Apenas você
Após a formatura em Hogwarts, concluindo seus estudos na escola como sua melhor aluna em décadas, Hermione Granger decide seguir carreira como pesquisadora e preparadora de poções mágicas. Após estar formada pela conceituada Universidade bruxa do ramo localizada na gélida Finlândia, passou a ser tomada como mulher independente em todos os sentidos da palavra.
Ela, porém, parecia eufórica com a ideia de voltar em breve para a Grã Bretanha. Sentira, após dois longos anos, enorme falta dos pais, de Harry, de Ginny, de Ronald, de Minerva e de… Melhor pular este último nome.
Era heroína de guerra e seu nome se fazia reconhecido onde quer que estivesse, mas mesmo no centro de uma multidão ela poderia se considerar sozinha. Nunca fora de muitos amigos, popular menos ainda, e nem fazia questão disso, afinal.
Isso passou a se refletir em seu pouco talento com relacionamentos amorosos. Quando surgiam pretendentes, ela os evitava e rechaçava como se fossem uma aberração ou o diabo em forma humana, somente para evitar novas desilusões. Nunca superou o fracasso com uma pessoa em especial, duas décadas mais velho, ex-Comensal da Morte e professor de Poções. Seus melhores companheiros, a cada ano que se passava, continuavam a ser especialmente o café preto amargo e os livros.
Um mês antes de deixar a Finlândia, porém, optou por ir a um encontro de estudiosos pocionistas e professores da área na Suécia, país vizinho, com duração de três dias.
“Você pode encontrar alguém legal, Mione. Um loiraço sueco, quem sabe. Dizem que eles, assim como os russos, são muito bons de cama.” – a voz brincalhona de Ginny resoou em seus pensamentos, da última vez em que a ruiva foi visitá-la em seu apartamento – “Não acha que é hora de seguir em frente e reconstruir sua vida?”
Sua amiga tinha toda a razão, mas não era tão fácil assim. Ou quem sabe fosse mais fácil do que ela poderia imaginar.
* * *
Após aparatar em frente ao requintado hotel bruxo em que seria realizado o Encontro, Hermione sorri fracamente, mal sabendo o que a esperava logo no começo daquela sexta-feira.
O café da manhã havia começado a ser servido há pelo menos quarenta minutos, e ela precisaria se apressar ou estaria atrasada para a abertura oficial do evento, que convidava honradamente os Mestres de Poções mais famosos dos quatro cantos do mundo. Uma grande oportunidade de, além de espairecer, aprender bastante.
Após vencer o hall de entrada, por mais estranho que possa parecer, ela estava sem saber o que fazer. Não possuía fome, tampouco sabia como distrair-se naquele meio-tempo. Embora não desejasse ter seu café da manhã, procurava uma mesa para sentar-se, porém todas, para seu desgosto, estavam com ao menos um ocupante.
Hermione caminhava pela passarela que separava o salão em dois espaços, percorrendo-o com olhos sábios de coruja, eis que castanhos encontram um par de orbes sorridentes.
“Thierry-Florent Fontaine.” – apresentou-se o dono daqueles olhos cor de mel, antes de capturar a mão direita da moça e lhe presentear com um breve contato de seus lábios no monte que os dedos curvados dela formavam – “Mas as pessoas costumam chamar-me de Thierry.” – completou, com seu inglês improvisado e carregado sotaque que denunciava sua terra natal, ainda que o nome já fosse, por si só, bastante sugestivo.
“Como sabe que sou britânica se sequer havia dito algo?” – ela estreitou os olhos.
“Seus modos e feição a denunciam, milady.” – respondeu ele, para depois exibir um sorriso sem dentes.
Ela riu da capacidade de percepção dele e do tratamento recebido.
“Perdão, mas… a abertura não deveria estar se passando neste exato momento?” – mudou de assunto, confusa, afinal ainda via o salão em que estava servida a refeição repleto de pessoas.
“Oh, não, não, senhorita…?”
“Granger. Hermione Granger.”
“Pois bem, Hermione.” – abandonou completamente as formalidades – “Soube que as redes de flu ficaram congestionadas logo cedo no país, e o Ministério da Magia local vem tentando resolver o problema desde então. O palestrante magno atrasou-se por pelo menos uma hora e, pela idade muito avançada, prefere não aparatar… O que quer dizer que ainda possuímos algo em torno de quarenta minutos antes da abertura.”
A conversa continuou. Ele, apesar do incômodo ar galanteador, foi simpático e em tese respeitoso com ela, o que a agradou.
Perguntou de que região da Inglaterra ela era e, surpreendendo-a, seu estado civil, ao que Hermione corou um pouco. O convite para se sentar com ele logo veio, e ela – vendo-se sem maiores escolhas – anda até a mesa junto ao jovem-homem, que caminhava despojado, solto, demonstrando todas as suas maneiras descontraídas.
Perto dos dois havia alguém que a morena não esperava ver nem em miragem, e por sorte, ou azar, ela não o notara até ali.
Este mesmo homem obscuro levantou seu rosto da xícara de chá e a visão que teve quase o fez cuspir seu conteúdo.
Severus Snape não olhava a bruxinha desde que ela se formara em Hogwarts, quando a ridicularizou ao ouvi-la, no último dia de aula, declarar-se apaixonada por ele. Era o que o professor por quase dois anos mais desejava ouvir; seu orgulho e sua concepção da impossibilidade de sustentar uma relação com alguém, todavia, falaram mais alto, mesmo que se considerasse livre do que sentia por Lily Potter.
Com os anos de Comensal que carregava nas costas e seu poder observador, ele certamente notou a má situação da garota, além do quanto ela havia se transformado e, evidentemente, as intenções de um pirralho que mal saíra das fraldas, pelo menos a despeito de estudos sobre Poções Mágicas: o Mestre de Poções, com fama de galã e mulherengo, Thierry Fontaine.
