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1. Menina Erroneamente Original..


Fic: Hermione, meu amor ATUALIZADA!


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Inglaterra, 1816

Na elegante carruagem, que sacolejava ao longo da acidentada estrada campestre, Lady Anne Dowson pousou a cabeça no ombro do marido e deixou escapar um longo suspiro de impaciência.
— Ainda falta uma hora para chegarmos, e esse suspense está me deixando nervosa — reclamou. — Como será Hermione, agora que já se tornou uma mocinha?
Calou-se, olhando distraidamente pela janela, para os campos ondulantes, cobertos de flores silvestres, amarelas e lilas, enquanto tentava imaginar a aparência da sobrinha, que vira pela última vez onze anos atrás.
— Deve ser bonita, como era a mãe dela. Com certeza tem o mesmo sorriso, a mesma gentileza, o mesmo temperamento doce... — devaneou.
Lorde Edward Dowson lançou um olhar cético para a esposa.
— Temperamento doce? — repetiu com divertida incredulidade. — Não foi o que o pai dela disse, na carta.
Como diplomata, ligado ao consulado britânico em Paris, Lorde Dowson era um mestre na arte das insinuações, dos comentários evasivos, das reticências e dos segredos. Mas, na vida particular, preferia a refrescante alternativa da verdade nua e crua.
— Deixe-me lembrá-la — disse, tirando do bolso a carta que recebera do pai de Hermione.
Colocou os óculos e, ignorando o trejeito aborrecido da esposa, começou a ler um trecho.

"Os modos de Hermione são ultrajantes, sua conduta deixa muito a desejar. Ela é estouvada e voluntariosa, para desespero de todos os que a conhecem e para meu profundo embaraço. Imploro-lhes que a levem para Paris e espero que tenham o sucesso que não tive, na tentativa de educar tão teimosa criatura."

Edward riu.
— Mostre-me onde ele diz que Hermione tem "temperamento doce".
A esposa olhou-o, agastada.
— Richard Granger é um homem frio e insensível, que não reco¬nheceria gentileza e bondade nem que Hermione fosse a imagem dessas coisas. Você se lembra como ele gritou com ela e mandou-a para o quarto, logo após o enterro de minha irmã?
Edward reconheceu teimosia, no modo como a esposa ergueu o queixo, e passou o braço pelos ombros dela num gesto conciliador.
— Gosto tão pouco daquele homem quanto você, mas temos de admitir que foi muito embaraçoso, para Richard, logo após haver perdido prematuramente a esposa, ouvir a filha acusá-lo, diante de cinqüenta pessoas, de haver trancado a mãe dela na¬quele caixão para que não fugisse.
— Mas Hermione ainda não tinha cinco anos! — Anne protestou com veemência.
— Concordo, mas Richard estava sofrendo. Além disso, se não me falha a memória, não foi por essa ofensa que ele mandou Hermione para o quarto. Foi pela explosão que ela teve, depois de nos reunirmos na sala de visitas, quando, batendo os pés no chão, ameaçou nos denunciar a Deus, se não tirássemos sua mãe da "caixa" imediatamente.
Anne sorriu.
— A menina tinha personalidade forte. Quando ela fez aquilo, estava tão zangada que pensei que as sardas fossem pular para fora do nariz. Confesse, você também achou que ela foi maravilhosa.
— Bem... achei — o marido admitiu. — Com certeza.

Enquanto a carruagem dos Dowson percorria a estrada, já na propriedade de Richard Granger, um pequeno grupo de jovens encontrava-se reunido no gramado do lado sul, olhando com impaciência para o estábulo que se erguia a cem metros de distância. Uma loirinha alisou os babados da saia do vestido cor-de-rosa e suspirou, fazendo com que uma covinha encantadora aparecesse em seu rosto.
— O que você acha que Hermione vai fazer? — perguntou ao bonito homem de cabelos claros a seu lado.
