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13. Capítulo Treze


Fic: Pecados Mortais - CAPÍTULO CATORZE


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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O homem da manutenção enxugava mal-humorado uma poça cor-de-lama no corredor diante da sala dos detetives. Sob o cheiro forte do desinfetante de pinho pairavam vestígios de odores mais humanos. A máquina que despejava um café fraco e, quando de bom humor, chocolate quente, encostava-se inclinada como um soldado ferido na companheira que liberava barras de chocolate Hershey's puro e com amendoim. Um monte de copos de isopor estava espalhado pelo piso de cerâmica. Harry conduziu Gina e contornou o pior da desordem.


— A máquina de café pifou de novo?


O homem de macacão e cabelos grisalhos empoeirados olhou por cima do cabo do esfregão.


— Vocês, caras, precisam parar de chutar as máquinas. Olhe essa mossa. — Derramou mais café e Lysol enquanto gesticulava. — Criminosos.


— É. — Harry disparou um olhar de aversão à máquina de chocolates. Tratara de acrescentar mais uma nova mossa na véspera quando perdera outros cinqüenta centavos. — Alguém tem de investigar. Cuidado com os sapatos, doutora.    


Levou-a à sala da equipe, onde às oito da manhã os telefones já tocavam estridentes.


— Potter. — Lilá Brown atirou um copo de papel em direção à cesta de lixo, onde ele bateu na borda e deslizou para dentro. — A filha do capitão teve neném ontem à noite.


— Ontem à noite?


O detetive parou junto à sua mesa à procura de recados. O da mãe lembrou-lhe que fazia quase um mês que ele não aparecia.


— Às 10:35 da noite.


— Merda, não podia ter esperado mais dois dias? Apostei no décimo quinto dia do mês. —Ainda havia uma chance, ele imaginou, se a jovem tivesse cooperado e fosse um menino. — Que foi que ela teve?


— Menina, quase quatro quilos. Prewett acertou na mosca.


— Era de esperar.


Ela levantou-se e lançou uma rápida varredura profissional em Gina. Avaliou o preço da bolsa de pele de cobra em cento e cinqüenta paus e sentiu uma leve pontada inofensiva de inveja.


— Bom-dia, Dra. Weasley.


— Bom-dia.


— Ah, se quiser café ou alguma coisa, pedimos da sala de conferência até acabar a faxina. Vamos nos reunir lá em alguns minutos.


O perfume era francês, coisa autêntica, deduziu Lilá, dando uma rápida e discreta fungada.


— Obrigada, eu espero.


— Por que não se senta até o capitão estar pronto? — sugeriu Harry, olhando em volta à procura de uma cadeira limpa. — Tenho de retornar dois telefonemas.


Ouviu-se uma enxurrada de obscenidades do corredor, e, em seguida, uma pancada metálica. Gina virou-se e viu água suja do balde escorrer pelo corredor. Então tudo fugiu ao controle.


Um negro magricela com as mãos algemadas atrás chegou até a entrada, e um homem de casacão prendeu-o numa chave de pescoço.


— Olhe o meu chão! — Quase dançando de fúria, o responsável pela manutenção surgiu no campo visual. Girou o esfregão, espirrando tudo. — Vou me queixar ao sindicato. Ah, se vou!


O prisioneiro estrebuchou e contorceu-se como uma truta fora d'água, enquanto o policial responsável tentava manter o domínio.


— Tire esse esfregão molhado da minha cara.


Ofegando e meio ruborizado, o policial procurava evitar o dilúvio seguinte, e o negro emitiu um gemido alto, choroso.


— Merda, Mullendore, não consegue controlar seus prisioneiros? — Sem pressa, Harry aproximou-se para ajudar, quando o negro deu um jeito de cravar os dentes na mão do policial. O baixo grunhido de um xingamento veio à tona antes que o prisioneiro se soltasse e precipitasse de ponta-cabeça sobre Harry. — Deus do céu, me dê uma mão, sim? Esse cara é um animal.


Mullendore lançou-se com força à frente, espremendo o prisioneiro entre eles. Por um momento, pareciam prontos para dançar uma rumba. Então os três perderam a firmeza dos pés no piso molhado e caíram amontoados.


Ao lado de Gina, Lilá assistia com as mãos à vontade nos quadris.


— Não devia apartá-los? — perguntou Gina em voz alta.