Ao chegarem a seu destino, o francês sentou-se primeiro, esperando que ela fizesse o mesmo. O jovem tomava a imagem de Hermione como se ela fosse o seu café da manhã, não o sortido prato à sua frente, e Severus detectou nos olhos do bruxo o sacrifício que lhe seria compartilhar daquele momento com ela próxima a ele.
Levantou-se de sua própria mesa e, antes Hermione se acomodasse, Snape – para se autorrepreender em seguida – chegou por trás dela, sibilando:
“Não se incomode, Fontaine, a senhorita aqui vai comigo.” – pôs a mão sobre o ombro desnudo dela, causando-lhe um arrepio, e içou a sobrancelha direita – “Afinal eu fui professor de Granger em Hogwarts” – era palpável o deboche em cada sílaba pronunciada – “e, modéstia à parte, sou melhor companhia que você.” – ele não deixou de fitar seu ‘rival’ por sequer um segundo. Isso deixou Hermione ligeiramente nervosa, mas no fundo ela desejava gargalhar com a última fala.
Snape, boa companhia?
Logo se deu conta, no entanto, de que estava em apuros. Os dois homens se encaravam perigosamente, então ela olhou para o ‘novo amigo’, em súplica, para que fizesse alguma coisa. Se havia alguém que ela não desejava ver, este era seu ex-professor.
“Eu a convidei primeiro, Snape, dê o fora.” – ergueu-se também o loiro francês, que logo se pôs ao lado de Hermione, deixando de exibir a feição serena de outrora.
“Permitamos que a senhorita Granger escolha então.” – sugeriu o homem de cabelos e olhos negros. Ele sentia o receio de que ela o rechaçasse, e não poderia culpá-la, afinal lembrava-se muito bem do quanto havia sido rude da última vez que se viram.
Ela engoliu em seco. Snape era desagradável, mas a conversa com Fontaine poderia se tornar mais perigosa a qualquer momento. Olhou de um para o outro, mas a imagem do homem sombrio aos poucos foi fazendo-a remoer antigos sentimentos. Ela tinha ciência de que nunca o havia esquecido e, da mesma forma, não queria demonstrar que ainda gostava dele, pois sabia que Severus Snape não hesitaria em usar isso contra ela na primeira oportunidade.
O mais novo dos dois murchou os ombros, rendido, ao ver que ela direcionava seu olhar ao outro homem.
“Vá com ele, Hermione,” – murmurou, compreensivo, chamando a atenção da moça – “mas espero ter nova oportunidade de conversar com a senhorita.” – tomou então a visão de Snape, desdenhando – “E sem interrupções desagradáveis.”
O slytherin poderia retrucar, mas mal ouvia as palavras do outro para poder bolar uma resposta atravessada.
“Venha, Granger.” – chamou-a de seus devaneios, caminhando à frente dela até sua própria mesa, próxima dali.
Severus se acomodou, com a expressão a nublar-se imediatamente, e ela estava começando a se arrepender de ter feito aquela escolha precipitada.
“Sente-se, não temos o dia todo.” – a voz do homem saiu mais rude do que ele pretendia.
“Qual é a sua, Snape? Deseja nova chance de me insultar?”
“Não me lembro de ter lhe dirigido qualquer ofensa, senhorita.”
“Talvez porque não dei ao senhor muito tempo de falar.” – mesmo que estivesse irritando-se com ele, ocupou a cadeira vaga.
“Ou talvez porque o que desejo não é ofendê-la, e sim termos uma conversa civilizada. Agora que não está o tempo todo com os dois cabeças-ocas do Potter e do Weasley, tenho esperanças de que esteja curada do vírus.” – por que diabos ele não conseguia manter a maldita língua quieta dentro da boca?
“Mais respeito com os meus amigos, Snape! E ainda é assim que deseja que tenhamos uma conversa civilizada?”
“Não só uma conversa, Granger. Se quiser ter sua refeição comigo, eu não me importo.”
“Prefiro ficar sem comer a passar mais um minuto em sua boníssima companhia, professor Snape!” – levantou-se outra vez.
“Sente-se.” – ao vê-la contrariando-o, ele achou-se forçado a usar seu velho tom Mestre de Poções – “Faça o que digo.” – finalizou entre dentes, ainda de cabeça baixa, tomando em mãos a pena que repousava no centro da mesa e rabiscando em um pergaminho algo não legível a ela.
“Mas, Sn…”
Antes que Hermione terminasse sua recusa, ambos viram a tinta sumir – “Eles lhe trarão o que comer rapidamente, fique despreocupada.”
“E como sabe do que eu gosto?” – pressionou-o, franzindo o cenho e suavizando a voz, tornando-a quase cantada.
Gryffindor insolente, sempre pensando em tudo!
Ele sentiu como se ela o tivesse encurralado contra a parede, deixando-o sem saída.
Se bem que aquilo noutro contexto não lhe parecia má ideia.
Logo a expressão figurativa misturou-se a uma desejada realidade, e a mente o traiu trazendo-lhe imagens daquele corpo esguio forçando o dele contra uma gélida superfície de pedra que parecia pertencer às Masmorras de Hogwarts, sufocando-o em beijos.
Snape pigarreou, levemente incomodado com a pergunta e com o pensamento subsequente. Por sorte, ela pareceu não se aperceber de seu deslize comportamental; afinal, já lhe disseram, tinha de ser Dumbledore, aquele velho senil, que ele seria capaz de manter a expressão impassível mesmo desfilando pelo salão principal de Hogwarts com uma roupa florida e dançando ula-ula.
“Intuição, Granger, intuição…” – respondeu enfim, ainda que evasivamente, e ela aparentava estar convencida pelo pretexto.
