—Acho que encontrei um lugar.
Rony sentava-se pesado à sua mesa, martelando a máquina de escrever no estilo dois dedos.
— Ah, é?
Também sentado à sua, Harry tinha mais uma vez à frente o mapa da cidade. Com toda paciência, traçava linhas com um lápis para ligar os locais dos assassinatos.
— Um lugar pra quê?
— Pra morar.
— Hum-hum.
Alguém abriu a geladeira e queixou-se em voz alta de que haviam roubado sua cerveja preta. Ninguém lhe deu a mínima atenção. A equipe reduzira-se por causa da gripe e de um duplo homicídio perto da Universidade de Georgetown. Alguém colara um peru de cartolina numa das janelas, mas era o único sinal de alegria do feriado. Harry fez um círculo ao redor do prédio de Gina e olhou o parceiro.
— E aí? Quando se muda?
— Depende. — O outro franziu a testa para as teclas, hesitou e reencontrou o ritmo. — Preciso ver se o contrato cobre todos os aspectos.
— Mandou matar alguém pra poder alugar o apartamento?
— Contrato de venda. Merda, esta máquina de escrever está com defeito.
— Venda? — Harry largou o lápis e arregalou os olhos. — Vai comprar uma casa? Comprar?
— Isso mesmo. — Com toda paciência, Rony aplicou corretivo líquido ao último erro, soprou-o e datilografou a correção. Mantinha uma lata de Lysol perto do ombro. Se passava um colega com aparência de contagioso, borrifava-o. — Foi você quem sugeriu.
— É, mas eu estava apenas... Comprar? — Para esconder seu pequeno delito, Harry empurrou alguns papéis na cesta de lixo, em cima da lata vazia de cerveja preta. — Que tipo de pardieiro você pode pagar com o salário de detetive?
— Alguns sabem poupar. Estou usando meu capital.
— Capital? — Harry revirou os olhos e dobrou o mapa. Não estava chegando a lugar algum. — O cara tem capital — disse à delegacia de forma geral. — Quando a gente menos espera, vem você e me diz que está especulando no mercado.
— Fiz alguns investimentos pequenos, conservadores. A maioria em concessionárias de serviços públicos.
— Serviços públicos. O único serviço público que você conhece é a conta de gás. — Harry examinou o parceiro com um olhar duvidoso. — Onde fica esse lugar?
— Tem alguns minutos?
— Tenho algum tempo pessoal de folga.
Rony retirou o relatório da máquina de escrever, lançou-lhe um olhar cauteloso e largou-o ao lado.
— Vamos dar um passeio de carro.
Não levou muito tempo. O bairro ficava no limite mais distante e rústico de Georgetown. Os conjuntos residenciais de casas pareciam mais cansados que distintos. As flores perenes haviam simplesmente desistido pela falta de interesse e jaziam caídas, desbotadas, em meio a emaranhados de folhas não varridas. Alguém acorrentara uma bicicleta a um poste de luz. Fora depenada de tudo que era portátil. Rony parou junto ao meio-fio.
— Aí está.
Cauteloso, Harry virou a cabeça. Para seu crédito, não grunhiu.
A casa estreita tinha três andares e a porta da frente mal ficava a cinco passos da calçada. Duas das janelas haviam sido tapadas com ripas de madeira e as venezianas que não caíram pendiam tortas, como embriagadas. O revestimento de tijolos era antigo e desbotado, a não ser no lugar em que alguém escrevera com spray uma obscenidade. Harry saltou do carro, curvou-se sobre o capô e tentou não acreditar no que via.
— Uma coisa, não é?
— É, uma coisa. Rony, não tem escoadouro de água.
— Eu sei.
— Metade das janelas está quebrada.
— Imaginei substituir duas por vitrais.
— Não creio que tenham colocado telhas desde a Depressão. A verdadeira.
— Vou inspecionar as clarabóias.
— Quando estiver lá, devia tentar uma bola de cristal. — Harry enfiou as mãos nos bolsos do paletó. — Vamos dar uma olhada dentro.
