Gina colocou a camisola que Hermione tinha emprestado e baixou silenciosamente a escada. Encontrou sua amiga na biblioteca, vendo o noticiário das dez.
— Não esperava vê-la até amanhã — disse Hermione com um sorriso, ficando de pé. — Mas, no caso de que tivesse aparecido, preparei uma bandeja com comida para você. Irei trazê-la.
— Houve algo importante no telejornal? — Perguntou Gina incapaz de dissimular o medo que se notava em sua voz.
— Nada a respeito de Harry Potter — tranquilizou Hermione. — Mas advirto que você é o assunto principal tanto nos informes locais como nos nacionais. Refiro-me à notícia de que voltou do cativeiro, aparentemente a salvo e sem ter sofrido nenhum mal.
Quando Gina tirou importância disso, encolhendo-se de ombros, Hermione colocou as mãos na cintura e a olhou sorridente.
— Tem ideia do quanto famosa se tornou?
— Eu diria que me tornei notória — corrigiu Gina , com seu habitual tom amistoso e sentindo-se melhor que em nenhum outro momento dos últimos dois dias.
Hermione assinalou com a cabeça a pilha de jornais e revistas que havia sobre uma mesa, perto da poltrona que ocupava Gina.
— Guardei-os para você, se por acaso quisesse recortá-los e fazer um álbum ou algo pelo estilo. Olhe enquanto eu vou procurar a bandeja. Ou já viu?
— Faz uma semana que não vejo um jornal ou uma revista — confessou Gina, pegando um semanário que estava sobre a pilha e virando-o para ver a capa. — Oh, Deus! — Exclamou entre zangada e risonha ao ver seu rosto na capa da Newsweek debaixo de um título que dizia: "Gina Weasley, sócia ou refém?". Colocou de lado e revisou o resto, surpreendida ao ver sua fotografia na primeira página de jornais e revistas de todo o país.
Hermione retornou com uma bandeja que depositou em frente a ela, em uma mesinha.
— Toda a cidade não faz mais que falar de você — assegurou Hermione. — O prefeito Fudge escreveu um editorial para Hogsmeade onde nos lembra que apesar de tudo o que possam chegar a dizer de você os grandes jornais, aqui nós a conhecemos e sabemos que nunca se "envolveria" com um criminoso como Harry Potter. Acredito que essas foram suas exatas palavras.
Gina sorriu e colocou de lado o jornal.
— Mas você sabe que não é assim. Como me ouviu dizer a Rony e Gui, me "envolvi" com ele.
— Nesse momento, Fudge se referia a declaração do caminhoneiro que afirmava que estava colaborando na fuga de Potter... brincando na neve e tudo isso. Gina — disse, vacilante — quer me falar sobre... Ele?
Ao olhar seu amiga, Gina lembrou das confidências que tinham trocado ao longo dos anos. Tinham a mesma idade e se fizeram íntimas quase no momento em que Rony as apresentou. Quando o casamento de Hermione e Rony acabou, Hermione voltou para a universidade e logo foi viver em Dallas. Até esse momento, negou-se categoricamente a retornar a Hogsmeade, mas ante sua insistência, Gina tinha ido visitá-la com frequência em Dallas. E essa amizade tão especial que havia entre ambas de algum jeito sobreviveu ao tempo e à separação, e seguia sendo tão vital e natural como sempre.
— Acho que preciso falar dele — confessou Gina, depois de um momento de silêncio. — Talvez, assim consiga tirá-lo de dentro de mim e volte a poder pensar no futuro. — E tendo dito isso, elevou as mãos em um gesto indefeso e admitiu: — Nem sequer sei como começar.
Hermione se instalou no sofá, como se tivesse toda a vida por diante, e sugeriu um ponto de partida.
— Como é Harry Potter na vida real?
— Como é? — Repetiu Gina. Permaneceu alguns instantes pensativa, tentando encontrar uma maneira de definí-lo. — É duro, Hermione. Muito duro. Mas também é terno. Às vezes me doía a doçura das coisas que fazia e dizia. — Tentou esclarecer com exemplos o que dizia. — Durante os primeiros dois dias, pensei que seria capaz de me matar se o desafiasse. No terceiro dia consegui fugir em um snowcat que encontrei na garagem...
Três horas depois Gina terminou sua história, tendo contado quase tudo a Hermione, com exceção dos momentos íntimos, que não tratou de ocultar, mas que tampouco falou em detalhe.
Hermione a escutou absorta, interrompendo só para fazer perguntas que clarificariam a situação. Riu das coisas divertidas, ficou estupefata do ciúmes de Harry por Patrick Swayze, e em outros momentos franziu a sobrancelha, às vezes em atitude pormenorizada, outras com desaprovação.
— Que história! — Exclamou quando Gina terminou de falar. — Se não fosse você que me contasse isso, não acreditaria em uma única palavra. Alguma vez comentei que tive um amor feroz por Harry Potter? Depois só pensei nele como em um assassino. Mas agora... — Interrompeu-se como se não pudesse expressar suas ideias com palavras. — Não me surpreende que não possa deixar de pensar nele. Quero dizer que é uma história que não tem final, que de algum jeito ficou ali pendurada, sem terminar. Se Harry for inocente, supõe-se que a história terá um final feliz e que o verdadeiro assassino irá para cadeia. O bom da história é que não deve passar o resto de sua vida sendo açoitado como um animal selvagem.
