Capítulo Dois - O corpo e o servo
Seus passos ecoavam no chão de pedra. A umidade era tanta que chegava a incomodar até aos que estavam acostumados com masmorras como ele. As luzes bruxelantes dos archotes não eram suficientes para iluminar o local. Tudo muito empoeirado. Esse conjunto dava a Draco Malfoy uma péssima impressão sobre o castelo.
Ao chegar à sala onde haveria uma reunião entre os comensais e Voldemorte, entrou nela sem pensar duas vezes. Era a primeira vez que presenciaria a isso. Não que estivesse nervoso. Na verdade, estava muito ansioso para rever o pai. Há mais de um ano que ele não encarava aquele rosto tão conhecido. Sua relação com Lúcio Malfoy não era das melhores. Mas, afinal, qual das relações que Draco mantinha poderia ser considerada “das melhores” ? Sinceramente, nenhuma.
Ao entrar se deparou com uns vinte comensais posicionados formando um círculo ao redor de um altar. Foi quando viu uma mecha de cabelo de uma cor idêntica a sua. Apressou o passo e parou ao lado do outro loiro. Aquele homem não era o mesmo que ele admirara e temera a vida inteira. Estava mais abatido, aparentava ter uma idade mais avançada do que realmente tinha. E, pela primeira vez, Lúcio Malfoy pareceu ser um homem. Draco finalmente descobrira o que havia embaixo da máscara do pai, um ser humano. O jovem viu ruir a imagem do “seu herói de infância” naquele exato instante.
- Pai?
- Filho! – Lúcio abriu um sorriso vazio.
Eles se encararam por alguns instantes e se abraçaram. Um abraço sem ternura, carinho ou qualquer outra emoção. Simplesmente um abraço de conhecidos que se reencontram após muito tempo.
- Como está? – perguntou Lúcio analisando o filho.
- Bem. – respondeu sem emoção – E você?
- Mais ou menos.
- Chegou há quanto tempo?
- Há uns dez minutos. E você?
- Estou aqui desde cinco ou seis horas da manhã.
A conversa foi interrompida pela chegada de Voldemorte. Todos os comensais prostraram-se quase que automaticamente. Um incômodo silêncio se instalou no lugar.
- Todos estão aqui?
- Sim – responderam em uníssono.
- Comecemos, então. – sua voz se tornou ligeiramente mais ameaçadora – Malfoy?
- Sim? – o garoto se adiantou.
- Trouxe o que eu mandei?
- Sim. Esta é a lista das garotas que cursam o sexto e sétimo ano em Hogwarts – entregou uma lista enorme.
- Ótimo. Alguém suspeitou de você?
- Não, mas creio que terei que responder a várias perguntas quando voltar.
- Por quê?
- Perdi uma aula hoje, ou melhor dizendo, ontem.
- Certo.
Malfoy voltou ao seu lugar no círculo. Observando os presentes, deu por falta de seus companheiros de turma. Nem Crabbe, nem Goyle, nem Parkinson estavam presentes. Este fato o deixou um pouco curioso, nada de mais.
Enquanto o loiro estava entretido em observar os presentes, o Lord estava analisando a lista.
Depois de algum tempo, Voldemorte largou os papéis e começou a falar cada vez mais alto:
- Titânia, eu te chamo! Titânia, eu te chamo! Titânia, eu te chamo! Eu sei que podes me ouvir. Eu rogo. Eu clamo. Eu imploro. Venha a mim que não te arrependerás. Corpus Substituere eu posso realizar. Mas para isso, tua presença eu exijo neste altar!
Uma espécie de luz apareceu, cegando a todos. Quando conseguiram abrir os olhos, puderam distinguir uma silhueta feminina ao lado do Lord das Trevas.
Altiva, formosa e poderosa. Malfoy desconfiava de que se tratava de uma semi-deusa. Não que ele acreditasse que tal feito fosse possível, porém suas feições eram compatíveis com as de uma bruxa que vivera na Idade Média. Contudo, recusava-se a creditar no que seus olhos viam. Aquilo era irreal. Só podia ser fruto se sua imaginação!
Mas não era. Aquela era a mesma Titânia da qual o livro “Lendas do Mundo Mágico” falava. Aquela mesma mulher que fora reconhecida pela sua inteligência e destruída pela própria ambição.
