— CAPÍTULO 1 —
Saudades
Quando os primeiros raios da manhã escorreram lentamente pelas frestas da janela do segundo andar, Hermione já estava acordada. No quarto ao lado a pequena Rose dormia em seu berço como um anjo, e isso normalmente seria um motivo e tanto para comemorar um descanso. Mas, mesmo a casa estando silenciosa e seu corpo aquecido sob grossas camadas de uma colcha de algodão macia, aquela noite não fora tranquila. E Hermione continuava a suplicar por qualquer razão para ocupar a cabeça durante as próximas horas.
Num suspiro longo, a morena repassou mentalmente as tarefas daquele dia vinte e quatro de Dezembro, véspera de Natal. O dia estava atarefado e ela só contribuíra para que ele se tornasse mais truculento. Em poucas horas a diligência flutuante da empresa bruxa Express Mudanças, chegaria para carregar as mobílias. Mas antes, ela teria que ir rapidamente pela Rede de Flu até a casa de sua cunhada, Gina, para deixar Rose fora daquele tumulto todo da mudança.
Ela esperava, ainda, que tudo terminasse antes da hora do almoço para chegar na nova casa, um prédio de dez andares construído entre dois prédios trouxas em Londres, e ajeitar o necessário para passar a noite seguinte com a filha. Depois, almoçaria com Gina e as crianças num restaurante do Beco Diagonal e dali partiriam em busca das compras finais de Natal. No caso de Hermione, nas compras de um modo geral, já que não tivera tempo para adiantar coisa alguma nas últimas semanas com as tarefas exorbitantes que seu novo cargo de chefe de departamento no ministério, exigia.
Em meio a esse turbilhão de responsabilidades ela decidiu começar o dia 24 de Dezembro cedo, com um suco de laranja natural, abarrotado de vitaminas. Levantou-se da cama e com uma espreguiçada rápida foi vestir seu hobby de seda carmim. Um presente do marido. E foi então que a irritação da noite de ante ontem voltou...
...Tudo começara quando ela chegou do trabalho com meia dúzia de memorandos ainda flutuando em sua cabeça, esperando análise e assinatura. Hermione ordenou que os papéis fossem para o escritório e aguardassem um momento entre o jantar e a hora de dormir, para serem estudados. Faminta, devorou duas tortinhas de maçã com mel enquanto dispensava à senhora Parkin, a babá de Rose, e levava a filha para um banho. Nem bem terminara de vestir o macacão de dormir em Rose, ouviu alguém chamando na sala. Era na lareira.
― Ron! ― exclamou com um sorriso cansado ao ver a cabeça do marido flutuar numa chama esverdeada. ― Que horas você chega?
― Boa noite pra você também, amor. ― disse ele.
― Eu esperava dizer boa noite pra você pessoalmente. ― argumentou ela estudando-o pelas chamas crepitantes da Rede de Flu. No coração havia uma imensa vontade de abraçá-lo e beijá-lo.
― Então... ― murmurou a cabeça tremeluzente de Rony ― Aconteceram uns imprevistos. ― Hermione sentiu a primeira pontada de frustração, mas se controlou ajoelhando-se o mais perto possível da lareira. ― Hã, como está a Rose? ― desconversou ele.
― Acabou de tomar banho. Está lá em cima no berço, brincando com aquele carrossel de Hipogrifos que seu pai deu.
― Estou com saudades de vocês duas. Muito! ― enfatizou carinhosamente.
Há uns segundos atrás ela também estava com saudades. Cansada, sobrecarregada e abatida, mas com muita saudade dos abraços dele. Agora, porém, outro sentimento começava a brotar dentro dela.
― Quando você vem, Rony? ― perguntou sem rodeios, massageando as têmporas.
― Mione, você não vai me dar os parabéns? Ganhamos a final da Liga Européia ontem. ― continuou como se ela não houvesse feito pergunta alguma ― A França está uma loucura só por causa dessa final!
― Certo, parabéns. ― disse rudemente, vendo toda sua paciência escorrer de seu corpo fatigado para o assoalho de madeira ― Quantos dias mais você vai ficar aí?
Rony tentou sorrir, mas o rosto de sua esposa continuava duro e implacável. Ele sabia que havia prometido chegar antes da véspera de Natal, mas sua carreira exigia sempre mais e mais, e, afinal, a Inglaterra havia levado a taça daquele ano principalmente por causa dele. Droga, ele tinha uma imagem a preservar!
― Amanhã haverá uma sessão de fotos com a comissão de Quadribol e depois todos os jogadores irão para Londres, numa entrevista especial de fim de ano para o Profeta Diário. Dia 24 à noite eu estou chegando, pode anotar.
