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11. Capítulo Onze


Fic: Pecados Mortais - CAPÍTULO CATORZE


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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O cheiro de café acordou-a. Deitada de lado, Gina virou-se de costas, ainda sonolenta, com o agradável aroma caseiro. Fazia quantos anos desde que acordara com o cheiro de café já fumegando. Quando morava na casa do avô, com pé-direito alto e vestíbulo com piso de cerâmica, descia a escadaria em arco de manhã e o encontrava já sentado atrás de um imenso prato de ovos ou panquecas, o jornal aberto e tomando café.


Srta. Bette, a governanta, punha a mesa com os pratos do dia-a-dia, os que tinham as violetinhas nas bordas. As flores dependiam da estação, mas sempre estavam lá, narcisos, rosas ou crisântemos no vaso de porcelana azul que fora da avó.


Ouvia-se o tranqüilo movimento da cauda de Trooper, o velho cão golden retriever do avô, quando ele se sentava sob a mesa na esperança de petiscos caídos ao acaso.


Essas haviam sido as manhãs de sua juventude — estáveis, seguras e conhecidas —, do início da maturidade, assim como o avô fora a forte figura central em sua vida.


Então ficara adulta, mudara-se para um apartamento próprio e abrira a própria clínica. Coava o café ela mesma.


Com um suspiro, virou-se preguiçosa, na esperança de outro sonho. Então lembrou e sentou-se de um salto na cama vazia, a não ser por ela. Retirando os cabelos dos olhos, tocou o lençol ao lado.


Ele ficara e cumprira o trato. Haviam rolado, se entregado e amado um ao outro pela noite adentro até o sono exausto ser a única alternativa. Sem perguntas, sem palavras e a única resposta fora a de que ambos precisavam. Um ao outro e espairecer. Ele também precisava disso. Entendera que precisava de algumas horas sem tensão, quebra-cabeças e responsabilidades.


Agora que chegara a manhã, cada um tinha um trabalho a enfrentar.


Gina se levantou e vestiu o quimono jogado no chão. Queria um banho de chuveiro, porém queria mais o café.


Encontrou Harry no pequeno L da sala de jantar, com um mapa da cidade, um emaranhado de anotações e o bloco amarelo dela largado sobre a mesa.


— Bom dia.


— Oi — ele respondeu ausente e depois olhou e concentrou-se. Embora sorrisse, ela viu que tinha os olhos sombreados e intensos ao examinarem seu rosto. — Oi — repetiu. — Eu esperava que você dormisse um pouco mais.


— Já passa das sete.


— Hoje é domingo — ele lembrou-lhe e levantou-se, como para separá-la do que fazia à mesa. — Com fome?


— Vai cozinhar?


— Tem estômago sensível?


— Não muito.


— Então na certa agüenta uma de minhas omeletes. Topa?


— Sim, topo. — Ela foi com ele até a cozinha e serviu-se de uma xícara de café. — Levantou-se há muito tempo?


— Há pouco. Com que frequência você compra comida?      


Ela olhou atrás dele a geladeira agora aberta.


— Quando me encostam na parede.


— Considere-se assim. — Ele pegou uma embalagem de ovos com menos da metade e um miserável pedaço de queijo cheddar. — Ainda dá pra preparar a omelete. Na conta.


— Tenho uma omeleteira. Segunda prateleira no armário à direita.


Ele lançou-lhe um olhar brando, de pena.


— A gente só precisa de uma frigideira quente e mão leve.


— Admito meu erro.


Gina tomava café enquanto ele cozinhava. Impressionante, pensou, e sem dúvida melhor do que ela sabia fazer com utensílios de gourmet e uma receita detalhada. Interessada, curvou-se acima do ombro de Harry e mereceu um furioso olhar silencioso. Partiu um brioche, enfiou-o na torradeira e deixou o resto com ele.


— Bom — decidiu, quando se sentaram à mesa e ela engoliu a primeira mordida. — Sou muito atrapalhada na cozinha, motivo pelo qual não guardo muita comida que me obrigue a prepará-la.


Ele serviu-se com o fácil entusiasmo de um homem que considerava a comida um dos principais prazeres da vida.


