Se queres prever o futuro, estuda o passado.
CONFÚCIO
3 O PASSADO É A BASE DO FUTURO
Quando terminou de arrumar a proteção em seu rosto, Harry já tinha consciência de que aquele seria um longo dia. Franziu o cenho e fitou sua imagem imponente no espelho do quarto de aspecto acabado, concentrando-se em seus olhos. Respirou fundo enquanto tentava reduzir sua aura de poder, aprisionando a magia em seu corpo – os bruxos, mesmo que destreinados, poderiam saber de longe que ele não era alguém normal.
Era difícil. Seus anos de treinamento serviram para aumentar seus poderes, não para ocultá-los – subjugara tal técnica e agora se arrependia amargamente. Amaldiçoou-se por isso, apoiando as mãos na cômoda.
— Não posso desistir. — Falou determinado para seu reflexo.
— É assim que se fala! — Retrucou o espelho.
O homem sorriu, respirando fundo e concentrando-se novamente. Fez um esforço hercúleo para, primeiro, encontrar sua aura. Fechou os olhos, tentando trazê-la para dentro do corpo. Seu poder era imenso, sabia disso; uma névoa que apesar de incolor, era densa o suficiente para que se tornasse perceptível à visão. Era como tentar segurar fumaça e dar forma a ela – pensou ser impossível até que quase meia hora depois conseguiu diminuí-la um pouco.
Apesar de ter entendido como funcionava, a cada instante parecia ficar mais difícil, como se estivesse tentando contrair algo muito grande num recipiente muito pequeno. Demorou, mas finalmente conseguiu. Quando abriu os olhos novamente, espantou-se com sua coloração: estavam dourados. Não eram apenas alguns feixes, mas um dourado firme e espesso. O amarelo cobrira todo o verde que havia ali, mas não estava parado; prestando bastante atenção, podia-se ver um espectro rondando sua íris, como se pedisse por liberdade. Aquele era seu poder.
Ao menos o treinamento dera algum resultado, pensou ele. Esfregou as mãos encobertas por luvas de couro de dragão em seu rosto, retirando o suor dali. Um suspiro de alívio foi impossível de conter quando finalmente deixou o quarto. Sua noite de sono fora a melhor que tivera em anos – os treinamentos não deixavam muito tempo disponível para descanso.
Desceu as escadas aos saltos, animado de mais para sua aparência misteriosa. Rosmerta ergueu o olhar num gesto automático, estranhando a normalidade do ambiente. Nenhuma alteração de magia na atmosfera, nenhuma força pressionando-a, nenhuma tontura. O que acontecera na noite anterior? Talvez tenha imaginado coisas, pensou consigo mesma.
— Gostaria de uma cerveja amanteigada, por favor. — Pediu. A mulher trouxe a bebida sem demora, fitando-o desconfiada. Não pôde deixar que a curiosidade de saber como era seu rosto não viesse com força quando uma das mãos do rapaz alcançaram o botão prata da proteção em seu rosto. Por alguns segundos imaginou um rosto coberto por marcas e cicatrizes. E não estava de toda errada.
— Faz tempo que não tomo uma dessas. — Comentou, retirando-a. Rosmerta fitou seu rosto, transtornada, e corou quando percebeu seu olhar sobre ela, que tinha os lábios ligeiramente abertos. O rapaz tinha uma cicatriz que cortava todo o lado direito do rosto. — Talvez soe estranho, mas não sou suspeito.
— Desculpe. — Fez ela. — Tivemos um encontro… fora do comum ontem à noite.
— Fora do comum como? — Indagou como quem não quer nada, mexendo o líquido em sua caneca.
— Eu… eu podia jurar que… — Começou, sem saber o que falar. — Não sei. — Disse num suspiro. — Deve ser o sono. — Terminou, massageando as têmporas.
— Deve ser o sono. — Concordou, escondendo o sorriso brincalhão com mais um gole da bebida.
— Você é novo aqui? — Perguntou ela, sem se conter. Harry pôde ler claramente sua curiosidade, sorrindo divertido.
— Blake. — Respondeu depois de mais um gole. — Blake Walsh. — Mentiu com a expressão tranquila, vendo a dona do bar franzir o cenho novamente. — Nascido trouxa.
— Sim, me desculpe novamente. Ainda me é estranho desconhecer um sobrenome nos dias de hoje. — Comentou avoada. O rapaz não deixou passar, e uma contração em suas pálpebras foi o único sinal de um plano improvisado.
— Ando meio deslocado, estive com a parte trouxa da família… — Riu-se, embora estivesse atento. — O que se passa no mundo bruxo?