Dia 24 à noite?! O que ele achava que era ela e Rose na sua vida? Seu passatempo familiar?
― E você não pode simplesmente dizer não? ― disse Hermione rispidamente, levantando-se do chão.
―Hey! ― exclamou o ruivo, irritado ― Essa é minha carreira. Minhas responsabilidades...
― Responsabilidades? ― repetiu ela de forma irônica, fuzilando-o no olhar ― Se brincar de astro é responsabilidade para você, Ronald, o que é sua família?
― Brincar de astro? Então é isso que você acha que eu faço, Hermione? Não sei se você se abalou a ouvir a partida ontem, mas eu caí da vassoura no meio do jogo e fraturei um das costelas. Eu deveria ter saído naquele momento, mas voltei porque sou o capitão. Porque era o meu dever e não a nada de divertido em defender três aros com uma dor fenomenal nas costelas!
Realmente Hermione não ouvira o jogo. No momento ela andava ocupada demais participando de uma audiência nas masmorras do ministério.
― Então é isso? Você está indisponível até dia 24? ― perguntou, os olhos injetados de raiva.
― Hermione... ― disse Rony numa voz mais branda ― Eu sei que prometi estar hoje com vocês, mas prometo que será dia 24, e prometo também que levarei os melhores presentes para as duas mulheres da minha vida. ― concluiu, exibindo um sorriso solícito.
Mas Hermione não estava nada solícita.
― Pare de fazer tantas promessas, Rony. ― foi à última frase que ela lhe disse, antes de deixar a cabeça do marido flutuando solitária na lareira...
...Entretanto, remoer a discussão com ele não se encaixava nos planos de Hermione para o longo dia que se seguiria, e realmente isto não teve voga. Rose acordou esperta e faminta apenas alguns minutos depois da mãe. Logo, a pequenina de cabelos flamejantes, completaria dois anos de muita agilidade, o que significava outro desafio para ela. Sua filhinha exigia cada vez mais atenção.
Acomodada em sua cadeira de bebê, Rose lambuzou-se do prato de mingau preparado por Hermione, enquanto esta sorvia um refrescante suco de laranja duplo. Debruçada sobre o balcão, observando a filha, ela não podia descordar do quanto de Ron havia nela. Os cabelos inegavelmente a categorizavam como uma Weasley legítima. Rose possuía ainda, os olhos azuis e brilhantes do pai, mas num olhar perspicaz e penetrante do qual a própria Hermione se deparava toda manhã no espelho. Inegavelmente, a cada dia que alvorecia, ela se apaixonava mais e mais por aquela miniatura esmerada dos dois.
Então, subitamente, um estampido forte vindo do lado de fora, desviou os pensamentos dela. Alguém havia aparatado perto.
―Papa! ― exclamou Rose casualmente. Hermione não tinha certeza se ela se referia ao barulho de aparatação que sempre antecedia a chegada de Rony ou ao seu mingau submergindo suas duas mãozinhas dentro da tigela.
Entre limpar a sujeira que Rose estava fazendo com seu café da manhã e verificar se havia sido o pessoal da Express Mudanças que chegara cedo demais, Hermione habilidosamente escolheu as duas alternativas. Num movimento de varinha proferiu Scourgify na direção da filha e a lambuzeira desapareceu. E quando abriu a porta da casa, esperando dizer aos rapazes da mudança que eles haviam chego pelo menos uma hora antes do combinado teve a agradável surpresa em descobrir que ainda não eram eles.
― Bom dia! ― saudou sua cunhada e amiga, Gina (agora Potter há pelo menos quatro verões) do lado de fora.
― Oh Gin, você é um anjo... ― sorriu Hermione, abraçando carinhosamente a ruiva. Gina aparecer àquela hora da manhã em sua casa significava que ela facilitaria o dia para a morena, indo buscar a sobrinha pessoalmente. ― Não precisava se incomodar.
― Não se preocupe. Acordei o Harry logo cedo pra cuidar dos garotos, para vir aqui. ― argumentou ela ― Quando saí de lá havia três Potters famintos e um elaborando experimentos na frigideira com alguns ovos errantes.
― Entre. ― convidou a anfitriã voltando para cozinha. Gina seguiu-a ― Mas eu achei que o Harry iria trabalhar hoje. Ele havia me dito... ― comentou enquanto pegava Rose do cadeirão de bebê.
