Mantenha-os sobre tensão e canse-os.
SUN TZU, A ARTE DA GUERRA
2 ILUSÕES NÃO APAGAM VERDADES
Hermione precisou respirar fundo antes de prosseguir. O mundo pareceu pesar em seus ombros, lembrando-a da responsabilidade em suas mãos – se estivesse certa, estaria arrastando todo o passado de volta para o presente. Tentou pensar num modo de dizer o queria, amaldiçoando-se quando não pôde fazê-lo. Respirou fundo e decidiu-se por acabar com aquilo de uma vez por todas. Era hora de aceitar os fatos.
— A guerra, Professora? — Indagou Dumbledore, sentando-se em sua mesa. — A que deve essa conclusão?
A morena andou e sentou-se também quando o diretor indicou a cadeira do lado oposto ao que ele estava. Sorriu, agradecendo-o mentalmente. Seus joelhos já davam sinais de fraqueza diante da pressão.
— Veja bem, Diretor… — Começou receosa. — Não houve indício algum de que tudo estava acabado.
O velho fitou-a novamente e apoiou os cotovelos na mesa.
— Os ataques pararam. Ao que se sabe, não houve uma única morte causada por Voldemort ou seus seguidores. — Ela tremeu com a menção do nome, balançando a cabeça para focar-se em seu ponto.
“Estamos subestimando seus poderes. Subestimando sua mente. Dumbledore, Você-Sabe-Quem está com a vantagem, não percebe?” Hermione agora falava alto, ansiosa. Seu tom tornava-se mais desesperado a cada palavra, como se estivesse convencendo a si mesma. Andara até ali sem saber ao certo como ou porquê, apenas com palavras vagas como “guerra” sendo sussurradas pelo vento – agora, entretanto, parecia ter voltado aos eixos de uma verdadeira auror.
O velho pensou por um momento, e levantou os olhos azuis e perspicazes para ela, como se já soubesse de tudo aquilo. Hermione piscou algumas vezes, como se estivesse acordando: em que momento sucumbira às próprias fantasias? Como foi que não percebera o que estava fazendo?
— Sei de tudo isso, Hermione. Se quer minha sinceridade por um momento, nunca estive relaxado. Contudo, também nunca fui capaz de encontrar sequer um sinal de magia das trevas depois do último ataque, há anos atrás. — Desabafou. — Agora, se me permite uma pergunta curiosa: o que te traz essa preocupação, tanto tempo depois?
Mordeu o lábio inferior, sem mais argumentos. O que diria?Bem, Diretor, as vozes me contaram.Estava ponderando os prós e contras de virar-se e desistir quando uma solução plausível passou de supetão por sua mente.
— Eu… me lembrei de Harry. — Disse a Professora. O outro piscou, confuso. — Quando Harry sobreviveu ao ataque e enfraqueceu Você-Sabe-Quem, todos no mundo mágico festejaram: ele se foi, diziam todos. Só em seu quarto ano em Hogwarts, quando Cedrico morreu, é que sua existência foi aceita por alguns. E apenas no nosso quinto ano, após uma aparição inegável no próprio Ministério da Magia é que o Ministro finalmente aceitou o fato! — A mulher levantara-se e agora andava de um lado para o outro enquanto falava. A cada minuto que passava, a cada minuto que pensava, a possibilidade tornava-se mais e mais possível.
— Está dizendo que Lord Voldemort enfraqueceu e deixou-nos por alguns anos? — Questionou, erguendo uma das sobrancelhas. Tinha suas próprias ideias, é claro, mas seu discurso estava apenas começando a se tornar interessante. Hermione sempre fora uma bruxa excepcional.
— Não! — Negou com a voz esganiçada. — Estou dizendo que ele está mais forte. Não percebe? Nós é que estamos fracos! Há quanto tempo os Aurores não têm um trabalho grande? Um pequeno, que seja! Há quanto tempo não treinamos? Há quanto tempo… não lutamos? Estamos fracos, preguiçosos, destreinados. Duvido muito que saibamos o suficiente para lutarmos como antes. Não sei qual é seu plano, masVoldemort não está morto. — Concluiu, batendo as palmas das mãos contra a mesa de mogno.
