O motor do Blazer estava em marcha, e do cano de escapamento surgia um vapor espesso que se perdia no ar gélido do amanhecer. Gina e Harry estavam de pé junto ao automóvel.
— O relatório meteorológico não anuncia nevadas — disse Harry, levantando o olhar para observar o leve rosado que tingia o céu. Colocou um recipiente térmico cheio de café sobre o assento do passageiro. Olhou para Gina com expressão séria. — Acredito que terá o caminho livre de neve até o Texas.
Gina conhecia as regras dessa separação, porque ele as tinha esclarecido essa manhã — nada de lágrimas nem de lamentos — e fazia enormes esforços por conservar uma aparente compostura.
— Dirigirei com cuidado.
— Não corra — recomendou ele. Estendeu a mão, subiu-lhe mais o fechamento do blusão. Esse simples gesto esteve a ponto de fazê-la chorar. — Você dirige muito rápido.
— Prometo que não correrei.
— Tente se afastar todo o possível daqui sem que a reconheçam — voltou a recordar Harry. Em seguida tirou da mão dela os óculos escuros e os colocou. — Uma vez que tenha cruzado a fronteira de Oklahoma, entra na primeira pista de estacionamento que encontre. Permaneça fora da vista de todo o mundo durante quinze minutos, e depois se encaminhe ao telefone público e chame a sua família. Os federais estarão escutando a conversa, de maneira que trate de simular que está nervosa e confusa. Diga que a deixei na pista de estacionamento, deitada no piso do automóvel, com os olhos enfaixados, que desapareci e que portanto está livre. Diga que está dirigindo para sua casa. E quando chegar, não fuja da verdade.
Ele tinha levado um cachecol da casa, atada como se tivesse estado atada ao redor da cabeça da Gina, e a jogou dentro do carro. Gina assentiu e tragou com força porque já não restava nada que fazer ou dizer... Pelo menos nada que Harry quisesse ouvir.
— Alguma pergunta? — Disse ele. Gina balançou a cabeça. — Muito bem, agora me dê um beijo de despedida.
Gina ficou nas pontas dos pés para beijá-lo e se surpreendeu quando Harry a abraçou com força inusitada, mas seu beijo foi breve. Logo a afastou de si.
— Já é hora.
Gina assentiu, mas não pôde se mover e se concentrou em sua resolução de não fazer nenhuma cena desagradável.
— Escreverá para mim, verdade?
— Não.
— Mas pelo menos poderia me fazer saber como está — insistiu ela com desespero —, embora não possa me dizer onde se encontra. Tenho que saber se estiver a salvo! Você mesmo disse que não vigiarão muito tempo minha correspondência.
— Se me capturarem, você saberá em seguida pelos noticiários. Se não, saberá que estou a salvo.
— Mas por que não pode me escrever? — Explodiu ela, e imediatamente lamentou ao ver a face pétrea de Harry.
— Nada de cartas, Gina! Hoje, no instante em que for embora daqui, tudo terá terminado. O nosso relacionamento terá terminado. — As palavras lhe doeram como chicotadas, embora não havia maldade alguma no tom de Harry. — Amanhã pela manhã, reatará sua antiga vida do ponto em que a deixou. Simule que nada disto aconteceu, e esquecerá tudo em poucas semanas.
— Talvez você possa esquecer, mas eu não — disse Gina, odiando o tom choroso e lacrimogêneo de sua voz. Balançou a cabeça para negar o que acabava de dizer e se virou para o carro secando com fúria as lágrimas. — Vou seguir me comportando como uma tola — disse com voz abafada.
— Não! — Exclamou ele, e tomou um braço para detê-la. — Assim não! — Gina o olhou nos olhos e pela primeira vez não esteve tão segura de que fosse fácil para ele essa despedida. Harry apoiou uma mão contra a bochecha dela, separou-lhe uma mecha de cabelo da face e falou com tom solene. — A único coisa tola que fez durante a última semana foi... Gostar muito de mim. Todo o resto que fez e disse esteve... Bem. Foi perfeito
Gina fechou os olhos, lutou contra as lágrimas, enterrou o rosto na mão de Harry e beijou a palma como ele tinha beijado uma vez a sua.
— Eu o amo tanto! — sussurrou.
Harry retirou a mão de um puxão e respondeu com voz condescendente e divertida.
— Você não me ama, Gina. É pura e inexperiente e não conhece a diferença entre o sexo e o verdadeiro amor. E agora ouça bem, vai para sua casa, que é onde deve estar, e me esqueça. Isso é exatamente o que quero que faça.
Ela teve a sensação de que acabava de lhe dar uma bofetada, mas seu orgulho ferido a obrigou a elevar o queixo.
— Tem razão — disse com tranquila dignidade enquanto subia no carro. — É hora de voltar para a realidade.
Harry observou o automóvel enquanto se afastava e desaparecia na primeira curva do caminho. Permaneceu no mesmo lugar muito depois de que Gina se fosse, até que o vento gelado por fim o lembrou que estava à intempérie e sem casaco. Acabo de ferí-la, pensou, mas tive que fazê-lo, recordou-se enquanto se encaminhava à casa. Não podia permitir que ela desperdiçasse um só instante de sua preciosa vida amando-o ou sentindo saudades ou esperando-o. Ao ridicularizar seu amor tinha feito o único correto e nobre.
Entrou na cozinha, pegou a cafeteira e se aproximou de um armário em busca de uma caneca. Nesse momento viu sobre a mesa a caneca que tinha usado Gina nessa manhã. Estirou a mão com lentidão, pegou, e apertou a beirada contra sua bochecha.
n/a: e agora quem quer bater no Harry... Espero que estejam gostando, não deixem de comentar. Bjus!!!