A Galeria de Arte Greenbriar era um conjunto de duas salas pequenas e espalhafatosas perto do rio Potomac que permanecia em atividade porque as pessoas sempre compram o ridículo, se a etiqueta do preço for muito alta.
Ela era dirigida por um habilidoso homenzinho que alugara o prédio que caía aos pedaços por uma bagatela e promovera sua excêntrica reputação pintando o exterior de castanho-avermelhado. Gostava de paletós compridos, soltos, em matizes multicoloridos, com botas de cano curto para combinar, e fumava cigarros delicados. Tinha um rosto estranho, em forma de lua cheia, e olhos claros, que tendiam a adejar quando ele falava de liberdade e expressão artísticas. Investia os lucros em títulos municipais.
Magda P. Carlyse era uma artista plástica que se tornou badalada quando uma ex-primeira-dama comprou uma de suas esculturas como presente de casamento para a filha de uma amiga. Alguns críticos de arte haviam sugerido que a primeira-dama talvez não gostasse muito dos recém-casados, mas a carreira de Magda deslanchara.
Sua exposição na Galeria Greenbriar foi um sucesso enorme. As pessoas apinhavam-se na sala, vestidas de peles, brim, fibras sintéticas e sedas. Servia-se cappuccino em xícaras do tamanho de dedais, junto com quiches de cogumelo do tamanho de moedas de vinte e cinco centavos. Puseram um negro de mais de dois metros e dez de altura, envolto num manto púrpura e hipnotizado, perto de uma escultura de chapas metálicas e penas.
Gina deu uma longa olhada na peça, que a fez pensar no capô de um caminhão que passara por uma migração de gansos desafortunados.
— Combinação fascinante de materiais, não é?
Ela esfregou o dedo no lábio inferior e ergueu os olhos para o rapaz com quem saíra.
— Oh, com certeza.
— Um simbolismo muito forte.
— Assustador — concordou Gina, e ergueu a xícara para disfarçar uma risadinha. Ouvira falar da Greenbriar, claro, mas nunca encontrara tempo nem energia para explorar a pequena e badalada galeria. Nessa noite, agradecia a distração proporcionada pelo encontro. — Sabe, Shelby, foi maravilhoso mesmo você ter pensado nisso. Receio que ando negligenciando meu interesse pela arte, ah, popular.
— Seu avô me disse que você tem trabalhado demais.
— Ele é que se preocupa demais. — Ela afastou-se para examinar um tubo fálico de uns sessenta centímetros que se erguia em direção ao céu. — Porém, uma noite aqui nos tira sem dúvida a mente de tudo o mais.
— Tanta emoção, tanta perspicácia — disse um homem exultante, usando seda amarela, para uma mulher envolta em pele de zibelina. — Como pode ver, o uso da lâmpada quebrada simboliza a destruição das ideias numa sociedade impulsionada para um deserto de uniformidade.
Gina afastou-se quando o homem fez um gesto dramático com o cigarro e olhou para a escultura pela qual delirava.
Tinha uma lâmpada G.E. de setenta e cinco watts com um buraco recortado bem junto ao centro. Fora aparafusada numa base de pinheiro-branco do Canadá. Só isso, exceto pelo fato de a etiqueta azul indicar que havia sido vendida pelo preço de mil cento e setenta e cinco dólares.
— Impressionante — murmurou Gina, e foi presenteada com um radiante sorriso do Sr. Seda Amarela.
— Muito inovadora, não? — Shelby sorriu para a lâmpada como se ele próprio a houvesse criado. — E de pessimismo ousado.
— As palavras me escapam.
Decidindo-se contra o comentário óbvio, ela apenas sorriu e continuou em frente. Poderia escrever um ensaio, pensou, sobre as implicações — histeria de massa — que incitavam as pessoas a pagarem um preço alto por lixo esotérico. Parou perto de um cubo de vidro cheio de botões de vários tamanhos e cores: quadrados, redondos, esmaltados e forrados de pano, amontoavam-se e chocavam-se na caixa lacrada. A escultora batizara-a de População, 2010. Gina imaginou que uma menina poderia tê-la montado em três horas e meia.
Com um abano da cabeça, voltaria para Shelby, quando viu Harry. Parado diante de outra peça em exibição, ele tinha as mãos nos bolsos e uma expressão de indisfarçável diversão no rosto. Sob o paletó aberto, usava um suéter cinza simples e calça jeans. Uma mulher com o equivalente a cinco mil dólares em diamantes parou ao lado dele para examinar a mesma escultura. Gina viu-o resmungar alguma coisa em voz baixa, pouco antes de erguer os olhos e vê-la.
