Sentados juntos no sofá, com as pernas estiradas, os pés apoiados sobre a mesa de centro e cobertos por uma manta tecida, Gina olhou a parede de vidro do outro lado da sala. Estava deliciosamente extenuada depois da tarde ao ar livre, de uma comida deliciosa e de ter feito amor com Harry sobre o sofá. Até nesse momento, muito depois de ter terminado de fazer amor e quando ele estava enfrascado em seus pensamentos, com o olhar cravado no fogo, ele a abraçava, com a cabeça apoiada sobre seu ombro como que desfrutasse de tê-la perto e poder tocá-la.
No entanto, Harry pensava que nunca se cansava de estar com Gina, na cama ou fora dela, e para ele essa era uma experiência sem precedentes. Gina encaixava na curva de seu braço como se tivesse sido feita para ele; na cama era de uma vez só um anjo e uma cortesã. Era capaz de fazê-lo remontar até alturas incríveis de paixão com um som, um olhar, um contato. Fora da cama era divertida, fascinante, esperta, teimosa e inteligente. Enfurecia-o com uma palavra e em seguida o desarmava com um sorriso. Era inconscientemente sofisticada, nada pretensiosa, e estava tão cheia de vida e de amor que o hipnotizava.
Ele era nove anos mais velho e mil vezes mais duro que ela, e entretanto havia algo em Gina que o suavizava e obtinha que gostasse de ser suave, e ambas as coisas eram também experiências novas para ele. Antes de ser condenado, as mulheres o acusavam de ser algo, desde distante e inalcançável até frio e cruel. Várias mulheres haviam dito que parecia uma máquina e uma delas levou a analogia a uma definição: disse que o sexo o acendia e que logo se apagava por completo, exceto com seu trabalho. Durante uma das frequentes discussões que mantinha com Cho, ela disse que era capaz de encantar uma serpente e que era tão frio como um desses ofídios.
— Harry?
O simples som da voz de Gina, tinha um efeito mágico sobre ele; na boca dela, seu nome soava especial, diferente.
— Hmmm?
— Tem conciência do pouco que sei a respeito de você, apesar de que tenhamos... Er... somos...? — Gina se interrompeu, sem saber se usar a palavra amantes seria pretender muito.
Harry percebeu sua tímida incerteza e sorriu porque pensou que possivelmente estivesse procurando alguma palavra formal e decorosa — e portanto completamente inapropriada — para descrever a paixão que compartilhavam, ou uma palavra que definisse o que eram um para o outro.
— O que preferiria — perguntou sorrindo —, uma palavra ou uma frase completa?
— Não seja tonto. Eu estou qualificada para ensinar educação sexual em todos os níveis educativos.
— Então qual é o problema? — Perguntou Harry, rindo.
A resposta de Gina fez desaparecer sua risada, deixou-o sem fôlego e o derreteu por completo.
— De algum jeito — disse ela, estudando as mãos que tinha entrelaçadas sobre a saia —, um termo clínico como troca sexual me parece equivocado para descrever algo que é tão... Tão doce quando nós o fazemos. E tão profundo.
Harry apoiou a cabeça contra o encosto do sofá e fechou os olhos, em um esforço por tranquilizar-se, enquanto pensava por que seria que ela exercia um efeito tão tremendo sobre ele. Instantes depois conseguiu falar em voz quase normal.
— E o que você acha da palavra amantes?
— Amantes — aceitou ela, assentindo repetidas vezes. — O que estava tentando explicar era que, embora somos amantes, não sei nada de você.
— O que você gostaria de saber?
— Bom, para começar: Harry Potter é seu verdadeiro nome ou colocou esse quando começou a ser ator?
— Meu nome é realmente Harry. Potter é meu nome do meio. O transformei no principal quando completei dezoito anos.
— Sério? — Ela virou a cabeça e sua bochecha suave acariciou o braço dele quando levantou o rosto para olhá-lo. Até com os olhos fechados ele percebia esse olhar, adivinhava seu sorriso cheio de curiosidade, e enquanto esperava a pergunta inevitável, Harry recordou outras coisas.
"Eu nunca o teria recusado, Harry. Como se atreve a sugerir que eu consideraria a possibilidade de dizer a alguém que me violou! Troca sexual me parece um termo equivocado para descrever algo que é tão... tão doce quando nós o fazemos. E tão profundo."