Severus havia terminado de comer e o que restava de seu chá já havia esfriado, então preferiu deixar a xícara de escanteio e deter-se em observá-la enquanto comia. Notava o quanto ela havia se desenvolvido enquanto mulher, e seu rosto expressava toda a maturidade que adquirira em apenas dois anos longe da Grã-Bretanha. Os cabelos castanhos estavam comportados em um coque frouxo e alguns poucos fios ondulados cobriam a pele nua de seus ombros, já que o laço do vestido oliva, de decote sutil, moldava-se ao pescoço dela.
À frente de Hermione estavam alguns de seus pratos prediletos, mas a falta de fome e saber que estava sendo analisada continuamente por aquele homem diante de si a incomodava.
O que raios ele pretendia com tudo aquilo?
Ela havia visto, no pouco tempo que teve para analisá-lo, que Snape não mudara muito, embora seus traços menos grosseiros fossem de uma pessoa que possuía carga menor nas costas, ainda mais com o fim da guerra e da rotina insana de espião.
O silêncio começava a ficar angustiante, e eis que uma voz aumentada magicamente soou, convidando-os ao imenso auditório que comportaria a celebração inicial.
Snape, retirando sabe-se lá de onde suas boas-maneiras, levantou-se e puxou a cadeira para que Hermione também ficasse de pé. Quando o fez, ele ofereceu seu braço a ela, que estava prestes a aceitá-lo, logo mudando de ideia.
“Eu sei andar sozinha, professor.” – desferiu, atrevida – “Agora se me dá licença.” – virou-se, afastando-se a passos largos.
É, meu velho, não vai ser tão simples assim.
Ele odiava admitir isso a si próprio, mas aquilo o feriu. Então pôde sentir uma fração da dor que a bruxa passou quando ele a mandou embora.
Quando se aproximava da porta do auditório principal, ela esbarrou com um antigo colega de turma, uma das poucas pessoas que poderia considerar amigo. Matias era brasileiro, destacava-se pelo ótimo senso de humor e pela bonita pele morena, quase negra.
“Surpresa encontrá-lo por aqui.” – ela disse, agradecendo aos Céus por ter com o que desviar seus pensamentos de Severus.
Assim que essa noção a alcançou, ela o observou, de esguelha, vindo na direção deles.
“Matias, me abrace.” – cochichou para que somente ele a escutasse.
“Mas, Herm…”
“Faça agora!” – insistiu, no mesmo tom.
Obedeceu, sem jeito, afinal Hermione e ele nunca haviam trocado nada além de singelos apertos de mão.
Ela o enlaçou pelo pescoço e o rapaz, atrapalhado, pôs os dois braços em volta da cintura dela.
“Quando um homem alto e de vestes negras entrar me avise.”
Logo depois Severus Snape enxergou a cena que fez seu sangue correr mais rápido nas veias. Por uma fração de segundo cessou sua caminhada, mas logo prosseguiu, praticamente bufando de ódio.
“Já foi.”
Ela suspirou aliviada.
“Ele parecia irritado, Mione.” – comentou outra vez o rapaz, sem compreender exatamente o que se passava – “Você pode me dizer o que aconteceu aqui?”
Soltando-se do abraço, ela explicou-se, contente por ter deixado o Mestre de Poções aborrecido. Algo dentro de si ambicionava imensamente que por ciúmes.
“Matias, esse que acabou de passar é Severus Snape, meu desprezível, embora competente, ex-professor em Hogwarts.” – comentou, tentando soar convincente – “Ele me odeia e sempre se esforçou para demonstrar isso.” – uma pausa – “Eu imaginei que se me visse abraçada a alguém, distraída em alguma conversa, ele não ousaria interromper, daí eu estaria livre de qualquer insulto.” – mentiu, e o amigo pareceu aceitar a desculpa dada, embora contrariado pelo comportamento do homem.
“Que idiota, Hermione. Como ele nunca percebeu a aluna brilhante que você é?” – elogiou, sincero.
“Você é um anjo, Matias. Devo essa a você.” – ficou na ponta dos pés e beijou-o no rosto.
Com um sorriso, ela se afastou, convidando-o para entrarem juntos. Assim que o fizeram, ela procurou Snape com o olhar, mas não o encontrou.
Matias a puxou pela mão, guiando-os por entre as fileiras de assentos até que encontraram dois vazios a um canto.
Pouco tempo depois de se acomodarem, notaram as conversas paralelas cessarem paulatinamente. Um homem franzino e de idade, de expressão serena, subiu no tablado acompanhado por ninguém mais ninguém menos que seu ex-professor.
Hermione o observou percorrendo com as vistas cada canto do local e tremeu quando seus olhares se encontraram. Assim que notou que Hermione continuava acompanhada do moreno, porém, desviou as vistas dela.
E o silêncio ali foi enfim rompido.
“Sou o Mestre de Poções ucraniano Andriy Lukashenko e venho acompanhado de um dos mais brilhantes aprendizes que já tive o prazer de ensinar, Severus Snape.” – o palestrante esticou o braço direito na direção do homem sério ao lado dele, que assentiu discretamente aos aplausos dos presentes – “Viemos apresentar aos senhores uma respeitável tese e fundamentação sobre a importância da química Trouxa, nos seus mais diferenciados papéis, para melhor rendimento no preparo de poções mágicas.”
Alguns burburinhos na plateia sobre o tema e, por que não dizer, sobre a aparência sinistra de Snape. Enquanto isso, Hermione se detinha em observar a feição de Lukashenko, tomando súbita admiração pela pessoa dele. Considerava-se nobre a profissão de Mestre de Poções no mundo bruxo, e ele ousar trabalhar uma ciência Trouxa em suas pesquisas era admirável.
Os tópicos da exposição pareciam bem inovadores. Ela acompanhava as primeiras palavras do homem mais velho com atenção e se surpreendeu quando o ouviu fazer um questionamento sobre os materiais de caldeirões – um tema que, por mais surpreendente que pareça, era obscuro à maioria dos profissionais da área.
