Ele bem que tentou desfazer o mal-entendido, mas os meninos, claramente portadores de muita testosterona, não deixaram Harry emitir nem um palavra, cercando-o, cada um tentando gritar mais alto do que o outro. Queriam contar ao treinador sobre seus talentos especiais e falar sobre a posição em que pretendiam jogar. Um rapaz, a quem chamavam de Alce, foi abrindo caminho com os cotovelos até a frente e disse a Harry que achava que seria um ótimo zagueiro. Pelo tamanho do menino, Harry achou que conseguiria segurar todo um time.
Continuava tentando acalmá-los para poder explicar, mas estavam todos agitados demais para ouvir. No fundo, as garotas da torcida faziam evoluções pelo estacionamento.
Gina não ajudou muita coisa. Ela não conseguia parar de rir. Um garoto, então, houve por bem querer ver de perto o revólver de Harry. A reação de Harry foi rápida e instintiva. Ele agarrou o garoto pelo pulso e empurrou-o. O garoto caiu de joelhos.
— Bons reflexos, treinador! — Alce gritou, balançando a cabeça afirmativamente.
— Vamos lá, molecada! — Arthur gritou. — Podem ir abrindo caminho. Deixem o treinador e Gi chegarem até o carro. Vamos saindo da frente, fora do caminho. Eles precisam chegar à clínica de Gi para o treinador começar a investigar.
Chamar Harry de treinador só piorava as coisas e, pelo sorriso estampado no rosto de Arthur, Harry compreendeu que estava fazendo aquilo de propósito.
Gina pegou Harry pela mão e o conduziu por entre o grupo, enquanto Harry continuava a tentar fazer com que os garotos o ouvissem. O par foi abrindo caminho por entre os carros e picapes, até onde ele havia estacionado o carro alugado. Ele abriu a porta do passageiro para Gina e foi imediatamente rodeado, mais uma vez, pela turba de adolescentes. Harry era bastante alto, mas alguns meninos conseguiam passar dele. Ele não conseguia deixar de pensar que, com um treinamento adequado e motivação, poderiam se tornar um ótimo time.
Ele desistiu de tentar explicar e simplesmente acenou com a cabeça enquanto dirigia-se para o lado do motorista e entrava no carro.
— Sim, isso mesmo, centro-avante — ele disse, fechando a porta e apertando o botão da trava.
— Como é? — ela perguntou.
— Aquele garoto com o brinco quer jogar no centro.
Ela mordeu o lábio inferior para não voltar a rir, mas quando estavam saindo do estacionamento, Harry foi alvo de outro grito de guerra e Gina não se agüentou.
— Eu quero um P!
— Sabe do que esses meninos estão precisando? — ele perguntou.
— Hum, deixe ver se adivinho... Um treinador?
— Não, estão precisando urgentemente de alguém que os ensine a soletrar direito o meu nome.
— Eles estão muito contentes com a sua presença aqui — ela comentou, enxugando as lágrimas de tanto riso, e suspirou.
— Olhe aqui — ele disse. — Só parei para comprar gasolina, e o atendente me confundiu com o tal treinador.
— Eles ficarão muito desapontados se você os decepcionar agora. Minha Nossa! Fazia muito tempo que eu não ria tanto assim.
— Foi um prazer ajudar — ele disse secamente. — Quero que me responda uma coisa. Por que ninguém nesta cidade parece querer me ouvir?
— Estão ocupados demais tentando impressioná-lo. Vai deixar Andy Ferrand ser atacante este ano?
— Muito engraçadinha.
— Ele tem um braço bom.
Harry freou o carro no cruzamento e virou-se para ela:
— Eu vim aqui para pescar.
Depois de alguns segundos, Gina percebeu que o carro não estava mais se movendo. Obviamente havia parado para que ela lhe desse instruções e lá estava ela, como uma pamonha, olhando para ele.
— Pegue a esquerda aqui — ela instruiu. — Minha clínica fica a alguns quarteirões nesta rua. Se seguir adiante, vai dar na minha casa. Fica a mais ou menos um quarteirão depois da curva. É uma casa pequena, de dois quartos, na verdade. Nada de especial. Estou falando demais, não é? Estranho. — ela observou — Acho que você me deixa nervosa.