- Voldemorte... – cumprimentou de forma suave e melodiosa.
- Titânia, querida! – exclamou logo antes de beijar sua mão.
O olhar da bruxa vagou por alguns instantes. Analisou comensal por comensal até que se deparou com um rosto conhecido.
- Malfoy? – chamou com um leve sorriso nos lábios – Quanto tempo... Vinte anos talvez?
- Mais precisamente dezoito, minha senhora.
- Que horror! Dezoito anos é tempo demais! E esse ao seu lado? Quem é?
- Meu filho.
- Como se chama?- perguntou dirigindo-se ao loiro mais jovem.
- Malfoy, Draco Malfoy.
- Belo nome. Quantos anos?
- Dezessete. Por quê?
Um silêncio mórbido se instalou. Lúcio estava apreensivo. Draco tinha ido longe demais. Responder torto nem sempre era bom, muito menos quando se tratava dela.
Algum tempo se passou. Todos esperavam alguma reação da parte a bruxa. Coisa que não veio. O jovem comensal, cansado de esperar, repetiu a pergunta.
- Por quê? Ainda não me respondeu.
- Curiosidade. Satisfeito agora?
- Não.- alguns murmúrios podiam ser ouvidos – Isso não foi convincente.
- Nunca disse que seria. Você apenas queria uma resposta e eu a dei. Simples assim.
- Entre isso e não ter resposta, melhor era ter ficado com a segunda opção.
- Você é muito atrevido.
- Minha marca pessoal.
- Metido também.
- Autoconfiança eu tenho de sobra, senhora.
- Estou vendo. Voldemorte, - encarou o bruxo – esse garoto tem futuro.
- Eu sei. Por isso ele está aqui.
- Lúcio, ele tem talento. Parece que é de família. Não é, querido?
Aquelas palavras soaram estranhas a Draco. Que intimidade era aquela? Querido? Desde quando eles se tratavam assim? Pelo que havia entendido, eles não se viam há dezoito anos. Sendo que seus pais eram casados há pelo menos vinte.
O jovem estava tão perdido nesses pensamentos que não notara que a bruxa analisava atentamente a lista que ele trouxera. Só fora trazido de volta à realidade quando ouvira Titânia proferir o nome Weasley.
- Gina Weasley. É essa.
- Tem certeza? – insistiu Voldemorte – Tem tantas mais bonitas nesta lista!
- Quero a ruiva e ponto final.
- Certo. Meus Comensais trarão a garota amanhã há noite. Mais alguma exigência?
- Eu quero um servo particular.
- Sem problema. Qual deles?
A morena voltou sua atenção para o círculo que se formava ao seu redor. Não demorou nem um segundo para achar quem queria.
- O Malfoy.
- Eu?
- Não Lúcio. O seu filho.
Draco ficou paralisado. Não conseguia se mover. Só observava o pai se prostrar em frente a ela e pedir:
- Senhora, eu vos peço que o deixe fora disso. E me ofereço em seu lugar.
- Sinto muito, mas não poderei atendê-lo. Você é um ótimo servo, mas você há de convir que essa garota está mais para idade dele do que para a sua.
- Mas...
- Sem “mas”, Lúcio. Nosso caso, por assim dizer, foi bom enquanto durou.
O outro Malfoy manteve-se calado até aquele ponto. Entretanto, não pôde mais agüentar e interveio.
- Você traiu a minha mãe com ela?
- É...
- E ela sabe?
- Sabe.
- E não disse coisa alguma?
- Filho, vou explicar uma coisa. A sua mãe não ia ligar se eu dissesse para ela que eu a traí com meio mundo, mas se dissesse que eu fali, ela me largaria na hora! – vendo a cara de incrédulo dele acrescentou - É serio!
- Pai? – o seu tom era de puro espanto e incredulidade.
- E não estou mentindo, não desta vez!
Draco simplesmente abanou a cabeça como se quisesse espantar os pensamentos que lhe ocorriam. Virou para frente e encarou a bruxa que assistia àquela cena de “família lavando a roupa suja”. Suspirou resignado e continuou:
- O que devo fazer?
- Em primeiro lugar, deve capturar Gina Weasley. Como? Não me importa. Dê um jeito.
- Certo. Mais alguma coisa?
- Por enquanto não.
- Posso me retirar? – indagou olhando diretamente para Voldemorte.