A voz de Gina se interpôs em suas lembranças.
— Qual era seu sobrenome antes de que mudasse por Potter?
Era exatamente a pergunta que Harry esperava, e que jamais tinha respondido.
— Dursley.
— Que sobrenome tão lindo! Por que mudou? — Gina notou que Harry endurecia o queixo, e quando abriu os olhos a surpreendeu a expressão de dureza que viu neles.
— É uma longa história — respondeu.
— Ah! — Exclamou ela. E decidiu que devia ser uma história desagradável, de maneira que no momento era melhor não insistir no assunto. Decidida a distrai-lo, disse o primeiro que lhe passou pela cabeça. — Já sei uma quantidade de coisas sobre sua juventude, porque nessa época meus irmãos mais velhos eram seus admiradores.
Harry a olhou, com plena consciência de que Gina tinha sufocado sua natural curiosidade com respeito a sua "longa história", e isso colocou um manto de calidez sobre o frio que o percorreu ao pronunciar o sobrenome Dursley.
— Ah! Então eram meus admiradores? — Perguntou em tom de brincadeira.
Gina assentiu, aliviada ao ver que sua mudança de tema tinha dado tão bons resultados.
— E como eram, sei que cresceu só, que viajou pelo país com rodeios e enlaçando bezerros, que viveu em ranchos e que foi domador de cavalos... Disse algo engraçado?
— Arrisco arruinar suas ilusões, princesa — disse Harry, morto de risada —, devo dizer que essas histórias foram produtos do departamento de publicidade do estúdio, integrado por gente de uma imaginação desenfreada. A verdade é que prefiro passar dois dias sentado em um ônibus antes que duas horas sobre o lombo de um cavalo. E que se houver algo no mundo que me desgoste mais que os cavalos, são as vacas. Quer dizer, os bezerros.
— E você? — perguntou Harry, tomando sua taça de vinho, em uma tentativa de distraí-la e evitar a seguinte pergunta inevitável. — Nasceu com o sobrenome Weasley ou mudou para esse?
— Eu não nasci com sobrenome.
Harry deteve a taça que estava a meio caminho da boca.
— O quê?
— Na realidade me encontraram dentro de uma caixa de papelão, colocada sobre um balde de lixo em um beco, envolvida em uma toalha. O porteiro que me encontrou, me levou lá dentro e entregou a sua esposa para que me fizesse entrar em calor e pudessem me levar a um hospital. O homem achou que era justo que tivesse o nome de sua esposa, que cuidou de mim nesse dia, e por isso me chamaram Gina.
— Meu Deus! — Disse Harry, tentando não demonstrar quão horrorizado estava.
— Tive sorte! Podia ter sido muitíssimo pior.
Harry estava tão espantado que não conseguiu ver o brilho divertido dos olhos de Gina.
— Como?
— A mulher do porteiro podia ter um nome como Mathilda. Ou Gertrude. Ou Wilhimena.
Ele sentiu que voltava a acontecer, essa maneira tão peculiar como lhe espremia o coração, essa estranha dor que sentia dentro do peito cada vez que ela sorria assim.
— De todos os modos a história teve um final feliz — disse, tentando tranquilizar-se, coisa que a essa altura das circunstâncias era ridícula, até nele. — Os Weasley a adotaram, não foi? — E ao ver que ela assentia, concluiu: — E eles encontraram uma linda bebezinha a quem amar.
— Não exatamente.
— Como? — Voltou a perguntar ele, sentindo-se estúpido e atordoado.
— O que os Weasley receberam foi uma garota de onze anos que já tinha tentando embarcar-se em uma vida de crime nas ruas de Chicago... Ajudada por alguns meninos um pouco maiores que ela que a ensinaram certas... Mutretas. Na realidade — adicionou alegremente —, é provável que tivesse tido uma carreira muito ilustre. — Levantou uma mão e balançou um de seus longos dedos antes de explicar: — Tinha dedos muito velozes. Pegajosos.
— Roubava?
— Sim, e me prenderam quando tinha onze anos.
— Por roubar? — Perguntou Harry com incredulidade.
— É obvio que não! — Exclamou Gina com ar ofendido. — Era muito rápida para que me surpreendessem roubando. Me prenderam acusada de cúmplice.