Não para Hermione, é verdade, que, como de praxe, levantou a mão, recebendo a permissão para falar:
“Quase sempre o estanho é usado em ligas para evitar a corrosão metálica,” – o velhinho assentiu, simpaticamente – “aumentando a resistência delas sem alterações significativas do grau de deformação.”
“Resposta praticamente recitada do capítulo doze do livro Ligas Metálicas e Suas Vantagens para um Pocionista, de Isaac Heisenberg.” – a expressão vitoriosa de Severus ao dizer isso fez o sangue de Hermione ferver – “Pelo visto não perdeu algumas manias antigas, como decorar livros e responder questões sem suas próprias conclusões sobre um assunto.”
Se ele queria irritá-la e comprar briga, estava quase conseguindo. A bruxa se preparava para soltar uma resposta malcriada, mas a mão de Matias sobre seu braço a fez engolir as palavras.
“E posso saber o porquê de não ser usado um caldeirão de estanho por si só, senhorita Granger?” – Snape, que adorava desafiá-la, sabia que não havia essa resposta no livro referenciado e continuou o joguinho.
“É algo similar ao que acontece com a Mata-Cão, que é preparada em caldeirões com um percentual de prata, pois este material reage com os ingredientes e é eficaz no tratamento dos lobisomens. O mesmo se dá quando fazemos a ligação entre o estanho e o cobre, já que este componente é muito bom para poções curativas e possui enorme potencial contra elementos das trevas.”
Arrá! Ela sorriu satisfeita com a feição furiosa de Severus, que desistiu de testar sua ex-aluna. E não foi a única a sorrir, o senhor ao lado do slytherin também se divertia com a situação.
A palestra se encerrou uma hora e meia depois, sem maiores contratempos ou alfinetadas, e ali permaneceram apenas Lukashenko e o outro professor.
“Conhece a mocinha?”
“Dei aulas a ela em Hogwarts.”
“Parece-me que você a subestima muito, meu rapaz.” – um sorriso matreiro – “Algum problema mal resolvido no passado de vocês, Severus?”
Snape bufou.
“Não é da sua conta.”
“Isso responde minha pergunta. Com certeza há algo a mais acontecendo que eu não sei. Ainda.” – finalizou Lukashenko, astutamente, pouco antes de deixar o local.
Snape permaneceu plantado onde estava.
Merda, aquele velho parecia onisciente. Lembrou-se de Dumbledore e riu obscuramente ao ver o quão semelhantes os dois eram.
* * *
O dia foi preenchido com mais duas exposições e minicursos sobre novas técnicas e fórmulas, e Hermione estava mais do que satisfeita por ter com o que ocupar a mente durante tantas horas.
Quando voltava para o seu quarto, contudo, esbarrou com quem menos desejava ver na dobra do corredor. Disfarçaram o máximo que podiam, mas o clima pesado denunciava que ambos estavam bastante conscientes de que estavam na companhia um do outro.
“Granger.” – ele quebrou o silêncio.
Ela nem se dignou a olhá-lo, colocando a mão na maçaneta da porta e procurando na bolsa a chave mágica para abri-la.
“Parece que o que sentia não passava de uma paixonite adolescente, não é, senhorita?” – persistiu ele, o canto de sua boca curvando-se num gesto de ironia.
“Creio que o senhor disse com propriedade que seria melhor que eu deixasse de amar um velho rabugento para investir em alguém da minha idade.” – virou-se então para encará-lo, usando as próprias palavras dele quando a mandou embora contra o próprio Snape.
O sorriso de escárnio que ele exibia morreu, e pela primeira vez na vida a bruxa o viu abaixar a cabeça, derrotado. A culpa a atordoou na mesma hora e, quando ele se preparava para dar-lhe as costas, ela falou novamente.
“Recomendação sua que eu nunca segui.” – contornou Hermione, num sussurro quase inaudível.
Ele de novo levantou o rosto e espaçou seus olhos, pasmo.
“Jamais esqueci você.” – reforçou a bruxa, sorrindo tristemente – “Embora houvesse tentado tirá-lo da minha mente de várias maneiras.”
“Pude perceber isso hoje.” – o professor alfinetou, encontrando novamente seu típico tom ferino.
“Está falando do Matias?” – inclinou a cabeça em alguns graus à esquerda, pensativa.
“Está falando do Matias?” – o homem, de voz tão rouca, tentou imitar o tom tipicamente feminino de Hermione, falhando miseravelmente – “Se for o molequinho que estava com você, é a ele mesmo que estou me referindo.” – completou, em sua entonação tradicional.
Ela riu sonoramente e se aproximou, ficando a apenas um passo dele.
“Ele é só um grande amigo.”
“Não era o que parecia.”
“Está com ciúmes, Severus Snape?” – provocou, sentindo em sua boca o sabor da vitória.
“Não importa.” – ele disse, ainda carrancudo.
“Importa sim.” – pôs a mão sobre o lado esquerdo do rosto dele, varrendo-a pela bochecha pálida. Severus não demorou a fechar os olhos, rendendo-se ao toque, ao que ela sorriu.
A partir dali as ações passaram a contar mais que as palavras. O homem abriu os olhos novamente e retirou com cautela a mão dela de sua face, atrelando-a firmemente à sua. O magnetismo entre as bocas falou mais alto e brotou então entre eles o primeiro beijo. E o segundo. E o terceiro…
Em meio ao que lhe parecia ser o enésimo, Hermione tateia cegamente dentro da bolsa, buscando novamente a chave com uma das mãos, enquanto a outra se emaranhava nos cabelos finos do bruxo. Estavam num corredor, por Merlin!
As línguas acariciavam-se com devoção e fome, mas, sabe-se lá onde, Hermione encontrou concentração e coordenação motora suficiente para fazer com que os dedos trêmulos encontrassem a fechadura da porta, abrindo-a.
