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6. Capítulo 6


Fic: Provas de Amor


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Gina acabara de desligar o telefone quando ouviu alguém batendo na porta do seu escritório. Frustrada, percebeu o quanto seu dia rendera pouco. Primeiro foi o carro, depois a briga com Rony. E sua reunião não havia sido muito boa. Hoje não era seu dia,e estava bem cansada. Só um banho quente e uma boa noite de sonho para compensar.


— Pode entrar.


— Já está pensando em ir para casa? — disse Harry só com a cabeça aparecendo na porta.


E, como sempre acontecia, bastava Gina ver aqueles olhos claros e sensuais, que seu corpo todo ficava em alerta. Mal podia esperar para passar o dia inteiro sozinha com ele.


— Já ia chamar um táxi, por quê?


Não tinha a menor intenção de trabalhar mais hoje, entretanto, para Harry, ela faria uma exceção. Ficar ao lado dele era sempre prazeroso.


Ele entrou na sala e fechou a porta. Sua cara não era das melhores, e Gina desconfiou de más notícias.


— Se veio aqui me contar dos planos de Rony para retomar o projeto do centro da cidade, já sei de tudo.


— Fazer intrigas sobre a droga do seu irmão não faz parte das minhas funções.


Gina olhou espantada.


— Não? E a lealdade à sua futura amante?


Gina o estava provocando. Mas que droga, seu dia já tinha sido tão desastrado que ela queria ver Harry perder o controle, se soltar e provar-lhe o quanto era poderoso. Mas ele se limitou a fitá-la e esperar.


— Perdoe-me. Eu já estava de saída, o dia hoje não foi muito fácil. Estou aborrecida.


— E é por isso que estou aqui — ele disse. — Para lhe oferecer uma carona.


— E ser meu motorista faz parte das suas funções?


— Por que não? — Ele se aproximou com uma expressão misteriosa. — Sou responsável pela segurança. É minha obrigação cuidar para que você chegue em casa sã e salva.


— Está exagerando, Harry. — Ela sorriu.


— Nem tanto. — Ele olhou sério para ela. — Tenho motivos para acreditar que alguém mexeu no freio do seu carro.


Ela ficou esperando ele dizer que tudo não passava de uma brincadeira, mas, quando não disse nada, ela se levantou e foi até o armário pegar seu casaco. Antes que conseguisse vesti-lo, Harry já estava atrás dela, a segurando pelos ombros.


— Estou falando sério, Gina.


— Isto é ridículo. — Ela se virou para encará-lo. — Então, algum vândalo invadiu nosso estacionamento. Teremos que reforçar a segurança.


— Este é o ponto. — Ele levou a mão ao rosto dela e fez um carinho. — Pode não ter sido um vândalo. Talvez, seja lá quem for, pretendesse sabotar o seu carro.


— Quer dizer que tenho um inimigo? — Gina percebeu que ele estava preocupado, mas ela não sentia o mesmo. — Você tem trabalhado muito, Harry. Acho que está precisando de um dia de folga mais do que eu.


— Está bem, então faça o que estou lhe pedindo. Deixe-me levá-la para casa esta noite.


— Sou uma mulher adulta, Harry, não preciso de babá.


Então, ele abriu aquele sorriso lindo que a fez se derreter toda. Depois, beijou-a, e ela se esqueceu de que estava no seu escritório e que, a qualquer momento, alguém poderia entrar.


Ele se afastou um pouco apenas para lhe falar num tom rouco e doce:


— Eu sei bem disso, não era preciso me dizer, querida. — Beijou-a novamente, um beijo forte e rápido, e depois deu um passo atrás. — O que foi que seu mecânico disse?


Gina custou a se recuperar. Nossa! Este homem era uma tentação e ela estava farta de resistir a ele.


— Ainda não falei com o mecânico. Mas ele disse que só poderia examinar o carro amanhã.


— Então, eu lhe peço, cuide-se bem até lá.


Gina pensou em contestá-lo, ao menos para reafirmar sua independência. A vida toda precisara provar a si mesma o quanto era forte e, às vezes, não sabia a hora de ceder. Na verdade, estava adorando a ideia de Harry levá-la para casa. Quem sabe ele não resolvesse entrar, deixasse as aparências de lado e fizesse amor com ela naquela noite mesmo. Só em pensar nisso seu corpo já estava em brasa.


— Está bem.


