HOJE, NOVA ORLEANS
A primeira foi uma morte piedosa.
Ela estava tendo uma morte muito, muito lenta. A cada dia, uma nova indignidade, mais um pedaço de seu anteriormente magnífico corpo destruído por uma doença debilitante. Pobre, pobre Narcisa. Sete anos antes, ela havia sido a belíssima noiva, de medidas esculturais que faziam o sonho dos homens e a inveja das mulheres, mas agora seu corpo estava gordo, inchado e disforme; a pele, que antes parecia de alabastro, estava manchada e amarelada.
Por vezes, seu marido, Lúcio, não a reconhecia. Ele lembrava da imagem que ela havia tido e depois deparava-se, com clareza brutal, com a figura em que ela havia se tornado. Os maravilhosos olhos verdes que tinham-no cativado quando ele a conheceu, agora estavam sempre vidrados e opacos por causa do excesso de analgésicos.
O monstro da doença não tinha pressa em matá-la e, para ele, não havia um momento de alívio.
Ele odiava ter de ir para casa à noite. Sempre parava na Royal Street para comprar uma caixa de um quilo de chocolates Godiva. Era um ritual que havia iniciado meses antes, para provar a ela que ainda a amava, apesar de sua aparência. Podia fazer com que os chocolates fossem entregues diariamente em casa, com certeza, mas o fato de ir à loja aumentava o tempo em que ele ficava sem ter de enfrentá-la outra vez. Na manhã seguinte, a caixa quase vazia estava jogada na lixeira de porcelana ao lado da enorme cama com dossel. Ele fazia de conta que não percebia que ela havia se deleitado com os doces; e ela também.
Lúcio já não a condenava por sua gula. Achava que os chocolates davam prazer a ela, e prazer era algo que quase já não existia naquela vida trágica e sem graça.
Algumas noites, depois de comprar os chocolates, ele voltava ao escritório e trabalhava até que o cansaço o vencesse e se visse obrigado a voltar para casa. Quando manobrava sua BMW conversível em St. Charles em direção ao Garden District de Nova Orleans, inevitavelmente começava a tremer como se estivesse sofrendo de hipotermia, mas não se sentia fisicamente mal até atravessar o vestíbulo preto e branco de sua casa. Com a caixa de chocolates na mão, ele deixava a valise Gucci na mesa da entrada e parava por um ou dois minutos diante do espelho com moldura entalhada, respirando profundamente para acalmar-se. Na verdade, isso não aliviava seu estado, mas ele repetia o ritual, noite após noite. Sua respiração pesada misturava-se ao ruído do grande relógio antigo que ficava ao lado do espelho. O tique-taque o fazia lembrar de uma bomba relógio acionada. Uma bomba que estava dentro de sua cabeça, pronta para explodir.
Criticando a si próprio pela covardia, forçava-se a subir. Sentia os ombros tensos e nós no estômago ao subir a escada circular, as pernas parecendo carregar botas de cimento. Quando chegava ao fim do longo corredor, o suor empapava sua testa e ele tinha calafrios .
Enxugava a testa com um lenço, armava um sorriso falso no rosto e abria a porta, tentando, com todas as forças, manter um controle mental para enfrentar o cheiro horrível que pairava no ar. O quarto cheirava a pílulas de ferro e o terrível spray de baunilha que as empregadas insistiam em borrifar no ar parado, mas que só piorava o fedor. Havia noites em que era tão ruim que ele saía correndo dali para algum compromisso inventado, antes que ela o ouvisse vomitar. Ele fazia qualquer coisa para evitar que ela soubesse o quanto ficava enojado.
Havia noites em que seu estômago agüentava. Ele fechava os olhos enquanto abaixava-se e beijava-lhe a testa, depois afastava-se enquanto conversava com ela. Ficava parado junto à bicicleta ergométrica que havia comprado para ela um ano depois de se casarem. Nem lembrava mais se algum dia ela tinha usado o aparelho. Agora havia um estetoscópio e dois enormes roupões florais idênticos pendurados no guidão; o assento em couro preto estava empoeirado. Os empregados pareciam nunca se lembrar de limpar aquilo. Às vezes, quando não suportava olhar para Narcisa, ele virava-se e ficava olhando através das grandes janelas, admirando o jardim em estilo inglês que ficava atrás da casa, fechado, como todos os outros minúsculos pátios, com uma cerca alta de ferro negro em arabescos.
A televisão ficava gritando por trás dele. Ficava ligada 24 horas por dia, ligada nos programas de entrevistas ou nos canais de vendas. Ela nunca pensava em diminuir a altura do som enquanto ele falava com ela, e ele havia chegado ao ponto de conseguir ignorar o barulho. Apesar de ter aprendido a bloquear o falar incessante, ele sempre se impressionava com a deterioração da inteligência dela. Como ela conseguia ouvir tanta bobagem, por horas a fio? Houve tempo, antes que a doença tomasse conta de sua vida e de sua personalidade, em que ela havia sido uma intelectual, capaz de derrotar qualquer adversário com um de seus comentários incrivelmente inteligentes e avassaladores. Ele lembrava-se de como ela adorava debater política — era só colocar um conservador de direita a seu lado durante um jantar para ter uma explosão de fogos garantida. Mas agora ela só se preocupava e só falava de suas funções intestinais. Isso... e comida, com certeza. Ela sempre falava com muito ânimo sobre sua próxima refeição.
