"Todos os dias eu morro. E junto comigo morrem também os meus esforços, minhas tentativas, meus fracassos e até as minhas vitórias." O morro dos ventos uivantes
Incrível as marcas que uma guerra deixa.
Ser um comensal da morte consiste em basicamente matar pessoas. Como um assassino de aluguel, só que ninguém te paga pelos serviços prestados. Você não ganha nada com isso, nada mesmo. Na verdade até ganha... Ódio, desprezo, medo, preconceito, uma falsa sensação de respeito e poder e, principalmente, sede de vingança. Pode parecer ridículo e estúpido alguém se prestar a isso olhando por esse ponto de vista, mas era o que meu avo fazia.
Havia um homem, seu nome era Joshua Salvatore, ele era casado e tinha dois filhos, Andrew de 15 anos e Leonard de 20. Ele tinha bastante conhecimento em magia negra e feitiços irreversíveis. Um dia, que ficou marcado na vida desse homem para sempre, meu avo foi até sua casa, mandado por Voldemort para uma ultima tentativa de trazê-lo para seu lado. A proposta era muito simples, ou ele se tornava um subordinado de Voldemort ou sua família inteira seria assassinada.
Muitos diriam que esse homem teria optado por proteger sua família mesmo que isso significasse trabalhar para o Lorde das Trevas, mas não foi isso o que ele fez. Joshua Salvatore escolheu defender seus princípios, resolveu sacrificar seu bem mais precioso, sua família, em prol do que ele achava certo. O resultado você já deve ter presumido. Meu avo matou a esposa e os filhos desse homem. Joshua implorou para que o matasse também, que o poupasse da dor de ter que viver sem eles, mas meu avo não o fez. Deixou que ele vivesse para que ele pudesse morrer todos os dias consumido pela dor. Antes que meu avo fosse embora Joshua gritou: “Malfoy, ainda vai pagar muito caro por isso, você também vai saber como é morrer todos os dias.” Lucius ignorou completamente a ameaça e depois de certo tempo a esqueceu e então esqueceu tudo. Ou quase tudo.
Ele esquecia onde deixava sua varinha, feitiços simples, errava a porta do quarto, se perdia em Londres, pois não se lembrava onde ficava a mansão para aparatar e começou a esquecer nossos nomes. Os medi bruxos do St. Mungus o diagnosticaram com Alzheimer, mas requereram uma serie de exames. O último foi uma entrevista, a princípio inocente, com um neurologista.
-Você tem muitos inimigos Sr. Malfoy? –perguntou o neurologista.
Estávamos no escritório.
Meu avo riu.
-Isso foi uma pergunta retórica certo?
O neurologista pareceu confuso.
-Não Sr. Malfoy, é uma pergunta séria.
Meu avo olhou para mim e meu pai esperando que nos solidarizássemos com ele e ríssemos da cara do médico juntos. Eu tinha cinco anos, então eu não fazia ideia do que acontecia ao meu redor nem que meu avo pudesse ter inimigos.
-Sr. Johnson, você sabe quem eu sou?
-Sei.
-Ótimo! Esta aí a minha resposta.
Sr. Johnson olhou para meu pai em um pedido silencioso de ajuda.
-Perdoe-me, mas acho que não entendi.
-Não vamos perder tempo, por favor, Sr. Jhonson, você sabe muito bem quem sou e o que fiz no passado. Obvio que tenho inimigos, muito mais do que eu gostaria.
-Certo.
-Então, –ele parecia impaciente- o que isso tem a ver com o meu caso?
-Há mais feitiços, Sr. Malfoy, entre o céu e a terra do que você possa imaginar.
-O que você quer dizer com isso? Não estou entendendo aonde quer chegar.
Sr. Johnson se levantou e começou a andar de um lado para o outro gesticulando freneticamente com as mãos. Sua expressão era bastante concentrada.
-Estou querendo dizer que há infinitos feitiços, feitiços que talvez nunca venhamos a conhecer em toda a nossa vida. Feitiços de todos os tipos, para tudo e com consequência inimagináveis.
-Sinceramente, o senhor já esta começando a me irritar.
-Acompanhe meu raciocínio... O senhor me disse que possui muitos inimigos, imagino que talvez um deles tenha tentado se vingar.
Agora foi a vez de meu avo se levantar, apontando o dedo de uma forma exagerada e assustadora para o médico.
-Você não esta querendo dizer que um merda de um filho da puta fez isso comigo, está? –apontava e se aproximava cada vez mais, Sr. Johnson recuou um pouco, tropeçando e quase caindo. - Eu estou ficando velho, será que as pessoas não podem mais adoecer naturalmente?
-Na-na –gaguejou- verdade sim, exatamente isso Sr. Malfoy.
Meu avo sentou-se desanimado.
-Mas como? Como alguém conseguiria fazer isso comigo? –suas mãos cobriram sua face- Existe um feitiço para provocar Alzheimer em alguém? Isso é possível?
