem conseguir resposta. - Abre essa porta, Bellatrix! Você não pode se trancar aí para sempre, me deixe..
- Cala a boca, Cissy! Se você não parar com esse escândalo, juro que abro a porta só para te dar uma Cruciatus, e não estou brincando! - gritou Bellatrix do outro lado, sua voz histérica. Assisti àquela cena sem entender o que se passava, completamente sem reação. Narcissa se afastou da porta, cobrindo a boca com as mãos e com lágrimas escapando de seus olhos.
- O que aconteceu, Narcissa? - perguntei, e ela se sobressaltou com minha presença. A próxima coisa que senti foram seus braços me envolvendo, seus cabelos dourados invadindo meu rosto e seu cheiro doce invadindo minhas narinas. A abracei de volta depois de alguns instantes de hesitação, afinal nunca tinha sido muito próximo de minha cunhada. - O que aconteceu? - repeti, levando uma mão ao seu queixo para fazer com que a mulher me encarasse.
- O Lorde das Trevas… ele se foi. Lucius disse que ele foi… atrás dos Potter e agora… encontraram os corpos dos dois, e a casa destruída e nem… nem sinal dele. O bebê ficou vivo. E agora Bella está… está… - os soluços cortavam suas frases, e ela não conseguiu terminar, enterrando o rosto novemente no meu ombro.
Tudo desmoronou naquele instante. Não, não podia ser. O Lorde era invencível, era imortal, como é que ele havia caído? Mas eu não podia me dar ao luxo de me trancar num quarto e chorar como Bella, eu tinha que consolar a mulher em prantos nos meus braços.
- Se acalme, Cissy. Eu não sei ao certo o que aconteceu, mas o Lorde das Trevas não pode ter sido derrotado. Ele vai retornar em breve. - disse, como um conforto também a mim mesmo e uma afirmação da fé que eu depositava nele.
- Mas Lucius diz... diz que acha que ele não volta. Se isso for verdade, vamos ser caçados, Rodolphus, todos nós. E como Bella vai ficar? Ela não vive sem ele e... - ela parou abruptamente, percebendo que estava falando com o marido de sua irmã sobre o amante dela, e seu rosto ficou vermelho como firewhisky.
- Tudo bem - eu disse, mas ela começou a se afastar, embaraçada, parecendo lembrar-se que uma mulher casada como ela não devia estar abraçando o cunhado daquela forma. Eu não queria que ela se fosse, aquele abraço era tudo que estava me segurando em pé depois da notícia que o Lorde havia desaparecido. A apertei firme em meus braços, sentindo seu corpo delicado contra o meu, até que ela escorasse novamente a cabeça em meu ombro, suas lágrimas molhando minha camisa. - Vai ficar tudo bem. - murmurei, acariciando seus cabelos dourados, tentando acalmar a nós dois.
Ficamos assim por um longo tempo, cada um imerso nos próprios pensamentos, ou, no meu caso, tentando não pensar nada além daquela frase, vai ficar tudo bem. Quando os soluços dela se acalmaram, Narcissa se soltou do abraço, e dessa vez eu a deixei ir. Nossos olhos se prenderam um no outro, e eu levei minha mão para seu rosto, secando as lágrimas que ainda molhavam sua pele alva e davam a ela ainda mais a impressão de afogamento. Ela deu um pálido sorriso, que não atingia seus olhos, e sua mão tocou de leve meu rosto, como se retribuisse o gesto.
- Obrigada, Rodolphus. - ela sussurrou, e eu assenti.
Narcissa foi embora, e eu fiquei, encarando a porta fechada do meu quarto. O quanto fora estranho e inesperado aquele momento de conforto e conexão entre nós dois ficou perdido para mim, pois naquele instante apenas uma palavra se destacava em minha mente: desapareceu. O Lorde das Trevas desapareceu. Não existia então mágoa por ele ser amante de Bellatrix, não existia nada além do fato de que todas as minhas certezas, todas as minhas convicções, haviam sido estraçalhadas. Eu dissera a Narcissa que ele voltaria, mas eu mesmo tinha meus medos.
Os dias se passaram e a noícia sobre o Lorde se espalhou. Vi Comensais honrados como Rosier morrendo em batalha para não se entregar a aurores, vi outros menos afortunados como Rockwood serem presos e condenados. Vi covardes como Rabicho desaparecerem e outros piores ainda como Lucius e Avery, arrumarem outras formas de escapar de Azkaban. Vi medrosos como Karkarof entregar nomes de colegas para diminuir suas penas. Vi julgamentos de palermas inocentes como Ludo Bagman e a condenação de palermas ainda mais inocentes, como Sirius Black, sem nenhum julgamento. Crouch não perdoava ninguém. Eu sabia que chegaria nossa hora.