— Por que isso é tão estranho?
— Bem, eu é que deveria deixar você nervoso. Afinal...
— Afinal o quê?
— Já vi você nu.
— E, com certeza, ficou bastante impressionada, naturalmente.
— Foi seu apêndice que me impressionou.
— Faço tudo o que posso para conseguir que uma mulher bonita repare em mim! — ele disse, fazendo a curva para a esquerda.
— Aquela ali é a minha clínica.
Seria difícil não reparar. A clínica era a única construção naquele pedaço de rua de cascalho. Harry parou no espaço ao lado do prédio, debaixo de um grande plátano. Os galhos da árvore curvavam-se sobre a clínica. Aquilo ainda poderia causar algum problema.
— Precisa mandar aparar esses galhos para você. Uma tempestade de raio pode fazer você perder seu telhado.
— Eu sei. Está na minha lista de coisas por fazer.
A clínica era uma construção de pedra, pequena, retangular e que havia sido recentemente pintada de branco. A porta da frente era preta e, acima do trinco, ao centro, havia uma pequena placa com o nome de Gina em letras douradas. Havia dois vasos de gerânio virados sobre o jardim. Os vasos haviam sido quebrados.
Gina levou-o até a porta de trás da clínica. Havia sacos de lixo estourados e a lata havia sido virada e amassada. O pátio de trás mais parecia um depósito de lixo.
— Eu tinha acabado de pintar as portas e veja só o que fizeram. Na porta de esmalte branco, a palavra prostituta tinha sido escrita corretamente com spray, Harry reparou.
Ela apontou para uma lata de spray jogada a um canto do pátio.
— Pegaram a tinta na despensa.
Ele voltou a olhar para o pátio, depois afastou-se para que Gina colocasse a chave na porta para deixá-lo entrar. Ela passou rente a ele para o vestíbulo traseiro e acendeu as luzes.
Havia três salas de exame e todas pareciam estar intactas. Fora as paredes pintadas com spray, as mesas de exame e os armários haviam sido deixados de lado. As portas estavam abertas e o conteúdo dos frascos havia sido virado, mas não parecia que muita coisa havia acontecido.
O escritório, no entanto, era outra história. Harry deixou escapar um assovio quando o viu. Parecia que um ciclone tinha passado por ali. A escrivaninha havia sido virada de lado, as gavetas arrancadas e destruídas, e havia papel para todos os lados.
— Eu estava falando sério quando disse que não tive tempo para arrumar nada ainda — ela disse. — Só dei uma olhada e chamei Remus.
Harry olhava para um velho sofá do outro lado da sala. Um dos vândalos o havia cortado com uma lâmina. O tecido havia sido retalhado e o estofamento puxado para fora. Parecia que alguém havia ficado enfurecido naquela sala.
— Olhe só o que esses miseráveis fizeram com minha porta. Eu sempre deixo o escritório fechado, mas nunca tranco a porta. Bastou girar a maçaneta. Passaram algum tempo aqui para fazer toda essa baderna.
— Talvez simplesmente tivessem se dado conta de que você não tinha droga nenhuma por aqui.
— E por isso ficaram furiosos?
— É bem possível.
Ela foi para o saguão de entrada.
— Espere até ver a frente. Está ainda pior.
Harry continuou em pé na porta do escritório, examinando a baderna.
— O que está fazendo?
— Estou analisando o padrão.
— Que padrão?
Ele sacudiu a cabeça.
— Por que não deixou seu pai e seu irmão começarem a arrumar o lugar? Arthur contou-me que se ofereceu, mas que você não deixou que ele tocasse em nada. Por que não?
— Porque vou precisar reorganizar os arquivos primeiro, ou estar aqui quando for reorganizado para poder supervisionar. A informação sobre os pacientes é confidencial, e preciso ter certeza que tudo vai estar adequadamente colocado, nas pastas certas.
— Achei que tinha aberto a clínica há pouco tempo.
— E é verdade.
— Então como tem tantas fichas?
