Percy ficou por alguns segundos piscando para a porta do vizinho da frente e apontando a varinha para lá. Fechou os olhos e respirou fundo tentando pensar. A única coisa que conseguiu fazer foi fechar a porta e girar o corpo em cento e oitenta graus. Mas, talvez, não tenha sido uma boa idéia, afinal. Ao encarar novamente a pessoa de minutos atrás sentiu que seu estômago afundara, se é que ainda tinha estômago e tremeu, mas não de medo como antes de abrir a porta. Não sabia o porquê, mas o medo o abandonará mesmo estando em uma presença desconhecida e completamente estranha.
Via-se parado em frente a uma garota que não devia ter mais vinte anos. Mais baixa do que ele, cabelos negros e cacheados meio presos num coque esfiapado, num estilo jovem, moderno e despojado. Olhos verdes e hipnotizantes. Pele extremamente clara que contrastava com o cabelo e a roupa preta que usava. Seu rosto possuía linhas delicadas, expressando um ar etéreo e inocente que não combinavam em nada com a maquiagem preta dos olhos e com a boca de um vermelho sangue, mas ao mesmo fechavam completamente, dando um ar angelical e demoníaco ao mesmo tempo. Coisa que estava fazendo o jovem transpirar. Magra, com um corpo definido, bonito e extremamente sexy.
Usava uma saia preta e pregueada na altura do meio da coxa, botas pretas de salto e bico fino de cano longo. Correntes faziam o papel do cinto. Vestia uma blusa também preta que deixava o umbigo de fora e tinha somente a manga esquerda. Uma gargantilha grossa e vermelha em volta do pescoço. E como se não bastasse havia o toque que para o gosto do garoto era um tanto – bem significativo – exótico.
Havia em sua nuca três estrelas pretas em ordem de tamanho. Nas costas, na altura do cós da saia de maneira que metade da tatuagem ficava oculta pelo tecido, rosas vermelho-sangue rodeadas por galhos secos com espinhos. E no ombro direito uma borboleta roxa. Havia mais uma no pé direito, mas o garoto não podia vê-la.
Tinha um piercing no umbigo – uma correntinha de strass com uma estrela na ponta –. Um strass no nariz e sete que faziam a volta na orelha esquerda. Na direita havia um pino transversal que a atravessava e uma argolinha da sobrancelha direita.
Em menos de um minuto Percy tinha conseguido reparar em todos esses detalhes e tentava encontrar palavras para perguntar quem era a garota e o que ela fazia ali, mas não precisou.
- Olá! Eu sou Sarah Blander.
- O...Oi! Eu...eu sou... Percy. Percy Weasley.
- Eu sei. Como eu disse eu posso te ajudar com os seus problemas, mas eu tenho uma coisa em que eu preciso da sua ajuda. E só você pode me ajudar. – falou calmamente como se conversasse com um velho amigo e sentou-se no sofá.
- Ahn... ok, mas eu não tenho idéia de quem você é. E, bom... nos tempos que correm eu não sei se eu posso... ahn... se é sensato confiar num estranho. E também eu não vejo que problemas que eu tenho que você possa... me ajudar.
- Voltar para sua família, por exemplo, e se redimir com a sua consciência.
Isso pegou o rapaz de surpresa. De novo. Não devia ser mistério para todos que o conhecessem que ele se arrependera e gostaria de voltar e o lógico a se concluir é que sua consciência pesava por ter rompido com eles, mas ele não conhecia essa garota e será que ela sabia onde eles estavam?
Assim que fugiu d’O Caldeirão Furado e arrumou um apartamento no centro trouxa de Londres, aparatou em sua casa para fazer o que tinha vontade a mais de um ano, mas tudo que encontrou foi a porta escancarada e uma bagunça enorme como se alguém tivesse procurado por algo sem nenhuma delicadeza. Desde isso, rezava para que todos estivessem bem.
- Você conhece minha família? Sabe onde eles estão?
- Eu vou te contar o que sei. Por que não se senta?
O garoto pegou uma cadeira e se sentou de frente para ela.
- Estou pronto para ouvir.
Sarah contou sobre a invasão dos Comensais, que estavam todos bem e o conteúdo da carta.
- OK. Então você sabe onde fica a Sede e tem como entrar lá?
- Sim. Dumbledore fez o feitiço do Fiel do Segredo e Remo Lupin ficou como guardião. Ele não me conhece, mas Dumbledore pediu que ele escrevesse o endereço num papel e me deu. Papel que eu posso mostrar a você se concordar em me ajudar.
