Oi, oi povo!!! E aí, ela acertou ou não o tiro...? rsrsrs
Carla Cascão: Eu sei que o Snape é um cabeça dura (aliás, qual nas minhas adaptações não é?) e tudo o mais, mas infelizmente ele tem motivos para pensar assim. Além do mais, ele nunca recebeu atenção de uma moça direita sem segundas intenções (quer dizer, no sentido mal da coisa), tudo isso é novidade para ele, acaba por não saber lidar...
Agora nossa Hermione, vem mostrando desde o começo que não é de levar desaforo para casa, pois pé, nosso morcegão brincou com fogo... Resta saber o que vai acontecer agora...
Pois é, estava esperando um papa de língua portuguesa também, mas não achei ruim esse não. Melhor esse do que o que renunciou, não ia muito com a cara dele não.
Curta bastante o passeio, nos falamos.
Thaiana: Rsrsrs, confesso que estava ansiosa para ler sua reação... Então sobre o tiro, só lendo para saber...rsrsrs
Uma boa leitura e muitos bjs.
*****
O disparo lançou Snape contra o respaldo da cadeira, que caiu no chão junto com ele, com grande estrépito.
Hermione baixou a pistola, soltou o ar que tinha estado contendo, deu meia volta e partiu.
Os espectadores demoraram uns momentos até que seus cérebros compreenderam o que tinham visto seus olhos e escutado seus ouvidos. Durante aqueles momentos, Hermione atravessou o restaurante sem obstáculos, saiu pela porta e desceu a escada.
Pouco depois viu o carro que estava esperando-a e disse ao chofer que a levasse a delegacia de polícia mais próxima. Uma vez ali, perguntou pelo oficial de guarda. Entregou a pistola e contou o que tinha feito. O agente não acreditou. Enviou duas guardas ao Antoine’s e lhe deu um copo de vinho. Os policiais retornaram uma hora depois, com as abundantes nota que tinham tomado no lugar dos fatos e com o conde Riddle.
Riddle disse que tinha ido pô-la em liberdade. Tinha sido um mal-entendido, um acidente. A ferida do marquês de Snape não era mortal; só um arranhão. Não apresentaria cargos contra mademoiselle Granger.
Pois claro que não, pensou Hermione. Perderia a batalha judicial contra ela. Ao fim e ao cabo, estavam em Paris.
—Então, apresentarei cargos contra mim mesma — declarou, com o queixo bem alto — E já pode dizer a seu amigo que...
—Será uma honra lhe transmitir a mensagem que você desejar, mademoiselle — a interrompeu Riddle com tranquilidade — Mas acredito que me comunicará isso mais comodamente em minha carruagem.
—Certamente que não — replicou Hermione — Insisto em que me encarcere, para meu próprio amparo. Assim não poderá me matar para que mantenha a boca fechada. Porque essa é a única maneira que o farei, monsieur — voltou-se para o oficial de guarda — Eu gostaria de redigir uma confissão completa e detalhada. Não tenho nada que ocultar. Eu adorarei falar com os jornalistas que sem dúvida invadirão a delegacia de polícia durante a próxima meia hora.
—Estou seguro de que pode solucionar o assunto a sua plena satisfação, mademoiselle — disse Riddle — Mas recomendo que se acalme antes de falar com alguém.
—Muito sensato — disse o oficial de guarda — Você está muito alterada, e é compreensível. Um assunto do coração.
—Assim é — replicou Hermione, ao mesmo tempo que seu olhar cruzava com o enigmático olhar de Riddle — Um crime passional.
—Sim, mademoiselle. Todo mundo deduzirá isso — disse Riddle — Se a polícia não a deixar em liberdade imediatamente, irromperão mais repórteres. Toda Paris se elevará para resgatá-la e a cidade será puro distúrbio. E estou seguro de que não deseja que morram pessoas inocentes por sua culpa.
Lá fora se ouvia um clamor; o primeiro contingente de jornalistas, pensou Hermione. Deixou que um momento se passasse antes da resposta, para que a tensão aumentasse na sala. Depois encolheu os ombros .
No meio da amanhã Tom estava com Snape, que descansava em um sofá da biblioteca.