- Pode. A propósito, quero esta garota aqui amanhã à noite.
O jovem comensal refez seus passos até a saída sem olhar para trás ao menos uma vez. Atitude um pouco arriscada. Nunca se deve confiar em comensais mesmo sendo um. Contudo, isso pouco importava a Draco. Ele queria voltar a Hogwarts o mais rápido possível. Aquele lugar lhe causava náuseas! Até Hogwarts era melhor...
Atravessou o mesmo corredor úmido e mal iluminado quase correndo. Subiu as escadas que ali existiam e parou. Para que lado era mesmo? Esquerda? Direita? Optou pela esquerda. Não era seu costume ir por esse lado. Normalmente tomaria o outro caminho, mas por um motivo qualquer escolheu aquele.
Todo o castelo estava em silêncio. Ele conseguia até ouvir sua respiração tranqüila. Não prestou atenção aonde seus pés o levavam. Quando parou, estava diante do quarto no qual fora obrigado a passar o dia inteiro.
Entrou. Diferentemente do subterrâneo, aquele cômodo era limpo. A luz da manhã o iluminava fracamente. Uma brisa fria passou cortante pela pele do jovem que não se moveu nem um milímetro para fechar a janela. Ele ainda observou um pouco o lugar antes de atirar-se na cama. E assim ficou por alguns instantes. Tão imóvel que se passaria facilmente por um morto.
Sem a mínima vontade, foi até a escrivaninha que se encontrava ali e começou a escrever. O que de importante um adolescente poderia estar escrevendo àquela hora? Nada. A não ser que estivesse se tratando de Draco Malfoy.
Ele tinha menos de vinte e quatro horas para bolar um seqüestro perfeito. Teria que arranjar um jeito de burlar toda a segurança do castelo, seqüestrar a Weasley e isso tudo sem ser reconhecido. Complicado? É... Mas ele não tinha escolhas.
Mais ou menos ao meio dia, Draco chegava a Hogwarts. Atravessou os jardins de forma que ninguém notou.
Era hora do almoço. Decidiu-se por comer algo para não levantar mais suspeitas sobre si. Sentou de frente para a mesa da Grifinória. “Sempre a mesma coisa... a mesma bagunça, os mesmos grupinhos... Eles nunca mudam!” pensava até avistar o trio. Procurou mais um pouco e logo achou quem queria. E lá estava ela, sorridente como sempre. “Por que não podia ser outra garota? Por que logo ela? Eu mereço...” reclamava consigo mesmo enquanto observava discretamente a ruiva.
Gina conversava animadamente com Luna. Despediu-se da amiga e foi ter com o pessoal da sua casa. Ela não estava realmente com fome, entretanto adorava a hora das refeições. A Grifinória inteira reunida, exceto por poucas pessoas. Era uma confusão de dar gosto! Não se impediu de sorrir ao olhar a cena.
Um arrepio estranho lhe percorreu a espinha. Ela detestava calafrios. Passou a mão na nunca como se aquilo adiantasse em algo. Olhou ao redor. Todos pareciam distraídos. Uma pessoa lhe chamou a atenção. Lembrou-se do comentário que Hermione fizera mais cedo: “Draco Malfoy é o problema... Ele não veio à aula ontem e nem sinal dele hoje. Não esqueça que o Lucio é pai do Draco e que a Bellatrix é tia. Sem contar que eles estão envolvidos com Magia Negra até a raiz dos cabelos...”.
Outro arrepio. Ela não estava gostando nadinha daquilo. Sentia que estava sendo observada. Seus olhos percorreram a mesa da sua casa e para sua felicidade ali estava o trio.
Cumprimentou a todos e sem despregar os olhos da mesa da casa rival, indicou Malfoy. Hermione e Gina se entreolharam desconfiadas. Harry e Rony, ainda não convencidos sobre a periculosidade do loiro, fizeram pouco caso.
As garotas seguiram para a biblioteca já que ninguém se encontrava por lá, nem mesmo a Madame Prince. Foram para a mesa mais afastada.
- Hermione, eu posso até estar exagerando, mas quando eu bati os olhos nele tive uma sensação horrível.
- Não foi só você, Gina. Eu também. E...
- E o quê?
- Notei que, de vez em quando, ele nos olhava furtivamente.