Harry ficou olhando-a. Por ouvi-la falar da rua, teve vontade de sacudir a cabeça para esclarecer as ideias. E entretanto, sua imaginação, que o permitira converter-se em um excelente diretor de cinema, já começava a trabalhar, visualizando-a como provavelmente devia ter sido de garota: pequena e fina pela má alimentação, com um rosto de maroto dominada por esses olhos enormes... O queixo teimoso... O cabelo curto e mau cuidado... Disposta a enfrentar o mundo duro e cruel... Disposta a desafiar a um ex-prisioneiro... Disposta a mudar de ideia e ficar a seu lado, desafiando tudo o que era e tinha aprendido, porque agora acreditava nele...
Tomado pela risada, ternura e surpresa, Harry lhe dirigiu um olhar de arrependimento.
— Acabo de me deixar levar pela imaginação.
— Não tenho dúvida! — Respondeu ela, sorrindo.
— O que estava fazendo quando a polícia a pegou?
Fez um olhar largo e divertido.
— Alguns meninos maiores que eu estavam me fazendo o favor de ensinar uma técnica que teria sido útil com você. Mas ontem, quando tentei com o Blazer, não consegui lembrar onde colocar o quê.
— Perdão? — Disse Harry, sem entender.
— Ontem tentei fazer o Blazer andar, fazendo uma ponte.
A gargalhada de Harry ricocheteou no céu e antes de que Gina pudesse reagir, tomou-a em seus braços e enterrou a face em seu cabelo, morto de risada.
— Deus me ajude! – Sussurrou. — Só me podia ocorrer sequestrar à filha de um pastor que ainda por cima soubesse fazer um carro andar fazendo uma ponte!
— Estou segura de que poderia conseguir se não fosse que cada dois minutos tivesse que aparecer na frente dessa janela — informou Gina, e as gargalhadas do Harry se intensificaram. — Meu Deus! — Exclamou ela de repente. — Ao invés de tanta confusão, devia ter tentado roubar o que você levava no bolso! — A gargalhada de Harry quase abafou sua frase seguinte. — Se tivesse adivinhado que tinha as chaves do carro no bolso da calça, juro que teria feito isso em um segundo. — Feliz de comprovar que era capaz de fazê-lo rir tanto, Gina apoiou a cabeça contra o peito de Harry e assim que ele deixou de rir, disse: — Agora é a sua vez. Onde cresceu na verdade, se não foi em fazendas e essas coisas?
Harry levantou o rosto dela para que o olhasse.
— Em Godric Hollow, Pennsylvania.
— E? — Perguntou Gina, confusa e com a estranha impressão de que para ele significava algo especial ter respondido essa pergunta.
— E — adicionou ele, olhando os olhos intrigados de Gina —, os Dursley são donos de uma importante fábrica que, há mais de um século, constitui a coluna vertebral da economia de Godric Hollow e de várias comunidades próximas.
Ela balançou a cabeça, desgostada.
— Foi rico! Todas essas histórias a respeito de seu infância solitária, de que teve que ganhar a vida no circuito dos rodeios... São completamente desonestas. E meus irmãos acreditaram!
— Perdão por ter enganado seus irmãos — disse ele, rindo de seu olhar de indignação. — A verdade é que, até que li em uma revista, não sabia do que tinham inventado sobre mim no departamento de publicidade, e então era muito tarde para desdizê-los e... Nessa época isso não teria feito nenhum bem. De todos os modos, fui embora de Godric Hollow antes de fazer dezenove anos, e depois disso, consegui viver por minha conta.
Gina morria por lhe perguntar por que foi embora de sua casa, mas no momento se concretizou a perguntar o mais importante.
— Tem irmãos e irmãs?
— Tive dois irmãos e uma irmã.
— Por que diz "tive"?
— Suponho que por uma quantidade de coisas — respondeu Harry com um suspiro, voltando a apoiar a cabeça contra o encosto do sofá.
— Se por algum motivo prefere não falar disso, não é necessário que faça — disse Gina , sensível a suas mudanças de ânimo.
Harry sabia que ia contar tudo, mas preferia não analisar os mil sentimentos que o obrigavam a fazê-lo. Nunca sentiu necessidade nem vontade de responder essas mesmas perguntas quando Cho as fez. Mas nunca tinha confiado nela, ou em nenhum outro, algo que podia causar dor. Talvez tivesse a sensação de que devia essas respostas a Gina, posto que já tinha contado tanto. Abraçou-a com mais força e ela se aproximou, apoiando a cabeça contra seu peito.