Snape estava seguro de que a ferida não tinha importância. . A bala lhe tinha atravessado limpamente o braço, e embora tinha sangrado profusamente, estava acostumado a ver sangue, inclusive o seu, e não deveria ter desmaiado. Mas tinha desmaiado, várias vezes, e cada vez que voltava a si se sentia mais febril. Um médico o visitara, enfaixou a ferida e disse que tinha tido muita sorte.
Era uma ferida limpa. Não se estilhaçara nenhum osso. O dano sofrido pelo músculo e o nervo era insignificante. Não havia risco de infecção. Por conseguinte, Snape não deveria ter febre, mas tinha. Em primeiro lugar começou a arder o braço, e depois o ombro e o pescoço. Naquele momento sentia a cabeça em chamas.
Em meio daquele inferno interior ouviu a voz de Riddle, suave e tranqüilizadora como sempre.
—Naturalmente, ela sabe que na França nenhum jurado a condenaria — disse Riddle — Neste país é mais fácil que um camelo passe pelo olho de uma agulha que condenar uma mulher bonita por um delito que parece relacionado em todos os sentidos com l‘amour.
—Claro que sei — Snape quase cuspiu as palavras — Assim como sei que não o fez em um momento de exaltação. Não viu sua mão? Nem um tremor. Mais fria e firme que todas as coisas. Não estava cegada pela fúria. Sabia exatamente o que fazia.
—Sabe muito bem o que fazia — concordou Tom — Lhe dar um tiro é só o princípio. Tem intenção de transformar o ato em um espetáculo. Irá fazer disso um espetáculo, ante um tribunal se conseguir o julgamento no que se empenhou, ou nos periódicos se não conseguir, todos e cada um dos detalhes. Diz que repetirá tudo o que lhe disse e que descreverá detalhadamente tudo o que fez.
—Em outras palavras, exagerará e trocará as palavras para obter seu objetivo — replicou Snape, furioso ao compreender que a única coisa que ela diria era a verdade. Mas como, ante os olhos do mundo, reduziria lorde Belzebú a um pobre colegial apaixonado, babento e suarento. Seus amigos cairiam de risada, com suas suscetibilidades, inclusive em italiano.
Hermione recordaria o som das palavras — acaso não era tão versátil em latim? — e faria uma boa imitação, porque era inteligente... e vingativa. E então todos os abafados segredos, seus sonhos e fantasias seriam traduzidos do francês ao inglês... e ao cabo de pouco tempo, em todas as línguas conhecidas pela humanidade. Imprimiriam essas palavras sobre sua cabeça em caricaturas; levariam a teatro farsas do episódio. E isso seria somente uma parte do que teria que suportar; Snape sabia. Só teria recordar que a imprensa tinha posto Byron no pelourinho doze anos antes.., e o poeta tinha sido um modelo de retidão social em comparação ao marquês de Dain, Além disso, Byron não era repugnantemente rico, aterradoramente maior e feio nem exasperantemente poderoso.
Quanto mais grandes, mais dura a queda, e mais gostava ao mundo vê-los cair.
Snape compreendia muito bem como funcionava o mundo. Via claramente o que lhe proporcionava o futuro. Também o via a senhorita Hermione Granger, sem dúvida. Por isso não lhe tinha matado. Queria assegurar-se de que ele padecesse as torturas do inferno em vida. Sabia que sofreria, porque lhe tinha acertado no único lugar no qual podia lhe fazer dano: seu orgulho.
E se Snape não pudesse suportar — e sabia que não poderia —, sem dúvida obteria satisfação em particular. Obrigaria-o a arrastar-se.
No meio do fogo infernal que lhe percorria a metade do corpo, sua cabeça começou a martelar.
—Será melhor que negocie com ela diretamente — disse. Tinha a língua pesada e falou arrastando ás palavras — Negociar. Dizer que... — tragou saliva. Sua garganta também ardia —. Os términos... dizer...
Fechou os olhos e tentou encontrar as palavras sua mente dando voltas, mas não as encontrou. Sua cabeça era um monte de metal vermelho vivo sobre o que um ferreiro infernal martelava, amassando seu intelecto e seus pensamentos, reduzindo-os a um nada. Ouvia a voz de Riddle, de muito longe, mas não compreendia o que dizia. Então o martelo satânico descarregou um golpe terrível que o deixou inconsciente.