Ele sempre fazia retrospectos para sete anos antes, para o dia de seu casamento, e lembrava-se do desespero de quanto a queria. Agora, tinha pavor de ficar no mesmo quarto com ela — dormia no quarto de hóspedes — e o tormento era como ácido em seu estômago, corroendo-o vivo.
Antes de ela ficar na cama por necessidade, havia decorado a espaçosa suíte em tons de verde-claro e havia estátuas de seus dois poetas romanos favoritos: Ovídio e Virgílio. Os bustos de gesso mantinham-se sobre pedestais brancos que ficavam um de cada lado da janela. Ele até chegara a gostar da decoração do quarto, quando a habilidosa e jovem decoradora de interiores o tinha acabado, tanto que a contratou para redecorar seu escritório; mas odiava o quarto porque representava tudo o que agora faltava em sua vida.
Por mais que tentasse, não conseguia escapar das constantes lembranças. Duas semanas antes, ele havia ficado de encontrar um cliente em um bistrô da moda em Bienville para o almoço. No entanto, assim que entrou e viu as paredes verde-claro, seu estômago embrulhou e sentiu falta de ar. Por alguns instantes aterrorizantes, teve a certeza de estar tendo um ataque cardíaco. Deveria ter chamado a ambulância para buscá-lo, mas não o fez. Em vez disso, saiu correndo para o sol, tomando longas golfadas de ar. O sol em seu rosto ajudou, e então ele percebeu que havia sofrido apenas um ataque de ansiedade.
Às vezes, achava que estava perdendo o juízo.
Por sorte, tinha o apoio de seus três amigos mais chegados. Encontrava-os todas as sextas-feiras à tarde em um bar para relaxar. Ansiava pelas sextas-feiras, quando podia aliviar o peso que carregava. Os amigos ouviam-no e ofereciam-lhe conforto e solidariedade.
Que ironia do destino ser ele a poder sair com os amigos, enquanto Narcisa era a pobre que ficava se consumindo em solidão. Se o destino deveria punir alguém por pecados cometidos, por que ela e não ele? Narcisa sempre havia sido moralmente superior naquele casamento. Jamais havia burlado uma lei em toda a sua vida, jamais havia recebido nenhuma multa de trânsito e ficaria chocada se soubesse de tudo que Lúcio e seus amigos haviam feito.
Eles denominavam-se o Clube dos Semeadores. Goyle, com 34 anos, era o mais velho do grupo. Lestrange e Lúcio tinham 33 e Crouch, a quem chamavam de Garotão por sua beleza morena bem cuidada, era o mais novo, com 32. Os quatro amigos haviam freqüentado o mesmo colégio particular e, apesar de estarem em classes diferentes, acabaram ficando muito amigos por terem muitas afinidades. Tinham a mesma determinação, os mesmos objetivos, a mesma ambição. Também em comum tinham o gosto por coisas caras e não se importavam em infringir a lei para consegui-las. Começaram a trilhar o caminho do crime ainda adolescentes, quando descobriram como era fácil cometer pequenos furtos sem serem descobertos. Descobriram que também não era muito lucrativo. De brincadeira, cometeram seu primeiro delito grave quando estavam na faculdade — o roubo de uma joalheria em uma cidade próxima — e surrupiaram as gemas preciosas como profissionais. Mais tarde, Lúcio, o mais analítico do grupo, decidiu que o risco era muito grande pelo retorno que estavam tendo — mesmo os planos mais bem arquitetados poderiam sair errados por elementos como azar e surpresa — e assim passaram a cometer crimes mais sofisticados, utilizando seus conhecimentos para fazer as conexões necessárias.
Seu primeiro grande golpe de sorte veio através da Internet. Usando seus sofisticados laptops, compraram ações sem valor sob nome falso, encheram as salas de bate-papo de falsos rumores e dados e depois, quando as ações chegaram ao pico, venderam sua parte rápido, antes que os reguladores conseguissem farejar o que estava acontecendo. O retorno dessa pequena empreitada foi de mais de cinco mil por cento.
Cada dólar que extorquiam ou roubavam era depositado na conta do Clube dos Semeadores nas Ilhas Cayman. Na época em que os quatro terminaram a faculdade e posicionaram-se no mercado de trabalho em Nova Orleans, já haviam conseguido juntar mais de quatro milhões de dólares.
Isso serviu apenas para aguçar-lhes o apetite.
Durante um de seus encontros, Goyle disse aos outros que, se algum dia um psiquiatra os examinasse, descobriria que eram todos sociopatas. Lúcio discordou. Um sociopata não se importaria com os desejos ou necessidades de mais ninguém. Eles, pelo contrário, tinham um compromisso com o clube e com o pacto que fecharam de fazer tudo o que fosse necessário para conseguir o que queriam. Seu objetivo era chegar aos oito milhões de dólares quando o mais velho deles completasse quarenta anos. Quando Goyle comemorou seu 35° aniversário, não faltava muito para chegar lá.