— Ainda não tenho a chave.
— Minha nossa! — Com um resmungo, Harry subiu três degraus de concreto quebrados, pegou a carteira e encontrou um cartão de crédito. A fechadura lamentável cedeu sem uma queixa. — Sinto que devia cruzar o limiar com você nos braços.
— Compre sua própria casa.
O corredor era cheio de teias de aranha e excrementos de roedores variados. O papel que revestira as paredes desbotara-se e ficara cinza. Um besouro gordo de casca grossa rastejava ocioso.
— Quando Vincent Price desce a escada? - Rony olhou em volta e viu um castelo no ermo.
— Só precisa de uma boa limpeza.
— E de um exterminador. Tem ratos?
— No porão, acho — respondeu Rony, despreocupado, e entrou no que outrora fora um salão encantador.
Estreito e de pé-direito alto, tinha as aberturas do que seriam janelas de mais de um metro e meio tapadas com madeira. A pedra da lareira, embora intacta, fora despojada da abóbada que a encimava. Os pisos, sob uma camada de poeira e sujeira, bem poderiam ser de carvalho.
— Rony, este lugar...
— Potencial esplendido. A cozinha tem um forno de alvenaria embutido na parede. Sabe qual é o gosto de um pão saído de um forno de alvenaria?
— Não se compra uma casa pra assar pão. — Harry retornou ao corredor e atravessou-o vigiando o piso à procura de quaisquer sinais de vida.
— Nossa, tem um buraco no teto aqui. A porra de um buraco de mais de um metro.
— Esse é o primeiro da minha lista — comentou Rony, juntando-se a ele.
Os dois ficaram um instante ali em silêncio, olhando o buraco acima.
— Você não está falando de uma lista, mas de um compromisso pra toda a vida. — Enquanto olhavam, uma aranha do tamanho de um polegar grande caiu de repente e pousou aos pés dos dois com um considerável ploft. Mais que apenas um pouco repugnado, Harry afastou-a para longe com um chute. — Não acredito que fale a sério sobre este lugar.
— Claro que sim. A gente chega a um ponto em que deseja se assentar.
— Tampouco me levou a sério sobre a idéia de se casar?
— Um lugar só da gente — continuou Rony, plácido. — Um escritório, talvez um jardim. Há um bom lugar para ervas nos fundos. Um lugar como este me daria uma meta. Calculo consertar um aposento de cada vez.
— Vai levar cinqüenta anos.
— Não tenho nada melhor a fazer. Quer ver lá em cima? - Harry deu outra olhada no buraco.
— Não, quero viver. Quanto? — perguntou sem rodeios.
— Setenta e cinco.
— Setenta e cinco? Setenta e cinco mil? Dólares?
— Os imóveis andam mais caros que o normal em Georgetown.
— Georgetown? Puta que pariu, isto não é Georgetown. — Uma coisa maior que a aranha rastejou apressada no canto. Harry pegou a arma. — O primeiro rato que eu vir vai comer isto.
— Só um rato-do-mato. — Rony pôs a mão tranqüilizadora no ombro do companheiro. — Os ratos se fixam no porão ou no sótão.
— Ora, eles têm contrato de aluguel? — Mas Harry manteve a arma segura. — Escute, Rony, os corretores e construtores recuam os limites pra poder chamar isto de Georgetown e pegar idiotas como você por setenta e cinco mil dólares.
— Ofereci apenas setenta.
— Ah, isso muda muita coisa. Ofereceu apenas setenta. — Ele ia recomeçar a andar, mas topou com uma magnífica teia de aranha. Xingando, lutou para desemaranhar-se. — Rony, são aquelas sementes de girassol. Você precisa de carne crua.
— A gente se sente responsável.
Rony sorriu, incrivelmente satisfeito, e dirigiu-se à cozinha.
— Não, eu não vou. — Harry enfiou as mãos nos bolsos. — Sim, porra, vou.