Consumido pela enfermidade febril que não deveria estar padecendo, Snape se debateu entre a consciencia e a inconsciência durante os quatro dias seguintes. Na manhã do quinto dia despertou por completo, mais ou menos recuperado, tinha desaparecido a aguda queimação. Entretanto, não podia mover o braço esquerdo. Pendurado, inútil, junto ao flanco. Tinha sensibilidade, mas não podia fazer nada com ele.
Voltou o médico, examinou-lhe, murmurou pensativo, moveu a cabeça e disse:
—Não encontro nada de mau.
Avisou a um colega dele, que tampouco encontrou nada anormal, e depois a outro, que diagnosticou o mesmo. A última hora da tarde, Snape tinha visto oito médicos e todos lhe disseram o mesmo. A essas alturas, Snape estava fora de si. Levava quase todo o dia submetido a inspeções, interrogatórios e murmúrios, e tinha gasto um montão de dinheiro nos honorários dos médicos... para nada. Para alcançar o cúmulo, minutos depois de que se foi o último médico ruim chegou um estagiário do advogado. O mordomo entregou o recado que tinha deixado justo quando Snape estava tentado servir um copo de vinho. Com o olhar cravado na nota, que estava em uma bandeja de prata, não acertou com o vinho e o derramou sobre a bata, as sapatilhas e o tapete oriental.
Lançou uma série de imprecações —além da bandeja de prata, que foi parar contra a cabeça do pobre mordomo—, saiu feito uma fúria do salão e entrou em seu dormitório, onde sua raiva chegou ao limite ao tentar abrir e desdobrar a nota com uma só mão. Era tal sua cólera.
Pouco era o que terei que ver. Segundo a nota, o senhor Harry J. Potter desejava encontrar-se com o advogado de sua senhoria em nome da senhorita Hermione Granger.
As vísceras de Snape se retorceram.
Potter era um famoso advogado de Londres com uma ampla clientela de capitalistas expatriados em Paris. Era também um baluarte de retidão: incorruptível, leal e infatigável ao serviço de seus clientes. Como muitas outras pessoas, Snape sabia que sob a aparência piedosa do advogado se abatia uma armadilha com mandíbulas e dentes de aço que pegaria qualquer tubarão desavisado. A armadilha estava destinada fundamentalmente aos homens, porque Potter era um valente cavalheiro ao serviço do sexo frágil. Não lhe importava que as leis estivessem por completo do lado masculino e que uma mulher, a efeitos práticos, não tivesse direitos sob essa lei nem nada que pudesse considerar dele, nem sequer os filhos. Harry criava os direitos que acreditava que deviam ter as mulheres, e estava acostumado a sair-se com a sua. Nem sequer Rodolphus Lestrange, aquele porco trapaceiro, podia tocar nem um quarto dos ganhos de sua mulher, graças a Potter.
Isso se devia a que quando um sujeito exigia muito, o método de Potter consistia em submeter ao pobre imbecil a uma interminável corrente de advogados e pequenos litígios, até que o pobre imbecil acabava afundando-se de puro esgotamento, arruinado pelas costas, ou o levavam uivando a um manicômio.
Definitivamente, a senhorita Granger não só iria fazer que ele se arrastasse, mas também tinha contrado para este trabalho sujo Potter, que faria tudo legalmente sem deixar escapatória possível para Snape.
“Não existe animal mais invencível que uma mulher, nem fogo nem fera tão implacável”, dizia Aristófanes.
Implacável. Desumana. Diabólica.
—Nem pensar — murmurou Snape — Não vai fazer negócios com intermediários, filha do demônio.
Amassou a nota, fez uma bola e a atirou à chaminé. Depois se dirigiu a passos largos ao escritório, agarrou uma folha de papel, rabiscou uma resposta e chamou a gritos seu criado.
Na nota dirigida ao senhor Potter, Snape declarava que se reuniria com a senhorita Granger na casa de seu irmão às sete daquela tarde. Não estava disposto, como solicitava Harry, a enviar seu advogado para que se reunisse com o da senhorita Granger, porque, segundo o que escreveu, o marquês de Dain não tinha a menor intenção de que “tomassem juramento, fizessem-o assinar e o sangrassem por poderes”. Se a senhorita Granger tinha suas próprias condições, que as ditasse em pessoa. Se isso não fosse conveniente, convidava-a a enviar seu irmão a ele, quem com muito gosto resolveria o assunto a uma distância de vinte passos... neste caso com ambos os combatentes armados.