Nada conseguia detê-los. Com o passar dos anos, o laço entre os amigos ficou mais forte, e um faria qualquer coisa, qualquer que fosse, para proteger os outros.
Mesmo que cada um deles trouxesse seu talento especial para o clube, Goyle, Crouch e Lestrange sabiam que Lúcio era o cérebro e que, sem ele, jamais teriam chegado tão longe. Não podiam perdê-lo de maneira alguma; por isso estavam ficando cada vez mais alarmados com a deterioração de sua mente.
Lúcio estava com problemas, mas eles não sabiam como poderiam ajudar. Assim, limitavam-se a ouvir quando ele desabafava. O tópico de sua amada esposa sempre acabava surgindo e Lúcio contava-lhes os últimos detalhes terríveis. Nenhum deles via Narcisa há anos, por causa da doença. Por escolha dela, não deles, pois ela desejava que lembrassem dela como havia sido, não pela triste imagem que tinha agora. Eles enviavam presentes e cartões, é claro. Afinal, Lúcio era como um irmão para eles e, ao mesmo tempo que tinham pena da condição da esposa, estavam bem mais preocupados com ele. Na opinião de todos, ela era, ao final das contas, um caso perdido. Ele não. Viam o que ele não estava conseguindo ver: que estava se aproximando de algum desastre. Sabiam que ele vinha tendo problemas para concentrar-se no trabalho — uma tendência perigosa, considerando-se sua profissão — e também andava bebendo muito.
Lúcio estava ficando incomodamente bêbado. Crouch o havia convidado, assim como aos outros, para ir à sua cobertura para celebrar o sucesso de sua última empreitada. Sentaram-se à elegante mesa de jantar, em cadeiras estofadas, cercados pela maravilhosa vista do Rio Mississipi. Era tarde, quase meia-noite, e as luzes piscavam em meio à escuridão. De quando em quando, ouviam uma sirene no nevoeiro, como se fosse um lamento ao fundo. O ruído deixava Lúcio melancólico.
— Há quanto tempo somos amigos? — perguntou com a língua enrolada. — Alguém se lembra?
— Há milhares de anos — Goyle disse, esticando o braço para a garrafa de Chivas.
Lestrange quase engasgou-se ao rir.
— Cara, parece que é isso mesmo, não é?
— Desde o colégio — Crouch disse — quando começamos o Clube dos Semeadores — continuou, voltando-se para Lúcio. — Você me intimidava para burro. Sempre tão altivo e confiante. Você era mais educado até que os professores.
— E o que pensava de mim? — Goyle quis saber.
— Nervoso — Crouch respondeu. — Você sempre mostrou... ter pavio curto, entende? E ainda tem, se quer saber.
Lestrange concordou com a cabeça.
— Você sempre foi o mais cauteloso do grupo.
— O preocupado — Crouch emendou. — Ao passo que Lestrange e eu sempre fomos mais...
— Ousados — Lestrange sugeriu. — Eu jamais teria feito amizade com nenhum de vocês caso Lúcio não tivesse nos reunido.
— Eu via o que vocês não conseguiam ver — Lúcio comentou. — Talento e ambição.
— Ora, vejam! — Goyle disse, levantando o copo em uma irônica saudação aos outros.
— Acho que eu só tinha dezesseis anos quando entrei para o Clube dos Semeadores — Lestrange falou.
— Ainda virgem, então, não é? — Goyle perguntou.
— Isso não. Perdi minha virgindade lá pelos nove anos. O exagero fez com que todos rissem.
— Está bem, está bem. Talvez com um pouco mais de idade. — Lestrange brincou.
— Nós éramos mesmo uns merdinhas metidos naquela época. Pensávamos que éramos o máximo por causa do nosso clube — Crouch comentou.
— Mas fomos espertos — Goyle acrescentou. — E tínhamos muita sorte. Vocês percebem os riscos desnecessários que corremos?
— Sempre que queríamos encher a cara convocávamos uma reunião do clube — Lestrange disse. — Tivemos sorte de não virarmos alcoólatras.
— E quem disse que não viramos? — Goyle perguntou e voltou a rir.
Lúcio levantou o copo.
— Um brinde ao clube e à bela renda que conseguimos obter graças à tão preciosa informação privilegiada que Crouch nos proporciona.
— Ora, ora — Goyle disse, encostando seu copo no dos outros
— Ainda não consegui entender como você conseguiu essa informação.
— Como acha que consegui? — Crouch perguntou. — Deixei tal dona bêbada, fiz de tudo com ela e, quando desmaiou, examinei o arquivos de seu computador. Tudo em uma única noite de trabalho.
— Você trepou com ela? — Goyle perguntou, incrédulo.
— Para que essa pergunta agora? — Crouch reagiu.
— Ora, queria saber como você conseguiu. Já vi a tal dona. É um rinoceronte! — Lestrange comentou.