— O cara está algemado e talvez pese menos de cinqüenta quilos. Vão acertar isso num minuto.


— Não vão me pôr numa cela! — rolou, debateu-se e gritou o negro, conseguindo atingir em cheio a virilha de Harry com o joelho. Por reflexo, o detetive impeliu o cotovelo e acertou-o sob o queixo. Quando o corpo do outro apagou sem energia, ele desabou em cima, com Mullendore arfando ao lado.


— Obrigado, Potter. —Mullendore ergueu a mão para examinar as marcas de dentes. — Puxa, na certa vou precisar de uma injeção. O cara enlouqueceu quando entramos no prédio.


Harry conseguiu pôr-se de quatro. Aos poucos foi controlando a respiração ofegante, mas a dor nas partes baixas ainda estava forte. Tentou falar, arrastou outro arquejo sibilante e tentou mais uma vez:  


— O filho-da-mãe enfiou meus colhões na barriga.


— Sinto muito, Harry. — Mullendore pegou um lenço e o enrolou na mordida. — Mas ele parece muito pacífico agora.


Com um grunhido, Harry arrastou-se e sentou-se no chão, apoiado na parede.


— Pelo amor de Deus, trancafie o cara antes que ele volte a si. Ficou ali sentado, enquanto o policial erguia o prisioneiro inconsciente. A água fria da lavagem, suja de café, encharcara-lhe os joelhos e as coxas da calça jeans e borrifaram a camisa. Mesmo quando escorreu para os fundilhos, ele continuou sentado, perguntando-se por que o joelho que atingira seu orgulho tinha de ser tão ossudo.


Ao atravessar o corredor para uma nova rodada de água cheia de sabão, o homem da manutenção fez matraquear o esfregão no balde.


— Vou falar com o representante do sindicato. Já tinha quase terminado aquele piso.


— Folga dura.


Harry lançou-lhe um olhar quando a dor entre as pernas subiu palpitante até a cabeça.


— Não se preocupe com isso, Potter. — Lilá apoiou-se na porta, evitando com todo cuidado o riacho. — As chances são de que continue sendo um garanhão.


— Não enche o meu saco.


— Querido, você sabe que meu marido é um homem ciumento.


Gina ajoelhou-se ao lado dele, com um solidário muxoxo.


Afagou-lhe a face com delicadeza, mas tinha os olhos iluminados pelo riso.


— Tudo bem com você?


— Ah, esplêndido. Gosto de absorver café pela pele.


— Ramo executivo, certo?


— É, certo.


— Quer se levantar?


— Não.


Ele resistiu a levar a mão entre as pernas para certificar-se de que tudo estava no lugar.


Ela não conseguiu abafar muito a risada quando tapou a boca com a mão. O olhar demorado e estreito que Harry lhe lançou só piorou a situação. A voz saiu esganiçada e gorgolejante:


— Você não pode ficar sentado aí o dia todo, numa poça e cheirando a piso de um bar não lavado a semana inteira.


— Fantástico seu jeito delicado de médica, doutora. — Ele tomou-lhe o braço, enquanto ela travava uma batalha perdida contra o riso. — Basta um bom puxão, que ponho você aqui ao meu lado.


— Então vai ter de lidar com todas aquelas ramificações da culpa. Pra não falar da conta da tinturaria.


Rony atravessou o corredor, ainda todo agasalhado com os acessórios para o frio externo. Como evitava o pior da umidade, raspou o resto do iogurte do desjejum. Lambendo a colher, parou diante do parceiro.


— Bom-dia, Dra. Weasley.


— Belo dia.


— Mas um pouco frio.


— O homem da meteorologia disse que vai chegar a dez graus centígrados esta tarde.


— Ai, vocês dois são uma perturbação da ordem pública — disse Harry. — Uma verdadeira perturbação.


Gina pigarreou.


— Harry... Harry sofreu um pequeno acidente.


Rony ergueu as bastas sobrancelhas ao ver o riacho que passava pelo corredor.


— Só guarde seu humor de calouro embonecado pra si mesmo.


— Calouro embonecado. — Rony rolou a palavra em volta da boca, impressionado. Entregou a embalagem vazia a Gina, enfiou as mãos sob as axilas do colega e sem esforço içou o parceiro sobre os pés. — Sua calça está molhada.   