Ante a última sugestão, Hermione decidiu que o melhor seria que Al passasse a noite em outro lugar; ainda não sabia nada do ocorrido.
Quando Hermione voltou da delegacia de polícia encontrou seu irmão sofrendo as dolorosas conseqüências do álcool que tinha consumido no baile de lady Brown. Com o organismo debilitado por meses de dissipação, tinha sucumbido a uma tremenda dispepsia e não pôde levantar-se até a hora do chá do dia anterior.
Nem sequer nas melhores circunstâncias se podia confiar em suas funções cerebrais. Naqueles momentos o esforço de compreender a conduta anômala de Snape poderia desencadear uma recaída, se não uma apoplexia. E um pouco igualmente importante: Hermione não se atrevia a correr o risco de que Alonso fosse atrás de Snape com a errônea idéia de vingar sua honra.
Geneviéve estava de acordo com ela e, em conseqüência, levou Al para jantar a casa do duque Longbottom. Podia confiar que o duque não abriria a boca. Afinal, tinha sido ele quem aconselhou a Hermione que não abrisse a sua até que falasse com um advogado. Também era o duque quem pagava os honorários de Harry. Se Hermione não tivesse aceitado, Longbottom teria intervindo pessoalmente ante Snape. Aquela oferta esclareceu o que Hermione desejava saber sobre os sentimentos do nobre francês por sua vó Geneviéve.
Assim, às sete Al já partira. No salão só estavam Hermione e o senhor Potter, de pé ante uma mesa alta com um montão de documentos, quando Snape entrou resolutamente.
Dirigiu a Potter um olhar de desprezo e depois cravou seus sardônicos olhos de obsidiana em Hermione.
—Madame —disse, com uma leve inclinação de cabeça.
—Milorde —disse ela, com uma inclinação até mais leve.
—Com isto já cumprimos o que pede a boa educação — continuou ele — Pode proceder à extorsão.
O senhor Potter apertou os lábios, mas não disse nada. Agarrou os papéis da mesa e os deu ao moreno, que se dirigiu a uma janela. Deixou os papéis no largo batente, tomou o que estava em cima e o leu pausadamente. Quando acabou, deixou-o e agarrou o seguinte.
Passaram os minutos. Hermione esperava, cada vez mais inquieta. Por último, quase meia hora mais tarde, Snape afastou a vista dos documentos que deveria ter demorado muito menos tempo em ler
—Perguntava-me como pensava em jogar isso — disse a Potter — Deixando de lado latinismos e legalismos, reduz-se a uma demanda por difamação se não solucionar o assunto em particular segundo suas exorbitantes condições.
—As palavras que você pronunciou e que puderam ouvir outras seis testemunhas só podem interpretar-se de uma maneira, milorde — disse Potter — Com essas palavras destruiu o crédito social e econômico de meinha cliente. Graças a você, será impossível casar-se ou ganhar a vida respeitavelmente. Transformou-a em uma pessoa a margem da sociedade em que foi educada e a que legitimamente pertence. Por conseguinte, verá-se obrigada a viver exilada de seus amigos e seus entes queridos. Terá que construir uma nova vida.
—Sei. E eu terei que pagar essa vida — replicou Snape — Desculpar as dívidas de seu irmão, que sobem a seis mil libras — Olhou os documentos — Mantê-la ao preço de duas mil libras ao ano e... ah, sim. Aqui diz algo sobre assegurar e manter uma residência.
Passou umas páginas e caíram várias. Foi então quando Hermione se deu conta de que não utilizava a mão esquerda, e que o braço estava em uma postura estranha, como se lhe acontecesse algo. Não teria que ser assim, já que se tratava de uma pequena ferida de bala. Tinha apontado com cuidado, e era uma atiradora exímia. E além disso, ele um alvo enorme.
Snape dirigiu o olhar para ela e a surpreendeu olhando-o fixamente.
— O que, apreciando sua obra? Suponho que gostaria de vê-la mais de perto mas, infelizmente, não há nada que ver. Não há nada, segundo os médico, salvo que não funciona. Entretanto, considero-me sortudo porque não apontou mais abaixo, senhorita Granger. Fiquei-me sem braço, não sem virilidade. Mas não me cabe dúvida de que Potter se encarregará da castração.