A professora espantou-se consigo mesma ao dizer o nome Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado com tanta ênfase. Após uma rápida análise de si mesma, percebeu também que mesmo que não conhecesse o dono da voz misteriosa, entregara sua confiança a ele. Estava certo: a guerra não acabara. Não ainda. Estavam apenas fingindo que não estava ali. Haviam enganado a si mesmos, repetindo a mentira tantas vezes, que pensaram ser uma verdade.
O diretor deu um sorriso triste: aquela era a mais pura verdade. De início, teimava em alertar os bruxos de que a guerra não havia terminado, de que Voldemort não fora eliminado. As trevas ainda estavam por perto. Apesar disso, bastaram alguns poucos anos para que suas suspeitas permanecessem apenas em seu escritório.
— Dumbledore. Não é possível que Você-Sabe-Quem tenha morrido, e essa possibilidade é ainda mais provável que a desistência.
O silêncio que pairou no cômodo em seguida foi inquieto. A atmosfera era pesada, e a ansiedade, evidente. Hermione podia sentir a tensão que os engolfava ali dentro enquanto o Diretor pensava, perdido em sua própria mente. O homem era um gênio, sabia disso, mas uma súbita vontade de acertar-lhe o rosto e obrigá-lo a dizer algo – mesmo que não fizesse sentido – apoderou-se dela.
— Palavras podem ser mais dolorosas que um ataque direto, Professora. — A mulher corou, vendo um sorriso fraco nos lábios do homem. Ele respirou fundo antes de continuar. — Receio que tenha um ponto.
Ela assentiu e cruzou as mãos sobre as pernas, pensando no que aconteceria a seguir.
— Entretanto, — Disse ele, de súbito. — Não creio que o mundo mágico esteja disposto a aceitar tal notícia, assim como não estava logo quando tudo parou. — Ponderou, erguendo o olhar novamente. Hermione bufou, fitando-o com raiva.
— Uma ilusão não faz da verdade uma mentira, Diretor. — Sua voz era impaciente, e, já irritada, deixou o escritório de Dumbledore.
Mansão de Potter
Londres, Inglaterra
01 de Janeiro de 2004, 6:13
A risada repleta de diversão contrastou com o cenário monótono de sua mansão. Seus olhos brilharam divertidos para o gato em seu torso desnudo. Potter estava em seu quarto, escorado na parede em que a cama estava encostada. Arrumou-se sobre os lençóis, fitando a joia em seu dedo. Antes vermelha, agora possuía um aspecto negro em seu interior. Sorriu, desviando o olhar – e como se nada tivesse acontecido, a pedra voltou à antiga coloração.
— Você continua inteligente. — Murmurou divertido para o quarto vazio.
Harry deixou a cabeça pender para trás, encostando-se à parede. Os olhos díspares do animal fitaram os verdes do garoto, fazendo-o sorrir. Ele acariciou sua cabeça afinada, fechando os olhos em seguida.
Quando os abriu novamente, a quantidade de sentimentos aprisionada ali era evidente. Ele suspirou, inseguro pela primeira vez em anos. O tempo estava acabando. A guerra estava prestes a recomeçar, mais feroz do que nunca. A balança pendia para Voldemort, mas, talvez, tivesse uma chance. O homem levantou-se da cama, fitando o horizonte através da janela.
— Está na hora de voltar, Kaos.
Sala de aula, Hogwarts
Algum lugar na Inglaterra
07 de Janeiro de 2004, 16:22
Embora seus lábios deixassem que palavras automáticas sobre Gryndilows escapassem para o terceiro ano, a mente de Hermione vagava distante da matéria pela primeira vez em anos. Falara com o Diretor na semana anterior, fazendo o que a Voz pedira. Mordeu os lábios, ansiosa, imaginando se a ouviria novamente. Para ela, era um completo mistério o detentor de tal voz – e, também, seu poder. Às vezes se questionava se era seguro: tivera experiências suficientes como aluna para saber que “imprudente” não era um adjetivo suficiente para suas ações. Apesar disso, o tom por vezes aveludado, reconfortante e ligeiramente familiar a obrigava a pelo menos considerar o que dizia.