— Morar sozinho nos torna auto-suficientes.


— Mas não faz milagres.


Ele cozinhava, mantinha o apartamento arrumado, era obviamente competente no seu ofício e parecia ter poucos problemas com as mulheres. Gina terminou o café e perguntou-se por que estava mais tensa agora do que quando fora para a cama com ele.


Porque não era tão jeitosa com os homens quanto ele com as mulheres. E porque, pensou, não tinha o hábito de dividir um café-da-manhã informal após uma noite frenética de sexo. O primeiro caso amoroso fora na faculdade. Um desastre. Agora, com quase trinta anos, mantinha os relacionamentos com homens na zona segura. A ocasional experiência intensa fora agradável, mas não importante. Até esta.


— Você parece auto-suficiente.


— Se você gosta de comer, aprende a cozinhar. — Ele meneou os ombros. — Eu gosto de comer.


— Nunca se casou?


— Como? Não. — Harry engoliu forte em seco e pegou metade do brioche. — Tende a atrapalhar...


— O namoro sem sérias intenções.


— Entre outras coisas. — Ele sorriu-lhe. — Você passa manteiga num delicioso brioche.


— É verdade. Eu diria que outro motivo de você nunca ter se... digamos, assentado, é que seu trabalho vem em primeiro lugar. — Ela olhou os papéis que ele empurrara para a extremidade da mesa. — O trabalho policial seria exigente e consumiria tempo, além de perigoso.


—As duas primeiras coisas, de qualquer modo. A homicídios é um tipo da ponta executiva. Trabalho administrativo, quebra-cabeça.


— Executivo — ela murmurou, lembrando com muita clareza a facilidade com que uma vez ele pegou a arma.


— A maioria dos rapazes usa terno. — Ele quase raspara a omelete do prato e já se perguntava se podia convencê-la a pegar um pouco no prato dela. — Em geral, a gente chega depois de completada a ação e então junta as peças. Fala com pessoas, dá telefonemas.


— Foi como conseguiu essa cicatriz? — Gina girou o resto da omelete no prato. — Distribuindo papéis?


— Eu já disse a você antes, isso é notícia velha.


Gina tinha a mente analítica demais para deixar a coisa parar por aí.


— Mas foi baleado, e na certa mais de uma vez.


— Às vezes entramos em campo e as pessoas não ficam muito satisfeitas em nos ver.


— Tudo num dia de trabalho?


Quando ele percebeu que ela não iria desistir, largou o garfo. 


— Gina, não é como no cinema.


— Não, e tampouco como vender sapatos.


— Certo. Não vou dizer que nunca nos deparamos com uma situação em que as coisas não esquentam, mas, em essência, esse tipo de trabalho policial é no papel. Relatórios, entrevistas, trabalho mental. Semanas, meses, até anos de incrível trabalho desinteressante, mesmo tedioso, ao contrário do risco físico real. Um novato de uniforme tem mais chance de lidar com mais pressão num ano que eu.


— Entendo. Então não é provável que você enfrente uma situação, no esquema normal das coisas, em que tenha de usar a arma.


Ele não respondeu por um momento, não gostando do rumo que a conversa tomava.


— Aonde você quer chegar?


— Estou tentando entender você. Passamos duas noites juntos. Gostaria de saber com quem durmo.


Ele vinha evitando isso. O sexo era mais fácil se usasse antolhos.


— Vamos lá: Harry James Potter, trinta e cinco anos em agosto, solteiro, um metro e oitenta e sete de altura, setenta e oito quilos.


Ela apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos entrelaçadas ao examiná-lo.


— Você não gosta de falar de seu trabalho.


— Que há nele pra falar? E só um emprego.


— Não, com você, não. Num emprego a gente bate o ponto toda manhã, de segunda a sexta-feira. Você não leva a arma como uma pasta.


— A maioria das pastas não é cheia.


— Você teve de usá-la.


Harry terminou o café. Já satisfizera o organismo.


— Duvido que muitos policiais cheguem ao fim da carreira pra receber a pensão sem ter sacado a arma pelo menos uma vez.


