Oi, oi povo! Bora ver os preparativos para o casório.
Carla Cascão: Pois é... esses dois tem horas que dão nos nervos, principalmente o Morcegão, mas infelizmente ele tem razão para agir assim... Tenho que confessar algo, adorei ver a Hermione atirando nele, mesmo ficando com remorso depois...rsrsrs
Thaiana: Eu sei, eu sei, mas tem que concordar que ele tem motivos para agir assim, por mais irritante que seja...
Nosso Morcegão não dá ponto sem nó!rsrsrs Mas e aí, gostou de como a Hermione reagiu sobre o assunto? Eu particularmente adorei o tiro, rsrsrs *risada maléfica*
Bjs e boa leitura!!!
*****
Quando se dirigiam a Calais, Snape ia a cavalo com Alonso, junto a carruagem. Nas estalagens, retirava-se à cervejaria com o cunhado enquanto Hermione jantava com sua avó. Durante a travessia do canal da Mancha, sua senhoria se manteve no outro extremo do vapor francês. No caminho para Londres, também cavalgou fora da luxuosa carruagem que tinha alugado. Uma vez em Londres, depositou sua bela noiva, Alonso e Geneviève na porta da casa do tio Mundungus e a tia Arabella. Hermione não havia tornado a ver seu prometido após esse dia.
E de repente, duas semanas depois de ter saído de Paris, depois de quatorze dias durante os quais seu futuro marido parecia decidido a apagá-la de sua existência, apresentou-se um dia às duas da tarde exigindo que ela deixasse o que estivesse fazendo para atende-lo.
— Quer que eu vá dar um passeio? — exclamou a castanha indignada quando sua tia voltou toda nervosa ao salão para lhe transmitir o recado de Snape — Assim, do nada? De repente lembrou que eu existo e espera que eu saia correndo somente ao estalar de dedos?Por que não lhe disse para ir ao inferno?
Tia Arabella desabou em uma poltrona, apertando a fronte com os dedos. Durante os escassos minutos que tinha passado com ele, era evidente que o moreno tinha conseguido acabar inclusive com sua autocrática serenidade.
—Hermione, olhe pela janela, rogo — disse.
A jovem deixou a pluma sobre a mesa em que estava brigando com o menu do café da manhã de casamento, levantou-se e se aproximou da janela. Na rua viu uma linda carruagem negra. A ela estavam atrelados dois temperamentais cavalos negros, que Alonso tentava segurar com todas suas forças. Bufafam e batiam com os cascos sem cessar. Hermione não teve duvidas de que ao cabo de poucos minutos estariam dançando sobre a cabeça de seu irmão.
—Sua todo-poderosa senhoria diz que não partirá da casa sem você. — a voz da tia tremia de indignação — Aconselho-a que tenha pressa, antes de que essas bestas assassinas matem seu irmão.
Em três minutos, Hermione, fervendo de cólera, pôs-se o chapéu e um leve casaco verde sobre o vestido de dia. Ao cabo de outros três minutos, ajudavam-na a subir no assento da carruagem, ou mas bem a metiam na carruagem, porque Snape lançou seu enorme corpo no assento imediatamente e ela teve que apertar-se em um canto para evitar seu musculoso ombro. Mesmo assim, no limitado espaço não se podia impedir o contato físico. Ele apoiou a mão inútil em sua coxa, que se apertou descaradamente contra a dela, como o braço supostamente aleijado. Seu calor penetrava o grosso tecido do casaco e a musselina do vestido, e Hermione estremeceu.
— Está cômoda? — perguntou o moreno com zombeteira cortesia.
—Snape, esta carruagem não é suficientemente grande para duas pessoas — respondeu ela com aborrecimento — Está me esmagando.
—Pois sente-se sobre meus joelhos — disse ele.
Resistindo a tentação de apagar o sorrisinho de suficiência em uma bofetada, Hermione se voltou para seu irmão, que continuava brigando com os cavalos.
— Maldição, Al, saia dai! — gritou — É. Quer que eles amassem sua cabeça contra os paralelepípedos?
Snape se pôs-se a rir e deu permissão para os animais partirem; o cunhado retrocedeu apressadamente e se refugiou na segurança da calçada.
Momentos mais tarde, o veículo se precipitava a toda velocidade pelas ruas lotadas do West End. Entretanto, embutida entre o alto assento almofadado do carro e o corpo duro como uma rocha de seu demoníaco prometido, Hermione sabia que não corria perigo de cair. Se enrodilhou no assento e contemplou os corcéis do inferno de seu noivo.