Encararam-se, enquanto as pessoas passavam entre eles. A mulher dos diamantes bloqueou o caminho por um instante, mas, quando seguiu adiante, nenhum dos dois saíra do lugar. Gina sentiu alguma coisa relaxar-se no íntimo, depois se contrair e mais uma vez incomodá-la, antes de forçar-se a sorrir-lhe e acenar com a cabeça, numa saudação casual, amistosa.
—...não concorda?
— Como? — Ela se voltou sobressaltada para Shelby. — Desculpe, minha mente vagava.
O jovem, que dava aulas a centenas de estudantes universitários por ano, habituara-se a ser ignorado.
— Eu perguntei se você não acha que essa escultura específica mostra o verdadeiro conflito e o ciclo eterno do relacionamento homem-mulher?
— Huum.
O que ela via era uma desarmonia de cobre e estanho que podia ou não ter sido soldada em cópula metálica.
— Eu estava pensando em comprar para o meu escritório.
— Oh. — Ele era um professor de inglês meigo e totalmente inofensivo, cujo tio bancava um ocasional jogo de pôquer com o avô dela. Gina sentiu-se obrigada a afastá-lo da escultura, como talvez uma mãe afastasse o filho, cuja mesada lhe coçava a mão, da prateleira de miniaturas de carros a preços exorbitantes. — Não acha que devia dar mais uma olhada por aí, examinar algumas das outras... como alguém as chamara?... peças, primeiro?
— As obras estão vendendo como pão quente. Não quero perder a oportunidade. — Ele olhou a sala compacta como uma lata de sardinha que começava a avançar devagar em direção ao dono da galeria. Era difícil não ver Greenbriar num terno azul cintilante com lenço de cabeça combinando. — Com licença, só um minuto.
— Olá, Gina.
Cautelosa, calma, ela ergueu os olhos para Harry. Ficou com os dedos úmidos em volta da minúscula asa da xícara. Disse a si mesma que era o calor do corpo no espaço abarrotado de gente.
— Olá, Harry, como vai?
— Esplêndido. — Ele sentia-se um lixo, sentira-se um lixo durante a semana inteira. Ali, no meio do que considerava ostentação e os pomposos, ela parecia tão indiferente e virginal quanto um vaso de violetas no meio de uma floresta de orquídeas. — Reunião interessante.
— Pelo menos.
Então ela deslizou o olhar para a mulher ao lado dele.
— Dra. Weasley, Cho Chang.
Uma amazona, de couro vermelho, botas de salto alto, Cho tinha uns dois centímetros a mais que ele e exibia uma juba de improváveis cabelos ruivos que explodiam em volta da cabeça em espigões, saca-rolhas e roscas. O exército de braceletes no braço tinia quando ela se mexia. No seio esquerdo, via-se uma tatuagem de rosa que brotava do profundo V da túnica.
— Olá.
Gina sorriu e ofereceu a mão.
— Oi. Então é médica?
Apesar da altura, a voz de Cho não passava de um guincho ofegante.
— Psiquiatra.
— Verdade?
— Verdade — concordou Gina, e Harry se viu às voltas com um pigarro.
Cho pegou uma das quiches minúsculas e engoliu-a como uma aspirina.
— Um primo meu foi internado no hospício uma vez. Ken Launderman. Talvez o conheça.
— Não, acho que não.
— É, imagino que receba um monte de pessoas com um parafuso frouxo.
— Mais ou menos — murmurou Gina, e olhou para Harry. Nenhum vestígio de encabulamento, notou. Ria como um idiota. Ela contraiu os lábios e ergueu a xícara. — Estou surpresa de ver você aqui.
Harry balançou-se para trás nos calcanhares dos tênis surrados.
— Apenas um impulso. Detive Greenbriar há uns sete anos. Um pequeno problema artístico com cheques. Quando ele me enviou o convite, pensei em aparecer e descobrir como vinha se saindo. — Deu uma rápida inspecionada e viu o anfitrião abraçar a mulher dos diamantes. — Parece ir de vento em popa.
Ela provou o cappuccino já quase frio e perguntou-se se Harry mantinha relações tão amistosas assim com todos que já prendera.
— Então, o que acha da exposição? - Ele olhou para a caixa dos botões.
— Tanta mediocridade flagrante, numa sociedade que tem noite de solteiros no supermercado, decerto será recompensada com incríveis ganhos financeiros.
Notou a luz brilhar nos olhos dela, desejando poder tocá-la. Apenas uma vez. Só um instante.
— É isso que torna os Estados Unidos um país maravilhoso.
— Você está ótima, doutora.
Ele sentia saudades. Era a primeira vez que julgava entender o verdadeiro significado da palavra.
— Obrigada.
Com a intensidade despreocupada que não sentira desde a adolescência, ela desejou estar mesmo ótima.