— E, entendo. Por outro lado, como médica, eu lidaria mais com os resultados depois. A dor da família, o choque e o trauma da vítima


— Eu nunca baleei uma vítima.


Desprendia-se uma aspereza da voz dele que a interessava. Talvez gostasse de fingir para ela, até para si mesmo, que os aspectos violentos do emprego eram ocasionais, um efeito colateral esperado. Considerava qualquer um que baleara no cumprimento do dever, segundo suas palavras, o bandido. No entanto, ela tinha certeza de que parte dele pensava no humano, na carne e no sangue. Essa parte perderia o sono.


— Quando se atira em alguém por autodefesa — ele perguntou, devagar —, não é como numa guerra, em que se vê o inimigo mais como um símbolo que um homem?


— Você não pensa assim.


— Não vejo como seria possível.


— Acredite na minha palavra.


— Mas, quando se encontra numa situação que exige esse tipo de extrema ação defensiva, você mira pra ferir.


— Não. — Com a resposta categórica, ele se levantou e pegou o prato. — Escute, você saca a arma, não é o Zorro. Não tem essa de atingir de raspão com a bala de prata a mão armada do bandido. Sua vida, a do seu parceiro e a de algum civil estão em risco. É preto e branco.


Levou os pratos para a cozinha. Ela não lhe perguntou se matara, pois ele já lhe dissera.


Tornou a olhar os papéis em que andara trabalhando. Preto e branco. Ele não veria os matizes de cinza que ela via ali. O homem que procuravam era um assassino. O estado da mente dele, as emoções e talvez até a alma não importavam a Harry. Talvez não pudessem importar.


— Esses papéis — começou, quando ele voltou. — É alguma coisa em que posso ajudar?


— Só trabalho chato.


— Sou especialista em trabalho chato.


— Talvez. Podemos falar sobre isso mais tarde. No momento, tenho de ir andando se quiser pegar a missa das nove.


— Missa?


Ele riu da expressão dela.


— Não voltei pro rebanho. Achamos que nosso homem poderia aparecer esta manhã numa de duas igrejas. Estivemos cobrindo as missas nas duas desde as seis e meia. Tive uma folga e peguei os serviços das nove, dez e onze e meia.


— Eu vou com você. Não, nem tente — ela disse, quando ele abriu a boca. — Posso ajudar de verdade. Conheço os sinais, os sintomas.


De nada adiantava dizer-lhe que desejava a sua companhia. O negócio era deixá-la achar que o convencera.


— Não me culpe se ficar com os joelhos esfolados. - Ela tocou a face dele com a mão, mas não o beijou.


— Me dê dez minutos.


 


A igreja cheirava a parafina e incenso. Os bancos, lisos do desgaste causado pelo deslizamento e a substituição de centenas de quadris cobertos de tecido, tinham menos da sua metade ocupada para a cerimônia das nove horas. Fazia silêncio, a não ser por uma ou outra tosse e aspiração com o nariz entupido que ecoavam abafados. Uma luz celestial, agradável, atravessava as janelas de vitral na parede à esquerda. O altar ficava na parte superior da igreja, forrado de tecido e ladeado por velas. O branco da pureza. Acima, pendia o Filho de Deus, agonizando na cruz.


Harry sentou-se com Gina num banco nos fundos e passou os olhos pela congregação. Algumas idosas espalhavam-se entre as famílias próximas na frente. Um jovem casal sentava-se no banco defronte aos dois, preferindo a parte de trás, pensou Harry, por causa do recém-nascido que dormia no colo da mulher. Um ancião, que entrara com a ajuda de uma bengala, instalara-se sozinho, a cinqüenta centímetros da intimidade de uma família de seis. Duas meninas nas melhores roupas de domingo sentaram-se e começaram a sussurrar, e um menino ajoelhara-se de costas no banco e deslizava em silêncio um carrinho de plástico pela madeira. Harry soube que ele fazia na mente os ruídos de motor e pneus gemendo.