Eram os cavalos de pior gênio que tinha visto em vida. Não paravam de bufar, corcovear e enfrentar-se a todos que se interpunham em seu caminho. Tentavam pisotear os pedestres. Intercambiavam insultos eqüinos com todos os cavalos que viam. Tentaram derrubar postes e corrimões e colidir com todo veículo que tivesse a desfarçatez de compartilhar a mesma rua que eles. Nem sequer ao chegar ao Hyde Park deram amostras de cansaço. Tentaram atropelar os operários que estavam terminando o arco do Hyde Park Corner. Estiveram a ponto de desbocar-se no Rotten Row, onde não estava permitida a circulação de nenhum veículo, salvo os do rei.
Entretanto, não triunfaram em nenhuma de suas diabólicas iniciativas. Embora esperasse até o último momento, Snape sufocou todas as tentativas de descontrole Hermione comprovou, a meio caminho entre a irritação e a admiração, que obtinha obidiência sem o menor esforço, apesar de ter que conduzir com uma só mão.
—Suponho que não teria nenhuma graça se seus cavalos se comportassem como é devido — disse, pensando em voz alta.
O moreno puxou brandamente para direita para evitar que colidisse com a estátua do Aquiles, e fez torcer às satânicas bestas pelo Drive.
—Possivelmente lhes tenha contagiado seu mau humor e se assustaram. Não sabem o que fazer nem aonde ir. Não é mesmo, Lúcifer, Mefistófeles? Têm medo de que lhes dêem um tiro.
As bestas sacudiram a cabeça e responderam com uma malévola risada.
Bem a cara de Snape pôr em seus cavalos apelidos do demônio, pensou Hermione. E os animais mereciam realmente aqueles nomes.
—Você também estaria de mau humor — disse — Se tivesse passado a última semana brigando com listas de convidados, menus para o café da manhã de casamento, provas e um montão de parentes pesadísimos. Também estaria zangado se todos os comerciantes de Londres assediassem sua casa e seu salão parecesse um armazém repleto de catálogos e amostras. Não deixaram de me assediar da manhã que nosso compromisso de casamento apareceu nos jornais.
—Pois eu não estaria de mau humor — replicou —, porque não seria tão tolo para consentir que me incomodassem.
—Foi você que se empenhou no tal casamento suntuoso em St. George, em Hanover Square — disse ela — E depois me deixou sozinha . Nem tentou me ajudar.
— Quem, eu? Ajudar? — perguntou com incredulidade — E para que são os criados, sou boba? Não disse que mande as contas? Se não há ninguém competente na casa para fazê-lo, contrate alguém. Se quer ser uma marquesa rica, por que não atua como tal? As classes trabalhadoras trabalham — explicou com exagerada paciência — As classes altas lhes dizem o que têm que fazer. Não deveria alterar a ordem social. Note no que aconteceu na França. Subverteram a ordem social faz décadas, e o que têm para oferecer agora? Um rei que se veste e se comporta como um burguês, esgotos ao ar livre nos bairros mais elegantes e nenhuma só rua decentemente iluminada, salvo ao redor do Palais Royal.
Hermione ficou olhando.
—Não tinha nem idéia de que fosse um esnobe conservador. Certamente, ninguém o diria, a julgar por seus amigos.
Snape manteve o olhar cravado nos cavalos.
—Se referir às fulanas, tenho que relembrá-la que é pessoal contratado.
A última coisa que Hermione queria era lembrar desse aspecto da vida do noivo. Não queria pensar em como ele se divertia durante as noites nas que ela estava insone na cama, preocupada com a noite de nupcias e por sua falta de experiência e ainda por cima por não ter o tipo rubeniano ao que Snape era tão aficionado.
Com o pessimismo em alta e a certeza de que seu casamento ia ser um desastre, apesar do que dissera Geneviève Hermione não queria pensar se agradaria ou não a Snape na cama. Tinha seu orgulho, e com essa vaidade feminina não podia suportar a perspectiva de não cativar o marido. Qualquer marido, inclusive Snape. Nenhum dos maridos de Geneviève pensara nem sequer por um minuto em procurar diversão em outra parte, nem os amantes que discretamente tivera durante sua prolongada viuvez.
Mas não era o momento de enfrentar um problema de tais proporções , pensou ela. Terei que aproveitar a oportunidade de resolver assuntos mais práticos, como a lista de convidados.