Harry a fitou e depois acenou com a cabeça. Segurou seu casaco enquanto ela o vestia e a conduziu até a porta. Harry não queria se vangloriar ainda. Fazer Gina aceitar sua proteção o fez se sentir um conquistador. Isto não acontecia com muita frequência, e ele achava que tão cedo não se repetiria. Gina não era o tipo de mulher que se deixa dominar por um homem. No momento, ela estava calada. Quieta demais. Talvez se arrependera de demonstrar fraqueza. Proteger-se não era sinal de fraqueza, mas ela devia achar o contrário.


— Vire à esquerda.


Harry estava tão absorto nos seus pensamentos que levou um susto com a voz dela. Teoricamente, ele não sabia onde ela morava. Precisava prestar mais atenção no que fazia em vez de querer adivinhar o que se passava na cabeça de Gina. Sabia que não chegaria à nenhuma conclusão. Mas não podia evitar, ela o fascinava.


Durante o resto do percurso, ele esperou suas orientações, mesmo sabendo o caminho. Antes de ser contratado pela empresa, ele já tinha investigado.Quando chegaram em frente à casa, Gina abriu a porta. Harry ignorou seu gesto e deu a volta no carro, para segurar á porta para ela sair. Ela ficou ali, na noite escura, com um luar discreto para iluminá-la. Inclinou a cabeça para trás para fitá-lo, com olhos arregalados, e ele a desejava.


Mesmo se odiando por isso, ele a desejava. Toda a sua frieza, o segredo do seu sucesso, parecia desaparecer quando se tratava daquela mulher, o que não fazia sentido. Ele nem gostava dela.


— Quer entrar um pouco?


Harry hesitou. Não precisava ser nenhum gênio para perceber as intenções dela e ele logo começou a ficar excitado. Porém, fazer amor com Gina agora não seria indicado. Tentou imaginar uma desculpa aceitável, mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, viu um vulto em movimento e correu para a porta da casa, levando Gina junto.


Ele seria capaz de jurar ter visto uma cortina balançar. Protegidos num recanto escuro, ele colocou Gina atrás dele.


— Tem algum animal de estimação, querida?


— Não. Harry, o que...


— Shh. Tem alguém na sua casa. — Seus sentidos estavam em alerta máximo.


— O quê?


— Dê-me a sua chave.


Felizmente, Gina obedeceu, mas se recusou a entrar no carro e trancar a porta conforme ele mandou. À medida que ele se aproximava da casa, na ponta do pé, ela o seguia, obrigando a parar.


— Droga, Gina. — Ele cochichou irritado e a segurou pelos ombros. — Você não pode...


— É a minha casa. Conheço-a melhor do que você.


Ela estava tão obstinada, tão irritante, que, sem querer, ele a sacudiu.


— Não estou brincando, droga! Será que ao menos uma vez você...


Neste exato momento, na noite fria e silenciosa, eles ouviram o som de uma porta se bater.


— Fique aqui! — disse Harry ao segurá-la pelos ombros.


Ele correu para os fundos da casa, mas, antes mesmo de chegar lá, já sabia que seria inútil. A casa era cercada por um bosque, e o intruso já teria se escondido nas sombras com facilidade. Ele praguejou. Em seguida, Gina segurou seu braço, e ele só não reagiu jogando-a no chão porque se deu conta de que era ela alguns segundos antes.


Sem dizer mais uma palavra, ele a puxou para dentro de casa tendo o cuidado de não pisar sobre possíveis pegadas deixadas pelo invasor. Ele estava com todos os seus sentidos aguçados.


Encontrou dois interruptores de luz ao entrar. Um deles banhava a cozinha de luz fluorescente e o outro iluminava todo o quintal atrás da casa. Harry vasculhou o jardim, mas não viu nenhum movimento.


— Chame a polícia — ele falou baixinho para ela.


— Para quê? Seja quem for, já deve estar longe agora.


— A não ser que houvesse mais uma pessoa. Faça o que eu disse.


Gina ficou irada, mas ele não tinha tempo a perder com ela agora. Esperou apenas que ela pegasse o telefone para, então, começar a percorrer a casa, cuidadosamente, acendendo a luz por onde passava. Em pouco tempo, já tinha visitado todos os quartos do andar térreo, e logo começou a subir as escadas revestidas de carpete. Já tinha examinado todos os quartos quando Gina terminou a ligação para a polícia.