— Esse é o jardim. Meu jardim — salientou Rony quando o amigo o seguiu. — Imagino que posso cultivar manjericão, alecrim, talvez lavanda naquele lugarzinho ali logo depois das janelas.
Harry viu um pedço de terra, coberto de mato na altura do joelho, grande o bastante só para duas passadas da cortadora de grama elétrica.
— Você tem trabalhado demais da conta. Esse caso está nos deixando todos lunáticos. Rony, ouça com atenção minhas palavras, cuide de se lembrar delas. Madeira podre. Carunchos. Cupim. Animais e insetos daninhos.
— Vou fazer trinta e seis anos.
— E daí?
— Nunca tive uma casa própria.
— Porra, todo mundo faz trinta e seis anos um dia, mas nem todo mundo tem casa própria.
— Merda, eu nunca sequer morei numa. Sempre tivemos apartamento.
A cozinha cheirava a décadas de gordura, mas, dessa vez, Harry nada disse.
— Tem um sótão. Daqueles que a gente vê nas exposições onde há baús, móveis antigos e chapéus engraçados. Gosto disso. Vou reformar primeiro a cozinha.
Harry fitou o lamentável amontoado de mato. —Vapor — disse. — É a melhor maneira de soltar esse papel de parede velho.
— Vapor?
— É. — Ele pegou um cigarro e riu. — Vai precisar de muito. Namorei uma mulher que trabalhava numa loja de tinta. Marli... é, acho que se chamava Marli. É provável que ainda me dê um desconto.
— Namorou alguém que trabalha num depósito de madeira?
— Vou verificar. Ande, preciso dar um telefonema. - Pararam em uma cabine telefônica a poucos quilômetros dali.
Harry encontrou uma moeda de vinte e cinco centavos e ligou para o consultório de Gina, enquanto Rony entrava numa loja de conveniência da rede 7-Eleven.
— Consultório da Dra. Weasley.
— Detetive Potter.
— Sim, detetive Potter, só um momento. - Ouviu-se um estalo, silêncio, e depois outro estalo.
— Harry?
— Como vai, doutora?
— Muito bem. — Enquanto falava, ela arrumava a mesa. — Saindo para a clínica.
— Que horas termina?
— Em geral, às cinco e meia, talvez seis.
Ele conferiu as horas e transferiu o resto de seu horário.
— Ótimo. Pego você lá.
— Mas não precisa...
— Preciso, sim. Quem está aí com você hoje?
— Como foi que disse?
— Quem está de vigilância no consultório? — explicou Harry, e tentou encontrar um canto na cabine onde o vento não alcançava.
— Ah, o sargento Billings.
— Bom. — Ele envolveu um fósforo com as mãos ao acender um cigarro e desejou muito não ter esquecido as luvas. — Mande Billings levar você à clínica.
Silêncio. Harry percebeu o mau humor dela e sentiu-se tentado a sorrir.
— Não vejo motivo algum pra não poder ir no meu carro sozinha à clínica, como faço toda semana nos últimos anos.
— Não estou pedindo que veja um motivo, Gina. Tenho muitos. Até as seis.
Desligou, sabendo que ela iria continuar com o telefone na mão até poder desligá-lo tranqüilamente. Não iria gostar de fazer uma coisa tão infantil e típica quanto batê-lo.
Ele tinha razão. Gina contou de trás para frente a partir de cinco, devagar, e repôs tranqüilamente o receptor no aparelho. Mal o largara quando Kate a chamou de novo pelo interfone.
— Sim?
Exigiu-lhe esforço para não ser ríspida.
—A senhora tem outra ligação na linha dois. Ele não quis dar o nome.
— Tudo bem, eu... — Ela sentiu os nervos no estômago se contraírem e soube. — Eu atendo, Kate.
Fitou o botão que piscava devagar. —Aqui é a Dra. Weasley.
— Eu a vi na igreja. Você foi.
— Sim. —As instruções que recebera dispararam-lhe pela mente. Tente mantê-lo na linha. — Eu tinha esperança de encontrá-lo lá, para conversarmos de novo. Como se sente?