— Eu nunca participei de uma noite de solteiros no supermercado — acrescentou Cho, cheirando uma travessa cheia de quiches.
— Vai adorar. — O sorriso de Harry se desfez um pouco quando olhou por cima do ombro de Gina e viu o homem com quem ela estava antes. — Amigo seu?
Gina virou a cabeça e esperou Shelby abrir caminho pela multidão e juntar-se a eles. Harry observou o pescoço longo, fino e rodeado por pérolas, que lhe realçavam ainda mais a delicadeza da pele. Sentiu aquele perfume discreto, com um leve toque sensual, acima de tudo o mais.
— Shelby, gostaria que você conhecesse Harry Potter e Cho Chang. Harry é detetive da polícia local.
— Ah, um dos melhores da cidade.
Shelby deu-lhe um caloroso aperto de mãos.
O cara parecia de uma capa da revista Gentlemens Quarterly e cheirava como em um comercial de Brut. Harry sentiu uma compulsão irracional de apertar-lhe a mão à maneira da luta livre e torcê-la.
— É um dos colegas de Gina?
— Não, na verdade faço parte do corpo docente da Universidade Americana.
Professor universitário. Era de imaginar. Harry tornou a enfiar as mãos nos bolsos e afastou-se um pequeno e revelador passo de Gina.
— Bem, Cho e eu acabamos de entrar. Ainda não tivemos a chance de absorver as esculturas.
— É quase demais para se absorver numa única noite. — Shelby lançou um olhar de posse à deformação de cobre atrás de si. — Acabei de comprar essa peça. É meio audaciosa para meu escritório, mas não pude resistir.
— É mesmo? — Harry olhou-a com ar irônico. — Você deve estar emocionado. Vou dar uma volta por aí e ver se posso escolher alguma coisa para a minha toca. Foi um prazer conhecê-lo. — Passou o braço pela cintura firme de Cho. — Até mais, doutora.
— Boa-noite, Harry.
Faltava muito para as onze quando Gina entrou sozinha no apartamento. A dor de cabeça que usara como desculpa para interromper a noite fora apenas metade mentira. Em geral, gostava das saídas esporádicas com Shelby. Era um homem não exigente e descomplicado. Mas essa noite simplesmente não tivera condições de enfrentar um jantar tardio e uma conversa sobre a literatura do século XIX. Não depois da galeria de arte.
Não depois de ver Harry, obrigou-se a admitir, e descalçou os sapatos após dois passos porta adentro. Qualquer progresso que fizera para aliviar o seu ego e a tensão desde aquela última manhã em que o vira se desfizera, muito simplesmente, em pedacinhos.
Então começaria do zero. Uma xícara de chá quente. Despiu o casaco de pele e pendurou-o no armário do corredor. Passaria a noite com Kurt Vonnegut, camomila e Beethoven. A combinação livraria a mente de qualquer um dos problemas.
Que problemas?, perguntou, ali parada no silêncio do apartamento ao qual chegava uma noite após outra. Não tinha verdadeiros problemas, porque cuidava para que não os tivesse. Um belo apartamento num bairro bom, um carro confiável, uma vida social agradável e sempre informal.
Dava o passo A, e fazia questão de que a levasse ao B, até chegar ao platô que a satisfazia. Sentia-se satisfeita.
Retirou os brincos e largou-os na mesa de jantar. O ruído das pedras na madeira ecoou surda no espaço vazio. Os crisântemos que comprara no início da semana começavam a desfazer-se e as pétalas amareladas e desbotadas jaziam no mogno polido. O perfume intenso e aromático acompanhou-a até o quarto.
Não olharia os arquivos na mesa essa noite, disse a si mesma, abrindo o zíper do vestido de lã marfim. Se tinha algum problema, era por não se conceder tempo suficiente. Essa noite iria paparicar-se, esquecer os pacientes que iriam ao consultório na manhã seguinte, esquecer a clínica onde teria de enfrentar, duas tardes na semana seguinte, a raiva e o ressentimento por causa da suspensão das drogas. Esquecer o assassinato de quatro mulheres. E Harry.
No espelho de corpo inteiro dentro do armário, seu reflexo projetou-se de um salto. Era uma mulher de altura mediana, compleição magra, num vestido marfim caro e de corte conservador. A gargantilha de três fios de pérolas e uma gorda ametista sobressaíam na garganta. Duas travessas debruadas de pérolas prendiam-lhe os cabelos acima nas têmporas. O conjunto fora da mãe e assentava-lhe com tão discreta elegância quanto na filha do senador.
A mãe usara a gargantilha no casamento. Gina tinha retratos no álbum encadernado em couro que guardava na última gaveta da cômoda. Quando o senador dera as pérolas à neta, no aniversário de dezoito anos, os dois choraram. Toda vez que as usava, ela sentia ao mesmo tempo uma pontada de sofrimento e orgulho. Representavam um símbolo de quem era, de onde viera e, em alguns aspectos, do que dela se esperava.