Aproveitaram o deslocamento até o interior do cômodo para contemplarem-se. Severus estava com os fios negros desordenados e os primeiros botões da camisa abertos, Hermione com as bochechas coradas e com o tecido frontal do vestido levemente amassado. Mais linda do que nunca, na opinião dele.
“Não sou mais seu professor, mas há certas lições que eu gostaria de lhe ensinar esta noite, senhorita Granger.” – sua razão lhe dizia para levar as coisas devagar, mas seu coração e seu corpo sabiam que a entrega de ambos ali era necessária para que mantivesse sua sanidade.
Merlin, ele precisava tanto dela.
Com um aceno de varinha as luzes enfraqueceram-se, ficando o cômodo iluminado de modo bruxuleante. Os olhos dele possuíam brilho e fogo suficientes para clarear a face dela, que de um rubro saudável passou a exibir desejo febril.
Os beijos despertaram a vontade adormecida que Hermione possuía de senti-lo.
“Não houve uma noite sequer em que eu não tenha me arrependido de tê-la renunciado anos atrás.” – ele comentou no intervalo de respiração entre um beijo e o próximo, sua voz ofegante e ainda mais rouca.
“Mas nunca me procurou.”
“O que eu queria que fizesse? Que a visitasse e dissesse: eu a amo, Hermione. Vamos nos casar, ter lindos filhinhos e vivermos felizes para sempre?” – um sorriso descrente, que insinuava seu nervosismo, teimava em aparecer – “Você, no mínimo, ia pensar que eu enlouqueci.”
Ela gargalhou gostosamente, ainda atada aos braços dele.
“Talvez no começo sim, mas se essa fosse verdadeiramente sua vontade não custaria nada me convencer disso de outro jeito.” – oh, sim, e ele sabia muito bem convencê-la e tratou de agir imediatamente para compensar o tempo perdido.
As peças de roupa tornaram-se um grande empecilho conforme as mãos tornavam-se mais atrevidas.
“Eu não quero que ninguém toque no que é meu, estamos entendidos?” – Snape, que estava com o rosto mergulhado no vão do pescoço feminino, mordeu avidamente a pele pálida dali enquanto a segurava pelo traseiro – “Você é minha, Hermione.” – a voz sedosa interpelou ao seu ouvido esquerdo – “Minha.”
* * *
Horas depois estavam os dois nus, suados e saciados, com as pernas enroscadas sob as cobertas e trocando carícias – desta vez mais comportadas.
“Ficamos aqui ou vamos para o seu quarto? Estou curiosa para descobrir se a banheira dele é tão boa quanto a do meu.”
O homem adorou a ideia e riu da insinuação dela, mas havia um porém:
“Gostaria muito de, com sua ajuda e companhia, testar minha banheira e minha cama nos próximos dias, minha bruxinha atrevida, mas só poderei ficar aqui até amanhã cedo.” – logo a voz dele ficou mais séria – “Tenho direito a apenas uma diária no hotel, pois não vim participar do evento como estudante ou Mestre convencional do ramo, e sim por convite de Andriy Lukashenko para a palestra magna somente.”
“Oh, Deus, eu não sabia. Pensei que continuaria aqui até o domingo.” – ela pareceu triste de repente.
Snape notou e beijou-a de modo reconfortante, lento e não menos agradável.
“Eu prometo mandar uma coruja a você assim que voltar a Hogwarts.” – falou Severus com a voz já dando indícios de sonolência.
Ela também sentia o resultado do dia no corpo. Fora o evento em si, ainda havia um bruxo deliciosamente passional na sua cama. Como efeito disso, estava só os cacos. Não tardou para que, atada firmemente ao corpo dele, Hermione mergulhasse num agradável sono reparador.
* * *
A claridade já penetrava a vidraça da janela do quarto de hotel e, com toda aquela luz insuportável, foi impossível Severus, um noctívago habitante das Masmorras de Hogwarts, não se sentir incomodado. Despertaria de mau humor se não fosse pelo presente, agora devidamente desembrulhado por ele, que permanecia em seus braços e repousava a cabeça em seu peito.
Ela estava de fato ali com ele. Então era realmente verdade, não um delírio de um velho atormentado.
Pela posição do sol, deveria ser algo em torno das nove da manhã. Dez e meia ele teria de arrumar suas coisas para partir antes do almoço, quando se encerraria a diária a que tinha direito.
Por estar pensativo, não observou quando castanhos se abriram lentamente e começaram a estudá-lo. Só percebeu que a bruxa estava em suas plenas faculdades quando sentiu uma mão desinibida descer por seu torso e encontrar sua virilidade, que despertara com o menor toque.
“É um convite mais do que tentador, Hermione.” – a voz estava arranhada pelo tempo sem usá-la, mas ela sentiu todo o calor transmitido pela fala dele – “Eu ficaria a manhã inteira aqui com você, mas preciso organizar minhas coisas e ir até a recepção.”
Ela, abraçando-se ainda mais a ele, exibiu um sorriso pícaro quando algo lhe veio à mente – “Tive uma ideia.” – Snape ergueu uma sobrancelha, e ela prosseguiu – “Você tem a credencial, não tem?” – viu-o concordar com a cabeça e começou a percorrer com um dedo o peitoral liso do homem – “Então, se é assim, poderá continuar no hotel até o final do evento, embora não mais com direito à diária.”
“Que proposta indecente é essa, senhorita Granger?” – caçoou ele – “Está pensando em me manter no seu quarto como escravo sexual por mais dois dias ou estou enganado?”
Ela tentou ficar séria, mas logo se rendeu à brincadeira – “Na mosca!” – apertou o nariz dele entre os dedos polegar e indicador, num beliscão suave. Se fosse qualquer outra pessoa, esta provavelmente jazeria morta no mesmo instante, mas vindo dela aquilo era aceitável. Ele negava a confessar a si mesmo que até gostara do gesto.
“O que eu não faria por você?” – questionou retoricamente ao mergulhar o rosto nos cachos dela, inalando o perfume frutal que deles emanava.