Comarc McLaggen, fitando os grandes olhos castanhos-claros de Lavender Brown, sorriu.
— Tenha paciência, Lavender — recomendou.
— Nenhum de nós faz a mínima idéia do que Hermione tem em mente — comentou Parvati Patil com azedume. — Mas podem ter certeza de que será algo tolo e vergonhoso.
— Parvati, não se esqueça de que estamos aqui como con¬vidados de Hermione — Comarc repreendeu.
— Não sei por que a defende tanto! — Parvati replicou com despeito. — Hermione causa escândalo, correndo atrás de você, e não diga que não sabe!
— Parvati! Pare com isso! — Comarc ordenou, zangado. Respirando fundo, franziu a testa, baixando o olhar para as botas brilhantes. De fato, no ano anterior, Hermione começara a dar verdadeiros espetáculos, perseguindo-o, e as pessoas comentavam isso num raio de vinte quilômetros.
A princípio, achara engraçado ser alvo dos olhares lânguidos e sorrisos enlevados de uma garota de quinze anos, mas, depois, Hermione começara a persegui-lo com a determinação e as táticas brilhantes de um Napoleão Bonaparte de saias.
Quando saía de sua propriedade a cavalo, Comarc podia garantir que a encontraria em algum ponto do percurso. Era como se ela tivesse um posto de observação de onde seguia todos os seus movimentos, e ele deixara de considerar inofensiva e divertida aquela paixão infantil.
Três semanas atrás, ela o seguira até uma hospedaria local. Enquanto ele ouvia as palavras murmuradas da filha do hospedeiro, que o convidava a encontrar-se com ela mais tarde, no celeiro, Comarc viu um conhecido par de olhos castanhos espiando-o pela janela. Batendo com a caneca de cerveja na mesa, ele marchou para fora, agarrou Hermione e, sem nenhuma cerimônia, colocou-a sobre o cavalo, lembrando-a, asperamente, que o pai sairia a sua procura, se ela não estivesse em casa ao anoitecer.
Voltou para dentro e pediu mais cerveja, mas, quando a filha do hospedeiro, ao encher-lhe a caneca, roçou os seios sugestiva¬mente em seu braço, e Comarc visualizou-se abraçado ao corpo nu da jovem, um par de olhos castanhos os observava, através de outra janela. Ele jogou algumas moedas sobre a mesa rústica de madeira, para acalmar os sentimentos feridos da espantada moça, e foi embora, só para descobrir que Hermione Granger aguardava-o para acompanhá-lo no caminho de volta.
Começava a sentir-se um homem caçado, com os passos vi¬giados, e sua paciência acabaria por esgotar-se. No entanto, pen¬sou, irritado consigo mesmo, lá estava ele, de pé sob o sol de abril, tentando, por alguma razão obscura, proteger Hermione das bem merecidas críticas.
Luna Lovegood, uma bonita menina loira, mais jovem do que os outros membros do grupo, olhou para Comarc.
— Vou ver por que Hermione está demorando tanto — anunciou. Correu pelo gramado e ao longo da cerca que se estendia a partir do estábulo. Abriu a enorme porta dupla e olhou para o corredor largo e sombrio, com baias alinhadas nos dois lados.
— Onde está a srta. Hermione? — perguntou ao cavalariço, que escovava um cavalo alazão.
— Lá dentro, senhorita.
Mesmo na luz fraca, Luna viu o rosto do cavalariço corar, enquanto ele apontava para uma porta fechada, ao lado do de¬pósito de arreios.
Com um olhar intrigado para o rapaz, Luna foi até a porta, bateu e entrou. Parou subitamente, chocada com o que viu. Hermione Jane Granger, de costas para ela, usava uma calça de montaria marrom, que se colava a seus quadris esbeltos, presa na cintura por um pedaço de corda. O traje fora completado com uma peça íntima, um corpete de tecido fino.
— Você não vai sair desse jeito, vai? — Luna perguntou, espantada.
