Depois que voltamos para casa, mamãe, que estivera ali cuidando dos meninos enquanto estávamos fora, ainda ficou por mais um tempo, até ter certeza de que eu estava bem. Quando ela voltou para casa, Harry me obrigara a passar a tarde inteira à cama enquanto ele, James e Hugo se divertiam em um jogo de mímica ali mesmo, no quarto que eu dividia com Harry.
O quarto era espaçoso, de modo que permitia a brincadeira. Para termos a sensação de que estávamos ganhando espaço, rebaixamos uma parte do teto e criamos uma espécie de buraco em uma parede inteira, onde ficaram alojados os armários.
As paredes eram brancas, exceto pela parede em que estava a cabeceira da cama, pois esta estava coberta por um papel de parede que simulava madeira. O mesmo papel de parede cobria os dois abajures que estavam pregados ao lado das laterais da cabeceira da cama. Os rodapés e as portas de entrada, do banheiro e dos armários eram de uma tonalidade de cinza discreta, mas que ao mesmo tempo contrastava com o branco das paredes. As janelas – eram duas – na verdade eram portas de vidro que conduziam à varanda. As cortinas eram lisas e de um veludo do mesmo tom de cinza que escolhêramos para a decoração do quarto.
Houve um breve momento de pausa em que Harry fora à cozinha buscar um lanche e as crianças se deitaram comigo na cama, Hugo sobre minha barriga e James ao meu lado, no lugar onde Harry costumava dormir.
- Estou impressionada com a quantidade de filmes e histórias trouxas que vocês conhecem – eu disse. – Quero dizer, Hugo, pensei que só sua irmã se intressasse por histórias trouxas.
- Eu li alguns contos dos irmãos Grimm. Rose me contou um ou dois contos, então eu os li.
- Hmmm – eu fiz. – E você, James?
- Lily tem um livro de contos dos irmãos Grimm também. Papai costumava contar histórias para ela antes de dormir e nós, Albus e eu, às vezes nos sentávamos com eles para ouvir. Alguns são mais interessantes do que Os Contos de Beedle, O Bardo.
- Talvez possamos ler outras histórias trouxas juntos a qualquer momento – eu sugeri. – Há outros autores, outros gêneros... Decerto vocês iriam gostar. Pelo visto gostam de clássicos!
- É, acho que sim – James assentiu. – Os contos dos irmãos Grimm são clássicos?
- Sim, eles são – eu assenti sorrindo. – E então, ansiosos para o domingo? – quis saber.
- Eu estou! – Hugo disse de imediato.
- É claro que está – eu disse, afagando-lhe os cabelos ruivos. – É o seu primeiro ano. Aprenderá a realizar feitiços e controlar sua magia, fará novos amigos...
- Bolo de cenoura e suco de uva – Harry anunciou ao adentrar o aposento com uma bandeja em mãos.
- Você realmente se esforça para me engordar, não é, Potter? – eu brinquei. – Me engravidou e agora me enche de mimos e comidas deliciosas?
- Comidas deliciosas que você mesma prepara para me engordar – ele retrucou, também em tom de brincadeira. Entregou-me um prato com uma fatia do bolo que mamãe preparara mais cedo e roubou-me um selinho. – Oh, espere! Onde vou me deitar? Quer dizer que me trocou por estes dois?
Os garotos riam das brincadeiras de Harry e eu me sentia feliz pelo entrosamento entre nós e nossos flhos. Ficamos ali, os quatro, aproveitando aquele momento tão único que, por acaso, se repetira durante quase todas as tardes das últimas duas semanas. James e Hugo logo devoraram os seus pedaços de torta e retomaram o jogo de mímica, agora sem Harry, que ocupava o lugar ao meu lado na cama. Ele me puxara para perto, passando o braço pelas minhas costas, segurando-me de modo firme pelo ombro. Beijara a minha testa e me deitara em seu peito.
- Como vamos fazer no sábado? – eu questionara em tom baixo, de modo que somente ele pudesse ouvir.