A consciência Hermione começou a remoe-la, mas fingiu nada sentir.
—Tem e terá precisamente o que merece, bruto embusteiro e rancoroso.
—Senhorita Granger — disse Potter amavelmente.
—Não vou me calar — replicou ela — Sua senhoria queria que eu estivesse presente porque quer briga. Sabe muito bem que está enganado, mas é muito cabeça dura para reconhecer. Quer que pareça uma mulher, calculadora, rancorsosa, dissimulada e...
—Vingativa — a interrompeu Snape — Não se esqueça de vingativa.
— Vingativa eu? — exclamou Hermione — Não fui eu quem forjou tudo para proporcionar a maior fofoca de toda Paris enquanto estava meio nua e me levava, tola fui eu, à perdição.
Snape arqueou ligeiramente as sobrancelhas.
— Não quererá dar a entender que eu preparei essa farsa, senhorita Granger?
— Não tenho que dar a entender nada! Salta à vista. Pettigrew estava ali, e é seu amigo. E outros... esses repugnantes membros da sofisticada sociedade parisiense... Sei que preparou tudo para que presenciassem minha vergonha. E sei por que. Fez por rancor. Como se tudo o que ocorreu, todas as fofocas e as imperfeições de sua maravilhosa reputação fossem minha culpa!
Fez-se um silêncio breve, tenso. Depois, Snape atirou outros papéis no tapete, dirigiu-se à licoreira e se serviu uma taça de xerez. Só precisava uma mão para fazê-lo e só um gole para esvaziar a taça. Quando voltou aonde estava Hermione, tinha recuperado o irritante sorriso zombador.
—Achei que era você quem tinha preparado a... interrupção.
—Não fico surpresa — replicou Hermione — Você também parece influenciado pelo mal-entendido de achar que é um excelente partido... além de me confundir com uma louca. Se estivesse desesperada para conseguir marido, e nem o estou e nem estarei nunca, não teria que recorrer a estratagemas tão antigas e penosas. — Erguendo-se, acrescentou —: Posso lhe parecer uma velha solteirona , mas lhe asseguro que sua opinião é minoritária, milorde. Estou solteira porque quero, não por falta de ofertas.
—Mas a partir de agora não terá nenhuma — replicou Snape. Seu sardônico olhar a percorreu prazosamente de cima abaixo, e a Hermione se sentiu trêmula — Graças a mim. E é por isso todo esse ato!
Deixou a taça vazia e se voltou para Potter.
—Como danifiquei a mercadoria, tenho que pagar o que você considera seu valor, ou me enterrará sob um montão de documentos, acossará-me com advogados e me obrigará a suportar inacabáveis meses de litígios.
—Se as leis considerassem as mulheres à devida luz, o processo não seria inacabável — replicou Potter, determinado — O castigo seria severo e rápido.
— Mas vivemos em tempos de ignorância — disse Snape — E, como lhe corroborará a senhorita Granger, eu sou o mais ignorante dos homens. Entre outras curiosas crenças, sustento a antiquada idéia de que se pago por algo, deveria ser meu. Como ao que parece não tenho outra opção a não ser pagar pela senhorita Granger...
—Não sou um relógio de bolso — interveio Hermione com tensão. Pensou que não deveria sentir ansiosa por que aquele pedaço de esterco presunçoso propor arrumar as coisas fazendo-a sua amante — Sou um ser humano e nunca me possuirá, por mais que pague. Pode ter destruído minha honra a olhos do mundo, mas não o destruirá de fato.
Snape ergueu uma sobrancelha.
— Destruí sua honra? Estimada senhorita; Granger, o que me proponho é restabelecê-la. Casaremo-nos. Vamos ver. por que não se senta, fica quieta como uma boa garota e deixa os homens resolver os detalhes?
Hermione ficou alguns momentos atordoada, sem compreender, até que aquelas palavras lhe entraram na cabeça, como um golpe. O escritório escureceu e tudo começou a mover-se, como se estivesse tonta. Teve que se esforçar para concentrar-se
— Nos casar?
Sua voz soou longínqua e débil.
—Potter exige que a tire dos apuros de seu irmão e que a mantenha e dê alojamento por toda a vida — disse Snape — Bem. Aceito, mas com as mesmas condições que imporia qualquer outro homem: propriedade exclusiva e direitos de reprodução.
