Depois de ter sugerido a ideia, de repente Gina decidiu fascinar Harry e dedicou mais de uma hora para arrumar-se. Seu cabelo era uma qualidade que possuía em abundância e como Harry sem dúvida prestava especial atenção nele, lavou, secou e logo o penteou de uma forma tal que lhe emoldurasse o rosto e lhe caísse em ondas naturais sobre os ombros e as costas. Satisfeita de ter feito com isso todo o possível, tirou a bata e colocou um vestido de um tom azul cobalto que, no cabide, parecia um suéter longo até o piso, de saia estreita, blusa ampla e mangas largas com punhos de satín e resplandecentes botões de cristal azul. Logo quando o colocou e levou as mãos à costas para fechá-lo, deu-se conta de que não tinha zíper. Apesar de ter um amplo pescoço na frente, esse pescoço caía em drapeados sobre os ombros deixando ao descoberto as costas. A enganosa simplicidade do desenho, junto com o modesto decote e as costas descobertas, conferia ao modelo uma beleza irresistível que fazia Gina sentir-se realmente bonita. Mas se afastou do espelho, vacilante, sem saber se devia usar um modelo tão caro... Que era de outra.
Mas compreendeu que não tinha alternativa. Devia colocar um vestido longo, porque não tinha meias e se negava a usar a roupa interior de outra mulher. Com exceção desse vestido, todos os outros que haviam no armário eram excessivamente elegantes. Além disso, a proprietária dessa roupa era decididamente mais alta que ela, coisa que limitava suas possibilidades de escolha. Em vista da situação, Gina se mordeu os lábios, decidiu usar esse maravilhoso vestido azul, e em silêncio pediu desculpas à desconhecida proprietária desse esplêndido guarda-roupa.
Uma segunda requisição do armário proporcionou um par de sandálias azuis que eram meio número maiores que o que ela calçava, mas que ficavam perfeitamente cômodas. Satisfeita de ter feito todo o possível com o que tinha a seu alcance, retocou o cabelo e dirigiu um último olhar a sua imagem no espelho.
Tinha demorado mais em vestir-se para o "encontro" dessa noite do que demorou para arrumar-se para o casamento de seus dois irmãos, nos quais foi dama de honra. Mas decidiu que havia valido a pena. Os cosméticos de nome estrangeiro que colocou essa noite eram muito distintos dos baratos que ela comprava na farmácia de Hogsmeade. A sombra e o rímel realçavam seus olhos, e o toque de blush com que coloriu suas bochechas fazia que seus maçãs do rosto parecessem mais altas e proeminentes. Além disso a perspectiva de passar uma noite agradável com Harry lhe iluminava os olhos, que estavam resplandecentes. Inclinou-se para aplicar-se um pouco de seu próprio lápis labial; logo retrocedeu, sorriu para sua própria imagem no espelho e se encaminhou para a porta do dormitório. Decidiu que de algum jeito encontraria a direção dessa casa e que enviaria um cheque para cobrir os gastos dos cosméticos que usou e a limpeza em tinturaria da roupa que tinha tomado emprestada.
Quando fez sua entrada na sala, as velas já estavam acesas sobre a mesa. O fogo crepitava na chaminé e Harry estava ocupado abrindo uma garrafa de champanhe. Gina conteve o fôlego ao ver o quanto estava bonito, com uma roupa azul marinho, camisa branca e gravata de várias cores. Estava para fazer um comentário quando lembrou que já o tinha visto vestido assim antes, mas naquela vez, a roupa que usava era dele, e sentiu uma pontada de dor ao pensar em tudo o que ele tinha perdido. Na vez anterior o tinha visto pela televisão, durante a entrega de prêmios da Academia Cinematográfica, quando entregou um Oscar e logo voltou a subir ao cenário para receber o que davam a ele como Melhor Ator. Nessa oportunidade luzia um smoking negro com camisa branca e gravata negra, e Gina lembrou ter pensado quão maravilhoso estava tão alto e elegante.