― Pois é. Mas não havia me dito. ― disse a outra com um olhar desaprovador ao lembrar-se das súplicas em vão de Harry para ir ao Ministério adiantar o serviço na véspera de Natal. Seu olhar, porém, se desfez em dois segundos quando viu a sobrinha ― Oi amorzinho! Vamos pra casa da titia?!
Rose fez festinha no colo da mãe até pular para os braços de Gina.
― Você precisa me ensinar esse feitiço de como fazer o marido ficar em casa na véspera de Natal. ―brincou Hermione, com uma pontada de frustração. Aquele era o quarto Natal do casal junto, e o terceiro que os compromissos esportivos de Rony arrastavam-no para longe de casa.
― Meu irmão precisa é de um chá de bom senso, Mione! Deixa minha mãe saber que ele te deixou sozinha hoje pra fazer essa mudança...
—Não envolva sua mãe nessas coisas, por favor. Tudo bem, já adiantei tudo mesmo. Então senhorita Rose, está ansiosa para pentelhar com seus primos? ― A pequena Weasley sorriu, sem tirar os olhos da cabeleira de Gina, que enrolava nos dedinhos ágeis.
― Fique tranquila, Mione. Pode fazer a mudança sossegada e mais tarde nos encontramos no Beco Diagonal. Estou pensando em dar agilidade as nossas compras, deixando as crianças com Harry.
—James, Alvo e Rose?! Ele vai ficar maluco! —riu a morena, encaminhando-se ao andar superior da casa para buscar a mochilinha de pertences da filha.
***
Ele dormia em lençóis beges de cetim. Estava simplesmente sob o maior e mais aconchegante colchão que já deitara na vida, e ainda assim, não se sentia confortável para dormir. Tentou arrumar uma posição relaxante de barriga para cima, de lado — esquerda e direita ―, e de bruços também. Tudo sem sucesso. Mas ele sabia que o problema não era a cama de uma das suítes mais caras do luxuoso e londrino Hotel Druida Merlin.
Entediado pela falta de sono, tateou no escuro o travesseiro ao lado, em busca de sua varinha. Quando a encontrou apontou na direção onde sabia que ficava o relógio de cabeceira e pediu que ela iluminasse-o. Quatro e onze da manhã. Perfeito!
Se ele não conseguira pegar no sono às quatro da manhã, não conseguiria mais. O dia em poucas horas amanheceria e com ele vinha uma manhã abarrotada de fotos, entrevistas repetitivas e como se já não bastasse, Ludo Bagman.
Mas não era ter que aguentar Ludo e o Profeta Diário na véspera de Natal que andava tirando o sono de Rony. Ele poderia enfrentar tudo isto com roncos e bocejos. O que perturbava sua paz de espírito era sempre brigar com Hermione. Como odiava isto!
Impotência, ele não sabia o real significado desta palavra até ter que dividir sua família com o Quadribol. Amava os dois em intensidades e jeitos opostos, sua vida e sua alegria versus seu trabalho e sua alegria. Gostaria, do fundo do coração, de já estar com elas há dias, mas sempre existia um compromisso a mais, e todos tinham sua importância.
Merlin! Ele também estava com saudades e chegaria a tempo de passar o Natal. Depois de hoje, estava de férias afinal.
Não, ela tinha que começar uma discussão e me deixar mal só pra variar! Pensou triste e irritado.
Não aguentando mais continuar na cama sem sono, Rony livrou-se das cobertas e ordenou que os castiçais da suíte se acendessem. Do serviço daquele hotel pelo menos não podia reclamar. Aquecido pela lareira refinada no quarto, caminhou apenas de calção até a janela, abrindo as cortinas para o mundo lá fora. A cidade estava amanhecendo também. Luzinhas aqui e ali de edifícios e casas trouxas que nem imaginavam o hotelzão bruxo que se erguia diante de seus olhos, há alguns metros do Trafalgar Square. E observar o badalado ponto turístico londrino o fez lembrar daqueles tempos vazios, longe de Hermione. Fora ali perto que ele teve que aguentar uma daquelas provações mordazes: vê-la na companhia de Córmaco na festa de Slughorn. Aquelas recordações hoje não passavam de escorregões na história dos dois, mas ainda eram capazes de chateá-lo se ele se empenhasse em lembrar dos detalhes.
Era praticamente Natal afinal, e como dizia seu pai, época de espantar os pensamentos ruins. Com essa atitude em mente Ron sorriu e decidiu-se pelo bom humor nas horas seguinte, mesmo aquelas que ele teria que dedicar a Ludo e ao Profeta Diário. Depois viria a melhor parte: reencontrar as duas mulheres da sua vida e desfrutar de merecidas férias ao lado de sua família.