Em suas pesquisas alguns dias antes, buscara os mais diversos modos de contatar-se com outra pessoa sem que ambas possuíssem um elemento em comum, como o Espelho de duas faces. Ela, como imaginara logo no começo, e fora forçada a desistir quando as hipóteses atingiram um nível altíssimo de estranheza.
Em sua maioria, o bruxo precisaria ser demasiado poderoso, e, ainda assim, não poderia fazê-lo à distância. Em outros casos, era necessário haver um objeto próximo a quem estivesse sendo comunicado: descartara a possibilidade logo no início, vendo que não havia nada de diferente em muitos anos. Isso, é claro, além de ligações fortíssimas entre os bruxos em questão – porém, não lhe parecia lógico que tivesse uma ligação como a de Harry e o Lorde das Trevas com alguém.
Suspirou cansada, encerrando a aula logo em seguida. Como estava sendo comunicada, afinal? Estava certa de que não conhecia o estranho dono da voz, e ainda mais certa de que não havia objeto algum que estivesse em posse de ambos. Poderia ele estar em Hogwarts? Fitou a porta da sala, observando os alunos do sétimo ano entrarem.
Um sorriso repleto de saudade pôde ser visto em seus lábios. Era tudo tão mais fácil na época da escola. Era tudo tão mais fácil quando estavam juntos. Deixou que mais um suspiro escapasse por seus lábios, desviando o olhar para a janela. Imaginou, novamente, onde estava Harry. Sentiu-se culpada por tudo o que fizera desde seu desaparecimento: culpara-o pelos ataques, culpara-o pelo terror, culpara-o pelas mortes. Logo que desapareceu, tentara explicar, inventar planos e supor acontecimentos que o levassem a uma decisão como aquela. Todavia, tanto era o terror espalhado que suas esperanças não tardaram a padecer. E então, quando tudo acabou, simplesmente sorriu.
O amigo nunca mais fora mencionado. A culpa invadiu-a. Quem protegeria o mundo mágico agora? Quem estaria ali quando precisasse? Quem seria seu irmão? Respirou fundo, levantando-se para começar mais uma aula. Os alunos notaram o brilho preocupado nos olhos da professora, bem como o modo automático e plenamente didático que dava a aula, mas nenhum deles atreveu-se a perguntar.
Não havia com o que se preocupar, afinal. Ela logo estaria melhor.
Arredores de Hogsmead
Algum lugar na Inglaterra
08 de Janeiro de 2004, 22:45
Uma figura alta, imponente e misteriosa fez-se presente há alguns quilômetros de Hogsmead, o povoado bruxo próximo à Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts. Uma proteção negra de couro de dragão acoplada ao seu traje um tanto quanto excêntrico de mesmo tecido cobria a metade de baixo do seu rosto, até o nariz. O homem andou, apenas os brilhantes olhos verdes visíveis na escuridão.
Com as feições apáticas, caminhou em passos lentos até a vila, sem nunca olhar para trás. Seu gato o seguia de perto, fitando seus cabelos recém-cortados com confusão. Potter cortara seus cabelos longos antes de aparatar, deixando que voltasse a ser tão desordenado e bagunçado quanto antes. Mesmo assim, sua aparência ainda aparentaria desconhecimento àqueles que eram mais próximos em tempos passados.
Levando o fato em consideração, não se dera o trabalho de utilizarglamouralgum para ocultar-se – em breve revelaria sua identidade. Não se preocupou muito com isso durante o percurso demasiadamente curto até o Três Vassouras, onde pretendia hospedar-se apenas por alguns dias; estava ocupado relembrando, com dor, suas antigas memórias dali. Suas visitas, as fugas para o povoado e até mesmo as estúpidas situações que passara com Rony e Hermione.
Sorriu ao pensar em ambos. Era inegável a saudade que sentia, e também o desapontamento por ter perdido os últimos acontecimentos. Sabia que estavam casados, bem como o fato de que nutriam uma óbvia decepção por seu repentino sumiço. O sorriso em seu rosto passou de alegre para triste. Suspirou.
Fora preciso, pensou desanimado enquanto adentrava o bar.
Uma de suas lembranças dizia que Rosmerta mantinha o local aberto até altas horas, quando finalmente cansava-se o suficiente para expulsar os clientes restantes. Na algazarra regada a bebidas com alto teor alcóolico, nenhum dos clientes importou-se com o estranho homem adentrando o bar com passos silenciosos de mais para alguém normal. Mal imaginavam que aquele era Harry Potter, o menino que sobreviveu.
