Capítulo 19 – Desmascarado
“Eu sou uma pedra caindo num mundo de vidro
Eu sou uma bomba acionada com uma máscara sorridente”
World Of Glass – Tristania
Houve uma época onde só interessava para eles a raiva, o orgulho, a troca de acusações entre si. Era o egoísmo falando mais alto.
Ao mesmo tempo não sabiam que estavam imersos num outro mundo, presos em um jogo de tabuleiro silencioso, somente à espreita, fazendo-os acreditar que o problema jazia entre eles mesmos. Não deixava de ser verdade, claro, pois o jogo só poderia acontecer caso houvesse um mínimo de vontade própria, um leve desejo de auto-proteção e de machucar, e para isso era necessário que fossem cegados em algum momento.
Eles usavam máscaras para tentarem se salvar quando, no fundo, o que só faziam mesmo eram afundar mais, cair ainda mais nas armadilhas desse mundo de vidro, da redoma onde estavam confinados.
Mas a desvantagem do vidro é que ele é frágil, e as personagens envolvidas eram que nem bombas-relógio, imprevisíveis, incoerentes e até mesmo irracionais.
E aí...
Aí tudo veio abaixo quando ninguém esperava.
×××
Um raio vermelho e flamejante passou pelo quarto rapidamente, quebrando a calmaria do ambiente, e entrou no closet, revirando-o.
- Eu pus por aqui... Tirei antes para não me atrapalhar agora... Mas, bem, considerando a situação em que estou, pelo visto não adiantou nada. – bufava e resmungava enquanto lutava para impedir que a toalha escorregasse de seu corpo com a mão esquerda.
Ouviu-se uma gargalhada. Veio de um homem que saía do aposento anexo. Ele deu dois passos tranquilamente para dentro do quarto, outra toalha amarrada em sua cintura, algumas gotas de água ainda rolando por seu torso. Ainda manteve um sorriso quando o furacão vermelho interrompeu sua procura e virou-se de súbito, dardejando-o com o olhar.
- O que é tão engraçado?
- Você. – respondeu simplesmente dando de ombros e olhando-a. – Toda desesperada aí.
- Oras, porque estamos atrasados! – ela bufou e revirou os olhos.
- Ah, ruiva, não estamos indo pegar um trem, o negócio não vai sair do lugar, então se atrasar não é tão ruim assim.
Com um porte tranquilo e despreocupado, ele andou até o closet, pegou uma embalagem de plástico pendurada na parede, que continha um terno e gravata, depois voltou até o centro do quarto. Ela só o observava, uma leve faísca ainda brilhando em seus olhos.
- Não é tão ruim? Não é tão ruim?! – repetia, a incredulidade mascarada pela irritação e pelo tom rabugento, o que contrastava com suas feições angelicais. – Lewis! Você conhece aquele lugar, ainda mais hoje! É o baile do aniversário do colégio, então gente de todas as gerações de Hogwarts vão brotar de todos os lugares e encher aquele troço. E devo mencionar que o estacionamento da escola não suporta tanto movimento assim? Aí teremos que estacionar do lado de fora, longe de tudo, e vamos ter que andar milhares de quilômetros! Para você pode ser a coisa mais fácil do mundo, mas eu estarei de salto agulha!
Ela parou próxima a ele enquanto falava e jogou duas coisas sobre a cama. A primeira era uma embalagem parecida com a que ele pegara. Dentro dele encontrava-se um belo vestido vermelho longo, de tecido macio, com uma facha que envolvia o pescoço e cujas extremidades encontravam-se presas uma de cada lado, próximo ao busto. Havia um amontoado de pano que formava uma prega do lado esquerdo, na altura da cintura, abrindo uma leve fenda entre as pernas. A segunda era um par de sapatos pretos de salto alto, do tipo scarpin, com uma ligeira abertura na frente e duas grandes flores da mesma cor presas em cima.
- Ah sim, ainda temos que arrumar os lençóis. – Lewis comentou como se falasse do tempo, embora fitasse a cama.
- Não, não vamos porque não temos tempo. E é tudo culpa sua! – ela virou-se para ele bruscamente e apontando para seu peito. Quase perdeu o fôlego com a visão da pele masculina ali à sua frente, o tronco esguio e firme; não era musculoso, mas definido na medida certa e que ainda sim era atraente.
Seria a segunda vez em poucas horas. Mas, sabe-se lá como, se conteve. Foi justamente por causa daquela visão maravilhosa que se encontrava naquele estado, tanto de aparência quanto de tempo – da visão e do contato daquela pele sedosa contra seu corpo.
Lewis apenas manteve um pequeno sorriso no canto dos lábios ao vê-la ficar novamente perder o fio da meada com ele seminu.
- Minha, é Ginny Weasley? – ele alargou a boca, conferindo um ar sedutor ao sorriso e deu dois passos na direção dela. Segurou-a com firmeza pela cintura para impedi-la de se afastar. – Não me lembro de você ter reclamado antes quando estávamos debaixo do chuveiro. – murmurou ao pé do ouvido dela, os lábios propositalmente tão próximos que roçavam na pele dela. Lewis podia senti-la arrepiar-se só com aquele toque.
Ele a puxou para perto, prendendo-a num abraço, enquanto a boca encontrava o pescoço dela. Uma de suas mãos saiu da cintura e deslizava por toda a silhueta da ruiva por cima da toalha, contornando as curvas delicadamente, atenciosamente; demorou-se nas coxas porque havia pouco tempo que descobrira que aquele era seu ponto fraco e ainda queria aproveitar-se da situação.
Ginny fechou os olhos e apertou-os com força. Já se sentia prestes a entrar em combustão, a poucos passos de um precipício de delírio, sonho e paixão arrebatadora que aquele homem conseguia lhe lançar. A lucidez ameaçava fugir, tentando-a a abandonar a deixar-se ser levada por um torpor passional. Lewis lhe fazia querer e imaginar coisas que ela nem tinha ideia de que podia, precisava ou quisesse, desejasse muito.
- Seu grande imbecil. – gemeu com a voz entrecortada, clara reação ao que ele lhe fazia. Batalhava contra a onda calorosa e pulsante e a vontade de suspirar e reiniciar mais um momento de amor com ele. – Eu não vou cair no seu charme. Não agora. Temos que ir para festa, lembra?
Lewis afastou os lábios e fitou seu rosto. Parecia tranquilo, sereno, como se a corrente elétrica que os percorria fosse perfeitamente aceitável e sobre a qual ele tinha pleno controle. Ginny quis bufar. Aquelas loucas explosões só aconteciam com ela?
- Eu sei. E a ideia de comer e beber de graça e rever a antiga gangue não é em nada ruim. – ele puxou-a novamente e beijou-a longamente nos lábios. – Aliás, você não disse que estávamos atrasados? – murmurou a milímetros de distância.
Ginny pulou de súbito e saiu do abraço, confusa, o efeito dele ainda em si, e aterrorizada pelo atraso. Olhou ao redor, pegou as roupas dele e jogou-as em seu colo.
- Você vai se trocar no banheiro. Não quero nem saber. Não vou mais cair nos seus joguinhos de sedução baratos.
Ele soltou uma gargalhada alta enquanto voltava para o aposento onde estivera minutos atrás.
- Só diz que são baratos porque cai neles com uma facilidade incrível...
- Banheiro! Agora!
- Pergunto-me se estão olhando para você, totalmente de tirar o fôlego, por ser você, para o seu vestido nada discreto ou a combinação toda, tipo... O vestido vermelho da garota do cabelo vermelho. – Lewis sussurrava em seu ouvido.
Ela riu baixinho.
Os dois já se encontravam nos terrenos do Instituto e rumavam pelo gramado em direção aos grandes prédios de pedra, para o aglomerado, ali no jardim mesmo, que consistia na região da festa. Tinham arranjado uma vaga para estacionar sem tamanhas dificuldades, o que gerou mais uma onda de provocações amistosas antes de saírem do carro.
- Acho que estão olhando por sermos nós... Mas acho que principalmente do jeito que você está me segurando.
Ela olhou par baixo, para a mão dele que aparecia segurando o lado esquerdo de sua cintura. Lewis puxara-a para perto assim que saíram do carro, envolvendo-a, e agora andavam meio que abraçados.
- Não sabia que tinha decidido tornar a nossa situação pública. – disse tranquila.
Os olhos de Lewis se arregalaram e sua boca abriu-se em surpresa. Ele foi totalmente pego de guarda baixa pelas palavras.
- Eu? Ah... Bem... É que...
- Ah relaxa. – ela abriu um sorriso doce, encostando os dedos com carinho o vale entre o pescoço e o ombro dele e acariciando ali. – Eu realmente não me importo.
Chegaram à festa. Ginny vasculhou o local com o olhar e logo reconheceu seu grupo de amigas, que vez ou outra lançavam olhares furtivos a eles dois.
- Acho que é a hora do Clube das Garotas. – ele disse olhando as meninas.
- Ah não precisa ser agora. Acabamos de chegar.
- Vai lá, ruiva. Não tem problema algum. – Lewis abriu um sorriso caloroso. – A gente se encontra depois. Vou ver se encontro Mestre Malfoy e o resto da gangue.
Ela devolveu o sorriso e deu um beijo nele antes de se soltarem e se afastarem.
Ginny poderia fotografar as expressões nos rostos de suas amigas quando se aproximou delas.
- Você nos deve umas explicações, senhorita! – Parvati exclamou recuperando-se do susto. O azul-petróleo de seu vestido realçava sua pele morena. Era de um ombro só, com um amontoado de pedrinhas no ombro e no lado direito, logo abaixo do busto, de onde o pano se desdobrava até abrir uma grande fenda na perna direita. Escandaloso e provocante, bem a cara dela mesmo.
- E como! Temos todo o tempo do mundo! – Lavender balançava com a cabeça. Seguindo o estilo da melhor amiga, usava um vestido chamativo, um branco com um enorme decote, a parte de cima incrustada de pedrinhas e a saia que revelava uma abertura entre as pernas presa por um broche.
- Ah, meninas, para quê o tom irritado? Eu devia ter esperado por isso, afinal, a última vez que consultei o horóscopo dela, os sinais estavam bem claros. – Luna disse etérea e alegre. Parecia uma fada com seu vestido verde, cheio de detalhes delicados.
- Horóscopo ou não, devia ter contado para gente. – Parvati bufou e cruzou os braços.
- Então quer dizer que a estação do amor pegou para valer é? – Alyssa falou sorrindo. O vestido preto de design simples, mas elegante, combinava com sua cascata de cabelos e contrastava com sua pele branca. – Agora foi você. Antes foi a Mione aqui contando para gente que ela voltou ao normal com o Nick.
Hermione sorriu acanhada e deu de ombros, embora seu rosto demonstrasse o quanto estava aliviada e feliz por ter se acertado com o noivo. Ginny reparou nela e como ela estava incrível no vestido cinza sem alças, com várias pedrinhas distribuídas em duas faixas, uma que cruzava o busto e outra na altura da cintura.