—Sei onde encaixam as mulheres em sua escala social — disse — Mas com os homens é outra história. O senhor Lestrange, por exemplo. A tia Arabella diz que não lhe deveria convidar ao café da manhã de bodas, mas é seu amigo.
—Pois faria muito bem em não convidá-lo — disse Snape, apertando a mandíbula — O bode tentou me espiar quando eu estava com uma prostituta. Se convidar para o casamento pensará que também está convidado para a noite de nupcias. Entre o ópio e o álcool não pode pôr seu aparelho em condições e tem que olhar como funciona o dos outros.
Hermione descobriu que a imagem das galinhas rubenianas contorsionando-se nos joelhos do moreno não a inquietava tanto quanto o que lhe apareceu mentalmente: um homem de um e noventa, nu e excitado.
Em sua idéia do que era a excitação. Tinha visto várias gravuras eróticas do senhor Umfraville. Céus não as tivesse visto, pensou. Não desejava ter uma imagem tão vívida de Snape, fazendo com uma mulher voluptuosa a mesma coisa que os homens das gravuras faziam. Aquela imagem não saia de sua cabeça, descarada como as luzes das festas, lhe revolvia as vísceras, sentia vontade de matar alguém. Não se tratava de simples ciúmes; estava terrivelmente ciumenta, e Snape a tinha reduzido a esse humilhante estado com algumas poucas palavras pronunciadas sem cuidado. Ao imaginar o futuro, via o moreno repetindo aquela cena uma e outra vez, até deixá-la completamente louca.
Hermione sabia que não devia consentir que o fizesse. Não devia sentir ciúmes de suas mulheres. Teria que lhe agradecer, porque ele passaria o menor tempo possível com ela, e ela seria uma mulher da nobreza, rica e livre para levar a vida que quisesse. Repetira essa ladainha mil vezes, desde o dia que a tinha pedido em casamento, como uma tola, abrandou-se.
Sofrer não serviria de nada. Sabia que Snape era um homem espantoso, que a havia utilizado de uma forma atroz, que era incapaz de amar ninguém e que iria casar com ela sobre tudo por vingança e entretanto, queria que desejasse somente ela.
— Por fim consegui escandalizá-la? — perguntou — Ou está zangada? Este silêncio é ensurdecedor.
—Sim, estou escandalizada — replicou Hermione — Não pensava que se importasse que o observassem. Tenho a impressão que você gosta de ceninhas em público.
—Lestrange estava espiando por uma mira — disse — Em primeiro lugar, não suporto os voyers. Em segundo lugar, paguei por uma mulher e não para ela atuar diante de um público. Em terceiro lugar, há certas atividades que prefiro realizar em particular.
Naquele ponto, o passeio começava a virar para o norte, separando-se das bordas do lago de Serpentine. Os cavalos tentaram seguir pela borda, dirigindo-se para um bosque. Snape corrigiu a direção com um gesto delicado, parecendo não dar a maior importância ao que fazia.
—De todos os modos, vi-me obrigado a esclarecer minhas normas com a ajuda dos punhos — acrescentou — É mais provável que Lestrange guarde algum rancor. Não acho, porém que ele descarregue seus sentimento sobre você. É um covarde, um delator e tem a mania de... — calou-se e franziu o cenho — Enfim — continuou, com expressão sombria — não quero que tenha nada a ver com ele.
Hermione demorou alguns momentos para compreender as implicações daquela ordem, e nesse preciso instante o mundo se iluminou um pouco e o coração deu um pequeno salto no peito. Afastou-se o suficiente para observar o imponente perfil do noivo.
—Que barbaridade... É como se quisesse me proteger.
—Paguei por você — replicou com frieza — É minha, e cuido do que é meu. Tampouco deixaria que se aproximassem dele Lúcifer e Mefistófoles.
— Snape! Isso significa que sou tão importante para você quanto seus cavalos? — levou a mão coração — É tão terrivelmente romântico que não sei o que dizer.
Ele lhe dedicou toda sua atenção por uns momentos , e seu sombrio olhar recaiu sobre o lugar onde tinha a mão apoiada. Hermione voltou a pô-la rapidamente no colo. Snape, com o cenho franzido, voltou a fixar-se nos cavalos.
—Isso que veste, como se chama... — disse mal-humorado.
— O casaco? O que foi?