Seu olhar carregado recaiu sobre o corpete de Hermione, que notou um calor que se estendia por toda parte, como se, em lugar de com os olhos, ele a tivesse percorrido com suas mãos.
Hermione conseguiu recuperar a calma.
—Já entendo o que quer. Não é uma verdadeira oferta, e sim uma estratégia para nos atar de pés e mãos. Sabe que não podemos lhe processar se oferecer essa reparação, supostamente honorável. Também sabe que não vou casar com você. Assim pensa que nos tem no point non plus.
—Efetivamente — disse Snape sorrindo — Se se nega a casar-se comigo e tenta meter-se em litígios, a única coisa que conseguirá será humilhar-se. Todo mundo pensará que é uma prostituta, uma caça-dotes.
—E se aceitar sua falsa proposta de matrimônio, continuara jogando até o último momento e me deixará plantada diante do altar — disse Hermione — E de todos os modos ficarei humilhada.
Snape pôs-se a rir.
— Para iniciar uma demanda por descumprimento de promessa, longa e custosa? Para facilitar o trabalho de Potter? Pense bem, Hermione. É muito simples. Ou casamento ou nada.
A jovem agarrou a primeira coisa que viu, um cavalinho de bronze pequeno mas muito pesado.
O senhor Potter se aproximou dela.
—Senhorita Granger, rogo-lhe que resista a tentação — disse com discrição.
—Igualmente — disse Snape — Não servirá de nada. Posso esquivar de um projétil, quanto mais de um que não é uma bala.
Hermione deixou a estatueta e se voltou para Harry.
—Viu-o, não? — disse — Não oferece nada, porque acha que não me deve nada. O que quer é aproveitar-se de mim, e se se aproveita também de você ao mesmo tempo, desfrutará ainda mais.
—Pouco importa o que você pense de mim — disse o moreno — Só há duas possibilidades. E se está esperando que o faça mais suportável caindo de joelhos a seus pés para lhe pedir a mão, pode esperar até o dia do Julgamento, Hermione.
Ela reconheceu o tom e as palavras. Já os tinha ouvido antes, nas fanfarronadas e as brincadeiras dos meninos, aquela nota discordante de insegurança oculta sob as risadas. Reconsiderou rapidamente as palavras que tinha pronunciado Snape e pensou se isso seria simplesmente o que seu orgulho lhe permitia dizer. O orgulho masculino é um objeto extremamente frágil e valioso. Por isso os homens constróem uma fortaleza a seu redor desde da mais tenra infância.
Não tenho medo, diziam os meninos, renda-se, quando na verdade estavam mortos de medo. riam quando lhes davam de açoites e fingiam não sentir nada. Também jogavam roedores e répteis no colo das meninas que estavam apaixonados e riam com a mesma insegurança quando estas saíam correndo e chiando.
A proposta de matrimônio dele era possivelmente o equivalente ao presente do réptil ou o roedor. Se ela o rechaçava indignada, ele riria e diria que isso era precisamente o que queria.
Mas possivelmente não fosse isso.
Hermione teve que recordar-se que esse “possivelmente” não constituía base suficientemente sólida para um casamento. Por outro lado, Geneviéve tinha aconselhado-a que jogasse o anzol e não tinha mudado de opinião nem sequer naquela manhã, depois de haver se informado de todo o ocorrido. “Já sei que sua conduta é abominável, e não a critico por haver lhe dado um tiro — disse — mas compreenda que lhe interrompeu precisamente no momento que a um homem mais desagrada ser interrompido. Não pensava racionalmente. Não podia fazê-lo. De todos os modos, acredito que se importa com você. Não parecia tão insolente e cínico enquanto dançava contigo.”
—Ou matrimônio ou nada. — a impaciência na voz dele interrompeu os pensamentos de Hermione – São essas as condições, as únicas condições. Você decide, Hermione.
Snape tentava convencer-se de que tanto fazia para ele a resposta. Se Hermione aceitasse, ao menos ele poderia exorcizar seu absurdo desejo em troca da exorbitante quantidade que teria que pagar. Depois a deixaria em Devon e voltaria para sua vida normal. Se se negava, não lhe daria nenhuma libra; ela partiria e deixaria de acossá-lo e ele esqueceria seu desejo e dela. De uma forma ou de outra, ele ganharia e ela perderia. Mas seu coração continuava pulsando com força e suas vísceras se contraíam, presas de um medo que não experimentava desde a adolescência.