- Mas é claro! Depois do jantar incrível e do passeio de barco que ele armou para mim... – suspirou e depois se virou para a ruiva. – Então quer dizer que você e Lewis estão namorando é? – perguntou.
Ginny corou. Por algum motivo, não conseguia rotular Lewis como seu namorado. Ela simplesmente não ia com a cara de rótulos.
- É... Mais ou menos isso. – respondeu baixando o olhar para os pés.
- Então quer dizer que aquele encontro que você teve com ele um dia desses aí e que você me falou era um encontro mesmo? Tipo, encontro, encontro? – Lavender disse com uma malícia no olhar. Hermione lançou-lhe um olhar de esguelha, provavelmente pensando que nada do que ela falou tinha nexo.
- Ah, agora eu entendi porque ela chegou meio derrotada dias atrás, na prova de vestidos. – disse Alyssa marotamente, fazendo Ginny corar mais.
- A ruiva tá ficando vermelha, ai meu Deus! – Luna gritou, e as amigas riram.
- Mais ainda, não é? Afinal, ela tá toda de vermelho!
- Não, ela já é toda vermelha!
- Calem a boca todas vocês!
- Isso aqui é um inferno. – resmungou mexendo no colarinho da roupa, tentando achar algum jeito para se sentir menos desconfortável dentro daquilo.
Ouviu um muxoxo impaciente ao seu lado.
- É a milésima vez que você diz isso em quarenta minutos. Já entendi. Dá para parar com a ladainha? Senão eu vou apertar essa sua gravata tanto, tanto que você implorará por ar como ninguém jamais fez na vida.
Retirou as mãos da roupa e fitou de esguelha a mulher ao seu lado, dando mais uma olhada discreta nela. Ergueu uma das sobrancelhas.
- Acho que não, Dels. Acho que quem irá implorar será quem te ver assim. – e indicou o traje que ela usava com a cabeça.
Delinda baixou o olhar para si mesma.
- E por quê? Por causa do meu vestido?
A inocente surpresa no tom dela o fez bufar e revirar os olhos e liberou mais um pouco da irritação que já sentia devido aos insuportáveis terno e gravata que usava. Já desgostava imensamente deles em dias normais, porém conseguia achar uma ira ainda maior quando se via obrigado a ir a eventos em que o traje formal era obrigatório.
Duas obrigações de uma só tacada. Harry detestava obrigações, ainda mais aquelas sem sentido em seu ponto de vista.
Por isso, quando chegou à residência de Delinda para pegá-la, cumprimentou-a logo com um “Bom dia” seguido de um “Esta droga está me pinicando”. Na hora, ela apenas riu, pôs uma das mãos no peito dele, alisando o tecido negro do terno, disse “Você está um gato, irmãozinho” e também apontou que a gravata verde-esmeralda fazia uma combinação bem charmosa com seus olhos.
Até que ele viu o que ela usava. E aí suas reclamações e seu mau humor dissiparam-se quase automaticamente.
O traje era demais. Decotado demais. Justo demais. Todo demais. O vestido era longo, de malha preta com pedrinhas prateadas, cujo tecido se abria cedo demais, revelando boa parte do colo, e se encontrava atrás do pescoço. Ela também usava os brincos de ouro branco com pedras de ônix penduradas e a bolsa de festa preta que ele trouxera para ela de suas viagens.
Tudo bem, ele não podia esconder que ela estava linda, mas não queria que ela andasse daquele jeito, tão ousada, tão perigosamente atraente.
Mas já deveria ter esperado. Estava lidando com Delinda Potter.
Não disse nada no momento em que a viu, pois sabia que iria partir para cima dele. Porém não conseguia mais se segurar, ainda mais que agora estarem ao local do evento, andando no gramado rumo à festa e já detectara alguns olhares descarados e cobiçosos para cima dela, irritando-o ainda mais.
- Não. Por causa dos seus lindos olhos. – respondeu ironicamente, rangendo os dentes.
Ela o olhou por longos segundos, enfim compreendendo seu comportamento.
- Aaaaw, que coisa mais linda, você com ciúmes de mim! – exclamou com um enorme sorriso e o abraçou de lado.
Aquela era Delinda. Ora tão enraivecida que parece que irá incendiar o mundo todo com o olhar, no segundo seguinte agindo carinhosamente e rindo alegre. Uma contradição ambulante.
Mas era a contradição favorita e a mais querida de Harry. E por isso mesmo sentia espasmos de quebrar cada expressão de cada cafajeste que se atrevia a olhá-la com intenções infames.
E por isso também Harry não via que ele mesmo vinha agindo como um cafajeste ultimamente.
Incrível como o cenário muda de modo tão repentino quando há alguém com quem você se importa no meio.
- Seu bobo. Não se preocupa, eu sei lidar com babacas que se acham espertalhões. Mas se alguém ficar insistindo, eu deixarei você usar a força bruta. – e, segurando-o pelo queixo, estalou-lhe um beijo na bochecha. Ele fez uma careta e se encolheu.
- Eca! Isso é muito estranho. Você dando demonstrações de afeto... Ainda mais em público!
- Eu nunca vou entender vocês. Já se acostumaram tanto a implicarem um com o outro que não suportam quando algum age com carinho.
Os dois pararam e olharam para o lado para a nova voz. Aaron Granger vinha caminhando na direção deles.
- Hey! – Delinda exclamou amigavelmente. – Quanto tempo não te vejo.
Aaron devolveu o sorriso caloroso que ela dava, seus olhos percorrendo de baixo para cima a silhueta da mulher, reparando no vestido. Harry não deveria ter se importado tanto assim, afinal, ele não era o primeiro que olhava.
Aaron, nos tempos de colégio, tinha uma queda secreta por Delinda, algo que lhe foi confidenciado por Hermione com base nas observações dela. Não era de se espantar; praticamente todos seus amigos, em algum momento, andavam com ele somente na esperança de se aproximarem de Delinda. Ela, ao contrário de Harry, era extremamente popular e gostava da atenção, do fato de ser desejada, porém incrivelmente não se tornou mesquinha como a maioria dos alunos com esse status – mais um ponto que contava a seu favor e a tornava ainda mais querida. Delinda era cativante, extrovertida, carismática e... pelo menos na opinião de Harry... marota e tóxica. A princípio, ninguém acreditou que ele era irmã dela devido às personalidades tão diferentes.
E o fato de as características de Delinda terem apenas sido otimizadas na idade adulta contribuía em grande parte por causa dos olhares.
Iria se irritar ainda mais se ficasse muito perto dela.
- Eu sei, não é. Mas eu que sou o sumido aqui, devido ao meu trabalho maluco. Bom ver que chegaram, seus pais estavam começando a pensar que não apareceriam. – Aaron dizia com sua personalidade tranquila.
- Nossos pais já estão aqui? – Delinda perguntou.
- Sim.
- Então acho que é melhor dar as caras para eles antes de fazermos qualquer coisa.
- Beleza. Eles estão para lá. – o Granger mais novo apontou. – Eu já vou me retirar pois já tive minha quota com os chefões de lá. – e, rindo, afastou-se.
- Nossa, fazia um tempão mesmo que a gente não o via. – Delinda disse depois que eles voltaram a andar. – Ele é tão divertido, não é?
- É. Muito divertido.
Ela o olhou de esguelha e desprendeu uma das mãos dos braços dele para socá-lo no ombro.
- Deixe de ser um babaca sarcástico, seu cretino. – tornou a abraçá-lo. – Só porque ele é irmão d’aquela-que-não-deve-ser-nomeada não significa que ele merece o seu rancor. Agora, segura aí que antes de falarmos com nossos pais irei ao banheiro.
A advogada os fez parar de novo e soltou-se dele, entrando na porta mais próxima deles, sobre a qual havia uma placa indicando ser o toalete feminino.
Harry bufou, pois sabia que a irmã iria demorar, sempre demorava, e afastou-se alguns passos, recostando-se a uma mureta.
Poucos minutos se passaram até que a porta se abriu. Ele ergueu o olhar, assim como a mulher que saía. Mas o sincronismo delicado – um que achara não existir mais por não lhe importar mais – envolvido naquele simples gesto lhe mostrou que não se tratava Delinda.
Era Hermione.
Não era com o vestido da irmã com o que ele iria se estressar naquele dia.
As reações foram rápidas, automáticas e incontroláveis.
Logo que se deparou com Harry, vieram flashes da vez em que se encontraram na gravadora, a lembrança das palavras dele antes de ir embora ganhando foco. No entanto, o que mais se fixou em sua mente, quase ardendo como brasa, foi a última aventura dele – pelo menos até onde sabia – com sua amiga Parvati.
Os pensamentos combinados, em especial o último, injetaram em suas veias uma raiva forte e incompreensível.
- Olá Hermione. Que surpresa agradável. – ele deu um sorriso.
- Pode guardar esse seu sorrisinho para aqueles que se importam. – retorquiu.
Os olhos de Harry discretamente olharam de cima a baixo, e ela notou. Só não conseguiu explicar por que se sentiu... estranha com isso e por que perdeu o fio do raciocínio, muito menos o que se passou no rosto dele após admirá-la.
O que quer que tenha acontecido, durou apenas frações de segundo.
- Sabe, você costumava ser um daqueles que se importavam. – ele disse mantendo o canto dos lábios curvado, o que irritou ainda mais Hermione, principalmente por ela não conseguir deixar de reparar no maldito sorriso.
- É, e olhe só o que aconteceu. – Hermione falou num tom acusatório.
- Espere... Está dizendo que a culpa é minha? – Harry ergueu uma sobrancelha.
Ela bufou com a pergunta. A cada segundo, sua irritação aumentava lentamente, e as memórias continuavam a dançar em seu cérebro num círculo vicioso.
- Não me lembro de ter de fato dito isso com todas as palavras, mas tenho certeza que deixei bem claro... Afinal, foi você mesmo que se enfiou nessa situação. – disse com azedume. – Mas acho que nada disso tenha sido um problema para você, com esse seu novo estilo de vida da qual tenho ouvido falar... Ainda mais envolvendo minhas amigas!
- E o que tem elas? – agora Harry abandonou a descontração e se tornou mais agressivo. – Elas são suas propriedades, é? Era para eu ter me afastado delas quando você decidiu acabar tudo entre nós, é? Além do mais, Parvati é uma mulher adulta, ela faz o que ela bem quiser.
Bastou ouvir o nome da amiga para que subitamente os pensamentos que giravam dentro de Hermione fossem reduzidos a pó e um outro visse, um que ela tratou de afastar de em sua mente, bloqueando-o e trancando-o o mais fundo e distante possível.
Mas não dava para se esconder dele para sempre. Ainda mais quando tinha sido, e ainda era, algo tão impactante.
“... Dando valor ao Harry que ele merece, algo que ele não obteve de você!... Depois de tanto tempo de devoção a você... Por Deus, Hermione, as respostas... você cantou elas durante meses!”. As palavras ecoaram alto, dando a impressão de que a dona delas estava ali ao seu lado.
Harry. Seu melhor amigo. Aquele homem a sua frente agora. Apaixonado por ela. Como poderia?!