Mas essa noite pareciam apertadas demais na garganta. Tirou-as e sentiu as pérolas frias na mão.
Mesmo sem elas, a imagem pouco mudou. Examinando-se, perguntou-se por que escolhera um traje tão simples, tão correto. O armário fervilhava deles. Virou-se de lado e tentou imaginar como ficaria em algo ousado ou chamativo. Como couro vermelho.
Logo se deu conta. Balançando a cabeça, despiu o vestido e pegou um cabide. Ali estava ela, uma mulher madura, prática, até sensível — psiquiatra experiente —, parada diante do espelho imaginando-se em couro vermelho. Lamentável. Que diria Draco Malfoy se o procurasse para fazer análise?
Satisfeita por conseguir rir de si mesma, estendeu a mão para pegar o roupão de chenile quentinho que batia no chão. No impulso, contornou-o e retirou um quimono de seda florida. Um presente raras vezes usado. Essa noite iria mimar-se, a seda roçando na pele, música clássica, e levaria vinho, não chá, consigo para a cama.
Pôs a gargantilha sobre a cômoda, puxou as travessas do cabelo e largou-as junto. Desfez a cama e afofou os travesseiros de antemão. Outro impulso fizera-a acender as velas perfumadas ao lado. Inalou o cheiro de baunilha e dirigiu-se à cozinha.
O telefone a deteve. Gina disparou-lhe um olhar acusador, mas foi à mesa e o atendeu na terceira chamada:
— Alô.
— Você não estava em casa. Esperei um longo tempo, mas você não chegou.
Ela reconheceu a voz. Ele telefonara antes, no consultório, na quinta-feira. A idéia de uma noite prazerosa em casa escapuliu quando ela pegou um lápis.
— Você queria falar comigo. Não terminamos a conversa antes, terminamos?
— É errado eu falar. — Gina ouviu-o sorver uma dolorosa inspiração. — Mas preciso...
— Nunca é errado falar — ela disse, num tom reconfortante. — Posso tentar ajudá-lo.
— Você não estava lá. Naquela noite não voltou, não voltou para casa. Eu esperei. Vigiei.
Gina ergueu a cabeça, sobressaltada de um modo que a fez congelar o olhar na janela escura além da mesa de trabalho. Vigiara-a. Embora estremecesse, aproximou-se mais, decidida, e olhou a rua vazia.
— Você me vigiou?
— Eu não devia ir aí. Não devia. — O homem baixou a voz, como se falasse consigo mesmo. Ou com outra pessoa. — Mas preciso. Você deve entender — deixou escapar num tom rápido e acusador.
— Vou tentar entender. Gostaria de ir ao meu consultório e conversar comigo?
— Lá, não. Eles saberiam. Não é hora de saberem. Ainda não terminei.
— Que foi que você não terminou? — Seguiu-se apenas silêncio, enquanto ele inspirava e tornava a expirar com dificuldade. — Eu poderia ajudá-lo mais se você se encontrasse comigo.
— Não posso, você não entende? Até falar com você é... Ai, meu Deus.
Começou a murmurar. Gina não entendia. Aguçou o ouvido. Talvez latim, pensou, e pôs um ponto de interrogação no bloco, com um círculo em volta.
— Você está sofrendo. Gostaria de ajudá-lo a lidar com a dor.
— Laura sentia dor, uma dor terrível. Sangrava. Eu não pude ajudá-la. Ela morreu em pecado, antes da absolvição.
O lápis vacilou em sua mão. Gina julgou necessário sentar-se na cadeira para acalmar-se. Quando se viu fitando às cegas a janela, forçou-se a olhar mais uma vez o bloco e as anotações. A formação profissional reinstalou-se e ela se disciplinou para respirar fundo e manter a voz calma.
— Bela, bela Laura. Cheguei tarde demais para salvá-la. Eu não tinha o direito então. Agora me deram o poder e a obrigação. A vontade de Deus é dura, muito dura. — Ele quase suspirou, quando a voz se tornou forte: — Mas justa. Os cordeiros são imolados e seu sangue puro, derramado sobre o altar em expiação dos pecados. Deus exige sacrifícios. Exige, sim.
Ela umedeceu os lábios.
— Que tipo de sacrifícios?
— Uma vida. Ele nos dá e tira a vida. "Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho, quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia." Só eu — repetiu na mesma voz terrível e sem expressão que usara na citação. — Mas, após os sacrifícios, após os juízos, Deus recompensa aqueles que permanecem inocentes.