—Que a enchia mais a última vez que a vi — respondeu o moreno — Em Paris. Quando interrompeu minha festa para me aborrecer. — dirigiu os cavalos para uma avenida ladeada de árvores a uns metros ao sul do quartel — Quando me agrediu. Tenho certeza que se lembra. Ou parecia mais ajustado porque estava molhada?
Hermione se lembrava, mas o mais importante era que ele lembrasse com suficiente detalhe para notar uns quilogramas a menos. Seu ânimo se elevou vários graus mais.
—Poderia me atirar a Serpentine para averiguá-lo — disse.
A curta avenida desembocava em um pequeno caminho circular com densa vegetação. As árvores que o rodeavam o isolavam do resto do parque. Em poucos momentos começaria o passeio das cinco e aquela zona, como o resto do Hyde Park, encheria-se de londrinos na moda, mas naqueles momentos estava deserto.
Snape deteve o veículo e pôs o freio.
—Você dois, tranqüilos — advertiu aos cavalos — Se correrem, mando-os de volta a Yorkshire como bestas de carga.
Seu tom, embora baixo, indicava às claras “obediência ou morte”. Os animais responderam como se fossem humanos. No mesmo momento se transformaram nos cavalos mais dóceis e tranqüilos que Hermione tinha visto em sua vida.
Ele voltou a olhá-la com ar taciturno.
—E com respeito a você, senhorita Monstro Granger...
—Eu adoro esses nomes carinhosos — disse a jovem, olhando enternecida para olhos frios do noivo — Boba, cabeça de vento, monstro... Meu coração quase sai do peito!
—Pois mal conseguirá esconder o prazer de ouvir os que tenho guardado — replicou o moreno — Como pode ser tão imbecil? Ou faz de propósito? Olhe-se! — dirigiu esta última palavra ao corpete — A este passo estará só ossos no dia do casamento. Quando comeu como se deve pela última vez? — perguntou.
Hermione supôs que, no dicionário dele, isso equivalia a uma expressão de carinho.
—Não fiz de propósito. Não tem idéia do que significa viver sob o mesmo teto que tia Arabella. Dirige os preparativos do casamento como um general dirige uma guerra. A casa é uma batalha campal desde o dia que chegamos. Poderia deixar que brigassem entre eles, mas eu não gostaria do resultado e você o detestaria. Minha tia tem um gosto espantoso e isso significa que tenho que intervir noite e dia. E como preciso toda minha força de vontade e minhas energias para manter o controle, no fim estou muito zangada e cansada para comer como é devido, inclusive se os criados pudessem preparar algo decente, coisa que não fazem porque também os tem esgotados.
Houve um breve silêncio. Depois Snape, movendo-se um pouco no assento, como se não se sentisse cômodo, disse:
—Certo.
—Disse que devia contratar alguém — inquiriu Hermione — Do que serviria, se também se meteria com eles? Teria que intervir e...
—Sim, sim, entendo — a interrompeu — A questão está aborrecendo. Vou resolver isso. Deveria ter me dito antes.
Ela tirou as luvas.
—Não sabia que estava disposto a matar dragões por mim.
—E não estou — replicou — Mas temos que ser práticos. Vai precisar de todas as suas forças para a noite de nupcias.
—Não vejo por que vou precisar de forças — disse Hermione, tratando de apagar as imagens que surgiam em sua mente e que lhe produziam calafrios na coluna vertebral — A unica coisa que teria que fazer é me deitar.
—Nua — acrescentou friamente.
— Sério? — lançou-lhe um olhar baixo entre as pestanas — Bom, se tiver que fazê-lo, farei-o, porque você tem a vantagem da experiência nestes assuntos. Mas céus me houvesse dito isso antes; não teria feito à costureira trabalhar tanto no conjunto de noite.
— Com o que?
—É terrivelmente caro — disse a jovem — mas a seda é muito delicada e os ilhós ao redor do pescoço maravilhosos. A tia Arabella ficou horrorizada. Diz que só cortesãs usam coisas assim e que não deixam nada para a imaginação — ela o ouviu conter o fôlego e notou a musculosa coxa esticar-se contra o sua — Mas se eu fosse pela minha tia — acrescentou — teria que ir tampada do queixo até os pés com algodão grosso cheio de monstruosidades, lacinhos cor-de-rosa, algo absurdo, porque um vestido de noite deixa muito mais descoberto, e além disso...
— De que cor? — perguntou Snape.
Sua voz grave tinha enrouquecido.