— São do Dr. Binns. Ele foi embora de Bowen há dois meses e deixou todas as fichas de pacientes para mim. Houve um fato que só soube depois de ele ter ido. Sabia que ele odiava Bowen, mas na verdade deixou os pacientes na mão. Disse a meu pai que a vida era muito curta para passar trabalhando, no que ele disse ao meu pai, num "buraco que Deus esqueceu".
— Com essa postura, os pacientes deveriam adorá-lo — ele ironizou.
— Pois é, não gostavam muito dele e só lhe pediam ajuda quando estavam desesperados. Sabiam da opinião dele sobre a cidade... e sobre o povo, ou seja, nós. Está pronto para ver a parte da frente?
— Sim, vamos.
Ele seguiu-a pelo vestíbulo e entrou na área das enfermeiras, logo atrás da área de recepção. A divisória de vidro que dividia o ambiente estava esmigalhada e os estilhaços de vidro espalhavam-se pelo chão. Havia uma janela quebrada junto aos arquivos. Harry cruzou a sala com cuidado, para olhar mais de perto. Depois olhou para o chão abaixo dela e balançou a cabeça.
— Cuidado onde pisa — ela advertiu.
Apesar de não parecer possível, a área das enfermeiras estava ainda pior. O balcão havia sido arrancado da parede e estava jogado ao chão, em uma mistura de papéis e pastas rasgados. O tecido da área de recepção também havia sido cortado. Estava estragado demais para poder ser consertado.
Harry olhava da sala de recepção para a área das enfermeiras, quando Gina interrompeu sua concentração.
— Ainda bem que estou começando minhas férias!
— Levará mais de duas semanas para pôr tudo em ordem outra vez.
— Duas amigas minhas vêm de Nova Orleans — ela contestou. — Vamos levar menos de um dia para colocar todas as fichas em ordem. As duas são enfermeiras e sabem o que vai onde. Assim que a papelada estiver guardada, Rony e papai podem me ajudar a pintar. Tenho bastante tempo. — ela acrescentou — Só não tenho dinheiro para repor a mobília. Pelo menos, não por enquanto.
Ela levantou uma cadeira e colocou-a junto à parede, depois abaixou-se para recolocar um chumaço de algodão para dentro.
— No momento, vou ter de me virar com fita colante. Vai ficar horrível.
— Será um prazer emprestar-lhe dinheiro, se quiser.
Foi a pior coisa que poderia ter dito. Ela levantou a cabeça como um foguete e a expressão de seu rosto mostrava que havia sido insultada. Nem deu a ele tempo para tentar reparar seu erro e deixar a situação sob controle.
— Não quero seu dinheiro. Aqui em Bowen nós tomamos conta de nós mesmos. Não esperamos que ninguém de fora venha resolver nossa situação.
— Está deixando o orgulho falar mais alto. Eu só estava tentando...
— Ajudar uma pobre mulher em apuros? Olhe, não quero parecer grosseira, mas você é de fora e não sabe o quanto é importante para nós mantermos esta clínica por nós mesmos.
— Você salvou minha vida e eu só queria... — ele deteve-se diante do olhar dela. — Você tem razão, eu não entendo nada, mas não vou pressionar você. Vou até pedir desculpas. Não queria ofender.
A expressão do rosto dela suavizou-se.
— Olhe, sei que tinha boas intenções, mas isso não é problema seu. É meu e tenho de lidar com isso.
Ele levantou as mãos, rendendo-se e disse:
— Certo. Você é quem vai resolver. Mas conte-me uma coisa. O que o chefe de polícia disse disto? Ele já tem idéia de quem possa ter sido?
— Ainda não — ela respondeu. — Mesmo que ele encontre a meninada que fez isso, continuarei na mesma. Ninguém da redondeza tem dinheiro. Você deve ter visto que não há nem uma mansão, nem uma casa com luxo em todo o seu caminho. A maioria das famílias tem de manter dois empregos para garantir o sustento mínimo.
Ele apontou a sala de recepção com o queixo.
— Isso aí está muito estragado.
— É um problema, mas vou me recuperar.
— Você não tem seguro?
— Tenho. Vai aliviar um pouco, mas não vai cobrir tudo. Tive de gastar uma fortuna com o seguro de erros médicos, e não sobrou muita coisa. Para economizar, não fiz uma seguro muito abrangente das instalações — ela disse e, sem nem respirar, mudou de assunto. — Precisa de ajuda para carregar a caixa?