Como se fosse dar-lhes notas, Gina concentrou-se em fazer as anotações claras e uniformes. O coração martelava-lhe na garganta.
— Deus manda você sacrificar as mulheres?
— Salvar e absolver. Tenho o poder agora. Perdi a fé depois de Laura, dei as costas a Deus. Foi um tempo terrível de egoísmo e ignorância. Mas depois Ele me mostrou que, se eu fosse forte, se as sacrificasse, todos seríamos salvos. Minha alma está ligada à dela — ele disse em voz baixa. — Estamos presos um ao outro. Você não voltou para casa naquela noite. —A mente do homem oscilava para a frente e para trás. Gina ouvia isso tanto nas mudanças de voz quanto no conteúdo das palavras. — Eu esperei, queria falar com você, explicar, mas você passou a noite em pecado.
— Fale-me daquela noite. A noite em que você me esperou.
— Esperei, vigiei a luz na sua janela. Você não apareceu. Saí andando. Não sei por quanto tempo, nem onde. Achei que você vinha em minha direção, ou Laura. Não, achei que era você, mas não era. Então eu... eu soube que dava no mesmo... e a coloquei no beco, longe do vento. Tão frio. Fazia tanto frio. Coloquei-a fora do campo de visão de todos antes que viessem e me levassem. Eles são ignorantes e desacatam os costumes do Senhor. —A respiração dele agora vinha em arfadas irregulares. — Dor. Náusea. Minha cabeça. Esta dor tão grande.
— Posso ajudar na dor. Diga-me onde está, que eu irei.
— Você pode? — Uma criança assustada a quem se oferece uma luz numa noite de tempestade. — Não! — A voz saiu retumbante, de repente poderosa. — Acha que pode me tentar e levar a questionar a vontade de Deus? Eu sou o instrumento Dele. A alma de Laura aguarda os sacrifícios restantes. Só mais dois. Então todos seremos livres, Dra. Weasley. Não é a morte que se deve temer, mas a danação. Tomarei conta de você — ele prometeu, quase humilde. — Rezarei por você.
Gina não se mexeu quando ele desligou o telefone, mas sentou absolutamente imóvel. Lá fora, as estrelas eram claras, próximas e brilhantes. Os carros fluíam pela rua num ritmo tranqüilo. As luzes dos postes empoçavam-se na calçada. Ela não viu ninguém, mas se perguntou, ao sentar-se perto da janela, se a viam.
O suor brotara-lhe na testa, frio e pegajoso. Ela pegou um lenço de papel no canto da mesa e secou-o com todo cuidado.
O assassino vinha avisando-a. Gina não sabia nem se ele tinha plena consciência disso, mas telefonava-lhe tanto para avisá-la quanto para pedir ajuda. Seria a próxima. Levou os dedos trêmulos ao lugar onde tinha antes a gargantilha de pérolas. Não conseguiu engolir.
Devagar, e com infinito cuidado, puxou a cadeira para trás, levantou-se e saiu do campo de visão da janela. Pusera a mão na cortina para puxá-la, quando a batida à porta a fez bater com as costas na parede, num pânico animal que jamais sentira antes. O terror inundou-a enquanto procurava ao redor um meio de defesa, um lugar para esconder-se e um jeito de fugir. Reprimiu-o ao estender a mão ao telefone — 911. Só precisava discar, dar o nome e endereço.
Mas, quando retornou a batida, ela olhou para a porta e viu que esquecera de passar a corrente.
Chegou ao outro lado da sala em segundos, apoiando seu peso na porta e atrapalhando-se com a corrente, que de repente pareceu grande e desajeitada demais para encaixar-se na fenda. Meio soluçando, encaixou-a afinal.
— Gina? — De novo a batida, dessa vez mais alta e exigente. — Gina, que está acontecendo?
— Harry, Harry, oh, meu Deus!
Continuava com os dedos atrapalhados quando se esticou para soltar a corrente. Deslizou a mão pela maçaneta uma vez, depois abriu com força a porta e lançou-se para cima dele.
— Que é isso? — Harry sentiu os dedos dela se enterrarem em seus bolsos quando tentou empurrá-la para trás. — Está sozinha? — O instinto o fez estender a mão para pegar a arma, fechá-la sobre ela e olhar em volta à procura de alguém, qualquer um, que pudesse ter tentado machucá-la. — Que foi que houve?
— Feche a porta. Por favor.
Mantendo um dos braços nos ombros de Gina, ele passou e encaixou a corrente.
— Fechada. É melhor se sentar, está tremendo. Me deixe pegar uma bebida pra você.
— Não. Apenas me abrace um instante. Achei, quando você bateu, achei...
— Vamos, você precisa de um pouco de conhaque. Está fria como gelo.
Tentando acalmá-la, acariciá-la, ele conduziu-a ao sofá.
