Quinze minutos depois, Harry já não ria. Estava sentado na frente do reverendo Weasley no pequeno estúdio dele, e recebia o maior sermão de sua vida da parte do pai de Gina, que se passeava furioso de um lado ao outro do quarto. Harry esperava esse sermão, até aceitava que merecia, mas supunha que o pai de Gina seria um homem pequeno e manso que lhe daria uma monótona conferência a respeito dos mandamentos que Harry tinha quebrado. Mas não esperava que Arthur Weasley fosse um homem alto e robusto, capaz de pronunciar um discurso descritivo e eloquente.
— Nada do que você fez tem desculpa nem perdão! Absolutamente nada! — Terminou dizendo por fim Arthur Weasley, enquanto se deixava cair na gasta poltrona de couro de seu escritório. — Se eu fosse um homem violento, daria umas surras de cinturão. E apesar de tudo lhe asseguro que estou tentado a fazer isso! Por sua culpa, minha filha sofreu o terror, a censura pública e a mais completa desilusão! Em Colorado você a seduziu, e eu sei que fez! Atreve-se a negar?
Era uma loucura, mas nesse momento Harry admirou esse homem; era o tipo de pai que teria gostado de ter — e que algum dia gostaria de ser —, um homem íntegro e honesto que esperava o mesmo comportamento de quem o rodeava. Sua intenção era que Harry se sentisse envergonhado. E estava conseguindo.
— Nega que seduziu a minha filha? — Repetiu com irritação.
— Não — admitiu Harry.
— E depois a mandou de volta a Hogsmeade para que enfrentasse os jornalistas e para que o defendesse ante o mundo! Foi o ato mais covarde, irresponsável...! Depois disso, como se atreve a enfrentar-se consigo mesmo, comigo ou com ela?
— Na verdade, tê-la mandado de volta a sua casa foi a única coisa decente que fiz — disse Harry, defendendo-se pela primeira vez desde o começo do sermão do pai de Gina.
— Adiante! Estou desejando saber como chegou a essa conclusão.
— Sabia que Gina estava apaixonada por mim. Foi por seu bem, não pelo meu, que me neguei a levá-la a América do Sul e no lugar a mandei de volta a sua casa.
— Mas seu sentido de decência teve curta vida! Não é verdade? Poucas semanas depois, já fazia planos para que ela fosse com você.
Voltou a esperar, exigindo uma resposta com seu silêncio. E Harry a deu.
— Acreditei que estava grávida e não quis que fizesse um aborto nem que tivesse que suportar a humilhação de ser mãe solteira em uma cidade pequena.
Harry pareceu perceber uma sutil redução na hostilidade do reverendo Weasley, embora não a demonstrasse em seu ácido comentário seguinte.
— Se tivesse demonstrado um mínimo de decência, se em Colorado tivesse contido sua luxúria, não teria tido que preocupar-se com a possibilidade de que ela estivesse grávida, não é mesmo?
Entre zangado, envergonhado e divertido pelo uso bíblico que o reverendo Weasley fazia da palavra luxúria, Harry elevou as sobrancelhas e ficou olhando-o.
— Agradeceria que tivesse a cortesia de me responder, garoto.
— A resposta é óbvia.
— E agora — continuou dizendo com irritação o reverendo —, agora vem tão tranquilo a nossa cidade em seu avião privado, para voltar a converter Gina em um espetáculo público! E tudo para quê? Para destroçar o coração dela! Ouvi, vi e li bastante a respeito de você antes de que o prendessem e depois de que saiu, para saber o tipo de vida que leva na Califórnia, para saber que foi uma vida amoral, licenciosa e superficial: festas enlouquecidas, mulheres nuas, bebedeiras, filmes sujos. O que pode responder a isso?
— Que em minha vida fiz alguns filmes sujos — respondeu Harry, admitindo tacitamente o resto dos cargos.
Arthur Weasley esteve a ponto de sorrir.
— Pelo menos não é mentiroso. Tem consciência de que Dino Thomas está apaixonado pela Gina? Quer casar-se com ela. Pediu minha bênção. É um homem excelente, decente e com princípios. Quer uma esposa para toda a vida, não até que a próxima estrelinha de cinema se aproxime e lhe dê volta na cabeça. Quer filhos. Está disposto a fazer sacrifícios pela Gina... Até o ponto de que, pelo bem dela, viajou a Califórnia para ver você. Assim como Gina, provém de uma família unida e carinhosa. Juntos teriam uma vida maravilhosa. Bom, o que me diz disso?
Sumido em uma onda de ciúmes, Harry se deu conta de que Arthur Weasley estava utilizando Thomas como uma maneira de obrigá-lo a ver suas carências como presumido candidato de Gina, e também para colocá-lo em uma posição que só restavam duas opções: colocar as cartas sobre a mesa ou retirar-se. Apesar do momento desagradável que Weasley lhe tinha causado, a admiração que Harry sentia por ele aumentou.