Três homens sentados sozinhos encaixavam-se na descrição geral. Um já se ajoelhara, o paletó fino e escuro ainda abotoado, embora fizesse calor na igreja. Outro folheava ocioso, no banco, o hinário. O terceiro se encontrava sentado imóvel na frente da igreja. Harry sabia que o da frente era Thomas, e o policial novato, Pilomento, instalara-se no meio.


Um movimento ao lado de Gina o fez enrijecer-se. Dumbledore deslizou ao lado dela, deu-lhe um tapinha na mão e sorriu para Harry.


— Pensei em me juntar a você.


Tinha a voz meio ofegante. Tossiu baixinho na mão para limpar a garganta.


— É um prazer vê-lo, monsenhor — murmurou Gina.


— Obrigado, minha cara. Ando um tanto derrubado pelo tempo ultimamente e não sabia se iria conseguir vir. Esperava que você estivesse junto, pois tem um olho aguçado. — Percorreu a igreja semivazia com o olhar. A maioria idosos e jovens, pensou. Os de meia-idade raras vezes achavam que Deus precisava de uma hora de seu tempo. Após tirar uma pastilha para garganta do bolso, tornou a olhar para Harry. — Espero que não se incomode por me oferecer como voluntário. Se por acaso tiver sorte, talvez eu possa ajudar. Afinal, tenho o que se poderia chamar de vantagem da casa.


Pela primeira vez desde que Harry o conhecera, Dumbledore usava o colarinho clerical branco. Vendo-o, ele apenas assentiu.


O padre entrou, a congregação levantou-se. Começou o ofício.


Ritual da entrada. O celebrante de vestes verdes, estola, alva, o inofensivo amicto sob os mantos soltos, o menino sacristão magro e alto, de preto e branco, pronto para servir.


Deus tende piedade de nós.


Um bebê cinco bancos adiante começou a chorar com vontade. A congregação murmurava as respostas em uníssono.


Cristo, tende piedade de nós.


O ancião com a bengala avançava pelo rosário. As meninas riam e tentavam desesperadamente parar. O menino do carrinho de plástico foi silenciado pela mãe.


Um homem com um amicto de seda branca junto à pele sentiu o martelar na cabeça aliviar-se ao som do fluxo conhecido do celebrante e da congregação.


O Senhor esteja convosco.


E com vosso espírito.


Era o latim que ele ouvia, o latim da infância, do seu sacerdócio. Acalmava, e o mundo permanecia estável.


A liturgia. A congregação sentou-se devagar, com murmúrios e rangidos. Harry observava, sem ouvir de fato as palavras do padre. Ouvira-as tantas vezes antes. Uma das lembranças mais antigas era ele sentado num banco duro, as mãos entre os joelhos, o colarinho engomado da melhor camisa grudado no pescoço. Tinha cinco, talvez seis anos. Josh fora sacristão.


O homem de casaco fino escuro desabou recostado no banco, exausto. Alguém assoou o nariz com estrépito.


— Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, Nosso Senhor.


Ele sentiu o amicto frio na pele, no coração, ao murmurar a resposta:


— Graças sejam dadas a Deus, Nosso Senhor! Todos se ergueram para o Evangelho. Mateus 7:15-21:


— Guardai-vos dos falsos profetas.


Não fora isso que lhe dissera a Voz? A cabeça começou a ressoar com a força da mensagem quando ele se sentou muito imóvel. Excitação, frescor e pureza cantavam pelo seu corpo cansado. Sim, guardai-vos. Eles não entenderiam, não o deixariam concluir. Ela fingia entender. Dra. Weasley. Mas só queria pô-lo num lugar onde ele não poderia concluir sua tarefa.


Conhecia o tipo de lugar — paredes brancas, todas aquelas paredes e enfermeiras brancas com olhares entediados e cautelosos. Um lugar como aquele em que sua mãe passara os terríveis últimos dias.


— Cuide de Laura. Ela procria pecado no coração e ouve o demônio. — A mãe tinha a pele pastosa, as faces flácidas. Mas os olhos escuros e brilhantes. Brilhantes de loucura e conhecimento. — Vocês são gêmeos. Se a alma dela for condenada, também será a sua. Cuide de Laura.


Mas Laura já morrera.