— Tive de conter um prisioneiro.


— É? Bem, coisas assim acontecem no meio de toda essa tensão e excitação.


—Vou até o meu armário — resmungou Harry. — Veja se a doutora não se machucou de tanto rir.


Espalhou água, pisando com as pernas meio abertas no corredor. Rony pegou a embalagem do iogurte e a colher de plástico de Gina.


— Quer um pouco de café?


— Não — ela conseguiu dizer, entrecortando a palavra. — Acho que já tomei demais.


— Só um minuto e eu a levarei ao capitão Shacklebolt.


 


Reuniram-se na sala de conferências embora o aquecedor emitisse um esperançoso zumbido mecânico, os pisos continuavam gelados. Shacklebolt não conseguira que instalassem carpete no piso. Haviam fechado as persianas, numa tentativa infrutífera de isolar as janelas. Alguém afixara um cartaz que exortava os Estados Unidos a pouparem energia.


Gina sentou-se à mesa, com Rony refestelado ao lado. O leve perfume de jasmim evaporava-se do chá. Lilá Brown equilibrava-se na borda de uma pequena mesa, balançando, distraída, a perna. Curvado numa cadeira, Finnigan tinha no colo uma caixa tamanho econômico de lenços de papel. De poucos em poucos instantes, assoava o nariz já vermelho. A gripe de Thomas mantivera-o na cama.


Shacklebolt postou-se junto a um quadro verde, no qual se haviam alinhado os nomes e outras informações pertinentes sobre as vítimas. Um mapa da cidade aberto na parede fora perfurado com quatro bandeiras azuis, tendo um quadro de cortiça ao lado. Fotos brilhantes das mulheres assassinadas haviam sido presas com tachas.


— Temos as transcrições dos telefonemas que a Dra. Weasley recebeu.


As palavras soaram tão frias, profissionais, pensou Gina. Transcrições. Não poderiam sentir a dor nem a doença em transcrições.


— Capitão Shacklebolt. — Ela remexeu nas próprias anotações no colo. — Eu trouxe um relatório atualizado, com minhas opiniões e diagnóstico. Mas sinto que seria útil explicar esses telefonemas ao senhor e a seus policiais.


Shacklebolt, com as mãos nas costas, apenas assentiu. O prefeito, a mídia e o senador vinham mordendo-lhe os tornozelos. Queria tudo concluído, há muito concluído, para poder passar algum tempo babando pela neta recém-nascida. Vê-la atrás da vitrina do berçário quase o fizera acreditar que a vida tinha seus pontos positivos.


— O homem que entrou em contato comigo ligou porque sentia medo de si mesmo. Não consegue mais controlar sua vida, mas tem sido controlado pela doença. O último... — Sentiu o olhar atraído pela foto de Padma Patil. — O último assassinato não fazia parte do plano. — Ela umedeceu os lábios e ergueu os olhos apenas por um instante quando Harry entrou. — Ele me esperava... a mim especificamente. Não temos como saber ao certo como se concentrou nas outras vítimas. No caso de Katie Bell, quase podemos ter certeza de que foi coincidência. O carro dela pifou. Ele estava lá. No meu caso, é muito mais aprimorado, pois ele viu meu nome e foto no jornal.


Interrompeu-se um momento, esperando que Harry se instalasse na cadeira ao lado. Em vez disso, ele continuou nos fundos e encostou-se na porta fechada, separado dela pela mesa.


—A parte racional da mente desse homem, que o mantém funcionando no dia-a-dia, se esgotou. Ali estava a ajuda, alguém que não o condenara sem controle. Alguém que afirma entender pelo menos parte de sua dor, que se parece o suficiente com Laura para despertar sentimentos de amor e total desespero.


"Acho correto dizer que ele me esperou na noite do assassinato de Padma Patil porque queria falar comigo, explicar a razão de fazer... o que estava prestes a fazer. A julgar pelas próprias investigações de vocês, também acho correto dizer que ele não sentiu essa necessidade de explicar com nenhuma das outras. Nas transcrições, verão que, de vez em quando, ele me pede que entenda. Sou, digamos assim, uma dobradiça. A porta dele se abre para os dois sentidos. “


Juntou as palmas das mãos, movendo-as para frente e para trás, numa demonstração.