— Não, obrigado.
— Pode pôr na entrada lá atrás e ir andando. Acho que os peixes não querem saber de mais nada a esta hora, mas poderia se acomodar lá na casa do papai.
Ela estava tentando se livrar dele, e não estava sendo nem um pouco sutil quanto a isso. Ela só não sabia contra o que estava lutando.
Harry era tão teimoso quanto ela e já havia decidido a não ir a lugar algum.
— Acho que é melhor eu ficar com você... se não se importar.
— Por quê?
— Você deve cozinhar melhor.
— Nem tenho tido tempo de cozinhar, ultimamente.
— Está vendo? Já está melhor. Vamos lá. Vou trazer a caixa para dentro depois podemos ir de carro para sua casa. Quero ver sua casa, tirar as malas do carro e livrar-me deste terno.
Ele tentou sair, mas ela bloqueou-lhe o caminho.
— Por quê?
— Por que o quê?
Estavam diante um do outro, quase colados. Ele era bem mais alto do que ela, mas ela não pareceu nem um pouco intimidada.
— Por que quer ficar na minha casa? A casa do papai tem mais lugar.
— Pode ser, mas você é mais bonita, e ele me ofereceu a alternativa. Podia ser a sua casa ou a dele. Escolhi a sua. Sabe como é, hospitalidade de lugar pequeno e tal... seria falta de educação recusar um lugar para mim.
— Deve estar falando da hospitalidade aqui do sul, mas ainda não me disse...
Ele não a deixou terminar.
— Deixe eu me hospedar em sua casa, tomar alguma coisa gelada e depois lhe conto o que acho desta baderna toda.
Harry foi até o carro, pegou a caixa do porta-malas e a colocou no chão, perto da porta dos fundos, como ela pediu, depois esperou que ela apagasse todas as luzes.
— Eu deveria ficar aqui e começar a arrumar — ela disse, um tanto desanimada.
— Quando vêm suas amigas?
— Depois de amanhã.
— Certo. O que acha de deixar um amigo meu dar uma olhada no lugar antes?
— Por quê?
— Para me dizer se estou certo ou errado. Tire a noite de hoje de folga, Gina. Depois vou me juntar a seu pai e a seu irmão para ajudar. Não vamos demorar nada para deixar tudo em ordem.
— Mas você veio para cá para pescar!
— Sim, e ainda vou pescar. Podemos ir beber alguma coisa gelada agora?
Ela assentiu, fechou a porta atrás deles e foi para o carro.
— Fudge disse que você parecia assustada ao telefone.
— Sim, eu fiquei assustada... muito assustada. Parecia me assustar até com a sombra — ela havia parado de sorrir. — Acho que minha imaginação está aprontando comigo.
— Como assim?
— Achei que alguém entrou em minha casa ontem à noite... enquanto eu estava dormindo. Ouvi um barulho, levantei e percorri a casa toda, mas não vi ninguém se escondendo atrás das portas, nem embaixo da minha cama. Poderia até ter sido o Rony. Ele aparece nas horas mais absurdas.
— E não era seu irmão?
— Não tenho certeza. Ele pode ter ido embora antes de eu chamar por ele. Deve ter sido um sonho ruim, ou a casa estalando. Até achei que alguém poderia ter mexido em minha escrivaninha, que fica na biblioteca, ao lado da sala de estar — ela explicou.
— Por que achou isso?
— O telefone sempre fica do lado direito, mais perto da ponta... é uma espécie de obsessão minha deixar o centro da mesa livre para poder trabalhar. Mas quando desci hoje de manhã, a primeira coisa que reparei foi que o telefone estava fora do lugar.
— Mais alguma coisa?
— Tive a incômoda sensação, ontem, de que alguém estava me seguindo — ela disse e balançou a cabeça, como se fosse uma idéia absurda. — Será que estou ficando perdidamente paranóica?
n/a: Pra quem perguntou se essa fic é tão grande como Tudo por amor, ela é mais ou menos metada do tamanho oq já é muita coisa.... Espero q estejam gostando... Bjus e até mais!!!!