Percy passou as mãos pelo cabelo e pelo rosto cobrindo-o em sinal de nervosismo enquanto tentava raciocinar.
- Você tem que concordar que isso é muito estranho.
- Sim, eu concordo, mas se você concordar, eu te mostro o papel antes de fazermos qualquer coisa e te levo lá. Mas você só poderá olhar para ter certeza. Mas eu vou precisar da sua palavra e se você me trair você cooperará comigo sob a Maldição Imperios e isso não é uma ameaça.
- Certo – falou, mas não parecia estar tão certo assim. Ela não tinha cara de quem brincava – digamos que eu concorde com você, o que eu teria que fazer?
- Só invadir o Ministério da Magia comigo e roubar documentos extra-confidenciais da sala do Ministro da Magia. – disse num tom de quem informa as horas. Percy quase caiu na cadeira.
- Só?! – disse com a voz que parecia um sussurro de tão baixa e rouca. - Você é completamente insana, não é? Ou rstá tirando uma com a minha cara! Definitivamente!
- Não, eu não estou tirando com a sua cara e é, eu sou um pouquinho louca.
- Um pouquinho?
- Olha, eu sei que não vai ser fácil e é por isso que eu preciso de você. Eu nunca fui ao Ministério e eu demoraria horas para achar os documentos. Já você, bom você, praticamente viveu por dois anos dentro da sala do ministro.
- Tá, mas eu não posso mais passar na frente do Ministério o que dirá na sala do ministro! – falou exasperado e quase histérico.
- E é por isso que estaremos invisíveis. Eu posso lançar um Feitiço de Desilusão tão forte que nos deixará completamente invisíveis. Acredite, eu preferiria fazer tudo sozinha, mas eu não tenho chance.
- Oh Merlim! – disse desesperado.
- Esses documentos são importantes para a Ordem e foi uma missão que Dumbledore me deixou. E se você não quiser eu... não sei o que eu vou fazer, mas eu vou pegar esse papéis.
- Vai me lançar uma Imperios?!
- Não, eu só vou fazer isso se você me trair, do contrário não te obrigarei a nada. Olhe não vai ser nada “a la louca”, viu? Com a sua ajuda eu pretendo traçar um plano de entrada, rotas de fuga e tudo mais para uma ação coordenada quase infalível.
- Quase?
- É, eu não posso garantir, mas eu posso afirmar que tenho várias habilidades especialmente para ocasiões como essa. E Dumbledore me ensinou a duelar junto com uma outra pessoa – que não vem ao caso agora – que é tão boa quanto ele.
- Dumbledore? Eu não me lembro de você em Hogwarts. – se espantou.
- Eu disse que Dumbledore foi meu professor, não que eu freqüentei Hogwarts. E continuando, não vai ter o primeiro lugar potencialmente perigoso que eu invado e eu nunca fui pega.
- Uau, como isso me conforta! – falou irônico.
- Será que te conforta saber que foi Dumbledore que indicou você? – falou encarando profundamente os olhos castanhos do rapaz a sua frente. – Ele achava que você conseguiria. – Ela tinha certeza que isso funcionaria.
- Sério? – perguntou desconfiado. – Dumbledore? Há quanto tempo você sabe que teria que pegar esses documentos? E por que Dumbledore não pegou quando estava vivo? Ou você quando seria mais fácil e o ministério não tivesse nas mãos de Você-Sabe-Quem?
- Sim, Dumbledore. Eu sei dessa invasão há uns três meses e eu e Dumbledore tínhamos coisas mais urgentes e de mais importância para fazer. E eu não esperava que o Ministério caísse tão rápido. Eu achei que Voldemort – Percy estremeceu ao ouvir esse nome – demoraria mais a tomar conta do mundo bruxo. Um erro, mas agora não tem mais volta. Todas as perguntas respondidas? Então: vai me ajudar ou não?
Percy ficou um tempo em silêncio enquanto olhava nos olhos de Sarah, completamente ao contrário do que deveria por essa conversa e pela personalidade da garota, sentia certa paz ao encará-los e sabia que se entrasse nesse plano maluco correria tudo bem. Sabia desde quando ouviu a proposta que não conseguiria dizer não para aqueles lindos olhos verdes. Só não sabia o porquê disso, mas devia ser pelo mesmo motivo de acreditar tão rápido e sem contestar numa completa estranha. E, ainda por cima, havia a chance de se reencontrar com a sua família e tentar fazer com que eles o perdoassem.
- Ok, Ok. Eu te ajudo!