A expressão desdenhosa que ostentava dissipou-se. Harry franziu o cenho, curioso com a mudança repentina, mas ela nem notou; estava ocupada demais vasculhando os olhos verdes dele.
Os olhos dele. A fonte e os espelhos da alma dele. O meio de comunicação mais puro e sincero que ela já teve com alguém em toda sua vida. Não conseguia ver nenhum rastro de seu melhor amigo, apenas frieza, escárnio, malícia e...
Opacidade? Sim, era isso. Não havia mais o brilho de esmeraldas que ela conhecia. Parecia que aquela sombra era um resquício de algo que ele desesperadamente queria esquecer, mas, por ser tão forte e onipresente, não conseguiu, e o poder para fazer isso se encontrasse além de sua capacidade. Era como se ele nem quisesse que seus olhos revelassem algo tão pessoal e profundo.
E, ao mesmo tempo, fosse uma prova de que o antigo eu dele estivesse lá, embora ele tivesse batalhado para esconder dele... e mudar a si mesmo, sua essência, seu ser, tornando-o um forasteiro para seus conhecidos.
“Você não queria tanto saber o que incomodou Harry a ponto de fazê-lo mudar?... Era justamente o fato de ele estar tão apaixonado por você, ter escrito tantas músicas do Paradise para você...”
Mas como, ela se perguntava, seu melhor amigo poderia ter se apaixonado por ela? Como poderia ser verdade se ele vinha tratando-a com tanto desprezo?
Como poderia ter se envolvido com uma de suas grandes amigas se clamasse tanto amor? – Claramente ela não sabia o que era estar na pele de alguém não correspondido...
E por que era justamente com isso que ela se importava? Harry estava certo, Parvati era dona de seu rumo, assim ele do seu.
- Mas como você pôde ter feito isso com Parvati? – Hermione se encontrou verbalizando frações de segundos depois, ainda meio afetada pela corrente mental.
Ela só não percebera que a tal corrente mental não tivera lógica nenhuma, o racionalismo que ela tanto prezava...
Até porque a forte náusea trazida pela mesma eclipsou boa parte de suas observações.
- Como pôde ter isso se você... se você...
- Se você... – Harry repetiu, continuando a estranhar o comportamento e os olhos castanhos arregalados.
Se você está apaixonado por mim, seu cérebro concluiu antes que pudesse conter. Supostamente, adicionou para livrar a culpa. Mas o que diabos, Hermione?
- Sabe o quão irracional está agindo? – Harry disse, perdendo já a paciência com o humor da ex-amiga. – E daí? Eu e Parvati somos adultos, não cometemos nenhum crime. Você está fazendo isso soar como um adultério. Oh, punam-me, sou um herege! – ele exclamou teatralmente, o escárnio tornando a escorrer pelas sílabas. – Nós só nos beijamos, eu nem dormir com ela! Era isso que você queria ouvir? Para ver se eu tinha violado a integridade da sua querida amiguinha? Bem, se isso há de acontecer, será pelo seu jeito, não meu! Adeus, Hermione. – e, sem dizer mais nada, saiu marchando para longe.
Hermione, por outro lado, ficou estática, até que a náusea, só ficando mais forte, a fez retornar ao banheiro. A confusão não lhe abandonou.
E era apenas o começo.
Trovejando e com os olhos faiscando a ponto de praticamente lançarem dardos pontiagudos, Harry quase atropelou um garçom ao pegar uma taça de champanhe. Com o objeto preso apenas nas pontas dos dedos, de modo firme e que ao mesmo tempo parecia desleixado – uma habilidade desenvolvida ao longo de suas constantes saídas noturnas –, ele saiu andando para um canto do local, tampouco ligando para que os outros diriam ao vê-lo isolado.
Um vulcão dentro dele explodiu e uma corrente de coisas lhe percorriam por dentro. Irritação pela conversa de Hermione, pela ausência de Delinda, por ela tê-lo abandonado à mercê da cantora, por se sentir isolado ali, sua confusão pela própria confusão dela, raiva de si mesmo por perceber que ainda havia uma centelha de sentimento por ela, por ter reparado no quão deslumbrante ela estava. Era uma loucura.
Pôs-se a observar os outros convidados, todos felizes por estarem naquele colégio secular e que marcara suas vidas de um jeito especial. Soltou um grunhido, pensando que deveria estar daquele jeito, pois Hogwarts foi durante sete anos seu segundo lar, mas as pessoas que compartilhavam suas lembranças dali vinham perseguindo-lhe, fantasmas que tinham prazer em provocá-lo por mais que tentasse afastá-los.
Ele apoiou a taça numa mureta de pedra ao lado. Desabotoou a parte de cima da camisa social e afrouxou a grava de modo brusco, que mostrava sua irritação. Não agüentava mais o terno lhe sufocando, dando um aspecto mais realista ao que lhe acontecia figurativamente.
- Tanto tempo sem vê-lo. – ouviu minutos depois. – Não esperava encontrá-lo assim.
Harry virou para o lado, na direção da voz. Viu um homem mais ou menos de sua altura, cabelos loiro escuro, uma barba curta da mesma cor. As rugas no rosto, a expressão cansada e as roupas um tanto quanto antiquadas o faziam parecer mais velho do que de fato era.
Nada mudou muito desde a última vez que vira Remus Lupin, um dos melhores amigos de seu pai. Ele e James conheciam-se desde quando estudaram juntos ali mesmo, por isso aquele homem estivera constantemente durante o passar da vida de Harry.
- Remus, que bom vê-lo. – disse erguendo a bebida como um brinde antes de se virar para frente.
- Não parece, a julgar pela expressão com que olha os outros como se quisesse congelá-los apenas com o olhar.
Harry conteve mais um grunhido ao engolir uma boa dose de líquido. A irritação, que havia sumido ao longo dos minutos, voltou um pouco.
Lupin não o via por meses e ainda queria lhe tirar do sério? Ainda mais usando seu típico tom de calma que chegava a incomodar.
- Engano seu. – disse em voz baixa, o copo ainda bem próximo a seu rosto, os lábios a centímetros do vidro.
- Tem certeza? Pois o conheço há vários anos para afirmar que nunca o vi com um semblante tão fechado e frio.
E eu nunca o vi tão irritantemente calmo, sua mente revoltada disparou, e Harry calou-se mais uma vez com o álcool.
- Está vendo coisas, Remus.
- Claro que estou. – Lupin contrapôs veemente. – E nostalgia por estar aqui não é uma delas.
Antes que pudesse responder, no entanto, a cena que se desdobrou a frente de Harry, naquele momento, chamou sua atenção.
Viu seus pais de braços dados descendo as escadas de um dos prédios. A vários metros de distância, o olhar de Severus Snape se ergueu e recaiu sobre o casal. Fitou-o por longos segundos, algumas emoções cruzando o rosto macilento de modo tão sutil que Harry não conseguiu identificar qualquer uma delas. Subitamente, o professor rompeu o contato e virou-se para um grupo de alunos agitados que passava a seu lado e passou um sermão deles.
O olhar de Remus também contemplou a cena.
- Aliás, estou vendo tantas coisas em você, Harry, que seria capaz de aliá-las a um mesmo comportamento em outro alguém.
Dessa vez, o tom do homem chamou a atenção de Harry por algum motivo. Intrigado, ele franziu o cenho e lançou um olhar de esguelha ao amigo de seu pai, e notou-o focalizando seu ex-professor mais do que deveria. Seu corpo disparou um alerta de mau pressentimento.
- Ainda acho que está divagando, Remus. – falou, tornando a olhar para frente.
E aí seus olhos recaíram sobre um vestido prateado conhecido. Hermione cruzava os jardins na direção de um grupo formado por suas amigas e pelo noivo. Ela riu de algo que Alyssa disse sobre o casal, Lavender suspirando por eles, e depois se virou para Nicholas, beijando-o levemente nos lábios, sorrindo alegre e apaixonada. Harry sentiu uma leve agitação no estômago que fazia um bom tempo que não lhe vinha.
- Oh, então quer dizer que estou divagando ao apontar que sua expressão se contorceu ao ver Hermione e o noivo do mesmo jeito que observamos há pouco? – Lupin falou, tendo claramente acompanhando seu movimento de novo.
Harry lançou mais um olhar de viés ao antigo Maroto.
- Mesma história, personagens diferentes na aparência, mas no fundo nem tanto assim... – Lupin disse baixo, mais para si mesmo do que para o músico, enquanto ainda fitava Snape. – Não sei se você sabe, mas Severus tinha uma grande paixão por sua mãe. Só que ele nunca disse nada para ela, embora os sentimentos estivessem estampados em seu rosto, e manteve silêncio durante um longo tempo. Mas o amor, sendo uma força tão grande e poderosa como é, não pode simplesmente ficar preso no peito; ele começa se rebelar e a implorar para sair. Por isso, pode se tornar numa arma perigosa, num veneno.
“E aí James apareceu e conquistou Lily Evans em alto e bom som, a plenos pulmões. Snape, por outro lado, tentou enterrar ainda mais seus sentimentos e acabou por transparecer essa personalidade fechada, fria, brusca e irônica. Ele afastou-se dos amigos, isolou-se, mantendo tudo para si mesmo enquanto observava o mundo girar tranquilamente. Conhece alguém assim, Harry?”
O olhar compenetrado que Harry sentiu fez um leve rosnado sair de seus lábios, a prova física das perturbações internas que apertavam seu peito cada vez mais forte a cada palavra de Lupin.
Mas já foi provado antes que batalhar contra a verdade era dificílimo, ainda mais quando ela vinha a ele tão clara e límpida nas entrelinhas, ativando um instinto adormecido lá no fundo de seu íntimo.
- Então você acha que estou agindo como Snape? – disse, um tom irônico escapando, o que já era característica de sua voz.
Ainda sim, havia seu orgulho próprio para zelar, que rejeitava essa conclusão e a considerava banal, mirabolante.
- Não. Você é Snape.
O mais jovem não respondeu de imediato.
- Do mesmo jeito que ele agiu com Lily, você está agindo com Hermione.
- Ah, então meu pai é Nicholas? – o guitarrista contrapôs ainda zombeteiro e sem conter a língua afiada. – Por favor, Remus, meu pai é um homem decente!
- E por acaso Nicholas não é? – Lupin lançou um olhar engraçado ao filho de seu melhor amigo. – Snape costumava dizer o mesmo sobre James, indo contra o que o resto do mundo pensava. No fundo, o único argumento que vocês têm contra as índoles deles é o fato de terem tido a coragem que não tiveram e agora têm as mulheres que vocês amam.
Mais um aperto no peito. Teria sido muito mais fácil se Lupin dissesse na cara dura que se tratava de ciúmes.
- Porém, no seu caso, você pode fazer algo a respeito. – o ex-Maroto continuava a falar.
Harry franziu o cenho e virou-se para o homem.
- Você queria que Snape tivesse feito algo? – Aí eu não existiria! Isso é... doentio!, um lado afetado de sua mente exclamou.
- Só estou falando porque não quero que a história se repita. É deprimente assisti-la tão perto.
- Obrigado. – o moreno ironizou bebendo mais champanhe.
