Eu não conseguia ler a expressão de Ginny, muito menos os seus pensamentos, mas não precisava disso para sentir a ira que emanava dela. Eu quase podia visualizá-la atirando-se sobre mim, derrubando-me no chão, puxando meus cabelos na intenção de fazer com que os grampos, que os prendiam a um apertado coque, me machucassem. Depois, ela me arranharia a face, enterraria as unhas em minha carne... Ela iria me fazer sentir na pele parte da dor que ela carregava internamente e que eu causara.
É claro que nada disso aconteceu de fato. Apesar de machucada, apesar de seu íntimo ferido, Ginny não agiria de forma tão passional em uma situação como aquela; ela não era do tipo que iria às vias de fato por causa de um homem. Ela era orgulhosa demais para isso. Morreria me acusando, esfregando em minha cara o meu erro, a minha traição, me humilharia, mas jamais trairia a si mesma, demonstraria seus sentimentos, suas fraquezas... Jamais usaria da força bruta para me impelir dor; ela queria sempre estar por cima, no alto de seu pedestal, sempre superior, e sabia que a dor causada pelas palavras, quando bem escolhidas, pode se estender indefinidamente no tempo – principalmente quando se inflige culpa à outra parte. Por que, então, tentaria me infligir dor física, que tão logo não seria mais sentida?
É claro que também havia o fato de estarmos no Ministério da Magia, em pleno átrio, e não em uma sala. Aquele embate não estava ocorrendo em particular, mas em um local onde qualquer um poderia chegar e presenciar uma cena. Além disso, eu estava grávida. Ela própria não quereria sujar as mãos e sentir culpa caso me fizesse perder o bebê, que não tinha culpa do erro dos pais. Só quem deveria se sentir culpada aqui era eu. E eu sentia. Sentia o peso da culpa em meus ombros, sentia diminuir por causa daquele sentimento.
- Decerto está voltando do almoço – ela recomeçou e checou o relógio de pulso teatralmente. – Um pouco cedo demais, não? O que houve, Harry já deixou de almoçar com você para almoçar com outra colega de trabalho? – Por algum motivo, o que ela dissera me afetara, me fizera sentir uma repentina angústia, mas eu me forçara a deixá-la de lado. Harry estava, sim, em uma reunião; todos os aurores estavam. – Ou será que os pombinhos em lua-de-mel tiveram sua primeira briga e você decidiu voltar mais cedo?
- Não acho que isso diga respeito a você, Ginny – eu disse.
- Oh, não, não diz respeito a mim e eu agradeço por isso. Agora as dúvidas e preocupações são inteiramente suas – ela retrucara. – E você, querida, desapareceu... Nunca mais foi deixar as crianças n’A Toca ou buscá-las, nunca apareceu quando Harry ia deixá-las lá ou buscá-las junto com nossos filhos... Sabia que não conseguiria me evitar por muito tempo, não é?
Eu não respondi. Não havia o que responder.
- Soube que venderam a casa. A minha casa – ela disse. – Ora, por quê? Pensei que gostasse da decoração, da minha cama... – ela provocou e deu um sorrisinho malicioso ao fazê-lo. – E era uma casa tão boa, espaçosa... Ah, já sei! Não suportou a pressão, a real constatação de que tinha me roubado tudo, não é? Marido, casa, filhos... Oh, sim, os meus filhos! Eles a adoram! James até foi morar com vocês, veja só! Preferiu vocês à própria mãe.
- Desculpe, Ginny, mas eu não roubei coisa alguma de você. Você perdeu o seu marido por conta; a casa seria vendida de qualquer maneira, afinal, por que ele quereria uma casa tão grande se viveria sozinho a maior parte do tempo?; e eu amo os seus filhos desde sempre. Sou, inclusive, madrinha de James... mas não tenha dúvidas de que não foi por esta razão que ele escolheu morar com o pai. Ele o escolheu porque Harry é a figura em quem ele se espelha. E você bem sabe que os seus três filhos são tão ligados a ele quanto a você, não só James – eu rebati. – Estou certa de que preferiam não ter de escolher com quem morar – eu concluí, mas logo voltei a falar, lembrando-me de sua principal provocação. – A propósito, sinto desapontar, mas eu não posso afirmar se gostava ou não de sua cama, uma vez que nunca a experimentei da forma que imagina. Sentei-me, sim, à cama uma ou duas vezes para conversar com você, mas nunca deitei-me nela. Mas três coisas eu posso afirmar com certeza: gosto muito de seu ex-marido e do que ele pode fazer com uma mulher em uma cama, e ele certamente gostava mais da minha cama do que da sua.
Eu tive certeza de ver a cor escapar do rosto de Ginny antes de voltar com força, o seu rosto assumindo a cor de seus cabelos flamejantes enquanto ela se esforçava para não demonstrar a raiva que sentia diante de minha provocação. Eu senti uma leve vertigem e respirei fundo, tentando recobrar as forças.