- Ótimo! – falou ao mesmo tempo que fazia um gesto com a varinha, fazendo suas malas que estavam no bolso da capa voltarem ao tamanho normal e tirando de dentro de uma delas um pequeno papel dobrado e passando ao rapaz.
- Toma. É o endereço da Sede da Ordem da Fênix onde sua família está.
- Obrigado.
- Se você quiser amanhã mesmo você pode ir lá espiar para ter certeza.
- Eu acho que não. Vai ser difícil olhar e não poder falar com eles. E, eu não tenho a mínima idéia do porquê, mas... eu confio em você.
Sarah sorriu ao ouvir isso. Um sorriso que o rapaz tinha certeza que jamais esqueceria. Para ele um sorriso cheio de brilho e luz, o mais lindo que ele já tinha visto. Para ela um sorriso de alívio. As únicas pessoas de que se lembrava de ter falado ou se relacionado de alguma forma em sua vida eram, Voldemort e Snape, ou seja, as pessoas que a criaram e Dumbledore, que tinha sido seu professor em algumas coisas. Era bom conversar com outra pessoa como se ela fosse uma pessoa normal. Ela não aparentava, mas estava dez vezes mais nervosa do que Percy. Seu primeiro contato com o mundo exterior. E pelo jeito havia corrido tudo bem.
- Então, quando nós vamos invadir o Ministério?
- Como eu disse temos que traçar um plano primeiro, ou seja, assim que o terminarmos. Mas tem que ser antes de duas semanas.
- Ótimo.
- Ahn... tem uma outra coisa. Será que eu podia ficar aqui enquanto isso? – falou indicando as malas com a mão.
- Ahn... – respondeu meio desconcertado. – Claro.
- Obrigada. Como você acabou aqui?
- Bem, julguei que seria mais seguro ficar no mundo dos trouxas por enquanto. E... bem, enfeiticei o dono do apartamento para me deixar pagar no fim do mês e não adiantado como de costume – confessou timidamente.
- Sério? Parece bem o tipo de coisa que eu faria.
- Foi o único jeito que eu achei de não dormir na rua. – se justificou constrangido.
- E... eu estou com um pouco de fome.
- Eu também. Estou morrendo de fome. Com tudo que aconteceu hoje eu ainda não comi nada.
- É, eu também não.
- Só que eu não tenho nada aqui.
- Sabe nos estamos no mundo dos trouxas, então por que nós não comemos como trouxas. O que você acha de pedirmos uma pizza?
- Uma o quê? – estranhou.
- Pizza. É realmente gostoso.
- Tá, mas como?
- Ligando para a pizzaria. – falou tirando um celular de dentro da mala.
- O que é isso? – perguntou franzindo a testa.
- Um celular. Gosto de aparelhos trouxas e descobri um feitiço para eles funcionarem perto de magia.
- Meu pai vai amar isso. – murmurou admirado.
Sarah pediu uma pizza metade calabresa, metade quatro queijos que chegou em meia hora. Comeram enquanto ela explicava o que era pizza e coca-cola e como funcionava um celular. Ela nunca iria dizer ou deixar transparecer, mas estava realmente se divertindo e gostando de conversar com Percy. Preferiria fazer tudo sozinha e tinha certeza de que conseguiria com muito mais eficiência sem ter que se preocupar com a segurança do garoto, mas Dumbledore insistiu que ela o chamasse, sem lhe dizer o motivo.
Todas as coisas pelo qual passou nos seus dezenove anos de vida a levaram a construir uma muralha gigantesca em volta de si. Levaram-na a se tornar uma pessoa forte, corajosa; a tornar-se uma mulher inatingível. E a impediram de fazer com que confiasse em alguém por mais remotamente possível. Seu casulo havia se fechado desde seus quatro anos e ficado mais resistente a cada ano. Mas agora ela se via obrigada a conviver com as pessoas, a confiar. Teria que conviver e confiar em Percy e dentro de duas semanas com toda a Ordem da Fênix. E se dependesse dela faria mesmo tendo que mentir seu nome, seu passado, sua história. E se insistissem muito em saber seu passado ou não permitissem que ela ficasse na Sede ou participassem da Ordem por não saberem nada sobre ela, ela simplesmente sumiria do mapa e os ajudaria da maneira que os ajudava desde que tinha dez anos. Sem que ninguém soubesse ou percebesse. E como disse na carta que enviou a Sede. Só havia duas pessoas que a conheciam profundamente. Uma morreu e a outra é o assassino. Voldemort achava que ela havia morrido quando tinha quatro anos de idade. E ela queria que continuasse assim. Ninguém sabendo de sua real existência. Todos achando que ela é Sarah Blander.