— Ele me telefonou.
Harry apertou os dedos no braço dela e virou-a de frente. Viu as faces pálidas, os olhos enormes. Gina continuava com a mão direita agarrada no casaco dele. E ele não precisou perguntar quem.
— Quando?
— Um minuto atrás. Telefonou para o consultório antes, mas não percebi que era ele. Daquela vez, não. Tem ficado lá fora. Eu o vi uma noite, na esquina, apenas ali parado. Achei que estava sendo paranóica. Um bom psiquiatra conhece os sintomas. — Ela riu e depois cobriu a boca com as mãos. — Oh, meu Deus, preciso parar com isso.
— Sente-se, Gina. — Harry relaxou os dedos no braço dela e manteve a voz calma; o mesmo tom que usava para interrogar uma testemunha abalada. — Tem algum conhaque?
— Como? Ah, está no bufê ali, a porta à direita.
Quando ela se sentou, ele foi até o bufê, o que sua mãe chamaria de aparador, e encontrou uma garrafa de Rémy Martin. Serviu uma dose dupla numa taça de conhaque e levou para ela.
— Beba um pouco disso antes de começar de novo.
— Tudo bem. — Ela já se recompunha, mas bebeu para ajudar a acalmar as coisas. O conhaque disparou no organismo e entorpeceu o medo restante. O medo não tinha lugar em sua vida, lembrou. Apenas idéias claras e análise cuidadosa. Quando tornou a falar, foi com a voz nivelada, sem o gorgolejo de histeria. Permitiu-se apenas um instante para sentir-se envergonhada.
— Na noite de quinta-feira, tive um compromisso tarde no consultório. Quando terminou e eu estava arrumando as coisas para encerrar o expediente, recebi um telefonema. Ele parecia muito perturbado e, embora eu não achasse que era um paciente atual, tentei atraí-lo um pouco. Não cheguei a lugar algum, ele apenas desligou. - O conhaque ondulou delicadamente quando ela girou a taça nas mãos. — Esperei alguns minutos, mas, como ele não voltou a ligar, arquivei as pastas e fui embora. Tornou a ligar esta noite.
— Tem certeza de que era o mesmo homem?
— Sim, tenho. O mesmo que ligou antes. O mesmo homem que vocês têm procurado desde agosto. — Gina tomou mais um gole de conhaque e largou a taça. — Ele está se desintegrando rápido.
— Que foi que ele disse, Gina? Conte tudo que lembra.
— Eu anotei.
— Você... — Harry se calou e fez um movimento brusco com a cabeça. — Claro que sim. Vamos dar uma olhada.
Ela levantou-se, mais uma vez firme, e foi até a mesa. Trouxe o bloco amarelo e entregou-o. Ali estava uma coisa positiva, construtiva. Desde que conseguisse considerá-la um caso, ela não tornaria a desmoronar.
— Talvez tenha omitido algumas palavras, porque ele falava muito depressa, mas peguei quase tudo.
— É estenografia.
— É. Ah, eu leio pra você. — Ela começou no início, com o cuidado de manter a voz neutra. As palavras serviam para dar ao psiquiatra uma pista sobre a mente. Gina lembrou isso e repeliu o horror de saber que aquelas lhe haviam sido dirigidas. Após a citação bíblica, parou. — Parece do Antigo Testamento. Imagino que o monsenhor Dumbledore saberá identificar.
—Jó.
— Como?
— É uma passagem de Jó. — Ele fixou o olhar na outra parede da sala e acendeu um cigarro. Lera duas vezes a Bíblia inteira, quando Josh adoecera. À procura de respostas, lembrou, a perguntas que jamais chegara sequer a formar. — Sabe, o cara que teve tudo que quis.
— E então Deus o testou?
— Sim. — O detetive pensou mais uma vez em Jó e balançou a cabeça. Josh tinha tudo que queria, antes do Vietnã. — Feliz demais, Jó? Que tal uma lepra?
— Entendo. — Embora fosse dolorosamente óbvio que ela não conhecia a Bíblia assim tão bem quanto ele, compreendeu a relação.
— É, faz sentido. Ele tinha a vida estabelecida, era feliz; com toda a probabilidade, um bom católico.
— Nunca teve a fé testada — murmurou Harry.
— É, então foi de alguma forma testada, e ele fracassou.
— A "alguma forma" teria a ver com essa Laura. — Harry olhou mais uma vez o bloco amarelo, frustrado por não saber ler sozinho.
— Vamos ver o resto.
Ouvindo-a ler, esforçava-se para pensar como policial, e não como um homem às voltas com uma paixão tola e algo mais profundo. Um assassino vinha vigiando-a. Sentiu o estômago contrair-se num labirinto de minúsculos nós. Estava à espera dela na noite em que Padma Patil fora assassinada, a noite que Gina passara na cama dele. O policial reconheceu o aviso tão rápido quanto a médica.