- Mi, você conhece a tese de que se você ficar olhando insistentemente para uma pessoa ela acaba olhando de volta?
- Claro. Mas por quê?
- Ele deve ter percebido que nós o encarávamos.
- Não creio. Ele é Draco Malfoy e não dá ponto sem nó.
- Assim você até me assusta! Credo!
- Não foi a intenção... – respondeu sorrindo.
- Tudo bem, eu entendo. E agora? O que a gente faz?
- Nada.
- Como nada?
- Nada. Não temos nem uma prova contra ele.
- Droga! – reclamou jogando a cabeça para trás e rolando os olhos.
- Relaxa. Agora só nos resta esperar...
Ficaram conversando sobre trivialidades para espantar o clima tenso que havia se instalado. Era incrível como elas eram tão diferentes e tão parecidas ao mesmo tempo. Gina considerava Hermione como uma irmã. Afinal, ela não estava sempre com Rony e os outros?
Era nisso que a ruiva pensava quando viu um grupo de sonserinos entrar no local. E, mais uma vez naquele dia, ela sentiu um arrepio gelado percorrer a sua espinha. Observou o grupo, mas, para sua surpresa, constatou que Malfoy não fazia parte dele. Lá só encontravam-se: Parkinson, Crabbe e Goyle. Suspirou aliviada e voltou a sua atenção à conversa.
No entanto ela desconhecia o fato de Malfoy estar no outro corredor da biblioteca. Ele não desgrudava o olhar dela nem por um segundo. Precisava raptá-la naquela noite e a “maldita sangue-ruim da Granger”, como ele mesmo definia, não saía de perto da ruiva.
Os minutos pareciam arrastar-se até que de repente todos saíram de lá. Todos, exceto a Weasley. Se Malfoy acreditasse que há um ser superior, diria que ele atendera a suas preces. Era a chance perfeita.
Mesmo depois de todos irem embora, Gina continuava com a sensação de ser observada. Olhou a sua volta, ninguém, entretanto ela tinha certeza absoluta de que havia algo errado. Podia sentir aquela presença aterrorizante e inebriante. Seu coração parecia quer sair do peito devido à força com que batia. Sua respiração foi ficando cada vez mais pesada e barulhenta, isso demonstrava o seu receio crescente.
Passos e mais passos foram ouvidos. O som do solado no chão ressonava pelo recinto, o que aumentava a tensão no ar. A jovem examinou atentamente o seu redor e, mais uma vez, não encontro viva alma.
- Calma, Gina, calma... – murmurou.
Com que por um passe de mágica, os passos cessaram. A grifinória não se tranqüilizou, pelo contrário, ela podia sentir aquela presença bem perto. Respirou fundo e olhou para trás.
- Olá.
Um par de olhos cinzentos a encarava de modo frio e intenso. O cabelo loiro e liso caía levemente por aquela face extremamente alva. Aquela pose, o ar esnobe e o sorriso vazio não deixavam dúvidas quanto à identidade de seu dono.
- O que você quer, Malfoy? – perguntou num misto de receio e desprezo.
O tempo parecia suspenso. Gina tinha a impressão de que o mundo havia parado naquele instante. No entanto, a resposta não tardou mais do que um segundo para chegar e, para a surpresa dela, não foi nenhuma provocação.
- Estupore!- ao terminar a pronuncia do feitiço, o loiro assistiu a Weasley tombar sobre a mesa.
Por ser pega de surpresa, Gina não teve tempo nem para reagir, o que simplificou muito o trabalho de Draco. Ele estava preparado para alguma coisa pior, tinha planejado algo muito mais complexo, contudo as circunstâncias estavam ao seu favor.
- É, Weasley... Foi mais fácil do que eu pensei. – sussurrou no ouvido dela enquanto a pegava no colo e os cobria com a capa da invisibilidade.
N/A: Bem, até rolar um action vai demorar um pouquinho... Espero sinceramente que a fic esteja agradando... o que eu mais gosto nela é o meio, que ainda não está pronto (não é surpreendente?! Ela ainda está no início porque o meio não está pronto ainda! Por favor, esqueça esse comentário retardado). É isso... Não tenho mais o que falar, por isso as idiotices... Ah! Bem lembrado! Comentários! Brigadão pela audiência e pela paciência! Beijos. Fui.
Um beijo especial para a isadora que comentou! ; )
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