Hermione virou-se, olhando de modo travesso para a amiga escandalizada.
— Claro que não. Vou vestir uma camisa.
— Ma-mas... por quê? — gaguejou Luna.
— Porque não seria decente aparecer só de corpete, bobinha — respondeu Hermione, tirando de um gancho uma camisa limpa do cavalariço e começando a vesti-Ia.
— De-decente? Não é nada decente usar calça de homem, e você sabe.
— Sei, mas não posso montar aquele cavalo sem sela, arriscando-me a ficar com as saias enroladas no pescoço, posso? — argumentou Hermione sem se abalar, prendendo os cabelos cheios num coque, que fixou na nuca com alguns grampos.
— Montar sem sela? Está querendo dizer que vai montar como homem, escarranchada no lombo do cavalo? Seu pai a deserdará, se fizer isso de novo.
— Não, não vou montar escarranchada. — Hermione deu uma risadinha. — Mas não entendo por que os homens podem fazer isso, enquanto nós, mulheres, consideradas o sexo frágil, temos de montar de lado, equilibradas na sela, rezando por nossas vidas.
— Então, o que vai fazer? — indagou Luna.
— Nunca percebi que era tão curiosa, srta. Lovegood — Hermione arreliou. — Mas, respondendo a sua pergunta, vou ficar em pé no lombo do cavalo. Vi fazerem isso na feira, e tenho treinado. Então, quando Comarc me vir...
— Pensará que você ficou louca! — exclamou Luna. — Achará que não tem um pingo de decência, que fará qualquer coisa para chamar sua atenção.
Fez uma pausa, mas, vendo a expressão teimosa no rosto de Hermione, decidiu usar outra tática.
— Por favor, pense em seu pai — implorou. — O que ele dirá, se souber?
Hermione hesitou, sentindo o olhar frio do pai, como se o estivesse enfrentando naquele momento. Respirou fundo, então expeliu o ar lentamente, olhando pela pequena janela, para o grupo de amigos à espera no gramado.
— Meu pai dirá que o desapontei mais uma vez — disse baixinho. — Que sou uma vergonha para ele e para a memória de minha mãe, que está feliz por ela não ter vivido para ver no que me tornei. Depois, passará meia hora dizendo que Lavender Brown é uma perfeita dama, e que eu devia ser como ela.
— Bem, se você quisesse de fato impressionar Comarc, tentaria. — Hermione apertou as mãos, frustrada.
— Mas eu tento ser igual a Lavender. Uso aqueles vestidos horríveis, cheios de babados, que me fazem parecer uma montanha, fico horas sem dizer uma palavra, bato os cílios até as pálpebras ficarem moles!
Luna mordeu o lábio para não rir da descrição nada lisonjeira que Hermione fizera de Lavender.
— Vou dizer aos outros que você sairá logo.
A aparição de Hermione, que, puxando o cavalo, aproximava-se do grupo, provocou exclamações escandalizadas e risadinhas zombeteiras.
— Ela vai cair, se montar sem sela! — uma das meninas disse. — Se Deus não a matar antes, por ela estar usando calças!
Reprimindo o impulso de dar-lhe uma resposta mordaz, Hermione ergueu a cabeça num gesto de altivo desdém, então lançou um olhar para Comarc. O rosto bonito do rapaz mostrava dura reprovação, quando ele a examinou, olhando-a desde os pés descalços até a cabeça. No íntimo, ela hesitou diante do claro aborrecimento do jovem, mas saltou resolutamente para o lombo do animal.
O alazão moveu-se a trote largo, e Hermione começou a se erguer, primeiro agachando-se, com os braços estendidos para manter o equilíbrio, então pondo-se de pé. O cavalo deu voltas e mais voltas, como Hermione o treinara, e, embora ela estivesse aterrorizada com a idéia de cair e fazer papel de tola, conseguiu mostrar-se competente e graciosa.
Completando a quarta volta, permitiu-se olhar para os rostos a sua esquerda, notando-lhes a expressão de escárnio ou de apreensão, procurando o único que realmente a interessava.