Bella se recusava a acreditar que o Lorde estava morto. Na verdade, eu não acreditava também, sempre soube que ele era poderoso de mais para morrer, mas minha esposa cismava em encontrá-lo, enquanto eu achava que ele demoraria a retornar. Então, depois de certo tempo, ela teve a ideia de ir atrás de membros da Ordem para arrancar deles a informação de onde o lorde estava. Concordei imediatamente. Eu tinha quase certeza de que não teríamos resultado, mas que buscando aquilo encontraríamos nossa captura. Minha decisão estava tomada, eu não queria fugir e me esconder, não seria um covarde. Esperaria pela volta do Lorde sem negá-lo, sendo preso ou até mesmo morrendo em batalha, se necessério fosse. Um Lestrange nunca volta atrás em sua palavra, e eu certamente não viraria as costas para minha honra.
Rabastan também foi, e levou Crouch Jr. conosco. Pobre Rabastan, sua trsiteza quando McNair foi preso nem se comparou à decepção de meu irmão quando ele entregou alguns nomes para diminuir sua pena, mesmo não tendo entregado nossos nomes. Fiquei surpreso ao ver o jovem Crouch quando nos reunimos para ir atrás dos Longbotton, mas não questionei. A tortura do casal foi como uma terapia para mim. Se eu ia me acabar ali, o faria com estilo, e assim foi. Depois que ambos enlouqueceram, e ficou claro que não havia nenhuma informação sobre o lorde que conseguiríamos arrancar deles, Bella me abraçou e começou a chorar no me ombro, me lembrando estranhamente de Narcissa. Apenas a abracei de volta, estreitando seu corpo ao meu e beijando o topo de sua cabeça. Nenhuma palavra foi dita. Enquanto isso, Rabastan foi até a janela e conjurou a Marca Negra.
No instante em que a caveira verde surgiu no céu, dezenas de aurores aparataram em nossa volta, e antes que nos dessemos conta do que estava acontecendo, fomos detidos. Não tive chance de lutar, nenhum de nós teve. O Julgamento foi um borrão, durante todo o tempo eu pensava que era melhor ser preso que ser morto, assim eu testemunharia o retorno do Lorde. Mas assim que fui jogado em Azkaban e toda a minha alegria foi sugada brutalmente de mim, minha opinião mudou. Queria morrer, preferia mil vezes a morte que aquele inferno gelado, ouvindo o choro de Rabastan e os gritos de Bellatrix.
A pior coisa, porém, não eram os Dementadores, ou a fome, ou o frio, ou o abandono. A pior coisa foi que me colocaram na cela em frente a de Bellatrix, pela grade de minha cela eu podia ver a grade da dela, e por catorza anos eu vi minha esposa definhar e enlouquecer diante dos meus olhos, sem poder fazer nada.
Vi a guerreira forte e destemida que eu conhecera reduzir-se à miséria e insanidade. Ou vi seus gritos, choros e gargalhadas. Ouvi seus silêncios, que eram ainda mais tarríveis. Via quando ela começava a se tocar, gemendo para o Lorde das Trevas, antes que os Dementadores viessem parasitar-se nela, deixando-a quase inconsciente. Por vezes, ela olhava diretamente em meus olhos, e sostentávamos aquele olhar por um longo tempo, por vezes carregado de sentimentos, por vezes completamente vazios. Às vezes ela chamava meu nome, em sussurros roucos, apenas meu nome, como se me culpasse ou me pedisse socorro, eu não sabia ao certo. Haviam dias em que eu me virava de costas para ela, cansado de ver minha mulher se acabar daquela forma.
Senti meu coração partir-se milhões de vezes, sem nunca se emendar. Depois de alguns anos, eu soube que não podia mais viver com aquilo. Meu maior sofrimento era ver o sofrimento de Bellatrix, e eu sabia que me machucaria muito menos se eu conseguisse deixar de amá-la. Eu sempre soube, desde antes da prisão, que me desprender dela seria o fim do meu sofrimento, mas nunca tive a capacidade deixar de amá-la. Eu sabia que, enquanto tivesse minha cabeça no lugar, enquanto minha consciência estivesse comigo, eu amaria Bellatrix. Eu a amaria enquanto estivesse são, e sofreria por ela enquanto a amasse. Deixei então que minha sanidade fosse embora, mergulhando num mundo de sonho no qual eu não era atormentado pelo amor dilacerante que sentia por Bellatrix. Abri mão da minha consciência para finalmente abrir mão dela, e me entreguei nos braços da Loucura.
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N/A: É o fim! Acabou! Pretendo fazer um epílogo ainda, mas a fic mesmo acaba aqui. Muito curta, eu sei, mas eu planejei uma história pequena e não tinha mais no que me alongar. Gostei muito de escrever essa fic, e quero agradecer de coração a todas que comentaram, pq foi um incentivo enooorme pra continuar a escrever, e um agradecimento especial à Barbara, meu Rodolphus delícia, que fez um rold tão lindo e forte que me deixou querendo apagar toda essa fic e fazer ele sair da fossa-Bella e encontrar alguém que ele mereça, mas que me deu força pra continuar com seus comentários e opiniões maravilhosos. Então é isso, é o fim, até o epilogo e nunca mais -q. Bjos! Muito obrigada, gente!!!! <333