—Vermelho — respondeu — Com fitas estreitas negras trespassadas no decote. Aqui — desenhou um profundo vale sobre o peito — E leva um bordado precioso no... bom, aqui — passou a mão pela curva do seio, a pouco mais de um centímetro dos mamilos — E também tem um bordado no lado direito da saia. Daqui (assinalando o quadril) até a prega. E também comprei...
—Hermione.
Pronunciou seu nome em um sussurro sufocado.
—...sapatos para o jogo. Sapatos negros com...
—Hermione.
Com um furioso movimento jogou as rédeas e subiu bruscamente ela em seus joelhos, O movimento assustou os cavalos, que sacudiram as cabeças, sopraram e começaram a bater as patas agitadamente.
— Basta! — gritou Snape.
Ficaram quietos.
Seu potente braço direito estreitou a cintura delicada e a atraiu para si. Era como estar sentada no palpitante calor de um forno: duro com uma rocha E quente, o corpo de Snape pulsava de tensão. Deslizou a mão sobre o quadril e lhe agarrou a coxa. Hermione ergueu os olhos. Ele olhava, carrancudo e malévolo, sua enorme mão enluvada nela.
—Maldita seja — grunhiu.
A castanha jogou a cabeça para trás.
—Se quiser, devolvo. A camisola.
O furioso olhar negro se cravo na boca de Hermione. Respirava com dificuldade.
—Não, nem pensar — disse.
Então sua boca, dura e faminta, caiu sobre a dela, arrastando-se por seus lábios para castigá-la. Mas o que ela sentiu foi vitória. Notou-a na tensão vibrante do corpo do moreno, que não podia dissimular, e o ouviu com mais claridade que qualquer palavra quando sua língua empurrou impaciente para que lhe permitisse a entrada.
Desejava-a ainda.
Possivelmente não quisesse, mas não podia evitar, como tampouco ela podia evitar desejá-lo. E naquele momento não tinha que fingir outra coisa. Retorceu-se para rodea-lo pelo pescoço com os braços e o agarrou firmemente enquanto ele devastava sua boca. E ela devastava a dele.
Poderiam ter sido dois exércitos enlouquecidos, e o beijo uma batalha entre a vida ou a morte. Ambos queriam o mesmo: conquistar, possuir. Ele não dava seu quartel e ela não queria que o desse. Não se cansava do ardente pecado de sua boca, da abrasadora pressão da mão que percorria seu quadril, reclamando descaradamente o seio.
Também ela reclamava, esfregando com as mãos os enormes ombros, cravando os dedos nos fortes tendões de seus braços. É meu, pensou enquanto o músculos se inchavam com suas carícias. E será meu, jurou enquanto estendia os dedos sobre aquele peito largo e duro. Seria dele e manteria ao seu lado embora fosse sua morte. Podia ser um monstro, mas era seu monstro. Não compartilharia seus tempestuosos beijos com ninguém. Não compartilharia seu magnífico corpo com ninguém.
Apertou-se mais contra ele. Snape ficou tenso e, com um gemido, baixou a mão e lhe agarrou o traseiro, estreitando-a ainda mais. Apesar das luvas de couro e das diversas capas de tecido, o contato com a mão dele cobria sua pele numa onda abrasadora.
Hermione queria senti-las na pele nua; aquelas mãos grandes, sobre seu corpo inteiro. Ásperas ou delicadas, não importava, sempre e quando a desejasse, sempre e quando a beijasse e a acariciasse assim... como se morresse de fome, como ela estava, como se não pudesse saciar-se, como acontecia com ela.
Snape separou sua boca da dela e, murmurando algo que pareciam palavrões em italiano, retirou a cálida mão de seu traseiro.
—Solte-me — disse com voz pastosa.
Sufocando um grito de frustração, Hermione baixou as mãos, deixou-as sobre o colo e ficou olhando uma árvore que havia a sua frente.
O moreno a olhou, furioso e desesperado. Devia ter compreendido que não devia aproximar-se dela nem a um quilômetro de distância. Dentro de treze dias estariam casados, e teria a noite de nupcias e quantas noites desejasse para aplacar seu desejo e acabar com ele. Dizia as mesmo que não importava quanto pudesse aborrecê-lo Hermione enquanto isso. Tinha suportado coisas piores com uma recompensa menor, e sem dúvida poderia suportar algumas semanas de frustração.