— Até hoje, nunca falei disso com ninguém, embora Deus sabe que me perguntaram isso uma infinidade de vezes. Não é uma história muito interessante, mas se minha voz soar estranha, é porque é muito desagradável e porque me sinto um pouco estranho falando disto pela primeira vez em dezessete anos.
Gina permaneceu em silêncio, surpreendida e adulada ao comprovar que confiava tanto nela.
— Meus pais morreram em um acidente de carro quando eu tinha dez anos — começou a dizer Harry —, e meus dois irmãos, minha irmã e eu fomos criados por nossos avós... Quer dizer, sempre que não estávamos tutelados em algum colégio. Havia um ano de diferença entre cada um; Draco era o maior, depois vinha eu, depois Katie e por fim Colin. Draco era... — Harry fez uma pausa, tentando encontrar as palavras indicadas, e não pôde. — Era um grande navegador, e diferente da maioria dos irmãos mais velhos, sempre estava disposto a me levar a qualquer parte que fosse. Era... Bom. Doce. Se suicidou aos dezoito anos.
Gina não pôde evitar um ofego de espanto.
— Meu Deus! Mas, por quê?
Harry respirou fundo e soltou o ar com muita lentidão.
— Era gay. Ninguém sabia. Com exceção de mim. Disse-me isso menos de uma hora antes de se dar um tiro.
Ao ver que ele ficava em silêncio, Gina decidiu falar.
— Não podia ter falado com alguém... Ter procurado o apoio da família?
Harry lançou uma gargalhada curta e sombria.
— Minha avó era uma Harrison e procedia de uma antiga linhagem que possuía uma rígida retidão e princípios incrivelmente elevados, tanto para eles como para os outros. O teria considerado um pervertido e teria dado publicamente as costas a ele, a menos que se emendasse no ato. Por outra parte, os Dursley sempre foram o oposto: temerários, irresponsáveis, encantadores, amantes das diversões e frágeis. Mas seu traço mais presente, um traço que passa de geração em geração por meio dos homens da família, é que os Dursley são uns Don Juans. Sempre. A luxúria deles é legendária nessa parte da Pennsylvania, e é uma característica da qual todos estão orgulhosos. Incluindo, muito especialmente, meu avô. Para dar um exemplo inofensivo, quando meus irmãos e eu fizemos doze anos cada, o presente que meu avô deu foi uma rameira. Organizava uma pequena festa íntima na casa, levava ali a prostituta que tinha escolhido e depois da festa a mulher subia no quarto do menino que fazia aniversário.
— E o que pensava disso sua avó? — Perguntou Gina, desgostada. — Onde ela estava?
— Minha avó estava em alguma parte da casa, mas sabia que não podia modificar ou impedir esse assunto, de modo que mantinha a cabeça em alto e simulava ignorar o que estava passando. E dirigia da mesma maneira as aventuras de meu avô. — Harry ficou alguns instantes em silêncio e quando Gina achou que não continuaria falando, continuou. — Meu avô morreu um ano depois que Draco, e até nesse momento fez o que pôde para deixar a sua mulher um legado de humilhação. Voava para o México em seu próprio avião, e uma bonita modelo o acompanhava quando se estatelou. A família Harrison é proprietária do jornal de Godric Hollow, então minha avó pôde impedir que fosse publicado, mas foi inútil, porque as agências de cabos se inteiraram e apareceu em todos os jornais importantes, para não falar do rádio e da televisão.
— Não entendo porque seu avô não se divorciou de sua mulher se já não se importava.
— Eu me fiz essa mesma pergunta a ele no verão antes de estar em Yale. Ele e eu estávamos celebrando minha próxima entrada na universidade nos embebedando juntos em seu estúdio. No lugar de me dizer que me ocupasse de meus próprios assuntos, tinha bebido tanto que me disse a verdade, e asseguro que estava lúcido.
Tomou sua taça e bebeu de um só trago o conhaque que restava, como se quisesse lavar o gosto de suas palavras. Depois ficou olhando fixo a taça vazia.
— O que disse? — Perguntou Gina por fim. Harry a olhou quase como se tivesse esquecido de sua presença.
