Mais uma semana. Mais uma semana estava chegando ao fim. Durante toda ela, recebi Harry e os filhos três noites para jantar. Depois dedicáramos todos ao preparo da mudança, o que nos rendera incontáveis momentos de descontração. Momentos de descontração muito bem-vindos, principalmente porque agora que os Mitchell deixaram Londres no início da semana e nenhuma informação nova fora obtida, era como se tivéssemos voltado à estaca zero no caso Henry Mitchell.
Era noite de sexta-feira e Rose e eu estávamos já há uma hora sentadas no chão da sala, várias caixas de papelão, algumas já lacradas, ao nosso redor. Terminávamos de enrolar a louça em folhas de jornal enquanto Hugo tomava banho, pois logo Harry estaria ali para nos buscar.
- E então, querida, decidiu-se? – eu questionei. – Vai passar o primeiro fim de semana conosco? James, Albus e Lily virão...
Rose pareceu ponderar um instante, então deu de ombros.
- É, acho que eu vou. Aí quando tio Harry for levar James, Albus e Lily para A Toca, eu vou com eles – ela disse.
- Fico feliz que tenha decidido vir também – eu disse.
A campainha soou e Rose apressou-se em abrir a porta. Ela cumprimentou Harry com um beijo em sua bochecha e recebeu um beijo no alto da cabeça.
- A quantas anda esse empacotamento? – ele fez, tomando cuidado ao atravessar a sala. Harry veio até mim e me roubou um selinho. – Onde está Hugo?
- Deve ter se afogado durante o banho – Rose disse e revirou os olhos.
- Ele já deve estar saindo, então Rose toma banho e depois eu vou. Quanto ao empacotamento, estamos terminando. Faltam só seis pratos e os três copos e os talheres que deixamos para uso – eu respondi. – Vamos passar para buscar as crianças n’A Toca?
- Na verdade, eles já estão em casa – Harry respondeu. – Fiz James prometer que não aprontaria enquanto eu estivesse fora.
- Ah, claro! – Rose riu. – Quantos galeões você disse que daria a ele, tio Harry?
- Só três desta vez – Harry disse e nós três rimos.
Ouvimos uma porta se abrir e outra se fechar logo em seguida e tornamos a rir. Hugo deve ter visto que Harry já estava aqui e correu do banheiro direto para o quarto com vergonha de sair só de toalha e ser visto.
- Pronto, Rose, agora você já pode ir tomar banho – eu disse.
- Tem certeza de que não quer que eu ajude a fechar as caixas?
- Querida, posso fazê-lo com um floreio de varinha! Além disso, Harry pode me ajudar.
Rose então assentiu e se retirou. Quando ela entrou no quarto, ouvimos um grito de Hugo abafado pela porta já fechada e rimos.
- Se quiser, pode começar a levar as caixas para o carro – fiz para Harry. Então com um floreio de varinha fiz com que as folhas de jornal envolvessem as louças ainda desprotegidas. Em seguida, fiz com que as louças já embrulhadas voassem para as caixar e as selei. – Vamos, eu te ajudo.
- Eficiente – Harry comentou, já com duas caixas empilhadas nos braços.
- Sim, só não o fiz antes porque eu queria a companhia de Rose e, bem, nós não estávamos com pressa.
- Eu não tenho a menor pressa, Mione. Se quiser...
- Tem, sim! Seus filhos estão sozinhos em casa. Vamos adiantar! – eu disse e o empurrei porta afora, agora também carregando uma caixa nos braços.
Quando finalmente colocamos a última caixa no carro, Harry virou-se para mim:
- E pensar que estamos levando caixas para casa desde a noite de segunda... Pensei que não fosse acabar de empacotar as coisas este ano! E isso porque só está levando as louças, panelas, roupas e objetos pessoais. Nem imagino se fôssemos levar também a mobília!