— Ele me pede ajuda, então a doença o domina e o faz querer apenas concluir o que começou. Mais duas vítimas — disse com toda calma. — Em sua mente, mais duas vítimas a serem salvas. Eu, depois ele próprio.


Rony fez pequenas e arrumadas anotações na margem de suas transcrições.


— O que vai impedi-lo de sair e liquidar outra pessoa por não conseguir chegar a você?


— Precisa de mim. A essa altura, entrou em contato comigo três vezes, me viu na igreja. Lida com sinais e símbolos. Eu estava na igreja, igreja dele. Pareço Laura. E disse que queria ajudar. Quanto mais próximo se sente de mim, mais necessário seria completar a missão comigo.


— Ainda acha que ele vai ter como alvo o dia 8 de dezembro? Embora Lilá tivesse as transcrições na mão, não as olhava.


— Sim. Não creio que poderia quebrar mais uma vez o padrão. Padma Patil exigiu demais. A mulher errada, a noite errada.


Gina sentiu a barriga estremecer antes de endireitar-se e controlar a emoção.


— Não é possível que — começou Rony —, pelo fato de ele estar tão fixado assim em você, procure-a mais cedo?


— Sempre é possível. A doença mental tem poucos absolutos.


— Vamos continuar com a proteção durante vinte e quatro horas — interveio Shacklebolt. — Você terá a escuta no telefone e os guardas até ele ser capturado. Nesse meio-tempo, queremos que continue com suas rotinas pessoal e profissional. Ele vai vigiá-la e por isso saber quais são. Se você ficar acessível, talvez possamos atraí-lo.


— Por que não diz logo o principal a ela? — Da porta, Harry sugeriu sem se alterar, as mãos nos bolsos e a voz relaxada. Gina teve apenas de olhar os olhos dele para ver o que se passava no íntimo. — Você a quer como isca.


Shacklebolt encarou-o, mas não alterou o volume nem o tom da voz quando tornou a falar:


— A Dra. Weasley foi escolhida. O que eu quero não tem tanta importância quanto o que o assassino quer. Por isso é que ela terá nosso pessoal em casa, no consultório e no maldito supermercado.


— Ela devia ficar protegida em casa durante as próximas duas semanas.


— Isso já foi considerado e rejeitado.


— Rejeitado? — Harry afastou-se da porta. — Por quem?


— Por mim.


Gina juntou as mãos sobre a pasta e ficou sentada muito imóvel. Harry mal a olhou antes de despejar a raiva em Shacklebolt.


— Desde quando usamos civis? Enquanto ela estiver exposta, corre perigo.


— Está sendo protegida.


— É. E sabemos com que facilidade algo pode sair errado. Um passo em falso e você pregará o retrato dela ali.


— Harry.


Lilá estendeu a mão para pegar-lhe o braço, mas ele a afastou com um safanão.


— Não temos nada de correr riscos com ela quando sabemos que o louco vai persegui-la. Ela vai ficar protegida no aparelho.


— Não. — Gina apertou as mãos com tanta força que os nós dos dedos se embranqueceram. — Não posso tratar de meus pacientes a não ser que vá ao consultório e à clínica.


— Tampouco pode tratar deles se estiver morta. — Ele rodopiou para ela, batendo as duas palmas na mesa. — Então tire umas férias. Compre uma passagem para a Martinica ou Cancún. Quero você fora disso.


— Não posso, Harry. Mesmo que pudesse me afastar dos pacientes por algumas semanas, não tenho como me afastar do resto.


— Potter... Harry — corrigiu Shacklebolt, num tom mais ameno. —A Dra. Weasley tem conhecimento das opções. Enquanto estiver conosco, será protegida. É opinião dela própria que ele vai procurá-la. Como decidiu cooperar com o departamento, teremos condições de mantê-la sob cerrada vigilância e imobilizá-lo quando ele fizer a investida.


— Nós a retiramos e colocamos uma policial no lugar dela.


— Não. — Dessa vez, Gina levantou-se, devagar. — Não vou suportar que alguém morra mais uma vez no meu lugar. De novo, não.


— E eu não vou querer encontrar você em algum beco com uma estola amarrada no pescoço. — Ele deu-lhe as costas. — Você a está usando porque a investigação empacou, porque temos apenas uma testemunha perturbada, um representante de vendas de artigos religiosos em Boston e uma pilha de papéis de adivinhação psiquiátrica.