Ouviu o final do Evangelho. Dirigia-se a ele:


— Senhor, Senhor, não entrará no Reino dos Céus apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que lá está?


Curvou a cabeça, aceitando.


— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Sentaram-se para o sermão.


Harry sentiu a mão de Gina deslizar pela sua, que entrelaçou os dedos, cônscio de que ela o sabia constrangido. Resignara-se a assistir mais uma vez à missa toda, porém era outra história com um padre sentado a trinta centímetros. Isso lhe suscitou uma clara lembrança das poucas vezes em que fora à igreja na infância e descobrira, encabulado, a irmã Mary Angelina sentada no banco em frente ao da família. As freiras não eram tão tolerantes quanto as mães, quando os meninos brincavam com os dedos e cantavam de boca fechada consigo mesmos durante a missa.


— Você ficou mais uma vez sonhando acordado durante a missa, Harry. — Ele lembrou o truque que a irmã Mary Angelina tinha de enfiar as mãos brancas nas mangas pretas do hábito, de modo que ficava igual a um boneco joão-teimoso, que balança, balança, mas não cai. — Devia tentar ser mais parecido com seu irmão Joshua.


— Harry?


— Huumm?


— Aquele homem ali. — A voz de Gina soou leve como uma pluma junto ao ouvido dele. — O de casaco preto.


— É, já vi antes.


— Está chorando.


A congregação levantou-se para o Credo. O homem de casaco preto continuou sentado, chorando em silêncio sobre o rosário. Antes de terminar a oração, levantou-se instável e saiu apressado da igreja.


— Fique aqui — ordenou Harry, e levantou-se do banco para segui-lo.


Quando ela fez menção de acompanhá-lo, Dumbledore apertou-lhe a mão.


— Relaxe, Gina. Ele conhece seu trabalho.


Harry não voltou durante as orações do Ofertório nem da lavagem das mãos. Gina continuou com as mãos cerradas no colo e a espinha tremendo. Harry conhecia seu trabalho, mas não o dela, concordou em silêncio. Se houvessem encontrado o homem, ela devia estar lá com ele, que necessitaria falar. Mas ficou onde estava, pela primeira vez com o reconhecimento pleno de que sentia medo.


Harry retornou, a expressão sombria ao curvar-se por trás do banco e tocar o ombro de Dumbledore.


— Poderia vir aqui fora um instante?


O monsenhor saiu sem fazer perguntas. Gina viu-se inspirando fundo e seguiu-os até o vestíbulo.


— O cara sentado ali na escada. A mulher dele morreu semana passada. Leucemia. Eu diria que tem sido um tempo muito difícil. Vou investigá-lo de qualquer modo, mas...


— Sim, entendo. — Dumbledore olhou em direção às portas fechadas da igreja. — Cuidarei dele. Me informe se alguma coisa mudar. — Sorriu para Gina e deu-lhe um tapinha afetuoso na mão. — Foi adorável ver você.


— Até logo, monsenhor.


Viram-no sair no cortante frio da manhã de novembro. Em silêncio, voltaram para a igreja. No altar, realizava-se a Consagração. Fascinada, Gina sentou-se para observar o ritual do pão e do vinho.


Pois este é o Meu corpo.


Cabeças curvaram-se, aceitando o símbolo e a dádiva. Ela achou-o lindo. O padre, as vestes tornando-o grande e largo no altar, ergueu a branca hóstia redonda. Depois consagrou o cintilante cálice de prata e ergueu-o em oferenda.


Em sacrifício, pensou Gina. Ele falara muito tempo em sacrifício. A cerimônia que ela achara linda, até um pouco pomposa, significaria sacrifício apenas para ele. Seu Deus era o do Antigo Testamento, justo, severo e sedento do sangue da submissão. O Deus do Dilúvio, de Sodoma e Gomorra. Ele não veria a linda cerimônia como uma ligação entre a congregação e o Deus de misericórdia e bondade, mas como um sacrifício para o Deus exigente.


Gina tomou a mão de Harry.


— Acho que ele se sentiria... completo aqui.


— Como?