— Ei, fiz o que tinha de fazer. Só ficava pensando nos oitocentos mil que nos renderia e...
— E daí? — Goyle insistiu.
— Fechei os olhos e foi por amor ao clube, entendeu? Só que não sei se vou ser capaz de fazer isso de novo. Um de vocês vai ter de assumir a tarefa. É algo que... suga a gente — admitiu, rindo com o trocadilho.
Goyle esvaziou o copo e esticou o braço para pegar a garrafa.
— Azar o seu. Essa tarefa é sua enquanto enlouquecer as mulheres com seus músculos sarados e essa sua cara de galã de cinema.
— Daqui a cinco anos vamos estar feitos para o resto da vida. Podemos dar o fora, desaparecer, se for preciso, fazer o que nos der vontade. É só não perder o objetivo de vista — Lestrange argumentou.
Lúcio balançou a cabeça.
— Não sei se vou durar mais cinco anos. Eu sei que não vou agüentar.
— Ei, precisa manter a cabeça no lugar — Goyle aconselhou.
— Temos muito a perder se você nos deixar na mão agora. Está me ouvindo? Você é o cérebro do negócio. Somos apenas...
Não conseguia encontrar a palavra certa. Crouch arriscou:
— Parceiros na conspiração?
— Isso mesmo — Lestrange concordou. — Mas cada um fez a sua parte. Lúcio não é o único a ter cérebro. Fui eu quem arranjou Greyback, lembram?
— Ah, pelo amor de Deus, não é hora de fazer guerra de egos, certo? — Crouch reclamou. — Não precisa nos dizer o quanto tem feito, está certo, Lestrange? Sabemos que seu trabalho é duro. Na verdade, é só o que faz. Não existe mais nada em sua vida além de trabalho e do Clube dos Semeadores. Quando foi a última vez que tirou um dia inteiro de folga para ir às compras? Acho que nunca fez isso. Usa o mesmo traje azul marinho ou preto todos os dias. Continua almoçando comida para viagem — e aposto que leva o saquinho de volta para casa para comer o resto no dia seguinte. Por falar nisso, quando é que você pagou alguma de nossas contas?
— Está insinuando que sou mão-de-vaca? — Lestrange reagiu. Antes que Crouch respondesse, Goyle interveio:
— Parem com isso, vocês dois. Não importa quem é o mais esperto ou quem trabalha mais. A culpa é igual para todos. Vocês têm idéia de quantos anos pegaríamos caso alguém viesse a descobrir o que fizemos? — Goyle indagou.
— Ninguém vai descobrir nada! — Lúcio esbravejou. — Ninguém saberia onde procurar. Eu me certifiquei disso. Não há registro algum, a não ser em meu computador, mas ninguém conseguirá ter acesso a isso. Não há qualquer outro tipo de registro, nenhum telefonema, nem uma pista impressa. Nem mesmo se a polícia ou a Receita Federal tiverem curiosidade. Não encontrariam nem lasca de provas. Para todos os efeitos, estamos limpos.
— Greyback bem que pode levar a polícia até a gente — Goyle interpôs.
Jamais havia confiado no "prestador de serviços", como Lúcio o chamava, mas precisavam de alguém confiável, um implementador, e Greyback encaixava-se no perfil. Era tão corrupto e ambicioso quanto cada um deles e tinha tudo a perder se não fizesse exatamente o que queriam.
— Já está há tanto tempo conosco que já era hora de você confiar nele, Goyle — Crouch argumentou. — Além do mais, se ele procurar a polícia, vai se ver em situação bem pior do que a nossa.
— Você tem toda a razão — Lúcio resmungou. — Olhe, sei que combinamos que manteríamos os negócios até o Goyle fazer quarenta anos, mas quero dizer que não sei se agüento até lá. Tem dias em que minha cabeça... ah, nem sei.
Levantou-se da cadeira e foi até a janela, com as mãos cruzadas nas costas enquanto observava as luzes.
— Já contei a vocês como eu e Narcisa nos conhecemos? Eu estava no Centro de Arte Contemporânea. Nós dois queríamos comprar o mesmo quadro e, de alguma forma, durante uma acalorada discussão, acabei me apaixonando. Vocês precisavam ver o fogo que havia entre nós... acho que dava para ver, mesmo. Todos esses anos depois e o fogo continua ardendo. Só que agora ela está morrendo, e eu não posso fazer nada para impedir.
Goyle olhou para Crouch e Lestrange, que assentiram com a cabeça, depois disse:
— Sabemos o quanto ama Narcisa.
— Não tente fazer dela uma santa, Lúcio. Ela nunca foi perfeita — Lestrange contestou.
— Nossa! Essa foi dura — Crouch murmurou.