E amaram-se mais uma vez naquela manhã de sábado, esquecendo-se por completo de que havia um mundo lá fora.
* * *
Já devidamente dispostos após a atividade matinal, Hermione, ainda coberta pelo lençol, se moveu para alcançar a borda da cama, enquanto ele parecia nada constrangido ao exibir sua nudeza recostado ao travesseiro.
“Fiz você faltar à primeira palestra do dia. Sinto muito, Hermione.” – bem, como bom slytherin, na realidade não sentia, falou-o mais por educação.
“Tenho certeza de que não perdi muita coisa. Poções para a indústria de cosméticos certamente nunca estiveram dentro da minha área de interesse.” – riu, colocando enfim os dois pés no chão.
A mordida dada no colo dela na última noite deixou uma marca roxa. Ele, quando a viu se levantar, foi o primeiro a notar.
A morena pôs-se frente ao espelho que ali havia quando ele a comunicou do fato.
“Eu tenho um creme, mas ele demora algum tempo a agir.” – andou até o canto do quarto e começou a procurá-lo em sua mala – “Duas horas, creio eu.”
“Está cogitando ficar aqui esse tempo todo?” – Snape perguntou, despretensioso – “Posso fazer companhia a você.”
“Você está muito saidinho, não acha?” – respondeu ela em falso tom reprobatório – “Trouxe uma echarpe fina da mesma cor do vestido que usarei hoje. Poderei usá-la enquanto o produto age.”
Virou-se para fitá-lo, e a expressão de satisfação do bruxo denotava que, se dependesse dele, permaneceriam naquele quarto a manhã inteira.
“Sem contar que se continuarmos assim não terei apenas essa marca para tratar.” – ela falou outra vez, e Severus levantou-se da cama, bem-humorado.
Há quanto tempo ele não se sentia tão feliz?
Forçou a memória, mas não pôde se lembrar de qualquer momento tão arrebatador em seu passado comparado àqueles que ali desfrutava com Hermione.
* * *
Mais tarde, enquanto Severus organizava seus pertences e fazia o check-out, Hermione se dirigia ao restaurante do hotel para adiantar uma refeição para ambos, que de nada se alimentaram desde o final da tarde de sexta.
A morena surpreendeu-se ao dar de cara, no caminho, com Fontaine, que estava na saída de um dos auditórios no térreo. Ele ofereceu-se para acompanhá-la para seja lá qual fosse seu destino, mas, por mais que dissesse que não precisava, o francês insistia em ir com ela.
Hermione apenas rezava para que Severus não os visse ou soubesse disso, caso contrário, conhecendo-o como conhecia, haveria maldições imperdoáveis atravessando o ar. E o peito do francês, decerto.
Não havia muitas pessoas ali ao chegarem, embora aos poucos fossem entrando mais e ocupando as mesas. Ambos escolheram uma perto do balcão e começaram a conversar enquanto aguardavam pela comida requisitada há pouco. Conversa praticamente unilateral, deve se dizer, visto que da parte dela se ouviam somente respostas monossilábicas e evasivas.
Diferente de mais cedo, agora a moça desejava com todas as suas forças que Severus aparecesse, visto que o diálogo estava a ponto de alcançar um nível que não a agradaria em nada.
O que não demorou a ocorrer.
Thierry indagar sobre seus últimos relacionamentos foi a gota d’água para ela, que pediu licença e encaminhou-se ao toalete o mais dignamente que conseguiu.
Antes fugir que ser rude, pensava ela já longe dali, não vendo a refeição aparecer magicamente na mesa em duas bandejas muito bem ornamentadas.
Aproveitando a deixa, Fontaine pôs a mão dentro do casaco. O tilintar de vidro mal se podia ouvir ali, afinal o ambiente já começava a ficar estrepitoso e ninguém parecia prestar atenção àquela mesa. O tubo de ensaio com uma poção de aspecto perolado trouxe novo brilho aos olhos do loiro, que, sem demora, despejou quase metade do conteúdo do pequeno frasco no copo de suco ao lado de uma das bandejas.
Ao ver a moça retornando, ele guardou o restante rapidamente no bolso, e disfarçou descaradamente:
“Estava tentado a tomar um gole de seu suco de morango, milady, parece delicioso.” – a frase soou ridícula ao ouvido do homem, mas foi o melhor que pôde bolar no improviso.
Aquilo, irremediavelmente, a faz rir, pois aquele nem era o sabor que havia pedido, mas sim de framboesa. Segurou firme o copo, mas no meio do caminho até a boca enxergou o vidro se espatifar em sua mão.
Ao recuperar-se do choque ergueu o rosto, apenas para ver o bruxo próximo a ela sacar da cadeira e ser arremessado com violência contra o balcão de bebidas, causando um imenso estardalhaço.
O agressor aproximou-se do corpo desajeitadamente jogado contra a superfície de madeira, colhendo o frasco pela metade inacreditavelmente intacto do bolso do outro e guardando-o no próprio bolso de seu sobretudo.
Quem estava do lado de fora entrou para saber o que estava acontecendo, ao mesmo tempo em que os já presentes se acumulavam perto de um Fontaine desacordado, discutindo sobre se estava vivo ou não. Conhecendo o curriculum do bruxo que lançou o feitiço que o deixou assim, maioria apostava que havia morrido.
“Você está ficando louco?” – ela esbravejou, os olhos faiscando em raiva ao descobrir que Snape era o responsável pelo episódio – “Olhe o que você fez!”
“Hermione, você não sab…”
“Hermione o caramba! Já não bastava ter enfeitiçado Thierry ainda me deixa nesse estado?” – apontou para o vestido creme salpicado por gotas avermelhadas – “Não percebe a vergonha que me faz passar na frente de toda essa gente agindo desse jeito?” – ele não respondeu – “E tudo isso apenas porque eu estava na companhia de outro enquanto…”
“Por Deus, mulher, eu…” – tentou se explicar outra vez.