Comarc refugiara-se à sombra de uma árvore, com Lavender agarrada a seu braço, mas nos lábios dele havia um sorriso relutante. Uma sensação de triunfo desfraldou-se no coração de Hermione como um estandarte. Quando ela passou por Comarc novamente, ele sorriu-lhe amplamente. De repente, todas as semanas de treino, a dor nos músculos e as contusões valeram a pena.


Da janela da sala do segundo andar, voltada para o gramado do lado sul, Richard Granger assistia à proeza da filha. O mordomo entrou e anunciou a chegada de Lorde Dowson e sua esposa. Furioso demais com a filha para poder falar, Richard recebeu os dois com os lábios apertados e um breve gesto de cabeça.
— Como... como é bom ver você novamente, depois de tantos anos, Richard — disse Lady Anne educadamente. Quando ele permaneceu gelidamente calado, ela perguntou: — Onde está Hermione? Estamos ansiosos por vê-la.
Por fim, Richard recobrou a voz.
— Querem vê-Ia? — indagou em tom irado. — Bastará que olhem pela janela.
Intrigada, Anne fez o que ele sugerira. Lá embaixo, no gra¬mado, um grupo de jovens observava um rapaz esguio, que se equilibrava graciosamente sobre um cavalo a trote largo.
— Que moço habilidoso! — ela comentou, sorrindo.
A simples observação tirou Richard de sua imobilidade furiosa. Ele girou nos calcanhares e marchou para a porta.
— Se desejam ver sua sobrinha, venham comigo, ou posso poupá-los da humilhação, trazendo-a aqui.
Com um olhar exasperado para as costas do cunhado, Anne passou o braço pelo do marido, e os dois seguiram Richard escadas abaixo e para fora de casa.
Quando se aproximaram do grupo de jovens, Anne ouviu murmúrios e risos, que julgou maliciosos, mas estava ocupada demais, examinando os rostos das mocinhas, procurando por Hermione, para dar atenção a isso. Descartou duas loiras e uma ruiva, observou uma morena baixinha, de cabelos e olhos negros, então, confusa, olhou para o jovem mais próximo dela.
— Com licença, sou Lady Dowson, tia de Hermione. Pode me dizer onde ela está?
Comarc McLaggen sorriu para ela, entre apiedado e divertido.
— Sua sobrinha está em cima do cavalo, senhora.
— Em cima do... — começou Lorde Dowson, interrompendo-se, meio sufocado.
De onde estava, Hermione viu o pai aproximar-se com passadas longas e rápidas.
— Por favor, não faça uma cena, papai — implorou, quando achou que ele poderia ouvi-Ia.
— Eu, fazer uma cena? — ele berrou furiosamente.
Segurando o cavalo pelo cabresto, Richard puxou-o bruscamente para o lado. Sem apoio, Hermione caiu de pé, mas perdeu o equilíbrio e estatelou-se no chão. Quando se levantou, o pai pegou-a pelo braço rudemente e empurrou-a na direção dos espectadores.
— Esta... esta coisa... — ele rosnou, pondo-a na frente dos tios. — Sinto-me mortificado por ter de dizer que esta é sua sobrinha.
Hermione ouviu os risos abafados dos amigos que debandavam, e sentiu o rosto corar de vergonha.
— Como vai, tia Dowson? Tio Dowson? — murmurou, olhando rapidamente para Comarc, que se retirava.
Com um gesto mecânico, fez menção de segurar a saia inexistente; então, lembrando-se de que estava de calças, fez uma cômica reverência. Vendo o rosto carrancudo da tia, ergueu o queixo desafiadoramente.
— Prometo, meus tios, que, durante a semana que ficarão aqui, não voltarei a me comportar de maneira tão excêntrica.
— Durante a semana que ficaremos aqui? — repetiu Lady Dowson, atônita.