- Tudo é possível Sr. Malfoy, desde que você seja capaz de fazê-lo, simples assim. Só porque ninguém nunca inventou um feitiço que revertesse a morte, não quer dizer que não seja possível. Me entende?
-Acho que sim, mas, o senhor me diagnosticou com Alzheimer, talvez seja somente isso não é mesmo? Não precisamos ser tão radicais. –disse com o mesmo tom que uma criança de cinco anos usaria para convencer a mãe a não lhe dar um remédio amargo.
-O senhor não tem Alzheimer.
-Como assim? –olhou furioso para o medico.
-Os sintomas são os mesmo, por isso o diagnostiquei com Alzheimer. Mas a doença não é acusada nos exames, em nenhum deles. Aparentemente o senhor continua perfeitamente saudável, não houve alteração alguma no cérebro.
Meu avo permaneceu calado. Sr. Johnson esperou pacientemente por uma resposta, mas ela não veio então prosseguiu:
-Eu preciso pedir que o senhor repita os exames, mas eu tenho certeza que se trata de algum feitiço. Ninguém simplesmente esquece as coisas do nada, sem nenhuma explicação.
-Sr. Johnson, por favor. –meu pai interferiu, estava atônito. - Nos explique melhor.
-Muito bem, eu já li algo sobre isso, é bastante complexo e difícil de fazer, mas possível. Você pode capsular uma doença, digamos assim, em forma de feitiço e assim implantá-la em alguém. Para tal, seria necessária uma amostra de lembrança de alguém com Alzheimer, e isso vale para tantas outras doenças, e transformá-la em feitiço, só não me pergunte como. Esses feitiços são denominados, de um modo vulgar, de feitiços descartáveis, só se pode usá-lo uma vez. Digo, você precisaria de outra lembrança para transformá-lo em feitiço para finalmente usar uma segunda vez e assim por diante.
Meu avo e meu pai irromperam em gargalhadas, tão altas que se poderiam ser escutadas por toda a mansão. Sr. Johnson olhou para mim constrangido.
-Senhores, eu estou falando sério. Isso se trata de magia negra avançada.
Mas eles não pararam de rir. Sr. Johnson balançou a cabeça negativamente algumas vezes antes de sair furioso do escritório e ir embora. E eles continuaram sua sessão coletiva de histeria.
Por uma semana eles não tocaram novamente no assunto. Meu pai continuou a fazer o que ele sempre fazia, ou seja, nada. E meu avo passava longos momentos sozinhos em silencio no escritório. Certo dia, tomado pela curiosidade, fui até o escritório para conferir o que ele fazia.
A porta estava trancada, como eu imaginava, por isso levei a varinha de minha avó e executei um dos pouquíssimos feitiços de que conhecia na época.
-Alohomora! –a porta se abriu em um clique quase inaudível.
Ele estava com a cabeça mergulhada em uma penseira de prata, seus cabelos estavam molhados e jogados para trás. Posicionei-me atrás de uma prateleira apinhada de livros, diga-se de passagem, bastante empoeirados, de modo que eu ainda podia vê-lo perfeitamente, claro, desde que ficasse na ponta dos pés. Esperei por longos minutos até que ele emergisse da penseira. Meu nariz dava os primeiros sinais de uma sequencia de espirros que viriam logo a seguir, os reprimi o máximo que consegui.
Lucius colocara alguns fios de cabelo que haviam grudado na testa por causa da água atrás da orelha. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Pegou uma toalha branca e enxugou seu rosto, depois pegou um pequeno frasco e com o auxilio de sua varinha coletou a lembrança que antes tivera despejado na penseira e agora a colocava dentro do pequeno recipiente. Então eu não consegui mais me controlar, os espirros vieram um seguido do outro, tão rápidos e violentos que derrubei alguns livros e produzi um som ensurdecedor.
-Quem está aí? –meu avo guardou o frasco contendo a lembrança no bolso e com a varinha fez a penseira levitar até o alto de uma enorme prateleira. –Apareça logo, é você Kreacher? –agora caminhava em direção à prateleira onde eu havia me escondido atrás.
Ele chegou até mim mais rápido do que eu poderia ter pensado em me esconder.
-SCORPIUS! –estava surpreso. – O que está fazendo aqui? –olhou para a minha mão. –E ainda por cima com a varinha da sua avó, o que esta aprontando mocinho?
Olhei para a varinha em minha mão, é, eu estava muito ferrado.
-Nada vovô. Eu a peguei para brincar. – eu sei que devo ter gaguejado muito e que essa desculpa não funcionaria com ele, mesmo assim tentei.
-Aham, sei. E porque está aqui? Eu deixei a porta trancada, como conseguiu entrar?
-Alohomora, foi o senhor que me ensinou, lembra?
Consentiu com a cabeça.
-E?
-E eu queria ver o que o senhor estava fazendo aqui dentro.