Tinha que suportá-lo porque via com muita claridade a outra possibilidade: o marquês de Dain babando e ofegando ante sua futura esposa como um vira-lata faminto atrás do carro de um açougueiro. Ladraria desesperado à porta de sua casa pelo dia e uivaria junto a sua janela de noite. Iria trotando atrás dela a modistas, chapeleiros e sapateiros , e rosnaria e mostraria os dentes ao seu redor nas festas. Estava acostumado a conseguir o que queria no momento em que queria, e a rechaçar ou esquecer-se prudentemente do que não podia conseguir imediatamente. Tinha descoberto que não podia desprezá-la, e como um cão faminto não poderia rejeitá-la.
Deveria ter se dado conta no dia que a conheceu, quando se entreteve tanto na loja do Dervish and Banges, incapaz de afastar os olhos dela. Ao menos teria que ter compreendido o problema no dia que ficou abatido simplesmente por tirar aquela ditosa luva. Em qualquer caso, já não havia forma de evitar a verdade, depois de ter feito ante si mesmo e ante ela uma demonstração tão eloqüente quanto humilhante. Com apenas uma descrição de uma peça de lingerie tinha perdido a cabeça e tinha desejado devorá-la.
— Quer que eu desça de seus joelhos? — perguntou Hermione cortesmente, olhando ainda a árvore a sua frente.
— Você quer? — perguntou, irritado.
—Não. Eu me sinto muito cômoda.
Snape pensou que quem dera ele também se sentisse. Graças a aquele traseiro redondo e pequeno tão comodamente encarapitado em cima dele, a região entre suas pernas estava experimentando as torturas do inferno. Dava-se conta de que a descarga estava a poucos centímetros. Somente teria que voltá-la para ele, levantar as saias e...
E poderia ter estado a mil quilômetros; havia as mesmas possibilidades de que ocorresse, pensou com amargura. Esse era o problema com as damas, um de tantos problemas: não podia ir direto ao assunto quando queria. Terei que cortejar e convencer, e depois fazê-lo em uma cama como é devido. Na escuridão.
—Pois fica — disse — Mas não volte a me beijar. É... uma provocação. E não me fale de sua indumentária noturna.
—Muito bem — replicou Hermione, olhando despreocupadamente a seu redor, como se estivesse sentada a uma mesa tomando o chá — Sabia que a primeira esposa de Crouch se afogou na Serpentine?
— Minha primeira esposa está pensando em fazer o mesmo? — perguntou, olhando-a com inquietação.
—Certamente que não. Geneviéve diz que se matar por um homem é uma estupidez imperdoável. Era só para puxar assunto.
Snape pensou que, apesar da tortura, era muito agradável tê-la sentada nos joelhos, uma dama delicada, que cheirava tão bem, conversando despreocupadamente. Notou que sua boca se distendia em um sorriso. Rapidamente a transformou em uma careta de desagrado.
— Isso significa que num momento deixou de estar zangada?
—Sim. — olhou a mão inútil do noiovo, que tinha deslizado até o assento durante o apaixonado abraço — De verdade, deveria estar com o braço em uma tipóia, Snape, para não bater nele desse modo. Poderia feri-lo gravemente sem perceber.
— Não golpei-o tanto assim — replicou ele, olhando-o com o cenho franzido — E posso lhe assegurar que perceberia. Tenho sensibilidade, como se funcionasse. Mas não funciona. Está aí, imóvel, pendurando. Enfim — pôs-se a rir — Remói a consciência?
—Nem um pouco — respondeu Hermione — Pensei em levar um chicote, mas imagino que não teria notado.
Snape examinou o magro braço dela.
—Necessitaria muito mais músculo para uma coisa assim — disse — E não teria atuado com suficiente rapidez.
Hermione o olhou.
—Teria rido se eu tivesse lhe dado uma chicotada. Riria inclusive se eu esmigalha-se sua pele. Riu depois do disparo?
—Que remédio — respondeu ele sem lhe dar importância — Desmaiei. Que ridículo.
Nesse momento, com a mente clara compreendeu como tinha sido ridículo, enquanto afundava com o olhar nas profundidades dos olhos da noiva. Que absurdo haver-se indignado com ela. A cena no jardim dos Brown não tinha sido obra de Hermione, e começava a suspeitar quem era o responsável. Se o responsável era quem ele pensava, Snape não só se levou de forma abominável, como também imperdonavelmente estúpida. Merecia o tiro, e ela o fizera muito bem. De uma forma dramática. Sorriu ao recordar.
—Tenho que reconhecer que o fez muito bem, Mione.