Mas Hermione estava observando Comarc ajudar Lavender a entrar no coche e não captou o tom de surpresa na voz da tia.
— Até logo, Comarc! — gritou, acenando freneticamente. Ele se virou e ergueu a mão numa despedida silenciosa.
Ela ainda ouvia os risos, quando os coches começaram a afastar-se pela alameda de entrada, levando os amigos para um piquenique ou outra diversão qualquer, atividades para as quais Hermione nunca era convidada, por ser jovem demais.
Seguindo a sobrinha na direção da casa, Anne viu-se dominada por emoções conflitantes. Estava embaraçada por Hermione, furiosa com Richard Granger, por ter humilhado a menina diante de amigos, ainda chocada pela visão da sobrinha de pé num cavalo, usando roupas masculinas, e profundamente surpresa, porque Hermione, cuja mãe fora apenas bonita, prometia transformar-se numa verdadeira beleza.
Era magra demais, mas, mesmo em sua vergonha, a mocinha mantinha os ombros erguidos, andava com graça e de modo levemente provocante. Anne sorriu para si mesma, observando os quadris suavemente arredondados, que a calça marrom delineava de modo quase imoral, a cintura fina, os olhos magníficos, que, emoldurados por cílios fartos e longos, pareciam variar de tom, indo do cor-de-mel ao mais profundo chocolate. E os cabelos, abun-dantes, cor de mogno! Só precisavam de um bom corte e de serem escovados até brilhar.
Anne sentiu coceira nos dedos, ansiosos para executarem essa tarefa. Já imaginava um penteado que valorizasse os olhos es¬plêndidos e o rosto de ossos malares bem definidos. Os cabelos deveriam ser presos no alto da cabeça, deixando o rosto desco¬berto, com pequenas mechas caindo sobre as orelhas, ou puxados para trás, tombando soltos pelas costas.
Assim que entraram em casa, Hermione pediu licença e refugiou-se em seu quarto, onde, largando-se numa poltrona, pensou na cena humilhante que Comarc testemunhara. O pai a derrubara do cavalo, gritara com ela! Com certeza, os tios haviam ficado tão horrorizados com seu comportamento quanto ele. Envergonhada, ela sentiu o rosto queimar, imaginando como deviam desprezá-la.
— Hermione? — murmurou Luna, entrando no quarto silenciosamente e fechando a porta atrás de si. — Subi pela escada dos fundos. Seu pai está muito zangado?
— Como um caranguejo — respondeu Hermione, olhando para a calça que vestia. — Estraguei tudo, não? Comarc viu como zombaram de mim. Agora, que Lavender completou dezessete anos, é possível que ele a peça em casamento, sem ter chance de des¬cobrir que é a mim que ama.
— Comarc ama você? — ecoou Luna, perplexa. — Hermione Granger, ele foge de você como de uma praga! E quem poderia culpá-lo, depois de todos os aborrecimentos que você lhe causou no ano passado?
— Não foram tantos assim — Hermione protestou, remexen¬do-se na poltrona.
— Não? O que me diz da peça que lhe pregou, no Dia de Todos os Santos, saltando na frente da carruagem dele, gritando como uma bruxa, assustando os cavalos?
Hermione corou.
— Ele não ficou muito zangado. A carruagem tombou, mas o dano não foi tão grande. Só um varal quebrou-se.
— E a perna de Comarc — Luna lembrou-a.
— Mas sarou perfeitamente — Hermione argumentou, afastan¬do a lembrança de travessuras passadas, já considerando futuras possibilidades. Levantou-se, começando a andar de um lado para o outro. — Tem que haver uma maneira... Não posso raptá-lo, mas... — Um sorriso iluminou o rostinho sujo de pó, quando ela se virou tão abruptamente, que Luna encolheu-se na poltrona. — Uma coisa é clara: Comarc ainda não sabe que me ama. Certo?
— Eu diria que ele nem gosta de você — Luna declarou.