— Ele se concentrou em você.
— É, esse parece ser o ponto. — Sentindo um frio brusco, ela enfiou as pernas debaixo do corpo e afastou o bloco. Um caso. Gina viu que era vital pensar e analisar aquilo como um caso. — Foi atraído pra mim porque sou psiquiatra e parte dele sabe o quanto é desesperadora sua necessidade de ajuda. E também porque me encaixo na descrição física de Laura.
Fora a voz, lembrou, o mais assustador. A forma como oscilava de lamentável a poderosa, na loucura tranqüila e determinada. Ela comprimiu uma mão na outra.
— Harry, eu quero que entenda que é como falar com duas pessoas. Uma delas, chorosa, desesperada, quase suplicante. A outra... a outra, altiva, fanática e decidida.
— É apenas uma pessoa que estrangula mulheres. — Ele levantou-se e encaminhou-se ao telefone. — Vou ligar para a delegacia. Vamos precisar pôr uma escuta no seu telefone, aqui e no consultório.
— No consultório? Harry, muitas vezes eu falo com pacientes pelo telefone. Não posso pôr em risco o direito deles ao sigilo.
— Não me crie problemas, Gina.
— Você precisa entender...
— Não! — Ele girou e encarou-a. — Tem um maníaco lá fora matando mulheres. Os telefones serão grampeados, com sua permissão ou com uma ordem judicial. Outras quatro mulheres não tiveram a chance. Capitão? Aqui é Potter. Temos uma brecha.
Levou menos de uma hora. Dois policiais de terno e gravata entraram, fizeram o que pareciam alguns pequenos ajustes no telefone e recusaram com toda educação o café oferecido. Um deles ergueu o receptor, apertou uns números e testou a escuta. Pegaram a chave sobressalente do consultório de Gina e tornaram a sair.
— Só isso? — ela perguntou quando ficou de novo a sós com Harry.
— Vivemos os dias do circuito integrado. Vou tomar um pouco daquele café.
— Ah, claro. — Com uma última olhada no telefone, ela foi à cozinha. — Isso me faz me sentir exposta, saber que, sempre que o telefone toca, alguém com fones escuta tudo o que digo.
— A idéia é fazer você se sentir protegida.
Quando ela voltou com o café, encontrou-o parado junto à janela, olhando a rua. Viu-o fechar decidido a cortina ao ouvi-la atrás.
— Não sei se ele vai ligar de novo. Fiquei assustada, tenho certeza de que percebeu; droga, eu não soube conduzir muito bem a situação.
— Acho que você perdeu a postura de superpsiquiatra. — Harry tomou o café e a mão dela. — Não quer um pouco?
— Não, já estou ligada demais.
— Está cansada. — Ele esfregou o polegar nos nós dos dedos dela. Gina parecia tão frágil de repente, tão pálida e linda. — Escute, por que não descansa um pouco? Eu me ajeito no sofá.
— Proteção policial?
— Apenas parte de nossa campanha pra melhorar as relações comunitárias.
— Alegra-me que esteja aqui.
—A mim também. — Ele soltou-lhe a mão e correu a ponta do dedo pelo cinto de seu quimono de seda. — Bonito.
— Senti saudade de estar com você.
Harry interrompeu o movimento do dedo. Tornou a olhá-la e lembrou que mais cedo à noite ela usava brincos e uma pedra na garganta da cor dos seus olhos. E quisera tanto tocá-la que doera até nos ossos. Agora, como antes, recuou.
— Tem um cobertor de sobra?
Gina conhecia a retirada quando a atingia em cheio. Como ele, recuou um passo.
— Tenho, vou pegar.
Quando ela se foi, ele se amaldiçoou e esforçou-se para entender as próprias contradições. Ele a queria. Não queria envolver-se com ninguém igual a ela. Fora receptiva. Ele recuara. Serena e linda, Gina lembrava as iguarias rosa e brancas atrás das vitrinas das confeitarias. Ele já tivera um gostinho e sabia que certas iguarias às vezes criam hábitos. Mesmo que tivesse espaço na vida para Gina, o que não era verdade, ela nunca se adaptaria. Mas lembrou mais uma vez como a vira apoiar-se no parapeito da janela, rindo.
Gina retornou com um travesseiro e um cobertor e começou a arrumar o sofá.
— Você não age como se quisesse um pedido de desculpas.
— Pelo quê?
— Pela última semana.
Embora tivesse se decidido a não mencionar isso, Gina já se perguntara se ele o traria à tona.
— Por que eu iria querer um pedido de desculpas?