— Aceito a cooperação da Dra. Weasley porque temos quatro mulheres mortas. — Era a azia no estômago que impedia Shacklebolt de levantar a voz. — E preciso de cada um dos meus policiais de nível superior. Recomponha-se, Harry, senão será o primeiro a cair fora.


Gina juntou os papéis e saiu de mansinho. Rony chegou em menos de dez segundos atrás dela.


— Quer tomar um pouco de ar? — perguntou, ao encontrá-la parada, infeliz, no corredor.


— Quero. Obrigada.


Ele conduziu-a pelo cotovelo de uma forma que em geral a teria feito sorrir. Quando abriu a porta, uma rajada do vento gelado de novembro os golpeou. O céu era de um azul intenso, frio, sem uma nuvem sequer para suavizá-lo. Os dois lembraram que fora em agosto, o quente e mormacento agosto, que tudo começara. Rony esperou-a abotoar o casaco.


— Acho que teremos um pouco de neve no Dia de Ação de Graças — disse, à guisa de conversa.


— Acho que sim.


Ela enfiou a mão no bolso e pegou as luvas.


— Sempre senti pena dos perus.


— Como?


— Os perus — repetiu Rony. — Você sabe, Ação de Graças. Não imagino que se sintam muito gratos por ser uma tradição.


— É. — Ela viu que podia sorrir, afinal. — É, acho que não.


— Ele nunca se envolveu com uma mulher antes. Não assim. Não como você.


Gina exalou um longo suspiro, desejando conseguir encontrar a resposta. Sempre conseguia encontrá-la.


— Isso simplesmente fica mais complicado.


— Conheço Harry há muito tempo. — Rony tirou um amendoim do bolso, partiu-o e ofereceu o recheio a Gina. Quando ela fez que não com a cabeça, ele o pôs na boca. — É muito fácil lê-lo se você souber como olhar. No momento, está apavorado. Apavorado com você e por você.


Gina fitou o estacionamento. Um dos policiais não ficaria nada satisfeito quando saísse e descobrisse o pneu direito da frente arriado.


— Eu não sei o que fazer. Não posso fugir, embora parte de mim, no fundo, esteja apavorada.


— Com os telefonemas ou com Harry?


— Começo a achar que você devia fazer parte do meu ramo de trabalho — ela murmurou.


— Quando a gente é policial há bastante tempo, aprende um pouco de tudo.


— Estou apaixonada por ele. — A declaração saiu devagar, como um teste. Assim que a disse, ela exalou um suspiro trêmulo. — Já seria difícil o suficiente em circunstâncias normais, mas agora... não posso fazer o que ele quer.


— Ele sabe. Por isso também está apavorado. É um bom tira. Desde que continue a vigiá-la, você vai ficar bem.


— Conto com isso. Ele tem algum problema com o que eu faço para ganhar a vida. — Ela virou-se de frente para Rony. — Você sabe. Sabe por quê.


— Digamos que eu saiba o bastante para dizer que ele tem seus motivos e, quando estiver pronto, vai lhe falar sobre eles.


Ela examinou o rosto largo dele, avermelhado pelo vento.


— Harry é felizardo por ter você.


— Eu vivo dizendo isso a ele.


— Abaixe-se um instante. — Quando Rony se curvou, ela roçou os lábios na face dele. — Obrigada.


O rubor se intensificou um pouco.


— Não foi nada.


Harry observou-os através da porta de vidro um momento e abriu-a. Descontara toda a raiva em Shacklebolt. Só lhe restava uma dor maçante na boca do estômago. Conhecia bem o medo para reconhecê-lo.


— Você não perde tempo, hein? Já ocupou meu lugar? — perguntou, com voz branda.


— Se você for idiota o bastante pra abrir espaço... — Rony sorriu para Gina e entregou-lhe alguns amendoins. — Se cuide.


Gina sacudiu-os na mão e nada disse quando ele desapareceu dentro da delegacia.


Com o zíper da jaqueta aberto, Harry ficou a seu lado, olhando, como ela, o estacionamento. O vento impelia um pequeno saco de papel pardo acima do asfalto.


— Tenho um vizinho que vai cuidar da minha gata por algum tempo. — Como ela continuou calada, ele deslocou o peso de um pé para o outro. — Quero me mudar para a sua casa.