Rosmerta fitou-o com o olhar doce, decidindo que o rapaz não faria mal algum. Preferiu manter as ideias de que aquele era um bruxo potencialmente perigoso e de olhos verdes como fruto de sua imaginação enquanto desatava a contar um relato de como o mundo andava sem notícias importantes, embora houvesse rumores de algumas forças mágicas em áreas trouxas ("provavelmente bruxos jovens querendo diversão", afirmava ela).
Quando saiu do Três Vassouras duas horas depois, sua alegria havia se tornado preocupação. Segundo os relatos de Rosmerta, era provável que Voldemort estivesse tramando algo mais breve do que esperava – forças mágicas em áreas trouxas nunca foram bom sinal. Harry sabia que ele não era o único a ser treinado: o círculo interno de comensais estava, provavelmente, muito mais forte que alguns anos atrás. Virou os olhos para o horizonte, na direção do castelo de Hogwarts. Não queria voltar. Apesar de sentir falta de seu ambiente aconchegante, não poderia esquecer-se do tanto que fora manipulado ali dentro. Ademais… teria de lidar com coisas com que não se sentia a vontade ainda. Rony. Hermione. Gina…
Suspirou, contrariado. Estivera tentando ao máximo adiar o início dos planos, mas tudo apontava para a necessidade de ser rápido. Um passo em falso e seria tarde demais para que pudesse cumprir com o planejado. Andou em passos lentos até a Casa dos Gritos e sentou-se numa pedra próxima às árvores, fixando o olhar em seu anel. O dourado de seus olhos tornou-se escuro, quase negro.
Hermione, ele chamou.
Sala de aula, Hogwarts
Algum lugar na Inglaterra
09 de Janeiro de 2004, 11:33
Hermione¸ ela ouviu. Sobressaltou-se, derrubando o grosso livro que segurava em suas mãos. Ao erguer os olhos, viu seus alunos fitando-a com curiosidade: “não foi nada”, garantiu ela com um sorriso amarelo no rosto.
Prepare-se. A guerra voltará.
— Aula encerrada! — Exclamou de repente. — Não estou me sentindo muito bem, acho que vou passar na enfermaria…
Hermione sentou-se em sua mesa, agradecendo e desvencilhando-se dos alunos que lhe desejavam melhoras e ofereciam ajuda. Fechou a porta com um aceno de varinha e apoiou a cabeça nas mãos, respirando fundo. A voz… mais uma vez, a voz – rouca, porém firme, estava mais uma vez comunicando-a, e agora com palavras certas sobre a guerra. Se ao menos pudesse responder…
— Por quê? Como? — Questionou num sussurro, envergonhada daquela ridícula tentativa de resposta. Seu rosto ainda estava nas mãos, baixo.
Voldemort está vivo… poderoso. Há uma trama, respondeu a voz. Um arrepiou percorreu sua espinha ao ouvir o nome dele depois de tanto tempo. Quem seria aquele, que tinha coragem para tratar dessa forma um assunto há tanto esquecido? Sua mente trabalhava veloz, e logo seus olhos se arregalaram por outra razão: será que ele a ouvira? Fechou os olhos, esperançosa para obter respostas, e baixou novamente a cabeça, concentrando-se ao máximo.
— Quem é você? — Sua voz continuava baixa, mas agora estava certa, determinada.
Seu aliado. O coração da professora deu um salto – ele a ouvia! Porém, tão logo a euforia veio, também desapareceu. Como podia ouvi-la? Olhou em volta, os olhos semicerrados buscando pela origem da voz infantilmente. Por um momento, lembrou-se do seu segundo ano e de Harry, que ouvia os sussurros do basilisco sem saber sua origem. Então era assim que se sentia.
Confie em mim, continuou a voz. Hermione deu uma risada amarga: como se pudesse confiar em alguém rápido assim. Sou só o que você tem. Ninguém acreditará em você, afirmou ele, desdenhoso e com razão: o mundo não estava pronto para receber uma notícia como essa, principalmente quando nada parecia errado.
A mulher cruzou as mãos em cima de seu livro, pensativa. Imaginou se aquela voz poderia apoderar-se dela, tal como o diário de Riddle fizera com Gina no episódio do basilisco. Imaginou, ainda, se a voz poderia chegar até ela se continuasse a responder, a acreditar; se estaria arriscando sua família e amigos ao confiar numa simples voz e nada mais.
Parecia absurdo confiar – as coisas estavam bem, não? O Sol continuava no céu, os bruxos continuavam sorrindo, as lojas continuavam funcionando. Como poderia Voldemort estar de volta? Por que ele voltaria? Lembrou-se de quando acordara com a voz, a varinha distante de sua mão. E então se preocupou.