- O interessante é que você meio que está levando a sério o que digo mesmo com a quota de sarcasmo. – Lupin observou, sua tranquilidade - ou quem sabe a verdade contida - tornando a irritar Harry.
- Até parece. – ele soltou um muxoxo de desaprovação e revirou os olhos. – Com você colocando meu pai como o vilão da história...
- Você é quem está fazendo isso. – Lupin interrompeu. – Só porque é assim que vê Nicholas.
- Mas Nicholas não-
- Como você pode saber? – outra interrupção mais dura. – Você não tem como! Além do mais, veja seus próprios pais. Acha que eles não estariam casados há tanto tempo se James realmente não a amasse?
- Não estou falando de meu pai, Remus! – Harry não estava mais aguentando ficar ali de tanta raiva que as palavras calmas do outro contraditoriamente lhe traziam.
Lupin fitou-o com mais atenção.
- Está se confundindo nas próprias palavras, Harry. – disse num tom mais paternal. – Você também não se rebelou quando eu disse sobre seus sentimentos por Hermione. E isso só mostra o quanto quer a todo custo rejeitar o que digo quando sua essência aí dentro já aceitou a verdade.
O músico abriu a boca para rebater, mas desistiu ao sentir algo dentro de si quebrar como metade de uma parede de vidro. Fechou os olhos e conteve um suspiro ao se dar conta de que os cacos faziam parte de sua rejeição e aceitou o que Lupin dizia. Era como se o mundo em que ultimamente vivia se revelasse frágil e parte dele despencasse.
Mas Snape? Justo ele? O professor que mais odiou no mundo?
Por outro lado, agora era possível compreender o comportamento do homem...
Lupin estava certo. Ele se via diferente de Snape, mas, no fundo, não era tanto assim. Achava-se dentro de uma pele quando, na verdade, estava disfarçado em outra bem diferente.
- Você está agindo igual a Severus. E isso é péssimo, porque é um caminho enganador e infeliz, onde há volta, e ela é clara, mas bem, bem difícil. Não creio que com você vai acontecer o mesmo que houve com ele porque você é mais forte que isso, Harry, você não é quem eu vejo agora. Não deixe essa raiva, essa frieza dominarem você. Pode achar que é um mecanismo de auto-proteção, mas isso só vai te causar mais dor, mesmo que não tenha noção dela. Isso não vai salvar você, pelo contrário, só vai destruí-lo e afastar ainda mais todos a seu redor. Já deu para ter uma prova disso com o Paradise, não é?
Harry continuou em silêncio, incapaz de falar, o discurso lhe perturbando mais do que deveria.
- Você ainda tem tempo de mudar.
Dias depois, Harry encontrava dificuldades para estacionar na frente da casa de seus pais devido aos carros parados na calçada. Estranhou levemente; era para ser apenas um jantar em família. Essa sensação só ficou mais aguçada quando tocou a campainha e ouviu vozes agitadas e risadas vindas lá de dentro, o que explicou a demora em porta.
Lily surgiu no batente falando algo para alguém atrás de si e ainda bem distraída.
- Oi querido. – sorriu ao vê-lo. – Que bom que veio. Já estava me perguntando quando você iria aparecer.
Ele franziu de leve o cenho enquanto a mulher o abraçava, pois estava dentro da hora combinada, talvez mais cedo até.
- É bom também vê-la, mãe. – eles se soltaram e encaminharam-se para a sala de estar. – Vejo que as coisas estão meio agitadas por aqui. Visita de amigos?
- Bem... – o tom vacilante de Lily aumentou ainda mais a sensação desconhecida dentro dele, que foi respondida, na forma de um pleno susto, ao ver na sala, além de seu pai e sua irmã, os Granger acompanhados Aaron, Hermione e Nicholas.
Harry tentou disfarçar a surpresa o máximo que pôde para não causar um desconforto no ambiente, porém, por algumas frações de segundo, uma levíssima tensão cruzou as faces dos presentes, até porque todos eles sabiam da situação do Paradise.
- Olá Harry! – Jane o cumprimentou, sendo acompanhada por um sorriso caloroso do marido e acenos de cabeça de Nicholas e Hermione puramente por educação. – Viu, Lily? – ela virou-se para a amiga. – Disse a você que aparecemos numa hora infortuna. Você está aqui, numa reunião completamente familiar e descontraída com seus filhos e nós aparecemos para atrapalhar.
- De forma alguma, Jane, já lhes dissemos isso. – James interferiu, dando um passo para frente. – Vocês tiveram todo o trabalho de vir aqui e entregar pessoalmente o convite do casamento, cheios de gentileza, e nós estamos retribuindo com o jantar. Além do mais, nos conhecemos há tanto tempo que vocês praticamente são da família. – e riu com o jeito descontraído e divertido que lhe era característico.
O coração de Harry apertou de leve dentro do peito, totalmente contra sua vontade, o segundo choque da noite lhe atingindo. Convite?
Mas a resposta veio com sua mãe.
- É verdade. – Lily afirmou, dando alguns passos na direção dos visitantes com um grande envelope cor de marfim em uma das mãos que seu filho não sabia dizer de onde veio. – E ele veio até personalizado no nome da nossa família! Desistam, não há nada nesse mundo que irá nos fazer mudar de ideia quanto ao jantar. Aliás, vai ser uma ótima oportunidade para conversarmos e nos divertir quando um evento tão importante está chegando. – a médica apontou para os noivos. Hermione abriu um sorriso suave, meio encabulado, e abraçou Nicholas de lado.
- Tudo bem. Tudo bem. – John Granger disse num tom de rendição.
- É, mas logo depois iremos embora, deixando vocês dois com Harry e Delinda, afinal, não queremos acabar totalmente com o momento família de vocês. – Jane emendou, olhando periodicamente para os irmãos Potter.
Minutos depois, todos se acomodaram nos assentos da sala. Harry ficou ao lado da irmã num dos sofás, opostamente e o mais distante possível da cantora e do empresário. Por mais que se esforçasse, vez ou outra sua visão periférica captava uma carícia, um aperto de mão, um rápido beijo entre eles – um costume que até então estava extinto dele até o baile.
O convite caiu em suas mãos depois que a advogada o analisou detalhadamente e fez vários elogios, o que o deixou com um leve sentimento de que ela estava lhe traindo. Não podia negar, era algo bem trabalhado e bonito do ponto de vista artístico. Abriu-o com um receio inconsciente, o pulso ligeiramente acelerado, e não se ateve muito às informações que as palavras imprimidas em uma caligrafia floreada e de cor dourada lhe davam, pois o anexo logo lhe chamou atenção. No canto superior, pregado à folha principal, estavam quatro pequenos convites individuais no mesmo estilo.
Se bem entendeu da breve conversa entre seus pais e os Granger, aquele era um convite para os Potter, isso incluía James, Lily, Delinda e... ele.
Tinha plena consciência de que seu nome como convidado não foi muito aceito pelos futuros casados e conseguia até imaginar que ele só estava ali devido ao fato de sua família e a de Hermione se conhecerem por mais de uma década. Por maiores que fossem os atritos entre eles – ainda mais depois da fatídica reunião semanas atrás –, a cortesia falava mais alto junto com os próprios anos de amizade entre ele e a noiva. E, além disso, o problema só o envolvia diretamente, seus pais e sua irmã estavam fora e a relação da parte deles continuava intacta. Seria deselegante não convidá-lo. Imaginava que o mesmo aconteceria com Ron e os Weasley.
No fim, ele acabou engolindo o que sentia. Religou o modo farsante que o caracterizou durante os meses quando ainda estava no Paradise, abriu um leve sorriso, reforçou algumas palavras e elogios de Delinda por pura educação e depositou o envelope na mesinha ao lado com delicadeza no momento em que, por frações de segundo, seu cérebro imprimiu a imagem dele atirando o objeto em meio a labaredas de fogo.
Uma conversa animada surgiu, deixando qualquer sombra de estranheza e desconforto para trás. Se não fosse o que acabara de acontecer, Harry julgaria aquele encontro como mais um dos inúmeros que marcaram toda a história das duas famílias. Ele e Hermione não se falavam diretamente, pouco se olhavam e quando tinham de fazê-lo era quando um falava e recaía a atenção do ambiente sobre si.
Algum tempo depois, foram jantar. O clima cada vez ficava mais descontraído. Em meio a colheradas, garfadas e travessas de comida sendo passadas de um lado para outro, a alegria tomava conta, gargalhadas eclodiam e os mais variados tópicos eram conversados.
Já na sobremesa, falavam sobre surpresas. John narrava uma história sobre isso que aconteceu com seu colega de trabalho até que a esposa o interrompeu:
- Ah sim! Falando em surpresa... – ela virou-se para a filha. – Você disse que tinha algo para nos contar. Interrompi você naquela hora porque estávamos atrasados, mas agora estamos aqui em amigos... ou família – emendou lançando um olhar de esguelha para Lily. – então pode dizê-lo sem problemas.
Os olhos de Hermione se arregalaram bem de leve, mas ela logo se recuperou. Olhou para o noivo, que lhe deu um sorriso reconfortante e entrelaçou sua mão na dela carinhosamente.
- Você falou que queria dizer, então vá em frente. – ele disse tranquilo.
- Bem... – ela se virou para o restante da mesa, apertando mais a mão do loiro, e olhou para cada um.
- Antes de mais nada, eu sei que isso poderá soar um tanto fora dos planos, mas não é totalmente inesperado. – Nicholas alertou.
- Que droga! Parem com o suspense logo! Não gosto disso! – Delinda exclamou nervosa, fazendo os outros rirem.
Hermione virou-se novamente para o noivo. O olhar que eles trocaram, brilhante, intenso e repleto de felicidade acendeu um alerta dentro de Harry. Antes que pudesse pensar sobre isso, sua ex-amiga tornou a olhar para frente e anunciou alegre:
- Eu estou grávida!
“Apenas cinzas e ossos restam
Meu cabelo está molhado, meus olhos estão machucados
O passado tem sido consumido pelas chamas
Eu não posso mais respirar
Eu tento ficar sobre meus pés, mas eu caio
Eu tento andar, mas eu me arrasto
A vida como a conhecíamos acabou
E você se foi
Se foi para sempre...”
The Ravens – Tristania
Num mundo onde qualquer manifestação de alegria vinha em forma de sorrisos sarcásticos, a verdade era um carrasco que ficava só de longe, divertindo-se à custa da ignorância e do esforço de esquecer ou pelo menos adequar-se à realidade. E ela vinha quando menos se esperava, quando se achava que o tormento tinha sido superado, e dava um bruto golpe, deixando apenas alguns momentos agonizantes para que a vítima remoesse seus pensamentos antes que, enfim, sofresse sua queda do pedestal.
Seu mundo. Seu próprio mundo.
Nem soube dizer como chegou em casa. Não recordava os passos dados ou as imagens ao redor. Só lembrava-se de sua cama, pois foi o que evitou que caísse sobre o chão frio quando seu corpo desabou sem que pudesse mais controlá-lo.