— Disse que minha avó era a única mulher no mundo a quem tinha amado. Todos acreditavam que se casou com ela para unir a fortuna dos Harrison com o que restava da sua, sobre tudo porque minha avó estava longe de ser bonita, mas meu avô disse que isso não era verdade e eu acredito nele. Na realidade, a medida que minha avó foi envelhecendo, converteu-se no que a gente chama uma linda mulher... De aspecto muito aristocrático.
Voltou a ficar em silêncio e Gina perguntou com desgosto:
— Mas por que acreditou? Quero dizer: se a amava não é lógico que a tenha enganado tanto.
Harry esboçou um sorriso irônico.
— Teria que ter conhecido a minha avó. Ninguém podia estar à altura de seus conceitos morais, e meu avô menos ainda, e ele sabia. Disse-me que pouco depois de casar-se, se deu por vencido e deixou de tentar. O único que minha avó sempre aprovou foi Draco. Adorava Draco — explicou com algo parecido à diversão. — Draco era o único homem da família que se parecia com sua gente. Era loiro como ela, de estatura média em lugar de muito alto... Em realidade se parecia muitíssimo ao pai de minha avó. O resto de nós, incluindo meu pai, tínhamos a estatura e as feições dos Dursley, sobre tudo eu. Eu era idêntico a meu avô coisa que, como deve imaginar, não contribuiu para que minha avó tivesse um carinho especial por mim.
Gina pensou que isso era o mais ridículo que tinha ouvido em sua vida, mas guardou seus pensamentos.
— Se sua avó gostava tanto do Draco, estou segura de que o teria ajudado se tivesse confessado que era gay.
— Nem sonhe! Minha avó tinha um enorme desprezo pela debilidade, por qualquer debilidade e por todas elas. A confissão de Draco a teria enojado e feito pedaços. — Harry olhou de esguelha para Gina e adicionou: — Considerando tudo isso, se uniu com a família menos indicada. Como disse antes, os Dursley eram propensos a todas as debilidades. Bebiam em excesso, conduziam muito rápido, acabavam com seu dinheiro e depois se casavam com gente bastante rica para refazer suas degradadas fortunas. A única vocação dos Dursley consistia em divertir-se. Jamais se preocupavam com o futuro e, além de si mesmos, ninguém importava a eles. Até meus próprios pais eram assim. Morreram no caminho de volta de uma festa, bêbados, dirigindo a cento e cinquenta quilômetros por hora por um caminho coberto de neve. Tinham quatro filhos que precisavam deles, mas isso não os fez reduzir a velocidade.
— Colin e Katie se parecem com seus pais?
Harry respondeu em um tom indiferente, como se não quisesse julgá-los.
— Colin e Katie possuíam as habituais debilidades e excessos dos Dursley. Aos dezesseis anos, ambos se drogavam e se embebedavam. Katie já tinha feito um aborto. Colin tinha sido preso duas vezes, por drogas e jogador, mas é obvio o soltaram sem que registrassem nada em sua ficha. Para falar de justiça, não tinham quem os corrigisse. Minha avó o teria feito, mas meu avô se opunha. Depois de tudo, tínhamos sido criados a sua imagem e semelhança. E embora minha avó tivesse tentado nos colocar no bom caminho, não teria conseguido nada, pois só estávamos em casa um par de meses por ano, durante o verão. Por insistência de meu avô, o resto do ano, passávamos tutelados em colégios caros e exclusivos. Nesses lugares ninguém se importava com o que alguém fizesse, com tal de que não fosse descoberto e não causasse problemas.
— Então é possível que sua avó tampouco aprovasse seu irmão e seu irmã, não é?
— Isso mesmo. Embora minha avó acreditasse que tinham possibilidades de salvação, se tivesse podido controlá-los a tempo.
Até esse momento Gina tinha bebido cada palavra de Harry; e mais, tinha percebido cada uma de suas inflexões e seus tons. Apesar de que invariavelmente se excluía ao falar das "debilidades" dos Dursley, notou que falava deles em tom desdenhoso. Gina estava tirando interessantes conclusões de tudo o que Harry não havia dito.
— E o que me diz de você? — Perguntou com cautela. — O que sentia por sua avó?
Harry lhe dirigiu um olhar desafiante.
— O que a faz pensar que sentia algo distinto que Colin e Katie?
— Pressinto — respondeu Gina, sem deixar-se intimidar.
Ele assentiu, aprovando sua perceptividade.