Não demorou até que eu estivesse vendo tudo dobrado. Meus membros estavam enfraquecidos, dormentes e eu tinha certeza de que minha pressão havia baixado. Ginny desatara a falar e eu já não absorvia uma palavra. Muito provavelmente disparava novas acusações contra mim e ficaria realmente insatisfeita ao perceber que nenhuma delas produziria efeito.
Como que por instinto, levei uma das mãos à barriga e procurei a cadeira mais próxima para me acomodar, mas o átrio não tinha cadeiras ou bancos. Fechei os olhos e respirei fundo, então me afastei rumando para a fonte, onde eu poderia me sentar. Ginny estava em meu encalço, me provocando, questionando se eu estaria fugindo dela e da verdade.
Eu estava ofegante, nervosa por tê-la ali, resmungando impropérios, e por não conseguir raciocinar. Eu não podia mandá-la embora porque era a única pessoa naquele imenso átrio além de mim e eu estava completamente debilitada. Não conseguia mover meus dedos, minhas pernas formigavam e eu suava frio. Meu estômago dava cambalhotas e eu só conseguia pensar em Harry. Eu precisava dele.
- Você não está brincando, está? – eu ouvi Ginny resmungar antes de baixar a guarda e finalmente vir até mim. – Ah, diabos, ela está suando como um porco!
Ela me ergueu e eu, ainda tonta, fui arrastada para o elevador.
- Ha-harry... – eu murmurei.
- Eu vou levá-la à sua sala e mandarei que o encontrem – Ginny me assegurou.
Logo, tudo o que eu via eram flashes. Estávamos no elevador, logo estávamos no átrio do segundo nível, em seguida em minha sala. Ginny deveria ter conjurado uma maca ou pedido que alguém trouxesse uma, pois a minha cabeça e o meu tronco estavam devidamente acomodados em uma superfície lisa, contínua e coberta por um lençol branco, limpo e esterelizado. Ginny segurava as minhas pernas no alto.
- O copo com água que pediu, Srta. Weasley.
- Obrigada – ela agradeceu. – Slyther, por favor, vá ao Quartel General de Aurores e peça que o Sr. Potter venha até aqui. Hermione precisa dele.
- Sim, senhora.
Ginny soltou as minhas pernas gentilmente, acomodando-as, então se aproximou com um pequeno sachê em mãos e um copo com água.
- Abra a boca, Hermione. Vamos – ela disse e o seu tom era frio. Eu obedeci e ela despejou sal em minha boca, em seguida erguendo a minha cabeça para que eu bebesse a água que me oferecia. Depositou o copo e o sachê vazio sobre a mesa e me entregou um doce caramelizado. Tornou a erguer as minhas pernas. – Agora vai se sentir melhor.
- Hermione, o que... – a voz de Harry se fez presente, ofegante. – Ginny, o que está fazendo aqui? O que fez com ela?
- Tive uma reunião no Departamento de Jogos e Esportes Mágicos esta manhã, afinal, caso tenha esquecido, trabalho como repórter esportiva d’O Profeta Diário. Quando a encontrei, ia esperar por papai para que almoçássemos juntos. O que fiz com ela? Bem, trouxe-a até aqui e mandei que lhe chamassem enquanto lhe oferecia sal, água e um doce caramelizado. Sabe, dizem que ajuda a pressão a normalizar quando esta está baixa – Ginny respondeu. – Agora que está aqui e que fiz a minha boa ação do dia, passo a você os cuidados de sua queridinha.
- Ginny? – eu chamei.
- O que? – ela fez, impassível.
- Obrigada pelo que fez por mim.
- Eu não fiz por você. Fiz pela criança – Ginny retrucou e desapareceu porta afora.
- Como está se sentindo? Está bem? – Harry questionou. Ele segurava uma de minhas mãos e afagava os meus cabelos, os olhos buscando os meus. Assenti brevemente e fechei os olhos. – O que houve?
- Nós estávamos conversando...
- Conversando? – Harry fez, uma sobrancelha arqueada em sinal de descrença e um sorriso tímido brincando em seus lábios. Eu ri.
- Tudo bem, estávamos discutindo, então senti uma fraqueza repentina, uma vertigem... A minha pressão deve ter baixado, e quando Ginny finalmente percebeu que eu não estava fingindo, me trouxe para cá e cuidou de mim até que você chegasse – eu resumi. – Pelo menos tive tempo de dizer-lhe algumas verdades diante das acusações absurdas que ela me fez.
- E de que verdades estamos falando? – ele questionou, mas não esperou que eu começasse a dizer, o que foi um alívio. – Não, não diga. Você precisa de repouso. Vou te levar para casa e cuidarei de você.
- Mas a sua reunião...
- Acabou há pouco. Eu estava esperando o meu almoço quando Slyther chegou e disse que você não estava se sentindo bem – Harry disse. – Agora vamos, vou te levar para casa.
Com cuidado, ele me levantou e me conduziu para fora da sala, carregando com ele o meu sobretudo, o meu blazer e a minha bolsa.
Tantas vezes ele falara sobre o encantamento que tinha por mim e eu jamais entendera o que queria dizer com aquilo. Naquele momento, eu passara a entender. Talvez porque, no decorrer do último mês, eu passara a sentir o mesmo.