—Fiz-o estupendamente — replicou ela — Tem que reconhecer: um plano e uma execução perfeitos.
Snape desviou o olhar para Mefistófeles e Lúcifer, que fingiam estar em paz com o mundo, meio dormindo.
—Foi muito bom, agora que o penso. A roupa vermelha e negra... a voz de lady Macbeth...— soltou um risada — E meus valentes camaradas fugindo aterrorizados ao vê-la, como em um chá de senhoras ao ver um camundongo — voltou a olhá-la, divertido — Talvez tenha valido a pena, mesmo que fosse para ver isso. Avery, Nott... todos morto de medos de uma mulherzinha enfurecida.
—Não sou uma mulherzinha — replicou bruscamente — Só porque você é um bruto e um ogro, não tem por que me desdenhar. Para que saiba, senhor Goliás[1], eu sou mais alta do que a média das mulheres.
Snape lhe deu uns tapinhas no braço.
—Não se preocupe, Mione. De todos os modos penso em me casar com você, e já resolvi este problema. Não deve preocupar-se com isso. Para falar a verdade, trouxe algo para provar.
Colocou a mão no profundo bolso da carruagem. Demorou uns momentos em encontrar o pacote que tinha escondido ali, tempo o suficiente para que o coração palpitasse de ansiedade.
Tinha passado três angustiosas horas escolhendo o presente. Preferia que lhe colocassem na roda de tortura a voltar para o número trinta e dois do Ludgate Hill e suportar de novo aquela experiência infernal. Ao fim seus dedos se fecharam sobre a caixinha. Entretanto, o coração não deixava de pulsar rapidamente, nem sequer quando a pôs torpemente na mão da jovem.
—Melhor que você a abra — disse friamente — Com uma só mão é uma confusão.
O olhar dourado de Hermione se voltou rapidamente para a caixa, e a abriu. Houve um prolongado silêncio. O moreno sentiu um nó no estômago e a pele úmida de suor.
— OH! — exclamou ela — OH, Snape!
O terror que sentia se aliviou um pouco.
—Estamos prometidos — disse friamente — É um anel de compromisso.
O atendente do Rundeil and Bridge tinha sugerido coisas horripilantes: uma pedra de aniversário, quando Snape não tinha nem idéia de quando era o aniversário de Hermione; uma pedra que combinasse com seus olhos, quando não podia existir semelhante pedra, semelhante objeto. O mais servil deles incluso tinha tido a ousadia de sugerir uma série de gemas cujas iniciais formavam uma mensagem, como ametista- madrepérola- opala- rubi, que representavam AMOR, e coisas no estilo. Ele tinha estado a ponto de vomitar o café da manhã. Por fim, quando estava virtualmente desesperado de tanto procurar entre esmeraldas, ametistas, pérolas, opalas, aguamarinas e todos os malditos minerais que um ourives podia engastar em um anel.., por fim, depois de ter visto ao menos mil bandejas forradas de veludo, ou isso lhe pareceu, Snape o encontrou. Um só rubi, tão delicadamente singelo que parecia líquido, rodeado de diamantes absolutamente perfeitos. disse-se que não se importava se Hermione gostasse ou não; teria que ficar com ele de qualquer modo.
Tinha sido muito mais fácil fingir quando ela não estava ali, mais fácil de fazer todos acreditarem e inclusive ele mesmo, que tinha escolhido esse anel simplesmente porque era o melhor, mais fácil ocultar em seu estéril coração a verdadeira razão: que era uma comemoração, com um simbolismo sensível como todos outros objetos que tinha sugerido o joalheiro.
Uma gema vermelho sangue para a valente garota que tinha derramado seu sangue. E os diamantes com seus furiosos brilhos, porque a primeira vez que a beijou ziguezagueavam os relâmpagos.
Hermione olhou para ele. Uma brilhante bruma reluziu seus olhos dourados.
—É lindo — disse com doçura — Obrigada — tirou a luva e tirou o anel do estojo — Tem que colocá-lo em meu dedo.
— Ah, sim? — tentou parecer enojado — Uma dessas bobagens sentimentais, suponho.
—Ninguém vai vê-lo — disse Hermione.
O moreno agarrou o anel e o pôs em um dedo; depois retirou rapidamente a mão, por temer que ela notasse o tremor.
A jovem moveu a mão repetidamente e os diamantes lançaram brilhos de fogo. Sorriu.
—Ao menos fica bem — disse Snape.