— Harry?


— Está tudo bem, — Ele já estava no quarto dela quando Gina o encontrou.


Ela olhou em volta, assustada.


— A polícia já está a caminho. Mandaram que ficássemos na cozinha e não tentássemos nenhum ato heroico.


— Sou treinado para isso, Gina.


— Para ser herói?


Sabia que ela estava só brincando, podia ver a agitação nos seus olhos azuis, e ele negou balançando a cabeça.


— Seu quarto é surpreendente.


O rosto de Gina ficou sério com aquele comentário.


— O que quer dizer com isto?


Ele saiu do quarto e Gina o seguiu.


— É um quarto bem feminino, só isso. Não imaginava que você tivesse travesseiros com babados e cortinas de renda. — Como ela parecia não saber o que dizer, ele mudou de assunto: — Vamos tomar um café? — Ele se aproximou da porta dos fundos, examinado-a cuidadosamente, para depois acrescentar: — Tenho certeza de que os policiais vão apreciar um café quente numa noite fria como esta.


Mal tinha terminado de falar quando ouviram as sirenes. Depois de um exame apurado na casa, os policiais bem que gostaram do café fresco. Para surpresa de todos, menos para Harry, nada parecia estar faltando.


Ainda assim, a polícia fez o registro da ocorrência como uma simples invasão.


— Em uma casa como a sua, neste bairro, um ladrão faria uma festa — comentou um jovem oficial, que segurava o seu quepe em uma das mãos e tomava seu café com a outra.


Outro policial chegou à mesma conclusão que Harry:


— Entraram pela porta da cozinha.


— Mas como? — Gina estava furiosa. — Minhas portas estão sempre trancadas.


— Devem ter furtado as chaves, de alguma forma — disse o policial. — Deixe todas as luzes externas acesas esta noite. E eu lhe aconselho a colocar um temporizador que acione as luzes do lado de fora da casa, diariamente, assim que começar a escurecer. E instale um alarme também. Uma mulher morando aqui sozinha...


— Providenciarei tudo isso amanhã — Harry o interrompeu irritado. Gina franziu as sobrancelhas, mas permaneceu calma. Todo o cuidado que Harry teve com ela já fora explicado. E os policiais já estavam dando ordens demais.


— Bem, vamos manter vigilância pelo resto da noite, senhora. Estará em segurança. Raramente os meliantes retomam quando sabem que foram descobertos. Harry não concordava com a tese do policial e disse isto para Gina logo que eles saíram.


— Não é aconselhável você passar a noite aqui.


— Não comece, Harry. Estou cansada e quero me deitar. Não estou com a menor disposição para sair daqui agora.


Harry andou de um lado para o outro, tentando pensar enquanto ela o observava.


— O que há com você? Está dando ordens demais. Já cansei disso! Ele devia saber que Gina dificultaria as coisas para ele.


— Gina, será que não percebeu que foi ameaçada duas vezes no mesmo dia?


— Tive um problema com meu carro e um arrombamento — ela disse revirando os olhos. — Não creio que tenha corrido um risco de vida.


Harry tentou se manter calmo, e isso parecia ocorrer com mais frequência do que nunca quando estava com Gina.


— Por acaso imagina como o sujeito conseguiu entrar na sua casa?


— Arrombando a porta.


— Não há indícios de que ele tenha forçado a porta para entrar. E se ele tivesse a chave da casa?


Com um olhar assustado, Gina deu um passo atrás.


— Está dizendo que alguém que eu conheço está querendo me prejudicar? Mas quem?


Talvez devesse admitir que desconfiava de Rony, mas algo o deteve. Com toda a sua bravura, indignação e orgulho, ainda assim ela era uma mulher delicada e vulnerável.


Sabia que sua vida jamais fora muito fácil e que ela nunca fora amada de verdade. Se descobrisse agora o grande canalha que seu irmão era, ficaria arrasada. E Harry não suportaria vê-la assim.


Mas, por outro lado, se insistisse nessa ideia, ela poderia desconfiar que era Neville quem a ameaçava. Para Gina, Neville poderia, muito bem, ser suspeito. Rony o acusara de desfalque e o demitira. Isto já não era motivo suficiente para ele querer se vingar? Se ele a convencesse que corria perigo, será que não poderia acabar prejudicando o irmão?