Apenas a proprietária ergueu o olhar para ver quem entrava. Franziu o cenho para o rapaz, estranhando-o. Lembrava-se de cada rosto e cada nome que pisara em seu bar alguma vez entre a vida e a morte, e tinha certeza que nunca o vira por ali. Olhou em seus olhos, tentando reconhecê-lo. Todavia, tudo o que conseguiu foi um arrepio na espinha quando o encarou por um mísero segundo: tratou de desviar o rosto, procurando evitá-lo. Ofegou consternada, sentindo que ele andava até ela. Engoliu em seco, receosa de mais para fitá-lo mais uma vez.
— Olá. — Ele disse. Outro arrepio insistiu em subir pela espinha da mulher, que fez apenas gaguejar. A voz do homem era forte, gélida e cortante.
— O-o-lá. — Disse com dificuldade. Forçou-se a continuar, mesmo com a estranha magia pesando em seus ombros. — O que… o que deseja?
Harry sorriu por debaixo das vestes. Sabia que sua magia provavelmente causaria alguma reação na bruxa, que agora mostrava o óbvio.Ele é poderoso, seus olhos diziam. Tentou controlar o poder que exalava, fitando-a com um olhar dócil.
— Um quarto, por favor.
A doçura em seu olhar pareceu ser esquecida pela proprietária assim que a frase foi ouvida. Um quarto? A ideia de tê-lo abrigado em seu bar não era das mais convidativas. Algo dizia para confiar no estranho, mas, ainda assim, seu poder era demasiado grande para que tivesse sua confiança tão facilmente – bastou que se aproximasse para sentir o peso sobre seus ombros e a pressão em sua cabeça que embaçara sua visão por alguns instantes. Abriu e fechou os lábios, sem emitir som algum. Como poderia recusar um cliente que não fizera nada de mais? Como poderia dizer não a alguém comoele?
— Os Quartos estão ocupados. — Disse ela, a voz baixa e receosa.
Harry passou a mão pelos cabelos, fitando uma mesa de homens bêbados. Decidiu que usar um pouco de seus poderes não faria mal – era por uma boa causa, afinal. Desceu o olhar para o rosto de Rosmerta, deixando que seus olhos verdes fossem tomados pelo dourado.
— É só por algum tempo. Não muito. — Comentou como se falasse do tempo. — Eu gostaria de um quarto.
O "claro" que seguiu seu pedido quase que de imediato foi excessivamente gentil – seus olhos pareceram vidrados, sem foco nem brilho. Talvez Harry tivesse se surpreendido, se não soubesse que aquilo era sua própria influência.
Quando Rosmerta voltou com as chaves de aparência antiga nas mãos, dizendo-lhe onde era o cômodo ("terceira porta depois da escada, para a direita"), tratou de sumir dali o mais rápido possível. Talvez não fosse bom ficar na presença de tantas pessoas – principalmente com todo aquele poder. Teria que aprender a ocultá-lo logo, se não quisesse chamar mais atenção para si.
Seu bocejo foi audível quando adentrou o quarto. Estava cansado, afinal; os últimos dias haviam sido o inferno encarnado, mas Hermione finalmente conseguira. Precisava ser cuidadoso ao comunicar-se com ela, se não quisesse ser descoberto. A garota era inteligente, mas duvidava muito que se lembrasse de um presente entregue há quase sete anos.
Sorriu mais uma vez ao lembrar-se de que tudo seria mais fácil a partir dali: tinha sua confiança agora. Desabotoou a capa negra que o cobria e atirou-a no chão, finalmente livrando-se da proteção que deixava apenas seus olhos à vista.
Deixou-se cair de costas na cama, como se permitisse a si mesmo algum descanso, mas logo se levantou para trancar a porta com mágica e lançar um feitiço silenciador na mesma. Voltou a deitar, chutando os coturnos dos pés sem muito esforço.
— Como eu amo a magia… — Murmurou num bocejo, abraçando o travesseiro e deixando-se embalar pela escuridão.
Harry merecia um descanso. Afinal, teria muito que fazer quando acordasse: Hogwarts ainda o aguardava.