Agora não havia mais volta. Também não dava mais para se esconder, fugir dos acontecimentos que tanto lhe causavam aflição. Ignorar e viver uma vida imprudente de sexo constante e bebidas venenosas não ajudaria mais.
Não quando a verdade foi vista, foi ouvida, foi constatada.
Não quando essa mesma verdade lhe nocauteou. Não quando toda sua fachada de frieza, impenetrabilidade, brusquidão e escárnio foi destruída com um simples punhal, que destroçou o resto da parede de vidro, que trouxe abaixo o mundo de futilidades em que ultimamente se encontrava vagueando.
Voltara ao exílio de várias e várias semanas atrás. Voltara a sofrer com os inúmeros sentimentos prendidos em seu peito e que o impediam de respirar direito.
Só que dessa vez era milhares de vezes pior. Porque, além da dor, esses sentimentos agora lhe corroíam a carne, chupavam-lhe o sangue e deixavam tudo destroçado, as feridas abertas para arderem até o fim.
Não se encontrava perdido. Ou arrependido. Ou confuso. Nada.
Remus Lupin lhe falara, e deveria ter notado antes. Deveria ter visto que a vida de luxo só lhe detonava ainda mais internamente, inconscientemente.
Ele se encontrava esgotado.
Esgotado e alheio aos sentidos que captavam o mundo externo. Havia somente as emoções em seu peito. E mesmo assim não tinha forças para sentir com elas.
Manteve-se caído sobre o colchão até quando recuperou uma centelha da vontade e a percepção do que estava ao redor. Sentou-se na cama. Tudo em seu campo de visão girou, a garganta seca arranhava, implorando por algum tipo de líquido.
Levantou-se. Algo lhe puxava para baixo e não era a gravidade. Eram as roupas que usavam e agora pesavam, os mesmos trajes que testemunharam sua constatação da verdade na casa dos Potter. Tentou arrancar as peças com raiva, para livrar-se da sujeira delas o mais rápido possível, porém suas articulações estalaram e doeram e protestaram e contorceram seu rosto numa careta desagradável.
Jogou as roupas num canto e pegou outras mais folgadas, confortáveis. A garganta mandou mais um alerta, e por isso resolveu logo descer para atender seu pedido.
Na cozinha, pegou um copo de água gelada. Depois, seus pés começaram se mover, arrastando seu corpo derrotado. Percebeu, algum tempo depois, que estava em seu estúdio pessoal. Não entrava ali desde o exílio.
Na verdade, não entrava em contato com seu lado musical desde o dia fatídico em que retornara da turnê. Nenhum acorde, nenhuma tecla de marfim. Nada.
Seus olhos recaíram sobre uma caixa sobre a superfície negra do piano. Aproximou-se, franzindo o cenho para o objeto, como se exigisse saber por que raios estava ali, por que resolvera aparecer justamente naquele momento. A tampa estava mal colocada, por isso bastou apenas que desse um leve empurrão para que caísse e revelasse o que havia ali dentro.
Folhas. A maioria cópias, visto que os originais se encontravam em outra residência.
Folhas e mais folhas. Letras escritas para ela, com ela, por ela, sob o olhar dela, na casa dela.
Ela, que estava grávida e em breve se casaria, formando uma família longe dele.
Ela, que agora sim jamais voltaria. Ela, quem perdera para sempre.
Ela, ela, ela...
Ela, por quem não deveria sentir tanto. Por quem achava que tinha deixado de sentir.
Ela, que deveria despertar sua fúria depois de tudo. E que agora sim vai, pensou.
Num gesto frustrado, impulsivo, desesperado, largou o copo sobre a tampa da caixa, apanhou um punhado de papeis. A textura deles o fazia lembrar-se do convite do casamento, o que quase o fez derrubá-los. Mas não podia, nem iria.
Voltou para a sala, andando como um raio querendo acertar o alvo. Seu olhar recaiu sobre a lareira. Uma ideia lhe surgiu, mas como...
A resposta veio silenciosamente quando seu cérebro direcionou suas íris verdes para o bar. Foi até lá e pegou uma garrafa de uísque. Ao romper o lacre, sua garganta se manifestou mais uma vez, dessa vez por aquele líquido. Só que não podia fazer isso. Beber não ajudaria em nada.
Determinado, foi até a lareira, a garrafa na mão direita, os papeis amassados na esquerda. Jogou as letras sobre os restos de fuligem, cinzas e madeira. Despejou parte do conteúdo alcoólico por cima, o combustível do enterro de seu passado, do funeral de seu desespero, de seu descontrole, de sua mudança.
Mas ainda faltava uma coisa. Ergueu o olhar, vasculhando novamente o ambiente. Retornou ao bar ao ver o brilho de um isqueiro num recipiente no canto. Não era dele, era de uma mulher qualquer com quem transara algum dia. Ela havia esquecido e tinha dito a si mesmo que iria jogá-lo fora, mas sempre se esquecia. Pelo visto, iria servir para algo.
De volta à lareira, ativou o isqueiro e tacou-o lá dentro. Automaticamente o monte incendiou-se, uma grande labareda vermelha, laranja e amarelo que passou a apresentar uns pontos negros quando começou a queimar os papeis.
E ele apenas observava. Apenas contemplava as provas de seus sentimentos serem devoradas pelo inferno que acabara de criar em seu momento de delírio, agonia e loucura, no limite da lucidez.
Tudo estava ali sendo reduzido a cinzas. Todo seu desejo, todo seu anseio, todo seu arrependimento. Presente, passado e rezava para ser futuro. Tudo o que não mais queria por já se encontrar esgotado. Absolutamente tudo.
E, assim, o tudo também englobava o que sentia, a massa de sentimentos fortes. O fogo também queimava seus sentimentos. Pois foi naqueles pedaços de papel em que revelou sua alma, sua essência. Não tinha como mandar tudo para o inferno sem que também sentisse.
A cada segundo que se passava, maior ficava a sensação de calor dentro de si. Até que, minutos depois, houve uma explosão que quase o jogou contra o tapete macio. Conseguiu-se arrastar até novamente seu quarto quando ela o derrubou novamente sobre a cama.
Não teve nenhuma reação. Apenas permitiu-se sentir. Pois era a última vez que iria sentir. A última. Era uma promessa.
Fitava o teto, imprimindo ali mentalmente que iria sentir tudo. Aquele era o fechamento de mais um capítulo de sua vida. O mais doloroso até então.
Então, as imagens ficaram turvas. Os olhos arderam. Algumas grossas gotas rolaram por sua face, gotas que mostravam o quanto de agonia que guardava internamente.
Era a primeira vez que chorava por ela.
Terceira vez. E só hoje. Hermione pensou enquanto saía do banheiro do estúdio. Uma expressão de abatimento já começava a se formar em seu rosto, consequência da maldita náusea que cismava em persegui-la e que nem o remédio que tomara antes de sair de casa conseguira aliviá-la. Mas deveria se acostumar e não se preocupar tanto, afinal, encontrava-se no começo da gravidez, e os enjoos eram constantes.
Ao voltar para o corredor, uma outra sensação lhe invadiu. Era um leve estranhamento por estar de volta àquele local depois de um bom tempo sem pisar nele – mais precisamente, desde o dia da reunião na Roadstar. O estúdio não mudara muito, o que mostrava que os membros da equipe técnica não apareceram muito ali também.
Contudo, o cenário ameaçava mudar, já que eles haviam voltado para dar continuidade ao Paradise. A principal razão que os motivou àquilo foi uma nota da Roadstar mandada a eles, que noticiava, além da reorganização e de novas medidas tomadas dentro da empresa que visavam acabar com a crise vivenciada, que “a situação com os integrantes pendentes” estava a um passo de ser resolvida por definitivo. Por isso, já era hora de anunciar as mudanças na banda.
E por isso Hermione estava ali. Ela e os outros. Porque dali sairia e estava sendo escrita no momento a nota oficial de que Harry Potter e Ronald Weasley não eram mais membros do Paradise Lust.
Talvez esse também fosse um motivo para que a náusea dela estivesse acentuada daquele jeito. Porque a nota seria muito mais do que um anuncio para a mídia, para o mundo, seria a prova final de que Harry e Ron saíram de sua vida, o fechamento da relação que tinha com eles. Agora ela entendia exatamente o que Jane dissera: era impossível tirar sessenta por cento de si sem sentir um baque.
E por mais que a situação com eles tivesse além dos limites de destruído e destroçado, por mais que, quando se encontravam, o ar manchava-se de acusações afiadas, sorrisos sarcásticos, falsidade, por mais que sentissem uma profunda raiva um do outro... Ela, estranhamente, ironicamente, inexplicavelmente, não os queria fora de sua vida.
“Harry e Ron são seus pilares, Hermione. Sem eles, por mais que você ainda consiga se sustentar, sua estrutura fica cambaleando...” As palavras de Jane percorreram sua mente.
O pior era que nem Nick estava ali para poder aliviar um pouco as sensações desagradáveis e lhe impor um pouco de calma.
Ela voltou à sala onde estava antes. Lá se encontravam Draco, Ginny e uns outros poucos integrantes da equipe, aqueles mais voltados para a parte administrativa, como as meninas da imprensa, Emily e Anna. Anna, por sua vez, estava de frente a um computador, digitando o anúncio a ser postado no site oficial.
Incrivelmente, embora a tarefa que tivessem em mãos não fosse agradável, o clima entre eles estava estável, até tranquilo, de chegarem a fazer algumas piadas um com o outro. Deveria ser a saudade dos momentos juntos falando mais alta.
- Hey você. – Emily foi a primeira a notar que voltara. – Vai ficar agora conosco é? Porque mal chegou, nos cumprimentou, disse algumas palavras e foi direto para o banheiro. Tudo bem?
Um sorriso brotou nos lábios de Hermione ao perceber que ainda não contara aos amigos a última novidade.
- Estou ótima. – ela pôs a mão esquerda sobre o ventre. – Melhor ainda quando, daqui a nove meses, o Paradise ganhar seu novo integrante.
As exclamações de surpresa foram coletivas, praticamente com a mesma entonação, como se viessem de um coral treinado. Hermione riu com as reações. Ao entenderem o que ela queria dizer, quem estava sentado pulou da cadeira e todos vieram cumprimentaram-na pela novidade.
- Caramba, você está grávida! – Ginny exclamava incessantemente quando veio abraçá-la. – Mione, meus parabéns! Nossa... Grávida!
- Não estou vendo nada demais. – Draco comentou ao lado da Weasley. – Para mim, ela continua encantadora.
A morena corou em meio a risadinhas. Eram notáveis a diversão e a brincadeira por trás do tom de Draco. Com o passar dos anos, desde que se formaram em Hogwarts, ele se transformara em um bom amigo, o que ficou claramente marcado mesmo com as confusões que se seguiram desde os rompimentos. O loiro tinha suas opiniões, algumas não divididas com ninguém, e não tomara partidos, ficando em seu próprio lado, um lado independente, como lhe era bem característico, mas, mesmo assim, permanecia como um aliado.
- Pode parar com isso, Malfoy, ela é comprometida. – Emily disse com um sorrisinho.