— Na realidade, eu a admirava. Como já disse, suas normas morais eram elevadas para nós, mas pelo menos tinha normas. Obtinha que alguém tentasse ser melhor do que era. Embora nós nunca conseguiámos satisfazê-la. O único que conseguia isso era Draco.
— Me contou o que sua avó sentia por seus irmãos e sua irmã. Mas o que sentia com respeito a você?
— Sentia que eu era a imagem de meu avô.
— Em seu aspecto físico — esclareceu Gina.
— E que diferença faz? — Perguntou Harry com tom cortante.
Gina teve a sensação de estar entrando em terreno proibido, mas decidiu seguir adiante.
— Eu acredito que você reconhecia a diferença, embora ela não — disse com tranquila firmeza. — Talvez se parecesse com seu avô, mas não foi como ele. Foi como ela. Draco pareceria com ela fisicamente, mas não era como ela. Você sim.
Quando Harry não pôde intimidá-la com um grunhido, nem obteve que se retratasse, disse com secura:
— Considerando que é uma criatura de vinte e seis anos, está muito segura de suas opiniões.
— Boa tática — respondeu Gina, imitando com perfeição o tom de Harry. — Se não pode me enganar, me ridicularize!
— Touché — sussurrou ele, inclinando a cabeça para beijá-la.
— E — continuou dizendo Gina, uma vez que voltava a cabeça de maneira que ele não pudesse beijar seus lábios e sim só a bochecha —, se fracassa ao tentar me ridicularizar, tenta me distrair.
Harry lançou uma risadinha, tomou o queixo entre as mãos e a obrigou a lhe oferecer seus lábios.
— Sabe? — Disse com um lento sorriso —, poderia chegar a convertê-la em um verdadeiro estorvo.
— Ah, não! Me nego a que agora recorra às adulações! — Riu ela, impedindo que a beijasse. — Já sabe que me derreto quando me diz coisas doces. O que aconteceu para que fosse embora de seu casa?
Harry cobriu os lábios risonhos de Gina com os seus.
— Um estorvo maiúsculo.
Gina se deu por vencida. Deslizou as mãos pelos ombros de Harry, cedeu a seu beijo no que colocou corpo e alma, e sentiu que por muito que ela desse, ele dava ainda mais. Quando por fim a soltou, pensou que ele sugeriria ir para cama, mas em vez disso, Harry disse:
— Suponho que devo uma resposta sobre os motivos que me levaram a ir embora de casa. Depois disso, eu gostaria que não voltássemos a tratar do tema de minha família, é obvio, sempre que sua curiosidade tenha sido satisfeita.
Gina não acreditava que jamais pudesse saber bastante sobre Harry para que sua curiosidade ficasse completamente satisfeita, mas compreendia seus sentimentos com respeito a esse tema. Ao ver que ela assentia, ele explicou:
— Meu avô morreu enquanto eu cursava meu primeiro ano na Universidade, e deixou para minha avó o controle absoluto de sua herança. Então, esse verão, ela chamou Colin para sua casa, que tinha dezesseis anos; Katie, que tinha dezessete; e a mim. Os quatro celebramos uma pequena reunião no terraço. Para dizer em poucas palavras, comunicou a Colin e a Katie que os tiraria dos colégios privados onde estudavam e que em troca os inscreveria em colégios locais. Além disso daria uma ínfima quantidade de dinheiro para os gastos pessoais de ambos. E disse que se chegassem a quebrar uma única de suas regras com respeito a drogas, álcool, promiscuidade e coisas pelo estilo, jogaria-os de sua casa sem um centavo no bolso. Para que aprecie o impacto que isso teve, explicarei que estávamos acostumados a dispor de um abastecimento interminável de dinheiro. Todos tínhamos um carro sport, comprávamos a roupa que nos dava vontade... De tudo. — Balançou a cabeça com um leve sorriso. — Nunca esquecerei a expressão que tinham Colin e Katie nesse dia.
— Isso quer dizer que aceitaram as condições de sua avó?
— É obvio que as aceitaram! Que alternativa restava? Além deles gostarem de ter dinheiro e gastá-lo, não se achavam em condições de ganhar um só centavo, e sabiam.
— Mas você se negou a aceitar suas condições, e então foi embora de sua casa — adivinhou Gina, sorrindo.
A face de Harry parecia uma máscara, cuidadosamente inexpressiva, e a deixava muito nervosa vê-lo assim.