Ela encarou de um modo intenso o pneu vazio.


— Mais proteção policial.


— É isso aí.


E mais, muito mais. Queria ficar com ela, dia e noite. Não sabia explicar, ainda não, que queria viver com ela, quando nunca vivera com outra mulher. O tipo de compromisso perigosamente próximo de uma permanência para a qual ainda não se considerava pronto.


Gina examinou os amendoins na mão e enfiou-os no bolso. Como dissera Rony, era muito fácil lê-lo quando se sabia olhar.


— Eu lhe darei uma chave, mas não vou preparar o desjejum.


— E o jantar?


— De vez em quando.


— Parece razoável. Gina?


— Sim?


— Se eu dissesse que quis que você caísse fora porque... — Ele hesitou e pôs as mãos nos ombros dela. — Porque acho que não agüentaria se alguma coisa lhe acontecesse, você largaria o caso?


— Você largaria também?


— Não posso. Você sabe que tenho de... — Ele interrompeu-se, lutando com a frustração quando ela ergueu os olhos e encarou-o. — Tudo bem. Eu devia ter mais juízo e não discutir com alguém que joga pingue-pongue com as células cerebrais. Faça o que mandaram, porém, ao pé da letra, até o fim.


— Tenho um interesse pessoal em tornar esse caso mais fácil pra você, Harry. Até acabar, farei o que me mandarem.


— Isso decerto bastará. — Ele recuou apenas o suficiente para ela perceber que era o tira agora, muito mais que o homem, que ficava a seu lado. — Dois policiais uniformizados vão segui-la até o consultório. Já tomamos providências para que o guarda que fica na portaria tire férias e o substituiremos por um dos nossos. Teremos três homens se revezando na sua sala de espera. Sempre que puder, vou pegar e levar você pra casa. Quando não puder, os policiais vão segui-la. Usaremos um apartamento vazio no terceiro andar como base, mas, quando você entrar, sua porta vai permanecer trancada. Se tiver de sair por alguma razão, ligue para a delegacia e espere até tudo ficar desimpedido.


— Parece completo.


Ele pensou nos quatro retratos brilhantes na cortiça.


— É. Se alguma coisa, eu me refiro a qualquer coisa, acontecer... um cara lhe der uma cortada num sinal, alguém parar na rua e perguntar algum endereço... eu quero saber.


— Harry, não é culpa de ninguém que as coisas tenham tomado esse rumo. Nem sua, nem de Shacklebolt, nem minha. Apenas temos de encará-las nos mínimos detalhes.


— É o que pretendo fazer. Lá estão os policiais de que falei. É melhor você ir andando.


— Tudo bem. — Ela desceu o primeiro degrau, parou e virou-se. — Imagino que seria conduta imprópria você me beijar aqui, enquanto está de serviço.


— É verdade. — Ele curvou-se e, de uma forma que nunca deixava de lhe enfraquecer as pernas, tomou-lhe o rosto nas mãos. Olhos abertos e nos dela, baixou a boca. Embora gelados, encontrou lábios macios e generosos. Ela agarrou com a mão livre a frente da jaqueta dele para equilibrar-se, ou mantê-lo ali por mais um instante. Ele fitou-a fascinado com o movimento daqueles cílios sensuais e abaixou-se devagar para lhe sombrear as faces.


— Consegue lembrar exatamente onde você estava por volta de oito horas? — murmurou Gina.


— Vou dar um jeito de não esquecer. — Ele se afastou, mas manteve a mão dela na sua. — Dirija com cuidado. Não vamos querer que os policiais se sintam tentados a lhe aplicar uma multa.


— Já acertei tudo. — Ela sorriu. — Até a noite. Harry soltou-a.


— Gosto do meu filé ao ponto.


— E eu malpassado.


Ele ficou vendo-a entrar no carro e sair com competência do estacionamento. Os policiais uniformizados mantiveram-se à distância de um carro atrás.


 


Gina sabia que sonhava, como também, sabia que havia motivos concretos e lógicos para o sonho. Mas isso não a impedia de reconhecer o medo.


Corria. Os músculos na batata da perna direita trincavam-se com o esforço. Dormindo, ela gemia baixinho de dor. Corredores surgiam em todos os lados, confundindo-a. Enquanto tivesse condições, ela se manteria em linha reta, sabendo que havia uma porta em algum lugar. Só precisava encontrá-la. No labirinto, ouvia o forte ricochete de sua respiração. As paredes eram espelhadas agora e projetavam dezenas de seus reflexos.