-Scorpius, se a porta estava trancada queria dizer que eu não queria que ninguém entrasse, que eu queria ficar sozinho.
-Me desculpe vovô.
-Tudo bem querido. Agora arrume a bagunça que fez, e claro, a la trouxa. –riu e tomou a varinha da vovó de minha mão.
*****
Sr. Johnson fora chamado novamente duas semanas depois. Meu avo parecia muito mais agitado e se esquecia ainda mais das coisas, chegando ao ponto de acordar uma manhã e dizer que estava atrasado para pegar o expresso Hogwarts.
-Digamos que nos acreditemos nessa hipótese de ser um feitiço? O que devemos fazer. –meu pai disse.
Meu avo se encontrava sentado num canto distante do escritório e calado não participando da conversa, seu olhar era vago.
-Não se trata de uma hipótese Sr. Malfoy. Olhe, - entregou-o um envelope pardo. - são os resultados da segunda bateria de exames que seu pai fez.
Meu pai abriu o envelope e retirou de dentro um pequeno maço de folhas e as analisou longamente parecendo não compreender seu conteúdo. Seu olhar se ergueu sugestivo na direção do neurologista.
-Olhe aqui, -apontou para a primeira folha.- Não há alteração alguma no cérebro, ele está perfeito. Como eu já havia dito, aparentemente saudável. Só pode ser um feitiço.
Suspirou desanimado antes de responder:
-O que faremos agora?
Sr. Johnson desviou o olhar, parecendo subitamente interessando em suas mãos que estavam entrelaçadas e em cima da mesa, mexia os polegares constantemente.
-Esse é o problema, não há o que fazer, é a primeira vez que lidou com um caso dessa natureza.
-Como assim não há o que fazer? –meu avo se levantou e colocou as mãos sobre a mesa, inclinando o corpo na direção do medico fazendo-o recuar na cadeira. –Esta querendo dizer que não pode fazer nada, que ficarei assim? –ele gritava desesperado.
-Sinto muito Sr. Malfoy, mas não há precedentes do seu caso.
-O problema é dinheiro? Porque eu te dou o que for necessário, eu não me importo, só não quero ficar assim. Diga-me o que tenho que fazer e eu faço.
Meu pai me pegou pela mão e me levou para fora do escritório. Abaixou-se de modo que ficássemos da mesma altura e apoiando a mão em meu ombro disse:
-Scorp, suba até o seu quarto e fique lá, está me ouvindo?
-Mas papai...
-Sem “mas”. Eu quero que você suba e fique no seu quarto mocinho.
-Papai...
-SCORPIUS! –me olhou impaciente.
-Tudo bem, tudo bem, já estou indo.
Olhei por trás da cabeça dele em direção ao escritório e ele percebeu, pois me abraçou dizendo que iria ficar tudo bem.
Caminhei vagarosamente até a escada, quase parando a cada degrau.
-Scorpius, - virei o rosto para poder vê-lo. – está querendo que eu mesmo te leve ao seu quarto?
Bufei.
-Não.
Corri os degraus que faltavam e entrei no quarto batendo a porta, claro que ele não escutaria lá de baixo, mas minha pequena revolta infantil não me permitiria prestar atenção nesses detalhes.
*****
Depois da última visita do Sr. Johnson meu avo começou a passar mais tempo –do que ele já passava- no escritório dele. Percebi que uma pequena estante havia sido quase que completamente preenchida com pequenos frasquinhos contendo um líquido estranho dentro. A cada semana a quantidade de frascos aumentava.
Aproveitei um dia em que meu pai havia levado o vovô ao St. Mungus e fui até o escritório. Peguei uma cadeira e empilhei diversos livros em cima dela, testei varias vezes para ver se alcançava o alto da prateleira, mas a cada vez eu tinha que acrescentar mais livros. Ficou bastante irregular e balançava um pouco por isso coloquei algumas almofadas em volta e subi.
Consegui me equilibrar por alguns segundos antes de tudo começar a balançar e cair. Agarrei a penseira e cai com tudo, e para meu azar, bem distante das almofadas. O baque dos livros e da penseira no chão de mármore fez um som terrivelmente alto. Esperei por alguns segundos paralisado no chão para ver se alguém aparecia. Mamãe e vovó estavam no jardim, por sorte não escutariam.
Ninguém apareceu.
Coloquei a penseira sobre a mesa e fui à prateleira dos frasquinhos a procura de um para despejá-lo. A quantidade havia aumentado muito desde a última vez em que eu havia visto. Alguns tinham uma fita preta envolta no vidro e outros tinham uma fita branca. Peguei um frasco de fita preta e o despejei na penseira.
Eu nunca tinha feito isso antes.
Mergulhei meu rosto na água, não parecia água, seria mais como mergulhar em fumaça. Meu corpo inteiro foi sugado repentinamente para dentro da penseira. Só conseguia ver borrões pretos como se alguém tivesse despejado tinta preta na água. Senti meus pés no chão.