—Perfeitamente — voltando a cabeça, Hermione lhe plantou um beijo na bochecha e voltou rapidamente para seu assento — Obrigada, Belzebú — disse com grande doçura.
O coração dele encolheu dolorosamente. Agarrou as rédeas.
—Melhor sairmos daqui, antes que comecem a passear os de sempre — disse com voz rouca — Lúcifer, Mefistófeles! Já podem deixar de fingirem de mortos.
Os cavalos eram capazes de agir rapidamente. Um cavaleiro de circo que gostava de atuar os adestrara, respondendo às sutis sinais que Snape tinha demorado três dias para aprender de seu anterior amo. Embora soubessem como fazê-lo, às vezes não recordava a sacudida certa das rédeas ou o tom de voz ao que reagiam os animais, não às palavras. Em qualquer caso, gostara do papel que tinham desempenhado no caminho para o Hyde Park, e o moreno lhes permitiu que voltassem a desempenhá-lo no caminho de volta. Com isso, sua prometida se agarrou a ele e rezou para chegar sã e salva à casa de sua tia.
Como Hermione estava ocupada, Snape pôde dedicar-se recuperar a calma e pôr sua inteligência ao serviço de atar cabos, como deveria ter feito semanas antes.
Havia seis espectadores segundo Potter. O moreno tentou recordar seus rostos. Pettigrew, certamente, totalmente estupefato. McLaggen, o homem que Snape havia lançado seu olhar mortal em público. Dois franceses que recordava haver visto muitas vezes no Vingt-Huit E duas francesas, uma delas desconhecida. A outra era Pansy Parkinson, uma das piores fofoqueiros de Paris... e uma das companhias femininas favoritas do Rodolphus Lestrange.
O que havia dito Hermione aquela noite? Que a fofoca teria abafado se ela não tivesse irrompido na casa de Snape. Mas possivelmente não se teria abafado, refletiu. Talvez tivesse crescido o interesse público por suas relações com a senhorita Granger até alcançar proporções delirantes porque alguém tinha propagado o rumor. Talvez alguém o tivesse fomentado e animado as apostas sabendo que enfureceria o Belzebú. A única coisa que Lestrange precisaria fazer era deixar cair algo no ouvido da pessoa certa. Parkinson, por exemplo. Teria aproveitado a estupenda intriga para fazer campanha, sem necessidade de que a cravassem muito, porque odiava Snape. Então, depois de ter semeado as sementes, Lestrange pôde retirar-se para Inglaterra e desfrutar de sua vingança a uma distância prudencial... e rir com as cartas de seus amigos nas que se detalhavam os últimos acontecimentos do drama entre o Snape e Granger.
Quando lhe assaltou esta suspeita, ao moreno pareceu um exagero, produto de uma mente inquieta. Mas começava a ter sentido, muito mais que qualquer outra explicação. Ao menos explicava por que a enfastiada Paris se obcecou de tal modo com alguns encontros entre um inglês feio e uma inglesa bonita.
Olhou para Hermione, que tentava não ver a atuação de Lúcifer e Mefistófeles no papel de corcéis da morte concentrando-se no anel de compromisso. Não havia tornado a colocar a luva. Movia a mão para cá e para lá, e os diamantes despediam brilhos de arco íris.
Gostara do anel. Tinha comprado uma camisola de seda vermelha, debruada de negro. Para a noite de nupcias. Tinha beijado-o e o tinha acariciado. E não se importara que ele o fizesse também.
A Bela e a Besta. Assim o chamariam Lestrange, aquele bode de língua viperina. Mas daqui a treze dias, a Bela seria a marquesa de Dain e estaria na cama da Besta. Nua. Então Snape faria o que desejava fazer ao que parecia a uma eternidade.
Então seria dele, e nenhum outro homem poderia tocá-la porque lhe pertenceria com exclusividade. Certamente, poderia ter comprado Portugal inteira pelo que estava lhe custando essa “posse exclusiva”. Por outro lado, era de primeira qualidade. Uma dama. Sua dama.
E muito provavelmente, Snape devia tudo ao odioso, rasteiro, corrupto e covarde Rodolphus Lestrange. Em todo caso, não teria sentido, e seria uma perda de energias que devia reservar para a noite de nupcias, agarrar Lestrange e lhe fazer em pedaços. Ou ao contrário, devia lhe agradecer, mas o marquês de Dain não se tornara famoso por sua cortesia. Chegou à conclusão de que aquele porco não merecia.
[1] Quem aí lembra da história de Davi e Goliás?