— Você estava lá. Agora entende.
— Entendo o quê?
— Entende a grandeza. — O homem tinha a voz calma. Uma decisão alcançada, a fé confirmada. — Os sacrifícios que nos mandam fazer são muito pequenos, comparados com as recompensas da obediência. Alegrei-me que estivesse lá, para que você entenda. Eu tinha dúvidas.
— Que tipo de dúvidas?
— Sobre a missão. — Ele baixou a voz, como se até sussurrar de dúvida fosse pecado. — Porém, não tenho mais.
Gina aproveitou a oportunidade:
— Onde está Laura?
— Laura. — Ela o viu chorar. — Laura espera no purgatório, sofrendo, até eu expiar pelos seus pecados. É responsabilidade minha. Não tem ninguém além de mim e a Virgem Maria para interceder por ela.
Então Laura estava morta. Agora Gina podia ter certeza.
— Você deve tê-la amado muito.
— Era a melhor parte de mim. Fomos unidos antes do nascimento. Agora preciso impor o castigo por ela, antes de podermos nos juntar após a morte. Você entende agora, pois foi à igreja. Sua alma vai se juntar às outras. Eu a absolverei em nome do Senhor.
— Não pode matar de novo. Laura não desejaria que matasse de novo.
Silêncio... três, quatro, cinco segundos.
—Achei que tinha entendido.
Gina reconheceu o tom, a acusação, a traição. Iria perdê-lo.
—Acho que sim. Caso contrário, preciso que me explique tudo. Quero entender. Por isso quero ir falar com você.
— Não, é mentira. Você é cheia de pecados e mentiras.
Ela ouviu-o rezar o Pai-Nosso antes de a conexão ser cortada.
Quando Harry retornou à sala da equipe da homicídios, encontrou Lilá Brown em pé junto à sua mesa. Fez-lhe um sinal, apoiando o telefone na orelha para ficar com as mãos livres.
— Ela não consegue ficar longe de mim — disse Harry a Rony.
Ia abraçá-la, não mirando a cintura, mas o saco de confeitos de passas cobertas por chocolate na mesa.
— Ele ligou para a Dra. Weasley de novo — disse Lilá. A mão dele imobilizou-se.
— Quando?
— Ligação feita às 11:21.
— Localizaram a origem?
— Sim. — Ela ergueu um bloco da mesa e entregou-lhe. — Delimitaram essa área. Tem de ser entre essas quatro quadras. Goldman disse que ela se portou bem pra burro.
— Deus do céu, nós estávamos bem ali. — Ele largou o bloco de volta na mesa de Lilá. — Talvez tenhamos passado de carro por ele.
— O capitão mandou Finnigan, Mullendore e alguns policiais uniformizados vasculharem a área em busca de testemunhas.
— Vamos dar uma mãozinha a eles.
— Harry. Harry, espere. — Ele parou, virando-se com impaciência. Lilá apertou o bocal do telefone no ombro. — Estão mandando uma transcrição do telefonema dela ao capitão. Acho que você vai querer ver.
— Ótimo, lerei quando voltar.
— Acho que você vai querer ver agora, Harry.
O trabalho de algumas horas na clínica Donnerly bastou para afastar o nervosismo da mente de Gina. Os pacientes ali variavam de executivos maníaco-depressivos a drogados de rua retirados da dependência. Uma vez por semana, duas se o seu horário permitisse, ia à clínica trabalhar com a equipe de médicos. Via alguns dos pacientes apenas uma ou duas vezes, outros semana após semana, mês após mês.
Dava tempo ali, quando podia, porque não era um hospital de elite aonde iam os ricos quando queriam lidar com seus problemas, ou a dependência se tornava difícil demais. Tampouco era uma clínica simples e secundária dirigida por idealistas com pouco dinheiro, mas uma instituição capaz em luta para se manter de pé, que aceitava os enfermos emocionais e os doentes mentais de todas as camadas da vida.