— Sendo assim, podemos dizer que ele não me pedirá em casamento sem algum tipo de incentivo, não é?
— Comarc não a pediria nem que fosse ameaçado com uma arma. Sem falar que você não tem idade suficiente para ficar noiva, então...
— Sob que circunstâncias um cavalheiro é obrigado a pedir uma moça em casamento? — Hermione interrompeu-a em tom triunfante.
— Não sei. A menos que, claro, ele a tenha comprometido... Não! De jeito nenhum! Seja lá o que for que esteja planejando, desta vez não vou ajudá-la!
Com um suspiro, Hermione jogou-se na poltrona, estendendo as pernas a sua frente. Uma risada irreverente escapou-lhe, quando ela pensou na incrível audácia de sua última idéia.
— Se eu conseguisse arrancar uma roda da carruagem de Comarc... Sabe, se eu a afrouxasse, para que caísse algum tempo depois, e pedisse a ele para me levar a algum lugar... Bem, voltaríamos para casa a pé, e seria muito tarde da noite, quando chegássemos. Comarc, então, teria de me pedir em casamento.
Fez uma pausa, ignorando a expressão chocada no rosto de Luna.
— Não seria uma maravilhosa variação sobre um velho tema? — continuou. — Moça rapta cavalheiro, arruinando-lhe a reputação, e é forçada a casar-se com ele para reparar o dano! Que novela isso daria!
— Vou embora — disse Luna. Marchou para a porta, hesitou, então virou-se e olhou para Hermione. — Seus tios viram tudo. O que vai dizer a eles sobre estar usando roupas de homem, cavalgando em pé?
— Não vou dizer nada. De que adiantaria? Mas, enquanto eles estiverem aqui, serei a jovem mais encantadora, refinada e delicada que você já viu. — Notando o ar duvidoso de Luna, acrescentou: — Pretendo aparecer apenas nas refeições. Acredito que vou conseguir me comportar como Lavender, pelo menos três horas por dia.
Hermione foi fiel a seu propósito. Naquela noite, ao jantar, Lorde Edward Dowson contou uma história de arrepiar os cabelos sobre a vida dele e da esposa em Beirute, junto ao consulado britânico.
— Muito instrutivo, tio — ela murmurou apenas.
Mas estava ardendo em curiosidade, desejando fazer uma por¬ção de perguntas. Ao final da descrição que Lady Anne Dowson fez de Paris e de sua alegre vida social, Hermione, contendo-se, repetiu o mesmo comentário lacônico. Assim que a refeição ter¬minou, pediu licença para retirar-se e desapareceu.
No fim de três dias, continuava bem-sucedida em sua tentativa de mostrar-se “encantadora, refinada e delicada". Tanto, que a tia começava a se perguntar se Hermione possuía mesmo a viva¬cidade de espírito que demonstrara no primeiro dia, ou se nutria aversão por ela e Edward.
No quarto dia, Hermione fez a primeira refeição antes de os outros se levantarem e sumiu. Anne, então, decidiu descobrir a verdade. Procurou pela casa toda, mas não encontrou a sobrinha, que também não se encontrava no jardim, nem saíra para caval¬gar, pois não tirara nenhum cavalo do estábulo, de acordo com um cavalariço. No gramado, apertando os olhos para protegê-los do sol, Anne olhou em volta, tentando adivinhar onde uma garota passaria tantas horas.
Então, viu uma mancha amarela no topo de uma colina.
— Ah, lá está ela — murmurou, abrindo a sombrinha e co¬meçando a atravessar o gramado.
Hermione só viu a tia aproximando-se quando era tarde demais para fugir. Desejando ter procurado um lugar melhor para escon¬der-se, tentou pensar em algum assunto inócuo sobre o qual pudesse conversar. Roupas? Não entendia nada de moda, algo com que não poderia importar-se menos. Parecia um caso perdido, vestisse o que vestisse. Afinal, como um vestido poderia melhorar a aparência de alguém com olhos de gato, cabelos cor-de-terra e sardas no nariz? Além disso, ela era magra demais e, se o Senhor pretendia dar-lhe seios, estava bem atrasado.