Levava uma pasta. Olhou-a, estupidamente, mas não a largou. Quando ficou pesada demais para uma mão, segurou-a com as duas e continuou correndo. Ao desequilibrar-se, lançou uma das mãos e bateu-a num espelho. Ofegante, ergueu os olhos. Padma Patil encarou-a de volta. Então, o espelho se fundiu em outro corredor.


Assim recomeçou a correr, tomando o caminho reto. O peso da pasta fazia doerem-lhe os braços, mas ela a puxava consigo. Os músculos retesavam-se e ardiam. Então viu a porta. Trancada. Procurou desesperada a chave. Sempre havia uma chave. Mas a maçaneta girou devagar do outro lado.


— Harry.


Fraca de alívio, ele estendeu-lhe a mão para ajudá-la a transpor aquele último passo rumo à segurança. Mas o vulto era preto-e-branco.


A batina preta, o colarinho branco. A seda branca do amicto. Viu-o erguê-lo, cheio de nós que pareciam pérolas, e aproximar-se de seu pescoço. Então se pôs a gritar.


— Gina. Gina, vamos, querida, acorde.


Ela ofegava e levou a mão à garganta ao arrastar-se para fora do sonho.


— Relaxe. — A voz dele chegou-lhe calma e tranquilizante do escuro. — Apenas respire e relaxe.


Gina agarrou-se com força, o rosto apertado no ombro de Harry. Enquanto ele deslizava as mãos pelas suas costas acima e abaixo, ela tentava focar-se nelas e deixar as lembranças do sonho desaparecerem.


— Sinto muito — conseguiu dizer quando recuperou o fôlego.


— Foi só um sonho. Sinto muito.


— Deve ter sido uma coisa extraordinária. — Delicadamente, ele retirou os fios de cabelo do rosto dela e sentiu sua pele fria e úmida. Puxou as cobertas para cima e envolveu-as nela. — Quer me contar o que foi?


— Apenas excesso de trabalho.


Ela dobrou os joelhos e apoiou neles os cotovelos.


— Quer um pouco d'água?


— Quero, obrigada.


Esfregou as mãos no rosto ao ouvir a torneira aberta no banheiro. Ele deixou a luz acesa de modo que saía inclinada pela porta.


— Pronto. Sempre tem pesadelos?


— Não. — Ela tomou um gole para aliviar a garganta seca. — Tive alguns depois da morte de meus pais. Meu avô vinha, me fazia companhia e adormecia na cadeira.


— Bem, farei companhia a você. — Após tornar a se enfiar na cama, ele passou o braço pelos ombros dela. — Melhor?


— Muito. Acho que me sinto idiota.


— Você não diria, em termos psiquiátricos, que em certas condições é saudável ficar apavorada?


— Acho que sim. — Ela deixou a mão apoiada no ombro dele,


— Obrigada.


— Que mais a incomoda?


Gina tomou um último gole d'água e largou o copo ao lado.


— Eu vinha me esforçando pra não deixar transparecer.


— Não funcionou. Que é?


Ela suspirou e fitou a nesga de luz no piso do quarto.


— Tenho um paciente. Ou tinha, de qualquer modo. Adolescente, catorze anos, alcoólatra, grave depressão, tendências suicidas. Eu queria que os pais o pusessem numa clínica na Virgínia.


— Eles não consentiram.


— Não apenas isso, mas ele faltou à sessão hoje. Liguei e a mãe atendeu. Disse que acha que o progresso de Tom é ótimo. Não quis conversar sobre a clínica, e ia deixá-lo ter uma folga das sessões para respirar. Não posso fazer nada. Nada. — Acima de tudo, fora isso que a derrubara. — Ela não quer enfrentar o fato de que o filho não tem progredido. Embora o ame, pôs antolhos pra não ver nada que não esteja no foco certo. Tenho aplicado, por assim dizer, um Band-Aid nele toda semana, mas a ferida não sara.


— Não pode obrigá-la a trazer o filho. Talvez uma folga pra respirar seja melhor. Deixe a ferida tomar um pouco de ar.


— Quisera eu poder acreditar nisso.