— Está bem. Eu sei que Narcisa não é perfeita. Tem lá seus defeitos, assim como nós. Quem não é compulsivo quanto a uma coisa ou outra? — Lúcio perguntou. — O caso é que ela tem medo de ser privada de alguma coisa e por isso tem de ter tudo em duplicata. Tem dois aparelhos de televisão, idênticos, um de cada lado da cama. Um deles fica ligado dia e noite, mas ela fica com medo que quebre e por isso tem outro de reserva. Faz o mesmo quando encomenda alguma coisa em uma loja, ou pede pelo catálogo. Sempre compra de dois, mas que mal há nisso? Não está prejudicando ninguém e tem tão pouco com que se alegrar, atualmente. Ela me agüenta porque me ama — ele baixou a cabeça e murmurou. — Ela é minha vida.
— Sabemos disso — Goyle concordou. — Mas estamos muito preocupados com você.
Lúcio virou-se para encará-los. Seu rosto estava crispado de raiva.
— Ora, estão é preocupados consigo mesmos. Acham que posso fazer alguma besteira e pôr tudo a perder, não é?
— Não vamos dizer que não — Goyle admitiu.
— Lúcio, não podemos permitir que fique louco da vida conosco — Crouch disse.
— Eu não estou ficando louco!
— Está bem — Lestrange interveio. — Vamos fazer o seguinte: Lúcio vai nos dizer se precisa de ajuda. Não é isso?
— Sim, claro — Lúcio assentiu.
Os amigos deixaram de lado o assunto e passaram o resto da noite arquitetando seu próximo plano.
Continuaram a se reunir às sextas-feiras à tarde, mas ninguém atrevia-se a comentar a crescente depressão de Lúcio. Nenhum deles sabia o que fazer a respeito, de qualquer maneira.
Três meses se passaram sem que se falasse de Narcisa. Foi então que Lúcio entregou os pontos. Não conseguia mais ver Narcisa sofrer e disse aos outros que preocupava-se o tempo todo com dinheiro, o que parecia ridículo quando tinham milhões guardados na conta do Clube dos Semeadores. Milhões que não poderiam tocar por mais cinco anos. Contou que o seguro cobria apenas uma parte ínfima do tratamento de Narcisa, e ela continuava a sofrer. Se a situação perdurasse, as reservas dela acabariam e ele logo ficaria financeiramente arruinado. A menos, é claro, que os outros permitissem que ele fizesse um saque na conta do Clube dos Semeadores. Goyle protestou:
— Vocês todos sabem como eu estou precisando de dinheiro, com meu divórcio correndo e tal; mas se fizermos um saque agora, sem fechar a conta definitivamente, podemos criar um rastro de papéis e a Receita Federal...
Lúcio o interrompeu:
— Eu sei. É muito arriscado. Olhe, eu não deveria ter levantado o assunto. Tentarei arranjar uma solução.
Na tarde da sexta-feira seguinte, reuniram-se em seu bar favorito, o Doley's. Enquanto trovejava, a chuva caía torrencialmente lá fora e Jimmy Buffet cantava algo sobre Margaritaville ao microfone, Lúcio reclinou-se sobre a mesa e manifestou seu desejo em viva-voz.
Queria matar-se e acabar com o tormento.
Seus amigos ficaram chocados e indignados. Repreenderam-no até por pensar uma coisa maluca dessas, mas não demorou para perceberem que suas tentativas não estavam servindo de nada. Pelo contrário, perceberam que estavam aumentando ainda mais sua agonia e sua depressão. As palavras duras logo encheram-se de solicitude. O que poderiam fazer para ajudá-lo?
Com certeza haveria alguma coisa que pudessem fazer.
Continuaram a conversar, debruçados sobre a mesa a um canto do bar, colocando as cabeças juntas para fazer surgir alguma solução viável para a situação insuportável do amigo. Mais tarde, já perto da meia-noite, horas e horas de discussão, um deles reuniu coragem suficiente para sugerir o que todos estavam pensando. A pobre mulher já havia recebido uma sentença de morte. Se alguém deveria morrer, antes fosse a pobre esposa que há muito vinha sofrendo.
Se fosse possível...
Mais tarde, ninguém seria capaz de lembrar quem colocou em palavras a proposta de matá-la.
Nas três sextas-feiras seguintes, discutiram a possibilidade, mas uma vez que o debate encerrou-se e foi feita a votação, não haveria volta. A decisão, quando finalmente tomada, foi unânime. Não haveria hesitação, nem dúvidas atormentadoras de parte de nem um dos membros do clube.
Era algo tão claro quanto sangue seco sobre um carpete branco. Não se consideravam monstros nem admitiam que agiam motivados pela ganância. Não, eram apenas colarinhos brancos com altas metas, que trabalhavam muito e jogavam pesado. Eram tomadores de riscos, temidos pelos de fora pelo poder que emanavam. Eram conhecidos como verdadeiros "arrebenta colhões" — um termo que consideravam elogioso. Ainda assim, apesar de sua arrogância e audácia, nem um deles tinha a coragem de chamar o plano pelo que realmente era: assassinato. Por isso se referiam a isso como "o caso".