Com as pernas moles e respirando pesadamente, Anne chegou ao topo da subida íngreme e largou-se, sem cerimônia, no cobertor sobre o qual Hermione estava sentada.
— Quis... dar um... passeio — mentiu, ofegante. Quando re¬cuperou o fôlego, notou um livro com capa de couro, pousado no cobertor, e perguntou: — Um romance?
— Não, tia — respondeu Hermione em tom educado, pondo a mão sobre o título, para que Anne não o visse.
— Sei que mocinhas adoram ler romances — a tia tentou novamente.
— É verdade, tia — Hermione concordou.
— Li um, uma vez, mas não gostei — Anne contou, imaginando que assunto poderia deixar Hermione interessada. — Descobri que não suportaria mais heroínas que viviam desmaiando.
Hermione ficou tão atônita ao descobrir que não era a única inglesa que não devorava aquelas histórias insípidas que esqueceu sua resolução de falar o mínimo possível.
— E quando a heroína não está desmaiando, está levando frascos de sais às narinas, chorando e lamentando-se por um cavalheiro indeciso que não se resolve a pedi-la em casamento, ou foi prometido a outra inútil — comentou, rindo. — Eu jamais conseguiria ficar parada, se o homem a quem amasse estivesse apaixonado por uma pessoa que não o merecesse.
Parou de falar por um momento e lançou um olhar para a tia, para ver se ela ficara chocada, mas Anne fitava-a com um inexplicável esboço de sorriso.
— Tia, a senhora amaria um homem que caísse de joelhos a sua frente e choramingasse: "Oh, Clarabel, seus lábios são pétalas de uma rosa vermelha, e seus olhos parecem duas estrelas"? Seria a essa altura que eu agarraria o vidro de sais!
— Eu também — afirmou Anne, rindo. — O que lê, então, se não gosta desses romances atrozes? — Tirou o livro de sob a mão espalmada de Hermione e leu o título gravado a ouro, ex¬clamando, incrédula: — A Ilíada, em grego?! Você sabe grego?
Hermione moveu a cabeça num gesto afirmativo, corando, mor¬tificada. Agora, a tia a consideraria uma sabe-tudo, outro rótulo indesejável.
— Também sei latim, italiano, francês e um pouco de alemão — confessou.
— Bom, muito bom — disse Anne. — E como aprendeu tudo isso?
— A despeito do que papai possa pensar, não sou burra, e infernizei-o tanto que ele acabou por permitir que eu tivesse professores particulares de línguas e história.
Calou-se, lembrando-se de que pensara que, se fosse bastante aplicada nos estudos, se conseguisse ser quase um filho, em vez de filha, seu pai talvez a amasse mais.
— Parece envergonhar-se de seu talento, quando deveria orgulhar-se — a tia observou.
Hermione olhou para sua casa, aninhada no vale.
— A senhora com certeza sabe que todo mundo acha que é perda de tempo dar esse tipo de instrução a uma mulher. E não sou nada boa no que se refere a prendas femininas. Não dou um ponto sem que pareça que costurei com os olhos vendados, e quando canto, os cachorros começam a uivar, lá no estábulo. O sr. Twittsworthy, o professor de música local, disse a meu pai que fica com urticária quando me ouve tocar piano. Não sei fazer nada das coisas que as moças devem saber fazer e, o que é pior, detesto-as.
Ficou certa de que, depois disso, a tia a desprezaria completamente, como todas as outras pessoas, mas era melhor assim, pois, esclarecendo tudo de uma vez, poderia parar de temer a descoberta inevitável. Olhou para a tia.
— Papai deve ter lhe contado tudo a meu respeito — mur¬murou. — Eu o decepcionei, porque ele queria que eu fosse re¬catada, como Lavender Brown. Tento ser, mas não consigo.