“Saia da minha frente.” – então ela passou, num sopro de vento, à esquerda dele e se encaminhou à direção de onde o bruxo havia vindo.
A morena exibia um corte na bochecha seguramente causado por um estilhaço que voou na direção de seu rosto. Só então ele viu o quão irrefletidamente havia agido. Não queria nem imaginar como seria se algum tivesse ido parar nos olhos dela.
Ainda tentou segui-la, mas logo a perdeu de vista. Hermione era de baixa estatura e naquela parte do hotel havia muita gente transitando, então ele não possuía a menor ideia de para onde sua bruxa estava indo. O lado bom era que nenhum fotógrafo, da imensa equipe de imprensa bruxa que cobria o Encontro, estava no restaurante. De todo modo, ele sabia que, num evento daquele porte, era impossível escapar de uma manchete nos jornais.
Inferno! Será que Hermione acreditaria nele se dissesse que o motivo que o fez agir daquele modo não foi o ciúme?
Bem, na verdade não gostava que ela estivesse na companhia daquele verme, mas ele apenas atuou quando ela havia deixado passar o fato de que havia sido colocado algo em sua bebida.
Ele ia de corredor em corredor, procurando por ela. Todas suas tentativas sem sucesso.
Pôs a mão no bolso da calça para buscar um lenço para secar o suor da testa, foi quando percebeu que estava com a chave do quarto de Hermione. E era para lá que iria, sabia que uma hora ela haveria de aparecer, afinal.
Antes, todavia, havia algo que precisava fazer. Ou perguntar.
“Severus, entre.” – disse uma voz mansa, mas, pela expressão do bruxo mais jovem, já se podia perceber que algo de muito sério havia se passado, então o tom passou a ser de preocupação – “Posso ajudá-lo em algo, filho?”
Era Lukashenko, quem ensinou a ele boa parte do que sabia no que diz respeito ao preparo de poções mágicas. Era chegada a hora de também aprender dele sobre decisões a se tomar na vida.
O senhor solicitou o serviço de quarto e pediu chá com biscoitos para os dois. Severus, apesar de tanto tempo sem comer, mal tocou neles. A fome parecia ter desaparecido com sua alegria. Sua felicidade sempre haveria de durar pouco, ao menos era o que lhe parecia.
O conselho que recebeu foi de que deveria ter paciência. Se Hermione gostasse dele, já com a cabeça mais fria, lhe daria a chance de esclarecer o ocorrido. Snape, por sua vez, não estava tão confiante assim. Gryffindors gostam de se achar os donos da razão todas as vezes, ainda mais quando há um slytherin na história para pegar automaticamente o papel de vilão. Trágico.
A tarde passou surpreendentemente rápido, e o bruxo sombrio decidiu que era hora de retornar aos aposentos de Hermione. Precisava encontrá-la a todo custo, mesmo que fosse para levar um pé na bunda e ser posto para fora dali aos berros. Só não suportaria dela a indiferença.
Tirou o sobretudo ao chegar, lançou-o de qualquer jeito contra uma poltrona e andou até a cama que havia compartilhado com ela na noite que se passou. Massageou as têmporas para evitar a dor de cabeça que ameaçava vir e suspirou, resignado.
Deitou-se de barriga para cima e ficou encarando o teto. Até que se lembrou de algo que ainda precisava checar. Pôs a mão no bolso e ali estava o tubo de ensaio que surrupiara de Fontaine antes de ir atrás de Hermione.
Levou-o ao nariz e pôde confirmar que estava correto em suas suposições.
* * *
Já passava de meia-noite e estava quase adormecendo quando ouviu o clic da maçaneta e o ranger da porta sendo aberta. Ela finalmente retornara.
Quando o viu ali, a morena fechou a cara de imediato. A vontade que tinha era de estrangulá-lo, mas o máximo que conseguiu foi um simples:
“Eu vou embora.”
Snape se levantou num salto.
“Hermione, me deixe explic…”
“Não há nada que possa fazer para me convencer.” – começou, irredutível – “Você não sabe o vexame que causou ao azarar Thierry daquela maneira num restaurante cheio.” – ele deu de ombros, como se deixasse claro que não se arrependia daquilo, e ela prosseguiu – “Não houve um corredor que atravessei em que não tenha ouvido burburinhos de gente que não tem o que fazer. A única coisa que me vem a cabeça agora é sumir daqui. Perderei o final do evento por sua culpa!”
“Você não precisa ir.”
“Vá embora você então.” – ordenou, direta – “Afinal, até onde eu lembro, o quarto é meu.”
Ele respirou fundo.
“Agora é nosso. E… Estava onde até agora?” – mudou de assunto ao perceber que havia ficado sozinho no quarto, aguardando por ela por pelo menos seis horas.
“Não interessa.”
“Passa a me interessar se você estava com Fontaine, com seu coleguinha brasileiro ou qualquer outro homem depois de ontem.”
“O ontem não existe mais, Snape.” – Merlin, como aquilo doeu nele – “Thierry ainda está em repouso na enfermaria do hotel, e eu só fui vê-lo para pedir desculpas, não tive cara ou coragem para voltar lá desde então.” – atravessou o cômodo até encontrar sua mala – “Esse tempo todo estive com Matias e…” – cessou sua fala subitamente – “Aliás, nem sei por que diabos estou dando satisfação a quem não é de direito.”
Ele, esquecendo que sentia ciúmes do rapaz, andou até a morena, surpreendendo-a.
“Hermione, me desculpe, mas não me arrependo em qualquer instante de ter enfeitiçado o Fontaine.” – ela dobrava algumas peças de roupa, guardando-as em seguida – “E você não pode aparatar nem usar a rede de flu na intenção de se dirigir a outro país a essa hora, a menos que possua permissão. Se for um perito em magia negra é provável que consiga aparatar, mas há o risco triplicado de estrunchar.” – ela estremeceu ao ouvir isso – “Regras locais do país.” – desfechou Severus, fingindo um tom displicente, mas agradecendo interiormente aos Céus por estar na Suécia.