Sem dúvida, tinham muita ousadia, considerando-se que o Dooley's ficava a meio quarteirão de distância da Oitava Delegacia Regional da Polícia de Nova Orleans. Enquanto planejavam o crime, estavam rodeados de detetives e policiais. De quando em quando, também aparecia uma dupla de agentes do FBI em missão especial por ali, bem como vários promotores, que procuravam fazer política de boa vizinhança. Tanto a polícia quanto os advogados consideravam o Dooley's seu lugar de encontro, como também os sobrecarregados e mal pagos estagiários e residentes do Tribunal e do Charity Hospital. Os diferentes grupos raramente misturavam-se.
O Clube dos Semeadores não ficava de lado algum. Sempre sentavam-se no canto. Todos sabiam quem eram, no entanto, e até que o torpor do álcool começasse a agir, eram constantemente interrompidos por cumprimentos de colegas e de puxa-sacos.
Ah, sim, tinham nervos de aço e muita ousadia, pois em meio à elite de Nova Orleans, eles calmamente discutiam a tal morte piedosa.
A discussão jamais teria ido tão longe se já não contassem com a figura de que precisavam. Greyback já havia matado por dinheiro e certamente não teria escrúpulos para voltar a matar. Lestrange foi quem primeiro detectou o potencial e tirou vantagem, livrando-o do sistema judicial. Greyback compreendia a dívida que teria de saldar. Prometeu a Lestrange que faria qualquer coisa, o que quer que fosse, desde que os riscos fossem administráveis e que o preço fosse justo. Sentimentos à parte, o matador que arranjaram era, acima de tudo, um homem de negócios.
Todos encontraram-se para discutir os termos do trabalho em um dos pontos favoritos de Greyback, o Frankie's, um barraco dilapidado próximo à Interestadual 10, do lado oposto de Metairie. O boteco cheirava a fumo, casca de amendoim e peixe estragado. Greyback jurava que o Frankie's tinha o melhor camarão frito de todo o sul.
Chegou um pouco atrasado e nem se desculpou por isso. Tomou seu lugar, cruzou as mãos sobre a mesa e imediatamente expôs suas condições antes de aceitar o dinheiro deles. Greyback era pessoa instruída, o que havia sido um dos principais motivos para Lestrange tê-lo salvo de uma condenação à morte. Queriam uma pessoa inteligente e ele encaixava-se no perfil. Também tinha uma aparência distinta, bastante refinada e assombroso fino trato para um criminoso. Até ser preso por assassinato, a ficha de Greyback estava limpa. Depois que ele e Lestrange fizeram o trato, vangloriou-se de sua extensa experiência, que incluía incêndio criminoso, chantagem, extorsão, além, é claro, de assassinato. A polícia, obviamente, não sabia de seu passado, mas tinha provas suficientes para condenar o assassino — provas que deliberadamente foram desviadas.
A primeira vez que os outros viram Greyback foi no apartamento de Lestrange, quando causou forte impressão sobre eles. Esperavam encontrar alguém com jeito de mau, mas em vez disso depararam-se com um homem que bem se imaginaria ser um deles, um profissional de alto padrão, até perceberem seus olhos. Eram frios e cortantes como aço. Se era verdade que os olhos são o espelho da alma, então Greyback já havia entregado a sua ao diabo. Depois de pedirem uma cerveja, ele recostou-se na cadeira e calmamente pediu o dobro do preço oferecido por Lestrange.
— Está brincando — Crouch disse. — Isso é extorsão.
— Não, é assassinato — Greyback retrucou. — Quanto maior o risco, maior o preço.
— Não é... assassinato — Goyle reagiu. — É um caso especial.
— O que tem de especial? — Greyback quis saber. — Querem que eu elimine a esposa do Lúcio, não é? Ou será que me enganei?
— Não, mas...
— Mas o quê, Goyle? Minha sinceridade incomoda? Posso usar uma outra palavra para assassinato, se quiserem, mas isso não elimina o fato de vocês estarem me contratando para fazer o serviço — ele deu de ombros e insistiu. — Quero mais dinheiro.
— Nós já o deixamos rico — Lúcio ressaltou.
— Sim, não nego.
— Olhe aqui, seu palhaço, já tínhamos combinado o preço — Crouch gritou, depois olhou por cima do ombro para ver se alguém havia ouvido.
— Pois é, combinamos — Greyback respondeu, parecendo não ter sido afetado pelo acesso de raiva do outro. — Mas vocês ainda não tinham explicado o que queriam, certo? Imaginem minha surpresa quando Lestrange inteirou-me dos detalhes do trabalho.
— O que foi que Lestrange lhe disse?
— Que havia um problema que todos vocês queriam eliminar. Agora que sei qual é o problema, estou dobrando o preço. Acho que é bastante razoável. O risco é considerável.
Um silêncio seguiu-se à fala de Greyback. Depois, Goyle disse:
— Eu estou zerado. Onde vamos conseguir o restante do dinheiro?
— Isso é problema meu, não seu — Lúcio respondeu e voltou-se para Greyback. — E ainda ofereço mais dez mil se concordar em esperar para receber depois que a herança for aberta.
Greyback inclinou a cabeça e falou:
— Mais dez mil. Claro, eu espero. Sei onde encontrar você. Agora, preciso saber dos detalhes. Já sei quem você quer que eu mate, agora pode me dizer quando, onde e quanto quer que ela sofra.