- Não seja dramático, Harry. – Eu revirei os olhos e dei-lhe um leve tapa no ombro. Ele me abraçou de lado enquanto subíamos as escadas e logo adentrávamos o meu apartamento novamente.
◊ ◊ ◊
Um mês se passara desde que nos mudáramos para a nova casa em Turnham Green. Àquela altura, a minha barriga começara a aparecer e eu já realizara o segundo exame pré-natal. Ainda não conseguíramos ver se o bebê era um menino ou uma menina, mas estávamos satisfeitos em saber que estava saudável e que tudo corria bem na gestação.
A primeira semana fora animada, pois tivéramos a comemoração do aniversário de Harry e o início de minhas férias.
Em outra época, haveria um jantar para os familiares, mas dadas as novas circunstâncias, saímos apenas Harry, as crianças e eu para jantar no Vingt Quatre. Além disso, em plena quarta-feira seria difícil fazermos algo mais elaborado.
Não tive ainda de me bater com Ron fora do Ministério da Magia, onde era inevitável encontrar com ele nos corredores ou no elevador, uma vez que trabalhávamos no mesmo nível. Além disso, apenas quatro dias após a mudança, eu saíra de férias do trabalho para aproveitar as crianças em casa. Rose, apesar de já estar morando com Ron, passava os dias entre A Toca e a casa de meus pais em Notting Hill. Quando saiu do Ministério da Magia ao final do expediente do dia 31 de julho, Harry fora à casa dos Weasley buscar os filhos dele e eu fora buscar ela e Hugo na casa de meus pais.
Harry, este, sim, estava suportando muito mais do que eu. Ele era chefe de Ron e o encontrava diariamente. Embora não falasse muito sobre os seus encontros com meu ex-marido e seu antigo melhor amigo, eu conhecia Ron o suficiente para saber que ele seguia irredutível e muito provavelmente tratava Harry com frieza e indiferença, talvez até com uma formalidade exagerada, como se a relação deles se limitasse a uma relação entre chefe e subordinado, apenas profissional, desde sempre. Isso, é claro, quando dirigia a palavra a Harry.
Na semana seguinte, Harry iniciara um treinamento na Escola de Aurores, mas fizera questão de retornar para Turnham Green todas as noites e passar a noite em casa. Eu lhe dissera ser desnecessário, pois Hugo estaria lá comigo, mas não conseguira convencê-lo. Abandonou o treinamento no quarto dia por conta de uma missão que fizera questão de administrar. Nem preciso dizer que seguiam uma pista de Henry Mitchell, certo? Apesar da falta de notícias dele desde sua última suposta aparição em Dartford e de nenhum caso suspeito ter surgido, a sua varinha fora utilizada para realização de um simples feitiço selante em Fulham e Harry deixara o treinamento no mesmo minuto em que soubera.
Ele retornou na madrugada da mesma noite. Tinha o rosto marcado por arranhões, o sangue fresco brilhando nos cortes e seco ao seu redor. A gola da camisa também estava manchada de sangue pouco abaixo de um leve corte no pescoço. O sobretudo que vestia estava sujo de terra e rasgado em alguns pontos da manga. O que quer que o tivesse rasgado – e me parecia que foram espinhos ou galhos de árvores –, havia rasgado também a manga da camisa sob o sobretudo e a pele do braço.
Assim que o vi naquele estado, corri para apará-lo e cuidar dos ferimentos.
- Não precisa se preocupar, Mione – ele me dissera. – São apenas pequenos cortes. Eu vou sobreviver.
- Sim, eu sei que vai. Mas precisa limpar estes ferimentos! Onde diabos você os conseguiu?
- Eu disse que chegaria em casa mais tarde esta noite, lembra? – ele fez e eu assenti. – Pois, bem, eu deixei o treinamento e segui direto para Fulham, onde foi utilizada a varinha de Mitchell exatamente às 18h03.
- Você foi atrás de Mitchell? – questionei, alarmada. – Você enlouqueceu? E se ele o tivesse pego, o que eu faria?