Ao pensar que nesse momento devia ocultar-se como um animal açoitado e usar roupa alheia, teve vontade de chorar. Mas enquanto pensava nisso, Gina se deu conta de que Harry nunca se queixava e que não agradeceria sua compaixão nem sua lástima. Como se supunha que essa seria uma noite alegre e despreocupada, Gina decidiu fazer todo o possível para que assim fosse. Já decidida, adiantou-se com certo acanhamento.
— Olá! — Saudou com um brilhante sorriso.
Harry levantou o olhar e, ao vê-la, o champanhe que servia começou a derramar-se por sobre a beira da taça.
— Meu Deus! — Exclamou em um sussurro rouco e admirado, percorrendo com os olhos o rosto, o cabelo e o corpo de Gina. — Como é possível que tenha tido ciúmes de Glenn Close?
Até esse momento Gina não se deu conta do motivo que a tinha levado a colocar um vestido elegante, a maquiar-se e a pentear-se de uma maneira diferente. Mas nesse momento soube: queria competir com as mulheres que ele tinha conhecido em sua vida anterior.
— Está derrubando o champanhe — disse com suavidade, tão contente que não sabia como comportar-se.
Harry amaldiçoou em voz baixa, endireitou a garrafa e procurou um pano para secar o móvel molhado.
— Harry?
— O quê? — Perguntou ele por sobre o ombro, enquanto tomava as taças.
— Como é possível que tenha tido ciúmes de Patrick Swayze? — Seu repentino sorriso lhe demonstrou que ele estava tão contente pelo cumprimento como tinha estado ela pelo seu.
— Com franqueza, não sei — brincou.
— Que cantores escolheu? — Perguntou Gina, depois de comer, ao ver que ele colocava discos no som. — Porque se escolheu o Mickey, negarei-me a dançar com você.
— É óbvio que dançará!
— Por que está tão seguro?
— Porque sei que você gosta de dançar comigo.
Apesar do diálogo brincalhão, Gina tinha se dado conta de que à medida que transcorria a comida, Harry estava cada vez mais deprimido. Embora ele pediu com claridade que tentasse converter essa noite em uma ocasião festiva, havia uma tensão indefinível em suas feições que se marcava mais à medida que transcorria a noite.
Gina se disse que a conversa da tarde sobre o assassinato devia ser a causa desse estranho estado de ânimo de Harry, porque a única outra explicação possível que lhe ocorria era que estivesse pensando em enviá-la de retorno a sua casa, e isso era algo que resultava intolerável. Apesar de seus desejos de permanecer com ele, Gina sabia que a decisão não seria dela. E apesar de estar apaixonada por Harry, não tinha a menor ideia do que ele sentia por ela, além de que gostava de tê-la perto. Pelo menos ali.
Do som, a voz de Barbara Streisand iniciou os primeiros acordes de uma canção intensamente romântica, e Gina voltou a tratar de sacudir seus temores ao ver que Harry lhe abria os braços.
— Decididamente essa não é a voz do Mickey — assinalou.
— Gosta da Barbara?
Gina assentiu.
— É minha cantora favorita.
— A minha também — disse Harry, tomando-a pela cintura e aproximando-a de si.
— Se eu tivesse uma voz como a dela — disse Gina, tentando esquecer seus temores —, cantaria nada mais que para me escutar. Cantaria ao atender a porta e ao responder o telefone.
— É fenomenal — concordou Harry. — Há dúzias de sopranos de ópera, mas Barbara é... Única, incomparável.
De repente Gina se deu conta de que a mão de Harry lhe percorria as costas; notou que seus olhos se acendiam e em seu interior sentiu que voltava a arder o desejo... A necessidade da doçura atormentadora do contato com seu corpo, da tormentosa insistência de seus beijos, e do prazer que produzia quando Harry a possuía. Era emocionante saber que teria tudo isso antes de que a noite chegasse a seu fim, e poder saborear e prolongar o momento. Sabia que ele estava fazendo o mesmo. Mas seguirei tendo tudo isto na noite de amanhã e a de depois de amanhã?, perguntou-se, tratando de conter o pânico que lhe provocava o estado de ânimo sombrio de Harry.