Ele sabia que eu me referia ao almoço em família que todo ano ocorria n’A Toca no dia 31 de agosto, véspera do início do ano letivo em Hogwarts.
- Não fazemos mais parte daquela família, Hermione. Por mais que nos sintamos parte dela, não o somos mais – Harry me disse em tom sério. Eu sabia que ele estava certo. Sentíamos como se fôssemos parte da família Weasley porque crescemos com eles, nos relacionamos com dois deles por vinte anos e nossos filhos sempre seriam parte daquela família. Por causa deles, jamais nos desligaríamos de fato. – Ginny viaja na quinta-feira e só retorna na terça-feira da próxima semana, portanto, Albus e Lily ficarão aqui conosco. No sábado, as crianças vão, almoçam com eles e depois voltam para cá.
Eu não respondi, mas assenti.
- Pai, tenta adivinhar essa! – James chamou e iniciou um número de mímica.
- Pode ir brincar com eles. Eu levo as coisas lá para baixo – eu disse a Harry e ele beijou-me a testa antes de voltar a brincar com James e Hugo.
Peguei a bandeja e desci, rumando para a cozinha. Lavei as louças e as guardei, o quintal reformado chamando a minha atenção enquanto eu o fazia. Ainda não anoitecera, apesar de já passar das 18h, e ainda demoraria até que os últimos raios de sol cedessem lugar ao aveludado azul profundo do céu noturno e ao brilho tímido das estrelas.
Aproximei-me da parede de vidro que separava a cozinha do quintal e, perdida em meus pensamentos, ali permaneci.
Após um mês inteiro vivendo com Harry naquela casa, eu percebera quão fácil era a nossa convivência. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto ao lembrar que um dia eu imaginara as dificuldades que existiriam no momento em que passássemos a morar juntos e a viver aquela farsa. Não estou dizendo que não havia dificuldades. O fato de Rose não estar ali conosco era uma das maiores dificuldades com as quais eu tinha que lidar, da mesma forma que Harry sentia falta de ter Albus e Lily com ele todos os dias, mas havia uma dificuldade com a qual ambos tínhamos que lidar: dividir o mesmo quarto, a mesma cama e ainda ter de resistir um ao outro.
Céus, como era difícil ter de afastar qualquer aproximação, negar o carinho que ele me oferecia.
- Pensando em mim? – ele sussurrou em meu ouvido e se afastou, sorrindo.
- Oh, Harry! Desculpe, não o ouvi se aproximar – eu disse.
- Você demorou a voltar, então resolvi vir te procurar – Harry explicou-se. – E então, no que estava pensando?
- Em mim, em você, nas crianças... em nós dois...
- Em nós dois?
- Há como pensar em um de nós dois e não pensar nisso tudo? – eu fiz, abrindo os braços em referência àquela casa e à vida que agora tínhamos. – Eu só gostaria de entender como chegamos até aqui.
- Sabemos como chegamos até aqui – Harry disse. – Só foi preciso que cedêssemos uma meia dúzia de vezes a uma atração mútua. Uma atração que hoje nós fingimos ignorar.
- Eu já disse que não a ignoro. Eu a afasto.
- Isso não faz com que ela desapareça – ele insistiu.
- Eu sei que não. Mas não podemos continuar com isso. Não é saudável. Somos amigos, ainda que eu esteja esperando um filho seu, ainda que tenhamos, como você mesmo disse, cedido a uma atração mútua – eu disse. – Uma atração que, justamente por sermos amigos, não deveria existir. E eu não posso evitar me questionar quando e como isso começou.
- Eu não sei quando ou como isso começou, porque não é como se fosse algo que acontece de uma hora para outra. Nossa relação começou a se desenvolver no instante em que você entrou naquela cabine do Expresso de Hogwarts e encontrou Ron e eu enquanto procurava pelo sapo de Neville. Quem diria que seríamos amigos, naquele momento?
Eu sorri.