— Por desgraça esta é uma história da vida real, não um filme — esclareceu Gina com tom sombrio. — E assim terminará esta história.
— Segue sendo um final ruim — insistiu Hermione. — E nisso acaba? — Refrindo-se a última coisa que Gina tinha contado, resumiu: — Ontem, ao amanhecer, levantaram-se, ele a acompanhou até o carro e você foi embora. Isso é tudo?
— Quem dera isso não fosse tudo! — Admitiu Gina com tristeza. — Mas assim foi como quis Harry que terminasse e eu sabia. Por desgraça — adicionou, tentando evitar que sua voz tremesse —, não pude fazer como ele queria. Não só comecei a chorar, mas também terminei piorando dizendo que estava apaixonada por ele. Sabia que Harry não queria ouvir isso, porque já tinha dito na noite anterior e ele fingiu não ter escutado. Ontem foi pior. Não só me humilhei dizendo que o amava, mas também ele... Ele... — Gina se deteve, envergonhada.
— O que fez? — Perguntou Hermione com suavidade.
Gina se obrigou a olhar sua amiga e a falar com voz carente de emoção.
— Sorriu, como um adulto sorri para uma criatura tola, e me informou que eu não o amava, e que só achava isso porque não conhecia a diferença que existe entre o amor e o sexo. Depois me disse que voltasse para casa, que era o lugar onde devia estar, e que me esquecesse por completo dele. Que é exatamente o que penso fazer.
Hermione franziu a sobrancelha, surpreendida.
— Que maneira tão desagradável de se comportar! — Disse com notório desagrado. — Pelo menos considerando o tipo de homem que me descreveu até este momento.
— Também me pareceu desagradável e incrível, sobre tudo porque estava quase segura de que ele também me amava — disse Gina, sentindo-se muito desgraçada. — Às vezes, havia um olhar em seus olhos como se... — Interrompeu-se, furiosa por ter sido tão crédula e prosseguiu com irritação: — Se pudesse voltar a viver a manhã de ontem, fingiria que me fazia feliz poder me afastar dele. Agradeceria a grande aventura que me tinha proporcionado e depois arrancaria com o carro, deixando-o ali parado. Isso é o que devia ter... — Calou-se, imaginou a cena, depois fez um lento movimento negativo com a cabeça. Acabava de dar-se conta de que isso a teria feito sentir-se muito mal. — Isso teria sido tolo e equivocado — disse em voz alta.
— Por quê? Seu amor próprio não estaria tão maltratado se fizesse — assinalou Hermione.
— Sim, mas teria passado o resto da minha vida pensando que talvez ele também podia estar apaixonado por mim, e que se os dois tivéssemos admitido o que realmente sentíamos, quem sabe teria podido convencê-lo de que me levasse com ele e que depois me permitisse ajudá-lo a procurar o verdadeiro assassino — disse Gina em voz baixa. — Me teria odiado por não ter voltado a dizer que o amava, por não ter tratado de modificar o final de nossa história. Saber que Harry não me quis sequer um pouco é duro, e dói, mas o outro jeito teria doído muito mais e durante muito mais tempo.
Hermione a olhou, estupefata.
— Surpreende-me, Gina! É obvio que tem razão em tudo o que disse, mas se eu estivesse em seu lugar, teria demorado dez anos em chegar a ser tão objetiva como você é agora. Quer dizer, considere o que fez esse homem: sequestrou-a, seduziu-a depois de que salvou sua vida, tirou sua virgindade, e por fim, quando disse que estava apaixonada por ele, deu uma resposta arrogante e impertinente e ordenou que você voltasse para sua casa para que enfrentasse só o jornalismo e o FBI. É o mais grosseiro, insensível e...
— Por favor, não siga falando assim — disse Gina, rindo, e levantou uma mão para silenciar a seu amiga. — Porque em qualquer momento me voltarei a zangar e esquecerei o "objetiva" que sou. Além disso — adicionou —, Harry não me seduziu.
— Pela história que acaba de contar, é evidente que a seduziu colocando em jogo todo seu encanto.
Gina olhou para chaminé apagada e balançou a cabeça.
— Eu queria que me seduzisse. Desejava-o desesperadamente.
Hermione permaneceu uns instantes pensativa antes de voltar a falar.
— Se tivesse dito que a queria, teria dado as costas a sua família, a seu trabalho e a tudo o que é e no que acredita, para passar a vida se escondendo com ele?
Antes de responder, Gina olhou sua amiga nos olhos.
— Sim.
— Mas então teria sido seu cúmplice ou como se chama quem ajuda um criminoso!
— Não acredito que uma esposa possa ser julgada por estar com seu marido.
— Meu deus! — Ofegou Hermione. — E o pior é que diz isso a sério! Teria sido capaz de se casar com ele!
— Acho que você é a menos indicada para ficar tão impressionada — assinalou Gina.
— O que quer dizer?
Gina lhe dirigiu um olhar triste e pormenorizado.
— Você sabe o que quero dizer. Agora é a sua vez de se confessar.
— A respeito do quê?
— A respeito do Rony — esclareceu Gina. — Faz um ano que me diz que está desejando conseguir que Rony a escute, porque quer fazê-lo compreender certas coisas. Mas esta noite aceitou com calma todos os comentários desagradáveis que ele fez, e não contestou uma única palavra. Por quê?