Ele viu-a enfiar com capricho as pontas do cobertor embaixo das almofadas.
— Temos uma briga muito justa em andamento. A maioria das mulheres que eu... a maioria das mulheres que conheço iria querer ouvir o velho "lamento, fui um idiota".
— E foi?
— Fui o quê?
— Um idiota.
Ele teve de admitir que ela o manobrava de uma forma magnífica.
— Não.
— Então seria tolice dizer que foi só pra manter a tradição. Pronto, isso deve servir — ela acrescentou, dando uma afofada final no travesseiro.
— Tudo bem, droga, me sinto um idiota pelo modo como agi na última vez.
— Foi um idiota. — Gina virou-se do sofá e sorriu-lhe. — Mas tudo bem.
— O que acabei de dizer foi dito com muita sinceridade.
— Sei que falou. Eu também.
Lados opostos, pensou Harry. Lados opostos.
— Então aonde isso nos leva?
Se ela soubesse, não tinha certeza se teria dito. Em vez disso, manteve a voz alegre:
— Que tal deixar a coisa morrer por aí? Eu me alegro que esteja aqui, com toda essa...
Ela desviou o olhar para o telefone.
— Não fique remoendo isso agora. Deixe-me tirá-lo daqui.
— Você tem razão. — Ela juntou as mãos e logo as separou. — Se a gente pensa numa coisa dessas por muito tempo, acaba...
— Enlouquecendo? — ele sugeriu.
— Pra usar um termo vago, incorreto. — Gina afastou-se e pôs-se a arrumar a mesa de trabalho para manter as mãos ocupadas. — Fiquei surpresa ao ver você esta noite na galeria. Sei que é uma cidade pequena, mas... — Então caiu em si; a confusão e o
pânico haviam obscurecido a dúvida antes. — O que está fazendo aqui esta noite? Achei que tinha um encontro.
— Tinha. Eu disse a ela que surgiu uma emergência. Não estava muito longe. E o seu?
— Meu o quê?
— Encontro.
— Oh, Shelby. Eu, ah, disse a ele que estava com dor de cabeça. Quase cheguei a ficar. Mas você não me disse por que apareceu.
Ele se esquivou encolhendo os ombros e ergueu um peso de papel, uma pirâmide de cristal que refletia cores diversas quando era girada.
— Parecia um verdadeiro cidadão honrado e respeitável. Professor universitário, não?
— É. —Alguma coisa começou a acomodar-se dentro dela, que foi identificada como prazer: — Sua Cho. O nome era Cho, não?
— Isso mesmo.
— Encantadora. Adorei a tatuagem.
— Qual delas?
Gina apenas ergueu uma sobrancelha.
— Você gostou da exposição?
— Gosto de baboseiras pretensiosas. Parece que seu professor também. Bonito terno. E aquele pequeno e elegante alfinete de gravata com a correntinha de ouro, muito distinto. — Ele largou o peso de papel com força suficiente para fazer os lápis num pote saltarem. — Tive vontade de enfiar o nariz dele na testa.
Ela deu-lhe um radiante sorriso.
— Obrigada.
— Não há de quê. — Após um gole de café, ele largou a xícara na mesa. Iria deixar um círculo molhado, mas ela nada disse. — Não tenho conseguido pensar em nada além de você durante dias. Tem um nome para isso?
Gina recebeu o olhar irado com um sorriso.
— Gosto de obsessão. Soa bonito.
Ela se aproximou. Não havia mais a menor necessidade de sangue-frio, nem de fingimentos. Quando ele ergueu as mãos e tomou-lhe os ombros, ela continuou a sorrir.
— Imagino que você ache tudo isso muito engraçado.
— Acho que sim. E imagino que posso correr um risco calculado e dizer a você que senti sua falta. Senti muito a sua falta. Gostaria que eu dissesse por que está zangado?
— Não.
Harry puxou-a para junto de si e sentiu os lábios curvos e macios, que logo se renderam aos dele. A seda do quimono farfalhou quando a abraçou. Se pudesse afastar-se, ele o teria feito, sem uma olhada para trás. Mas soubera assim que se vira na porta que já era tarde demais.
— Não quero dormir nesse maldito sofá. E não vou deixar você sozinha.
Ela se esforçou para abrir os olhos e, pela primeira vez que se lembrava, se sentiu desejosa de ser arrebatada.
— Dividirei a cama com você sob uma condição.
— Qual?
— Que faça amor comigo.
Ele abraçou-a, para sentir o perfume de seus cabelos e a forma como lhe roçavam a pele.
— Gostei do seu argumento, doutora.
N/a: Desculpas, mil desculpas.
Sei que demorei pra postar esse capítulo, mas aí está ele!
Eu simplesmente adooooro ele! :D
beeijos e até o próximo capítulo!