Apertou a mandíbula, contendo-se, enquanto observava Hermione, que, afastando-se de Potter, dirigia-se para uma cadeira. Não se sentou. ficou olhando-a fixamente; seu formoso rosto não mostrava nenhuma emoção.
Potter franziu o sobrecenho.
—Possivelmente precise de alguns minutos a sós para pensar, senhorita Granger. Não resta dúvida de que sua senhoria será tão amável de concede-los — disse dirigindo o carrancudo olhar para o moreno — Afinal, o que está em jogo é o futuro da dama.
—Não preciso de mais tempo — replicou de forma calma — É fácil para mim calcular as vantagens e os inconvenientes para cada uma das partes — Olhou para Snape, que ficou atônito ao ver que sorria — A perspectiva de uma vida em meio a pobreza e a escuridão em um reduto da civilização é francamente desagradável. Não me ocorre nada mais absurdo que viver assim pelo simples feito de manter meu orgulho. Prefiro ser marquesa, e rica. Snape, você é absolutamente repugnante, e não me resta dúvida de que fará de tudo para destroçar minha vida. Entretanto, o senhor Potter se encarregará para que tenha mais que suficiente no sentido material. Além disso, proporcionará-me certa satisfação pessoal o fato de saber que terá que engolir até a última gota suas desdenhosas palavras sobre os homens que caem em armadilha de casamento ou enredos amorosos com mulheres respeitáveis. Eu gostaria de espiar por um buraquinho quando anunciar seu compromisso ao seus amigos, senhor Belzebú.
Snape ficou olhando-a, sem querer aceitar o que ela havia dito.
—A resposta é sim — disse Hermione, com certa impaciência — Se acha que sou uma imbecil, que vou dizer não para que você possa sair imune?
Ele recuperou a voz e disse:
—Já sabia eu que era esperar muito.
Hermione se aproximou dele.
— O que vai dizer a seus amigos, Snape? Que casar é melhor que me ter atrás de você e com a arma em punho? Suponho que sim. — Tocou de leve a manga da jaqueta, e com aquele pequeno gesto ele sentiu uma dolorosa opressão no peito — Deveria usar uma tipóia — acrescentou Hermione — Além disso, teria menos possibilidades de se machucar.
—A tipóia estragaria a queda da jaqueta — replicou o moreno friamente — E não preciso explicar nada.
—Seus amigos vão ridicularizá-lo sem piedade. Daria algo para vê-lo — insistiu.
—Anunciarei nosso compromisso esta noite, no Antoine’s — disse Snape — E que façam o que quiserem. Não me importa o que pensem aqueles tarados. Enquanto isso, aconselho que faça as malas rapidamente. Potter e eu temos assuntos que discutir.
Hermione ficou tensa.
— Por que fazer as malas?
—Vamos para a Inglaterra depois de amanhã — disse — Eu me encarrego dos preparativos da viagem. Casaremos em Londres. Não gostaria que uma multidão invada Dartmoor e espante o gado. Podemos partir para Devon depois do café da manhã de casamento.
Os olhos da Hermione se escureceram.
—Não, nem pensar — disse — Podemos nos casar aqui. Ao menos poderia me permitir que desfrutasse de Paris uma temporada, antes de me exilar em Devon.
—Casaremos no St. George, em Hanover Square — replicou o moreno — dentro de um mês. Prefiro morrer que suplicar ao maldito arcebispo do Canterbury uma licença especial. Lerão-se as proclamas. E enquanto isso poderá desfrutar de Londres. Não vai ficar em Paris, ou seja, tire essa idéia da cabeça.
A idéia de que a marquesa de Dain vivesse naquele buraco da rua do Rivoli que ele chamava sua casa o deixava de cabelos em pé. Sua esposa não iria senta-se à mesa em que a metade dos degenerados de Paris tinham comido e bebido até ficar doentes... e vomitado sobre tapetes e móveis. Não bordaria nem leria junto à chaminé de um salão que tinha albergado orgias que até os romanos invejariam.