Lúcio ficou abalado. Pigarreou, deu um gole em sua cerveja, depois murmurou:
— Meu Deus, não! Não quero que ela sofra. Já houve sofrimento demais.
— Ela é doente terminal — Goyle explicou. Lúcio assentiu com a cabeça.
— Não há mais esperança para ela. Não agüento mais ver a pobre sofrer tanto. É... constante, sem fim. Eu...
Estava emocionado demais para continuar. Goyle assumiu a palavra:
— Quando Lúcio começou a falar essa loucura, que queria se matar, decidimos que era hora de fazermos alguma coisa para ajudar.
Greyback fez sinal para que se calasse quando a garçonete aproximou-se deles. Ela colocou mais uma rodada de cerveja sobre a mesa e disse que voltaria logo para pegar os pedidos para o jantar.
Quando ela afastou-se, Greyback disse:
— Olhe, Lúcio, não sabia que sua mulher estava doente. Para mim pareceu frieza da sua parte. Sinto muito.
— O suficiente para baixar o preço? — Crouch perguntou.
— Não, não a esse ponto.
— Mas vai fazer o serviço, ou não? — Lúcio perguntou, impaciente.
— Curioso, não é? — Greyback comentou. — Na verdade eu estaria cometendo uma boa ação, não estaria?
Perguntou os detalhes da triste condição e também da rotina da casa. Enquanto Lúcio respondia às perguntas, Greyback debruçou-se, cruzando as mãos sobre a mesa. Suas unhas estavam impecavelmente tratadas, sem cutículas, e os dedos não tinham calosidades. Ele olhava para a frente, parecendo perdido em seus pensamentos, como se estivesse tramando os detalhes do trabalho em sua cabeça.
Depois que Lúcio terminou de descrever a planta da casa, falar sobre o sistema de alarme e sobre a rotina diária das empregadas, esperou, nervoso, por mais perguntas.
— Então a empregada vai para casa todas as noites. E a governanta?
— Arabella... Ela se chama Arabella Figg — Lúcio disse. — Ela fica até às dez todas as noites, a não ser às segundas-feiras, quando em geral estou em casa e ela pode sair às seis.
— Algum parente ou amigo com quem eu deva me preocupar? Lúcio balançou a cabeça.
— Narcisa se afastou dos amigos há anos. Não gosta de visitas. Fica constrangida com sua... situação.
— E parentes?
— Tem um tio e alguns primos, mas há muito os cortou de sua convivência. Diz que são perfeitamente descartáveis. O tio liga uma vez por mês. Ela tenta ser gentil, mas não fica muito ao telefone. Cansa-se com facilidade.
— Acha que o tal tio pode aparecer sem ser convidado?
— Não. Há anos ela não o vê. Não é preciso se preocupar com ele.
— Então não vou me preocupar — Greyback disse, com voz suave.
— Olhe, não quero que ela sofra... Estou me referindo à hora que... É possível?
— Claro que é — Greyback respondeu. — Compaixão faz parte da minha natureza. Não sou um monstro. Acredite ou não, possuo valores muito fortes e uma ética inflexível — gabou-se.
Ninguém se atreveu a rir da contradição. Um matador de aluguel com ética? Louco, sim; porém todos sabiamente concordaram com a cabeça. Se Greyback houvesse lhes dito que conseguia andar sobre a água, eles também haveriam fingido acreditar.
Quando Greyback cansou de falar sobre suas virtudes e concentrou-se no trabalho em questão, disse a Lúcio que não acreditava em crueldade ou dor desnecessária e, apesar de haver prometido o mínimo de sofrimento durante o "caso", sugeriu, apenas como precaução, que Lúcio aumentasse a dose de analgésicos que sua esposa tomava antes de dormir. Nada mais deveria ser alterado. Lúcio deveria ligar o alarme como fazia todas as noites antes de se recolher, depois ir para seu quarto e permanecer lá. Greyback garantiu, com uma confiança que acharam obscenamente reconfortante, que ela estaria morta pela manhã.
Era um homem de palavra. Matou-a durante a noite. Como havia entrado na casa e saído, sem que o alarme disparasse, fugia à compreensão de Lúcio. Havia detectores de som e movimento dentro da casa, além de câmeras de vídeo monitorando o lado externo, mas o etéreo Greyback havia entrado no recinto sem ser visto ou ouvido, despachando rapidamente a sofredora de tanto tempo para o alívio eterno.
Para provar que havia estado lá, colocou uma rosa sobre o travesseiro, assim como havia dito a Lúcio que faria, para não deixar qualquer dúvida sobre quem deveria receber o crédito e o pagamento final pelo assassinato. Lúcio removeu a rosa antes de ligar e pedir ajuda.
