Ao amanhecer do dia seguinte, quando Gina se levantou, as chaves do Blazer estavam sobre a cômoda e na casa reinava um silêncio quase espectral. A dor da noite anterior se converteu em uma espécie de insensibilidade, e se vestiu quase sem dar-se conta do que fazia. Quão único queria era ir-se dali e não voltar a olhar para trás, nunca olhar para trás. Esquecer tudo. Toda sua atenção estava centrada nisso, em esquecer que tinha conhecido Harry e que foi o suficientemente tola para apaixonar-se por ele. Se o amor significava converter-se em um ser tão vulnerável, não queria voltar a se apaixonar nunca. Tirou sua bolsa do armário, meteu nela suas coisas e a fechou.
Ao chegar à porta do dormitório se deteve e olhou ao redor, para assegurar-se de não ter esquecido nada. Logo apagou a luz. Abriu a porta em silêncio e saiu para a sala escura. Então se deteve em seco, paralisada de impressão e de medo. Na aquosa luz cinza do amanhecer conseguiu ver a silhueta de Harry contra a janela, de costas para ela, com a mão esquerda dentro do bolso da calça. Gina apertou o olhar e observou em silêncio a porta de saída, mas antes de que pudesse dar outro passo, Harry falou sem se virar.
— A lista de todos que estavam no set no dia do assassinato está sobre a mesa de centro.
Gina ignorou o repentino nó que tinha se formado em seu peito ao dar-se conta de que depois de tudo, Harry tinha cedido, e se obrigou a seguir caminhando para a porta.
— Não vá! — Suplicou ele com voz rouca. — Por favor!
Ante o tom desesperado de Harry, o coração de Gina se retorceu, mas seu orgulho ferido gritou que só uma tola, insensata e sem dignidade permitiria que ele se aproximasse depois do que tinha feito na noite anterior, e seguiu caminhando. Quando estirou o braço para pegar o trinco da porta traseira, a voz de Harry chegou até ela desde muito perto. Estava afogado de emoção.
— Gina! Não, por favor!
A mão de Gina se negou a fazer o trinco girar, seus ombros começaram a ser sacudidos por violentos soluços e teve que apoiar a cabeça contra a porta, com a face banhada em lágrimas. A bolsa deslizou-se de suas mãos. Chorava de vergonha por sua falta de força de vontade, e por medo a um amor que não conseguia controlar. E enquanto chorava por si mesma, permitiu que ele a abraçasse e a apoiasse contra seu peito.
— Sinto muito — sussurrou Harry, enquanto fazia desesperados esforços por consolá-la, acariciando-lhe as costas, sustentando-a com força. — Peço que me perdoe! Por favor, me perdoe!
— Como pôde fazer aquilo comigo ontem à noite? — Soluçou ela. — Como pôde?
Harry tragou com força e levantou a face de Gina para a sua, porque queria que o olhasse.
Considerava que não merecia o amparo do anonimato quando admitisse sua culpa.
— Fiz porque me chamou de assassino e covarde, e não pude suportar... Resultou-me insuportável, vindo de você. E fiz porque, assim como disse, sou um cretino insensível.
— É verdade, você é! — Exclamou ela, abafando-se com as palavras. — E o horrível é que o amo apesar de tudo!
Harry voltou a tomá-la em seus braços e lutou por conter as palavras que ela queria ouvir, as palavras que expressavam o que sentia. Mas em lugar de pronunciá-las, espremeu-a contra si, beijou-lhe a testa e as bochechas, apoiou o queixo contra seu cabelo cheiroso e permitiu que as palavras de Gina o banhassem com sua doçura. Aos trinta e cinco anos acabava de descobrir o que era ser amado por si mesmo e não por razões alheias... O que era ser amado quando não podia corresponder oferecendo fortuna, nem fama, nem sequer respeitabilidade... O que era ser amado de uma maneira incondicional, por uma mulher de extraordinária coragem e lealdade. Nesse momento sabia, com tanta segurança como sabia que se chegasse a dizer o que ele sentia por ela, esses seriam os motivos que a fariam esperá-lo durante anos depois de que desaparecesse. Mas mesmo assim, não podia permitir que sua doce confissão passasse sem um só comentário, então esfregou a bochecha contra o cabelo de Gina e, com infinita ternura, disse-lhe outra verdade.
— Eu não mereço, meu amor.
— Já sei que não merece — brincou Gina, chorosa, negando-se a deixar-se deprimir porque ele não disse que também a amava. Acabava de perceber em sua voz uma enorme emoção e a tortura que lhe causava que ela fosse embora. Havia sentido como a apertava entre seus braços, e como palpitava seu coração dentro do peito quando ela disse que o amava. E isso bastava. Tinha que bastar. Fechou os olhos quando Harry acariciou-lhe a nuca em um gesto sensual, mas quando por fim falou, sua voz tinha um tom de tremendo cansaço.
— Consideraria a possibilidade de voltar para a cama comigo durante algumas horas, e pospor nossa conversa sobre o assassinato até que tenha dormido um pouco? Passei toda a noite acordado.
Gina assentiu e se encaminhou com ele ao dormitório que nunca achou voltar a ver.
Harry ficou dormindo em seus braços e com a bochecha apoiada contra seu peito.
Sem poder dormir, Gina permaneceu olhando-o, enquanto brincava com o cabelo suave de sua têmpora. Notou que o sono não lhe suavizava as feições, possivelmente porque nem dormindo encontrava paz. Tinha sobrancelhas escuras e grossas, e de repente se deu conta de que também suas pestanas eram espessas e muito escuras. Quando Gina trocou de posição para que ele estivesse mais cômodo, Harry apertou instantaneamente os braços ao seu redor... Sem dúvida para impedir que fosse embora. O gesto possessivo inconsciente a fez sorrir pelo desnecessário. Não tinha a menor intenção de fugir dali. Amava Harry com uma feroz necessidade de protegê-lo que a fazia sentir-se forte, sábia e maternal; amava-o com um desespero que a levava a sentir-se indefesa, frágil e completamente sujeita a seu controle.
E amava todos esses sentimentos, por tensionantes que fossem. O futuro era um atalho que não figurava nos mapas, cheio de perigos e censuras. Gina se sentia em paz e em perfeita harmonia com todo o universo.
Apoiou uma mão contra a face de Harry e o balançou com gesto protetor. Depois apoiou os lábios contra o cabelo escuro dele.
— Amo você — sussurrou.