Anotou mentalmente que tinha que comprar um colchão novo para a ancestral cama de Devon e ordenar que se queimassem a roupa de cama e as cortinas que havia. Não queria que a marquesa de Dain se poluísse com os objetos que foram usados com Holly Golightly.
—Passei meus piores momentos em Paris, graças a você — disse Hermione, com seus olhos dourados soltando faíscas — Ao menos poderia deixar que o compensasse. Não achei que partiríamos hoje mesmo, mas acredito que poderia me permitir que fosse a festas e desfrutasse de minha honra recentemente restabelecida...
—Pode ir a festas em Londres — a interrompeu Snape — Celebraremos um café da manhã de casamento apoteótico. Pode comprar todos os vestidos e ninharias que queira. Que infernos importa onde esteja, sempre e quando eu pague as contas?
— Como pode ser tão insensível? — exclamou Hermione — Não quero que me tire de Paris como se fora um segredo vergonhoso.
— Um segredo? — Snape ergueu a voz —. No St. George, em Hanover Square? Acaso pode ser mais público e respeitável este casamento? — olhou Potter, que estava junto à mesa, colocando papéis em sua carteira de couro, com uma estudada expressão de ser alheio à briga — Potter, possivelmente você possa explicar que terrível delito cometerei com um casamento em Londres.
—Esta disputa não é de minha competência — disse Harry — Como tampouco o é o número de convidados nem nenhum dos desacordos que normalmente suporta um compromisso. Terão que negociá-lo sozinhos.
Snape pensou que já tinha agüentado suficientes “negociações” aquele dia. Não tinha chegado ali com a intenção de casar-se com a causadora de sua dor de cabeça, Ao menos não conscientemente. Tinha dito sobre o casamento porque não suportava ver-se encurralado, acossado e vencido por uma solteirona vingativa e seu diabólico advogado, ou isso era o que pensava. Até que fez a proposta não se deu conta o quanto lhe importava a resposta de Hermione. Não tinha se dado conta até então do aborrecido e deprimente que seria Paris e as semanas e os meses vindouros depois que ela partisse... para sempre.
Embora Hermione tivesse aceito, ele continuava angustiado porque ainda não era dele e poderia escapar. Mas seu, orgulho não lhe permitia ceder. Ceda um centímetro a uma mulher e se tomará um quilômetro. Devia começar como tinha intenção de continuar, disse-se, e tinha intenção de ser o amo de sua casa. Ninguém o dirigiria. Não ia mudar por ninguém, nem sequer por ela. Snape dava as ordens; outros obedeciam.
—Cara — disse. Seus olhares se cruzaram; o dela era cauteloso. Ele agarrou sua mão — Faça as malas — disse com suavidade.
Ela tentou se soltar. Snape a soltou, mas o fez somente para poder rodear sua cintura com o braço são, levantá-la do chão, estreitá-la contra si e pregar sua boca a dela.
Tudo passou em questão de segundos. Hermione não teve tempo de resistir. Um beijo rápido, ardente... Deixou-a no chão e a soltou. Ela retrocedeu alguns passos, ruborizada.
—Essa é toda a negociação que há, Hermione — disse, apressando-se a apagar o calor e o apetite que tinha provocado nele aquele abraço muito curto — Se continuar discutindo, acharei que quer mais.
—Muito bem. Que seja em Londres... mas isso vai lhe custar caro, Snape — disse Hermione, deu a volta — Senhor Potter, não tenha piedade dele. Se o que quer é obediência cega, não poderá sair barato. Exijo uma autêntica dinheirama para meus gastos. Meus próprios veículos e cavalos. Faça-o gritar, senhor Potter. Se não bramar e o chutar como um elefante enlouquecido, pode estar seguro de que não está exigindo o suficiente.
—Estou disposto a pagar muito dinheiro por uma obediência cega — replicou Snape com um sorriso malvado — Começarei a fazer uma lista de ordens esta noite mesmo. — Fez-lhe uma estranha reverência —. Até depois de amanhã, senhorita Granger.
Ela lhe devolveu a reverência.
—Vá para o inferno, Snape.
—Ali acabarei, não me cabe dúvida. — Olhou para o advogado — Pode ir ver-me amanhã às duas com seus documentos do demônio, Potter.
Sem esperar resposta, saiu com ar despreocupado da habitação.