Gina escutou as palavras da canção e se perguntou se ele também as estaria escutando ou se, como a maioria dos homens, escutava a música e ignorava a letra.
— É uma bonita canção — disse, porque queria desesperadamente que ele escutasse a letra como se estivesse dizendo ela.
— Tem uma letra muito bonita — confirmou Harry, tratando de acalmar-se, dizendo-se que o que sentia nesse momento se apagaria muito em breve, assim que estivesse longe de Gina. De repente a olhou e sentiu que a letra dessa canção lhe cravava no coração.
Essas manhãs que esperam no profundo de seus olhos... No mundo de amor que guarda em seus olhos... Eu despertarei o que dorme em seus olhos. Talvez te roube um beijo ou dois. Ao longo de toda minha vida... Verão, inverno, primavera e outono de minha vida... Quão único recordarei de minha vida, é toda minha vida. Contigo.
Harry se sentiu aliviado quando a voz de Streisand se apagou e começou a ressonar o dueto Whitney Houston/Jermaine Jackson. Mas Gina escolheu esse momento para separar a bochecha de seu corpo e olhá-lo, e quando a olhou nos olhos e escutou a letra da canção, Harry sentiu uma opressão no peito.
Como vela que arde brilhante... O amor resplandece em seus olhos. Uma chama para nos iluminar o caminho que arde cada dia mais luminosa. Eu era palavras sem música. Eu era uma canção ainda não entoada. Um poema sem rima, um bailarino fora de tempo... Mas agora está você. E ninguém me ama como me ama você.
Quando terminou a canção, Gina lançou um suspiro tremente, e ele se deu conta de que tentava quebrar o feitiço da música falando de temas corriqueiros.
— Qual é seu esporte favorito, Harry?
Harry lhe levantou o queixo.
— Meu esporte favorito — disse em uma voz tão rouca que ele quase não reconheceu como sua própria — é fazer amor com você.
Os olhos de Gina se obscureceram, com um amor que já não tentava ocultar.
— Qual é sua comida favorita? — Perguntou, tremente.
Como resposta, Harry inclinou a cabeça e lhe tocou os lábios em um beijo suave.
— Você.
Nesse momento se deu conta de que tirá-la de sua vida no dia seguinte seria mais difícil do que foi ouvir as portas da cadeia se fecharem atrás dele. Sem dar-se conta do que fazia, rodeou-a com seus braços, enterrou o rosto em seu cabelo e fechou os olhos.
Ela cariciou-lhe a face com uma mão e perguntou:
— Pensa me mandar embora amanhã, verdade?
— Sim.
Ao perceber seu tom decidido, Gina , que já conhecia tão bem, soube que seria inútil discutir, mas de todos os modos, tentou.
— Eu não quero ir!
Harry levantou a cabeça, e embora falou com suavidade, Gina notou que sua voz era muito firme e decidida.
— Não faça isso mais difícil do que já é.
Desolada, Gina se perguntou como era possível que fosse mais difícil, mas engoliu o protesto inútil e, no momento, fez o que ele pedia. Deitou-se com ele quando Harry pediu, e tentou sorrir quando ele pediu. Depois de que ambos tiveram um orgasmo tremendo, ela se virou em seus braços e sussurrou:
— Amo você. E...
Ele cobriu sua boca com a ponta dos dedos, silenciando-a quando tentou voltar a dizê-lo.
— Não diga.
Gina separou o olhar e baixou a cabeça, cravando a vista no peito de Harry. Desejou que também ele dissesse, embora não sentisse. Queria ouví-lo pronunciar essas palavras, mas não pediu porque sabia que ele se negaria.