Eu sentia-me realmente nervosa diante da possibilidade de ficar sem Harry. Meu coração parara no momento em que ele citara o nome de Mitchell só para disparar em seguida, aflito, porém aliviado por ele já estar a salvo ali comigo.
Harry me sorriu e se aproximou de mim. Ao fazê-lo, não pude ignorar a careta que fez antes de logo transferir todo o peso de seu corpo para uma só perna. Adiantei-me para segurá-lo.
- Calma, Mione, eu estou bem. Pisei em uma pedra que estava solta e torci o pé, mas realmente nada aconteceu. Apenas uma perseguição – ele disse e eu abri a boca para retrucar, indignada com a sua calma, mas ele me repreendeu com um olhar e recomeçou. – Lá nós vimos um vulto deixar a casa pela janela e correr para um bosque próximo. Quem quer que fosse, não poderia aparatar, pois ativamos feitiços anti-aparatação num raio de um quilômetro, mas era rápido e nos escapou. – Ele colocou um cacho de meu cabelo atrás de minha orelha, beijou-me a testa e tornou a sorrir. – Eu estou aqui, não estou?
Cuidei dos ferimentos dele. Primeiro os do braço, e do pescoço. Fechei-os com um toque de varinha e passei para o rosto, e ele reclamara no mesmo instante em que toquei o algodão encharcado de anti-séptico em sua pele.
- Sem reclamações, Potter – eu dissera em tom severo e olhei-o nos olhos. Fora o suficiente para que eu me sentisse presa a ele. Nunca saberei dizer quanto tempo se passou enquanto estávamos conectados pelo contato visual, mas posso afirmar que duraria talvez alguns segundos mais se ele não tivesse me tomado num beijo suave – ao qual eu correspondera de bom grado, admito, antes de me afastar, ligeiramente envergonhada pelo acontecido, fazendo um gesto negativo com a cabeça. – É melhor terminarmos isso logo. São quase 2h e levantamos cedo.
Apesar de estar de férias eu mantinha uma rotina em casa, de modo que os hábitos se mantivessem quando retornássemos ao trabalho e as crianças retornassem à escola. Harry levantaria cedo de qualquer maneira, pois teria o último dia de treinamento antes que também estivesse de férias.
Na semana seguinte, o aniversário de Ginny, a visita do afilhado de Harry, Ted, e a vinda de James para a nova morada.
Na noite do dia 15 de agosto, mesmo dia em que eu realizara o segundo exame pré-natal, o afilhado de Harry, Ted, fora jantar conosco em Turnham Green.
Ted sempre fora um ótimo rapaz, firme, cabeça aberta, tranquilo e amável. Não podia deixar de compará-lo a seus pais. Era uma boa mistura dos dois, tanto em termos de formação de caráter e personalidade quanto fisicamente.
Fiquei aliviada por também ele ter aceitado bem a minha “relação” com Harry e o bebê.
Terminada a refeição, enquanto Harry e Ted conversavam amenidades e eu retirava a mesa, Hugo pedira licença e dirigira-se ao quarto que dividia com Albus. Decidida a deixar os dois mais à vontade, eu fora atrás de Hugo e ficara com ele até que estivesse dormindo a sono solto. Só então retornara à sala.
- ... e não vai aceitar. Não tão facilmente – Ted estava dizendo. – Pelo que soube, Ginny pediu licença na redação d’O Profeta e ficou dez dias em casa, digerindo a novidade. Ela não conversava com ninguém, pouco saía do quarto.
- Eu não queria que as coisas acontecessem dessa forma, Teddy, você sabe disso – Harry replicara.
- Eu sei, mas eles não sabem. Ou melhor, não acreditam – Ted argumentara.
- Eu não posso culpar Hermione por querer evitá-los. Os olhares inquisitórios que me lançam cada vez que os encontro, como se estivessem esperando por uma explicação...