- Mas ele tá certo. – Ginny balançou a cabeça. – A Mione tem cara de que vai ser daquelas grávidas que quase não vão engordar e vão continuar lindas só para causar inveja. Aposto que ela nem vai precisar fazer ajustes no vestido de noiva.
Por outro lado, sua relação com a ruiva encontrava-se inconstante e inexplicável. Ora agiam como as grandes amigas que continuavam a ser – ou foram, Hermione não sabia dizer –, ora estavam desconfortáveis ao redor da outra, ora mal se falavam. Eram altos e baixos em uma montanha-russa no escuro.
- É.
- E então? Quando foi que descobriu? – Ginny tornou a sentar na mesa onde estava quando Hermione chegou, parecendo bastante interessada na história.
- Foi no dia do aniversário do Instituto. E pouco tempo depois comecei a ter a companhia de comprimidos antienjoo que vão ter que me manter um tanto firme quando toda essa história da banda finalmente eclodir.
Então, os olhos de Ginny se arregalaram como se desse conta de algo.
- Mione! Você não pode ficar assim! – quando Hermione franziu o cenho, ela tratou de explicar. – Quero dizer, esses últimos dias têm sido meio corriqueiros e estressantes, e você tem vivido eles intensamente, o que não faz bem, ainda mais na sua condição.
Ela sabia disso. Quase o mesmo tinha sido falado por sua família. E ela tentava não se esforçar tanto, porém, àquela altura, não poderia simplesmente ficar estirada no sofá de sua casa, tinha de estar ativa no desfecho dos problemas do Paradise, já que agora a maior parte das responsabilidades estava em suas mãos.
Hermione só não apontou que, uma vez que a verdade viesse à tona, a imprensa se transformaria em abutres nas vidas das pessoas ali, ainda mais na dela. E aí sim todo seu planejamento de descanso por conta da gravidez iria por água abaixo.
Mas ela iria conseguir.
- Eu sei. – em resposta a Ginny, disse num tom firme, que era suficiente para convencimento mesmo sem argumentos, exatamente como fizera com seus pais. – E eu estou fazendo o máximo para me reservar.
- Não é o suficiente. – a ruiva rebateu.
- Concordo com ela, Hermione. – Anna disse. Ainda não retornara ao computador depois de parabenizá-la. – E você tem o Nick, ele pode dar conta de tudo, ele é o empresário.
- Eu também sei disso. Mas alguém na banda mesmo tem que estar presente, e uma vez que Harry saiu, eu tive que tomar as rédeas. É o meu, nosso trabalho, afinal de contas.
- E falando em trabalho... A gente deveria estar fazendo isso agora mesmo. – Draco comentou.
- Ah sim! – Anna exclamou e voltou para o computador.
Ela mal digitou algumas palavras quando a porta da sala onde estavam se abriu, revelando ninguém mais, ninguém menos que Tommy Mildred.
A surpresa foi ainda mais impactante e intensa do que quando Hermione anunciara a gravidez. Não era só por estarem diante do magnata dono da Roadstar Records, como também pelo fato de que ele quase nunca aparecia parar visitar qualquer empregado da gravadora, ainda mais recentemente, quando se afastara um pouco da presidência por motivos próprios.
No entanto, Tommy não era uma figura assustadora. Poderia até ser imponente com sua silhueta corpulenta, que dava a impressão que os botões do terno fino e caro que usava iriam a pular a qualquer instante, porém seu rosto era geralmente tranquilo, calmo – e que, mesmo assim, tinha a capacidade de apresentar um semblante sério e calculista, como no exato momento em que irrompeu pela porta.
E tudo isso permitia chegar a uma conclusão: qualquer que fosse o motivo de sua aparição, era algo sério.
- Sr. Mildred. – Anna mais balbuciou que falou. – Olá.
Os olhos escuros do magnata vasculharam o redor como o de uma águia procurando uma presa e depois recaíram sobre a mulher, a seriedade amansando um pouco. Mesmo assim, Hermione ainda sentia estranheza em relação ao comportamento de Tommy, ele que sempre fora descontraído e animado.
Tommy, então, notou o computador na frente de Anna. E ele não precisou de nenhuma palavra para entender o que estava fazendo.
O que só comprovava que ele estava a par dos últimos acontecimentos da banda.
Um leve receio atingiu Hermione. A náusea acentuou-se na boca do estômago, lembrando-a o dia em que pensara em Tommy pela primeira vez depois dos rompimentos. Será que ele queria falar algo sobre justamente isso?
- Olá a todos. – o olhar de Tommy percorreu alguns rostos ali por frações de segundo. – Srta. Abbott... Eu gostaria que parasse um pouco.
Anna afastou os dedos do teclado sem pestanejar. Demonstrava confusão como qualquer um ali.
- Bem, – ele continuou a dizer, acomodando-se no lugar mais próximo. – sei que estão imaginando o motivo pela qual estou aqui. Muitos podem ter pensado que deve ser por causa das saídas de Harry e Ron... E, sim, eu já sei sobre eles, sei praticamente de todo o cenário que vem se desenrolando desde então. Contudo, não é exatamente sobre isso que quero falar, mas tem a ver, está bem entrelaçado.
Hermione trocou olhares com Draco e Ginny. Tommy disse as últimas palavras como se fosse algo esperado. Como se as saídas de Harry e Ron fossem esperadas. Mas como? Como ele poderia afirmar tão veemente quando tinha estado por fora dos negócios?
- O ponto é – o presidente continuou a falar. – que vocês foram enganados. Vocês, eu, todos nós. No fundo, eu era o alvo da trama, mas vocês acabaram sendo envolvidos e, consequentemente, pagando o preço.
“Eu posso ter estado um pouco fora de órbita nessas extensas semanas que se passaram, porém era só uma fachada. Eu voltei assim que notei algo estranho... Algo que me pus a investigar pessoalmente, secretamente. Uma ruptura na estrutura na Roadstar, uma nova esfera de poder dentro dela. Esfera essa formada por alguns de meus diretores que queriam me tirar do controle da empresa. Eles traçaram um plano capcioso, minucioso, em que algumas fases já haviam sido concluídas, mas que estava prestes a se realizar no todo... E vocês só contribuiriam para isso se publicassem a nota oficial. – o olhar de Tommy desviou-se novamente para Anna e o computador.
- O quê? – a confusão de Hermione, como também a de todos, só aumentava.
Tommy se virou para olhá-la, um rastro de uma cansada compaixão passando por seu rosto, como se estivesse vendo a morte de algo e se arrependesse, buscando culpar a si próprio.
- Vocês, de certa forma, estão imersos nesse plano. Sei que parece confuso e, por que não, improvável, mas se vierem comigo... Garanto que todas suas perguntas serão respondidas.
“Pegue o que você quer e deixe um buraco por dentro
Pegue tudo o que você precisa para se manter satisfeito
Quebre tudo o que você vê e depois tente esconder
Pegue tudo, mas você nunca vai me pegar vivo”
Taking Me Alive – Dark New Day
Harry não voltou ao estado de agonia com o passar dos dias. Dissera a si mesmo estar recuperado de tudo e a forte convicção em seus pensamentos foi o suficiente para o momento.
Por outro lado, o sarcasmo e o temperamento explosivo continuavam. Já não era mais uma fachada. Era no que havia se tornado. Por causa dos outros, por culpa dos outros, para se proteger dos outros. O que o afetara fora tão forte que as consequências em si se tornaram permanentes. Delinda era a única que o aturava.
Um dia, inesperadamente, recebera uma ligação de sua advogada Padma dizendo que, enfim, seu fechamento com o Paradise ocorreria. Ela disse que já tinha tratado do processo e que somente ele deveria ir à Roadstar para dar sua última assinatura.
Harry apenas riu. Era mais um capítulo que se encerrava. As coisas finalmente estavam caminhando a seu favor – de um modo meio distorcido, verdade, mas era o que ele achava, o que precisava para viver... ou sobreviver.
Ele apareceu na gravadora num início de tarde. Logo foi encaminhado para uma pequena sala de reunião com paredes e porta de vidro, que dava total visão ao restante do departamento naquele andar.
Lá havia um funcionário que Harry não lembrava o nome, mas que já tinha visto, ainda mais nos últimos episódios com seus ex-companheiros.
- Você só precisa assinar aqui, Sr. Potter. – ele disse, apontando para uma folha sobre a mesa na frente de Harry.
Harry pegou o papel. Seus olhos correram por ele, parando num detalhe que chamou sua atenção.
Um detalhe. Um único detalhe.
A gota d’água.
O que estava escrito ali injetou um pouco de adrenalina em seu sangue, iniciando uma onda de raiva que logo se manifestaria. Sua respiração ficou pesada e ele ergueu o olhar, depositando-o no executivo. Manteve nele por uns segundos até que o desviou para fora da sala. Pelas paredes de vidro, viu os funcionários andando para lá e para cá e viu Nicholas McAllister mexendo num computador num canto da sala com dois homens.
Foi quando tudo explodiu dentro dele, liberando uma espécie de monstro aprisionado em suas entranhas.
Girou nos calcanhares e deu passos rápidos em direção a saída. Pôs as mãos uma em cada lado da porta e empurrou-a com força, abrindo-a com um estrondo alto. As pessoas olharam espantadas para ele, porém Harry não via nada, pois suas íris verdes continuavam fixas no canto.
- Sr. Potter! – o homem lá dentro chamou, mas também não foi ouvido.
A aura ao redor demonstrava o quanto estava enfurecido, nem era preciso alguém olhar seus punhos cerrados. Os dentes cerrados seguravam sua vontade de gritar e perder o controle. Era o fim da meada, não apenas referente àquela situação, e sim a tudo que vinha acontecendo com sua vida nas últimas semanas desde a expulsão da banda.
Andando com firmeza, imponência e raiva, Harry cruzou a enorme sala em menos de dez segundos e foi até Nicholas.
- Ele está vendo algo importante. – alguém lhe disse próximo.
- Ele está? – retrucou.
- Está sim.
Ao parar na frente da mesa do computador, Harry não pensou duas vezes. Arrancou o teclado das mãos do homem e bateu-o com força contra a escrivaninha, estilhaçando-o em vários pedaços que voaram para todos os lados. Todos arregalaram os olhos, inclusive Nick que saltou da cadeira e se virou para ele.
- Mas o que diabos?
- Chamem os seguranças. – alguém falou baixinho.
- Você se acha o espertalhão daqui, mas só é um filho da puta engomado. – Harry disse irritado. – Isso só um aviso, McAllister, se quiser continuar me fazendo de otário.
- O que está fazendo, Potter?
Harry tinha virado e ameaçava ir embora, porém as palavras enfim desencadearam a liberação de absolutamente todo o ódio acumulado em seu peito de meses, fazendo-o voltar rangendo os dentes. Não dava mais para se segurar.
- Algo que eu deveria ter feito há muito tempo. – respondeu com selvageria e, sem pestanejar, ergueu o punho direito e acertou um soco no rosto do loiro.