Ela balançou a cabeça, sem saber como explicar. Do altar vieram as palavras solenes:


— ... como recebestes a oferta de Abel, o sacrifício de nosso pai Abraão e os dons de Melquisedeque, um sacrifício sagrado, uma vítima imaculada.


— Uma vítima imaculada — repetiu Gina. — O branco da pureza. — Olhou para Harry com sombrio horror. — Não salvando. Não salvando tanto quanto sacrificando. E, quando ele está aqui, distorce tudo isso para reforçar o que faz. Não se desintegra aqui, aqui, não. Nutre-se disso de maneira muito doentia.


Viu o padre consumir a hóstia e, após o sinal-da-cruz, beber o vinho. Símbolos, pensou. Mas até onde um homem os levara além dos símbolos da carne e do sangue?


O padre ergueu o pão eucarístico e falou em voz clara:


— Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo


Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo.


Membros da congregação começaram a retirar-se dos bancos e arrastar os pés pela nave para receber a comunhão.


— Acha que ele vai comungar? — murmurou Harry, vendo a fila movendo-se devagar.


— Não sei. — Ela de repente sentiu frio, frio e insegurança. — Acho que necessitaria. É renovador, não?


O corpo de Cristo.


— É, a idéia é essa.


O homem que virava as páginas do hinário levantou-se para ir ao altar. O outro que Harry vigiava continuava no banco, cabisbaixo, em oração ou num leve cochilo.


Ainda outro sentia no íntimo a necessidade e a saudade intensificarem-se com urgência. As mãos quase tremiam da intensidade. Queria a oferenda, a carne do Senhor a saciá-lo e lavar toda mancha de pecado.


Ficou ali sentado, enquanto vozes inundavam a igreja.


— Você nasceu em pecado — dissera-lhe a mãe. — Nasceu pecaminoso e indigno. É uma punição justa. Por toda a vida, cairá em pecado. Se morrer em pecado, sua alma estará condenada.


— Castigo — advertira o padre Moore. — Você precisa ser castigado pelo pecado antes que ele possa ser perdoado e absolvido. Castigo. Deus exige.


Sim, sim, ele entendia. Já começara o castigo. Levara quatro almas ao Senhor. Quatro almas perdidas, que buscavam pagar pela perda de Laura. A Voz exigira mais duas para o pagamento total.


— Eu não quero morrer. — Laura, em delírio, agarrara-lhe as mãos. — Não quero ir para o inferno. Faça alguma coisa. Ai, por favor, meu Deus, faça alguma coisa.


Ele sentiu vontade de tapar os ouvidos, ajoelhar-se no altar e receber a hóstia dentro de si. Mas não era digno. Até concluir a missão, não seria digno.


— O Senhor esteja convosco — disse o padre em alto e bom som.


Et cum spiritu tuo— ele murmurou.


 


Gina deixou a brisa refrescante do lado de fora brincar no seu rosto e reanimá-la após mais de três horas de ofícios religiosos. A frustração retornara enquanto via os desgarrados da última missa encaminharem-se aos carros; frustração e uma sensação vaga, incômoda, de que ele estivera perto o tempo todo. Enlaçou o braço no de Harry.


— E agora?


— Vou para a delegacia dar uns telefonemas. Lá vem Thomas. - O outro desceu a escada, acenou com a cabeça para ela e espirrou três vezes no lenço.


— Desculpem.


— Você está com uma aparência péssima — comentou Harry, e acendeu um cigarro.


— Obrigado. Pilomento está investigando a licença de uma placa de carro. Disse que um cara defronte a ele murmurou consigo mesmo durante a última missa. — Guardou o lenço e tremeu um pouco de frio no vento. — Não sabia que estava aqui, Dra. Weasley.


— Achei que talvez pudesse ajudar. — Ela viu os olhos avermelhados e solidarizou-se quando um ataque de tosse o aniquilou. — Parece sério. Já foi ao médico?


— Sem tempo.


— Metade do departamento caiu de gripe — explicou Harry. — Rony ameaçou usar uma máscara. — Pensando no parceiro, tornou a olhar a igreja. — Talvez eles tenham tido mais sorte.