Se Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado estivesse de volta, sua família e amigos também estariam em perigo – num perigo muito maior do que a Voz podia apresentar. Não, mais que isso: todo o mundo bruxo, até mesmo o trouxa, estaria ameaçado. Estariam, mais uma vez, em guerra. As trevas voltariam mais fortes que nunca, e a destruição dessa vez seria certa.
Confie, pediu a voz. Respirou fundo, incerta. Eram tantas perguntas, tantas dúvidas; nada estava certo. O que faria? Mordeu os lábios e decidiu seguir com o que fazia, ao menos por enquanto.
— O que… o que devo fazer? — Indagou. Sua voz determinada era agora lânguida e vacilante. — O que é essa trama?
Alerte Dumbledore. Hermione pulou novamente na cadeira, tendo os pensamentos interrompidos. “Assim seja”, ela pensou. Se ele fosse, de fato, inimigo, não estaria alertando-os para um ataque iminente - seria estúpido. Diga a ele que em breve entrarei em contato. Há algo que precisa ser feito. Ela sorriu ao ouvir a sineta tocar e alguns dos alunos de sua próxima turma entrarem na sala, retirando os livros das bolsas. Mais tarde, teria uma conversa com o diretor.
— Guardem os livros, meninos! — Exclamou entusiasmada, levantando-se quando todas as mesas se ocuparam. A adrenalina e a pitada de medo muito conhecidas em suas épocas de estudante correram por suas veias. — Hoje teremos uma aula diferente. — Terminou, retirando a varinha.
**
— Entre, Professora Granger. — Convidou Dumbledore ao ouvir uma batida na porta. A mulher entrou com o cenho franzido.
— Como sabia que era eu?
— Bem… Presumi que a senhora fosse fazer visitas constantes ao meu escritório. — Explicou, piscando um dos olhos. Ela corou. — Sente-se, professora! Estava justamente comentando com professor Snape sobre nossa… conversa.
Hermione sentou rapidamente, cruzando as pernas. Olhou de soslaio para o professor de poções ao seu lado, ligeiramente desconfiada – Snape provara sua lealdade, é claro, mas sua personalidade áspera continuava a mesma. Ergueu a coluna e pigarreou.
— Bem, Diretor, estive pensando sobre o assunto e acredito que seria de bom tom tomar uma atitude. — Falou, certa do que fazia. O diretor fitou-a por baixo dos óculos de meia lua. — E também… Não posso de explicar como sei disso, mas tenho razões para acreditar que em breve teremos um companheiro importante nessa nossa luta.
Dumbledore e Snape se entreolharam, preocupados.
Muito bem, Hermione.
Mansão Malfoy
Whiltshire, Inglaterra
10 de Janeiro de 2004, 22:50
— Crucio! — Gritou a criatura esguia de olhos vermelhos, o ódio transbordando em sua voz.
Uma figura encapuzada caiu no chão, debatendo-se furiosamente. Seus gritos de dor tomaram todo o salão, desesperados – aquela maldição fora particularmente dolorosa. Suas costas se erguiam do chão, o corpo todo queimando como se estivesse em brasa, sentia facas perfurando e costurando sua pele. O Lorde das Trevas estava com raiva, muita raiva.
Os outros servos se encolheram nas sombras, como se buscassem proteção; nenhum deles estava disposto a receber tal castigo, tamanha era a fúria de seu mestre. Súbito, os gritos cessaram e deram lugar a um choro baixo, repleto de agonia. O corpo se arrastou como podia até as sombras que se formavam próximas às paredes negras da mansão. Ninguém o ajudou.
— Imbecis! — Gritou o mestre, furioso. — Quatro trouxas mortos, quatro só hoje! Eu já disse, não devemos chamar atenção!
Nenhuma das figuras encapuzadas se pronunciou.
— Idiotas! — Vociferou novamente. — Fiquem quietos! Os sangues-ruim, os traidores de sangue acham que sumi, que desapareci. — Riu ele, um ar maníaco exalando de cada sílaba pronunciada. — Lembrem-se do plano! É muito maior que a sede de sangue.
“Logo… logo poderão matar. Logo derramarão todo o sangue-ruim que existe, logo poderão mostrar suas marcas, orgulhosos por serem aceitos pelo Lord das Trevas! Logo… logo estarei no comando”. Terminou num sussurro baixo, perigoso. Acariciou a cabeça da gigantesca cobra que agora se enrolava por seu dorso e fitou um ponto nas sombras.
O corpo do homem torturado voou e parou aos seus pés, fazendo com que a máscara prateada caísse e revelasse os olhos arregalados em pânico. Os cantos da boca sem lábios da criatura se ergueram de maneira sádica.
— Jantar, Nagini. — Ordenou em língua de cobra. O animal sibilou, as presas venenosas apagando o brilho de terror no rosto do homem.
O Lord das Trevas sorriu, satisfeito. Logo.