— Isso não foi o que ela me ofereceu. — Depois de um prolongado momento de silêncio, adicionou: — Disse-me que fosse embora dali e que não retornasse nunca. Disse a meu irmão e a minha irmã que se alguma vez tentassem entrar em contato comigo ou se eu me colocasse em contato com eles, eles também teriam que ir. A partir desse momento eu ficava definitivamente repudiado. De modo que, a seu pedido, entreguei as chaves de meu carro, percorri o atalho de entrada da casa e baixei a colina para o caminho. Tinha ao redor de cinquenta dólares em minha conta de banco, e a roupa que vestia. Algumas horas depois, pedi carona e um caminhoneiro carregado de material dirigido aos Estúdios Empire me ofereceu, assim terminei em Hollywood. O caminhoneiro era um bom homem, e me recomendou aos Estúdios. Ofereceram-me trabalho no pátio de cargas, onde trabalhei um tempo até que um diretor imbecil se deu conta muito tarde de que necessitava alguns extras para uma cena que estava filmando no lote traseiro do estúdio. Nesse dia fiz minha estreia no cinema; depois voltei para a universidade, me formei e segui filmando filmes. Fim da história.
— Mas por que sua avó se comportou assim com você, e não com seus dois irmãos? — Perguntou Gina, fazendo esforços por não demonstrar quão impressionada estava.
— Estou seguro de que pensou ter seus motivos — respondeu ele, encolhendo-se de ombros. — Como disse, eu lembrava meu avô e tudo o que lhe tinha feito.
— E depois disso alguma vez, alguma vez teve notícias de seus irmãos? Alguma vez tentou se colocar em contato com eles em segredo, ou eles com você?
Gina tinha a sensação de que, de tudo o que Harry acabava de dizer, a questão de seus irmãos era a que resultava mais dolorosa.
— Escrevi uma carta a cada um com meu remetente quando meu primeiro filme ia estrear. Pensei que talvez...
Sentiriam-se orgulhosos, pensou Gina ao ver que ele ficava em silêncio. Alegrariam-se por você. Escreveriam.
Deu-se conta, pela expressão fria e inescrutável de seu rosto, que nada disso tinha acontecido. Mas tinha que saber com segurança. A cada segundo que passava ia conhecendo mais.
— Responderam?
— Não. E nunca voltei a tentar me colocar em contato com eles.
— Mas, e se sua avó interceptou as cartas e eles nunca as receberam?
— Receberam. Nessa época ambos compartilhavam um apartamento e estudavam numa universidade local.
— Mas Harry, eram tão jovens! E além disso, você mesmo disse que eram frágeis! Você foi maior e mais sábio que eles. Não poderia ter esperado que crescessem um pouco e dado uma segunda oportunidade?
De algum jeito, essa sugestão colocou Gina além de todos os limites de tolerância de Harry e sua voz adquiriu um tom gelado, definitivo.
— Eu nunca dou uma segunda oportunidade a ninguém, Gina. Nunca.
— Mas...
— Para mim, todos eles morreram.
— Isso é ridículo! Você perde tanto quanto eles. Não é possível que viva queimando pontes no lugar de tentar recompô-las. É uma forma de auto-frustração, e neste caso, completamente injusta.
— Também é o fim desta conversa.
Disse com um tom perigoso, mas Gina se negou a dar-se por vencida.
— Acho que é muito mais parecido a sua avó do que pensa.
— Está abusando de sua boa sorte, moça.
Gina fez uma careta ante o tom de Harry. Levantou-se em silêncio, levantou as taças vazias e as levou a cozinha, alarmada por essa nova faceta que logo conhecia nele, essa falta de sensibilidade que o permitia eliminar pessoas de sua vida sem olhar para atrás. Não foi o que disse, e sim sua maneira de dizer e a expressão de seu rosto. Quando a sequestrou, todas as palavras e as motivações de Harry estavam movidas pela necessidade e desespero, nunca por uma dureza desnecessária, e isso era algo que ela podia entender. Mas até esses últimos minutos, quando percebeu a ameaça em seu tom de voz e a viu grafite na expressão de seu rosto, nunca tinha entendido que alguém pudesse pensar que Harry Potter era o suficientemente frio para cometer um assassinato. Mas se outra pessoa o tivesse visto e ouvido como o viu e ouviu ela esse dia, compreenderia que acreditassem.