Lúcio concordou que fosse feita uma autópsia para que não fosse levantada a menor suspeita mais tarde. O relatório do legista indicou que ela havia morrido engasgada com chocolates. Foi encontrado um pedaço de caramelo coberto de chocolate de bom tamanho alojado em seu esôfago. Havia marcas arroxeadas em seu pescoço, mas deduziram que ela mesma as havia causado ao tentar desalojar o obstáculo que a estava sufocando. A morte foi considerada acidental; o caso foi oficialmente encerrado e o corpo liberado para sepultamento.
Por causa de seu volume avantajado, seriam necessários pelo menos oito pessoas bastante fortes para carregar o caixão, que a casa funerária gentilmente avisou que deveria ser feito. Com expressão embaraçada e condoída, o agente funerário disse ao viúvo, com todas as letras, que não conseguiria entrouxar todo aquele volume em um dos caixões de mogno polido, forrado de cetim, de que a casa dispunha já prontos. Sugeriu que seria mais prudente cremar o corpo, com o que o viúvo prontamente concordou.
A cerimônia do funeral foi íntima; compareceram alguns parentes de Lúcio e um ou outro amigo próximo. Goyle compareceu, mas Lestrange e Crouch justificaram-se. A governanta de Narcisa também compareceu e Lúcio a ouviu gemer e soluçar quando saía da igreja. Ele a viu no vestíbulo, agarrada a seu terço e com um olhar do tipo tomara que o senhor pague pelos seus pecados no inferno. Lúcio ignorou aquela mulher à beira da histeria sem dirigir-lhe mais nem um olhar.
Duas pessoas da família de Narcisa também vieram demonstrar seus sentimentos; ficaram, porém, bem atrás dos outros, enquanto o pequeno grupo seguia em procissão até o túmulo. Lúcio não parava de olhar por cima do ombro, para o homem e a mulher. Tinha a nítida sensação de que os dois o observavam, mas quando percebeu o quanto o estavam deixando nervoso, deu-lhes as costas e baixou a cabeça.
Os céus choraram por Narcisa e cantaram sua homenagem. Enquanto o pastor rezava por ela, raios cortavam o céu e trovões ribombavam. A chuva torrencial não deu trégua até que a urna com as cinzas fosse fechada no túmulo.
Narcisa finalmente estava em paz, e o tormento do marido se acabara. Seus amigos esperavam que ele estivesse triste mas, ao mesmo tempo, que sentisse alívio porque a esposa não estava mais sofrendo. Afinal, ele a havia amado com todo seu coração, não era verdade?
Apesar de os outros aconselharem-no a tirar umas férias, sair um pouco, o viúvo voltou a trabalhar no dia seguinte ao funeral. Insistia que precisava manter-se ocupado para manter a mente livre da angústia.
O dia estava claro, o céu estava limpo e azul enquanto ele cruzava St. Charles a caminho de seu escritório. O ar úmido estava carregado do cheiro de madressilva. Seu disco favorito do Mellecamp, Hurts so Good, soava alto em seus alto-falantes.
Estacionou na vaga de sempre e pegou o elevador para seu conjunto comercial. Quando abriu a porta estampada com seu nome, a secretária correu para manifestar-lhe seu sincero pesar. Ele observou que a esposa teria adorado aquele dia lindo de verão e, mais tarde, a secretária comunicou a todos no escritório que havia lágrimas em seus olhos quando mencionou o nome de Narcisa.
À medida que os dias iam passando, ele parecia estar lutando contra a depressão. Durante a maior parte do tempo que passava no trabalho, parecia distraído e distante, enfrentando a rotina de maneira mais ou menos automática. Em outras ocasiões, mostrava-se chocantemente animado. Seu comportamento errático era motivo de preocupação para os funcionários, mas eles preferiam acreditar que eram reflexos compreensíveis de seu enorme pesar. O melhor que poderiam proporcionar-lhe naquele momento era paz. Lúcio não era pessoa de comentar seus sentimentos e todos sabiam o quanto prezava sua privacidade.
O que não sabiam, no entanto, era que Lúcio também andava bem ocupado.
Duas semanas depois do "caso", ele já havia se livrado de qualquer memória dolorosa da esposa, incluindo a mobília renascentista italiana que ela tanto gostara. Dispensou todos os fiéis empregados e contratou uma governanta que não havia conhecido Narcisa. Mandou pintar a casa, de alto a baixo de cores vivas e mandou reformar o jardim. Mandou instalar a fonte que queria, aquela com o querubim soltando água pela boca. Havia tempo que desejava aquela fonte, mas quando mostrou a foto do catálogo a Narcisa, ela julgou-a espalhafatosa demais.
Tudo estava sendo feito agora a seu gosto. Escolheu mobília contemporânea por causa das linhas simples e leves. Quando foi entregue, o lugar de cada peça foi supervisionado pessoalmente pela decoradora de interiores.
Depois, quando o último caminhão de entrega partiu, ele e a tão habilidosa, linda e jovem decoradora batizaram a nova cama. Passaram a noite sobre a cama com dossel de laca negra — exatamente como ele vinha prometendo a ela há mais de um ano.
n/a: Esses clube ainda vai aprontar muito!! Como sou boazinha, vamos conhecer o Harry... corram pra o próximo capítulo!!!