— O que tenho que dizer é isto — começou, decidido a responder à lista de qualidades de Thomas na ordem em que as tinha colocado o pai de Gina. — Talvez Thomas seja um santo e esteja apaixonado por sua filha, mas eu também estou. E mais, Gina me ama. Não me interessam as estrelinhas de cinema, sejam loiras, morenas ou ruivas; não me interessa nenhuma mulher além da Gina. E para sempre. Eu também estou desejando ter filhos, assim que Gina deseje. Farei por ela todos os sacrifícios que sejam necessários. Não posso modificar a maneira em que vivi até agora, só posso modificar meu modo de vida daqui em diante. Não posso impedir o fato de que minha família não tenha sido unida; só posso deixar que Gina me ensine o que deve ser uma família. E se não conseguir obter sua bênção, pelo menos eu gostaria de contar com sua relutante aceitação.
Weasley cruzou os braços sobre o peito e o olhou nos olhos.
— Não o ouvi pronunciar a palavra casamento.
Harry sorriu.
— Pensei que era uma conclusão óbvia.
— Na mente de quem? Gina aceitou casar-se com você, quer dizer desde que retornou?
— Não tive tempo de perguntar.
O reverendo Weasley levantou as sobrancelhas.
— Nem sequer durante a hora em que o telefone de minha filha esteve desligado esta noite? Ou é que você estava muito ocupado convencendo-a de que iniciassem em seguida essa família que diz querer?
Harry teve a espantosa sensação de que se estava por ruborizar como um adolescente.
— Eu acho — continuou dizendo com tom cortante o reverendo Weasley — que você tem um ponto de vista distorcido com respeito ao que é ser decente. Em seu mundo, as parceiras gozam do sexo, logo têm filhos e logo então se casam. Essa não é uma ordem de coisas aceitáveis no mundo da Gina, no de Deus nem no meu!
Resistindo a uma necessidade de mover-se inquieto na cadeira, Harry explicou:
— Tinha a intenção de pedir esta mesma noite que se casasse comigo. Na realidade pensei que amanhã, a caminho da Califórnia, podíamos parar no Lake Tahoe e nos casar ali.
Weasley se inclinou para frente.
— O quê!? Vocês dois se conheceram durante sete dias, já se deitaram juntos, e agora quer que ela atire tudo pela janela e se vá com você para casar-se em uma cerimônia civil! Gina tem trabalho, uma família e outra gente a quem considerar. Quem acha que minha filha é? Um mascote sem cérebro que pode colocar uma correia para levá-la a Disneylândia? Onde estão seu sentido de justiça e das prioridades? Esperava mais de você depois do discurso que lhe ouvi pronunciar faz alguns minutos!
Harry caiu na armadilha como um cachorrinho.
— Acho que não entendo. O que pretende que eu faça?
Weasley não perdeu a oportunidade.
— Pretendo que se comporte como um cavalheiro, que faça alguns pequenos sacrifícios. Em síntese, pretendo que o futuro marido da Gina passe algum tempo aqui para conhecê-la melhor, que a trate com reverência e respeito, como Deus pretende que tratemos a nossas mulheres, e que depois lhe peça que se case com você. Caso ela aceite, estarão comprometidos durante um tempo e depois se casarão. A lua de mel é depois do casamento — disse com tom implacável. — Se você estiver disposto a fazer todos esses sacrifícios, então, e só então, eu estaria disposto a lhe dar minha bênção e a benzer o matrimônio que, por outra parte, acredito que seria a única maneira que Gina estaria verdadeiramente feliz. Está claro?
Harry franziu a testa.
— Muito claro.
Arthur Weasley notou que havia ficado carrancudo e voltou a atacar.
— Se esses poucos sacrifícios de sua conveniência pessoal e de sua satisfação física já são excessivos, então...
— Nunca disse que fossem muito — interrompeu Harry, convencido de que era lógico que Gina quisesse que seu próprio pai os casasse.
— Muito bem, Harry — disse o reverendo, chamando-o pela primeira vez por seu primeiro nome. Dirigiu-lhe um sorriso que, de repente, foi cálido e até paternal. — Então está tudo acertado.
Harry conseguiu afastar seus pensamentos, percebeu a expressão satisfeita de seu futuro sogro, e se deu conta de que acabava de ser virtualmente obrigado a falar de algo que estava fora da questão.
— Não tudo — disse, cortante. — Estou disposto a ficar aqui o tempo que possa, mas isso não significa que Gina e eu tenhamos que "chegar a nos conhecer" antes de que sequer possa pedir que se case comigo, e tampouco estou disposto a esperar vários meses para me casar. Pedirei em seguida que se case comigo. E assim que aceite, desde meu ponto de vista estaremos comprometidos.
— Estará comprometido quando colocar um anel no dedo dela. Para algo existem a formalidade e a tradição, garoto. Assim como o celibato antes do casamento, proporcionam um significado especial e duradouro ao acontecimento em si.
— Muito bem — aceitou Harry.
Weasley sorriu.
— Quando quer que seja o casamento?
— O mais cedo possível. Como máximo, dentro de um par de semanas. Falarei com Gina.
***
— Tem certeza que não precisa de ajuda, mamãe? — Perguntou Gina observando sua mãe, que nesse momento colocava um prato de massas caseiras sobre a mesa da sala de jantar.