“Matias não se importaria se eu me hospedasse no quarto dele por mais umas poucas horas.”
“Não seja orgulhosa, mulher!” – principiou, ligeiramente alterado, porém o medo de pôr tudo a perder falou mais alto e ele abaixou a voz – “Sem contar que ele já deve estar dormindo.” – o último comentário saiu em tom inseguro, afinal era fácil demais intuir que dissera aquilo mais por vontade de mantê-la longe de qualquer homem que não ele.
“Está bem, Snape, mas na cama durmo eu.” – apontou para um sofá a um canto. Ele que se virasse – “E me deixe em paz.”
“A cama possui espaço o bastante para nós dois.” – estava começando a perder a paciência de novo, mas fez de tudo para controlar-se – “Não faria nada contra sua vontade, tenha a certeza disso.”
A bruxa murmurou algo sobre trocar-se e o deixou sozinho de novo.
Enquanto a aguardava, o professor observava da sacada os pinheiros ao longe, árvores típicas da paisagem local. Era bonito. Simples e bonito. Assim como Hermione.
Ele queria chorar por ter estragado tudo, mas não conseguia. Quem sabe suas lágrimas tivessem congelado com tantos anos imerso em frieza.
Quando ouviu os passos dela se aproximando Snape voltou ao quarto, sentando-se na beirada da cama. Ele vestia as mesmas roupas e – pelo que ela pôde notar ao regressar – não parecia muito disposto a se trocar.
Ela, por sua vez, vestia uma camisola solta, que não denunciava muito suas curvas. O detalhe ruim é que era um pouco transparente, por sorte a luz estava baixa e ele não notaria. Ao menos ela esperava isso.
Contornou o aposento, sentando-se do lado oposto do colchão. Severus viu-a puxar a coberta inteira para si, dar-lhe as costas e mergulhar o rosto no travesseiro.
O homem então subiu na cama, sem ainda se deitar, e aproximou-se desajeitadamente dela. Quando ia dizer a primeira palavra, ela o interpelou, fazendo-o recolher a mão que estava prestes a tocar o braço esquerdo da morena.
“Fique longe de mim, Severus Snape, e em breve estará livre para ir embora. Isso se não quiser que eu vá bater na sede do Ministério local em plena madrugada para pedir permissão para deixar o país.”
Resignado ele deitou-se.
Maldita teimosia gryffindor!
“Hermione…” – insistiu, pela enésima vez naquela noite.
“Cale-se, Snape, eu quero dormir!”
“Eu sei que, assim como eu, você não está com sono.” – ela bufou com isso. Ele estava certo.
“Não importa. Fique em silêncio que é o melhor que faz.”
“Hermione, eu amo você, nunca desej…”
“Essa não cola, Severus Snape. Essas pernas aqui só se abriram uma vez a você, para nunca mais.” – falou rudemente, e isso o surpreendeu, embora não o intimidasse a ponto de desistir de convencê-la.
“Eu realmente amo você, Hermione. Falei a verdade quando disse que não houve uma noite sequer em que não me arrependesse por tê-la afastado de mim.” – abraçou-a por trás, colando seu corpo ao dela.
Não havia luxúria, malícia ou qualquer conotação sexual naquele gesto. Ele apenas queria fazer-se compreendido.
Hermione não disse nada, mas ele ficou contente por ela não tê-lo afastado.
“Você não notou nada de errado com o seu suco?” – questionou ele, tocando no assunto de forma cautelosa.
“Não, e até agora não compreendi o porquê de você não ter me deixado bebê-lo.”
“Havia algo que eu supus ser Amortentia no seu copo, bruxinha.” – explicou a uma Hermione agora incrédula – “Eu vi o bastardo do Fontaine colocar.” – continuou, para então com um sorriso complementar – “Creio que descobri o porquê de já ter visto inúmeras mulheres rodeando-o como abutres: ao menos para poções do amor o infeliz parece possuir algum talento, aquela estava perfeita.”
“Mas o cheiro, eu…” – ela enunciou-se outra vez, logo se dando conta de algo – “Merlin!”
“O que houve?”
“O seu cheiro.”
“O que tem?”
“Eu senti o seu cheiro.” – comentou – “Não era forte, afinal a poção estava misturada ao suco de framboesa, e eu pensava que era o seu perfume que estava impregnado na minha roupa quando me abraçou logo pela amanhã antes de deixarmos o quarto.”
“Compreende então?”
“Merlin, Severus, eu sinto tanto e…” – virou-se, encontrando o olhar dele – “É curioso que desde o final do meu sexto ano a poção ainda possua o mesmo aroma.”
“Sinal de que você ainda gosta de mim da mesma forma. Ou mais.” – riu da própria falta de modéstia.
“Ouvi dizer que fazer amor após uma briga é sempre mais prazeroso.” – Hermione também riu de seu próprio comentário.
“Quer experimentar?” – ele perguntou, já prevendo a resposta positiva.
Ela nada disse, apenas sentou-se agilmente sobre o colo do homem, debruçando-se contra seu tórax para começar a beijar o pescoço dele e terminar de desabotoar a camisa do professor.
As peças de roupa, em mais aquela sessão de amor, não demoraram a cobrir o piso encerado nos arredores da cama. Antes de se tornarem um só, entretanto, ela desejou saber:
“Como faremos a partir de hoje?”
“Depois do que aconteceu anos atrás, vejo que sou um filho da mãe de muita sorte por tê-la aqui comigo; já estou no lucro, por assim dizer. Deus parece que enfim se lembrou de que eu existo, ao conceder tão rápido um pedido que venho fazendo há algumas horas.
“E o que pediu?”
“Apenas você.”