Uma mulher no segundo andar, que sofria de doença de Alzheimer, costurava bonecas para as netas e depois brincava com elas quando esquecia que tinha netas. Um homem se julgava John Kennedy e passava a maior parte dos dias redigindo discursos inofensivos. Os pacientes mais violentos eram mantidos no terceiro andar, onde se contava com uma segurança mais rígida. As grossas portas de vidro ficavam trancadas e as janelas tinham barras de ferro.
Gina passou quase a tarde toda ali. Às cinco horas, beirava o esgotamento. Durante quase uma hora, estivera em sessão com um esquizofrênico paranóico que vociferara obscenidades e depois atirara a bandeja do almoço nela, antes de acabar contido por dois serventes. Ela própria lhe dera uma injeção de Torazina, mas não sem pesar. O esquizofrênico ficaria sob medicamento pelo resto da vida.
Quando tornou a acalmar-se, Gina deixou-o para ter alguns momentos de sossego na sala da equipe médica. Ainda tinha de ver mais uma paciente: Pomona Sprout, mulher de trinta e sete anos que cuidara de uma casa com três filhos, tivera emprego em horário integral como corretora de ações e trabalhara como presidente do Congresso Nacional de Pais e Filhos. Preparara refeições de gourmet, participara de todas as atividades escolares e fora nomeada Empresária do Ano. A nova mulher, que podia ter e cuidar de tudo.
Dois meses antes, desintegrara-se violentamente numa peça teatral da escola. Sofrera convulsões e um ataque que muitos dos pais, horrorizados, tomaram por epilepsia. Quando a levaram para o hospital, descobriu-se que se submetia à abstinência repentina de uma dependência tão séria quanto a de heroína.
Pomona Sprout mantivera coeso seu mundo perfeito com Valium e álcool, até o marido ameaçar pedir divórcio. Para provar sua força, ela suspendera de forma brusca a ingestão do remédio e da bebida e ignorara as reações físicas, numa tentativa desesperada de manter a vida como a estruturara.
Agora, embora a doença física estivesse sob controle, ela vinha sendo obrigada a lidar com as causas e os resultados.
Gina tomou o elevador e desceu ao primeiro andar, onde solicitou o arquivo de Pomona. Após examiná-lo, enfiou-o debaixo do braço e dirigiu-se ao quarto da paciente no fim do corredor. A mulher deixava a porta aberta, mas ela bateu antes de entrar.
As cortinas achavam-se fechadas e o quarto, escuro. As flores ao lado da cama exalavam um perfume leve, doce e esperançoso. Deitada enroscada, Pomona fitava a parede vazia. Não percebeu a presença da médica.
— Olá, Pomona. — Gina pôs o arquivo numa pequena mesa e olhou o quarto em volta. As roupas que a paciente usara na véspera amontoavam-se num canto. — Está escuro aqui — disse, e encaminhou-se para a cortina.
— Eu gosto que fique escuro.
Gina olhou a figura na cama. Era hora de impor-se.
— Eu, não — anunciou apenas, e abriu a cortina.
Quando a luz inundou o quarto, Pomona rolou na cama e disparou-lhe um olhar furioso. Não se preocupara com os cabelos e a maquiagem, e exibia uma expressão contraída de ressentimento em torno da boca.
— O quarto é meu.
— Sim, é. Pelo que eu soube, você tem passado tempo demais sozinha nele.
— E que diabo se espera que a gente faça aqui?
— Você poderia tentar sair para um passeio no terreno. - Gina sentou-se, mas não tocou no arquivo.
— Não tenho nada a ver com este lugar. Não quero ficar aqui.
— É livre para ir embora quando quiser. — A doutora a observou sentar-se e acender um cigarro. — Isso não é uma prisão, Pomona.
— Fácil para você dizer.
— Foi você quem assinou o registro de internação. Quando sentir que está pronta, pode assinar o registro de alta.
Pomona nada disse e continuou a fumar em pensativo silêncio.
— Vejo que seu marido veio visitá-la ontem. - A mulher olhou as flores e desviou o olhar.
— E daí?
— O que sentiu quando o viu?