Foi o tom da voz que o fez mudar de posição e puxá-la mais para perto. Quando acordara com aqueles gritos, sentira o sangue gelar-se. Agora fluía quente de novo.


— Escute, doutora, estamos os dois num ramo de atividade em que podemos perder pessoas. É o tipo de coisa que nos faz acordar às três da manhã, ficar fitando as paredes ou olhando pelas janelas. Às vezes temos apenas de desligar. Apenas mexer no interruptor.


— Eu sei. A regra número um é o distanciamento profissional. — Ela roçou a face nos cabelos dele quando virou o rosto para olhá-lo. — Que é que desliga melhor o interruptor pra você?


Na luz obscurecida, viu-o sorrir.


— Quer mesmo saber?


— Quero. — Ela deslizou a mão pelo lado dele até descansá-la confortavelmente no quadril. — No momento quero muito saber.


— Isso em geral funciona.


Num movimento descontraído, ele rolou-a para cima de si. Sentiu a maciez dos seios firmes colados no peito, a fragrância dos cabelos quando lhe cobriram o rosto como uma cortina. Segurou um punhado e baixou a boca da amante até a sua.


Com que perfeição ela parecia encaixar-se, foi o pensamento que lhe ocorreu. Aquele roçar das pontas dos dedos na pele era como uma bênção. Alguma coisa na hesitação dela causava um formigamento excitante. Se ele deslizava os próprios dedos pela parte interna da coxa de Gina, ela estremecia apenas o suficiente para dizer-lhe que o queria, mas continuava insegura.


Harry não sabia por que tudo parecia ser tão novo com ela. Cada vez que se via abraçando-a no escuro, no silêncio, era como a primeira. Ela trazia-lhe alguma coisa da qual ele não soubera que sentia falta e já não tinha mais certeza de que poderia passar sem.


Ela movia de leve a boca pelo seu rosto. Ele queria rolar nas costas dela, bombear dentro dela até os dois explodirem. Com a maioria das mulheres, sempre fora essa última fração de segundo de insanidade que eliminara tudo o mais. Com Gina, era um toque, um murmúrio, um suave roçar de lábios. Por isso ele resistiu àquela primeira volúpia de desejo e deixou os dois vaguearem.


Às vezes ele era tão delicado, pensou Gina vagamente. As vezes, quando faziam amor, tudo acontecia rápido, muito urgente. E então... Quando ela menos esperava, ele era terno, quase preguiçoso, até seu coração ficar pronto para romper essa doçura. Agora, ele a deixava tocar o corpo que passara a conhecer como o seu próprio.


Suspiros. Suspiros de contentamento. Murmúrios. Murmúrios de promessas. Harry enterrou as mãos nos cabelos dela quando ela provou o gosto das partes mais íntimas dele, a princípio quase tímida, depois com confiança cada vez maior. Os músculos a serem descobertos pareceram-lhe retesados e deliciou-a o conhecimento de que era ela quem causava esse enrijecimento.


Quando Gina deslizou a língua pelos ossos protuberantes e estreitos dos quadris dele, Harry curvou-se como um arco. O caminho do dedo dela pela dobra da coxa fez-lhe o corpo estremecer. Ela suspirou ao percorrê-lo com os lábios. Desaparecera toda a ideia de pesadelos.


Mulheres o haviam tocado. Talvez demasiadas mulheres. Mas nenhuma lhe fizera o sangue martelar assim. Ele desejou ficar ali deitado durante horas e absorver cada sensação separada. Queria fazê-la suar e tremer também.


Sentou-se e tomou-lhe as mãos pelo pulso. Por um momento, um longo momento, os dois encararam-se.




N/a: Atendendo à pedidos, está aí mais um capítulo fresquinho! ;)
Final de semestre na faculdade é complicado, então vou começar a demorar mais pra postar. Desculpa genteee!
Mas vou fazer o possível pra não demorar tanto!

beeijos 

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Comentários: 2

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Enviado por ANGELA VANESSA DE LIMA em 25/11/2012

Como assim, acabar o capitulo nesta parte, é sacanagem!!!
Posta logo, está muito bom 

Nota: 5

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Enviado por Sah Espósito em 13/11/2012

Esse autores estao de brincadeira
parar agora nao e justooo
vamo sla vai
posta logo
sei que e dificil
mas por fvor vai!     

Nota: 5

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