Neville poderia terminar sendo acusado do desfalque e também do arrombamento.


E, se Gina acreditasse que Neville era o culpado, talvez se descuidasse da própria segurança, deixando o caminho livre para o verdadeiro agressor. Era arriscado demais. E se Gina fosse ferida por ele estar mais preocupado com seu irmão...


Num gesto impulsivo, ele colocou os braços em volta dela e a puxou para si num abraço afetuoso. Ela resistiu, o corpo retesado.


— Perdoe-me. Sei que fui um pouco autoritário esta noite. Mas, Gina, deixe ao menos que eu me preocupe com você, está bem?


— Se você insiste — ela disse sorrindo. — Mas não será necessário. Vou tomar muito cuidado, não sou nenhuma idiota.


— Sei disso. — Ele a beijou e não queria parar mais. Os lábios dela, quentes e macios, eram uma tentação para ele. Harry abriu a boca e a provou delicadamente. Ela gemeu baixinho quando ele passou a língua pelos seus lábios. Harry se afastou e pegou o paletó.


— Tem certeza de que ficará bem esta noite?


Harry tinha certeza de que ela gostaria de lhe pedir para ficar, pela expressão dela, mas seu orgulho a impedia. No entanto, ele estava mais aliviado. Em menos de 24 horas muita coisa tinha mudado. Seus planos foram pelos ares, ele precisaria repensar sua estratégia. A falsa acusação de desfalque não era mais sua única preocupação, agora a segurança de Gina era uma prioridade. Esta nova ameaça era bem mais tangível, mais premente.


Gina podia gostar disso ou não, mas ele se sentia responsável por ela e faria de tudo para protegê-la, mesmo trabalhando para o irmão dela. Se fosse preciso ser duro para atingir os dois objetivos, assim seria. Mas ele ainda tentou tornar as coisas mais fáceis.


— Por que você não tira umas férias? Fique longe por uns tempos, até as coisas se acalmarem.


— Que coisas? Está realmente exagerando.


— Isto não foi apenas um arrombamento, Gina.


— Claro que foi...


— Nada foi roubado, droga! Como explica isso? Gina deu de ombros.


— Como a polícia bem disse, provavelmente nós atrapalhamos o ladrão.


— E se você tivesse chegado sozinha? Se eu não estivesse aqui? Acha que o ladrão teria fugido?


Gina o fitou, atônita e surpresa com a veemência dele.


— Este é o meu trabalho, querida. Sei muito bem do que estou falando. Pela sua segurança, você deveria sair daqui por uns tempos. Vá para um hotel. Eu a encontrarei lá, na quinta-feira, exatamente como planejamos.


Gina deu um tapinha no ombro dele.


— Tenho responsabilidades aqui, Harry. E a polícia não viu motivo para alarme.


Harry respirou fundo antes de soltá-la.


— A empresa vai sobreviver sem você por alguns dias.


Sem ter que se ocupar da segurança dela e com livre acesso ao seu escritório, ele poderia obter as provas contra o irmão e ainda pegar o patife que a ameaçava. Só precisava de tempo. Gina começou a colocar as xícaras de café na máquina de lavar louças e, quando se virou para ele, seus olhos eram meigos.


— Gosto de você, Harry, e quero passar algum tempo ao seu lado. Mas uma tarde inteira será o suficiente, por ora. Não me peça mais do que isso. Minha prioridade será sempre a empresa, você sabe disso.


Só que o dono da empresa era Rony, não ela. E Harry tinha o palpite de que Rony estava cansado de dividi-la com Gina.


A teimosia dela não tinha limites, e ela não amenizava. Harry fechou os olhos por um instante, aceitando o inevitável, sabendo o que era preciso fazer, pois eram poucas as opções. Desde quando se envolvera nessa enrascada, ele se sentia tão protetor quanto possessivo. Não deixaria que ninguém a machucasse. Ele a protegeria contra ela mesma, ainda que ela o desprezasse por isso. Havia sido obrigado a lidar com seu ódio desde o início.


Harry ainda tinha mais um dia, a quarta-feira, para vigiá-la, enquanto elaborava os novos planos. Tinha muito que fazer, inclusive instalar o sistema de alarme na casa dela para evitar novas invasões.


Ele suspirou ao prever as consequências que teriam os novos planos. Afinal, Gina não iria à reunião de sexta-feira. Mas, pelo menos, ela estaria em segurança.

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