Algumas pessoas soltaram exclamações de surpresa. Atordoado pelo golpe, Nick cambaleou para trás. Mas Harry não prestou atenção em nada disso, era guiado apenas pelo impulso.
Ele pôs as mãos no colarinho da camisa do empresário e andou três passos para frente, empurrando-o com força contra a parede, batendo suas costas e cabeça.
- Seu verme desgraçado, sua escória abominável! – disse entre dentes.
A raiva que emanava de seu corpo era tanta que Nicholas sentiu-se intimidado e nem ousou reagir. Seus olhos verdes faiscavam mais perigosos que nunca, os dentes serrilhavam com tal força que era incrível como ainda não tinham esfarelado. Toda maldita célula de seu corpo queimava e se agitava. Nunca suportara tamanho ódio na vida.
- Agora você vai ouvir cada palavra do que tenho a dizer. – Harry bateu-o novamente contra a parede. A pancada na cabeça novamente tirou Nicholas da órbita por umas frações de segundo. – Você pode ter me tirado de minha maior criação, pode ter distorcido completamente todo um ideal de uma vida, pode ter me tirado a mulher que eu amo, pode ter destruído minha vida profissional, mas você nunca, nunca vai me pegar vivo.
E enquanto falava, Harry desferia duros golpes no outro, tanto que Nicholas foi deslizando pela parede e, quando caiu no chão, Harry passou a chutá-lo intensamente onde quer que conseguisse.
Ninguém ousava pará-lo porque observavam a cena em pleno choque, mas também porque ninguém era louco o suficiente para entrar na frente de um homem raivoso e violento, ainda mais sendo este Harry Potter, conhecido por seu pavio curto.
Quando lhe deu na telha, Harry parou e ficou olhando o outro se contorcer no chão, machucado e sangrando, com uma frieza de dar calafrios na espinha. Ele então se inclinou e disse cheio de escárnio:
- E acho bom você arranjar um advogado, McAllister, porque eu voltarei... E eu não voltarei só pelo pouco que você tirou de mim, eu voltarei para retomar tudo.
Então, girou nos calcanhares e começou a se retirar. No exato instante, os seguranças do prédio e ameaçaram segurá-lo, mas Harry levantou um dedo, fazendo-os parar, enquanto continuava a andar com um ritmo tranquilo, como se fosse o dono do lugar.
- Não se preocupem, eu sei meu caminho para sair desse buraco de inferno.
O coração de Hermione batia ligeiramente fora do normal quando os carros pararam em frente ao prédio da Roadstar Records. Em seu ventre, um desconforto crescia a cada instante. Ginny toda hora lhe dizia para se acalmar porque o excesso de carga emocional não fazia bem para o bebê.
Todavia, não sabia exatamente por que se sentia nervosa; seu ímpeto curioso estava minimamente por trás disso, reacendendo uma chama pelo mistério que ela tinha desde pequena e que se apagara com o passar dos últimos tempos.
Ela saiu do automóvel junto com Draco e Ginny – os outros no estúdio acharam que melhor que somente eles fossem, pois eram o centro de todo o problema – que também carregavam expressões aflitas e confusas. Sentiu Tommy andando atrás de si rumo às portas automáticas de vidro...
...Que se abriram no exato momento, revelando ninguém menos que Harry.
- Estão vendo? Não precisavam ter me escoltado até aqui, eu conhecia o caminho de saída. – ele riu amargamente. – E eu também não ia mais causar encrenca. Aliás, eu não causei nenhuma encrenca, só fiz, como bem falei, o que já deveria ter feito há muito tempo.
Ele olhava para trás e falava com alguém. Hermione desviou o olhar em choque dele apenas para encontrar dois homens altos e troncudos vestindo roupas idênticas que reconheceu como os seguranças do prédio.
- Sr. Potter? – disse Tommy igualmente intrigado. Seu olhar ia dele para os seguranças. – O que houve?
Harry virou-se automaticamente assim que lhe chamaram e fingiu uma expressão de surpresa ao ver o grupo. Seus lábios se ergueram no canto em um sorriso sarcástico.
- Eu já deveria esperar a aparição de vocês, principalmente a sua. – seu olhar postou-se sobre Hermione como um dardo afiado e perigoso. Ela sentiu um leve arrepio. – Era de se estranhar que o famigerado empresário do Paradise estivesse aqui... sozinho.
O tom só deixava mais intensa a estranheza que se passava em Hermione. Não se lembrava de Nick ter lhe dito que iria para a gravadora... Aliás, não se lembrava de ele ter de fato dito sobre seu destino quando ligou para ela de manhã.
- O quê? – Hermione mal percebeu que seus lábios se abriram.
- Oh! – Harry exclamou teatralmente. – Então quer dizer que você não sabe? Que nenhum de vocês sabe? – o olhar dele percorreu o rosto de cada um presente, demorando alguns centésimos a mais em Draco e Ginny.
- Mas do que diabos está falando? – disse a ruiva.
- Dá para parar com as gracinhas, Potter? – Hermione perdeu a paciência. – Não, ninguém sabe o que está fazendo aqui, sendo que você já não faz parte disso há muito tempo. Estamos cansados dos seus joguinhos. Agora, se for se fazer de útil, por favor, já que temos outros assuntos a discutir.
- Como queira, Vossa Majestade. – ele forjou uma leve reverência. Depois, aproximou-se a passos rápidos e largos, surpreendendo Hermione com sua proximidade e o brilho no olhar. – Mande lembranças ao seu noivo para mim, tudo bem?
Com o sorriso enjoado ainda na cara, Harry se afastou, girou nos calcanhares e saiu andando para seu carro. Entrou no automóvel e partiu dali acelerando a todo vapor. Todos o observavam em um silêncio de choque e confusão, até que Draco quebrou o gelo com um comentário:
- Sabe, a gente não tem agido muito bem com ele, mas não podemos negar... Potter tem estilo.
Hermione não teve o trabalho de ficar olhando seu ex-melhor amigo ir embora. Pressentindo que ele tinha feito algo, tratou de entrar no prédio, seus passos tão fortes e determinados que parecia marchar. Ouviu as vozes de Draco, Ginny e Tommy lhe chamando, porém ignorou-as completamente. Pediu umas informações sobre onde Nick estaria e logo em seguida foi para o elevador, parando no andar onde havia ido ali pela primeira vez na reunião confusa que contou com as presenças de Harry e Ron.
Lá, andou por mais alguns instantes até ouvir murmúrios de duas pessoas perto do bebedouro que lhe disseram a sala onde Nick estava. Voltou todo o caminho que fizera, passando em frente aos elevadores mais uma vez, e chegou numa área ampla. Logo à sua esquerda, havia uma sala toda de vidro. Mais a frente e à direita, havia outra sala de reunião. Hermione aproximou-se dessa apressadamente.
- Desculpe, mas não pode entrar aí. – disse uma assistente de repente passando a sua frente e bloqueando a porta.
Hermione lançou-lhe um olhar de esguelha um tanto ríspido.
- Com licença, mas gostaria de ver o Sr. McAllister. – falou veemente.
- Me deram ordens para não deixar ninguém entrar. – a outra mulher replicou, mantendo-se impassível.
- Eu gostaria de ver o meu noivo. – Hermione destacou as palavras usando seu tom mais frio e seu olhar mais penetrante. Impacientou-se levemente. Por que aquela criatura estava lhe atrasando? Tratava-se de algo importante e muito além de uma simples ordem.
Mas dessa vez a assistente tremeu nas bases. Cautelosa, afastou-se da porta, que foi aberta apressadamente por Hermione.
Lá dentro, viu um homem jogado na cadeira, que, à primeira vista, ela não reconheceu por causa dos cortes em seu rosto. Um machucado na altura da sobrancelha e outro na maçã do rosto coagulavam, mas ainda havia um filete de sangue escorrendo pelo canto direito da boca e outro por uma das narinas, fluxos que ele tentava estancar com uma toalha branca, a essa altura já com um forte tom avermelhado.
Seu coração pulou. Por aquilo ela não esperava.
- Nick! – exclamou abismada, apressando-se para encontrá-lo. Ele levantou o olhar e, ao vê-la, suspirou de alívio.
Hermione agachou-se e o abraçou com força.
- O que aconteceu? – perguntou preocupada enquanto tocava o rosto e o cabelo dele com as mãos delicadas.
- Foi aquele Potter! – ele respondeu rangendo os dentes e desviando o olhar dela. Era fácil notar que ainda estava irritado. – Maluco desgraçado! De repente ele surge e começa a me ameaçar, dizendo coisas sem sentido, depois me socou e foi embora.
- Harry socou você? – ela repetiu, franzindo cenho. Tudo bem que Harry vinha agindo de modo arrogante e debochado mais que o normal, porém não esperava tal agressividade; ele tinha o pavio curto, mas sempre fora do tipo pacífico, nunca de brigar. Para fazê-lo partir para a violência era necessário um esforço descomunal.
Nick percebeu algo em seu tom de voz, que o fez virar-se para encará-la rapidamente. Uma faísca de raiva surgiu nos olhos, fazendo Hermione estremecer um pouco. Contudo, ela sabia que ainda era consequência do que quer que houvesse acontecido entre os dois.
- Está desconfiando de mim?! – o noivo disparou, e ela se afastou um pouco. – Acha que ele não fez isso? Porque ele fez sim! Por Deus, Hermione, ele não é mais o cara que você conheceu!
O ultraje acertou Hermione, recuperando-a do susto.
- Eu sei disso mais que ninguém, Nick! Não estou duvidando de nada, só que, lá no fundo, não esperava que Harry fosse agir assim... Ele sempre se continha numa discussão...
Nick olhou-a como se ainda não acreditasse totalmente no que falava. Ela o ignorou.
- Vai me contar o que aconteceu? – perguntou, ficando de pé na frente dele e cruzando os braços.
- Foi o que te falei, eu estava na minha aqui trabalhando, conversando com alguns funcionários quando ele veio para cima de mim, pode perguntar a qualquer um. – o loiro abriu os braços, desesperado.
Aquilo não parecia ser coisa de Harry. Por algum motivo, o coração de Hermione recusava-se a acreditar que seu ex-melhor amigo pudesse agir desse jeito. Ele tinha seus momentos impulsivos, mas não atingiam o nível do irracional. Por outro lado, sua própria razão dizia que os últimos meses vinham definindo um outro lado de Harry que poderia muito bem ser agressivo.
E ela que já vinha se sentindo confusa desde a aparição de Tommy no estúdio, agora estava mil vezes pior.
O empresário, por outro lado, viu seu impasse.
- Diabos, Hermione! – levantou-se de um salto, fazendo a cadeira ir para trás. – Você não acredita em mim! Por que raios não acredita em mim? Pare com isso, pare de defender aquele crápula idiota! Eu sou seu noivo, você tem que acreditar em mim! – ele se aproximava perigosamente, mas ela dava um passo para trás a cada tentativa.
Era sua impressão ou Nick estava desconfiando dela? Nunca o vira tão descontrolado antes. Isso a fez sentir um pouco de medo, receio de que ele pudesse partir para cima dela com violência. Porém as palavras, carregadas de tom acusatório, fizeram com que a raiva lhe invadisse, abafando o receio.
