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Haviam se passado quatro semanas desde a descoberta concreta de Hermione sobre Draco Malfoy e Severus Snape. Comensais. Ela repetia essa palavra para si mesma por inúmeras vezes num misto de medo e incredulidade, como se fosse um mantra que a levaria ao nirvana. Estava confusa, na verdade. Blefara sobre Draco ter alguma ligação com um suposto plano que a envolveria e agora se via encurralada diante da certeza de que aquilo era uma verdade. Estava correndo perigo, podia sentir.
Se havia algo que lhe perturbava ao extremo era não conseguir desvendar o mistério que havia por trás de si. O que seria digno do seu sangue, segundo Voldemort? O que Draco tinha de tão precioso em si que fora designado para aquela missão em particular? Eram tantas dúvidas... Hermione às vezes queria apenas ser uma adolescente comum. Não a amiga do Eleito, a aluna número um de Hogwarts, uma menina sem graça. Só Hermione Granger. Era pedir muito?
A garota só retomara a calma quando fora chamada à sala de McGonagall. Era monitora chefe, afinal, e havia muito trabalho para ser feito, de modo que não podia se deixar abater com incertezas. De todo modo, fora naquela reunião às pressas que recebera os avisos sobre a ida ao vilarejo de Hogsmeade na noite seguinte. Já podia imaginar o alvoroço que invadia a sala comunal da Grifinória, lugar que não visitava ao que lhe parecia uma eternidade, desde que passara a ter seu próprio dormitório na ala dos monitores. Agora ela estava ali, recebendo a notícia de que seria a responsável pela organização de ida e volta dos grifos, tendo horário marcado de modo rigoroso e a tarefa de manter qualquer problema avisado imediatamente através de um patrono.
Entendera perfeitamente, é claro, e se vira até mesmo dialogando por instantes com McGonagall. Na verdade, estava se perguntando interiormente onde estaria Malfoy naquele momento. Por que a professora realizaria as reuniões separadas? Ela duvidava muito que houvesse informações secretas entre as Casas e riu ao pensar naquilo.
De repente se via relembrando os acontecimentos mais recentes, enquanto rumava de volta para seu dormitório individual. Há cerca de três semanas atrás, Draco começara a se aproximar dela aos poucos, sutilmente. Fora uma tarefa que lhe colocara medo. Passara a infância exclamando que rejeitava Hermione e chamando-a dos piores nomes possíveis, e por mais que aquilo tivesse ficado para trás, sentia que estava pisando em território perigoso.
Ele dera a desculpa de que seriam colegas de alojamento até o final daquele ano, o último em Hogwarts, e que como eram monitores, deveriam ao menos se tratar com certa simpatia. Ela, porém, diante daquilo só tivera aumentada a sua certeza sobre o sonserino ter noção de algo que ela desconhecia. Caso contrário, pensava, ele jamais se aproximaria dela. Era uma situação estranha e tentadora.
Hermione estava tramando um modo de questioná-lo sobre tudo aquilo, ou melhor, uma maneira induzi-lo a citar tudo o que lhe era conhecido. Era fato que se ela dissesse algo que ele não sabia, acabaria por complicar as coisas para si, então iniciar uma conversa disfarçada estava fora de cogitação. Estar totalmente incerta sobre os planos de Voldemort era algo novo na vida da grifinória e ela se sentia cada vez mais sufocada naquele emaranhado de hipóteses.
Do lado de cá, ela. Grifinória, amiga do Eleito, nascida trouxa. Vira Voldemort tratar-lhe com o máximo de respeito que lhe era possível no último encontro e o ouvira sugerir algo sobre o que seria ‘digno do seu sangue’. Sabia que havia um plano sobre si e que Draco estava ciente dele, mas não conseguia imaginar o que era ou como enfrentá-lo.
Do lado de lá, ele. Sonserino, servo de Voldemort, sangue-puro. Ouvira do Lord das Trevas uma prévia do plano maior que envolveria a garota, de modo que tinha uma missão, mas estava agindo às escuras sem nem mesmo saber o que causariam as suas ações. Precisava se aproximar dela e ser mais cauteloso, mas como?
Desde então os dois haviam se tornado o que se poderia chamar de bons colegas. A grifinória movida pelo seu desejo de desvendar o mistério que lhe cercava e o sonserino seguindo o destino que lhe era designado. Desse modo, o anseio que sentiam um pelo outro já havia se reduzido consideravelmente. Já conseguiam permanecer ao mesmo tempo na sala que dividiam no alojamento dos monitores sem que berros fossem soltos ao ar e Hermione sentia-se estranhamente segura nos seus sonhos depois do dia em que ele aparecera para acudir-lhe.
A verdade é que Draco estava começando a admirá-la, de certo modo. Estava começando a notar – inconscientemente – a beleza sutil que havia nela, mas nada demais. Não que ela estivesse indiferente a ele. A cada dia o loiro via que o Lord estava completamente correto em seu julgamento prévio: a garota possuía uma excelente capacidade, sendo inteligente e muito dedicada. Seria uma peça valiosa se conquistada, principalmente por ser amiga de Harry Potter.
Se Draco tinha alguma idéia de como cumprir sua missão? Bem, ele havia traçado um foco e estava trabalhando nele. Precisava saber como era a amizade entre Granger, Potter e Weasley, para só então encontrar um modo de utilizá-la contra a garota. Esse seria o primeiro passo, certamente: distanciá-la dos garotos que se achavam heróis. Porque agora estava claro o fato de que ela era a verdadeira heroína ali, a alma do negócio.
Infelizmente, era cedo demais para tocar naquele assunto. Tal iniciativa da parte dele levantaria suspeitas indesejadas no momento e poderia estragar tudo o que Draco construíra até ali, que não era muito, mas já era algo. O laço estava começando a ser tecido e logo acabaria por atar a confiança entre ele e Hermione, isso era algo que apenas eles não haviam visto ainda.
Porém, talvez o tempo lhes mostrasse.
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