Nesse momento Gina soube que, embora houvesse uma enorme intimidade entre eles na cama, ainda seguiam sendo praticamente desconhecidos. Encaminhou-se para seu quarto para preparar-se para a noite, ligou a luz e se trocou no banheiro. Estava tão preocupada, que em lugar de dirigir-se em seguida ao quarto de Harry, sentou-se na cama do seu, perdida em seus pensamentos. Alguns minutos depois se sobressaltou ao ouvir a voz dele.
— Esta é uma decisão muito pouco inteligente de seu parte, Gina. Sugiro que a reconsidere com cuidado.
Estava de pé na soleira, com um ombro apoiado contra o marco da porta, os braços cruzados sobre o peito, a face impassível. Gina não sabia a que decisão se estaria referindo, e embora ainda parecesse distante, não falava nem tinha o aspecto desse ser sinistro que parecia na sala em penumbras. Perguntou-se se grande parte do que a alarmou não teria sido um truque de sua imaginação misturada com a luz das chamas da chaminé.
Ficou de pé e se aproximou dele com lentidão, insegura, estudando seu rosto.
— Supõe-se que essa é sua maneira de pedir desculpas?
— Ignorava que devia pedir desculpas por algo.
A arrogância era algo tão típico nele, que ela esteve a ponto de rir.
— Tente a palavra grosseiro, e veja se te diz algo.
— Fui grosseiro? Não foi minha intenção. Adverti que o assunto era extremamente desagradável para mim, mas de todos os modos quis que conversássemos.
Parecia sentir-se injustamente acusado, mas ela insistiu.
— Compreendo — disse, detendo-se frente a ele. — Então tudo isto é minha culpa?
— Suponho que sim.
— Você não sabe, não é? Não tem consciência de que me falou em um tom de voz... — Procurou a palavra indicada mas teve que conformar-se com algumas que não o definiam exatamente. — Frio, insensível e desnecessariamente duro.
Harry se encolheu de ombros com uma indiferença que Gina supôs, era parcialmente falsa.
— Não é a primeira mulher que me acusa de tudo isso e muito mais. Remeto a seu julgamento. Sou frio, insensível e...
— Duro — adicionou Gina, e inclinou a cabeça, fazendo um esforço por não rir ante o ridículo da discussão.
Harry tinha arriscado a vida para salvar a sua e quis morrer quando acreditou ter fracassado. Era algo menos frio e insensível. As outras mulheres estavam equivocadas. Sua risada se apagou de repente, e sentiu um profundo remorso pelo que havia dito, por isso todas haviam dito.
Harry não conseguia decidir se Gina em realidade tinha tido intenções de vingar-se dele por alguma imaginária ofensa, dormindo ali só, que foi o que pensou em um princípio, ou se era inocente dessa desagradável artimanha feminina.
— Duro — aceitou, embora tarde, desejando que ela levantasse o rosto para poder olhá-la.
— Harry? — Disse ela de repente. — A próxima vez que uma mulher diga alguma dessas coisas, a aconselhe que o olhe de perto. — Levantou os olhos para olhá-lo. — Se fizer isso, acredito que verá uma estranha nobreza e uma extraordinária doçura.
Completamente surpreso, Harry descruzou os braços e sentiu que seu coração dava um salto, como cada vez que ela o contemplava dessa maneira.
— O que não quer dizer que não ache que é autocrático, ditatorial e arrogante, como entenderá — adicionou Gina, reprimindo uma gargalhada.
— Mas de todos os modos, você gosta de mim — brincou ele, enquanto lhe passava os nódulos pela bochecha, desarmado e aliviado. — Apesar de tudo isso.
— Pode adicionar "vaidoso" à lista — disse ela enquanto ele a abraçava.
— Gina — sussurrou, inclinando a cabeça para beijá-la —, cale a boca!
— E determinante também! — Declarou ela contra os lábios dele.
Harry começou a rir. Gina era a única mulher que o dava vontades de rir enquanto a beijava.
— Me faça lembrar que nunca mais me aproxime de uma mulher com seu manejo do vocabulário! — Disse Harry.
Percorreu com a língua a forma da orelha de Gina e ela se estremeceu, agarrando-se a ele enquanto adicionava outra palavra à definição sumária de seu caráter.
— E incrivelmente sensual... E muito, muito sexual...
— Por outra parte — corrigiu ele, lhe beijando a nuca —, não existe substituta para uma mulher inteligente e de grande discernimento.