- Nenhum de nós, certamente – respondi.
- Nenhum de nós – ele concordou. – Agora, Hermione, lembre-se de tudo o que eu disse a Ron no dia em que estivemos no 1 Lombard Street. Eu já a admirava por tudo o que você fez por mim durante esses trinta anos, por sua inteligência, pela sua força... Mas eu percebi que há em você também uma menina frágil, que também precisa de apoio, de um ombro amigo, de alguém que se preocupe com ela... A invasão ao Ministério da Magia, o feitiço que Dolohov lançou contra você, o modo como você ficou quando Ron começou a namorar com Lavender... Tudo isso me fez enxergar perceber que você precisava de mim tanto quanto eu precisava de você – Harry continuou e deu um passo em minha direção, os olhos fixos nos meus. – Mesmo depois que nos casamos, eu ainda tinha que estar com você, saber como você estava, se estava tudo bem. Mas nós dois sabemos que isso não quer dizer, necessariamente, que eu já sentia algo por você.
- Somos amigos, nos preocupamos um com o outro – eu afirmei.
- Sim, de fato, mas quando o meu casamento começou a desmoronar, eu só queria que Ginny fosse como você, lidasse com as coisas como você, com racionalidade, mas ao mesmo tempo com afeto – Harry continuou. – Acho que foi aí que me encantei por você. Acho que Ginny percebeu isso antes mesmo que eu percebesse. Então você se separou de Ron e eu tomei para mim a responsabilidade de garantir que você estivesse bem. Como estávamos cada vez mais próximos, a atração era inevitável. Você é uma mulher atraente, inteligente e forte, qualidades que nenhum homem ignora.
- Harry...
- Não, desta vez você vai me deixar terminar – ele me interrompeu. – No início, era somente essa atração que me movia em sua direção, mas depois do que vivemos nos últimos três meses, principalmente no último mês, não acho que possa dizer que é apenas isso. – Harry segurou o meu rosto entre as suas duas mãos e a já conhecida onda de calor e formigamento me invadiu, mas nem isso me acalmou. Meu coração disparara e eu respirava com dificuldade, tão tensa estava. – Dentro de mim, há um outro tipo de desejo que venho alimentando a cada dia...
A voz dele foi morrendo à medida em que ele eliminava a distância entre nossos rostos. Eu fechei os olhos e fui tomada num simples e terno roçar de lábios. Senti os olhos úmidos e de um deles escorrer uma única lágrima. Sem encontrar resistência, Harry aprofundou o beijo e puxou-me para si pela cintura, colando os nossos corpos. Completamente envolvida, deixei que minhas mãos repousassem sobre os seus ombros.
O beijo foi interrompido por Harry com delicadeza. Ao se afastar, gentilmente afastou uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre o meu rosto, colocando-a atrás de minha orelha.
- Eu quero que sejamos uma família, Mione. Uma família de verdade – ele disse, sem quebrar o contato visual um instante sequer. – Quero não só poder dizer que você é minha mulher, mas quero poder fazer de você a minha mulher.
- Harry, eu... – eu comecei. Eu ia negar, dizer que nós não podíamos, mas vê-lo me olhando daquela maneira me fez perceber que não havia como fazê-lo. Eu queria dizer sim, queria ser a mulher dele, queria que fôssemos uma família de verdade, mas eu não estava pronta para isso. Eu precisava entender o que eu sentia. – Eu preciso de um tempo.
- Tudo bem, leve o tempo que precisar – ele assentiu. – Mas esteja certa de que não vou desistir.
Eu sorri em resposta e me afastei, saindo do alcance dele.
- Vamos voltar lá para cima... ficar com os meninos – eu sugeri.
- É – Harry disse, sem jeito pela súbita mudança de assunto. – Vamos voltar, então.
Eu saí na frente, Harry em meu encalço – e em meus pensamentos, os quais ele sabia ter tomado para si no momento em que se iniciara a conversa que acabara de acontecer.