— Ah, eu adorei — ela respondeu, irritada. — Adorei que ele viesse aqui para me ver deste jeito. — Agarrou um punhado dos cabelos não lavados. — Eu disse que devia trazer as crianças para ver que bruxa lamentável é a mãe delas.
— Sabia que ele vinha?
— Sabia.
— Você tem um chuveiro ali. Xampu, maquiagem.
— Não foi você quem disse que eu me escondia por trás das coisas?
— Usar drogas de prescrição médica e álcool como muleta não é o mesmo que fazer o esforço de se enfeitar para o marido. Você queria que ele a visse assim, Pomona. Por quê? Para que fosse embora sentindo pena de você? Culpado?
A flecha acertou o alvo e desencadeou as chamas, como esperava Gina.
— Apenas feche a matraca. Não é da sua conta.
— Seu marido trouxe essas flores? São lindas.
Pomona olhou-as mais uma vez. Davam-lhe vontade de chorar, perder o gume de ressentimento e fracasso que eram agora a sua defesa. Pegou o vaso e atirou as flores contra a parede.
No corredor do lado de fora, onde o haviam mandado esperar, Harry ouviu uma pancada estrondosa. Já se levantara da cadeira e dirigia-se à porta aberta, quando uma enfermeira o deteve:
— Lamento, senhor, não pode realmente entrar. A Dra. Weasley está com uma paciente.
Barrando-lhe a passagem, ela própria foi para a porta.
— Oh, Sra. Rydel. — Harry ouviu a voz de Gina, serena e inalterada, quando se dirigiu à enfermeira. — Poderia trazer uma lata de lixo e um pano de chão para a Sra. Woods limpar isso?
— Não vou limpar! — gritou Pomona. — O quarto é meu e não vou limpar.
— Então terá de tomar cuidado quando andar, para não cortar os pés nos cacos de vidro.
— Eu odeio você. — Como a médica sequer se contraiu, a paciente gritou ainda mais alto: — Odeio você! Não me ouviu?
— Sim, ouvi muito bem. Mas me pergunto se está gritando comigo, Pomona, ou consigo mesma.
— Quem diabo você pensa que é? — Violenta, ela levantou e baixou a mão como uma perfuradora para apagar o cigarro. — Vem aqui semana após semana com seu ar presunçoso, hipócrita, metida nesses terninhos bonitos, elegantes, e espera que eu dispa minha alma? A Srta. Sociedade Perfeita, que trata de neurastênicos como passatempo, depois volta para casa e se esquece deles?
— Eu não os esqueço, Pomona.
Embora a voz de Gina saísse tranquila, num direto contraste, no corredor, Harry ouviu-a.
— Você me deixa doente. — Pomona levantou-se da cama pela primeira vez naquele dia. — Não aguento a visão de você com seus sapatos italianos, brochinhos de ouro e essa perfeição de "eu nunca suo".
— Não sou perfeita, Pomona, nenhum de nós é. Nenhum de nós tem de ser para merecer amor e respeito.
As lágrimas afloraram, mas Gina não se levantou para reconfortá-la.
— Que sabe você sobre erros? Que diabo sabe sobre como eu vivia? Droga, eu fazia as coisas funcionarem. Eu fazia.
— É, fazia. Mas nada funciona para sempre se nos recusarmos a aceitar falhas.
— Eu era tão boa quanto você. Melhor. Tinha roupas como as suas e um lar. Odeio você vir aqui e me lembrar disso. Saia. Apenas saia e me deixe em paz.
— Tudo bem. — Gina levantou-se, levando o arquivo consigo.
— Voltarei na semana que vem. Antes, se você quiser que eu venha. — Foi até a porta e virou-se. — Você ainda tem um lar, Pomona.
Parada na porta, a enfermeira segurava a lata de lixo e o pano de chão. Gina pegou-os e encostou-os na parede interna. —Vou pedir que tragam um vaso novo para essas flores.
Cruzou a porta e fechou os olhos um instante. Aquele tipo de ódio violento, mesmo quando vinha da enfermidade, e não do coração, nunca era fácil de engolir.