— Não, querida. Vocês, meninos, fiquem na sala e conversem. Adoro ver os três felizes!
Gina estava quase mais nervosa que feliz. Dirigiu um olhar à porta fechada do estúdio de seu pai, logo olhou para Rony e Hermione , que estavam instalados no sofá e que faziam brincadeiras com respeito às palavras de Harry no ginásio.
— Que diabos está acontecendo lá dentro? — Perguntou-se Gina, exasperada.
Rony sorriu e olhou seu relógio de pulso.
— Sabe de cor o que está acontecendo. Papai está pronunciando um de seus famosos discursos pré-matrimoniais ao presumido namorado.
— Na verdade Harry não voltou a pedir que me case com ele.
Hermione a olhou com incredulidade.
— Depois das coisas maravilhosas que te disse esta noite, diante de todo o povoado, tem alguma dúvida de que quer se casar com você?
— Não, na verdade, não. Mas papai está demorando muito. Muito mais que em qualquer outra de suas conferências normais.
— É verdade, está levando mais tempo — disse Rony, abertamente divertido —, porque papai deve ter sentido uma necessidade paternal de fazê-lo ver o que opina dele por tê-la sequestrado e tudo isso.
— Harry já sofreu mais do que suficiente por algo que tenha feito — exclamou Gina.
Hermione abafou uma risadinha junto com um gole de refrigerante.
— Vai sofrer muito mais se morder o anzol e aceitar as condições dele.
— Que condições? — Perguntou Gina.
— Já sabe, isso de "a tradição significa tudo, nada de sexo antes do casamento, os noivados longos são os melhores..". As promessas habituais que papai arranca de todos os futuros maridos.
Gina riu.
— Ah, isso! Harry jamais o aceitará. É mais experiente, mais culto e mais sofisticado que a maioria dos homens com quem papai já se enfrentou.
— Aceitará — assegurou Rony, morto de risada. — Que remédio resta? Papai não é só um homem inteligente, nem é só o ministro que benzerá o casamento, mas sim também é seu pai. Harry já sabe que, do ponto de vista de papai, já tem três más notas. Aceitará por seu bem e pelo bem da harmonia familiar.
— Quer dizer que espera que aceite, porque você não teve mais remédio que aceitar? — Brincou Hermione. Rony se inclinou e mordiscou a orelha de sua mulher.
— Basta! Está deixando Gina incômoda! — Disse.
— Gina ri. É você que se ruboriza.
— Ruborizo, porque estou lembrando o mês mais longo e doloroso de minha vida, e o que foi nossa noite de casamento como resultado de um mês de abstinência.
Hermione o olhou e durante alguns instantes esqueceu por completo a presença da Gina.
— Foi uma maravilha! — Lembrou. — Algo especial... Como se tratasse da primeira vez para os dois. Acredito que esse é o propósito de seu pai quando pede que se espere até a noite do casamento para fazer amor, até no caso de que já estejam fazendo.
— Ninguém se importa com que eu esteja escutando tudo isto? — Perguntou Gina, trêmula.
A porta do estúdio se abriu e todos se viraram para olhar. O reverendo Weasley parecia satisfeito, Harry parecia aturdido e zangado, e Rony começou a estremecer-se de risada.
— Caiu no laço! — Exclamou entre uma gargalhada e outra. — Tem o mesmo aspecto aturdido e zangado que têm todos. Meu herói cinematográfico! — Exclamou balançando a cabeça. — Tinha meu quarto cheio de pôsteres dele, e resulta que não é mais que um pobre mortal, um pedaço de argila nas mãos de papai. A cadeia não pôde com ele, mas papai, sim.
Enquanto andava, Harry dirigiu um olhar especulativo ao grupo que esperava na sala, mas a senhora Weasley o deteve para convidá-lo a ir à sala de jantar para comer algo doce.
— Não, obrigado, senhora Weasley — disse Harry, olhando seu relógio. — É tarde. Ainda tenho que encontrar um hotel e me registrar.
A mãe de Gina deu um olhar interrogante a seu marido, que sorriu e assentiu com lentidão. Então ela também sorriu.
— Nós gostaríamos muito que ficasse conosco — convidou.
Harry considerou o número de ligações telefônicas que faria e receberia enquanto estivesse em Hogsmeade e a moléstia que sem dúvida causaria sua presença nessa casa. De maneira que negou com a cabeça.
— Obrigado, mas acredito que seria melhor que me alojasse em um hotel. Trouxe trabalho, pedirei que me enviem mais e possivelmente terei que realizar algumas reuniões de negócios. — A senhora Weasley parecia genuinamente desiludida. — Acredito que seria melhor que tomasse uma suíte em algum hotel.
Não percebeu o olhar incômodo que Gina lhe dirigiu quando mencionou a palavra "suíte", porque estava ansioso para afastar-se dali com ela, para encomendar uma garrafa de champanhe no quarto e logo tomá-la em seus braços e pedir que se casasse com ele na atmosfera apropriada e com toda a cerimônia adequada.
— Importaria-se em me levar ao hotel? — Perguntou.