Tamanha carga de emoções não fazia bem para o bebê, porém isso nem lhe cruzou a mente.
- Eu acredito na verdade, Nicholas! – gritou, tampouco percebendo que o chamou pelo nome completo. – No que é certo! Não ouse duvidar de mim ou me questionar! E, por mais que eu tenha visto algumas coisas mudarem nessas últimas semanas, algo lá dentro de mim me faz crer que Harry jamais faria isso se não fosse provocado, e de verdade, não de um jeito bobo! Mas e daí, certo? Isso não significa que eu esteja certa!
O homem se acalmou um pouco, abrindo mais uma brecha para Hermione.
- Havia algum motivo para Harry vir aqui ou simplesmente ele apareceu de surpresa?
Ela viu uma sombra passar pelos olhos do noivo. Aquilo ligou seu alerta; uma sensação de desconfiança começou a se sobrepor a de ira.
- Nick...
- Ele veio para uma reunião de revisão de contrato. – Nick respondeu um tanto vacilante.
- E o que dizia no contrato?
- Que ele estava fora.
Hermione ergueu uma sobrancelha.
- Isso não deu a ele motivos para ter feito o que fez.
Nick andava de um lado para outro, passando as mãos na cabeça com nervosismo. Hermione ateve-se em sua postura, estudando-a. Por mais que a raiva houvesse passado, ele ainda parecia fora do normal, deslocado, desesperado, como se travasse uma batalha dentro de si mesmo.
- Está bem! – ele trovejou de repente, virando-se para ela. – Fui eu, Hermione! É minha culpa! É tudo minha culpa! Fui eu que fiz isso tudo!
Em sem íntimo, Hermione pressentiu que ele se desculpa por outro motivo e não pelo que aconteceu com o guitarrista. Seu coração acelerou um pouco, e ela sentiu uma pontada no ventre.
- Isso o quê? – questionou cautelosamente.
Mas antes que o empresário pudesse responder, a porta da sala se abriu, revelando Tommy e mais três homens.
- Muito bom, McAllister, você resolveu ser humilde por uma vez na vida. Sinceramente, eu esperava que fosse perder a cabeça e avançar para cima dela, e aí sim eu iria transformar usa vida num inferno. – o magnata disse num tom calmo, mas que ainda continha uma sutil frieza.
Hermione abriu a boca, todavia não foi capaz de produzir som algum.
Tommy virou-se para os outros homens.
- Quero que o mantenham aqui até eu voltar. Creio que os dois – os olhos dele foram de Nicholas para Hermione. – ainda terão muito o que conversar. Querida, por favor, pode vir comigo? – perguntou num tom mais gentil, virando-se para Hermione.
E foi aí que ela entendeu. Nicholas McAllister tinha alguma coisa a ver com a trama contada por Tommy Mildred.
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N/A: (É assim que a coisa funciona: capítulo gigante = NA gigante hahaha)
E a casa caiu! o/
Agora todo mundo pensa: Como eu pude parar aí, né?
Oh, a arte de parar o cap na hora menos favorável... Isso dá um prazer imenso.
Ai, ai, só quero ver os comentários.
Minha singela opinião: melhor cap de todos! *.* Sério, é o meu favorito até agora, mesmo que ela tenha sido o mais longo (25 páginas =OO), o mais trabalhoso e o que mais me consumiu. Eu não aguentava mais hahahaha
E considero o melhor porque, ao longo dele, você tem todo um plano, um ritmo, um caminho sendo construído para no final a coisa toda explodir e ser destruída.
Aliás, essa foi minha tentativa muito, muito, MUITO fail de trazer um pouco do clima de romances policiais à fic porque não queria que ficasse só no dramalhão do romance XD Não foi lá essas coisas, mas, sei lá por que, eu ainda sim gostei pra caramba.
Sim, sei que vocês estão celebrando pelo Nick! (ou não... vai saber) Podem extravasar à vontade! E xingar também XD Aproveitando... deixe-me iniciar o movimento. Eu tava muito empolgada pra cena do "acerto de contas" do Nick com o Harry. Desde o momento que criei a fic, já tinha isso planejado.
Na verdade, esse cap era pra ser na verdade 2 caps distintos e estavam até sendo confeccionados assim, mas eu não aguentava mais e queria logo que as coisas pegassem fogo XD Mas aí eu dei a louca e resolvi fazer um cap só, todo explosivo, com mil coisas acontecendo, e eu estou me convencendo de que essa ideia for melhor (se eu ler comentários desesperados de vocês, eu me convencerei definitivamente =D). Porque teve de TUDO nesse cap!
E todo muito também apareceu. Menos o Ron. Eu ia botar, juro, mas, já disse, tava de saco cheio do 19 haha e eu tinha ideia do que fazer com ele, só não tava conseguindo colocar na prática. A parte do "Você é Snape" também. Eu fiquei muito, muito, muito em dúvida se deixava ou não (motivo principal de eu ter demorado), mas aí eu resolvi botar porque já era uma ideia vinda dos primeiros pensamentos sobre essa fic. Pra me incentivar, tentei reescrevê-la usando a Delinda ao invés do Lupin, mas isso se tornou ainda mais cansativo e complicado, então eu joguei tudo pro alto, liguei o botão F e fui terminar o cap!
Yeah... As emoções e a tensão estão nos níveis máximos nesse momento da trama. É o ápice da fic, já deu claramente pra ver nesse cap as razões do nome da parte II.
E eu estou amando!
Resposta aos comentários:
Amanda A. - Bem, você já viu que aqui Harry e Hermione meio que voltaram a se falar hahaha Mas não exatamente do jeito que a gente quer, não é? Você não aguenta o Nick? Que tal o fim desse cap? hahahahaha E as minhas confissões no início da NA? Ansiosa pra ouvir o que você tem a dizer ;)
r.ad - Já temos pistas nesse cap sobre o que vai acontecer com o Nick. Vamos ver o que você tem a dizer sobre isso. Agora só falta o outro desejo. Mas vamos devagar... Beijos e obrigada!
nathi_castro - Obrigada pelos elogios :) Por isso mesmo eu digo que não ouso nem desistir dessa fic! Eu posso demorar, mas chegarei lá! É, né, a Hermione dá muito susto nessa fic, além de provocar muitas reações revoltadas haha Mas vimos no fim desse cap que há a possibilidade de o cenário mudar. Quanto às letras, repetirei o que disse acima, calma hahaha Obrigada, mais uma vez, e espero que tenha gostado desse cap!
Isis Brito - Você e seus comentários especiais (eu não achei que não foi inspirado, achei que ele tava bem grandão *-*)! Eu concordo, já tava na hora da Hermione ouvir a verdade o/ hahaha E você já viu mais sobre isso nesse cap... Só que aí, eu você frustrei em relação aos enjoos. Não dá pra ser 100% feliz né?
Deu pra ver aqui, especialmente no final, que as composições vão cair um pouquinho pro segundo plano né? Mas não é pra se desesperar! Pode ser que com que o aconteceu o futuro mude de rumo =DD
Hermione continuou paranoica com Harry e Parvati aqui XD É assim que começa, aos poucos, suave... E sobre o Nick, bem... Diga você mesma agora! =D Harry ainda sofreu um pouco de autoflagelação, mas ele já sofreu sua reviravolta no cap mesmo (na minha cena preferida, linda e tão aguardada por eu mesma *-*)
Eu também AMO os gêmeos Weasley! A morte do Fred (é ele né? Não lembro agora hahah) foi a única que me incomodou em toda a saga. Eu surtei com o livro nessa parte XD Espero que eu tenha atendido às suas expectativas com esse cap pra lá de emocionante! Pode soltar o verbo sobre ele =)
livi rodrigues - Dois comentários, um enorme! *-* Agradeço demais as palavras sobre a fic =) Já disse a alguns leitores e torno a repetir, é a minha criação mais doida e querida. A Mione é de irritar todos, mas, a essa altura da fic, ela já se encontra meio cambaleante... É só esperar pra ver. E você acertou, Harry sofreu mais um pouquinho aqui, mas a quota dele já se foi (eu pessoalmente não aguento mais dramalhão, já confissei no início da NA hahahaha) Eu ri muito da parte do rabo de saia, embora não deixe de concordar. Mas, mesmo assim, ele não vai chamar tanta atenção da Parvati assim não, o que aconteceu entre eles foi mais o calor do momento mesmo. Eu não posso complicar ainda mais as coisas. A cena HHr do elevador também foi calor do momento, mas esse tem uma origem mais profunda.
E eu queria dar prêmios a você por causa do final do comentário! hahah Acertou tudo! Mais uma pitada ao drama gigantesco! Agora só nos resta esperar. Obrigada de novo pelo comentário e espero saber o que você achou sobre esse cap!
L. Midnight - E, é claro, a fic não teria graça sem você! Eu ri do começo do comentário demais! E como concordo que o Ron é fofo. Ele é o que une o trio, o laço forte mesmo, o pilar... tudo. G/L tá se tornando um casal muito mais querido por mim do que eu gostaria de admitir haha
Você adorou os chupões? hahaha Foi super divertido escrever sobre isso! E a Hermione teve sua brainstorm aqui, mas, convenhamos, não foi lá essas coisas... Tá faltando "O" momento epifania né? Você viu que a sua pergunta sobre como ela não percebeu foi respondida aqui: ela também não sabe hahah Mas eu já disse, foi só uma brainstorm. E espero que sua esperança sobre ela seja reacendida aqui (eu realmente quero ver o que você vai falar sobre esse final, mesmo que, como eu já disse em cima, tenha sido meio fail). Eu concordo que dá vontade de mimar o Harry por todo o drama da situação, mesmo que eu tenha meus momentos de raiva com ele. É claro que eu não me importo com comentários grandes! Pra mim, quanto maior melhor (a prova dessa filosofia você já tem em forma dos meus posts hahah). Espero que tenha curtido o 19! =)
E eu tenho mais uma novidade pra vocês, queridos! Depois de pensar muito, eu resolvi fazer uma espécie de blog focando no meu lado de pseudo-autora haha. Acontece que, de tanto ler esses comentários maravilhoso, eu cheguei à conclusão de que queria compartilhar muito mais com vocês e só aqui não estava sendo suficiente.
Então, criei uma página onde vou postar muita coisa e com muito mais frequência do que aqui. São avisos, curiosidades, informações, surtos da autora que vos fala e muita coisa (a ideia tá mais explicada no primeiro post lá).
Um exemplo disso são os vestidos das meninas na festa em Hogwarts. Eles foram todos baseados em trajes vistos por aí na vasta internet (Isis Brito, perdoe-me, mas ficar olhando as maravilhas que você posta na sua própria fic... o impulso foi mais forte que eu XD), e estão todos postados lá.
Podem dar uma passada lá, não precisa cadastro nem matar ninguém, pode falar à vontade porque também criei a página como mais um método de me comunicar com vocês.
E aqui está: http://enigmaticperfection.wordpress.com
Enfim, mil obrigadas pelas visitas. Mal posso esperar pra atualizar de novo! =)
Beijões!