O coração de Anne enterneceu-se pela criança adorável, inteligente e confusa, filha de sua irmã.
— Seu pai queria uma menina que fosse delicada e apagada como um camafeu, mas ela é um diamante, cheio de vida e brilho, e isso o confunde. Em vez de apreciar o valor e a raridade de sua jóia, polindo-a, para que ela brilhe mais, ele persiste em tentar transformá-la num camafeu comum.
Hermione estava mais inclinada a ver-se como um pedaço de carvão, mas, para não desiludir a tia, não disse nada.
Pegou o livro, depois que Anne foi embora, mas sua mente vagueou, perdendo-se em devaneios sobre Comarc.
Naquela noite, quando desceu para o jantar, notou que a atmosfera na sala estava carregada. Ninguém a viu aproximar se da mesa.
— Quando pretende dizer a Hermione que ela irá para a França conosco, Richard? — o tio indagou em tom irado. — Ou tem a intenção de esperar até o dia de nossa partida, então simples¬mente atirar a menina para dentro da carruagem?
O mundo pareceu inclinar-se, enlouquecido, e, por um mo¬mento, Hermione pensou que ia vomitar. Estacou, tentando conter o tremor das pernas, e engoliu o doloroso nó em sua garganta.
— Vou a algum lugar, pai? — perguntou, esforçando-se para falar com calma indiferença.
Os três adultos viraram-se para ela, e as feições do pai endu¬receram-se em uma expressão de impaciência e aborrecimento.
— Vai, sim. Para a França, morar com seus tios, que tentarão transformá-la numa dama — Richard respondeu.
Evitando olhar para os parentes, temendo perder a compostura, Hermione deslizou para uma cadeira.
— Avisou meus tios do risco que eles estão correndo? — quis saber, procurando esconder do pai a dor que ele lhe causara. Então, olhando para Anne e Edward, acrescentou, embaraçada: — Meu pai pode ter se esquecido de dizer que poderão ficar cobertos de ver-gonha, recebendo-me em sua casa. Como ele diz, não tenho modos, meu gênio é péssimo, não sei conversar educadamente.
A tia observava-a com evidente compaixão, mas o rosto do pai parecia de pedra.
— Oh, papai, o senhor me despreza tanto assim? — Hermione murmurou com voz entrecortada. — Odeia-me tanto que quer me mandar para longe, para não ser obrigado a me ver? — Com os olhos inundados de lágrimas, levantou-se. — Se... me derem licença... Não estou com fome.
— Como teve coragem?! — Anne exclamou, quando ela saiu. Ergueu-se da cadeira, fulminando Richard com um olhar furioso. — Você é a pessoa mais sem coração, mais insensível que conheci. Será um prazer tirar a criança de suas garras. Ela sobreviveu, e isso prova que tem espírito forte. Eu, com certeza, não teria suportado.
— Deixa-se enganar com muita facilidade, senhora — replicou Richard com frieza. — Asseguro-lhe que não foi a idéia de separar-se de mim que deixou Hermione tão perturbada. Acontece que acabei com os planos dela de continuar a fazer papel de idiota, correndo atrás de Comarc McLaggen.





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E ae? Amaram? Adoraram? Apenas gostaram? Odiaram? Querem me bater por fazer vcs perderem seu tempo? Querem tocar fogo no meu cabelo?
ENTAO COMENTEM, EHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
*rebola*
Ahh, so pra constar...msm que vcs nao gostem...eu vou continuar postando viu?! xDDDD
shauhshuausaushasuahushuashuauhshuasauhsahus

ahh, só pra esclarecer de novo, não fui eu que escrevi, eu apenas editei um livro da autora Judith Mcnaught, que a propósito, com seus livros, me fez me apaixonar pelas suas obras ao ponto de editar uma para que vire uma história H² e postar aqui...por isso...MUITO OBRIGADA...

COMENTEM GNT!!!


lov ya, fofoletes
=**
by~

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