— Doutora?
Gina logo se recompôs e abriu os olhos. Viu Harry a poucos passos.
— Chegou cedo.
— É. — Ele se aproximou e passou a mão no braço dela. — Que diabo faz num lugar assim?
— Meu trabalho. Você vai precisar esperar um minuto. Tenho de anotar algumas coisas neste arquivo.
Ela atravessou o corredor até o posto das enfermeiras, conferiu as horas e começou a escrever.
Harry observava-a. No momento, não parecia afetada de modo algum pela horrível cena que ele ouvira sem querer. Tinha o rosto calmo ao escrever com o que o detetive sabia ser uma letra muito profissional. Mas também vira um rápido momento indefeso quando ela saíra no corredor. Não insensível. Mas com um controle incrível. Ele não gostou disso, como não gostava daquele lugar de paredes brancas, limpas, e rostos infelizes sem expressão.
Gina devolveu o arquivo à enfermeira, em voz baixa disse algumas coisas que ele julgou referir-se à mulher que acabara de repreendê-la e tornou a olhar o relógio.
— Desculpe tê-lo feito esperar — disse quando retornou. — Tenho de pegar meu casaco. Por que não se encontra comigo lá fora?
Quando saiu, encontrou-o à espera na margem do gramado, fumando sem parar.
— Você não me deu chance ao telefone de dizer que não queria que se incomodasse com tudo isso. Tenho feito o caminho de ida e volta à clínica há muito tempo.
Ele largou o cigarro e esmagou-o com cuidado.
— Por que aceita toda aquela merda dela?
Gina inspirou fundo antes de passar o braço no dele.
— Onde estacionou?
— Deve ser merda psiquiátrica responder a perguntas com perguntas.
— É. Sim, é. Escute, se ela não me atacasse, eu não estaria fazendo meu trabalho. É a primeira vez que de fato chegamos a algum lugar desde que comecei a vê-la. Agora, onde estacionou? Está frio.
— Ali. — Mais que feliz por deixar a clínica para trás, Harry começou a andar com ela. — Ele ligou pra você de novo.
— É, logo depois de você. — Queria desesperadamente tratar aquilo com a mesma facilidade profissional que tinha com os pacientes na clínica. — Conseguiram rastreá-lo?
— Limitamos a duas quadras. Ninguém viu nada. Continuamos trabalhando.
—A Laura dele morreu.
— Eu já tinha imaginado. — Harry pôs a mão na porta do carro e tornou a soltá-la. — Da mesma forma que imaginei que você é o próximo alvo.
Ela não empalideceu nem estremeceu. Ele não esperava que o fizesse. Apenas assentiu com a cabeça, aceitando, e pôs a mão no braço dele.
— Me faria um favor?
— Posso tentar.
— Não falemos disso esta noite. Em hipótese alguma.
— Gina...
— Por favor. Tenho de ir à delegacia com você amanhã e falar com o capitão Shacklebolt. Não é cedo o suficiente para digerir tudo isso?
Ele tocou as mãos geladas sem luvas no rosto dela.
— Não vou deixar que nada aconteça a você. Não me importa o que precise fazer.
Gina sorriu e levantou as mãos para a cintura dele.
— Então não tenho nada com que me preocupar, não é?
— Eu gosto de você — ele disse, com todo cuidado. Era o mais próximo de uma declaração a que já chegara com uma mulher. — Quero que saiba disso.
— Então me leve pra casa, Harry. — Ela deslizou os lábios para a palma da mão dele. — E me mostre.
N/a: Aii gente, mil desculpas pela demora!
Desde que as aulas na faculdade começaram que eu não estou com tempo pra nada! :(
Mas está aí um capítulo novinho, como prometido!
ATé o próximo!
E milhões de obrigados às pessoas que leem essa fic e um beijo especial para as minhas duas leitoras preferidas. (Eu tenho certeza de que se uma de vcs está lendo isso, saberão que é de vcs! :D)
beeijos