— Talvez — concordou Thomas, respirando com dificuldade. — Vai para a delegacia?


— Vou, tenho de dar uns telefonemas. Faça-me um favor. Vá para casa e tome alguma coisa para isso. Sua mesa fica no mesmo sentido do vento que a minha.


— Preciso fazer um relatório.


— Foda-se o relatório — disse Harry, mudou de posição ao lembrar que estava a dois metros da igreja. — Mantenha os germes em casa por dois dias, Dino.


— É, talvez. Bata um fio se Rony descobrir alguma coisa.


— E procure um médico — acrescentou Gina.


Ele conseguiu esboçar um leve sorriso e foi embora.


— Parece que já começou a tomar os pulmões dele — ela murmurou, mas, quando se virou de novo para Harry, viu que ele tinha a mente em outras coisas. — Escute, sei que você está ansioso por dar telefonemas. Eu tomo um táxi pra casa.


— Como?


— Eu disse que tomo um táxi pra casa.


— Por quê? Está cansada de mim?


— Não. — Para prová-lo, ela roçou os lábios nos dele. — Sei que você tem trabalho que precisa fazer.


— Então venha comigo. — Ele não estava a fim de deixá-la ir embora ainda, nem de abrir mão de qualquer tempo particular, descomplicado, que restasse do fim de semana. —Assim que eu terminar, podemos voltar para o seu apartamento e...


Curvou-se e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha.


— Harry, não podemos fazer amor o tempo todo. - Com o braço em volta dela, ele se dirigiu ao carro.


— Claro que podemos. Eu mostrarei a você.


— Não, verdade. Por motivos biológicos. Confie em mim, sou médica.


Ele parou junto à porta do carro.


— Que motivos biológicos?


— Estou morrendo de fome.


— Ah. — Ele abriu a porta para ela, contornou e ocupou o assento do motorista. — Tudo bem, a gente faz uma parada rápida no mercado, no caminho. Você pode preparar o almoço.


— Eu?


— Eu preparei o café-da-manhã.


—Ah, preparou. — Ela recostou-se, achando atraente a idéia de uma aconchegante tarde de domingo. — Tudo bem, eu preparo o almoço. Espero que você goste de sanduíche de queijo.


Ele curvou-se para perto de Gina, de modo a roçar sua respiração nos lábios dela.


— Então mostrarei a você o que as pessoas devem fazer nas tardes de domingo.


Ela adejou as pálpebras e semifechou os olhos.


— E o que é?


— Tomar cerveja e ver futebol.


Harry beijou-a com força e ligou a ignição quando ela riu.


Ele viu-os juntinhos no carro. Vira-a na igreja. Sua igreja. Era um sinal, claro, o fato de ela ir rezar na sua igreja. A princípio, isso o perturbara um pouco, mas depois compreendeu que fora guiada para lá.


Seria a última. A última, antes dele mesmo.


Viu o carro afastar-se, captou um vislumbre dos cabelos dela pela janela lateral. Um pássaro pousou no galho da árvore desnuda ao lado e olhou-o com brilhantes olhos negros, os da mãe. Ele foi para casa descansar.






N/a: MAIS UM CAPÍTULO MEU POVO LINDO! :D
ESPERO QUE TENHAM GOSTADO!
EU ACHO SIMPLESMENTE ENCANTADOR ESSE JOGO DE GATO E RATO DO HARRY E DA GINA! kkkkkkkkkk
TÁ CHEGANDO O FIM DA FIC GENTE, INFELIZMENTE!

beeijos
 

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Comentários: 2

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Enviado por Weasley Potter em 05/08/2012

Aiiiiii nossa , está apavorante esse cara falando da Gina! Estou descofiada de uma pessoa, mas ao mesmo tempo não parece ele... Esperando o próximo anciosamente :D

Nota: 5

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Enviado por Sah Espósito em 05/08/2012

tensoooooooo demaisss
perfeito

quente

tudo de bommm


quero muito mais
nunca viciei tanto em fic de universo alternativo como essa

nossa adoro mesmo

parabéns!! 

Nota: 5

Páginas:[1]
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