- Quando Ron contou aos Weasley, apenas noticiou os fatos superficialmente. O fato é que qualquer explicação que vocês possam dar, para eles nunca será suficiente para justificar o que vocês fizeram. Talvez as coisas fossem mais fáceis de eles não fossem irmãos.
- Eu disse o mesmo a Hermione quando contamos a Ron.
- Eles seguem irredutíveis, Harry, principalmente Ron e Ginny. Quanto aos demais Weasley, eles sempre os tiveram como parte da família. Mais dia, menos dia, acabarão por aceitar. Até lá, não resta alternativa a vocês senão conviver com isso. Mas devo avisar, Ginny está revoltada.
- Ginny me sufocava, questionava a proximidade entre Hermione e eu...
- E com razão, veja bem – Ted dissera. – Eu sei, vocês não tinham pretensão de ficar juntos, as separações de ambos não foram premeditadas, mas ela só deve imaginar que estava certa o tempo todo.
Eu ouvira o suficiente, mais do que gostaria e julgava saudável, então resolvera que era hora de interromper aquela conversa. Batera o pé com força no chão duas, três, quatro vezes, simulando passos, antes de adentrar a sala de estar.
Harry logo emendara um assunto dirigindo-se a mim e eu fingira ignorar o que ouvira, pelo menos até Ted se despedir. Só então confrontara Harry a respeito, mas não havia o que discutir. No fundo, nós sabíamos que não havia. Ron e Ginny tinham razão em sua revolta, ainda que não pudessem continuar afirmando que nós os havíamos traído.
No dia seguinte, fora aniversário de Hugo. 11 anos. A confirmação de que, na manhã do dia 1º de setembro, ele partiria no Expresso de Hogwarts. Arranjei tudo de forma prática: Hugo almoçaria com Ron e os Weasley e jantaria conosco e com meus pais.
James, que ainda passara a semana que sucedera o aniversário da mãe n’A Toca, passara a morar em Turnham Green naquele mesmo dia.
Dez dias se passaram desde então, dez dias sem grandes acontecimentos. Apenas a rotina, ainda que Harry fizesse de tudo para movimentar os dias naquela casa, o que não era difícil quando tinha James e Hugo para acatar qualquer sugestão que se originasse na mente louca, descompensada e inacreditavelmente criativa de Harry.
Eis que estávamos no dia 26 de agosto, segunda-feira. Harry e eu ainda estávamos de férias, mas uma nova aparição de Henry Mitchell durante o fim de semana em Surrey, no subúrbio de Londres, nos obrigara a vir ao Ministério da Magia para algumas reuniões de emergência.
Eu fora chamada logo no início da manhã. Uma coruja chegara com um comunicado de Mafalda Hopkirk, anunciando o uso da varinha de Mitchell em Surrey e eu lhe respondera de imediato, avisando que estaria no Ministério da Magia em meia hora. Harry também tomara suas próprias medidas, convocando uma reunião com todos os aurores para as 11h, de modo que todos fossem comunicados e os que estivessem fora, em missão, pudessem retornar a Londres e dirigir-se ao Ministério.
Eu estava retornando ao Ministério da Magia após o almoço. Harry ainda estava em reunião no Quartel General de Aurores e por isso não pôde me acompanhar. Atravessei o átrio quase deserto e dirigi-me ao elevador. Quando este chegou, eu ainda estava distante, mas nem tive tempo de me apressar; parei de chofre assim que vi Ginny deixar o elevador.
Ao me ver, seu rosto se transformou em uma máscara impassível, sem emoção, exceto talvez por uma sobrancelha arqueada que lhe conferia ar de superioridade. Ela se aproximou a passadas lentas e ritmadas, mas cuidou de parar a certa distância, bem defronte a mim.
- Ora, ora... Vejam só quem eu encontrei – ela fez, e o seu tom era tão gélido e arrastado que eu senti gelar por dentro.